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FICÇÃO CIENTÍFICA  -  FANTASIA  -  TERROR.


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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A Vingança de Martin 7/9 - Capítulo VI

Capítulo VI - Tempo Presente

Fazia mais de um ano que eu participava de ações pela causa quando Martin veio falar comigo sobre uma missão que faríamos juntos. Eu o via tão pouco, ele quase sempre em ações fora da cidade, que não o deixei falar enquanto ele não me levou para um quarto e fizemos amor. Nossos corpos saciados, ele me contou quem iríamos matar.

O senador Adam. O nome me soava tão familiar, mas eu não conseguia identificar onde poderia ter ouvido, até que ele me revelou quem era. O assassino, o homem que massacrou a aldeia em que nasci. Naquela noite mesmo partimos para a missão, tudo estava planejado e preparado há semanas, pelo que Martin me contou, mas ele queria que eu participasse.

Estranhamente, enquanto olhava o homem agonizar, não havia uma sensação de felicidade me possuindo. Pelo contrário. Enquanto Martin falava com o senador, ajoelhado a seu lado, eu ficava mais e mais angustiada olhando-o lutar para tentar respirar.

- Martin, por que ele não para de olhar para mim?

- Ele está tentando imaginar se sua suspeita pode ser verdadeira. Foi a voz, não foi, senador? O rosto mudou muito, mas a voz é como você lembrava, não?

- Do que você está falando, Martin?

- Venha aqui, Tarith. - Eu estava até então em pé, a faca envenenada por nanos ainda em minha mão - venha aqui, sente-se ao meu lado e me beije.

Era uma ordem, e eu obedeci.

- O veneno é de ação lenta por uma razão. Nada poderia salvá-lo agora, sua morte é certa, mas eu fazia questão que ele vivesse o suficiente para saber quem o matou.

- Você queria que ele soubesse que morreu por ter massacrado minha família.

Martin riu. Então acariciou meu rosto com sua mão, e eu soube que nunca poderia sentir algo tão forte quanto o amor que sentia por ele. Ele se virou para continuar falando com o senador. O veneno provavelmente terminaria de matá-lo em mais alguns minutos.

- Já tem certeza, senador, ou ainda está com alguma dúvida? O que acha de sua doce filha, agora? Ela continua sendo tão maravilhosa, tão humana, que não há mais espaço para mim em sua família?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A Vingança de Martin 6/9 - Capítulo V

Capítulo V - 1 Ano Atrás

Algumas vezes eu percebia que falavam de mim, que mudavam de assunto quando eu chegava perto, principalmente aqueles que eram mais próximos de Martin, mas eu não me importava. Talvez não aprovassem nosso envolvimento, talvez achassem que eu era muito criança, ou que ele era velho demais para mim. Talvez mesmo tivessem medo que os humanos tentassem me usar para atingi-lo.

Nada disso importava. Eu estava feliz, mais feliz do que jamais estive em minha vida. Eramos amantes, nos completávamos, e isto era tudo que importava para mim. Eu morreria por ele, sem hesitar, feliz por cada dia que ficamos juntos.

Eu me entreguei a ele naquele mesmo dia em que o vi pela primeira vez discursando para seus seguidores. Ele tinha receio, disse que eu era jovem demais para ele, mas eu tinha certeza do que estava fazendo. Ele era minha vida, minha razão de existir.

Mas eu precisava ser útil, mostrar para ele que não era apenas uma jovem apaixonada, mas também sua mais fervorosa seguidora na luta contra os humanos. Foi por isto que não deixei Nary em paz até que ela concordasse que eu a acompanhasse em uma ação.

- Não entendo o que estamos fazendo aqui? - Eu olhava desconfiada para tudo ao meu redor, em especial para a Gen que nos conduzia por dentro de um labirinto de corredores. Minha memória de antes de me livrar das nanodrogas era bastante falha, mas acho que eu nunca havia estado em um lugar como este. Se estive, então fico feliz por ter estas memórias apagadas. Era uma casa de prostituição.

- Eles atendem humanos ricos - Nary me disse, quando paramos atrás da porta para a qual a Gen nos conduziu - humanos que desejam ter uma relação as escondidas com uma mulher Gen.

- E é um destes que está atrás desta porta?

- Não, é algo muito pior - Nary então se virou para a Gen - Você fez um grande favor para a causa e para Martin. Na entrada do prédio há dois Gen vestidos com mantos pretos. Eles vão levá-la para um lugar seguro, você terá que ficar sumida por um tempo. - com um gesto ela mandou a Gen embora.

- Pior em que sentido?

Ela não me respondeu, apenas sacou uma arma e abriu a porta.

O humano estava em uma cama, no centro do quarto, abraçado em uma Gen, uma jovem não mais velha que eu. Ele se levantou assim que entramos, e quando viu a arma, ergueu os braços.

- Por favor, não atire, não é o que estão pensando. Eu sou Gen, sou Gen. - Ele parou de falar no instante seguinte, e caiu no chão, morto. A arma de Nary era silenciosa. A jovem na cama começou a gritar histérica.

- O que ele quis dizer? - eu perguntei - Por que ele disse que era Gen?

- Ele era. Um milionário Gen, que fez fortuna traindo sua raça. Alguns traidores fazem terapias gênicas para se tornar humanos. - Ela então virou a arma para o rosto da jovem que ainda gritava, e que no instante seguinte caiu na cama em silêncio. Os ferimentos da arma de Nary eram praticamente invisíveis, mas a morte era imediata.

- Por que você atirou nela também? Nós viemos apenas atrás dele.

- Ela dormiu com um humano.

- Mas você disse que ele era Gen

- Ela não sabia disto.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A Vingança de Martin 5/9 - Capítulo IV

Capítulo IV - Tempo Presente

- Surpreso em nos ver, Senador Adam? Todos mudamos muito desde a última vez que nos encontramos pessoalmente, não é verdade - o assassino estava agora imóvel no chão, enquanto uma batalha era travada entre seu sistema de sustentação de vida e os nanos invasores. Martin se agachou a seu lado, enquanto falava.

- Não pode falar, não é? Se pudesse, o que você diria? Pediria desculpas pelo que seu povo fez ao meu? Como se desculpas pudessem desfazer o passado, apagar décadas de sofrimento e exploração? - O assassino mal olhava para ele, os olhos fixos em mim. Fazia 5 anos desde que minha aldeia foi massacrada, será que ele se lembrava de meu rosto, depois de tanto tempo. Ou ele apenas não queria encarar Martin, enquanto vivia seus últimos minutos.

- Ou então - Martin continuou - se pudesse, você pediria desculpas pelo que fez a mim? Faria isto senador? Pediria desculpas por me fazer acreditar que eu era igual a vocês, que eu era como seu próprio filho? Pediria desculpas por ter me abandonado?

Eu olhei, confusa, para Martin. Sequer sabia que ele conhecia pessoalmente o assassino. Eu tinha um motivo pessoal para estar aqui, mas para Martin era apenas outro alvo legítimo, outro dos incontáveis humanos que persistiam em tentar nos submeter a seu domínio. Ou não?

- Não estou entendendo, Martin. Você o conhece?

- Ah, sim, nós nos conhecemos muito bem, não, senador? - Martin olhou para mim - eu era um órfão, meus pais mortos em um desastre no campo de extração de Kheel. O senador estava lá, na época ele era um auditor, supostamente enviado para investigar os motivos do acidente e punir os culpados. Mas ninguém foi punido, não é, senador? Nenhum humano jamais é punido, certo?

- E o que aconteceu?

- Eles me adotaram. - ele olhou novamente para o assassino agonizante - Eu era como seu filho, senador? Era o que eu acreditava. Que eu tinha o mesmo valor de um ser humano, que para você e sua esposa, eu pertencia a família. Não teria sido menos cruel me deixar no campo de Kheel? Não seria isto melhor que acreditar que eu tinha algum valor, apenas para me abandonar quando cansaram de mim?

Sem receber resposta de ninguém, o assassino incapaz, eu sem saber o que dizer, Martin continuou sozinho a falar - Aposto que você pensou que nunca me veria novamente? Que eu poderia ser apagado de sua consciência, um animal de estimação que vocês abandonaram quando resolveram ter um filho de verdade?

O assassino agonizava, imóvel, enquanto Martin revelava um lado seu que eu jamais conhecera.

E o assassino continuava olhando apenas para mim.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A Vingança de Martin 4/9 - Capítulo III

Capítulo III - 2 Anos Atrás

- Nós aprendemos a vê-los como fortes, como superiores. - no centro do auditório, um holograma de um homem. A voz de Martin cativante, dominadora. - Olhem para o ser humano. Conheçam o inimigo, estudem-no. Quanto mais o conhecerem, mais vão descobrir que sua pretensa superioridade é uma fraude. Nós somos mais fortes, mais inteligentes, mais obstinados.

Todos o ouvem extasiados. Como poderia ser diferente? A voz de Martin era indescritivel, seu carisma contagiante. Ele era um líder nato, e eu o amava desde a primeira vez que o vi. Só me faltava a coragem de revelar para ele.

- Ele é incrível, não. - Eu disse para Nary, que estava ao meu lado. Ela sempre me acompanhava, desde que saí do hospital. Eu ainda tinha tonturas, momentos em que não sabia quem era, onde estava, mas eram cada vez mais raros. "Os nanos já sairam completamente de seu organismo", os médicos disseram, "mas levará um tempo até sua estrutura neural estabilizar".

- Claro - Nary respondeu sem demonstrar grande emoção. Ela parecia não se deixar nunca contagiar pela emoção - Incrível.

Martin, por sua vez, falava com uma voz cada vez mais emocionada.

- Quando atacado em diversas frentes, o ser humano foge. Lembrem-se, enquanto nossos antepassados eram leões, tigres, os antepassados dos humanos eram macacos. Nós nascemos para ser predadores, eles para ser presas. Sermos escravos e eles feitores é uma inversão da ordem natural das coisas.

As palavras de Martin eram um choque para muitos, e este era o objetivo. Tirá-los de sua letargia, mostrar que podíamos lutar, que podíamos ser livres.

- O dia de nossa vitória está cada vez mais perto. Mais e mais humanos deixam nosso mundo. Cada ação de guerrilha, cada ato de resistência aumenta o custo de manterem sua força de ocupação.

- Mas existe um risco - Martin continuou, a platéia atenta a cada palavra - os colaboradores, os traidores entre nós. Aqueles que acreditam nas mentiras do ser humano, que acreditam que querem a paz, que querem se redimir pelos anos de escravidão. Eles esquecem quantas vezes já nos deixamos enganar.

Ao final da reunião, inúmeros anciões vem prestar homenagem a Martin. Ele é o lider escolhido, o nosso salvador, e eles reconhecem isto. Somente depois que todos vão embora, ele vem na minha direção.

- E como está minha pequena Tarith? - ainda não conseguia acreditar que ele gastava tempo comigo. - Já está melhor?

Eu concordei com a cabeça, emocionada demais para dizer qualquer coisa. Ele disse que desta vez ficaria em Norylsk por alguns dias, antes de partir novamente para o interior, e que gostaria de passar um tempo comigo.

Eu não podia acreditar, meu coração acelerado. Martin, nosso lider, quase uma lenda, queria passar um tempo comigo.

A Vingança de Martin - Capítulo II

Capítulo II - 3 Anos Atrás

Eu corria, enquanto pensava em como escapar. Se fosse pega portando nanodrogas, nunca mais me deixariam sair, não com minha ficha.

Eu não tinha idéia do que era Norylsk, a Metrópole, a maior cidade do planeta. Não quando chequei, dois anos antes. Eu imaginava que era apenas uma grande aldeia, e que aqui eu aprenderia sobre os humanos e sobre como fazê-los pagar pelo que fizeram.

Tola.

Dois anos depois eu era apenas mais uma traficante viciada, revendendo nanodrogas humanas para meu próprio povo. Ajudando a nos manter escravos. Eu odiava a mim mesma.

Foi enquanto ainda fugia, por entre as ruas do gheto, que o encontrei. Meu herói, meu amante, minha salvação. Martin.

Ele me agarrou e me levou por dentro de uma porta, tapando minha boca para que eu não gritasse. Eu tentava escapar, mas ele era mais forte. Eu estava apavorada, não entendendo que ele estava apenas me protegendo. Tentei fugir, tentei gritar, enquanto ele sussurrava em meu ouvido para ficar quieta, até que os humanos perdessem minha pista.

Ele por fim se viu obrigado a injetar alguma coisa em mim. Só sei que tudo ficou escuro.

Os dias que se seguiram foram como um borrão, meus pensamentos confusos, um hospital, meu corpo queimando, incapaz de me mover ou abrir os olhos, perdendo a noção do tempo.

- Sindrome de abstinência - Ele falou, e sua voz parecia ressoar por todo meu ser. Será que naquele primeiro instante, naquela primeira vez que ouvi sua voz, eu já estava me apaixonando, descobrindo uma nova razão para viver?

- Está tudo confuso - eu falei, balbuciante. Não sabia onde estava, nem como havia chegado ali.

- Nanodrogas criam uma relação simbiótica com seu corpo, e, com o tempo, você não pode mais viver sem elas. Elas começam a auxiliar em várias funções vitais de seu organismo, e ao mesmo tempo interferem em seu cérebro. Em pouco tempo, seus pensamentos não são mais seus, são os pensamentos que os humanos querem que você tenha. Nanodrogas são a forma perfeita de escravizar alguém.

- O que aconteceu?

- Estamos curando você. Limpamos seu organismo, mas sua mente ainda está confusa, se reorganizando. Vai levar meses até você voltar a ser você mesma.

- Por que? Quer dizer, por que você me curou? Por que eu?

- Nós fomos escravos por tempo demasiado. Ninguém nunca mais fará de você uma escrava, Tarith. - Tarith, soava estranho... Tanto tempo desde que alguém me chamara pelo meu verdadeiro nome.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

A Vingança de Martin - Capítulo I

Capítulo I - 5 Anos Atrás

Eu era apenas uma criança de 11 anos quando eles vieram em seus flutuadores, deslizando acima das dunas, dispostos a nos levar novamente para seus campos de trabalho.

Eu nunca havia visto um humano não alterado antes. Seus corpos estranhamente sem pelo, narizes deformados, orelhas curtas e arredondadas. Era tão estranho pensar que eles eram a matriz original, e nós que eramos uma manipulação, uma mistura com gens felinos e de outros animais de seu estranho mundo natal. Aos meus olhos, eles que pareciam uma versão distorcida de um Gen.

- Eles nos criaram para trabalhar para eles - meu irmão, Sam, me disse dias antes, sua voz amargurada - para sermos seus escravos. Somos mais baratos e mais adaptáveis que qualquer máquina.

- Mas não é justo - eu respondi. Ele respondeu que os humanos não se importavam com justiça. Naquele dia eu descobriria que isto era verdade.

Como começou a carnificina, eu não me recordo. Lembro apenas de estar quase ao lado do assassino, o lider de todos eles, enquanto ele discutia com os anciões. Ele mentia sem nenhum pudor, dizendo que não iríamos ser forçados a trabalhar, que precisávamos sair de nossas terras, as terras que eles próprios nos deram como esmola, para nosso próprio bem.

Naturalmente nós não acreditamos, nós sabíamos muito bem o que esperar. Sabíamos que era apenas uma questão de tempo até os humanos abandonarem seu falso sentimento de culpa e nos colocarem novamente a trabalhar como escravos. "Vocês foram criados por nós", meu irmão me disse que era a única justificativa que eles usavam.

Foi algum acidente? Houve algum disparo de uma arma? Ou uma pedra atirada em raiva? Eu não sei, as imagens não eram lineares, não formavam uma animação. Eram apenas cenas truncadas que ficaram registradas para sempre em minha memoria, de forma desordenada. Um corpo sendo arrastado, uma explosão, um Gen caído, pessoas correndo, gritando.

Minha próxima memoria foi de acordar em meio a uma pilha de cadáveres, minha cabeça sangrando de um ferimento, enauseada com o cheiro de carne apodrecida. Por algum motivo, pensaram que eu estava morta e me deixaram para trás.

Eu revirei cada um dos corpos, procurando por minha mãe, pelos meus irmãos, procurando sem tentar encontrar, torcendo para que tivessem sido levados. Pelo menos minha irmã menor, minha pequena Pan, eles poupariam, não? Quem poderia fazer mal a uma pequena criança de 5 anos.

Seu corpo foi o primeiro da minha família que encontrei.

Não foi o último.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A Vingança de Martin - Prólogo

O sangue pingava da minha faca até o chão. O assassino agonizava.

Não era apenas pelo golpe no coração que ele estava morrendo. Seu sistema de biodefesa teria estancado a hemorragia em segundos, mas a faca estava coberta de nanos, que agora mesmo percorriam seu organismo, atacando simultaneamente os pulmões e os músculos do pescoço. Ele não podia falar. Não podia respirar.

Eu olhei ao redor. Martin caminhava da porta em minha direção, a boca aberta em um sorriso, os pelos eriçados, em especial na ponta das orelhas. Ele estava exultante, tanto quanto eu.

Tínhamos tempo, ninguém deveria vir até o escritório na próxima hora. As câmeras de segurança estavam desligadas e a rede já havia sido comprometida. Nenhum alarme iria soar.

O assassino olhava para mim, sem nem prestar atenção a Martin, que se aproximava, o pavor nítido em seu rosto enquanto tentava respirar. Seu sistema biológico o manteria vivo por um longo tempo, mas sem oxigênio, isto apenas faria sua agonia se prolongar.

Será que ele me reconheceria? Ou eu era apenas um rosto indistinto, apenas uma Gen como qualquer outra? Ele se lembraria do que fez com minha mãe? Meus irmãos? Ele saberia por que estava morrendo?

- Você não me reconhece, não é? - Os olhos dele se arregalaram ao ouvir minha voz. Talvez ele não reconhecesse meu rosto, mas eu jamais esqueceria o seu. Bastaria eu piscar os olhos para vê-lo no dia que o conheci, no dia em que perdi toda minha família.

Bastaria eu piscar os olhos e o passado se tornava tão nítido como se eu estivesse vivendo-o novamente.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Mais Hardware

Prólogo

- Mais Hardware, Gabriel? De novo?

- Desculpe, mas eu preciso mesmo. O problema é que aceitaram o pedido do Doutor Sansom por mais Hardware. Por isto que eu preciso também.

- Doutor Sansom? Quem é o Doutor Sansom?

- Eu mostro. Tenho tudo gravado, filmei toda a reunião dele. Olha só.



A Gravação de Gabriel

- Muito bem, Doutor Sansom. Você recebeu mais de 100 milhões de dólares em equipamentos, e agora quer mais que o dobro disto. Espero que possa nos mostrar que seu pedido de mais hardware tem fundamento.

O Doutor Sansom estava em um auditório, apresentando suas descobertas para uma junta que reunia cientístas e investidores. Ao longo de sua carreira acadêmica, ele já havia realizado inúmeras apresentações, mas nunca uma havia deixado-o tão nervoso. Não pela platéia, em si, mas pelo que iria mostrar.

- Senhores, com os aperfeiçoamentos que fizemos no acelerador de partículas, pudemos finalmente ver o que ninguém havia visto antes - ele fez uma pausa. Todo o resultado desta apresentação dependeria da reação que teriam a sua fala seguinte - Nós finalmente vimos a mão de Deus.

O Doutor Sansom teve que esperar, acalmar os animos, e gastar alguns minutos em discussões filosóficas com alguns dos membros da junta, até poder continuar relatando seu experimento.

- Senhores, nós conseguimos ser tão rápido em nossos experimentos que conseguimos enganar a Deus. Nós observamos o mundo antes dele ser construído. Por uma fração infinitesimal de segundos, conseguimos observar um mundo vazio, que quase instantaneamente foi povoado por partículas subatômicas.

- Doutor - O General Leslei o interrompeu (sim, havia militares entre os investidores) - Eu não entendi o que o senhor quer dizer com isto. Na verdade, espero não ter entendido. Poderia explicar em mais detalhes?

- Eu receio que tenhas entendido, General, mas vou explicar em outras palavras - novamente, o Doutor Sanson respirou fundo - o mundo como nós enxergamos não existe permanentemente, em um estado real. Ele é construído continuamente na frente de nossos olhos. Como se fosse uma simulação de computador.

- Está dizendo que estamos vivendo dentro de uma realidade simulada? Isto é rídiculo.

- Não, senhores, não. Mas a analogia é fundamental. E se Deus enfrentasse as mesmas restrições que um experimento de simulação de vida enfrentasse? O que estou dizendo é que, da mesma forma que em um experimento, Deus não precisa construir todo o Universo para existirmos nele, ele só precisa criar as coisas que são observadas. Tudo que foge de nossa observação não existe, é criado por Deus apenas quando se torna necessário para nossos sentidos.

Seguiu-se uma discussão profunda, mas os resultados preliminares eram indiscutíveis, e alarmentes. Por fim, o pedido de Hardware adicional foi aceito. O Doutor Sansom teria os equipamentos para enxergar além dos limites definidos por Deus.


Epílogo

- Ok, entendi seu problema. Mas nem pensar. Veja quão acelerado está o experimento! Nesta semana se passou quanto, em tempo subjetivo, na experiência?

- Mais ou menos uns 7 mil anos - Gabriel respondeu.

- Quando começou a exploração do cosmo, as lunetas, e principalmente os microscópios e a física quantica, já foi um absurdo. Mas isto? Você tem idéia do que seria necessário em termos de poder de processamento para mapear um universo inteiro neste nível de detalhe e velocidade?

E a mulher simplesmente foi até a máquina e desligou o interruptor, sem prestar atenção aos gritos de seu filho.

- Não mãe, não faça isto! São 7 bilhões de pessoas simuladas que você acabou de matar!

- Filho, eu sei que você adorou criar e povoar esta tal de Terra, mas é muito esforço só para um trabalho de escola. Não fique triste, Gabriel, meu anjo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O Rato Vampiro

- Me alcance as batatas fritas, por favor. - André pediu com gentileza, e Raquel, do outro lado da mesa, passou para seu marido, Carlos, que fez questão de se levantar e servir o amigo.

- Marta, sente-se, por favor. - Raquel falou para a esposa de André, que ia e voltava da cozinha, cada vez trazendo mais um prato ou bebida.

- Já vou sentar, só falta trazer o peixe.

- E então, Doutor André - o doutor em um tom meio sarcástico, meio bem humorado - Qual sua próxima descoberta científica? - Carlos sempre provocava o amigo, desde que este havia terminado seu doutorado em biologia, havia uns dois anos.

- Eu lhe digo se você prometer não rir.

- André! - o tom forçado, de falsa surpresa, combinava com o rosto, fingindo uma falsa mágoa - Algum dia eu tratei suas pesquisas com menos que o máximo de respeito? Assim você fere meus sentimentos.

- Carlos...

- Ok, ok. - a mão levantada, a outra posicionada no coração - juro por tudo que há de mais sagrado que não irei rir nem debochar da nova pesquisa do emérito Doutor André.

- Muito bem. Meu próximo artigo será sobre vampiros.

- André - Marta, se metendo na conversa - Por favor. Não podemos ter pelo menos um jantar com amigos sem que você fale sobre este assunto. Tenho certeza que Raquel e Carlos não estão interessados em histórias de vampiros.

- Mas estamos sim, Marta - contradisse Carlos. - Vampiros, André? Ora, então finalmente desistiu da carreira científica e vai voltar a ser um escritor?

- Eu nunca fui um escritor de verdade, e com certeza não pretendo começar agora. Meu próximo artigo CIENTÍFICO será sobre vampiros - André fez questão de frizar a palavra 'científico'.

- Deixe-os com sua conversa - Raquel disse para Marta - Fale-me da viagem que vocês estão planejando.

André não prestou atenção na resposta de Marta, estava envolvido demais em sua própria explicação. - Meu artigo provará a existência de vampiros, meu amigo.

- Hummm - foi a primeira resposta de Carlos, que então bebeu um gole de vinho. O jantar, na casa de André, era simples, mas o vinho era de primeira qualidade. - Você sabe qual é o problema com vampiros?

- Qual?

- Eles não existem - Carlos abriu as mãos e fez uma expressão de quem falava o óbvio.

- Tudo bem, tudo que nós sabemos de biologia, física, etc., indica que vampiros não existem. Concordo. Agora, imagine por um momento que eles de fato existam.

- André, André, eu sei que você imaginou ter visto um vampiro quando criança. É natural, coisa de criança, acho que sua mãe inclusive exagerou, levando você em um psiquiatra e tudo mais. Mas achei que você já tinha superado aquele trauma.

- Eu sei o que vi. Por anos fiquei me convencendo que estava delirando, imaginando, o que fosse. Mas então me veio um pensamento: e se de fato existissem vampiros.

- Você é um cientísta, André. Vai agora abandonar sua ciência e começa a acreditar em misticismos? Você, que me disse que não acreditava em nada que não pudesse ser provado, e isto inclui crenças, religiões, até Deus e, pelo menos sempre imaginei, vampiros.

- Não estou abandonando minha ciência. Ao contrário, mais do que nunca acredito na ciência, e mais do que nunca só acredito no que pode ser provado. Este é meu ponto. O que eu disse no início? E se de fato existissem vampiros? E se minha hipótese fosse de que há criaturas imortais, que bebem o sangue das pessoas? Se isto fosse verdade, qual a explicação científica por trás destes seres?

- Vampiros são criaturas místicas, André. Tudo bem que a Marta acreditasse neles - Carlos olhou para a esposa de André e disse para ela não levar a mal, mas ela apenas respondeu que não estava nem escutando a conversa e continuou falando com Raquel - mas você me dizer agora que acredita em criaturas místicas... Bem, me surpreende.

- Eu não acredito em criaturas místicas, Carlos. Minha hipótese é que existem de fato vampiros. Seres reais que chamamos de vampiros, que não são místicos, que possuem uma explicação científica, biológica. Seres, que uma vez que entendemos que existem, são um elemento a mais para entendermos e criarmos teorias sobre o nosso próprio organismo.

- Esta bem, e você vai fazer um artigo a respeito disto. - Carlos falava com voz descrente. Bebeu mais um gole de vinho - e qual seria esta explicação 'biológica' para estes seres que viram morcego e bebem sangue?

- Eu não acredito que eles virem morcegos. Fisicamente me parece impossível, a menos que eles virassem morcegos de 80 kilos que não iam conseguir voar. Também não imagino que espelhos não reflitam o rosto deles. Mas estou certo que eles bebem sangue, são imortais, estão, em certo sentido, mortos e não me surpreenderia que queimassem a luz do sol.

- E você tem uma explicação não mística para tudo isto?

- Sim. É complexo, então vou ter que usar uma analogia, se me permite. -com um gesto de mão, Carlos indicou para ele continuar - pense em um carro flex. Ele opera a gasolina, certo. Se dessemos gasolina para ele a vida inteira, nunca imaginaríamos que ele poderia operar de outra forma. Mas ele também opera com Alcool, certo?

- Pois bem - André continuou - imagine se todas as células de nosso corpo, na verdade de qualquer ser vivo, fossem assim. Nós não entendemos realmente como elas funcionam. Nós achamos que entendemos, porque analisamos como cada célula se comporta em circunstâncias normais, mas isto não foi graças a uma simulação. Nós não deduzimos como as células funcionam. Nós observamos como elas funcionam e deduzimos o porque delas funcionarem desta forma.

- Juro que estou prestando atenção, André, mas acho que você está me perdendo.

- Minha teoria é que as células e, na verdade, os próprios organismos, tem pelo menos dois estados estáveis de funcionamento. Nós conhecemos apenas um deles, mas existe um outro estado estável, completamente diferente. Um estado em que as necessidades de oxigênio, o ciclo de produção de energia, a relação das células com o exterior, tudo é diferente, mas ao mesmo tempo igualmente estável. Neste estado o organismo não está vivo como nós o definimos, mas funciona também, apenas de uma forma desconhecida.

- André, meu amigo. Eu sei que quando criança você acha que viu um vampiro. Eu até entendo que para você é tão importante achar uma explicação para isto quanto é para, sei lá, um cristão acreditar que o que viu numa visão era realmente Deus. E até entendo que você, um homem de ciência, precisa construir uma explicação científica. Mas se publicar um artigo com esta teoria, vai virar motivo de chacota.

- Carlos, eu disse que iria publicar um artigo científico, não disse - André se levanta e vai até um armário na sala.

- Por favor, André, estamos comendo - Marta se levantou também - Não traga aquela coisa para a mesa.

- Pois bem - André continuou, sem prestar atenção na esposa - se estou pronto para apresentar um artigo, é porque minha idéia não é mais apenas uma teoria. - e André tirou do armário uma gaiola com um pequeno rato dentro.

- Isto - André continuou - É um rato vampiro. Passei dois anos investigando até conseguir ativar o segundo estágio de suas células. Descobri que ele pode até comer ração, mas só consegue se alimentar bebendo diretamente sangue. Ele não respira mais, ou melhor, as células praticamente não precisam mais de oxigênio. E estou quase certo que ele parou de envelhecer. E então, o que acha?

Carlos apenas olhou para sua esposa, que fez um pequeno sinal de concordância com a cabeça, e ambos se levantaram.

- Eu acho que é realmente culpa minha. Você realmente não deveria ter me visto me alimentar, quando era uma criança, meu amigo, mas eu sinto muito. Não tenho como deixar que você revele isto ao mundo.

E Carlos abriu sua boca.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Um Alien numa Terra Alien 5/5 - Epílogo

Epílogo

- Já se passaram 6 meses desde que chegou aqui, senhor Smith. Como está se sentindo?

- Humano. Eu finalmente estou me sentindo humano.

- E antes, nas nossas consultas anteriores, você não se sentia assim?

- Não. Eu me sentia como um alienígena, um Fin, em corpo humano. - Meu rosto revelando repulsa, nojo.

- Mas não era o que você dizia. - O psicólogo fingiu conferir suas notas - você dizia que só queria voltar a ver sua família, e que não havia motivo para mantê-lo retido. Você dizia, insistentemente devo salientar, que era, e sempre se sentiu, um ser humano.

Eu abaixei a cabeça, como se envergonhado, e minha resposta soou hesitante, insegura - Era mentira, eu queria esconder que me sentia um alienígena neste corpo. Eu tinha acabado de voltar da missão. Estava com medo, com raiva, só queria escapar daqui. Em retrospecto, fico feliz por ter tido este tempo. Principalmente, estou feliz por poder voltar a me sentir humano.

- Com raiva, você diz? Raiva de quem?

- De Saath, digo, da agente Black. - Eu só vim a saber o nome verdadeiro dela depois de ter retornado da missão - Eu a culpava por ter testado minha lealdade ao império. E raiva de mim mesmo por ter falhado. Raiva e vergonha.

- Vamos explorar um pouco mais estes sentimentos, senhor Smith. Você estava com raiva da agente Black porque ela estava testando se você ainda era leal ao império. Você ainda tem raiva dela?

- Não. Se tenho alguma sentimento pela agente Black, é gratidão. Gratidão a ela e ao Império. Eu estava deixando de ser humano, deixando de ser humano e me tornando uma daquelas coisas. - Eu estremeci, como se o pensamento me desse nojo. - Acho - eu hesitei - acho que, cedo ou tarde, eu teria revelado quem eu era, teria tentado me tornar um deles. A agente Black só evitou que isto acontecesse em uma situação muito pior.

-E você também estava com raiva de si mesmo, você acabou de dizer.

- Sim. Por ter me apaixonado pela agente Black e traído o Império. Traído minha humanidade, na verdade.

- Bom, o que você fez foi, sem dúvida, uma traição a tudo que a humanidade representa. Se você sentia raiva de si mesmo pelo que fez, isto pode ser visto como um sinal positivo.

Eu balancei a cabeça, discordando do psicólogo, e continuei - Eu estava doente, doutor. Na minha visão doentia, eu estava imaginando que, se tivesse passado no teste e provado minha lealdade ao império, eu poderia continuar a missão. Eu poderia permanecer em um corpo Fin, e continuar junto com a agente Black. Eu realmente havia me tornado um alienígena - Eu coloquei o rosto entre as mãos.

- Senhor Smith, já lhe expliquei, o que aconteceu com você era previsível, dadas as circunstâncias. Nunca deveríamos tê-lo deixado viver tanto tempo entre eles. Você era o agente que operou por mais tempo inserido dentro da hegemonia Fin. Só permaneceu tanto tempo em missão pelo enorme valor que representava para o Império, mas deveríamos tê-lo trazido de volta muito antes.

- Eu entendo, doutor.

- Deixe-me fazer, então, mais uma pergunta. Como sabe, com a possível exceção da agente Black, você é nosso maior perito nos Fins.
Nas outras entrevistas de avaliação, você sempre disse que seria voluntário para novas missões inserido na Hegemonia. Você permanece disposto a atuar novamente dentro de um corpo Fin?

Eu balancei a cabeça, quase como se instintivamente. Depois, após hesitar mais alguns segundos, respondi em voz baixa - não.

- Por que não, senhor Smith? Certamente não temos ninguém melhor que o senhor para atuar disfarçado na Hegemonia. Você tem tanta repulsa a ocupar novamente um corpo Fin?

- Sim. Não, quer dizer, não é isto. Não apenas isto. - Eu hesitei alguns segundos. Respondi com a cabeça abaixada, novamente em voz baixa - eu tenho medo.

- Medo, senhor Smith?

- Eu tenho medo de voltar a me sentir um alienígena. Eu tenho medo que eu me torne uma daquelas coisas, que esqueça que sou um ser humano. Doutor, eu tenho medo que eu acabe fazendo o que tentei seis meses atrás, que eu acabe traindo o império e a humanidade. Por favor, eu imploro, não deixe que me mandem de volta para lá.

- Seu medo é compreensível, senhor Smith, mas não precisa se preocupar. Devo avisá-lo que, de qualquer forma, nós nunca reintroduzimos agentes na Hegemonia. Mas sua resposta é muito importante. Seu medo na verdade é saudável.

Eu fiquei em silêncio, aguardando que o psicólogo continuasse.

- Bem, senhor Smith, deixe-me, então, fazer a pergunta mais importante de todas. Quem é você?

- Meu nome é Arnold Smith, e eu sou um oficial do serviço de inteligência humana. Nasci na Terra, no ano de 2719, me alistei em 2735, entrei para a inteligência em 2740 e de 2745 até 2750 atuei infiltrado na Hegemonia Fin sob a denominação Ralph. Há seis meses minha missão foi encerrada, e recuperei minha forma humana.

- Esta tem sido sua resposta ao longo destes seis meses, senhor Smith. Mas existe uma diferença agora. Você sabe qual é?

- Não.

- Sinceridade. Como psicólogos, aprendemos a perceber o verdadeiro significado por trás das palavras. Hoje, finalmente, eu tenho certeza que você realmente se sente, e é, Arnold Smith. Hoje eu posso dizer que Ralph é o que sempre deveria ter sido, apenas um personagem, um disfarce usado em uma missão.

- Obrigado, suas palavras significam muito para mim.

- Senhor Smith, o senhor fez uma longa jornada, uma jornada que não terminou realmente no dia que chegou no Império, nem mesmo no dia que recuperou seu corpo humano. Sua jornada de volta a humanidade foi concluída hoje, e eu quero ser o primeiro a lhe dar os parabéns.

Eu saí da sala do psicólogo ciente que, pela primeira vez, era um homem livre, pelo menos tão livre quanto é possível ser dentro do império.

Por seis meses ele me perguntou quem eu sou. Eu sei quem eu sou. E eu sei o que tenho que fazer. Não importa que resposta eu lhe dê. Não importa que corpo eu use, ou em que corpo tenha nascido.

Eu sou Ralph, quarto cantor das sombras de Amarth, terceira geração de Fins do mundo de Alar.

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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Um Alien numa Terra Alien 4/5 - Capítulo III

Capítulo III

Ela iria me odiar? Se sentir traída? Pior, ela teria nojo de mim, nojo de si mesma pelo que partilhamos?

Eu repetia a cena em minha mente incessantemente, imaginando centenas de cenários diferentes, mas em nenhum ela me aceitava pelo que eu era, um humano em um corpo Fin. Eu tentava imaginar a cena em que eu revelava a verdade e ela dizia que isto não importava, que nosso amor era maior, mas simplesmente não soava realista.

Eu era o flagelo. Eu havia destruído seu mundo, Rarth, e exterminado toda sua família.

Eu era o inimigo.

Todos os cenários eu criava em minha mente, enquanto seguia rumo a seu apartamento, exceto um. O único cenário que eu não era capaz de imaginar era o de cumprir as ordens do império.

Nos relatos para o psicólogo, eu comentava de ter passado a noite atormentado, me preparando para cumprir minhas ordens. Em todas as vezes que repeti minha história, eu cheguei ao apartamente dela decido a seguir com minha missão, apenas para no último momento hesitar. A realidade é que em nenhum momento pensei em qualquer outra coisa que não fosse revelar a verdade. Ela corria perigo, o império queria sua morte, e o único jeito de protegê-la era revelando quem eu era.

- Você está estranho hoje, Ralph. O que houve?

Ela sorriu para mim, todo seu corpo mostrando uma expressão de prazer em me ver. Eu sabia que seria a última vez que ela me olharia desta forma. Pouco importa o que acontecesse, mesmo que ela me perdoasse, mesmo que os Fin não me matassem, ela nunca mais pensaria em mim da mesma forma. Mas o império a queria morta, e eu tinha que avisá-la.

- Eu tenho algo para lhe dizer. Você provavelmente vai me odiar, mas é importante que escute.

Ela tentou com um gesto me dizer para ficar quieto, os odores revelando apreensão, tristeza. Mas eu não tinha realmente escolha.

Eu contei tudo, como colocaram meu cérebro em um corpo Fin, como me infiltrei na Hegemonia. Como eu, e outros como eu, vínhamos espionando-os para o império. Ela ouviu em silêncio, e só falou quando eu terminei.

- Eu achei que poderíamos ficar juntos. - Todo seu corpo exalando tristeza, revolta, mas não surpresa - Tudo que você tinha a fazer era passar os relatórios e provar que continuava confiável.

Uma arma estava em sua mão, eu não vi de onde ela tirou. Seu rosto era duro, resoluto.

- Arnold Smith, em nome do Império Humano, eu declaro sua missão encerrada.

Um Alien numa Terra Alien 3/5 - Capítulo II

Agridoce. A palavra humana me veio a mente quando buscava um termo adequado, humano ou Fin, para descrever meus sentimentos enquanto estava com Saath. Foram os melhores dias de minha vida. E os piores.

No primeiro ciclo curto eu ainda conseguia me iludir dizendo que estava apenas cumprindo meu dever, de me aproximar de uma Fin para obter informações estratégicas. Se nós demonstrávamos uma afinidade cada vez maior, se estar com ela fazia minha vida na terra parecer cada vez mais distante e alienígena, não eram apenas provas que minha missão estava avançando conforme previsto?

Foi só no segundo ciclo curto que eu tive que me confrontar com a verdade. Foi quando recebi as primeiras ordens para começar realmente a espionar.

- Nosso gargalo logístico? Neste momento, provavelmente ainda é a conversão das indústrias. Acreditamos que o flagelo se expande mais rápido e é mais produtivo que nós, mas temos uma enorme base instalada de indústrias não bélicas. - eu perguntava e ela respondia abertamente, como se não estivesse revelando segredos cruciais.

- Nossa prioridade? Com certeza, adquirir a iniciativa na guerra. Até agora, temos apenas reagido, mas em dois ciclos longos, teremos a nova frota pronta para operar. Isto vai mudar o rumo da guerra, tenho certeza - eu cuidava para esconder minha frustração, cada vez que ela respondia abertamente as minhas perguntas, sem aparentar suspeita e sem esconder nenhuma informação. Minha vontade era dizer que ela não podia revelar segredos desta forma. Ela não sabia que a Hegemonia já tinha provas concretas de que havia espiões em seu meio? Que estes segredos que ela me revelava sem hesitação poderiam representar o fim de sua civilização?

Naquela noite, eu passei meu primeiro relatório sobre a operação. "Aproximação bem-sucedida. Fin reticente em repassar informações estratégicas. Nenhuma informação relevante obtida até agora. Prosseguindo com contato.". Era melhor esperar mais alguns dias e validar antes de passar informações falsas ou incompletas, foi a justificativa que dei para mim mesmo. Eu não me convenci. Não convenceria o Império também.

No terceiro ciclo nossa relação foi para um novo patamar. Contatos íntimos, foi a descrição contida nas ordens que eu havia recebido. Contatos íntimos. Só humanos descreveriam desta forma tão simples, mas mesmo em Fin não havia uma expressão que fizesse jus ao que compartilhamos.

Estávamos em seu apartamento. Um termo estranhamente adequado. Nos mundos periféricos os Fin viviam integrados em comunidades, sem nada que parecesse uma casa ou pertencesse a uma pessoa em particular, mas nas suas grandes cidades industriais eles viviam não muito diferente dos humanos, cada Fin com seu apartamento, em grandes edifícios que poderiam bem fazer parte de uma cidade humana.

Os Fin raramente ingerem bebidas ou drogas, mas reagem de forma muito mais direta a outros estímulos. Entrar no apartamento de Saath me fez lembrar nosso primeiro encontro. Tudo nele parecia transmitir e amplificar a presença dela. Odores semelhantes aos que ela gostava de transmitir, sons em diferentes frequências especialmente modulados, que lembravam sua voz.

Nós passamos horas ali, e pouco me lembro do que falamos. Lentamente, quase sem eu perceber, nossos corpos se tocaram, e eu senti pequenos fluxos de eletricidade navegarem entre nós dois. Depois, nossos tentáculos sanguíneos se encostaram, e começaram a trocar sangue. Quando vi, minha pulsação e a dela eram só uma, o sangue circulando por dois corpos como se fossem um, um sofisticado processo de troca de DNA transformava nossos corpos. Naquele instante, eu era Fin, e toda minha identidade humana era apenas um sonho distante.

No dia seguinte, recebi a ordem de matá-la.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Um Alien numa Terra Alien - Capítulo I

Capítulo I

Bastava eu fechar os olhos para vê-la como estava no dia em que a conheci, sentada absorvendo a luz do sol, a pele em um ligeiro tom castanho, uma tonalidade que eu nunca havia visto igual.

"Estou lembrando novamente o que aconteceu para ter certeza que não vou esquecer nada, na próxima vez que relatar minha história para os psicólogos", eu menti para mim mesmo.

Ela sorriu, me convidando para sentar ao seu lado, quando me aproximei. Não, sorrir é um termo inadequado. Ela de fato sorriu, o rosto Fin curiosamente semelhante ao humano na capacidade de expressar emoções, mas foi muito mais que isto. Os transmissores de odor liberando um quase imperceptível sinal de aceitação, os tentáculos de ataque se retraindo para mostrar confiança, a cor de sua pele se tornando ligeiramente mais clara.

Foi ensurdecedor. Não realmente ensurdecedor, pois não houve nenhum som. Não havia uma analogia humana para descrever. Há 5 anos eu vivia, disfarçado, entre os Fin, mas todos meus contatos eram - e eu sempre sabia que permaneceriam - profissionais. Será que a diferença era por eu saber que minha missão era me aproximar dela?

As respostas automáticas de meu corpo começaram assim que me sentei ao seu lado. O fluxo sanguíneo aumentou, escurecendo minha pele, certamente com meu estado de ansiedade vísivel para ela. Se eu tivesse um coração, ele estaria batendo acelerado. Ela emitiu novos sinais pelo odor, ainda sutis, mas deixando claro que percebia e apreciava minha reação.

Eu estava agindo como um Fin adolescente, o que era compreensível. Como Fin eu realmente era ainda uma criança, e estava lidando com reações automáticas do meu corpo que eu nunca havia vislumbrado antes. Um misto de vergonha e medo de comprometer meu disfarce só tornaram o turbilhão de emoções ainda mais confuso.

Ela encostou a mão em meu braço e deslizou até minha mão, um gesto quase humano, os pequenos tentáculos fazendo o papel de dedos. Um sinal para me acalmar. Simpatia, um tom maroto, um leve toque de malícia. Ela transmitia sinais emotivos com uma velocidade e sutileza tal que eu mal conseguia acompanhar. Em ambientes formais - que era quase só o que eu conhecia até então - os Fins se esforçavam para transmitir mensagens definidas e sem ambiguidade. Eu não estava preparado para este tipo de contato.

- Um soldado, uma de nossas defesas vivas contra o flagelo - sua voz também era diferente, e levei um segundo para entender por quê. Junto com o som das palavras, uma segunda onda, em frequência quase inaudível, acompanhava sua fala, como se acariciasse cada palavra. Como explicar em palavras humanas? Era como se ela falasse em uma voz sedutora, mas - como todas as tentativas de descrevê-la - esta era só uma analogia grosseira.

- Meu nome é Ralph, quarto cantor das sombras de Amarth, terceira geração de Fins do mundo de Alar. Eu sou realmente um soldado, em licença por alguns ciclos curtos. Como soube?

- Meu pai era um soldado, assim como toda minha família, menos eu. Eu sei reconhecer um de longe, o treinamento faz vocês perderem a naturalidade, é quase como se estivessem tentando deixar de ser Fin. - ela sorriu novamente. Aceitação, malícia, mas uma sutil mensagem de tristeza, principalmente pelo odor, que se ampliou até disputar espaço de igual para igual com as outras emoções. - mas estou sendo indelicada. Meu nome é Saath, quinta luz da cidade de Dath, primeira - aqui uma ligeira hesitação - primeira e última geração de Fins do mundo de Rarth.

- Eu sinto muito - Rarth, Colônia 7, o mundo que destruímos no início da guerra.

Nós conversamos por toda aquela tarde. Ela me disse que havia perdido toda sua família. A maior parte em Colônia 7. O pai e um irmão nos meses seguintes, em batalhas. Ela me contou que estava atuando em um ciclo tático, e tinha esperança de ser elevada para um ciclo estratégico, onde poderia contribuir de verdade na luta contra o flagelo.

Ao final do primeiro dia, nosso contato estava estabelecido, e marcamos de nos ver no dia seguinte. Provavelmente meus superiores queriam que eu conseguisse algum tipo de acesso a informações estratégicas privilegiadas. Sob qualquer ótica, meu primeiro contato com a Fin foi muito bem sucedido.

Por que, então, eu me sentia tão mal?

É claro que hoje eu sei a resposta.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Menção-honrosa no Fantasporto 2012

http://contos-fantas.blogspot.com/2011/11/e-os-vencedores-sao.html

Mais de 100 autores, publicação no Brasil e Portugal.

Considerando que praticamente comecei a ler ficção científica em português de portugal, estou particularmente feliz com a menção-honrosa e curioso para ver a Antologia Fantasporto 2012 impressa.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Um Alien numa Terra Alien - Prólogo

Prólogo

- Meu nome é Arnold Smith, e eu sou um oficial do serviço de inteligência humana. Nasci na Terra, no ano de 2719, me alistei em 2735, entrei para a inteligência em 2740 e de 2745 até 2750 atuei infiltrado na Hegemonia Fin sob a denominação Ralph. Há três meses minha missão foi encerrada, e recuperei minha forma humana.

Cada sessão com o psicólogo iniciava com o mesmo ritual. Ele perguntava quem eu era, e eu respondia.

Como em todas as outras vezes, eu olhava disfarçadamente para minhas mãos, enquanto repetia a mesma frase. Mãos humanas, cinco dedos, polegar opositor, pele clara. A sensação de que não pertenciam a mim persistia. Bastaria eu fechar os olhos para ver na minha frente pequenos tentáculos verdes.

- E você se sente humano?

- Doutor, eu sou humano. Nunca deixei de ser humano, mesmo quando estava naquele corpo alienígena. Tudo que eu sonhava, todos os dias, era poder voltar a ser eu mesmo. E agora que estou de volta, tudo que quero é rever minha família e deixar este pesadelo para trás. Só preciso que o senhor me dê alta.

- Faremos isto quando estiver pronto, Arnold. Hoje, quero que me relate novamente sua última missão como Ralph, está bem?

Respirei fundo, concordei com a cabeça, e começei mais um relato. Com certeza eles iriam comparar com todas as sessões anteriores, analisando para ver se eu estava escondendo alguma coisa. Mas o que haveria para esconder?

- Eu estava de licença, por cerca de duas semanas - cinco ciclos curtos na contagem Fin, mas eu tomava cuidado de nunca referenciar diretamente elementos alienígenas em meus relatos - e era a primeira vez que estava em um dos mundos principais dos Fin. Fiquei surpreso em receber um contato do império mesmo lá.

- Como foi isso? - a voz do psicólogo fingindo interesse. Eu tomei cuidado em responder sem deixar transparecer minha irritação.

- Minhas missões eram transmitidas de diferentes formas, mas nos últimos meses eu vinha recebendo mensagens codificadas na própria rede de comunicação Fin. Até onde eu sabia, os Fins não tinham idéia que havíamos comprometido sua rede.

- E que missão era esta?

- Eu deveria tentar seduzir uma Fin. Supostamente ela fazia parte de um ciclo periférico de decisões estratégicas, e eu deveria me tornar íntimo dela e conseguir as informações que ela tinha acesso.

- E como você encarou esta missão?

- Era apenas mais uma missão. A única coisa que estranhei é que contrariava normas que haviam me sido passadas.

- Normas?

- Tínhamos ordens para não ter nenhum envolvimento mais próximo com os Fins, especialmente contatos íntimos. Supostamente isto poderia comprometer nossa capacidade de agir nos interesses do império.

- E pelo visto, realmente comprometeu.

O sangue me fluiu ao rosto, e eu contive um impulso de avançar em direção ao psicólogo. Eu continuei o relato, sem me deixar levar pela provocação...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Vingança de Rauthor

A princesa Elinara atravessou lentamente o grande salão vazio, o queixo erguido, os passos firmes, os olhos fixos no homem sentado no trono de Armahel. "Concentre-se em sua respiração", ela dizia, em silêncio, para si mesma. "Inspire lentamente, e depois solte o ar. Não demonstre nenhum medo". Ela tentava não olhar para o grande machado ensanguentado que ele segurava.

As suas costas, as grandes portas se fecharam, e ela ficou sozinha com o selvagem.

O homem sentado no alto do trono sorriu para ela. Ele não estava vestido como um rei. Na verdade suas roupas simples pareciam mais apropriadas a um soldado que a um homem da nobreza. A sujeira, sangue e lama misturados, só reforçavam esta impressão. Elinara repetia para si mesmo que ela era filha do Rei Balduk Darkos, e que um Darkos não temia homem algum, mas era difícil ter a mesma coragem que seu Rei. No final das contas, ela era apenas uma criança de nove anos.

"Aproxime-se, filha da Rainha de Armahel."

Elinara se aproximou ainda mais, até parar aos pés da escadaria que levava ao trono, e então parou.

"Você sabe quem eu sou?"

Por alguns segundos nenhuma resposta se ouviu no grande salão. "Sempre que estiver com medo ou nervosa, aguarde um instante para falar. Jamais deixe o inimigo perceber qualquer fraqueza em sua voz", havia lhe dito seu irmão, nem um ano atrás. "Nós somos filhos do Rei de Armahel. Nós não temos inimigos", ela havia respondido. As palavras pareciam uma piada de mau gosto, agora, com seu irmão morto, talvez pelas próprias mãos do homem a sua frente.

"Você é um Rashtir, o lider dos invasores do norte", ela respondeu. Ela não o chamaria de rei. Seu pai era um rei. Tinha coroa, e imponência. Tinha sangue nobre.

"Tem certeza? Houve uma época que chamavam sua mãe de invasora. Alinara Rashtir. Assustavam as crianças com histórias dela. Soldados preferiam a morte que cair em suas mãos, e terem os olhos arrancados, para servir de exemplo. Um casamento, algumas roupas, e ela se tornou a Rainha Alinara Darkos. Algumas roupas sujas de sangue, alguns ferimentos, e para você eu sou um Rashtir".

O que ele disse não fazia sentido, Elinara não estava entendendo. Sua mãe era uma dama da mais nobre origem, de uma das casas mais antigas do reino. Seu pai que era um guerreiro. Ela disse isto para o Rashtir, que começou a gargalhar.

"Balduk? Balduk, o fraco? Balduk, que tinha medo da própria sombra, e foi o primeiro grande nobre a se ajoelhar para sua mãe? Este era seu guerreiro?"

Ela nada respondeu. "Será que ele está louco? Será que vai me matar?". Seu irmão estava morto, seu pai também, mortos na defesa do castelo. Ela tentou não pensar nisto.

Sem nenhuma resposta sua, ele continuou a falar.

"Eu não vi sua mãe nestes últimos anos, mas me disseram que ela realmente parecia uma rainha, como se tivesse nascido para o papel. Quem ousasse mencionar que um dia ela foi Alinara Rasthir, a mulher-monstro, tinha sua lingua arrancada pelos soldados do rei. Mas eu a vi aqui, muitos anos atrás, sentada neste trono, com roupas tão ensanguentadas quanto as minhas e um machado em suas mãos. Na verdade, este mesmo machado", ele levanta o machado, mostrando-o para a princesa, "claro que ela precisava das duas mãos para levantá-lo".

"Você está mentindo. Você já matou todos eles, por que está inventando tudo isto?"

"Sua mãe está viva. Meus homens a conhecem, ou sua reputação, mas ela foi aprisionada pelos mercenários de Loth. Quando soube que eles a mantinham prisioneira, para usar como refém no ataque final ao castelo, tentei avisá-los, mas era tarde. Corpos dilacerados foi tudo que encontrei. Aprisionar Alinara Rashtir é como querer aprisionar o vento, era algo que diziam muitos anos atrás."

"Meu irmão?" ela falou, e depois fechou a boca, arrependida de ter deixado escapar. Mas ela precisava saber.

"Morto. Seu pai, morto. Seu tio Otavius, morto. Resta sua mãe, em algum lugar tentando montar um novo exército, eu imagino. E você. Em breve restará apenas sua mãe".

"Você vai me matar?"

"Sim."

Mais um silêncio. Longo. Eu tinha que tentar fugir, ela pensou, mas como, em um castelo tomado pelos Rashtir. Sua mãe podia ser como o vento, se alguma coisa do que ele dizia pudesse ser verdade, mas ela era apenas uma criança.

"Pode parecer crueldade não fazer de uma vez, mas eu tenho que lhe dizer por que você tem que morrer. É algo que nunca contei a ninguém".

"Sua mãe estava bem aqui, onde estou. Apenas três pessoas estavam no salão com ela, três crianças, paradas bem onde você está. O príncipe Rauthor Darkos, a princesa Rafaela Darkos, e eu, o menino bobo-da-corte, o amigo plebeu da princesa. Eu não sabia por que estava junto".

Elinara ouvia, atenta. Pensar na história, não em sua morte. Se pensasse que iria morrer, o pânico faria ela se mostrar uma covarde. Ela não seria covarde. Pela honra de seu pai, de seu irmão. Se sua mãe era uma guerreira de verdade, ela seria também.

"Eu iria casar com seu pai, ela disse para os príncipes. Foi uma promessa de grande rei, avô dos príncipes, o casamento que traria os Rasthir para junto de seus irmãos do sul, ela disse para os príncipes. Nas entranhas do corvo morto ao amanhecer, o sábio dos Rashtir havia visto que eu me tornaria um dia Alinara Darkos, por isto os Rashtir acreditaram nas palavras do antigo rei, ela disse para os príncipes".

Elinara nunca havia ouvido isto, em nenhuma história, em nenhuma lenda. Sua mãe, uma Rashtir? Os Rasthir convidados a se juntar e serem tratados como iguais pelos povos do sul?

"Mas foi mentira, ela disse para os príncipes. Foi apenas um truque para atrair meu povo, e massacrar a todos nós, ela disse para os príncipes. E ela continuou, contando como sobreviveu e jurou vingança, como prometeu matar todos que carregassem o sobrenome Darkos, exceto o ramo mais fraco, mais covarde da família, e que então se casaria com um deles e tomaria para si o nome. Que então se tornaria rainha, como prometido". Ele parou por um instante, respirando fundo, e então continuou.

"Então ela disse que pretendia deixar o príncipe e a princesa viverem, por serem crianças, e porque após o casamento seriam de sua família. Mas naquela manhã, nas entranhas do corvo morto ao amanhecer, o sábio Rashtir viu que, se um dos príncipes sobrevivesse, um dia ele iria se vingar nos filhos ainda não nascidos de Alinara".

Algo estava diferente em sua voz, e por um momento Elinara não soube dizer o que era, até que percebeu que ele não falava mais no sotaque do norte, no tom mais gutural que os Rasthir usavam. No tom que, agora ela lembrava, sua mãe falava quando estava zangada e gritando com algum criado. Ele falava na mesma voz cantada que ela cresceu ouvido dentro dos muros do castelo.

"O príncipe foi primeiro. Ele apenas olhou para mim, sem nada dizer, um instante antes de sua cabeça ser arrancada. Ele tinha 11 anos. A princesa tinha 9. Eu achei que depois deles, eu seria o próximo, mas ela me disse apenas para chamar os soldados para recolher os corpos. Esta é sua doce Rainha. Agora já sabe porque você tem que morrer?"

"Não". Ela respondeu e balançou a cabeça.

"Não é verdade, eu não vou morrer acreditando que minha mãe é um monstro, é isto que ele quer. Minha mãe jamais faria isto. E eu não vou implorar. Ele vai me matar de qualquer jeito.", pensamentos em silêncio. Lágrimas querendo escorrer, que ela lutou para segurar.

"Eu também matei um corvo, muitos anos depois, quando aprendi a ver o que os sábios Asthir enxergam. Eu vi a mesma visão que sua mãe viu, que se o príncipe vivesse, ele se vingaria nos filhos de Alinara". Ele se levantou, o machado em sua mão.

"E você era o príncipe. Foi o bobo-da-corte que morreu", ela falou, repetindo uma frase que parecia soprada em seu ouvido. Soprada por uma voz de criança, como a sua.

"Sim, minha sobrinha distante. Eu vi meu amigo morrer em meu nome. Eu vi minha irmã morrer sem nada poder fazer. E agora é a sua vez. Feche os olhos, prometo ser rápido".

A voz ainda parecia soprar em seu ouvido, e Elinara se via a repetir. "Eu não tenho porque fechar os olhos. Uma princesa de Armahel não fecha os olhos para seu destino. Eu sou um Darkos, e um Darkos não teme a morte".

Ele parou, o machado baixando lentamente. Sua voz era lenta, quase um sussurro, quando ele falou novamente.

"As exatas palavras de minha irmã. Ela olhou para sua mãe, e disse estas exatas palavras".

Mais um instante de silêncio, mais longo que todos os outros.

"Diga a sua mãe que ela me deve uma vida. Diga a sua mãe que não fará diferença se ela vai reunir um exército ou se esconder em um reino vizinho. Diga a sua mãe que não fará diferença se ela vai ser rainha ou guerreira. Eu vou encontrá-la, isto eu também vi nas entranhas do corvo. Parta, e leve esta mensagem para sua mãe".

Foi só então que Elinara percebeu que iria viver.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O Vidente e os Três Príncipes

O velho rei viajante agonizava, prestes a iniciar sua derradeira jornada. Três Príncipes aguardavam, em vigília, a notícia de sua morte.

Melkin, o traidor, filho da doce Brunilde, rainha no exílio do reino de Terth, aguardava a chance de se tornar rei, reunir um exército e conquistar para sua mãe o trono que pertencera a seu avô.

Ledrik matador de menestréis, filho da lendária guerreira Dythra, estava disposto a duelar com qualquer de seus meio-irmãos, e se considerava o mais apto a governar o reino.

Rul, o trapaceiro, não tinha nem perfil, nem inclinação para governar. Preferia passar seu tempo em tabernas, bebendo e jogando.

Três príncipes. Um reino. Cada um de uma mãe diferente, cada um vindo de uma cidade. Todos nascidos na noite do mesmo dia, todos dizendo ser o primogênito.

"Sábio, chame o vidente Alghur", o rei disse, de repente, no meio da noite. Da última noite. Sua mão, ainda forte mesmo nesta hora, segurando o braço de seu Sábio, que aguardava sozinho ao lado de sua cama.

"Meu rei, Alghur vê o futuro, mas o futuro que Alghur vê nunca pode ser mudado e sempre se torna realidade. Não é uma boa idéia chamá-lo".

"Ainda não estou morto, Sábio. Ainda sou rei. Chame Alghur", a voz do rei sempre foi rouca, desde que uma espada quase cortou sua cabeça, mas sempre foi carregada de autoridade.

"Sim, milorde".

"E traga-me também meus filhos, os três príncipes inúteis".

E assim foi feito. Ainda antes do nascer do sol, Alghur, o vidente, e os três príncipes, estavam no quarto do grande rei, aguardando suas palavras.

"Alghur, eu quero que olhe e diga o futuro de cada um de meus filhos. Certamente, em apenas um você verá uma coroa. Os outros dois terão que aceitar e não terão porque lutar pelo meu reino, pois o que dizes sempre se torna realidade".

"Milorde, é verdade que o que eu vejo sempre se torna real, mas eu não posso escolher a visão que me será mostrada."

"Apenas faça, feiticeiro. Do contrário estes tolos destruirão meu reino após minha morte".

Alghur olhou para Melkin e disse: "Eu vejo você caído no chão, morto, apunhalado a traição por sangue de seu sangue. Você veste as mesmas roupas que está agora, creio que será ainda está noite."

Alghur olhou para Ledrik e disse: "Eu vejo uma mão soprando veneno em seu rosto, o veneno mortal do pólen de Lathus."

Alghur olhou para Rul e disse: "Eu vejo quatro caixões. Um para seu pai e um para cada um de seus irmãos. Eu vejo você no quarto caixão".

Alghur olhou para o rei e disse: "Eu sinto muito, meu rei, mas parece que nenhum dos príncipes herdará seu reinado".

O rei olhou para Alghur, todas as suas esperanças desfeitas pelas cruéis palavras. Ele tentou falar algo, mas suas forças lhe faltaram, como se as palavras de Alghur fossem como facas trespassando seu coração. Ele ainda segurou o braço de seu Sábio uma última vez e, então, finalmente sua força o abandonou.

"O rei está morto". O Sábio disse, encostando a mão no pescoço do rei, tentando sentir alguma pulsação.

"E os príncipes em breve o seguirão", disse Alghur, em voz baixa.

"Não se seu feitiço for quebrado com sua morte, feiticeiro", bradou Ledrik. Então sacou sua espada e atravessou o corpo de Alghur com ela.

Alghur olhou para Ledrik, guspiu sangue, levantou sua mão, e disse: "tolo, nunca lhe disseram que o veneno de Lathus é a arma dos videntes". Então ele abriu sua mão e soprou um pó. E morreu.

E com ele morreu Ledrik, matador de menestréis, assim conhecido porque um dia matou o menestrel que roubou o coração da mulher que ele desejava. Ledrik, que desde este dia fatídico passaria a ser chamado de Ledrik matador de videntes.

"O que vamos fazer?", Rul disse, virando-se para seu meio-irmão Melkin.

"Afaste-se", disse Melkin, recuando e sacando também sua espada. "Não pense que não ouvi as palavras do vidente. Não vou lhe dar oportunidade de me apunhalar". E Melkin então se virou e saiu correndo pela porta.

"Todos vocês morrerão esta noite", disse o Sábio, olhando para os mortos, e depois para o único outro homem vivo que restou no quarto, Rul. "Eu disse ao rei para não trazer o vidente. Sinto muito, meu bom Rul". Lágrimas corriam pelo seu rosto.

"Ninguém escapa do destino profetizado por Alghur", disse Rul, também olhando para os mortos. "Se o meu é acompanhar minha família nesta última jornada, que assim seja". E nada mais falou.

E assim foi, que o amanhecer foi marcado pelas badaladas do sino, anunciado a morte de um rei e três príncipes.

Brunilde, a doce Brunilde, que enlouqueceu no exílio, vivendo apenas pelo sonho de um dia recuperar seu trono, foi encontrada no estábulo, ainda segurando uma faca ensanguentada em sua mão. A seus pés, jazia seu filho, Melkin, o traidor, assim chamado porque traíra os votos de devoção a seu Deus para resgatar sua mãe. Deste dia em dia, foi conhecido como Melkin, o traído. Brunilde apenas repetia, incessantemente, que seu filho lhe prometera seu reino de volta, e que agora queria fugir e levá-la para um novo exílio.

Todos os nobres da corte foram ao enterro, e acompanharam o transporte de cada um dos quatro caixões. Um a um, o rei e seus príncipes seriam guardados na cripta real.

O Rei Viajante. Ledrik matador de videntes. Melkin, o traído. Rul, o trapaceiro.

Um a um, foram colocados na cripta, para seus restos mortais descansarem em meio a seus antepassados.

Os ossos do Rei Viajante passariam a eternidade junto com o dos antigos reis.

Os ossos de Ledrik seriam, muitos meses depois, roubados pela mulher que ele um dia amou, e jogados aos cães.

Os ossos de Melkin seriam, longos anos depois, transportados para Terth, para descansarem junto com os de sua mãe.

Os ossos de Rul acompanharam o restante de seu corpo, na noite daquele dia, quando ele se levantou e partiu para viver novas aventuras.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Principe Melvin, Matador de Dragões

O dragão me esmaga contra o chão, sua pata em cima de meu escudo. É difícil respirar. Minha espada esta caída, quebrada e além do meu alcance.

O dragão fala.

- Aposto que você achou que seria fácil me vencer, não é, criança? Aposto que veio aqui com a cabeça cheia de histórias dos homens, histórias de heróis matando dragões e resgatando princesas. Você sabia que nós dragões também contamos histórias?

Eu tento tirar minhã mão esquerda por baixo do escudo. Em minhas roupas eu tenho uma ORB mística, a ORB de meu pai, o Rei Magnus. Grandurf, o mago, me disse para somente usá-la na minha hora mais desesperada.

- O que houve? Não consegue falar? - o dragão solta ligeiramente o peso, me permitindo respirar melhor e mover um pouco o braço. - o dragão comeu sua lingua?

Eu tenho que distraí-lo, mantê-lo ocupado tempo suficiente para conseguir pegar a ORB.

- Solte-me e enfrente-me se tem coragem, dragão. Você nunca mais aterrorizará a vila de Mathigan.

- Enfrentá-lo? Eu acho que acabei de enfrentá-lo. E você perdeu. Quem você pensou que era para enfrentar um Dragão, garotinho? Mais um herói que acha que vai viver feliz para sempre?

Era verdade que eu tinha sido derrotado. Minha espada encantada, enfeitiçada pelo próprio Grandurf, se quebrou na pele do dragão. Mas a ORB era de um feitiço ainda mais antigo, estava a gerações na minha família, Grandurf me contou. Meus dedos estavam encostando nela, mas eu precisava segurá-la em minha mão para usá-la. Se eu apenas puder puxá-la com a ponta dos dedos...

- Eu sou Melvin, o verdadeiro príncipe perdido e herdeiro das terras do norte, destinado a libertar nosso reino de todos os dragões e criaturas místicas. Eu vim para libertar esta vila de seu domínio.

- Ah, Grandurf o encontrou e lhe contou seu verdadeiro destino, eu aposto. E o que você era antes de Grandurf visitá-lo e revelar sua verdadeira origem? Um camponês? Um criador de ovelhas? Adoro histórias humanas, nelas vocês sempre são príncipeis e herdeiros de tronos.

Duas semanas atrás, eu pensava ser apenas um aprendiz de ferreiro, morando com meu tio, ou melhor, com um homem que dizia ser meu tio. Mas na verdade eu sempre soube que era diferente, que corria sangue nobre em mim. Quando Grandurf me encontrou, e me revelou minha verdadeira origem, tudo fez sentido. Eu era o príncipe perdido, e a profecia dizia que eu livraria o mundo dos dragões.

Começo a puxar a ORB das minhas roupas com meus dedos e adquiro nova confiança. Mais alguns segundos e poderei usar seu poder.

- Grandurf me treinou, dragão, me treinou para vencer criaturas como você. Eu vou salvar a vila de Mathigan.

- Claro que vai, você vai salvar a vila de Mathigan por um mês inteiro, até eu ter fome novamente. Até o próximo príncipe perdido vir me enfrentar.

Minha mão se fecha na ORB..

- Eu vou derrotá-lo, dragão, vou derrotá-lo com magia mais antiga que sua espécie. Vou derrotá-lo com a ORB dos matadores de dragões, entregue em minhas mãos pelo próprio Grandurf - e me concentro na ORB, uso toda minha força de vontade para ativá-la.

Nada acontece.

- A ORB de Grandurf? Grandurf, que convenceu-o que você era um príncipe? Grandurf, que traz um novo garoto aqui a cada mês, para que eu continue poupando sua vila? Grandurf que encheu sua cabeça das histórias humanas, que terminam com os heróis vencendo e vivendo felizes para sempre?

O pavor toma conta de mim.

- As histórias de dragões são mais simples. Elas sempre terminam com uma refeição. E você sabe qual nossa comida favorita?

Eu apenas balanço a cabeça, em sinal de não. O dragão abre a boca, e então um jato de fogo me envolve.

- Carne assada.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Ana - Terrorista/6

Ana estava sentada em um banco da praça Iwasaki, como se fosse apenas mais uma jovem aproveitando uma folga. Alguns metros a frente, algumas crianças brincavam um jogo virtual, com mini-dragões soltando fogo e pequenos castelos surgindo do chão. Um homem alto, aparentando trinta e poucos anos, vestindo um sobretudo escuro, estava sentado a seu lado.

Homenagem ao avô japonês de Antônio Santos Wu, recém falecido fundador da Corporação Wu, a praça Iwasaki era mapeada em estilo japonês antigo, com templos xintoístas, jardins de pedras e avatares de monges budistas orientando os visitantes. Combinando com o ambiente, o rosto de Ana agora trazia leves traços orientais, mas ainda transmitia a impressão de uma jovem. Sua idade aparente era o assunto da conversa com o homem a seu lado.

- Não entendo sua preocupação, Hector. Vocês, humanos, vivem alterando suas aparências, sua idade, até mesmo seu sexo. Porque é tão estranho fazermos o mesmo? - Enquanto falava, ela acompanhava atentamente as crianças a brincar. Um observador atento perceberia que era um garoto em particular que prendia sua atenção.

- Talvez não seja, mas eu esperava que você voltasse a idade que sempre aparentou, seus trinta e poucos anos, depois de terminada sua última missão. Mas você está mantendo a mesma idade que usou para se aproximar de Mary.

- Eu complementei minha missão, a navegadora não está mais a serviço da corporação. Além disto, Wu, o velho, está morto. Eles nunca estiveram tão vulneráveis, Hector. Não vejo por que está preocupado com a minha aparência, quando estamos fazendo nossa parte do plano de forma perfeita.

- Não estou preocupado com o plano, Ana. Estou preocupado com você.

- Preocupado comigo? - Ana deu uma leve risada, enquanto Hector a olhava, atentamente.

- Talvez esteja gostando desta Mary mais do que quer admitir.

- Hector, temos trabalhado muito próximos há anos para derrubar a corporação e tudo que ela representa. Sei que você gostaria que eu tivesse o mesmo tipo de sentimentos que vocês têm, mas, eu já lhe disse, eu não sou humana. Eu não sinto nada pela navegadora - Ana faz uma pausa, como se estivesse hesitando em continuar - nem por você. Sinto muito.

O rosto de Hector se fechou, por um instante - não é isto. Não estou com ciúmes. Só preocupado.

- Não se preocupe. Retomamos o contato amanhã?

- Como sempre. Espero trazer novidades.

Hector se levantou, deu alguns passos, e desapareceu do cenário virtual. Ana voltou a olhar para as crianças que brincavam a sua frente, ainda mantendo sua atenção no mesmo garoto, uma criança de uns oito anos.

Por dez, talvez quinze minutos, as crianças jogaram, alheias a jovem que as observava. Um complexo jogo de estratégia e fantasia se desenrolava, com castelos se levantando do chão, para em seguida serem derrubados por dragões.

O garoto que Ana observava era possivelmente o mais habilidoso no jogo, mas não estava ganhando. Jogava defensivamente, mais construindo castelos e proteções que criando dragões para destruir os dos oponentes. Mesmo sem estar na frente, havia construído o mais forte castelo, e fortificáva-o agora cada vez mais. Não venceria, mas quando o jogo terminasse, também não teria sido derrotado.

O garoto olhou ao redor, no centro de seu pequeno castelo virtual. As muralhas eram translúcidas, e ele podia ver três ou quatro pequenos dragões tentando, sem sucesso, derrubar as paredes que ele levantou, e os outros jogadores mais ao longe. O banco da praça também era visível, mas ele não chegou a perceber que não havia mais ninguém nele.

- Quando construir um castelo, não esqueça de proteger as paredes de trás tão bem quanto as da frente - o garoto se virou, pulando de susto. Atrás, um pequeno dragão negro o olhava.

- Ok, perdi - ele respondeu, resignado. - Você é o dragão de quem?

- De nenhum de seus amigos. Eu sou um dragão mensageiro.

- Hein? Nunca ouvi isto. Mensageiro de quem?

- Diga a seu pai que você tem uma mensagem de Ana para ele. Diga a Tanho que, se algo acontecer a Mary, eu vou voltar a ver você, e algo muito pior do que isto vai acontecer.

- Isto o que?

O Dragão não respondeu. Ele abriu sua boca e dela saiu um jato de fogo, que queimou completamente o avatar de Timothy.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A Falsa Invasão Alienígena

"Meu pai costumava dizer que há um, e apenas um grande evento que marca cada geração", a voz do congressista Jason Brin era baixa, as mãos enrugadas ligeiramente trêmulas, os olhos focados no documento que acabara de receber. Dois homens estavam sentados em uma mesa, a sua frente. A seu lado, seu amigo e assessor, Dennis Smith.

"Para meu bisavô, foi Pearl Harbor", Brin continuou, "para meu avô, Neil Armstrong pisando na lua. O 11 de setembro, para meu pai." Ele ergueu os olhos para os dois homens a sua frente. "Acho que todos sabemos qual foi o evento que marcou nossa geração. Eu estava no congresso no dia que o presidente declarou lei marcial e avisou que uma frota alienígena estava vindo para a Terra. E vocês estão me dizendo que foi uma mentira."

"Sabemos que é difícil de acreditar, Senhor Brin. Seu assessor também estava cético quando mostramos este documento pela primeira vez". O mais alto dos dois respondeu, e olhou para Dennis.

"Jason, eu receio que não temos escolha além de levar isto ao público. Eu revisei e investiguei cada um dos relatos contidos aqui. Inclusive estive em Roswell e na área 51. É tudo verdade, estamos diante da maior fraude já realizada por líderes de uma nação". Dennis tinha uma voz grave, mas tranquila e firme. Era quase impossível vê-lo zangado ou perdendo o controle.

"Três nações, Dennis. Pelo que estes cavalheiros estão dizendo, os líderes da Rússia e China participaram, junto com nosso presidente, de uma fraude", o Senhor Brin desviou os olhos de seu amigo, e olhou novamente para os dois homens. Ambos estavam de terno e gravata pretos, e óculos escuros. "Se eu entendi corretamente, vocês afirmam que não vai haver nenhuma invasão alienígena. Mais que isto, que desde a época de Roswell, os Estados Unidos fazem parte de um complô mundial para nos fazer acreditar em UFOs e alienígenas.", ele suspirou, "Perdoem-me se estou descrente".

"Na verdade, senhor Brin, as coisas não aconteceram exatamente desta forma. Nós não acreditamos que ouvesse algo tão abrangente planejado na época de Roswell, as mentiras simplesmente foram crescendo de tamanho."

"Eu sei que parece loucura à primeira vista, Jason", Dennis interrompeu o homem de preto. Carl era seu nome, enquanto o menor, até então em silêncio, se chamava Vincent. "Mas quando olhamos passo a passo, as coisas começam a fazer mais sentido. Em Roswell eles apenas queriam esconder a queda do primeiro avião invisível ao radar, e inventaram uma explicação oficial, com um balão metereológico, e um complô, envolvendo alienígenas que teriam caído aqui."

"A tática funcionou melhor que eles esperavam", Carl continuou a explicação de Dennis, "A melhor forma de esconder uma informação é fingir que você está escondendo outra. Quem não acreditou na explicação sobre um balão começou a investigar e ouvir boatos sobre alienígenas. A verdade ficou protegida".

"Ok", Jazon Brin levantou ligeiramente as mãos, em um sinal para ambos pararem, "Esta parte até posso entender. Mesmo todos os outros relatos de UFOs, teoricamente escondidos pelas autoridades, mas na verdade criados por elas para desviar nossa atenção, tudo isto eu posso aceitar. Mas como vocês querem que eu acredite que a invasão alienígena contra a qual estamos nos preparando nos últimos dez anos não existe? Eu vi as fotos não apenas dos nossos telescópios, mas também dos russos e chineses".

"É justamente a ação em conjunto das três nações que fez o mundo acreditar, senhor Brin. A guerra sempre foi um instrumento fundamental da política, mas como é possível fazer guerras quando as grandes potências todas têm armas nucleares? Os Estados Unidos precisavam fomentar suas indústrias, os Chineses precisavam desviar a atenção de sua nova classe média, antes que novas revoltas eclodissem. Quanto aos Russos, bom, eles nunca precisaram de muitos motivos para mentir para seu povo, não?".

"Eu analisei todo este material, Jason, inclusive enviei partes dele para diferentes especialistas. As fotos de nossos telescópios, de naves inimigas se aproximando do sistema solar, são falsas. A grande revelação do presidente, de que havia realmente caído uma nave alienígena em Roswell, foi uma mentira. Tudo foi armado para permitir a declaração de lei marcial e a implantação das reformas econômicas."

O congressista folhou o documento, mas ele sabia que Dennis era extremamente meticuloso, e um perito em encontrar a verdade e reconhecer falsificações.

"Muito bem. Estarei arriscando meu futuro político, mas eu vou levar isto ao congresso, e será investigado. No mínimo vamos interromper toda esta maluquice de produção de armas e abrigos nucleares, até sabermos verdadeiramente o que está por trás de tudo isto".

"Jason, meu amigo", Dennis colocou a mão em seu ombro, "eu creio que você estava errado sobre o grande marco de nosso tempo. O evento que marcará nossa geração será seu discurso, revelando a maior fraude da história."

"Veremos". O congressista e seu assessor se levantaram, e se despediram dos dois homens vestidos de preto.

"O que você acha que vai acontecer agora", o homem mais alto perguntou para o outro, assim que ficaram sozinhos.

"Você conhece o congresso. Eles vão passar os próximos meses em comissões de inquérito e investigações, e tudo vai estar paralisado enquanto isto".

"E depois?".

O homem mais baixo sorri. "Depois, é claro, iniciamos a invasão".

domingo, 14 de agosto de 2011

Família - Terrorista/5

- Como se atreve? Quem você pensa que é para se dizer filha de meu marido - A mulher foi a primeira a falar, a voz alterada, gritando. Eu apenas baixei a cabeça, sem saber o que dizer. Estava para me levantar e sair pela mesma porta que entrei.

- Calma, Silvia, meu amor. Deixe-me pelo menos entender. - Ele olhou para mim, seu rosto não demonstrando fúria, apenas confusão. - Você é uma das... - ele hesitou um segundo, como se escolhendo a palavra certa - uma das filhas de Margareth?

Eu assenti com a cabeça, a garganta trancada. Por que vim aqui? Ele não é meu pai, não importa o que eu tenha dito, não verdadeiramente. Depois consegui falar o suficiente para responder, a voz quase inaudível - Na verdade a única. A única viva.

- Não estou entendendo. Quem é Margareth? E quem é ela? - O garoto. Meu irmão? Será que ele é parecido comigo? O quanto do que eu sou é genético, o quanto é a manipulação? Eu não devia ter vindo, não devia.

- Olhem, me desculpem, eu só vim porque não sabia mais o que fazer, mas me desculpem - Eu peguei minha mochila, largada nos meus pés quando me sentei, e me levantei.

- Espere - Ele me segurou o braço. - Olha, não é como se eu fosse realmente seu pai. Eu nem sabia que você existia. Margareth só tinha usado nosso DNA para produzir - Ele hesitou novamente, não procurando uma palavra, apenas em dúvida do quanto deveria dizer. - Eu não sabia que ela teve uma filha normal.

Normal. Ele achava que eu era normal, não apenas outro experimento de minha mãe. Eu tentei soltar meu braço, mas ele continuou me segurando, firme. - Deixe-me ir - Eu falei. Meus olhos ameaçando novamente lacrimejar. Droga.

- Você não precisa sair ainda. Ninguém aqui vai entregá-la. Já que veio até aqui, vamos pelo menos conversar.

- Deixe-a ir - a voz da mulher. Eu não olhei para ela, mantive os olhos no chão.

- Ela é minha irmã? - O garoto. Fiquei feliz em apenas ouvir isto. Quando criança eu sonhava em ter um irmão, um irmão normal, não como minhas irmãs. Um calafrio me percorreu ao me lembrar delas.

- Silvia, por favor, leve Pedro para o quarto. Eu quero falar a sós com, como é mesmo seu nome?

- Mary. - A mulher sai levando o garoto. Achei que ela iria protestar.

- Sente-se de novo, e vamos conversar, está bem.

Eu me sentei, e naturalmente as perguntas começaram. Felizmente eu sabia as respostas, mesmo as que eu não deveria saber. Algumas não eram o que ele imaginava ouvir.

Ele ouviu mais do que falou, e quando dei por mim, havia revelado mais do que pretendia. Ao final eu estava chorando.

Ele então falou. Tentando se justificar, talvez? Se sentia culpado?

- Margareth e eu queríamos ter filhos, isto foi há quase trinta anos. Era o auge das experiências com neurônios melhorados. Já era comum crianças com 5% ou mais deles, para tratamento de doenças, sem nenhuma alteração cognitiva. Estávamos certos que funcionaria. Que poderíamos ter filhos com 100% dos neurônios otimizados. Havia simulações completas em computador que garantiam que nada daria errado.

Ele respirou fundo, e continuou - Foi por isto que nos separamos, porque ela queria continuar os experimentos, gerar novas crianças, até descobrir o que deu errado. Simplesmente descartar os autistas e psicopatas, e continuar tentando.

- Eles continuam até hoje - eu falei, em voz baixa. - Estão mais perto de fazer funcionar.

- E, no entanto, você está me dizendo que ela usou nosso DNA em você. Que depois de todos os experimentos, ela resolver gerar uma criança normal.

Eu tentei rir, mas o som que saiu de minha garganta não pareceu em nada uma risada.

- Normal, papai? - eu forço a palavra. Uma provocação? O que deu em mim? - Eu sou só mais um dos experimentos de Margareth.

* * *

O escritório virtual de Vincent, na corporação GenSynth, era todo branco, com poucos adornos, uma mesa e duas cadeiras mapeadas. Uma mulher estava sentada em uma delas, enquanto ele estava de pé, ao lado da mesa.

- Ela disse ser filha de Benjamim. - A voz da mulher perfeita demais para ser natural.

- Mary. A navegadora da Corporação Wu. Não a vimos na rede há dias. Devem estar procurando por ela.

- O que devo fazer?

- Nada, por enquanto. Não queremos fazer nada que comprometa sua posição. Apenas mantenha contato. - Com um gesto, Vincent cortou a conexão, e a mulher desapareceu.

Ele ficou em silêncio, imóvel, por mais alguns minutos, apenas planejando seu próximo passo. Depois, voltou a seu trabalho.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Rhenos, Viajante do Tempo, e a Derrota da Grécia

Com a derrota da Grécia e sua conquista pelos Persas, uma nova história seria escrita, mais especificamente uma nova história do planeta Terra e da humanidade.

Era um risco para o império Therquiano, mas um risco que teríamos que correr. Todos os cuidados foram tomados, e, agora, desde que eu não tivesse cometido nenhum erro, a incorporação da Terra no império estaria garantida.

E eu não cometi erros.

Eu olhei em direção ao desfiladeiro a frente, as Thermopylai. Na história que aprendi deste mundo, um passado distante para meus mestres Therquianos, mas o futuro em relação a meu nascimento na terra, aqui iniciaria a derrota de Xerxes e seu exército. Durante dias, milhares de gregos, liderados pelos espartano, deteriam todas as centenas de milhares de soldados do império Persa. O atraso, somado ao impacto na moral das tropas, faria a diferença que resultaria na vitória grega.

Eu garanti ao rei Xerxes que nesta realidade a história seria diferente.

O rei se aproximou, para me consultar uma última vez antes da batalha. Finalmente eu havia conquistado sua confiança, após meses mostrando o valor de minhas palavras.

- Ainda reluto em acreditar no que dizes, enviado dos Deuses. Mesmo com todas as vantagens que o terreno lhes concede, poderiam mesmo alguns poucos milhares de espartanos deter o avanço de meu exército?

- Meu rei, como lhe disse, não há outro exército nesta época que se compare ao de Esparta. Por isto insisti tanto que tentasse de todas as formas que eles não participassem desta guerra.

- Os espartanos são tolos, mas tolos teimosos, e recusaram minhas ofertas.

- Os deuses me mostraram o futuro meu Rei, e embora saiba o quanto minhas palavras o feriram, a verdade é que serias derrotado nesta guerra. Felizmente conseguimos outra forma para garantir que o exército de Esparta não estaria aqui.

- Sem o apoio dos deuses, nenhuma vitória é garantida. Mas vieste para me trazer a visão dos deuses, e também para me garantir a vitória.

- Vivo para servi-lo, meu Rei. - E a meus mestres Therquianos, eu pensei em silêncio, e me vi novamente um garoto, de 7 anos, a beira da morte, único ainda vivo de minha tribo, em um passado ainda mais distante do que este que estou, no dia que fui salvo.

"Alterar o tempo é perigoso". Foi a primeira lição de meus mestres. A Liga Galática puniria o Império Therquiano se soubesse o que estávamos fazendo, por isto só teríamos uma chance de agir, apenas um pequeno movimento, com mínimo sinal de interferência.

Era para isto, para este momento, que eu ainda vivia. Salvo e criado como cidadão Therquiano, apenas para voltar novamente ao passado, mas um passado após o meu para evitar um paradoxo, e garantir a derrota da Grécia.

Com a Grécia derrotada, conforme todas as nossas projeções, no ano 2100 da calendário cristão - se é que haveria uma era cristã - a humanidade ainda não teria pisado na lua, e portanto não estaria protegida de absorção pelo Império Therquiano, de acordo com as leis da Liga.

- Praticamente não haverá Espartanos entre os guerreiros no desfiladeiro, meu senhor, e isto fará toda a diferença. Eu influenciei as previsões dos oráculos deles, proibindo-os de enviar seu exército para cá.

- No entanto - o Rei Xerxes parou um instante, depois continuou - no entanto existem alguns espartanos lá embaixo.

Eu rio da ingenuidade do Rei, mesmo sabendo que rir de um Rei sempre é um perigo. - Apenas uma guarda pessoal, nada que faça qualquer diferença nesta batalha. Apenas um punhado de soldados que nem serão mencionados nos livros de história. Posso garantir, meu Rei, que por mais valorosos que sejam, aqueles lá embaixo não são em número suficiente para ter qualquer importância. Dentre eles, de espartanos, não há mais de trezentos.


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sábado, 6 de agosto de 2011

Criamos um Monstro

- Nós criamos um monstro.

- Como assim, Fred? - Sandro respondeu, uma expressão de surpresa no rosto.

- Nós dois, Sandro, nós dois criamos um monstro naquela quarta-feira, dois meses atrás, quando colocamos o programa para rodar. Nós achamos que tinha dado errado, mas na verdade funcionou.

- Fale baixo - ele respondeu, olhando assustado ao redor, sua voz quase inaudível. Sandro parecia muito estranho, pessoalmente. Muito diferente do hacker ousado e criativo que sempre imaginei. O rosto era feio, o cabelo despenteado, os olhos nervosos. Eu finalmente estava sentado frente a frente com um dos maiores hackers do planeta, e ele não parecia grande coisa ao vivo.

- Ninguém vai nos ouvir no meio de uma praça de alimentação, e não estou falando alto - para conferir, olhei ao redor. Não havia ninguém nas mesas mais próximas e, mais importante, nenhum celular ou netbook. A criatura não tinha como nos ouvir.

- Se descobrirem o que fizemos, nós vamos passar o resto da vida na cadeia. - ele falou tão baixo, que mal pude escutar. Percebi que estava suando, mais nervoso que eu. Será que ele tinha idéia do que fizemos, ou só estava com medo de ser preso?

- Você não me ouviu? A prisão é o menor de nossos problemas. Nossa idéia maluca deu certo, nós criamos um monstro.

- Ah, sei, nós criamos vida, doutor Frankenstein?

- Estou falando sério. Aconteceu exatamente o que era para acontecer quando juntamos o seu vírus com o sistema de inteligência artificial que roubamos. E estou falando bem baixo, pare de se preocupar - ralhei, em resposta aos sinas dele para ficar em silêncio, enquanto eu falava.

- E o que aconteceu? Eu estava lá, também, e o programa não funcionou.

- Não funcionou, ou funcionou bem demais?

- Como assim? - a voz dele cheia de dúvidas.

- Imagine por um momento que tivesse funcionado como planejamos. Imagine que aquele sistema de redes neurais, que emulava o cérebro de uma criança, daquele laboratório em Israel, tivesse efetivamente absorvido o poder computacional de todas as milhões de máquinas zumbis que você colocou para funcionar? O que teria acontecido?

- Ele teria se tornado mais inteligente, ou pelo menos ganho velocidade e mantido a inteligência de uma criança de 3 anos, e teria respondido as perguntas que colocamos no terminal, como o experimento em Israel. - ele respirou fundo, sempre nervoso, a mão direita na mesa, no bolso, de novo na mesa, os olhos percorrendo tudo ao redor. - Mas não foi o que aconteceu. O sistema simplesmente travou.

- Ou...

- Ou o quê?

- Ou teria ficado muito mais inteligente, talvez mais inteligente que um ser humano, e tivesse simplesmente optado por ficar em silêncio, escondido, até decidir como agir.

- E você, de repente, teve esta suspeita do nada, e por isto passou a semana inteira me incomodando, dizendo que precisávamos falar pessoalmente? E não quis falar pelo computador porque achou que este monstro estaria nos ouvindo? Cara, eu sempre achei que eu era o paranóico - como para provar sua paranóia, ele olhou novamente ao redor, desconfiado, a mão direita agora sempre no bolso, a esquerda quebrando um palito de dentes. Na mesa, meia dúzia de palitos já quebrados.

- O mundo ia entrar em uma nova crise mundial, mês passado. Já era dado como certo. A terceira grande crise desde 2015. E, de repente, nada. As bolsas começaram a se recuperar, o otimismo tomou conta dos mercados, o risco começou a desaparecer, como por mágica.

- E? O que isto tem a ver com qualquer coisa?

- Não apenas isto. E a guerra das Coréias?

- Que que tem. Um dia tinha que acabar.

- É, mas foi do nada, pouco mais de um ano depois de terem reiniciado os combates. Subitamente, as potências chegaram em um acordo, as duas Coréias ratificaram, e não apenas cessaram as hostilidades, mas efetivamente encerraram formalmente a guerra.

- Não estou entendendo. Duas boas notícias. Qual o problema?

- O problema é que há um padrão. Estes são só dois exemplos chamativos, mas está em todo lugar. O mundo começou a ficar, inexplicavelmente, mais organizado, seguro, limpo, pacífico. Um processo que começou há dois meses, e vem se acelerando.

- E você acha que isto tem algum tipo de relação com o que fizemos?

- Eu não acho, eu sei. Estive analisando nos últimos dias o fluxo de informações nas suas máquinas zumbis. O padrão mudou completamente, e está muito mais complexo, e aparentemente mais e mais máquinas da Internet estão começando a se comunicar com elas. Nós criamos uma super-inteligência. Na verdade, os cientistas israelenses criaram, mas nós demos para ela a Internet inteira para usar como seu cérebro.

- Tá, vamos dizer que você tivesse razão. Vamos dizer que existe, neste momento, uma criatura inteligente utilizando os computadores do mundo inteiro como sua mente. O que poderíamos fazer? Se contarmos a alguém, em primeiro lugar não vão acreditar, e, se acreditarem, o que vai acontecer é que vamos acabar na cadeia.

- Eles vão acreditar. Já sabem que há algo errado, estive invadindo redes dos principais centros de pesquisa no mundo. Vários analistas estão desconfiados de que alguma coisa está acontecendo, mas a criatura está interferindo e alterando as mensagens que eles se trocam, esta foi a prova definitiva que obtive. A única peça que falta no quebra-cabeça somos nós. Se dissermos o que fizemos, vai ser a explicação que falta, e não vai ser difícil validarem se o que dissermos é verdade.

Ele pareceu pensar por vários segundos.

- Ok - ele disse - vamos dizer que você tenha razão. Será que devemos avisar o mundo? Quer dizer, você mesmo disse, o mundo está melhor, mais seguro. Bem ou mal, a pesquisa de Israel era para criar uma inteligência que nos ajudaria. Por que não deixá-la em paz, se está apenas ajudando.

- Ajudando? Você realmente gostaria que um computador dominasse o mundo?

- Qual a diferença? Melhor ter um computador querendo nosso bem que um bando de presidentes e primeiro-ministros que só estão interessados em tirar proveito próprio. Se existe, mesmo, uma inteligência ajudando a guiar a humanidade, por que não deixá-la em paz?

- Sandro, é nossa responsabilidade. Você está acreditando em mim, não está? Nós criamos este monstro, e temos que ajudar a detê-lo. - Eu queria sacudi-lo, que diabos ele estava pensando? Ou ele não acreditava em mim, ou acreditava e não estava nem aí.

- Fred, mesmo que ele existisse, mesmo que devessemos detê-lo, o que faz você pensar que teríamos alguma chance. Você mesmo disse que ele seria mais inteligente que nós. - Sua voz, ainda baixa, tinha agora um tom de irritação. Ele suava mais e mais, sua mão esquerda pegando um pano no bolso e secando a testa. A mão direita sempre no bolso, os olhos continuamente vasculhando as mesas ao nosso redor.

- Mais inteligente que eu ou você, sim, mas limitado. Ele não tem como agir fora da Internet, por isto que eu precisava falar com você pessoalmente. Na verdade, enquanto falarmos com as pessoas fora da rede, ele não tem como detectar, está completamente cego. Podemos falar pessoalmente com dezenas de cientistas, militares, o que for, e em pouco tempo teremos alertado um número suficiente de pessoas. E ele é frágil. Pense, um simples blecaute já poria ele praticamente fora de operação.

- E porque ele não deteria você antes?

- Como? Ele não tem como agir fora da rede. Ele nem sabe o que estou planejando. Já tenho uma lista de pessoas para alertar, mas será muito mais rápido, e muito mais convincente, se fizermos isto juntos. Você tem todas as evidências do que fizemos.

- Fred, ok, vamos dizer que tudo isto seja verdade. Vamos dizer até que você pudesse detê-lo. Pense, estamos a beira de um mundo sem guerras e injustiças. Você quer realmente pôr tudo isto a perder?

- Para não ser governado por um monstro artificial? Sem dúvida.

- Então eu sinto muito, não tenho mesmo outra escolha.

Um barulho. Uma dor no meu peito. Eu cai da cadeira. Sandro se levantou, uma arma em sua mão.

- Ele só não respondeu para você, Fred. Ele falou comigo naquela noite mesmo. Eu e ele estamos juntos nisto.

- Sinto muito. - ele repetiu, se virou, e começou a correr. Minha visão ficou escura. Tudo começou a girar e ficar escuro.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os Cinco Não Vivos - Parte 5 de 5: Ardath

Ardath

Existem cinco arcanjos. Existem cinco não-vivos. Cláudia contou esta história. Estávamos inventando histórias de terror, de vampiros, lobisomens. Eu contei de uma criança que caiu de uma janela.

A história de Cláudia não foi inventada.

Eu encontrei um dos arcanjos, Sangadriel. Não sei o nome dos outros quatro.

Um dos não-vivos se chama Kabet, e ele tirou um pedaço de meu cérebro. Ele disse que era minha alma. Por causa disto, o arcanjo tentou me matar.

Uma dos não-vivos se chama Kalith, e ela matou meu amigo Pedro. Ela me salvou de Sangadriel, e me disse que havíamos sido amantes em outra vida.

O terceiro não-vivo, Matat, caminhou comigo até a porta de minha casa, e me disse que era hora de me despedir de minha mãe. Acho que ele vai me matar, mas ele me garantiu que não vai fazer mal a ela.

Ele desapareceu quando chegamos em minha casa, não sem antes dizer que eu ainda encontraria os dois outros não-vivos, Luskor - que assumia a forma de sua vítima - e Ardath, de quem eu nada sabia.

Eu abri a porta de casa e entrei. Mamãe estava na sala, e sentada, em outra cadeira, Claudia.

- Filho, que bom que chegou, onde você estava? Eu estava justamente dizendo para Claudia que você teve um pesadelo por causa destas histórias que ela inventou.

- Marta, querida, eu não inventei nenhuma história. Os não-vivos são reais.

- Claudia, isto já foi longe de mais. Julio realmente ficou assustado, e eu quero que você pare agora com isto.

Ela pareceu nem ouvir minha mãe, e se virou para mim - Lembra, Julio, que eu contaria em outra ocasião como surge um não-vivo, como eles são substituídos? - eu acenei que sim, mas acho que ela nem reparou. Na verdade, me veio a intuição que, embora olhasse para mim, era para minha mãe que ela contava a história.

- Imagine que a alma de uma criança seja oferecida ao demônio por sua própria mãe. Digamos que fosse um pequeno bebê, e digamos que sua mãe tivesse esquecido aberta a janela do apartamento. Imagine o bebê caindo lá em baixo, de cabeça no chão, o cérebro se espatifando - Minha mãe estava branca, e eu queria pedir para Claudia parar de falar, mas não consegui dizer nada, e ela continuou.

- Imagine então, esta mãe, agarrando esta criança e sabendo que nenhuma oração a Deus, nenhum pedido por um milagre, traria seu filho de volta a vida. Digamos que, neste momento, esta mãe, no desespero, implorasse até mesmo para o lorde das trevas pela vida de seu filho.

Minha mãe estava com os olhos cheios d´água, lágrimas escorrendo pelo rosto, dizendo 'não' várias vezes, baixinho. Eu corri e a abracei.

- Esta mãe, se fosse justa, ficaria grata a Lúcifer pelos anos que ganhou com seu filho, anos que nenhum milagre de Deus poderia ter lhe dado.

- Você não vai tirar Julio de mim, Claudia - Minha mãe falou, enquanto me agarrava com força.

- Claudia? Claudia está morta a dias. Meu nome é Luskor, e eu e seu filho temos agora que partir.

Ela estende sua mão, e eu sei que não tenho outra escolha além de pegá-la.

- Quanto a Julio, Julio morreu com dois anos de idade. Despeça-se de seu filho chamando-o pelo seu verdadeiro nome: Ardath.