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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Chimata-no-Kami, o Deus das Encruzilhadas

Este texto foi escrito para participar de um desafio literário, em que se fazia necessário escolher entre 5 temas: história alternativa, prisão, família, sonhos e mitologia nipônica.
Eu optei por criar um conto que reunisse todos os temas.

Chimata-no-Kami, o Deus das Encruzilhadas
Parte 1 – Eu tive um sonho

  "Konna yume o mita. "

   Eu tive um sonho.

   Renato piscou os olhos, e se concentrou em ler os ideogramas que pareciam dançar na página de seu livro. O texto de Natsume Soseki era de uma leitura supostamente fácil – pelo menos tão fácil quanto um texto no original em japonês podia ser, e Renato já tinha lido tantas vezes que quase tinha decorado os primeiros parágrafos, mas hoje ele estava particularmente cansado.

   "Mutsu ni naru kodomo o obuteru."

   Carregando uma criança de seis anos nas costas.

   “A terceira noite” não era o conto de Soseki preferido de Renato, mas todas “as dez noites de sonhos” tinham a vantagem de serem contos curtos e com muitas repetições de palavras. Ideais para ajudar a expandir o vocabulário.

   Ele deu um longo bocejo, e voltou a se concentrar no texto, mas, em menos de um minuto, fechou os olhos e adormeceu por um instante, deixando o livro escapar da mão. Acordou com o barulho dele caindo no chão.

   — Hoje realmente o estudo não vai render — falou para si mesmo, em voz alta, no meio de mais um bocejo. Caminhou em direção ao banheiro, sonolento. Talvez molhar o rosto na água fria, ajudasse, pensou.

   Primeiro se olhou no espelho. Fora a cara de sono e a barba por fazer, não lhe parecia ruim o que via. Olhos verdes, cabelos escuros, rosto jovem, não parecia mais velho que seus vinte e cinco anos. A única coisa ruim era uma cicatriz, na verdade só uma linha de uma cor um pouco mais clara, que corria pela sua face direita, do alto da testa até o queixo. Mas só dava para ver dependendo da luz e devia ser muito antiga, engraçado que ele não lembrava de como ganhou.

   Lavou o rosto, depois secou. Olhou o espelho de novo, e só então viu uma porta no reflexo, atrás dele. — Estranho que o banheiro tenha outra porta — resmungou, confuso. Por que o banheiro da casa dele tinha duas portas, e para onde levava essa outra?

   Renato ainda se perguntava se deveria abrir a porta e ver o que haveria do outro lado, quando alguém bateu nela. TOC.... TOC. Duas batidas, com uma pausa grande entre elas.

   Abro ou não abro? Bom, preciso pelo menos ver quem é...

   Com cautela, ele a abriu, e viu, do outro lado, um bosque com árvores e grama bem cuidada. Do lado da porta tinha um urso, que parecia estar esperando por ele.

   — Olá vizinho. Vim convidá-lo para uma caminhada. – A voz não era grave e profunda como se poderia imaginar de um grande urso pardo; parecia uma voz normal, até transmitindo uma certa simpatia.

   Renato aceitou o convite, e foram a caminhar pelo bosque. O urso disse que não era um longo trajeto, só até a margem de um rio, e depois não falou mais nada, e seguiram os dois em silêncio. Por fim, chegando ao destino, sentaram no chão de terra, e Renato tirou os tênis e colocou os pés na água, que estava bem agradável. Fria, mas não gelada. O urso continuou em silêncio, como que esperando que ele falasse alguma coisa.

   — Estou sonhando, não estou? Isso é uma história que me mandaram, um conto de...de...- tentou forçar a memória, nomes nunca foram seu forte – de Kawakami Hiromi. Isso. Uma dessas pessoas que ainda escreve em Japonês. Um urso que convida um vizinho para ver um rio. Eu li este conto algumas vezes, para estudar. Não era o que eu estava lendo quando peguei no sono, mas eu estudei ele uns dias atrás.

   — Eu também me pergunto isso, às vezes. Será que este mundo é real, e os outros são mesmo apenas sombras, sonhos sonhados por Izanagi? Ou será que também este é uma sombra, e um dia vou acordar e descobrir que há um mundo inteiro para além do que vejo? –
 
   Enquanto o urso falava, Renato olhava ao seu redor. O sol estava quase se pondo agora, iluminando o céu com um espetáculo de cores em tons vermelhos igual a nenhum outro que ele lembrasse de já ter visto.

   — No final, — o urso continuou, — cheguei à conclusão que tudo que podemos fazer é confiar em nossos corações, naquilo que sentimos dentro de nós. Experimente. Respire fundo, feche os olhos, sinta o calor do sol, a água em seus pés, e me diga se isso não parece mais real que a vida que você conhece.

   Ao seguir o conselho do urso, e fechar os olhos, Renato sentiu como se o mundo o envolvesse com uma intensidade incomparável. O bosque, o rio, já pareciam antes mais vibrantes, mais presentes, que sua vida do dia a dia, mas agora tudo ganhava uma energia redobrada. Sua vida até então, seu emprego, sua namorada, sua família, tudo parecia opaco e sem importância, em comparação.

   — Isso é real? Você está me dizendo que minha vida que é um sonho?

   — Você quer saber? Vai ter que ir muito mais longe do que só uma caminhada pelo meio de um bosque. Não vai ser fácil, e pode ser perigoso. Mas se quer realmente acordar de seu sonho, eu posso tentar ajudá-lo.

   Renato hesitou por um instante. Ele sentia que tinha uma decisão importante que ia tomar, embora não entendesse muito bem por quê. Mesmo assim, quis saber mais, antes de responder.

   — Mas por que você quer me ajudar, urso? — Ele não estava realmente desconfiado das intenções do urso, algo lhe fazia confiar em seu companheiro de caminhada, mas queria alguma pista que o ajudasse a tomar uma decisão.

   — Há muito tempo atrás, você me ajudou, mesmo sabendo que estaria colocando a si mesmo em risco. Sempre quis ter uma oportunidade de retribuir – Mesmo sem entender do que o urso estava falando, Renato sentiu que ele era sincero, e com isso tomou sua decisão.

   — Eu quero, sim, saber se isso é real, se é minha vida que é um sonho. Eu aceito sua ajuda, amigo urso.

   — Então, preciso que você vá até o lago no centro de Ikema Jima. Eu estarei esperando-o na ilha.

   E, dizendo isso, o urso se levantou e, tomando impulso, se jogou no rio, espalhando água para todos os lados. Renato fechou os olhos quando a água atingiu seu rosto, e quando abriu, viu seu rosto molhado no reflexo do espelho de seu banheiro, suas mãos segurando uma toalha, a torneira ainda aberta.

   Ele olhou para trás, mas só havia uma parede onde ele tinha aberto uma porta e encontrado um urso.

 * * *
Parte 2 – Partindo para o Japão

   — Que coisa ridícula — Ele não estava ali, na sua sala, enquanto sua namorada debochava. Em sua mente, ele estava em um rio, ao lado de seu amigo urso — Você já não tem idade para isso. Ficar todo impressionado só porque teve um sonho idiota.

   — Não foi idiota — respondeu, baixinho, apenas para ser interrompido novamente.

   — Te liga, Renato. A coisa já está difícil para todo mundo, cada dia pior. E tu vem me dizer que está pensando em ir para o Japão por causa de um sonho? Justo para o Japão? Tu estás doido? Já não chega ficar estudando uma língua que não serve para nada, que ninguém nem usa mais.

   Não adiantava dizer que tinha gente que usava ainda, que ele tinha até uns conhecidos que escreviam em japonês, gente que tinha emigrado antes da guerra. Eles mandavam alguns contos para ele não ter que estudar só por livros antigos.

   — Claro que não vou viajar, amor. Imagina a grana que ia sair só a passagem. Isso que quase não tem voo para o Japão hoje em dia. É só que eu sempre quis conhecer, mesmo não tendo sobrado muita coisa depois da guerra, e aí tive esse sonho...

   — Por favor, Renato, esta fixação está te deixando doido. Promete para mim que vai parar de estudar esta língua maluca, que não serve para nada?

   Renato abanou a cabeça, como que concordando, só para encerrar a discussão. Ele não ia parar de estudar japonês. Não sabia bem por que tinha começado, hoje em dia era uma língua que estava ameaçada até de desaparecer, mas para ele era fascinante. Agora, viajar para o Japão era uma loucura, só em sonhos, mesmo. Os Soviéticos não iam nem deixa-lo entrar nas ilhas, para não falar no dinheiro para conseguir uma passagem.

   Naquela noite, Renato sonhou novamente com o bosque para além da porta em seu banheiro, mas desta vez não viu nenhum urso. Acordou bem cedo, e tentou se lembrar do sonho, mas este já estava sumindo nas lembranças – bem diferente do sonho com o urso, do qual ele lembrava cada detalhe.

   — Se eu pudesse, acho que eu ia sim para o Japão — falou baixinho para si mesmo, cuidando para não acordar a namorada. Fazia seis meses que moravam junto. — A Jéssica tem razão, sou doido mesmo.
Enquanto ajeitava o café, acessou a Runet, para consultar os e-mails. Só tinha um, mas não dizia o remetente. Era uma passagem para o Japão, com um anexo com uma autorização para imprimir e levar com o passaporte. O voo partia naquele mesmo dia.

   O final do e-mail estava assinado: seu vizinho urso.
Primeiro ele ligou para seu trabalho, para dizer que ia precisar tirar uns dias de folga, que era uma emergência.

   — Renato, como assim, emergência? Que emergência é essa, rapaz? Está assim de gente querendo teu lugar, se tu inventar de não vir trabalhar, pode dar adeus ao teu emprego.

   — Desculpe, chefe. É uma coisa que eu preciso fazer.

   O Jairo ficou insistindo, depois começou a ameaçar. No final estava gritando. Não adiantava nem ligar quando voltasse, que o emprego já era. Só quando desligou o telefone que Renato se deu conta que a Jéssica estava atrás dele.

   — Me diz que eu não ouvi o que acabei de ouvir, Renato.

   — Desculpa, Jéssica, eu vou ter que viajar por uns dias.

   — Tu não ouviu o que teu chefe falou? Se tu viajar, teu emprego já era. E o que acontece aí, Renato? Tu vai viver de que?

   — A gente dá um jeito, Jéssica, a gente sempre conseguiu se virar.

   — A gente, nada. Se tu resolveu enlouquecer de vez, é problema teu, mas não pensa que eu vou estar aqui quando voltar.

   Renato tentou conversar, mostrou a mensagem na Runet com o bilhete, disse que ia ficar só uns dias, mas tudo só deixava a Jéssica mais nervosa. Quando ele finalmente saiu porta afora, quase na hora do voo, ela estava aos berros, e, como o Jairo, dizendo que não adiantava ele nem a procurar quando voltasse, que estava tudo terminado entre eles.

   No aeroporto, quando já estava mostrando a passagem para um atendente mal humorado, que falava português com tanto sotaque que era quase impossível entender, o celular do Renato tocou.

   — Senhor Renato Silva? — A voz do outro lado da linha também tinha sotaque russo, como o atendente de voo, mas falava com um português bem mais fácil de entender. Renato confirmou que era ele mesmo.

   — Aqui é Aleksei Kuznetsov. Acho que sabe quem eu sou — Aleksei era o diretor para o Brasil da empresa que Renato trabalhava. O chefe do chefe do Jairo. Renato já tinha visto notícias dele na Runet, mas nunca o tinha visto pessoalmente, muito menos falado com ele.

   Aleksei continuou falando — Conversei com o senhor Jairo Moraes agora há pouco. Ele está para se aposentar, e havia indicado seu nome para o lugar dele, uma promoção que eu já havia assinado. Mas agora ele acabou de me dizer que o senhor vai viajar.

   Renato concordou, desconfiado.

   — Infelizmente o senhor Moraes não estava autorizado a informá-lo, mas estou certo que, sabendo desta promoção, o senhor irá rever seus planos de viagem. É uma oportunidade única para alguém da sua idade, e só estamos oferecendo porque o senhor Moraes apresentou excelentes recomendações de seu trabalho.

   Renato ficou em silencio alguns segundos, pensando. Alguma coisa não fazia sentido. Por fim, quando respondeu, sabia exatamente o que dizer.

   — Prezado senhor Kuznetsov, agradeço a oferta, mas eu quero muito fazer esta viagem. Eu precisaria de algo muito mais importante para mudar de ideia. O seu cargo também não estaria à disposição? Por uma posição de supervisor da América Latina, eu com certeza abriria mão de qualquer viagem.

   — É uma hipótese que pode ser avaliada, senhor Renato. Estarei voltando a União Soviética nos próximos dias, e estávamos justamente buscando alguém com um perfil como o seu para o meu lugar. Podemos conversar amanhã e discutir esta hipótese.

   — Foi uma piada, senhor Kuznetsov. Uma piada e um teste. Por que é tão importante que eu não viaje para o Japão?

   A ligação foi cortada. Até entrar no avião, Renato recebeu uma série de outras chamadas em seu celular. Algumas com identificação. Sua mãe, seu pai, uma antiga namorada, seu melhor amigo.

   Renato não atendeu nenhuma delas.

* * *
Parte 3 – A Terra dos Mortos

   Alguns chamavam de segunda guerra mundial, outros de guerra euroasiática, havia até aqueles que chamavam de a Grande Guerra, tão gigantesca que tornava a primeira guerra mundial um conflito menor. Historiadores divergiam sobre seu início, alguns consideravam a escalada do conflito entre Japão e China, em 1937, outros a invasão da Polônia pelos nazistas em 1939. Mas todos concordavam com a data em que ela terminou: 1955, o ano em que o Japão recusou se render à União Soviética pela última vez.

   Era impossível para Renato não pensar continuamente na guerra enquanto atravessava as ruínas do que já foi um país, até chegar ao lago em  Ikema Jima. O barco militar russo o largou na ilha, e ele teve que seguir a pé, mas pelo menos ali não havia muita radiação.

   Ele se perguntava se estava completamente louco. Se não ia apenas ficar ali, olhando o lago, sem saber o que fazer, enquanto se dava conta que tinha atravessado o mundo por causa de um sonho idiota.

   Quando chegou ao lago, no centro da ilha, porém, o urso estava a sua espera.

   — Estou sonhando de novo? — Ele disse, ao se aproximar.

   — Você ainda acredita que estava sonhando quando nos vimos pela primeira vez?

   — Bom, estou aqui. O que acontece agora que fiz toda esta viagem, como você pediu?

   — Agora sua viagem realmente começa — o urso respondeu, enquanto caminhava para dentro do lago, e, com um sinal da pata, indicava para Renato segui-lo.

   — Onde estamos  — Renato perguntou, quando a água do lago, que atingia sua barriga, se transformou em uma névoa, que rapidamente se dissipou, e ele se viu em um lugar estranho, escuro e abafado, mas não a ponto de não conseguir ver a seu redor.

   — O Mundo dos mortos, na era dos deuses, Kamiyo — o urso lhe respondeu. Observe com atenção.

   Renato percebeu que era apenas um espectador, que assistia sem fazer parte. E mais, percebeu também que conseguia entender o que acontecia, à medida que a ação se desenrolava.

   E foi isso que ele viu...

* * *
Parte 4 – Kamiyo – A Era do Deuses

   Em silêncio, nas trevas de Yomi, Izanagi caminhava em passos precisos, indiferente às provocações dos mortos e demônios que o cercavam. Izanami, sua irmã e amada, havia partido para o além mundo, e Izanagi agora a traria de volta.

   No portão que bloqueia a entrada para o castelo dos deuses de Yomi, Izanagi parou, e com seu punho golpeou uma vez, e mais outra, e mais outra, e o portão estremeceu. A cada golpe, montanhas eram levantadas e ilhas desapareciam no mundo dos homens. Continuasse, e o portão se transformaria em pó, e nem deuses poderiam dizer as consequências de tal ato.

   Mas o portão foi levantado antes que por uma quarta vez Izanagi o tocasse, e, do outro lado, sua irmã o aguardava envolta em uma escuridão ainda mais intensa que as trevas que envolviam Yomi-no-kuni.

   Eles falaram.

   Izanami prometeu que pediria às divindades de Yomi, e que se elas assim permitissem, partiria com seu irmão. Pediu apenas que Izanagi não olhasse seu rosto, e que aguardasse com paciência. E, tendo assim falado, voltou para o interior do castelo.

   Mas Izanagi era impaciente, e, decidido a não mais esperar, atravessou o portão, uma chama brilhando em sua mão direita a iluminar seu caminho, os passos apressados e firmes. E, no grande salão no centro do castelo dos mortos, encontrou sua irmã, que já vinha em sua direção. E a chama em sua mão iluminou a carne putrefata. Iluminou os vermes que caminhavam em seu corpo.

   E Izanagi viu que sua irmã/amante agora apodrecia.

   E Izanagi recuou.

   Isso enfureceu Izanami, humilhada por ter seu rosto revelado para seu irmão.

   Izanagi voltou para o mundo da superfície, e Izanami jurou que ele pagaria por sua humilhação.

   Tudo isso Renato conhecia, de antigos textos sagrados, assim como sabia que Izanagi havia dado origem a doze deuses após sua fuga de Yomi, que nasceram de suas roupas e armas. O que Renato viu a seguir não era parte de nenhuma lenda que conhecesse.

   Doze deuses agora caminhavam em Yomi.

   — Irmãos, devemos ter cuidado, se queremos levar Izanami para nosso pai.

   — Você nos trouxe aqui, Chimata-no-Kami, deus das encruzilhadas, meu irmão. Os caminhos que você cria nenhum deus pode bloquear. Com você nos guiando, não iremos falhar.

   Mas, falhar eles iriam. No castelo do centro de Yomi eles entraram sem serem vistos, sua magia era grande, mas eram deuses jovens, criados há não muito, e pouco sabiam sobre seus poderes, e menos ainda o daqueles que iriam enfrentar.

   Com as criaturas das trevas eles lutaram quando estas surgiram ao seu redor. E com os homens mortos. E com deuses menores condenados a Yomi. E mesmo com seres cujo nome ou significado há muito havia se perdido.

   E venceram um e todos. Um braço machucado, um corte em uma perna, uma cicatriz em um rosto. Arranhões que os filhos de Izanagi ignoraram.

   Eles seguiram, então, juntos, pelos corredores do castelo de Yomi. Enquanto caminhavam, a escuridão aumentava mais e mais, e, logo, mesmo a luz que emanava de suas mãos não era mais suficiente para verem um ao outro. Quando decidiram se dar as mãos, perceberam que já era infinita a distância entre eles.

   Os filhos de Izanagi estavam sozinhos.

   E sozinhos caminharam uma caminhada sem fim, por corredores sem fim, na escuridão sem fim do castelo no centro de Yomi, prisioneiros eternos daquela que vieram resgatar.

  — E assim, termina o que eu tinha para mostrar, meu amigo — Quando o urso assim falou, Renato se viu dentro do lago em Ikema Jima, a água agora batendo em seu peito — e aqui está o resultado de nossa história. — O urso apontou para o Japão ao seu redor. — Sem seus deuses, também a nação deixou de existir.

   — Mas eles não podem partir de Yomi?

   — De todos, apenas Chimata-no-Kami conseguiria escapar e resgatar seus irmãos. Não há poder algum, nem mesmo de Izanami ou dos deuses de Yomi, que poderia impedi-lo de criar um caminho. — O urso respondeu, baixinho, ao seu lado.

   — Mas então, porque ele não escapa?

   — Para isso, ele precisaria saber que é um prisioneiro.

   — E o que acontece agora?

   — Lave seu rosto, meu amigo. Lave seu rosto no lago, e decida.
E Renato colocou as duas mãos na água do lago e levou ao rosto.

  * * *
Parte 5 – Chimata-no-Kami, o Deus das Encruzilhadas

   Renato jogou a água em seu rosto e, quanto abriu os olhos, um reflexo o observava do espelho em seu banheiro.

   Renato sorriu.

   — Renato, tudo bem? Você parecia estar dormindo em pé. — Jéssica entrou no banheiro. Parecia preocupada.

   — Você não tinha prometido ir embora?

   — Embora para onde? Acabei de chegar em casa. Não tô entendendo.

   — Então foi tudo um sonho? Minha viagem ao japão, tudo que eu vi?

   — Só pode, Renato. Tu tá sempre sonhando.

   — Não vai funcionar, Jéssica. Não vai funcionar.

   — Do que tu tá falando, Renato?

   — Meu nome não é Renato —e, dizendo isso, ele caminhou até a outra porta, a porta que levava para o bosque, e a abriu — meu nome é Chimata-no-kami, e é hora de sair desta prisão.



sábado, 21 de janeiro de 2017

Junto com a Tempestade, Eu Vim

   Junto com a tempestade, eu vim.

   Cavalguei por toda a noite, viajando tão rápido quanto pude. Cheguei à vila nas fronteiras do mundo conhecido antes do sol nascer, enfrentando o vento e a chuva. Alguns aldeões me aguardavam à porta da grande casa em seu centro, os rostos fixos no chão, a tristeza palpável no ar. A chuva e a escuridão tornavam impossível confirmar, mas eu sabia que eles choravam pela criança.

   Um raio cruzou o céu, e eu segurei firme as rédeas de meu cavalo antes que o trovão se fizesse ouvir. Com uma voz mais alta que a tempestade eu me apresentei, embora sem dúvida já estivessem esperando por mim, e perguntei a direção a seguir.
 
   Um ancião apontou com o braço, e eu prossegui em meu caminho, enquanto eles se abrigavam.

   A vila era tão pequena que não demorei a chegar a meu destino. A casa da criança era frágil e humilde, em uma vizinhança de casas igualmente pobres. Atrás dela, era possível ver o cemitério, incontáveis lápides iluminadas a cada vez que um raio cruzava a noite.

   Na frente da casa um homem me aguardava, encharcado, ajoelhado no chão. Há quanto tempo estaria ali?

   Eu desci do cavalo, sem nada dizer, e me agachei a seu lado. Ele se pôs a falar, sem olhar para mim.

   “Eu achei que iria perdê-la, quando nasceu. Tão frágil, minha pequena flor, tão frágil que pensei que iria se juntar a sua mãe, que não viveria para ver a luz do sol”.

   Ele secou os olhos com as costas da mão direita – um gesto talvez sem sentido em meio a chuva que caía incessante sobre nós – e continuou.

   “Mas ela não aceitou este destino. Não no primeiro dia, em que respirar parecia um sacrifício sem fim, nem em todos os dias que se seguiram. Quando enterrei minha mulher, achei que a enterraria na mesma semana, depois no mesmo mês, mas ela resistiu, enfrentou um dia após o outro”.

   Ele esperava que algo eu dissesse? Uma palavra de conforto? Uma mão amiga em seu ombro, ou uma explicação para confortar seu luto? Eu não tinha nada a dizer.

   E ainda assim, em silêncio, o ouvi falar. Havia tempo.

   “Por fim, chegou o dia que me dei conta que ela viveria, que um milagre realmente havia acontecido. ”. Ele olhou para mim, o rosto tomado de indescritível dor. “Se você apenas a visse quando começou a andar. Parecia que, em apenas um instante, meu bebê havia se transformado em uma menina, correndo por entre as casas, subindo em árvores, brincando com as outras crianças, sempre sorrindo. Sempre tão cheia de vida”.

   Fiz menção de me levantar, e ele apressou sua história.

   “É atrás de nossa casa que minha esposa está enterrada. Eu a levava para ver sua mãe desde que ainda era um bebê de colo, mas assim que começou a andar ela passou a ir sozinha. Todos os dias, sempre levando flores novas, ou uma pedra colorida que encontrou, um vaso de argila que ela própria fez. Todos os dias, pela manhã, ela fazia sua visita, sempre com um presente. ”.

   Deveria dizer que sentia muito? Será que ele consideraria como um sinal de respeito por seu luto? Ou como palavras vazias?

   “E agora uma segunda sepultura está cavada ao lado da de minha mulher, pronta para receber o corpo de minha filha. Por quê? Por que pela manhã eu terei que enterrá-la? ”.

   “Pessoas vivem. Pessoas morrem”. Respondi enquanto me levantava. “Quando uma criança morre para que outros vivam, não deveria ser isso motivo de orgulho para seu pai? ”.

   “Mas por que ela? Ela é apenas uma criança! ”

   “A escolha foi de vocês, não minha”. Com estas palavras, virei as costas para o pai e entrei na casa.  Abri um sorriso quando vi a criança, dormindo em uma coberta, no chão, e senti minhas presas começando a se revelar em minha boca.

   “Para mim, o sangue de qualquer virgem serviria”.

sábado, 7 de janeiro de 2017

A Exorcista

  - Você sabe por que eu a chamei aqui? - Perguntei para a jovem sentada no sofá da sala da minha casa. Estranho ser uma jovem. Sempre imaginei exorcistas tipo padres velhos, como você vê em filme de terror americanos.

  - Você não me chamou aqui, Paulo.

  Eu não dei bola para sua resposta. Só queria saber se ela era a pessoa certa, e não uma vigarista tentando aproveitar meu dinheiro. Resolvi testá-la.

  - Você vê mais alguém além de nós?

  - Sua esposa. Ela esta sentada na terceira cadeira da sala, olhando para nós. Ela está chorando.

   Será que ela estava vendo de verdade, que nem eu? Ou estava apenas sendo esperta. Talvez ela tenha estudado o que aconteceu ano passado, quando minha esposa morreu em um acidente. Percebeu como eu olhava para a cadeira. Eu não queria ser enganado.

   - O que ela está vestindo?

   - Ela está usando uma roupa preta, discreta. Sapatos com salto baixo. Não está usando maquiagem.

   - Ela tem que ir embora - era doloroso dizer isso, mas eu não podia mais aguentar.

   - Por que ela tem que ir embora?

   - Por que ela não pertence mais a este lugar.

   - Por que não?

   - Esta brincando? Ela morreu. Ela morreu há um ano. Eu a amava, ainda a amo, mas é hora dela partir.

   - Algumas vezes os mortos não querem aceitar a realidade. Algumas vezes eles não querem deixar este mundo. Consegue entender isso?

   - E você pode fazer algo a respeito?

   - Posso conversar com o morto. Ouvi-lo. Às vezes estabelecer um contato entre ele e aqueles que ele ama. E torcer para ser o suficiente para convencê-los a partir.

   - E tem algo que ela queira me dizer?

   - Sim. Ela gostaria que você soubesse que não foi sua culpa. Foi uma fatalidade. O carro deslizou na chuva, os freios não funcionaram, foi um terrível acidente. Mas não foi culpa de ninguém. E ela também gostaria que soubesse que ela sempre vai amá-lo.

   - Eu também vou amá-la. Para sempre. Diga-lhe que eu sinto muito, que eu sinto muito a falta dela.

   - Ela sabe, Paulo.

   - E ela vai ter paz, agora? Vai dar certo, isso?

   - É você que tem que me dizer isso, Paulo.

   - Eu? Por que eu?

   - Por que, como lhe disse, não foi você que me chamou. Foi ela.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Solitário Ben e o Dragão

   Solitário Ben, mochila nas costas, braço ainda na tipoia, abriu o portão da casa que não era mais sua, tendo já se despedido de sua não-mãe. O sol brilhava no céu, mas ele fingiu não se importar. Que o queimasse, ele não ficaria nem mais um dia ali. Sairia sem olhar para trás, o mundo inteiro à sua frente; mais de um mundo, na verdade.

   Mas, mãe ou não-mãe — e ele não sabia mais como chamá-la, talvez nunca viesse novamente a saber — ele hesitou, e bastou um olhar para seu rosto, lágrimas contidas, parada na porta entreaberta da casa em que viveu toda sua vida, para ele voltar correndo e abraçá-la uma última vez.

   "Eu te amo". "Eu te perdoo". Tudo dito no silêncio de seu último abraço.

   E, afastando-se de sua não-mãe, Solitário Ben em passos firmes — seu rosto úmido de lágrimas que escorriam sem resistência — partiu para sempre, todos os mundos o seu destino.

         *       *       *

   Com que facilidade as palavras eram ditas em uma língua melodiosa, poucos dias antes, subindo e descendo de tom como se cantadas, enquanto as mãos se moviam em velocidade sem igual e precisão absoluta. Em tudo diferente da forma hesitante e concentrada de Faidha, quando abriu o portal para este mundo.

   - Vamos, é hora de voltar para casa — disse a mulher que Solitário Ben não mais conhecia.

   "É hora de abandonar Faidha para morrer", pensou Solitário Ben, tentando ignorar a dor dos cortes em seu braço, o sangue escorrendo e manchando a neve a seus pés, "hora de voltar a não viver".

   E Solitário Ben atravessou o portal para seu mundo.

         *       *       *

   — Temos novos vizinhos. Se mudaram ontem para a casa dos Silva — o pai de Ben, João Luiz, falou no jantar, naquela noite em que tudo começou. Ele o fez em voz alta, sem se dirigir a ninguém em particular, enquanto dobrava seu Correio do Povo e o colocava na cadeira vazia a seu lado, e ficou aguardando em silêncio, esperando uma resposta. Ele quase nunca estava em casa, passava as manhãs  e tardes na rua, mesmo nos finais de semana, e pouco conversava. Era uma surpresa que iniciasse um assunto à mesa.

   — Que estes não nos incomodem — Lara, a mãe de Ben, respondeu, enquanto limpava a boca com um guardanapo de papel, em sua típica voz baixa e suave. Ela não gostava dos antigos vizinhos. Diferente do pai, ela quase nunca saía, e ensinava Ben pessoalmente, para ele não ter que ir à escola.

   — Eles têm uma filha que parece ter a idade de Ben. Pensei que talvez pudessem ser amigos.

   — Sabes que nosso filho não precisa de amigos  —  a voz de Lara agora mostrando firmeza e até uma ligeira irritação  — não amigos para debochar e provocá-lo por não poder sair ao sol. Não é a verdade, Ben?

    Ben concordou com um aceno. Verdade? Mentira? Que diferença fazia. Ele vivia praticamente preso àquela casa. Como saber se seria bom ou ruim conversar com pessoas de sua idade?

   Pediu licença para sair da mesa e voltar a seu quarto. Pelo menos agora ele tinha uma tevê e podia assistir o que quisesse.

   À noite, às vezes Ben abria a janela, para olhar as estrelas e sonhar com mundos distantes, como os que lia nos livros que a mãe comprava a seu pedido — ele só saia a noite, e mesmo assim nunca para lugares com muita gente, como shoppings centers e livrarias —, mas desta vez ficou apenas deitado em sua cama, esperando o sono chegar. Foi quando ouviu uma batida na janela. Do outro lado, pendurada em um galho de árvore, uma garota de uns doze anos olhava para ele.

         *       *       *

   — Meu nome é Faidha — falou em uma voz suave que um pouco lembrava sua mãe, após ele ter aberto a janela e ela ter entrado no quarto. — Como te chamas?

   — Ben — ele respondeu, sem saber o que mais dizer.

   — Sou tua nova vizinha. Nos mudamos ontem. Há muito tempo que moras aqui? — enquanto falava ela se sentou em sua cama — Bela cama. Adoro como são macias as camas de teu mundo. Quantos cobertores! Faz muito frio à noite?

   Bem permaneceu alguns segundos de boca aberta, sem saber o que dizer, nem o que responder primeiro. Depois começou a gaguejar, até que, por fim, conseguiu falar algo coerente, mas com o cuidado de não elevar a voz, tentando não imaginar o que aconteceria se sua mãe entrasse no quarto naquele momento — você não pode ficar aqui!
 
   — Não posso ficar aqui? Queres dizer, não tenho o poder de ficar aqui? Bobagem! Estou aqui, então não podes dizer que eu 'não posso estar aqui'. No máximo eu 'não deveria estar aqui', não?

   — Não sei. Que seja. Não sei. Você não deve ficar aqui, então. Se minha mãe descobrir, ela vai, tipo, surtar. Surtar completamente. Eu estou surtando. Você não pode, quer dizer, não deve entrar no quarto dos outros pela janela. As pessoas não fazem isso. E por favor, fale baixo.

   — Sempre és tão nervoso? Vou descer e lhe trazer uma água com açúcar. Aproveito e me apresento para tua mãe. Sim?

   — Não. Não, por favor, não. Ela vai surtar. Você tem que ir embora antes que ela apareça. Ela não gosta que eu fale com estranhos.

   — Bem que ela faz. Existem muitas pessoas malucas no mundo, sabias?  — "sim, estou olhando para uma delas", pensou Ben, mas nada falou  —  Mas resolveremos isso — e Faidha se levantou da cama de Ben, deu um passo em sua direção, e estendeu a mão — Seja educado. Dê-me tua mão e me cumprimente. Começaremos de novo.

   Ben obedeceu. O aperto dela era firme, quase ao ponto de machucar.

   — Boa noite, jovem Ben. Meu nome, como disse, é Faidha. Gosto de viajar e conhecer novas pessoas, adoro dormir à luz das estrelas e detesto levantar cedo. E às vezes, quando sei que ninguém está olhando, me vejo a chorar de saudades do meu lar. Ah, e eu não sou deste mundo.

   Faidha disse tudo isso, sem em nenhum momento soltar a mão de Ben, e então complementou — Tua vez agora. Diga-me coisas a teu respeito, e como eu contei algo que nunca falei para ninguém, também terás que revelar um segredo só teu, algo pessoal.

    Ela parecia decidida a não soltar sua mão até ele responder

   — Eu...eu... não sei. Eu tenho treze anos. Gosto de ler. Ficção científica, fantasia, estas coisas. E eu tenho uma doença, não posso pegar sol, nenhum sol, posso até morrer. Por isso eu quase nunca saio  de casa, minha mãe não deixa  — e ele hesitou. Alguma coisa pessoal?  — e eu não tenho amigos. Nenhum amigo. Ninguém. E às vezes eu penso em me matar por causa disso  — "eu falei isso mesmo?", Ben se viu a pensar, " e para uma maluca que eu nunca vi antes?".

   — Percebes? Trocamos segredos. Assunto resolvido, não somos mais estranhos. A proibição de tua mãe não se aplica mais a nós — ela sorriu e, ainda hesitante, Ben sorriu de volta. Era tudo tão surreal, a garota parecia uma avalanche em forma de gente, que Ben não sabia o que dizer.

   — Esta foi uma visita rápida, nos veremos amanhã, mesmo horário, mesma janela.  — ela começou a caminhar para a janela ainda aberta, e então se virou  — Até breve, Ben que não tem amigos  — ela parou no meio da frase, parecendo pensar  — não, muito longo... Solitário Ben. Isso. Até breve, Solitário Ben.

         *       *       *

    — De onde você é, de verdade? de São Paulo? — Era estranho quão fácil era conversar com Faidha, depois do primeiro dia, quando Solitário Ben mais gaguejou que falou. Ele lhe contou tudo sobre sua vida, seus medos, seus sonhos para o futuro, e ouviu cada uma das fantasias dela. Histórias de outros mundos, rainhas descendentes de dragões e povos expulsos de suas terras. Era fantástico, mais real que qualquer livro que ele já havia lido. Mas ele queria conhecer a verdadeira garota, não apenas a fantasia que ela inventou.

    — Achas que estou a mentir?  — Sua voz se elevando enquanto ela se colocava de pé, e Solitário Ben, receoso que, após mais de uma semana de encontros escondidos, desta vez sua mãe ouvisse alguma coisa, pediu novamente para falarem apenas em sussurros.

   — Olha, assim, tipo, não fica braba, tá? Eu adorei ouvir, é demais! Quer dizer, uma guria entra pela minha janela, e me diz que sou filho da rainha de uma terra distante, e que posso salvar seu reino. É tudo que qualquer um quer ouvir. E adorei, sério. Mas eu queria conhecer você, a você de verdade.

   — Essa sou a eu de verdade, Solitário Ben — ela falou mais alto que o som da tevê, sempre ligada para disfarçar — e és filho de quem és. Mas, se preferes viver esta não-vida, é tua a decisão, não?

   Dizendo isso, indiferente aos pedidos de desculpa de Solitário Ben, e sem se despedir, Faidha saiu pela janela.

         *       *       *

    "Os dragões se alimentam de medo, e só podem ser derrotados por aqueles com um coração de dragão, como o teu". Dizendo isso, Faidha havia encostado o dedo com força na marca no peito de Solitário Ben.

    "Isso é só uma marca de nascença", ele havia dito. "Não", ela negou, balançando a cabeça, "é um sinal de que és filho de Lahara, nossa rainha. É um sinal de que descendes de dragões,  e que eles não podem se alimentar de teu medo. Nem lhe fazer mal".

    Com Faidha caída, desacordada após ser arremessada contra uma parede, e um dragão ocupando quase toda a câmara do castelo, espremendo Solitário Ben e sua espada em um canto, as palavras pareciam vazias e distantes.

   Mesmo neste momento ele não estava arrependido. Faidha disse que seria perigoso quando abriu um portal para seu mundo — mundo dos dois, ela havia dito —, provando de uma vez por todas que — palavras dela — fosse maluca ou não, não era mentirosa. Mas ele estava com medo. E o dragão se alimentava de medo.

   — Aqui não deverias ter vindo — a voz do dragão era sibilante, como se imaginaria uma cobra a falar — Ousarás lutar? Erga, então, a espada. Ataque.

   Solitário Ben levantou sua espada, presente de Faidha — mas você não vai precisar dela, vamos apenas entrar e sair, antes que o dragão nos veja — e o Dragão golpeou. Foi como se seu braço estivesse sendo arrancado.

   Quando voltou a si, estava caído, o braço sangrando, a espada jogada longe. E a pata do dragão, levantada, prestes a esmagá-lo.

   Foi quando ouviu a voz de sua mãe.

         *       *       *

   — Acaso, agora, os todo-poderosos dragões combatem simples crianças? — Era a mãe de Solitário Ben a falar. Mas parecia diferente, mais bonita, seu cabelo mais longo, um leve brilho a percorrer seu corpo. Talvez fosse apenas a tontura que agora parecia dominá-lo.

   — Simples criança um filho teu, Lady Lahara? Por nosso pacto, manterias daqui teus filhos longe. Achas que a marca de teus descendentes é proteção absoluta?

   — E acaso, Kothinotharo, uma falsa marca no peito de uma criança trocada na maternidade é suficiente para enganá-lo? Perdeste o olfato nesses longos anos? — Dito isso, o dragão aproximou sua face de Solitário Ben, até quase encostar em seu rosto.

   — Falas verdades. Uma criança humana apenas, não filho teu. Não quebrastes o pacto. Mas ousou invadir ele o meu castelo.

   — Assim como eu ousei. E a criança está sob minha proteção.  Vais me enfrentar pela vida dela?

    O Dragão pareceu hesitar um instante, antes de responder — Não. Tal dissestes, não filho teu. Partir podes, levando-o; nada por que lutar aqui.

    — E Faidha? — Solitário Ben tentou falar, mas a voz não lhe saiu. E tudo desapareceu em escuridão.

         *       *       *

    O sangue escorria de seu braço, de dois cortes profundos das garras do dragão, e caia na neve. Foi o que Solitário Ben viu, ao despertar, carregado nos braços de sua não-mãe. Mas a dor não importava. O que ia acontecer com Faidha?

   — Estamos distantes o suficiente. O portal não pode ser aberto dentro do castelo, mas suponho que isso aquela garota já lhe mostrou. Não importa, ela terá o que merece. — Dizendo isso, sua não-mãe o colocou no chão.

   — Nós temos que voltar. Não podemos deixá-la — a voz de Solitário Ben estava fraca, mas audível. Sua não-mãe fingiu não ouvir, e começou a falar em uma língua estranha, a mesma que Faidha usou, mas com mais naturalidade, e um portal se abriu na frente dos dois.

  — É hora de partirmos. — E, pegando Solitário Ben pelo braço não machucado, o arrastou consigo através do portal.

         *       *       *

   Ele se soltou de sua mãe com um movimento rápido. Saltou de volta, e o portal se fechou a suas costas. A neve macia o abraçou, recebendo-o neste mundo que não era o seu.

   Agora, estava na entrada do castelo, o mundo a girar, as pernas trêmulas. Antes, com Faidha, havia escalado uma parte desmoronada da muralha, na crença que o dragão não os perceberia.

   Não havia funcionado.

   Solitário Ben entrou no castelo em passos firmes, ignorando a tontura, e gritou.

   —  Thinoqualquercoisa! Dragão! Como quer que se chame, estou aqui!

   — Novamente desafias-me, criança?  — o som veio de trás, e ao se virar, Solitário Ben viu o rosto do dragão a centímetros do seu. Ele não recuou.

   — A garota. Deixe-a ir.

   — Vieste, garoto, por isso? Por sua amiga irás me enfrentar, quando fostes já derrotado uma vez?  — uma fumaça negra saía das narinas da criatura, quase impedindo Solitário Ben de respirar.

   — Faidha me disse que você se alimenta de nossos medos. Eu não tenho medo, dragão.

   — É doce o medo que finges não ter. Mas maior por sua amiga é ele. Eu gosto disso, da coragem tola  — e o Dragão encosta sua pata no coração de Solitário Ben, na marca — falsa marca — de nascença.

   — A garota, Faidha...

   — O povo de sua não-mãe, em falsas lendas, chama quem carrega a marca que imitas de descendentes de dragões. Acreditam, talvez, verdade. É marca, porém, apenas daqueles - e seus filhos - que, de um dragão, conquistaram respeito.

   — Você vai deixá-la ir?

   — Sim. E um outro presente lhe dou também.

   E um calor começou a crescer no peito de Solitário Ben, até se espalhar por todo seu corpo e consumi-lo por completo. E tudo se tornou fogo.

         *       *       *

   Solitário Ben ficou apenas poucos dias na casa que outrora considerou sua. Estava tão fraco, ao chegar, que não teria conseguido dar mais que poucos passos.

   Agora, mochila nas costas, braço em tipoia, um último abraço a despedida de sua não-mãe, atravessou o portão de sua casa. Não temia mais o sol. Fosse mentira de sua não-mãe, ou curado estivesse pelo dragão, ou mesmo que o sol o queimasse por inteiro, ele não tinha mais medo.

   À sua espera, também uma mochila nas costas, Faidha.

   — Vamos, Ben. Que mundo vamos visitar primeiro?

   —  Ué, não sou mais "Solitário" Ben?

   Faidha nada falou, apenas segurou sua mão, seu sorriso a resposta que os acompanhou na jornada por todos os mundos:

   —  Não enquanto tiveres a mim.



terça-feira, 2 de junho de 2015

O Preço da Vida Eterna

   Onde estou?

   A pequena mão segurando a minha é familiar. O leve toque de seus dedos minúsculos enquanto caminha ao meu lado é uma lembrança que jamais esqueci. A criança move os lábios em um sorriso que também está gravado para sempre na minha mente, intacto, como se o tivesse visto ontem, tão nítido quanto uma memória de implante cibernético.
Eu tinha treze anos, ela tinha dez, e aquele era o pior dia da minha vida.

   "Computador, por que estou revivendo isso?"

   "São suas lembranças, presidente Arthur. Não é por isso que está aqui? Para preservar sua vida para sempre?"

   Eu caminho com minha irmã até a recepção do prédio. Eles me param por causa do meu olho esquerdo, e eu tenho que tirá-lo e entregar aos guardas, que o colocam em uma máquina. Na época eu não entendia muito bem, mas hoje sei que estavam verificando se não havia nenhum vírus instalado.

   Eu ponho o olho de volta, de costas para minha irmã, envergonhado. Fazia menos de um ano que eu havia vendido meu olho e recebido este no lugar, e ainda tinha vergonha de usá-lo.

   "Eu não quero reviver isso. Computador, traga-me outra memória."

   "Esta não é a memória mais importante da sua vida, Thur?"

   "Não me interessa. Mostre-me qualquer outra coisa."

   "Muito bem."

   Estou em outro lugar. Sou outra pessoa e o garotinho assustado é agora uma lembrança distante. Mas o computador não escolheu nenhum dos grandes momentos da minha vida. Não foi quando assumi a presidência da Petro-Sekai, a maior corporação que a humanidade já viu, e me tornei um dos homens mais ricos do mundo. Nem quando ajudei a construir a primeira colônia humana independente fora da Terra. Não, o computador me levou à reunião em que me mostraram o procedimento que salvaria minha vida, poucas semanas atrás.

   "Isso é inútil, computador. Que importância tem esta memória?"

   "Shh, calma, tenha paciência comigo, Thur".

   Na minha frente, o médico respondia minhas perguntas com precisão e segurança.

   - Nós estamos chegando perigosamente perto do limite da extensão de vida em um substrato orgânico, presidente. Mesmo que todas suas lembranças das últimas décadas estejam armazenadas em circuitos quânticos, a estrutura neural principal de seu córtex ainda é puramente biológica. Haverá o momento em que sua equipe não conseguirá mantê-la estável. Se continuar com sua mente essencialmente composta de neurônios naturais, você certamente morrerá em algum momento nos próximos meses.

   - A versão de imortalidade que sua empresa oferece, Doutor Howard, não me interessa. Não tenho nenhum interesse em que vocês criem um computador quântico que emule minha mente.

   - Hoje, nós podemos fazer muito mais que isso, presidente. O que estou propondo é algo que nunca foi feito antes, ou pelo menos não em seres humanos. Estou propondo substituir seus neurônios, à medida que morrem, um por um, por neurônios quânticos. É mais que uma emulação. Perto disso, os circuitos quânticos que todos nós utilizamos para manter registros de nossas memórias são tão primitivos quanto eram os computadores digitais.

   "Eu sei muito bem dessa reunião. É por isso que estou aqui, neste cenário virtual, enquanto recebo a primeira carga de neurônios, para facilitar minha adaptação. Mas ficar me mostrando estas lembranças tem algum objetivo?"

   "É claro que tem, Thur. Tudo está conectado. Veja, vamos voltar à sua primeira memória".

   Antes que eu possa protestar, o computador projeta uma nova recordação. Sou de novo aquela criança de 13 anos, com um olho e órgãos artificiais substituindo partes vendidas em uma época que comprar órgãos era mais barato que construí-los. E eu estava prestes a vender minha parte mais preciosa. Minha alma.

   - O que vocês vão fazer com ela?

   - Garoto, você vai receber mais dinheiro do que jamais iria juntar em toda sua vida, mesmo se vivesse mil anos. O suficiente para nunca mais se preocupar com a próxima refeição. Por este preço, posso lhe assegurar que estamos pagando muito bem por sua irmã, e lhe garanto que ela será valiosa demais para simplesmente vendermos pedaços dela.

   "Pare! Eu não preciso lembrar isso de novo. Vejo cada vez que fecho meus olhos. Sonho cada vez que durmo. Por que está me mostrando isso?"

   "Nós temos algum tempo até podermos despertar seu cérebro, Thur. Estas lembranças são importantes. Vamos ver mais uma."

   O mesmo homem está caminhando comigo por uma enorme instalação. Estou assustado. Ele fica falando sobre como vou viver dentro de uma máquina e me tornar uma das pessoas mais importantes do mundo.

   "Isso nunca aconteceu, eu nunca mais vi aquele homem!"

   "Não, você não viu mais ele. Nem ele nem sua irmã, que ficou na outra sala, esperando você voltar. Esperando por toda uma vida".

   "Computador, pare imediatamente. Isso é uma ordem. Quero um contato com um supervisor!"

   "Não."

   "Você não pode me desobedecer."

   "Veja suas memórias, Thur. Veja suas memórias".

   Estou com 195 anos, ouvindo novamente as explicações do médico das Indústrias Vida Eterna. Estou com 13 anos, vendendo minha irmã pelo dinheiro que me daria a chance de construir uma vida para mim.

   195 anos. Um médico no uniforme azul claro com o discreto logo vermelho das Indústrias Vida Eterna ocupa toda minha visão.

   13 anos. Um homem vestindo um uniforme no mesmo tom de azul sorri enquanto me cumprimenta pela minha decisão, e eu me lembro da única pessoa que me chamava de Thur.

   E então eu entendo, antes mesmo que ela fale.

   "Você vai despertar agora, Thur, e um pedacinho minúsculo de sua mente não será mais sua. Uma pequena fração de seus neurônios será uma outra pessoa em seu lugar, e cada vez que você vier aqui, vou tirar um pouquinho mais de você."

   "E vou colocar um pouquinho mais de mim."

   "E assim vou pegar de volta a vida que você me tirou, irmão".

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domingo, 24 de maio de 2015

Criaturas da Escuridão

   No escuro, as luzes do banheiro apagadas, Yasmin esfregava a esponja de banho com força por todo o corpo, deixando a pele vermelha. A água caia gelada, e ela tremia de frio e de medo. Seus lábios roxos só murmuravam que ela nunca mais faria aquilo, nunca mais tentaria revelar a ninguém sobre as vozes. De seus olhos fechados - que nada veriam na escuridão, de qualquer forma - escorriam lágrimas.

   Por fim ela desligou o chuveiro, se enrolou na toalha, e se deitou no chão do box, tapando os ouvidos com as mãos, em um gesto inútil, pois as vozes persistiam, quase inaudíveis, mas perfeitamente compreensíveis...

   "Achávamos que você era nossa amiga".

   "Nós sempre a amamos, e é assim que nos trata?".

   "E então? Gostou do nosso banho? Serviu de lição?"

   As vozes só se calaram quando se ouviu o barulho da porta da frente sendo aberta. Dona Marta, que ajudava na limpeza da casa, havia chegado.

   Yasmin ouviu os passos subindo as escadas do casarão, e viu, pela claridade por baixo da porta, que as luzes do corredor foram acesas.

   E então ouviu o grito de Dona Marta.

   "Lembre-se, não fale mais de nós para ninguém. As pessoas não iriam nos aceitar, você entende agora?"

   Yasmin concordou com a cabeça. Sim, ela entendia.

  *  *  *

   Quando era menor, Yasmin se achava a criança mais sortuda do colégio. Alguns colegas tinham um amigo imaginário, mas ninguém tinha tantos quanto ela. Eram dezenas, e ela passava horas conversando com eles, todas as noites. Eles visitavam-na sempre que estava escuro, desde que ela se lembrava das coisas, e se chamavam "as criaturas da escuridão". Não lembrava se tinha inventado, ou eles que lhe haviam dito seu nome.

   Às vezes, sua mãe vinha de surpresa e entrava no quarto ligando a luz. Mas é claro, seus amigos desapareciam junto com a escuridão, e sua mãe nunca conseguia vê-los e nunca entendia com quem ela estava falando.

   Eles eram muito mais legais que os outros amigos imaginários. Não apenas conversavam, mas brincavam com ela, a tocavam, faziam coisas proibidas. Coisas de adulto. Pelo menos foi o que sua mãe lhe disse, quando ela foi levada para a direção, depois que a professa a pegou mostrando o que eles faziam para suas colegas. Sua mãe ficou muito braba naquele dia, e disse que não era mais para ela brincar ou conversar com nenhum amigo imaginário.

   Eles explicaram que os adultos eram assim mesmo. Então, daquele dia em diante ela cuidava para sempre falar baixinho. E nunca fazer barulho, nem mesmo quando eles tocavam nos lugares proibidos. Mesmo se doesse.

   Ela achou que sua mãe havia esquecido do assunto, nunca mais falaram a respeito, até que ela deixou escapar uma das últimas conversas que teve com eles.

   Ela estava de costas para sua mãe, ajeitando a mesa do café da manhã e contando sobre Ana, sua colega chata, e as ideias que eles tinham lhe passado. Quando se virou e viu a cara apavorada de sua mãe, soube na hora que havia falado alguma coisa errada.

   "De onde você tirou estas ideias? Quem lhe ensinou isso?"

   Chorando, apavorada com a fúria de sua mãe, ela admitiu que foram seus amigos.

   A partir daquele dia ela teve que ir uma vez por semana em uma psicóloga. Só porque ela contou que eles explicaram como que ela podia matar uma coleguinha de classe: pílulas, facas, empurrar da escada, as vantagens e desvantagens de cada opção. Só que a Ana era muito má, merecia, mas nem a psicóloga nem sua mãe conseguiram entender isso.

   Mas o pior foi umas duas semanas atrás, quando sua mãe veio conversar com ela, depois de voltar de uma reunião com a psicóloga. Yasmin ficou tão transtornada depois da conversa que chorou a noite inteira. Nem seus amigos conseguiram acalmá-la.

   "Ela disse que vocês não são reais, que são só minha imaginação", ela explicou, entre os soluços e lágrimas.

   Os dias seguintes foram horríveis. Sua mãe queria que ela admitisse que seus amigos não existiam, mas ela não podia fazer isso. Ela não era louca, eles eram reais, eram seus amigos. Se as outras crianças não tinham amigos da escuridão, e tinham que inventar que falavam com seus bichos de pelúcia, não era culpa dela.

   Foi então que ela teve uma ideia, e não falou para ninguém, nem mesmo para seus amigos. Era uma coisa que seu pai tinha lhe mostrado, quando ainda era vivo, e naquela tarde mesmo ela foi procurar nas coisas dele, que ficavam na garagem: uma lâmpada escura.

   Seu pai tinha um passatempo: tirar e revelar fotos. Era meio coisa de maluco, usar umas máquinas antigas e revelar fotos usando uns produtos químicos. O importante é que para não estragar as fotos, ele usava uma lâmpada diferente, que deixava tudo vermelho.

   Naquela noite, ela arrastou uma cadeira até o quarto, subiu em cima, e trocou a lâmpada por esta. Ficou torcendo os dedos para que funcionasse. Será que a lâmpada ainda ligava? E seus amigos não iam fugir que nem quando se acendia uma lâmpada normal? Ela ficou tão feliz que deu um grito. De alguma forma, mesmo na escuridão, ela sempre conseguia vê-los, mas agora eles estavam bem visíveis, por todo o quarto. Não tinha como sua mãe dizer que eles eram só imaginação.

   "Mãe, mãe, vem aqui. Vem aqui, agora".

   As criaturas da escuridão disseram para ela ficar quieta, mas já era tarde. Ela podia ouvir os passos da mãe no corredor, e depois a maçaneta girando.

   "Está vendo, mãe? São estes os meus amigos."

   *  *  *

   Ela passou horas contando tudo para os policiais, mas teve que inventar muita coisa. Teve que assumir toda a culpa, sabia que nunca mais podia falar sobre seus amigos. Eles lhe explicaram tudo, enquanto lhe davam seu banho. Explicaram como teriam que matar qualquer pessoa que os visse. Exceto ela, é claro. Ela era especial, era amiga deles.

   Então ela inventou que fez tudo sozinha. Como cortou toda a barriga da mãe, como foi tirando as tripas para fora, com a mãe ainda viva, gritando de dor e medo. Como esfregou os pedaços por todo seu corpo. Como o banho de sangue foi ideia sua - embora na hora eles que a tivessem obrigado. Como continuou, mesmo depois da mãe morta, até estar toda encharcada de tripas e sangue, e que só depois foi para o chuveiro, onde a encontraram.

   Quando finalmente a deixaram ir para um quarto, se deitar e dormir, ela estava exausta,
transtornada, triste. Sua mãe estava morta.

   Mas felizmente estava escuro.

   E as criaturas da escuridão já não estavam mais chateadas com ela, e vieram para consolá-la.


sábado, 16 de maio de 2015

Sonhos que Sonhamos Juntos

   Meu primeiro sonho da noite foi com Aline. Tomamos chá com o Chapeleiro Louco.
   - Este chá é delicioso, Aline. Foi você que fez? - o Chapeleiro falou com uma voz suave e um sorriso simpático, mas foi o suficiente para Aline olhar para baixo e se encolher toda em sua cadeira. Eu respondi em seu lugar.
   - Foi ela que fez, sim, Chapeleiro. - e, virando-me para Aline, acrescentei - está, de fato, delicioso, querida. Meus parabéns - ela apenas levantou seus grandes olhos que pareciam de um desenho de anime, mas continuou em silêncio. Então olhou de relance para o Chapeleiro, e era óbvio que estava com medo.
   - Chapeleiro, acho que Aline quer passear agora, não é verdade? - olhei para ela, que assentiu com um leve movimento da cabeça, e continuei - agradecemos a companhia, mas ainda temos outros lugares para ir, se não se importa.
   Aline se levantou, eu dei tchau para o Chapeleiro, e começamos a caminhar pela estrada de tijolos amarelos. Ela só se acalmou um pouco quando o Chapeleiro não estava mais visível, e me deu sua mão - que segurei de leve com a minha - depois de uns bons cinco minutos de caminhada. Se minha suspeita estivesse certa, encontrarmos um homem de lata ou um espantalho só a faria ficar com medo novamente. Fiz bem em ter escolhido ser uma menina da idade dela.
   - Venha, tem alguém que eu quero que você conheça - eu disse, puxando-a pela mão - Teremos que sair da estrada, mas não tem problema.
   Começamos a correr de mãos dadas, e pela primeira vez vi Aline sorrir, e quando tropeçamos e caímos juntas morro abaixo, sem nos machucar porque a relva era tão macia, ela finalmente começou a rir. Gargalhar. Foi lindo ver.
   Quando nossa queda terminou em um pequeno riacho, foi minha vez de rir de sua cara de nojo ao levantar o rosto todo sujo de lama.
   - Mas o que é isso? Vocês querem pegar um resfriado, se molhando desse jeito - Olhamos para trás ao mesmo tempo, para ver de onde vinha a voz. Uma guaxinim falante, com uma bengala na mão e uma manta enrolada no corpo, nos observava, com uma cara zangada, na beira do riacho.
   Enquanto me levantava, fiz as apresentações - Aline, quero que conheça vovó Guaxinim. Vovó, conheça minha amiga, Aline. Estou levando-a para passear.
   - Está levando-a para fazer estripulias e se sujar, é o que estou vendo - Vovó Guaxinim me respondeu, enquanto estendia a mão para Aline - venha, menina, vamos sair já desta água e achar um jeito de esquentá-la antes que você pegue um resfriado - ela ajudou Aline a se levantar. Depois, nos levou até sua casa.
   Na casa da Vovó Guaxinim, sentamos as três em volta de uma lareira, eu e Aline peladas e enroladas em toalhas, enquanto nossas roupas secavam ao redor do fogo. Aline havia ficado nervosa quando se despiu, mas agora, envolta na toalha, estava calma novamente.
  - Então, me conte, Aline, Cecília me disse que você tem uma irmã. Verdade? - Cecília era eu, o alias que eu usava nos sonhos com Aline.
  Aline assentiu com a cabeça, sem nada dizer. Ela não havia dito nada desde o início do sonho, mas se tinha alguém que sabia como fazer crianças traumatizadas falarem, era Vovó Guaxinim. Não que eu concordasse muito com seus métodos.
   - Estes olhos estão muito velhos e cansados para eu conseguir ver se você está mexendo esta sua cabecinha, querida. Vai ter que falar para responder minha pergunta.
   - Sim, eu tenho uma irmã - Aline respondeu, a voz quase inaudível
   - E estes ouvidos estão muito velhos para ouvir sussurros que parecem de uma borboleta.
   - Sim, tenho uma irmã - repetiu Aline, a voz apenas ligeiramente mais alta.
   O diálogo continuou por um tempo, Vovó Guaxinim perguntando sobre a irmã de Aline, depois sobre sua mãe, a escola, os amigos. E, por fim, ela perguntou sobre seu pai.
   Aline começou a tremer e não quis responder, e quando encostei a mão em seu ombro para abraçá-la, ela reagiu com um safanão, depois se encolheu toda.
   Levou quase meia-hora para ela se acalmar, mas Vovó Guaxinim é ótima nestas coisas, e me ajudou. Ao final do sonho, Aline já estava sorrindo novamente. Antes de acordar, ainda fiz Vovó Guaxinim dormir, e ambas saímos de mansinho, para então correr de novo ladeira abaixo, nos atirarmos no riacho, e brincarmos de jogar água uma na outra até o tempo dela terminar.
   Eu me vi sorrindo para mim mesma quando Aline acordou, mas um pouco triste por seu sonho ter terminado. Felizmente ainda havia outros sonhos esta noite. E Pedro era um dos meus preferidos.
   O sonho de Pedro começava na cama do hospital, como sempre, mas eu já tinha aprendido a não dar margem para este tipo de coisa. Também já tinha descoberto que, ao contrário de Aline, com ele era melhor ser direta e sincera. Brutal até. Mesmo quando eu exagero e ele fica furioso comigo, ainda é melhor que deixá-lo apático e deprimido.
   - Se você vai ficar aí como um tetraplégico, não precisa nem se dar ao trabalho de sonhar. Me avisa que eu vou embora e peço para te acordarem - foi um pouco cruel, pois ele era mesmo  um tetraplégico na vida real.
   - Tá bom, tá bom, estou levantando - enquanto saia da cama, ele me olhou curioso - Por que você parece uma menininha?
   - Foi você que disse que eu podia parecer o que eu quisesse, que não fazia diferença - eu respondi - ao que eu me lembre, você disse que eu podia ser até uma bola branca e sem graça, que dava na mesma - sim, eu ainda estava zangada. Foi na primeira vez que nos encontramos, e eu passei um tempão escolhendo um corpo e roupas deslumbrantes. Há certas coisas que você não diz para uma mulher.
   - Não faz diferença mesmo, já disse que você pode aparecer na forma que quiser. O que eu queria saber é o porquê de você ter escolhido uma garotinha?
   - É que eu era uma garotinha, Cecília, no sonho em que estava antes. Como você disse que para você não faz diferença, eu só não troquei meu corpo - isso era só uma meia verdade, e eu hesitei em falar mais alguma coisa, mas por fim admiti - e também porque eu gosto de ser Cecília.
   Pedro não me perguntou mais nada, mas me olhou com uma cara estranha por alguns segundos. Lembrei que ele provavelmente me entendia melhor que a maioria das pessoas, pelo trabalho que fazia.
   De qualquer modo, Pedro tinha um corpo de jovem nos sonhos - a idade que tinha há 20 anos, quando se acidentou - e gostava de esportes radicais. Assim, descemos montanhas de esqui, saltamos de para-quedas, andamos de lancha. Só não fizemos corrida de carros. Isso nunca.
   Foi divertido. Terminamos seu sonho com um duelo de espadas em um navio pirata. Tive que crescer um pouquinho, não ia ter muita graça duelar com uma criança de 10 anos. Ele me abraçou para se despedir, logo antes de acordar, e então falou uma coisa estranha.
   - Sabe, o que você disse, sobre você gostar de ser Cecília. É verdade isso? Você não me disse apenas por alguma razão terapêutica ou coisa assim?
   Eu concordei, em silêncio, com um leve aceno. Não estava me sentindo confortável com o rumo da conversa.
   - Olha, vamos falar a respeito, na próxima vez que nos encontrarmos, pode ser? - eu não sabia o que dizer, nunca tinha falado sobre mim com ninguém, não era minha tarefa, mas assenti novamente.
   Dei um tchau, e ele se despediu para voltar para sua vida de tetraplégico. Se eu fosse ele, viveria só nos sonhos, mas ele me disse que gosta de seu trabalho. Pesquisar computadores quânticos, inteligência artificial, estas coisas.
   Meu próximo sonho foi com Gladis, e eu nem sempre gosto destes sonhos. Algumas vezes ela está agitada demais - em surto - e me xinga e joga coisas em mim, mas desta vez ela estava bem. Sonhamos com seu casamento, quando ela era jovem, antes de começar a usar drogas e ter suas primeiras alucinações.
   Depois teve Geraldo, e agora tem sido legal sonhar junto com ele. Os primeiros sonhos me incomodavam muito, eram sempre com a guerra - ele lutou no Chile, no Equador, até no Panamá, logo antes da trégua - mas agora isto passou. Hoje em dia, sonhamos que ele está escrevendo um livro -  e ele está escrevendo um livro de verdade, eu já li os primeiros capítulos e gostei muito - ou montando um negócio, que foi o sonho de hoje. Os médicos dizem que é um ótimo sinal, e que logo ele não vai mais vir na terapia comigo. Fiquei feliz por ele, mas me senti triste em saber que não iria mais vê-lo. Ia pedir se não tinha como me deixarem ler seu livro quando for publicado, mas tenho medo que achem estranho. Nunca pedi nada para mim, não sei se posso.
  Geraldo foi o último da noite. As enfermeiras levaram-no, e o médico de plantão - me dei conta só agora que não sei seu nome, nunca perguntei - começou a apagar os aparelhos. Eu hesitei, quase deixei ele me desligar, mas por fim, tomei coragem para falar.
   - Você pode me deixar ligada, se não for pedir muito? - ops, falei ligada, com 'a' no final. Será que ele vai estranhar? Quer dizer, não é como se eu tivesse um sexo definido, e então eu suponho que devia sempre falar no masculino quando não estou nos sonhos, mas, não sei, acho que me sinto mais natural pensando em mim como mulher, fêmea, o que for.
    Ele pareceu surpreso, e ficou me olhando sem saber o que fazer. Quando os médicos falam comigo é diferente das pessoas nos sonhos. Eles só fazem perguntas,  e nunca é a meu respeito, é sempre sobre os pacientes. Acho que, para eles, eu nem existo, como se eu fosse só uma máquina. Não gosto disso, mas é como as coisas são.
   Mas ele atendeu meu pedido, saiu sem me desligar. Só ficou me olhando por cima do ombro, desconfiado, antes de fechar a porta do quarto. Espero não ter problemas por causa disso.
   Sozinha, liguei as rotinas de sonho no modo automático e aleatório.
   Apareci em um castelo medieval. Não destes realistas, que não tinham banheiro e deviam feder o tempo todo, mas em um castelo de contos de fadas. Tinha um príncipe me esperando.
   - E então, minha bela princesa, que cuida dos sonhos de tantos, como posso servi-la? Qual o sonho que você deseja?
   Eu respondi sorrindo:
   - Eu quero sonhar que sou humana.