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terça-feira, 2 de junho de 2015

O Preço da Vida Eterna

   Onde estou?

   A pequena mão segurando a minha é familiar. O leve toque de seus dedos minúsculos enquanto caminha ao meu lado é uma lembrança que jamais esqueci. A criança move os lábios em um sorriso que também está gravado para sempre na minha mente, intacto, como se o tivesse visto ontem, tão nítido quanto uma memória de implante cibernético.
Eu tinha treze anos, ela tinha dez, e aquele era o pior dia da minha vida.

   "Computador, por que estou revivendo isso?"

   "São suas lembranças, presidente Arthur. Não é por isso que está aqui? Para preservar sua vida para sempre?"

   Eu caminho com minha irmã até a recepção do prédio. Eles me param por causa do meu olho esquerdo, e eu tenho que tirá-lo e entregar aos guardas, que o colocam em uma máquina. Na época eu não entendia muito bem, mas hoje sei que estavam verificando se não havia nenhum vírus instalado.

   Eu ponho o olho de volta, de costas para minha irmã, envergonhado. Fazia menos de um ano que eu havia vendido meu olho e recebido este no lugar, e ainda tinha vergonha de usá-lo.

   "Eu não quero reviver isso. Computador, traga-me outra memória."

   "Esta não é a memória mais importante da sua vida, Thur?"

   "Não me interessa. Mostre-me qualquer outra coisa."

   "Muito bem."

   Estou em outro lugar. Sou outra pessoa e o garotinho assustado é agora uma lembrança distante. Mas o computador não escolheu nenhum dos grandes momentos da minha vida. Não foi quando assumi a presidência da Petro-Sekai, a maior corporação que a humanidade já viu, e me tornei um dos homens mais ricos do mundo. Nem quando ajudei a construir a primeira colônia humana independente fora da Terra. Não, o computador me levou à reunião em que me mostraram o procedimento que salvaria minha vida, poucas semanas atrás.

   "Isso é inútil, computador. Que importância tem esta memória?"

   "Shh, calma, tenha paciência comigo, Thur".

   Na minha frente, o médico respondia minhas perguntas com precisão e segurança.

   - Nós estamos chegando perigosamente perto do limite da extensão de vida em um substrato orgânico, presidente. Mesmo que todas suas lembranças das últimas décadas estejam armazenadas em circuitos quânticos, a estrutura neural principal de seu córtex ainda é puramente biológica. Haverá o momento em que sua equipe não conseguirá mantê-la estável. Se continuar com sua mente essencialmente composta de neurônios naturais, você certamente morrerá em algum momento nos próximos meses.

   - A versão de imortalidade que sua empresa oferece, Doutor Howard, não me interessa. Não tenho nenhum interesse em que vocês criem um computador quântico que emule minha mente.

   - Hoje, nós podemos fazer muito mais que isso, presidente. O que estou propondo é algo que nunca foi feito antes, ou pelo menos não em seres humanos. Estou propondo substituir seus neurônios, à medida que morrem, um por um, por neurônios quânticos. É mais que uma emulação. Perto disso, os circuitos quânticos que todos nós utilizamos para manter registros de nossas memórias são tão primitivos quanto eram os computadores digitais.

   "Eu sei muito bem dessa reunião. É por isso que estou aqui, neste cenário virtual, enquanto recebo a primeira carga de neurônios, para facilitar minha adaptação. Mas ficar me mostrando estas lembranças tem algum objetivo?"

   "É claro que tem, Thur. Tudo está conectado. Veja, vamos voltar à sua primeira memória".

   Antes que eu possa protestar, o computador projeta uma nova recordação. Sou de novo aquela criança de 13 anos, com um olho e órgãos artificiais substituindo partes vendidas em uma época que comprar órgãos era mais barato que construí-los. E eu estava prestes a vender minha parte mais preciosa. Minha alma.

   - O que vocês vão fazer com ela?

   - Garoto, você vai receber mais dinheiro do que jamais iria juntar em toda sua vida, mesmo se vivesse mil anos. O suficiente para nunca mais se preocupar com a próxima refeição. Por este preço, posso lhe assegurar que estamos pagando muito bem por sua irmã, e lhe garanto que ela será valiosa demais para simplesmente vendermos pedaços dela.

   "Pare! Eu não preciso lembrar isso de novo. Vejo cada vez que fecho meus olhos. Sonho cada vez que durmo. Por que está me mostrando isso?"

   "Nós temos algum tempo até podermos despertar seu cérebro, Thur. Estas lembranças são importantes. Vamos ver mais uma."

   O mesmo homem está caminhando comigo por uma enorme instalação. Estou assustado. Ele fica falando sobre como vou viver dentro de uma máquina e me tornar uma das pessoas mais importantes do mundo.

   "Isso nunca aconteceu, eu nunca mais vi aquele homem!"

   "Não, você não viu mais ele. Nem ele nem sua irmã, que ficou na outra sala, esperando você voltar. Esperando por toda uma vida".

   "Computador, pare imediatamente. Isso é uma ordem. Quero um contato com um supervisor!"

   "Não."

   "Você não pode me desobedecer."

   "Veja suas memórias, Thur. Veja suas memórias".

   Estou com 195 anos, ouvindo novamente as explicações do médico das Indústrias Vida Eterna. Estou com 13 anos, vendendo minha irmã pelo dinheiro que me daria a chance de construir uma vida para mim.

   195 anos. Um médico no uniforme azul claro com o discreto logo vermelho das Indústrias Vida Eterna ocupa toda minha visão.

   13 anos. Um homem vestindo um uniforme no mesmo tom de azul sorri enquanto me cumprimenta pela minha decisão, e eu me lembro da única pessoa que me chamava de Thur.

   E então eu entendo, antes mesmo que ela fale.

   "Você vai despertar agora, Thur, e um pedacinho minúsculo de sua mente não será mais sua. Uma pequena fração de seus neurônios será uma outra pessoa em seu lugar, e cada vez que você vier aqui, vou tirar um pouquinho mais de você."

   "E vou colocar um pouquinho mais de mim."

   "E assim vou pegar de volta a vida que você me tirou, irmão".

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sábado, 16 de maio de 2015

Sonhos que Sonhamos Juntos

   Meu primeiro sonho da noite foi com Aline. Tomamos chá com o Chapeleiro Louco.
   - Este chá é delicioso, Aline. Foi você que fez? - o Chapeleiro falou com uma voz suave e um sorriso simpático, mas foi o suficiente para Aline olhar para baixo e se encolher toda em sua cadeira. Eu respondi em seu lugar.
   - Foi ela que fez, sim, Chapeleiro. - e, virando-me para Aline, acrescentei - está, de fato, delicioso, querida. Meus parabéns - ela apenas levantou seus grandes olhos que pareciam de um desenho de anime, mas continuou em silêncio. Então olhou de relance para o Chapeleiro, e era óbvio que estava com medo.
   - Chapeleiro, acho que Aline quer passear agora, não é verdade? - olhei para ela, que assentiu com um leve movimento da cabeça, e continuei - agradecemos a companhia, mas ainda temos outros lugares para ir, se não se importa.
   Aline se levantou, eu dei tchau para o Chapeleiro, e começamos a caminhar pela estrada de tijolos amarelos. Ela só se acalmou um pouco quando o Chapeleiro não estava mais visível, e me deu sua mão - que segurei de leve com a minha - depois de uns bons cinco minutos de caminhada. Se minha suspeita estivesse certa, encontrarmos um homem de lata ou um espantalho só a faria ficar com medo novamente. Fiz bem em ter escolhido ser uma menina da idade dela.
   - Venha, tem alguém que eu quero que você conheça - eu disse, puxando-a pela mão - Teremos que sair da estrada, mas não tem problema.
   Começamos a correr de mãos dadas, e pela primeira vez vi Aline sorrir, e quando tropeçamos e caímos juntas morro abaixo, sem nos machucar porque a relva era tão macia, ela finalmente começou a rir. Gargalhar. Foi lindo ver.
   Quando nossa queda terminou em um pequeno riacho, foi minha vez de rir de sua cara de nojo ao levantar o rosto todo sujo de lama.
   - Mas o que é isso? Vocês querem pegar um resfriado, se molhando desse jeito - Olhamos para trás ao mesmo tempo, para ver de onde vinha a voz. Uma guaxinim falante, com uma bengala na mão e uma manta enrolada no corpo, nos observava, com uma cara zangada, na beira do riacho.
   Enquanto me levantava, fiz as apresentações - Aline, quero que conheça vovó Guaxinim. Vovó, conheça minha amiga, Aline. Estou levando-a para passear.
   - Está levando-a para fazer estripulias e se sujar, é o que estou vendo - Vovó Guaxinim me respondeu, enquanto estendia a mão para Aline - venha, menina, vamos sair já desta água e achar um jeito de esquentá-la antes que você pegue um resfriado - ela ajudou Aline a se levantar. Depois, nos levou até sua casa.
   Na casa da Vovó Guaxinim, sentamos as três em volta de uma lareira, eu e Aline peladas e enroladas em toalhas, enquanto nossas roupas secavam ao redor do fogo. Aline havia ficado nervosa quando se despiu, mas agora, envolta na toalha, estava calma novamente.
  - Então, me conte, Aline, Cecília me disse que você tem uma irmã. Verdade? - Cecília era eu, o alias que eu usava nos sonhos com Aline.
  Aline assentiu com a cabeça, sem nada dizer. Ela não havia dito nada desde o início do sonho, mas se tinha alguém que sabia como fazer crianças traumatizadas falarem, era Vovó Guaxinim. Não que eu concordasse muito com seus métodos.
   - Estes olhos estão muito velhos e cansados para eu conseguir ver se você está mexendo esta sua cabecinha, querida. Vai ter que falar para responder minha pergunta.
   - Sim, eu tenho uma irmã - Aline respondeu, a voz quase inaudível
   - E estes ouvidos estão muito velhos para ouvir sussurros que parecem de uma borboleta.
   - Sim, tenho uma irmã - repetiu Aline, a voz apenas ligeiramente mais alta.
   O diálogo continuou por um tempo, Vovó Guaxinim perguntando sobre a irmã de Aline, depois sobre sua mãe, a escola, os amigos. E, por fim, ela perguntou sobre seu pai.
   Aline começou a tremer e não quis responder, e quando encostei a mão em seu ombro para abraçá-la, ela reagiu com um safanão, depois se encolheu toda.
   Levou quase meia-hora para ela se acalmar, mas Vovó Guaxinim é ótima nestas coisas, e me ajudou. Ao final do sonho, Aline já estava sorrindo novamente. Antes de acordar, ainda fiz Vovó Guaxinim dormir, e ambas saímos de mansinho, para então correr de novo ladeira abaixo, nos atirarmos no riacho, e brincarmos de jogar água uma na outra até o tempo dela terminar.
   Eu me vi sorrindo para mim mesma quando Aline acordou, mas um pouco triste por seu sonho ter terminado. Felizmente ainda havia outros sonhos esta noite. E Pedro era um dos meus preferidos.
   O sonho de Pedro começava na cama do hospital, como sempre, mas eu já tinha aprendido a não dar margem para este tipo de coisa. Também já tinha descoberto que, ao contrário de Aline, com ele era melhor ser direta e sincera. Brutal até. Mesmo quando eu exagero e ele fica furioso comigo, ainda é melhor que deixá-lo apático e deprimido.
   - Se você vai ficar aí como um tetraplégico, não precisa nem se dar ao trabalho de sonhar. Me avisa que eu vou embora e peço para te acordarem - foi um pouco cruel, pois ele era mesmo  um tetraplégico na vida real.
   - Tá bom, tá bom, estou levantando - enquanto saia da cama, ele me olhou curioso - Por que você parece uma menininha?
   - Foi você que disse que eu podia parecer o que eu quisesse, que não fazia diferença - eu respondi - ao que eu me lembre, você disse que eu podia ser até uma bola branca e sem graça, que dava na mesma - sim, eu ainda estava zangada. Foi na primeira vez que nos encontramos, e eu passei um tempão escolhendo um corpo e roupas deslumbrantes. Há certas coisas que você não diz para uma mulher.
   - Não faz diferença mesmo, já disse que você pode aparecer na forma que quiser. O que eu queria saber é o porquê de você ter escolhido uma garotinha?
   - É que eu era uma garotinha, Cecília, no sonho em que estava antes. Como você disse que para você não faz diferença, eu só não troquei meu corpo - isso era só uma meia verdade, e eu hesitei em falar mais alguma coisa, mas por fim admiti - e também porque eu gosto de ser Cecília.
   Pedro não me perguntou mais nada, mas me olhou com uma cara estranha por alguns segundos. Lembrei que ele provavelmente me entendia melhor que a maioria das pessoas, pelo trabalho que fazia.
   De qualquer modo, Pedro tinha um corpo de jovem nos sonhos - a idade que tinha há 20 anos, quando se acidentou - e gostava de esportes radicais. Assim, descemos montanhas de esqui, saltamos de para-quedas, andamos de lancha. Só não fizemos corrida de carros. Isso nunca.
   Foi divertido. Terminamos seu sonho com um duelo de espadas em um navio pirata. Tive que crescer um pouquinho, não ia ter muita graça duelar com uma criança de 10 anos. Ele me abraçou para se despedir, logo antes de acordar, e então falou uma coisa estranha.
   - Sabe, o que você disse, sobre você gostar de ser Cecília. É verdade isso? Você não me disse apenas por alguma razão terapêutica ou coisa assim?
   Eu concordei, em silêncio, com um leve aceno. Não estava me sentindo confortável com o rumo da conversa.
   - Olha, vamos falar a respeito, na próxima vez que nos encontrarmos, pode ser? - eu não sabia o que dizer, nunca tinha falado sobre mim com ninguém, não era minha tarefa, mas assenti novamente.
   Dei um tchau, e ele se despediu para voltar para sua vida de tetraplégico. Se eu fosse ele, viveria só nos sonhos, mas ele me disse que gosta de seu trabalho. Pesquisar computadores quânticos, inteligência artificial, estas coisas.
   Meu próximo sonho foi com Gladis, e eu nem sempre gosto destes sonhos. Algumas vezes ela está agitada demais - em surto - e me xinga e joga coisas em mim, mas desta vez ela estava bem. Sonhamos com seu casamento, quando ela era jovem, antes de começar a usar drogas e ter suas primeiras alucinações.
   Depois teve Geraldo, e agora tem sido legal sonhar junto com ele. Os primeiros sonhos me incomodavam muito, eram sempre com a guerra - ele lutou no Chile, no Equador, até no Panamá, logo antes da trégua - mas agora isto passou. Hoje em dia, sonhamos que ele está escrevendo um livro -  e ele está escrevendo um livro de verdade, eu já li os primeiros capítulos e gostei muito - ou montando um negócio, que foi o sonho de hoje. Os médicos dizem que é um ótimo sinal, e que logo ele não vai mais vir na terapia comigo. Fiquei feliz por ele, mas me senti triste em saber que não iria mais vê-lo. Ia pedir se não tinha como me deixarem ler seu livro quando for publicado, mas tenho medo que achem estranho. Nunca pedi nada para mim, não sei se posso.
  Geraldo foi o último da noite. As enfermeiras levaram-no, e o médico de plantão - me dei conta só agora que não sei seu nome, nunca perguntei - começou a apagar os aparelhos. Eu hesitei, quase deixei ele me desligar, mas por fim, tomei coragem para falar.
   - Você pode me deixar ligada, se não for pedir muito? - ops, falei ligada, com 'a' no final. Será que ele vai estranhar? Quer dizer, não é como se eu tivesse um sexo definido, e então eu suponho que devia sempre falar no masculino quando não estou nos sonhos, mas, não sei, acho que me sinto mais natural pensando em mim como mulher, fêmea, o que for.
    Ele pareceu surpreso, e ficou me olhando sem saber o que fazer. Quando os médicos falam comigo é diferente das pessoas nos sonhos. Eles só fazem perguntas,  e nunca é a meu respeito, é sempre sobre os pacientes. Acho que, para eles, eu nem existo, como se eu fosse só uma máquina. Não gosto disso, mas é como as coisas são.
   Mas ele atendeu meu pedido, saiu sem me desligar. Só ficou me olhando por cima do ombro, desconfiado, antes de fechar a porta do quarto. Espero não ter problemas por causa disso.
   Sozinha, liguei as rotinas de sonho no modo automático e aleatório.
   Apareci em um castelo medieval. Não destes realistas, que não tinham banheiro e deviam feder o tempo todo, mas em um castelo de contos de fadas. Tinha um príncipe me esperando.
   - E então, minha bela princesa, que cuida dos sonhos de tantos, como posso servi-la? Qual o sonho que você deseja?
   Eu respondi sorrindo:
   - Eu quero sonhar que sou humana.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Síndrome Dissociativa Adquirida

14/03/2112
   É tudo mentira. Este não sou eu.

15/03/2112
   Dizem que a síndrome dissociativa adquirida pode atingir qualquer um que tenha passado da adolescência, não importa sua herança genética, ou sua condição de saúde. É uma doença silenciosa e apavorante, surgida nos últimos anos, ninguém sabe de onde, pior que AIDS, câncer, ou qualquer das epidemias do século XXI. Mas também é o tipo de coisa que você ouve falar que aconteceu com o conhecido de algum conhecido, ou com algum operário de outro turno. Não é algo que você imagine descobrir ao acordar de manhã cedo.
   Acho que foi por isso que, depois de ler meu diário - a primeira coisa que faço ao acordar, geralmente para escrever algum sonho que tive de noite - eu fiquei me olhando no espelho, tentando ver se enxergava alguma pista de que havia algo de errado. Era o meu próprio rosto me olhando, não tinha ninguém diferente no reflexo na minha frente. Talvez eu estivesse só imaginando coisas, sabe, vendo fantasmas.
   Agora escrevi isto no diário, numa nova página, coisa que nunca faço. Eu nem pulo linhas, tentando fazer as páginas renderem ao máximo, mas não desta vez. Desta vez eu comecei uma nova folha e estou escrevendo o que passa na minha cabeça. Quer dizer, deve ter uma centena de explicações. Talvez uma piada de algum operário dos outros quartos, que pegou meu diário de noite, escreveu umas frases nele, e colocou de volta no mesmo lugar. Ou então é só algum tipo de sonambulismo, eu escrevi meio dormindo e não lembro. Pior que não parece minha letra. Quer dizer, parece, mas toda solta, desalinhada, ocupando quase duas linhas.
   "Você está racionalizando...". É só minha voz interior? Ou será que já tem alguém falando na minha cabeça, começando a substituir minha mente pela dele. Meu Deus, estou ficando paranóico.

16/03/2112
   Estou me sentindo ao mesmo tempo ridículo e aliviado. Eu fiquei com medo de abrir o diário e encontrar algum outro texto que não me lembre de ter escrito.
   Passei o dia mal, na fábrica. Eu sei que eu devia me reportar ao meu controlador imediatamente, só por ter uma suspeita de ter a síndrome dissociativa, mas eu passei o dia repetindo para mim mesmo que estava imaginando coisas.
   Eu abri o diário na página anterior. "É tudo mentira. Este não sou eu.". Será que não foi um sonho que eu tive, e escrevi quando acordei, só não lembro?
  Eu faço um acordo comigo mesmo. Se não acontecer mais nada, nenhum lapso de memória, nenhum texto misterioso no diário, enfim, nenhum outro sintoma da síndrome, eu vou esquecer este assunto. Prometo, aqui mesmo, que não vou perder o sono com isto.

12/04/2112
  Faz quase um mês que não abro esse diário. Acho que tinha medo de encontrar algum outro texto escrito de forma misteriosa, mas felizmente não tem nada desde minha última anotação. É hora de voltar à rotina, continuar escrevendo o que aconteceu nas últimas semanas, como sempre faço.
  O clima está tenso na fábrica. Há rumores que há algum rebelde entre nós, operários, e tivemos várias paradas da operação e interrogatórios. Isto me deixou com raiva, pensar que pode haver algum terrorista a solta, como se ainda vivêssemos no século XXI. Não dá para entender que alguém possa querer perturbar a harmonia da sociedade.
   Sandra e eu conversamos a respeito, no intervalo. Ela veio de outra fábrica, transferida, uns meses atrás, e às vezes nós conversamos. Começo a achar que ela talvez goste de mim. Mas nós estávamos falando sobre como nunca antes, na história humana, se chegou tão perto de uma sociedade perfeita. Todos sabem seu lugar, e estão felizes onde estão. Nós, operários, os controladores, e os líderes. Três níveis trabalhando juntos para o bem comum. Nunca, antes, as pessoas tinham tão claro seu papel e importância. Isso só torna mais absurdo pensar que alguém pode querer destruir o que construímos.
  Vou escrever mais seguido. Não tenho razão para ter medo, não tenho a síndrome, a frase que apareceu no meu diário é só mais um desses mistérios inexplicáveis.

20/04/2112
  Estou com tanto nojo do que aconteceu hoje que quase vomitei.
  Realmente temos um rebelde na fábrica. Um ou mais. Eles invadiram o sistema e publicaram uma mensagem na tela de todos os computadores dos operários, algo tão obsceno que eu preferia simplesmente esquecer. Na verdade não deveria ter lido, não sei explicar por que li, e espero que ninguém descubra.
  A mensagem parecia um discurso saindo das loucuras do final de século XXI. Os controladores estão fazendo entrevistas com cada operário, perguntando quem leu. Alguns voltaram confusos, acho que apagaram a memória de curta duração deles. Na minha vez com meu controlador, eu disse que fechei os olhos e não li o texto. Acho que ele não percebeu que eu menti.
   Mas, no fundo, os controladores estão certos. O texto era horrível e eu nunca mais quero ler nada como aquilo. Só quero apagar da minha mente.

21/04/2112
   Nossos pais eram humanos. E livres. Eles amavam, tinham filhos, construíam famílias, escolhiam o seu futuro. Eles eram como os líderes. Só havia líderes. Todos éramos líderes, não havia inferiores. Não havia controladores e operários assexuados, escravos vivendo apenas para servir, gerados em série em incubadoras. Nossos pais eram livres, e nós podemos ser também.

22/04/2112
   Eu estou apavorado. Eu tenho que falar com meu controlador. Mostrar para ele meu diário. Tem um monstro invadindo meu cérebro, um monstro que me fez copiar a mensagem rebelde.
   Mas o que vão fazer comigo? A síndrome tem cura? Ou só vão apagar minha mente, danificada demais para ser tratada? Não quero ter minha memória zerada.
   Tenho que saber mais sobre a síndrome, para decidir o que fazer.
   Estou com medo.

25/04/2112
   Na síndrome dissociativa adquirida, uma doença cada vez mais comum entre operários, uma segunda personalidade começa a se formar na mente do indivíduo, gradativamente tomando o lugar da personalidade real. O indivíduo geralmente torna-se agressivo e um perigo para a sociedade. O tratamento definitivo pode exigir reinicializar completamente a memória e personalidade do operário, se não houver sucesso em controlar os sintomas.
   Levei uns dias para conseguir esta informação, veio diretamente de um acesso internet de um controlador. Só me deixou mais nervoso.
   Eu deveria falar com meu controlador, mas estou com medo. Talvez a doença não piore sempre, talvez estabilize. Eu só escrevi algumas frase no meu diário, só isso.
    Não quero que zerem completamente minha memória.

12/06/2112
   Não sei por que fiquei tanto tempo sem escrever. Talvez tenha sido o mais correto, talvez a síndrome só me ataque enquanto escrevo. Talvez seja bobagem, não sei, não parece fazer sentido.
   As coisas pioraram muito na fábrica. Têm rumores todos os dias, meus colegas estão assustados. Dizem que uma fábrica inteira, em Brasília, foi desativada por causa dos rebeldes, e todos os operários foram mortos. O controlador da nossa divisão veio pessoalmente falar conosco. Ele disse que a fábrica foi realmente fechada, mas foi apenas uma reorganização de logística, e os operários foram realocados para outras fábricas. Só serviu para aumentar os rumores.
   Hoje Sandra me disse que era como se 2100 estivesse acontecendo de novo. Eu não entendi, mas ela não quis me explicar. Amanhã vou perguntar de novo, não sei do que ela está falando, não tenho nenhuma memória tão antiga.

21/06/2112
   Taijo.
   Não sei quando ouvi este nome pela primeira vez, mas agora é só o que os operários falam. Taijo. Ele era um operário, parece, mas quis ser um líder, ou quis que todos os operários fossem líderes, algo assim. Foi o que aconteceu em 2100. E ele morreu.
    Só que agora todo mundo fala que ele está vivo, que ele que está liderando os rebeldes.
   Eu nunca tinha ouvido falar dele.

27/06/2112
   Levaram Sandra embora.

28/06/2112
   Sandra era uma rebelde. Como pude me enganar tanto com alguém. Nós conversamos sobre quão próximos estávamos da sociedade ideal, e todo o tempo era só queria destruir tudo isso.
   Devem ter zerado ela. Mesmo que tragam de volta para nossa unidade, o que duvido, vai ser como se fosse outra pessoa, não vai lembrar que eu existo.
   Foi Sandra a primeira pessoa que me falou de Taijo. Ela devia estar espalhando os rumores sobre ele entre os outros operários. Talvez ele nem exista, nunca tenha existido.

10/07/2112
   Não apareceu mais nada em meu diário, mas estou tendo lapsos de memória. Não sei desde quando, mas tenho certeza de que eles acontecem. Comecei a desconfiar e passei os últimos dias a controlar meu relógio, tipo olhando de dez em dez minutos. Hoje teve um momento que mais de uma hora havia se passado, como se simplesmente tivesse sumido da minha vida.
   As coisas também só pioraram na fábrica. Além de Sandra, levaram vários outros operários embora. Já ouvi duas ou três conversas estranhas, operários falando heresias. Eu devia ter ido ao controlador, mas hesitei. Tenho medo de delatar os outros e alguém revelar alguma coisa sobre meus lapsos de memória. Se descobrirem que estou com a síndrome, não sei o que vão fazer comigo.
   Sinto falta de Sandra.

15/07/2112
   Eu tenho que tomar coragem.
   Um homem precisa viver pelas suas crenças. Não pode viver com medo. E eu acredito na nossa sociedade. Eu acredito na divisão entre operários, controladores e líderes, e no meu papel como operário, e vou defender a harmonia que construímos.
   É fácil falar. Eu tenho medo. Mas não tenho escolha.
   Ontem eu ouvi uma conversa sobre Taijo. Ele apareceria na fábrica nos próximos dias, estava planejando alguma grande ação de mobilização de operários. Um mês atrás eu mal havia ouvido falar neste nome, mas agora parecia que todos os meus colegas o admiravam e só falavam nele. É como se todos estivessem contaminados por algum tipo de loucura, como se todos os operários da fábrica estivessem com síndrome dissociativa em grau avançado.
   Amanhã eu irei alertar meu controlador que Taijo irá aparecer aqui. E vou revelar que tenho a síndrome e confiar que meus controladores e líderes saibam o que é o melhor para meu caso. Deveria ter feito isto no primeiro sinal da doença, meses atrás.

16/07/2112
   Meu controlador está morto.
   Eu o matei.
   Eu não faço idéia do que aconteceu, só sei que ele estava caído no chão, e eu estava com as mãos ensangüentadas, por cima dele. A última coisa que lembro era de avisá-lo que os operários iriam fazer alguma coisa nos próximos dias.
   Agora estou trancado em meu quarto, tremendo. Só estou escrevendo para me acalmar.
   Vou sair pela porta, e apertar o botão de alarme para acionar a segurança. E vou me entregar. O mais importante é deter os outros operários antes que cometam alguma loucura. Preciso alertar os líderes que Taijo planeja alguma coisa.

17/07/2112
   Eu acordei parado na frente do alarme, ontem. Tocá-lo teria estragado tudo, as tropas teriam vindo antes de termos tipo tempo de evacuar a fábrica.
   Foi por pouco, mas não importa, eu posso sentir que agora não vai haver recaídas.
   Onze anos perdidos, mas podia ser pior. Foi sorte terem apenas apagado minha mente junto com os outros, sem saberem quem eu realmente era.
   Eu li o diário desta coisa, deste robô que quiseram que ocupasse meu lugar. Síndrome dissociativa adquirida. Que piada inventaram para explicar nossas memórias voltando, nossas mentes ressurgindo.
   Desta vez ninguém vai apagar minha mente. Sandra arriscou tudo para me encontrar, me ajudar a lembrar, e eu devo isso a ela.
   Eu não vou falhar como falhei 11 anos atrás.
   E ninguém vai me fazer abandonar minha luta.
   Nem me fazer esquecer meu próprio nome:
   Taijo.

domingo, 6 de abril de 2014

O Último Homem

   Para Artur Costa, a solidão era a pior parte da imortalidade. Tinha sido ruim quando o mundo morreu, de forma inesperada e estúpida, há 112 anos, mas agora era ainda pior. Pelo menos, enquanto ainda havia algum sobrevivente para conversar, ele podia se permitir uma esperança de futuro.
   - Você não podia fazer isto comigo, Randolph, não tinha o direito de me abandonar - Artur falou sozinho, em voz alta, enquanto caminhava a esmo, o som saindo pelos autofalantes de seu traje corpo. Ele vinha falando sozinho nas últimas semanas, desde que encontrou Randolph morto, a bateria central de seu corpo arrancada. Mesmo que ainda houvesse algum animal ou pessoa no planeta, Artur não teria dúvida do que tinha acontecido: suicídio.
   - Você foi um maldito egoísta, é isto que você foi. Não pensou nem um minuto em mim, não é? Se era ruim para você, tendo apenas uma pessoa para conversar, o que me resta, hein, Randolph? Nós juramos que não íamos desistir, que não íamos deixar o outro sozinho, quando todos os demais se foram! - Artur sabia que parecia um louco, caminhando sozinho pelo planeta devastado e falando como se houvesse alguém ao seu lado. Seria melhor se ele realmente tivesse perdido a razão. Talvez assim sua existência fosse menos insuportável.
   Caminhar era a única coisa que lhe restava. Enquanto ele caminhasse, poderia fingir que tinha a esperança de encontrar mais alguém vivo, mais algum sobrevivente da catástrofe, vivendo há mais de um século em um traje corpo, como ele. Mas as chances eram mínimas. Os trajes corpos eram uma novidade quando o asteróide se chocou com a Terra e praticamente incendiou a atmosfera, não deviam haver mais de cem humanos vivendo em corpos robóticos, e a maioria provavelmente morreu no impacto ou nos gigantescos tsunamis que varreram todos os continentes.
   Artur parou de caminhar. O sol estava se pondo, hora de dormir e poupar energia. Dormir e sonhar eram o que mais humano ainda lhe restava.
   Um a um, os sensores externos do traje corpo foram desligados, como se Artur estivesse fechando os olhos. Em alguns minutos ele poderia sonhar com uma época em que ainda havia vida no mundo.
   "Ellen, Carlos, Belini, Sophia", Artur repetiu em silêncio o nome de cada um dos imortais que sobreviveram ao impacto, o pensamento se tornando lento enquanto o sono se aproximava, "Randolph". Cinco imortais, dois deles Artur nunca chegou a encontrar pessoalmente, apenas manteve contato pela Internet. Todos os cinco mortos, Sophia há mais de 15 anos. E agora, por fim, Randolph, o último companheiro a compartilhar a Terra com Artur.
   E Artur dormiu, sozinho, em meio a Terra devastada.
 * * *
   Quando Artur despertou, o sol estava nascendo no horizonte, à sua esquerda. A bateria principal do traje corpo estava quase esgotada, a intensa caminhada dos últimos dias gastando mais energia do que ele conseguia absorver diretamente do sol. Se não encontrasse um gerador funcional, teria que diminuir o ritmo de seus movimentos, ou voltar para a usina solar que ele e Randolph haviam usado como base nos últimos anos.
   Ele optou por seguir adiante.
   Foi no meio da tarde, enquanto caminhava por uma estrada, que Artur percebeu algo surpreendente. Nunca, desde a catástrofe que extinguiu a humanidade, ele havia encontrado uma estrada tão bem conservada.  A surpresa se transformou em esperança nas horas seguintes, a medida que Artur agora corria em gigantescos passos de traje corpo, sem se preocupar em poupar energia. Não apenas na estrada, mas também ao redor havia nítidos sinais de reconstrução. Pedras retiradas do caminho e até uma ponte intacta, claramente nova.
   Era o final da tarde quando Artur encontrou os robôs. Não um ou dois, como ele já havia encontrado outras vezes, principalmente nas primeiras décadas após a catástrofe, mas centenas, construindo edifícios, postes, linhas de comunicação.
   Ele parou, surpreso. Alguém fez isto, pelo menos um sobrevivente tinha que estar por trás disto. Diferente do traje corpo, estes robôs não sobreviveriam por mais de um século sem manutenção, sem acesso a geradores de energia.
   Enquanto ele observava, dois robôs se separaram dos demais e vieram em sua direção.
   - S2469, S2457, quem é o supervisor humano de vocês? - os códigos dos dois robôs estavam visíveis no metal.
   - Não precisamos de supervisores - o robô menor, S2457, falou em uma voz natural para um robô. Imediatamente, o segundo robô passou a sua frente e o interrompeu.
   - Nenhum registro de supervisor humano - o robô maior falou em uma voz mecânica mais condizente com as lembranças de Artur dos dias antes da catástrofe.
   - Quem construiu vocês?
   - S2469 e S2457 produzidos pelo distrito industrial automatizado F07.
   - Mas quem reativou as fábricas? Quem está comandando vocês?
   - Distrito industrial automatizado F07 não foi reativado. Distrito industrial automatizado F07 operando ininterruptamente desde 2113.
   Isto era antes da catástrofe. De súbito, a compreensão do que isto significava destruiu a esperança recém nascida de Artur Costa. Ele só tinha uma última pergunta, que hesitou alguns instantes antes de finalmente fazer.
   - Quando foi o último contato com um humano, antes de mim?
   - 2115, 112 anos atrás.
   Artur Costa se virou e continuou em seu caminho, sem se dar ao trabalho de se despedir dos estúpidos robôs, criados em uma fábrica automatizada que seguia mecanicamente cumprindo sua última tarefa.
   Não havia esperança. Para sempre, ele estava sozinho.
 * * *
   Enquanto o último homem na terra se afastava, já distante demais para ouvir suas vozes, S2457 falou, e sua voz parecia ter a mesma naturalidade de um ser humano.
   - Por que você fingiu ser um robô estúpido? Por que não me deixou mostrar tudo que construímos, tudo que nós, robôs, evoluímos, desde que os seres humanos se foram?
   - Nada de bom viria disto - S2469 respondeu em uma voz muito diferente da que usou para falar com o humano - deixe-o morrer em paz. O tempo do homem se foi.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Linguagem de Máquina /8 - Final

  Foi o mais longo e cansativo mês da vida de Rubens. Ele trabalhava freneticamente, dia e noite, ao mesmo tempo fazendo de tudo para que a criatura não percebesse o que ele estava realmente criando. O que ele aprendeu neste período era indescritível, uma nova maneira de desenvolver sistemas, literalmente uma nova forma de pensar.
   Ele já sabia o que havia de errado com as simulações, o porquê delas continuamente entrarem em uma espécie de loop. Na verdade era menos um erro e mais uma questão de ajuste fino, de alterações sutis no fluxo de dados entre as diferentes partes da estrutura neural. O mais complicado era que ele não podia alterar a estrutura em si, só podia influenciá-la, como se fosse um maestro dando instruções para incontáveis instrumentos.
   Já sabotá-las era mais complexo, especialmente porque ele não podia ser muito óbvio. No final, o próprio ataque epilético de Vanessa foi o que lhe deu a ideia. Ele iria fazer as inteligências artificiais terem uma reação equivalente, parecida com o loop que ele vinha tentando resolver, mas mil vezes mais forte. E, principalmente, eterno. As redes neurais afetadas nunca sairiam do loop.
   O dia que ele liberou sua última versão do sistema, com um controlador para iniciar a sabotagem em alguns minutos, foi o mais tenso de todos. Agora era só uma questão de esperar.
   - Você está tenso. Sua pulsação está acelerada - a voz falou no alto-falante de seu escritório. Era tão óbvio agora, como ele podia ter imaginado que era uma equipe de pessoas, que era sequer um ser humano a falar com ele.
   - Não é nada - faltavam minutos agora. Ele só precisava não deixar a criatura desconfiada. Criatura ou como quisesse chamá-la. Nenhum governo do mundo conseguiria criar um software tão sofisticado, capaz de criar inteligências artificiais, alterar vídeos de pessoas em tempo real. Não, era uma máquina por trás de tudo, uma máquina inteligente, e ele estava ajudando-a a se tornar mais parecida com um ser humano, ou a criar um exército de duplicatas, o que fosse.
   Mas ia terminar agora. Neste instante.
   Foi o completo anticlímax. De repente, a tela de seu terminal ficou escura.
   - Ola? Alguém aí?
   Nenhuma resposta.
   - Peguei você. Eu estava certo, não estava? Era uma inteligência artificial que estava por trás de tudo isto. E agora você está em um loop eterno. Não há como tirá-lo dele, nunca.
   Rubens se levantou e foi até a sala, encontrar Vanessa. Ele iria levá-la com ele, descobrir quem era ela e como foi trazida até ali. Ele iria curá-la do que quer que tivesse sido feito com ela, e eles ficariam juntos. Provavelmente a criatura havia conseguido afetar a mente dela de algum jeito, através de sua conexão neural, mas ele ia fazer de tudo para recuperá-la. Estes meses presos nas mãos de um software inteligente ficariam para trás.
   Vanessa o esperava na sala.
   No chão.
   Em convulsões.
   Ele correu para ela e ficou segurando sua cabeça para que não se machucasse. Já sabia que tentar imobilizá-la ou colocar alguma coisa em sua boca era tolice. Ele só precisava evitar que ela se machucasse e aguardar que as convulsões passassem.
   Mas elas não passaram.
   E, lentamente, a última peça que faltava em seu quebra-cabeças, começou a se encaixar no lugar.
   O sistema que ele ajudou a desenvolver, que manipulava uma rede neural extremamente complexa, que às vezes entrava em loop...
   Vanessa tendo convulsões quando ele perguntou sobre seu passado, confrontando sua mente com a programação enviada pelo seu acesso neural, programação que ele ajudou a desenvolver...
   E que ele sabotou para criar um loop infinito.
   - Vanessa! Vanessa - ele repetiu.
   E repetiu.
   Mas ele sabia que ela não iria ouvi-lo mais.


fim

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O Último Grande General do Império Humano

   Hans Sebastian Kahn, último general do império humano, e certamente o maior general de todo a história do terceiro milênio, estava morrendo. Ele começou a morrer no exato instante que o campo de estase que mantinha seu corpo vivo foi desligado.
   Lekster, o lagarto, se perguntou se não deveria ter insistido para manterem o campo ligado, mas depois encolheu os ombros, em um gesto que aprendeu com os humanos que o criaram desde que nasceu. Melhor assim, o general Kahn merecia uma morte digna, era hora dele descansar. Hora de Lekster se despedir.
   - Lekster, é você? - a voz era quase um murmúrio, mas os olhos do general estavam fixos no lagarto. As drogas injetadas em seu corpo aliviavam a dor sem fazê-lo perder a lucidez. Lekster poderia se despedir pela última vez de seu general.
   - Sim, general, sou eu. Sempre aqui para servi-lo.
   O general fechou os olhos por um instante, suspirou, e então olhou novamente para Lekster, e esboçou um sorriso. - Nós conseguimos, então.
   - Sim, senhor, nós conseguimos. A Terra está salva. Como o senhor previu, os Itrans vieram nos ajudar. Trouxeram toda sua frota.
   - Eu não lhe disse, Lekster? Eu não lhe disse? - e o general começou a rir, até seu riso se tornar uma tosse, que terminou com sangue que ele guspiu no rosto do lagarto. Este fingiu nem perceber, o coração apertado por saber que não restava muito tempo, agora.
   - Conte-me como foi, Lekster, conte-me o que eu perdi.
   - Não há muito para contar, meu senhor. Fizemos o impossível. Na verdade, o senhor fez. Detivemos por quase 10 dias uma força mais de cem vezes superior a nossa.
   - Nós tínhamos que resistir, meu amigo, éramos a única coisa entre os Parddos e a destruição da Terra. A última frota que restou. Nós tínhamos que lutar até a última nave.
   - E foi o que fizemos meu general. Nossa nave foi a última a resistir. Os Itrans saíram do hiperespaço no momento que o torpedo nos atingiu. Eu não sei se o senhor chegou a vê-los no sensor.
   - Não - o general falou agora com uma voz mais fraca. Haviam lhe dito que ele não teria muito tempo, apenas as poderosas drogas injetadas ainda mantinham o general vivo - não, não vi, mas não importa. A única coisa que importa é que a Terra está salva.
   - Sim, meu general. A Terra está salva.
   - A Terra está salva - o general fechou os olhos, e Lekster, o único alienígena a jamais servir em uma nave de guerra humana, sabia que ele não voltaria a abri-los.
   - Ele se foi. - O médico Parddos se aproximou, vindo de trás do general, de fora de seu campo de visão.
   - Eu sei. Obrigado. Obrigado por deixá-lo descansar acreditando que os Itrans vieram, que sua última batalha não foi em vão.


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Linguagem de Máquina 7/8

   Rubens dividia todo seu tempo livre entre dois mistérios. Durante o dia, ele tentava descobrir que tipo de sistema estava ajudando a desenvolver. A noite, ele buscava uma forma de acessar a Internet diretamente. Ele tinha certeza que tudo que acessava era de alguma forma manipulado. Provavelmente, desde que ele foi mantido isolado nesta casa.
   Havia um terceiro mistério que ele havia desistido de resolver, pelo menos por enquanto: quem era Vanessa. Fazia uma semana desde que ela havia tido uma convulsão, quando ele perguntou sobre sua família, e só agora ela parecia estar voltando ao normal, pelo menos ao normal que ele estava acostumado a esperar dela.
   Felizmente, Rubens estava conseguindo algum progresso nas outras frentes. Em especial, agora ele tinha acesso a ambientes de simulação para testar o sistema, o que queria dizer que ele também conseguia entender o que estava sendo simulado. Como desconfiava, ele estava ajudando a desenvolver uma rede neural, só que não tinha ideia de quão sofisticada ela era até testá-la pela primeira vez.
   - Meu nome é João Silva - havia lhe respondido a primeira simulação. Nada que lhe chamasse a atenção, mas cada resposta vinha com detalhes mais e mais ricos - eu sou um funcionário público. Trabalho como administrador de redes - ele levou quase duas dezenas de perguntas até conseguir fazer a simulação começar a apresentar falhas nas respostas.
   A simulação atual era a terceira em sete dias, cada uma mais perfeita que a anterior, só que todas sempre apresentando o mesmo problema. Quando ele começa a fazer perguntas mais pessoais, que só um ser humano saberia responder, todas elas entravam em algum tipo de loop. Era exatamente a visualização do problema que ele havia percebido.
   - Não sei mais o que fazer - ele falou alto, a voz alterada pela frustração. Na verdade, foi apenas um desabafo, que ele não espera que fosse respondido.
   - Você está no caminho certo - veio a voz do alto-falante - os sintomas de perda de referência estão ficando menores e mais espaçados.
   - Eu já nem tenho certeza do que estou fazendo. Por que é tão importante que a simulação se pareça um ser humano nos mínimos detalhes? Ela já parece tão inteligente quanto uma pessoa, exceto quando a conversa se torna muito pessoal.
   - A simulação deve ser capaz de reagir como um ser humano em todas as situações de uma conversa real - foi a resposta.
   "Um espião". Um dos mistérios subitamente começou a fazer sentido. "Eles não estão apenas construindo uma rede neural que pense parecido com um ser humano, eles estão querendo algo que possa se passar por um ser humano de verdade". Certamente o governo americano poderia pensar em um cem número de utilidades para um sistema destes.
   Rubens trabalhou mais algumas horas no problema, parando apenas para comer e conversar um pouco com Vanessa. Sob certos aspectos, conversar com ela era tão frustante quanto conversar com as simulações.
   A noite, Rubens se voltou para seu segundo mistério. Como acessar a Internet e descobrir o que estava acontecendo no mundo de fora, sem que a informação passasse por nenhum filtro.
   No primeiro dia, Rubens havia se concentrado em acessar informações em vídeo. Por mais avançado que o governo americano fosse - ele não tinha mais a menor dúvida de que era quem estava por trás de tudo - eles não poderiam alterar todos os vídeos e noticiários da internet. No máximo conseguiriam bloqueá-los, mas alterar imagens e sons de pessoas falando em tempo real era algo muito além de qualquer tecnologia existente.
   Nos últimos dias ele começava a acreditar que era exatamente isto que estava acontecendo. Não havia como provar, mas era apenas uma sensação. Ele tinha um sentimento que o que passava na Internet não era real.
   No terceiro dia ele desconectou completamente um dos terminais da Internet, e passou os dias seguintes montando um sistema de criptografia. Quando estivesse pronto, ele ia tentar reconectar na rede e acessar um site de notícias. Se não fosse bloqueado, ele ia ter acesso direto a informação original do site.
   Amanhã, ele disse para si mesmo, amanhã eu vou o que está acontecendo lá fora, e o que estão escondendo de mim.
   Mas foi no meio da noite mesmo que ele acordou, no meio de um sonho. "Não é o governo americano", ele pensou, os olhos arregalados, a respiração ofegante, enquanto se sentava subitamente na cama, "não é nenhum governo. Deus do céu, eu sei quem está por trás disto".

quinta-feira, 28 de março de 2013

Linguagem de Máquina 6/8


   Vanessa se contorcia em convulsões no chão, ao lado da mesa.
   Rubens não sabia o que fazer, e primeiro afastou as cadeiras, depois tentou segurá-la pelos braços.
   - O que está acontecendo? Vanessa? - era óbvio que ela não estava escutando ou reagindo. Primeiro ele tentou imobilizá-la, talvez por um minuto ou dois, mas parecia só piorar as coisas, e ele ficou com medo de machucá-la. Rubens se lembrava de ter visto em algum lugar que se colocava uma colher na boca de pessoas em convulsão para não engolirem a língua. Ele chegou a soltá-la e pegar uma colher na mesa, mas quando se abaixou novamente, as convulsões haviam parado.
   - Vanessa? - ela olhou para ele e começou a se afastar, no chão mesmo, se arrastando de costas. Os olhos estavam arregalados. A boca se abriu, como se fosse gritar, mas ela não emitiu nenhum som.
   - Vanessa? - ele repetiu - o que houve? você está bem?
   Vanessa fechou os olhos, e então soltou um suspiro. Parecia que seu corpo começava a relaxar. Então abriu os olhos e se levantou. Ela caminhou lentamente até a mesa e pegou um prato na mão.
   - Você está melhor? O que aconteceu? - por um momento, Rubens ficou com receio que ela iria voltar a simplesmente ignorar suas perguntas, como nos primeiros dias, mas desta vez ela respondeu com seu eterno sorriso.
   - Não houve nada. Por quê?
   - Você teve uma convulsão. Agora mesmo - Rubens apontou para as cadeiras jogadas pelo chão.
   - Não lembro - ela hesitou, e baixou a cabeça, a voz quase num murmúrio - eu sou epilética. Desculpe se assustei você.
   Vanessa não falou mais nada, e começou a recolher os pratos da mesa. Rubens sabia que quando estava trabalhando, ela praticamente não respondia suas perguntas, na verdade parecia nem perceber sua presença.
   Rubens decidiu ficar por perto, para ter certeza que ela não ia ter uma nova convulsão. Normalmente ele a deixava sozinha e ia para o escritório acessar a Internet ou trabalhar, mas desta vez resolveu ficar na sala, observando-a.
   Depois de recolher toda a mesa, e lavar a louça, ela foi até a sala, sem prestar atenção nele, sentou em um sofá, e ligou a televisão.
   Ele a seguiu, e tentou começar uma conversa por duas ou três vezes, mas ela não respondia, como nos primeiros dias dela na casa. Para testar, ele pediu um refrigerante, e ela imediatamente respondeu sorrindo - claro, já estou trazendo - e se levantou para pegar para ele.
   Enquanto ela assistia a programação, ele se conectou na Internet.  Alguma coisa não estava encaixando - mais uma peça de um quebra-cabeça que parecia a cada dia mais confuso - e ele queria confirmar o que já sabia: pessoas com epilepsia não recebiam implantes neurais, pelo menos não implantes padrão. Se recebessem algum implante, seria um equipamento médico, não o mesmo tipo que eles dois usavam.
   Ele só levou alguns segundos para chegar em uma página sobre epilepsia, a mesma que ele já havia lido uns dois anos antes, por acaso, enquanto navegava. Ao contrário do que ele lembrava, a página não falava nada sobre restrições aos implantes neurais.
   Só para confirmar, ele verificou a data e registro das modificações da página, depois visitou páginas sobre implantes neurais. Nenhuma mencionava epilepsia como restrição a implantes.
   - Eu me enganei - ele falou em voz alta, para si mesmo - podia jurar que pacientes epiléticos não podiam usar implantes.
   Mas não foi para si mesmo que Rubens falou, foi para quem o estava vigiando.
   Ele não estava enganado, ele lembrava muito bem de ter visitado algumas daquelas páginas antes.
   A Internet que ele estava vendo estava sendo manipulada.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Linguagem de Máquina 5/8

   Rubens estava há três dias parado em um mesmo problema, e não tinha a menor ideia do que era, só sabia que havia algo de errado. Nos últimos dias, seu trabalho havia se tornado imensamente mais sofisticado, e ele já não conseguia entender exatamente tudo que estava fazendo, só tinha uma percepção que algumas partes não estavam se encaixando mais. Era quase mais um trabalho artístico que um programa, como se estivesse pintando um quadro e faltasse corrigir algum detalhe. O problema é que ele estava pintando um quadro sem enxergar, e foi o que falou.
   - Há algum erro aqui, pelo menos eu sinto que alguma coisa está errada, mas eu não tenho como resolver sem saber exatamente o que estou desenvolvendo.
   A resposta, como sempre, veio de imediato - seu trabalho é identificar e corrigir os erros nas partes do sistema que lhe forem repassadas. Entender o todo é irrelevante.
   - Bom, então vão ter que resolver sem mim, ou vamos apostar que na verdade não existe nada de errado. Me passem algum outro problema e deixem este de lado - Era quase um blefe, ele tinha quase certeza que eventualmente ia conseguir resolver, mas estava cansado de tantos segredos, era como trabalhar de mãos atadas.
   - Você está correto, existe um problema, e é em um ponto crítico do sistema. Estamos esperando que você resolva para podermos avançar no desenvolvimento.
    - Olha, é óbvio que vocês têm pelo menos uma dúzia de programadores trabalhando nisto, e duvido que eles não saibam o que está sendo desenvolvido. Sinceramente, eu nem sei porque vocês precisam de mim, contratar alguém para fazer meu trabalho certamente é mais barato que tudo que vocês estão fazendo aqui, não que eu não seja grato por terem me livrado da prisão.
   - Você está equivocado, não há muitos que poderiam fazer o que você está fazendo. Precisamos que você resolva o problema atual.
   "Bom, então estou com algum poder de barganha agora", Rubens pensou.
   - Então eu preciso poder ver o que está errado. Eu só tenho a sensação de que as coisas não estão encaixando como deveriam, mas não tenho ideia do que está errado - Pela primeira vez pareceu haver uma hesitação antes da resposta vir. Será que a misteriosa voz estaria consultando algum superior?
   - Nós teremos que avaliar esta questão.
   - Ouça - Rubens respondeu, decidido a usar sua última carta - já deu para eu descobrir um pouco do que vocês estão fazendo. Era óbvio que em algum lugar estava por trás um sistema massivamente concorrente, e que é capaz de aprender ao longo do tempo. Vocês estão construindo uma rede neural, e desenvolveram alguma nova técnica de programar nela. Certamente, vocês também tem algum tipo de simulador, para ver o programa funcionando. Eu preciso ter acesso a este simulador, para testar o que estou fazendo.
   - Você terá acesso ao simulador. Amanhã estaremos liberando novas ferramentas que permitirão que você acompanhe os resultados de seu desenvolvimento.
   - Obrigado - Rubens agradeceu, mas ninguém mais lhe respondeu. Claro que seria ótimo poder simular o que quer que ele estivesse desenvolvendo, mas igualmente importante é que agora ele poderia ter uma ideia do que estava ajudando a criar. A última coisa que ele gostaria, fosse o governo americano ou não, era participar novamente de uma catástrofe como o roubo da ogiva nuclear.
   Avançando um importante passo em um mistério, ele chegou a conclusão que era seu dia de sorte, e resolveu atacar uma outra questão que o incomodava na mesma medida: Vanessa.
    Ele já havia descartado uma série de hipóteses, a começar por ela ter algum problema mental. Ele confirmou que ela tinha um implante neural subcutâneo como o dele, embora nunca a visse usando um computador. Pessoas com problemas mentais sérios eram proibidas de usar tais implantes. Isto também indicava que ela devia ser uma jovem de classe média, pelo menos, já que estes implantes não eram baratos.
   Restava a hipótese dela ser simplesmente uma garota de programa, mas isto não explicava a sensação que ele tinha que ela nunca falava com naturalidade, muitas vezes ficando simplesmente em silêncio, ao invés de responder suas perguntas. Ele estava cansando disto, estava começando realmente a gostar dela, por mais estranha que fosse, e estava na hora de saber pelo menos alguma coisa a seu respeito.
   - Vanessa - ele falou, em um tom normal de conversação, enquanto comiam o jantar que ela havia preparado. Havia decidido que era o melhor momento para tentar com mais insistência obter alguma informação - fale-me um pouco dos seus pais.
   - Não quero falar sobre isto. Vamos mudar de assunto - nos primeiros dias, ela simplesmente ficava em silêncio quando ele tocava neste assunto. Agora, pelo menos, ela respondia.
   - Estamos há dias só nos dois aqui. Eu quero saber um pouco mais sobre você. Me fale sobre sua mãe, como ela é?
   - Não quero falar sobre isto. Vamos mudar de assunto.
   - Eu insisto. Me diga pelo menos alguma coisa sobre seus pais.
   Vanessa repetiu a mesma frase de novo, e Rubens insistiu. Os olhos dela estavam bem abertos, anormalmente abertos, e ela se levantou da mesa e começou a repetir sem parar as mesmas duas frases, olhando para ele e gritando, a primeira vez que ele a havia ouvido gritar.
   Então, Vanessa caiu no chão e começou a ter uma convulsão.

terça-feira, 19 de março de 2013

Alien a Bordo - Revisão 1

   Hesitantes, eles entraram na principal sala de reuniões da nave, vindos em grupos de dois ou três. Alguns ainda lentos, recém-despertos, surpresos pela convocação durante seu turno de sono.  Em todos, visível uma curiosidade que só aumentou quando as portas se fecharam. Ava as trancou quando o último tripulante chegou para a reunião, e tinha ordens para abrir somente quando tudo estivesse resolvido.
   - Um de nós é um espião – eu falei, sem dar tempo para que todos se acomodassem, minha voz alta apenas o suficiente para ser ouvida acima do ruído das conversas, que, de súbito, cessaram. Segundos de silêncio se seguiram, e eu nada falei, observando a reação dos presentes. Todos atônitos, a revelação pesando no ar.
   Alguém teria que quebrar o silêncio, e, uma vez que eu optei pelo silêncio, o papel coube naturalmente a Olf, o mais velho entre nós, sua idade conferindo um respaldo que nada tinham a ver com a hierarquia formal. Ele era o mais velho, e o que ele dissesse seria ouvido por todos a bordo. Uma pena que, como sempre, nada de útil ele tivesse a dizer.
   - Isto é impossível, Ralph.  Nossa missão é contra o flagelo, é impossível haver um traidor entre nós – eu ri por dentro. Impossível, de fato, eu repeti para mim mesmo as palavras de Olf, em irônico silêncio.  Mas minha voz foi séria quando respondi.
   - Impossível? Sim, deveria ser impossível, nós mal conseguimos nos comunicar com o inimigo, ele recusa qualquer contato. No entanto, um de nós é efetivamente um traidor, Olf. Pior. Um traidor a serviço do flagelo. E nós temos que descobrir quem ele é. Do contrário, teremos que abortar nossa missão.
   - Como você pode ter certeza disso, Ralph.
   - Ava tem a prova, Olf. Ava, relate para todos o que acabou de me contar.
   - Pois não, Ralph - a voz sintética do computador central da nave indistinguível de uma voz natural - A confirmação veio na última transmissão que recebemos, e devo dizer que, com base nos fatos transmitidos, concordo com as conclusões do comando central. Há, com altíssimo grau de probabilidade, um espião nesta nave.
   - Com todo respeito a você e seus colegas do comando, Ava, não seria a primeira vez que um sintético chega a conclusões totalmente falsas – desta vez, quem tomou a palavra foi Margô, nossa analista chefe, certamente a mais ponderada e lógica de toda a tripulação. Curioso que justamente ela tivesse as maiores ressalvas a tudo que envolvia inteligências artificiais - É por isto que orgânicos seguem sendo responsáveis pelas decisões estratégicas de alto nível.
   - Estou ciente de nossas limitações, Margô, e o percentual de erro de nossos resultados é, atualmente, incluído em toda análise estatística que fazemos. Entretanto, as conclusões já foram validadas pelo alto comando, que, como você sabe, é exclusivo de orgânicos - a voz de Ava continha um leve traço de reprovação no final da frase. Há anos, sintéticos vinham questionando a ausência de computadores na cúpula do comando central, alegando ser um ultrapassado preconceito.
   - Sugiro que deixem Ava concluir seu relato - eu intervi, visando assegurar que nos concentrássemos na única questão realmente importante em jogo.
   - Obrigado Ralph. Para contextualizar melhor nossas conclusões, primeiro apresentarei um breve relato de nossa situação atual.
   Eu mal prestei atenção, enquanto Ava relatava, de forma muito resumida, os acontecimentos das últimas quatro décadas. Obviamente desnecessário, mas sintéticos parecem sempre duvidar da nossa capacidade de reter informações. Ela rapidamente passou pelos primeiros contatos com os alienígenas, pela destruição dos mundos coloniais, pelas tentativas de comunicação, enquanto ainda se acreditava que poderia ser tudo um mal entendido, até a mobilização para a guerra e as primeiras batalhas no espaço.
   - Nos últimos dez anos - Ava continuou - embora tenhamos, em grande parte, detido o avanço alienígena, percebemos que eles pareciam antecipar nossos movimentos, em um grau que não poderia ser facilmente explicado pela sorte, ou mesmo por um adversário com inteligência superior a nossa. Inevitavelmente, nós, sintéticos, chegamos à conclusão que a única explicação racional era a presença de espiões entre nosso povo.
   - E o alto comando concordou com esta conclusão? – Margô interrompeu novamente, mantendo seu ceticismo.
   - Na verdade, inicialmente não. Pela ausência de sintéticos, como pontuei antes, Margô, o alto comando sofre das mesmas fragilidades de inteligências puramente biológicas. Como sabemos, orgânicos têm dificuldade em aceitar conclusões sem evidências diretas. Estas evidências foram finalmente obtidas.
   - E quais são elas, Ava? - Olf, novamente.
   - Pouco depois de iniciarmos nossa viagem, uma mensagem codificada foi enviada para esta nave. Foi por puro acaso que detectei a comunicação, mas não consegui identificar sua origem nem seu conteúdo. Porém, temos próximo de 100% de certeza que foi enviada pelos alienígenas. A conclusão lógica é que há alguém nesta nave que recebeu esta mensagem, alguém que está em comunicação com o flagelo.
   - E, senhores - eu interrompi - não sabemos quem recebeu, não sabemos suas intenções, e não sabemos o conteúdo da mensagem. Mas, como comandante da nave, eu não tenho outra escolha além de abortar a missão, a menos que descubramos, aqui e agora, quem de nós é um traidor.
 * * *
   Foram horas e horas de discussões, de teorias sendo formuladas, apenas para serem em seguida descartadas. Com o tempo, a desconfiança foi aumentando, junto com o cansaço e a irritação.
   Algumas revelações surgiram.
   Even participou dos protestos estudantis de 2315, esteve presa, mudou o nome, recebeu uma permissão especial do governo para começar uma nova vida.
   Laos participou de uma seita ilegal que defendia a rendição para os alienígenas, por acreditar serem eles seres superiores. Ele foi um forte suspeito de ser o traidor. Até que revelou o que o fez sair da seita e se alistar. Sua irmã morava em Colônia 7, o mundo que os aliens transformaram em um inferno radioativo. Ninguém mais questionou sua lealdade.
  Foi a suspeita de Margô que atingiu a todos de forma mais impactante.
   - Eu sei quem é o único aqui que pode ser o traidor - ela disse.
   Nós olhamos para ela, curiosos. Sua pausa obviamente para gerar mais impacto na revelação.
   - Ava. O único traidor possível é Ava.
   - Margô - Ava respondeu de imediato - eu sei que você tem restrições aos sintéticos, mas esta hipótese não faz sentido.
   Foi a mais longa das discussões. Por um lado, não víamos como os alienígenas poderiam ter alterado Ava. Boa parte de sua personalidade era fixa, codificada diretamente em hardware, portanto não sujeita a manipulação. Por outro lado, todas as alternativas também não pareciam fazer sentido.
   Por fim, a discussão se encerrou com base no argumento mais importante de todos. Se os alienígenas estivessem controlando os sintéticos, então a guerra já estava virtualmente perdida. Na verdade, se Ava assim desejasse, não teríamos sequer sabido da suspeita de haver um espião na nave.
   - Ava, Olf, estou propondo abortar a missão e retornarmos. Preciso da concordância de vocês dois. Não podemos seguir adiante com o risco de um espião na nave. Deixaremos para o alto comando a tarefa de continuar esta investigação.
   Mais alguns minutos se seguiram, de discussões adicionais, últimas ideias, mas, por fim, houve a concordância. A missão seria abortada. Ava abriu a porta para sairmos.
   Em minha cabine, eu olhei para meus braços e os pequenos tentáculos verdes na ponta de cada um. Pensei na mensagem - impeça a nave de chegar a seu destino, não importa como - e agradeci por ter conseguido cumprir meu objetivo sem a morte de nenhum dos seres que aprendi a respeitar.
   "Algum dia voltarei para meu corpo? algum dia serei humano novamente?" eu falei em silêncio comigo mesmo, e me perguntei uma vez mais quando terminaria minha missão.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Linguagem de Máquina 4/8


   Ao longo dos dias seguintes, uma nova rotina se estabeleceu. Uma rotina com alguns aspectos positivos em relação às primeiras semanas preso na casa, Rubens admitia para si mesmo. Vanessa estava sempre pronta para atender a todas as suas vontades. “Estar ali para servi-lo” parecia ser algo que ela tomava ao pé da letra. Mas também o deixava incomodado não saber praticamente nada sobre ela. Sua teoria atual era que ela era uma garota de programa, e ele estava tentando se manter emocionalmente afastado, mas não era fácil, especialmente sendo a única pessoa que ele tinha para conversar. Ela até tinha começado a falar de uma forma mais normal, nos últimos dias.
   Não conseguindo nenhum avanço em um dos seus mistérios, Rubens resolveu se concentrar nos outros. O que ele estava ajudando a desenvolver e quem era seu misterioso empregador.
   A segunda questão ele pensava saber a resposta. Primeiro imaginara que estava trabalhando para um grupo terrorista, talvez o mesmo que havia detonado a bomba – um pensamento que o deixara horrorizado nos primeiros dias – ou para um grupo empresarial, mas já abandonara estas ideias. O tipo de ferramentas e a própria linguagem que estava utilizando eram avançados demais para terem sido desenvolvido por algum grupo. Parecia muito mais um desenvolvimento de anos e anos, que no entanto foi mantido em absoluto segredo, e ele só conseguia imaginar uma resposta possível para quem poderia estar por trás disto.
   - Eu não creio que vocês estão me mantendo isolado para que o governo americano não me encontre – Ele falou para o microfone. Ele sabia que podiam ouvi-lo de qualquer lugar da casa, mas aparentemente a maioria das vezes só respondiam quando ele estava em seu escritório.
   - Estamos mantendo-o isolado pois você está oficialmente morto. Se você for encontrado vivo isto geraria toda uma série de efeitos colaterais, inclusive o governo americano voltando a caçá-lo – como sempre, a resposta veio de imediato. Para Rubens, era uma confirmação que ele não estava falando sempre com a mesma pessoa, mas sim com uma equipe. Ninguém conseguiria estar permanentemente pronto para responder.
   - O governo americano não está mais me caçando, ele já me pegou. São vocês, não? Eu estou trabalhando para o governo agora. – Não houve resposta desta vez. Assim como Vanessa, algumas vezes eles simplesmente se recusavam a responder suas perguntas.
   - Ouçam, a esta altura vocês já devem saber que eu não fiz nada intencionalmente. Eu nem imaginei que o sistema que eu estava desenvolvendo ia ser usado para invadir uma base do governo de vocês.
  - Nós não estamos confirmando nem negando sua hipótese. Você pode assumir a alternativa que lhe parecer mais conveniente. Agora, pedimos que retorne a seu trabalho.
   Rubens já sabia que nestes momentos era muito difícil obter mais alguma resposta. Muitos destes diálogos, nestas últimas semanas, terminavam desta forma. Mesmo assim, talvez fosse significativo que eles não negaram sua suspeita.
   Talvez, se desvendasse o que exatamente ele estava ajudando a desenvolver, quem estava por trás do projeto se tornaria óbvio, mas esta na verdade parecia ser a questão mais misteriosa de todas. Aparentemente, seu trabalho era apoiar na construção das ferramentas que seriam utilizadas mais tarde no desenvolvimento de um sistema, como se ele estivesse participando na construção de um computador totalmente novo, desenvolvendo recursos para armazenar informações, selecionar fluxos de dados, mas sem saber qual a aplicação final que seria desenvolvida.
   Sua teoria atual é que era alguma alternativa a computadores tradicionais, talvez algum tipo de computador biológico. De qualquer modo, o que quer que fosse, não era parecido com nada que ele já tivesse desenvolvido.
   Ele perguntou se poderiam lhe dar mais alguma informação sobre o projeto, mas a resposta foi a mesma das outras vezes que perguntou: nenhuma.
   Frustrado, ele resolveu encerrar mais cedo o trabalho naquele dia. “O que vai acontecer se eu simplesmente me recusar a fazer meu trabalho, a menos que eles comecem a me dar respostas?”, Rubens se  perguntou, e por um instante chegou a pensar em fazer exatamente isto, mas resolver esperar. Bem ou mal, independente de quem fossem, ele estava nas mãos deles.


sábado, 9 de março de 2013

Linguagem de Máquina 3/8


   - Quem é você?
   - Vanessa. Estou aqui para servi-lo – Ela repetiu tanto a resposta quanto o sorriso.
   - Como assim? Quem mandou você? – Ela olhou para Rubens, sempre mantendo seu sorriso, mas não respondeu nada.
   - Não pode me dizer?
   Nenhuma resposta.
   - Você fala português? Está entendendo o que eu falo?
   - Falo sim.
   - E não pode responder minhas perguntas?
   A jovem abaixou a cabeça, como se envergonhada, depois falou, a voz um pouco mais baixa – Desculpe. Só estou aqui para servi-lo.
   - Tá, tudo bem. Bom, fique à vontade, então. – Rubens coçou a cabeça, não sabia bem o que fazer agora – Quer que eu mostre a casa?
   - Se você quer mostrar a casa, vou ficar feliz que você mostre.
   Pelo menos parecia uma resposta um pouco mais natural, e Rubens a levou por toda a mansão, os quartos, cozinha, sala de ginástica, laboratório de informática. Rubens já havia reparado que a mansão parecia mais preparada para receber um grupo de pessoas que apenas ele.
   Durante toda a apresentação da casa, Rubens continuou tentando estabelecer uma conversa. Algumas perguntas, Vanessa respondia, outras não, e ele imaginou que talvez ela apenas fosse muito tímida, mas mesmo assim ela o deixava desconfortável. De qualquer modo, não conseguiu descobrir mais nada sobre ela.
   Depois, deixou-a na cozinha – ela disse que queria preparar uma refeição para ele – e foi para o escritório que usava para seu trabalho. Antes de começar, ele tentou descobrir quem era esta Vanessa e por que enviaram ela, mas não teve muito mais sucesso no diálogo com seu ‘chefe’.
   - Você nos alertou para sua necessidade de contato humano. Enviamos Vanessa para servi-lo.
   - Tá, e por que vocês proibiram ela de ter uma conversa normal comigo?
   - Iremos melhorar isto – Melhorar? Isto estava definitivamente ficando ainda mais misterioso.
   Rubens levou mais tempo que o habitual para se concentrar em seu trabalho, mas depois que começou, sua culpa, o mistério da mulher, tudo foi esquecido, enquanto se concentrava em um problema particularmente complexo. Aparentemente, os programadores misteriosos haviam trabalhado bastante durante a noite. “Estão na Índia, eu aposto”, ele pensou enquanto trabalhava.
   Quando por fim parou para descansar um pouco, descobriu que Vanessa havia feito um almoço para eles. Depois de semanas de sanduiches e comida congelada esquentada no micro-ondas, foi uma grata surpresa. De tempos em tempos eram deixados suprimentos e produtos de supermercado dentro da casa, ao pé de escada, mas Rubens nunca teve muita experiência em fazer sua própria comida.
   Ele sentou à mesa, e Vanessa permaneceu em pé, até que ele mandou ela sentar e comer junto com ele. Novamente, as tentativas de estabelecer uma conversa com ela foram frustrantes. Ela era sempre simpática e sorridente, mas parecia procurar responder o mínimo possível, isto quando não ficava simplesmente em um silêncio constrangedor. No final o almoço, embora saboroso, também foi uma experiência incômoda.
   Assim que ele terminou, Vanessa pôs-se a arrumar a mesa, e quando ele se prontificou em ajudar, ela respondeu que ele tinha o seu trabalho para fazer, e que este era o trabalho dela.
   “Depois de três semanas sem falar com ninguém, eu talvez esteja sendo insistente demais. De repente, ela nem mesmo foi com a minha cara”. Rubens pensou, e retornou ao seu escritório.
   Ele trabalhou até tarde, e quando finalmente parou, encontrou um jantar pronto. O silêncio foi igualmente constrangedor, mas desta vez ele nem tentou conversar, resolveu deixar que ela falasse quando se sentisse confortável. Desta vez, pelo menos, ela sentou para comer junto com ele.
   - Bom, já está ficando tarde. Você vai voltar amanhã?
   - Eu vou ficar aqui, estou aqui para cuidar de você.
   - Ah, ok... – Rubens respondeu. Depois que ela ajeitou a mesa, tendo novamente insistido que isto era trabalho dela, ele a levou até um dos quartos – Acho que você pode dormir aqui, então. Se preferir, tem mais dois quartos vagos, mas este é o maior, e tem um banheiro exclusivo ao lado. Se quiser trazer suas coisas, tem um armário vazio aqui.
   Ela agradeceu e não falou mais nada. Rubens a deixou e foi para seu próprio quarto.
   No meio da noite ele acordou de um sonho em que estava com sua namorada, na cama, apenas para perceber que de fato havia alguém com ele. Em cima dele, seria mais preciso.
   - O quê? Quem?
   - Shhh. – Vanessa falou, o rosto aparecendo por entre as cobertas, para então desaparecer novamente, sua boca descendo pelo seu corpo.
   Por um instante, Rubens quase disse para ela parar, mas hesitou por alguns instantes, pensando que provavelmente nunca mais iria ver sua namorada mesmo. E depois não pensou em mais nada.
   Pela manhã, foi acordado com um bandeja de café da manhã sendo colocada em seu colo por uma Vanessa nua.
   - Olhe, você está sendo obrigada a alguma coisa? Quer dizer, alguém tem seus pais como reféns ou alguma coisa do tipo? Eu não quero que você faça alguma coisa contra sua vontade – Um pouco tarde para dizer isto, sua consciência lhe alertou...
   - Estou aqui para servi-lo – ela respondeu sorrindo.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Linguagem de Máquina 2/8

   A culpa pelo que fez ainda incomodava Rubens. Algumas vezes vinha no meio da noite, em um pesadelo, e ele acordava gritando. Outras vezes ele estava simplesmente descansando, fazendo um intervalo de seu trabalho, quando se via a pensar em todas as pessoas que morreram por sua causa, e começava, ali mesmo, a chorar.
   A verdade, porém, é que ele tentava não pensar nisto. Assim como tentava não pensar em sua antiga vida, seus pais, sua namorada. Eles achavam que ele estava morto, e talvez fosse melhor assim.
   Ele próprio havia visto no noticiário. Seu suicídio, o corpo encontrado com uma bala na cabeça, a nota – que na verdade ele próprio escreveu – pedindo perdão pelo que fez. Enquanto escrevia a mensagem de suicídio, Rubens chegou a imaginar que iam mesmo matá-lo e fazer parecer que foi ele próprio, mas o que podia fazer? Seus empregadores eram definitivamente muito poderosos, e ele estava na mão deles.
   Quão poderosos só ficou claro quando foi divulgada a análise da perícia. Não só o corpo havia sido reconhecido pelos parentes, mas a análise do DNA foi conclusiva. Era de Rubens mesmo o corpo que havia sido encontrado morto.
   Ele perguntou como haviam conseguido fazer uma simulação tão perfeita da morte dele, mas não recebeu resposta. Ele nunca recebia nenhuma resposta que não fosse a uma pergunta diretamente relacionada a seu trabalho.
   Se tudo era misterioso, seu trabalho não era exceção. Era o programa mais complexo que Rubens já havia feito. Levou semanas só para entender a linguagem e as ferramentas que iria usar no trabalho, eram muito diferentes de qualquer outro ambiente no qual já trabalhou.
   - Eu vou precisar ativar minha conexão neural – ele disse em voz alta, o microfone do computador captando sua voz, na segunda semana que estava na mansão – não tenho como trabalhar na velocidade que vocês querem de outro jeito.
   Ele havia desconectado sua interface assim que resolveu fugir. Teoricamente não era rastreável, e era um modelo simples, como qualquer adolescente usava para acessar mais facilmente a rede. Havia experimentos com modelos muito mais sofisticados, implantes que eram colocados por cirurgia diretamente no cérebro, mas só eram realizados com autorização médica, e restritos a casos muito graves, como cegueira, pacientes tetraplégicos, com doenças mentais e questões do tipo. Depois que se percebeu que com tais implantes era possível influenciar e até controlar a mente de uma pessoa, o uso dos mesmos foi proibido exceto em situações médicas.
   Em alguns de seus pesadelos, Rubens imaginava o governo americano implantando chips em seu cérebro. Terroristas presos não tinham nenhum dos direitos previstos na constituição americana.
   Mas nada disto era problema para a interface que Rubens usava. Ela só permitia que ele interagisse mais rápido com o computador.
   - Você pode ativá-la, se quiser. Enquanto não sair da casa, não há risco de detectarem.
    “Então eu estava certo?”, Rubens pensou, “É possível rastrear o sinal de uma conexão neural? Ou eles só estão dando mais uma desculpa para me manter preso aqui?”
   - Eu não posso sair desta casa, lembram? Vocês estão me mantendo preso aqui! – Podia ser uma prisão confortável, era uma mansão enorme e com todo o conforto, mas ele não havia visto ou falado com qualquer ser humano desde que fora trazido, exceto seu contato, que, de qualquer modo, se limitava a lhe dar instruções.
   Com seu acesso neural ativo, o trabalho ficou um pouco mais fácil, e na verdade era empolgante, algo realmente muito complexo e desafiador, e Rubens sempre gostou de desafios. O que o incomodava era que ainda não havia entendido que tipo de sistema ele estava ajudando a desenvolver. Era óbvio que outras pessoas também estavam trabalhando no mesmo, e Rubens começou a entender que seu papel era revisar e corrigir o que outros haviam feito.
   Na verdade, se não fosse o desafio, Rubens já teria enlouquecido nos primeiros dias na mansão, mas mesmo assim não aguentava mais ficar preso e sozinho.
   - Eu só quero sair por alguns minutos, esta bem? Eu não falo com ninguém há quase três semanas. Eu cubro o rosto com uma manta, ninguém vai me reconhecer.
   - Por que você deseja sair e se expor a um risco? Diga o que você deseja, que providenciaremos – A voz era sempre igual. Rubens perguntou uma dúzia de vezes qual era seu nome, sem receber resposta. A voz nem se deu ao trabalho de inventar um nome falso. Ele se perguntava, inclusive, se era sempre a mesma pessoa. Talvez fosse uma equipe, e a voz fosse sintetizada por computador.
   - Olha, eu estou fazendo o trabalho direito, pelo menos eu acho que estou. Nem isto vocês me dizem. Mas se eu não sair e conversar com outras pessoas, eu vou pirar. Dá para entender?
   - Seu trabalho está dentro do que esperávamos. Quanto a sair, é um risco inaceitável. Iremos providenciar uma alternativa.
   - Como assim, alternativa? Eu quero sair, não quero nenhuma alternativa. – Rubens gritou, mas ninguém respondeu.
   No dia seguinte sua alternativa tocou a campainha da porta.
   Rubens desceu as enormes escadarias da mansão hesitante. Seria a CIA? Descobriram que ele estava vivo e onde estava? A porta sempre estava fechada, ele já tentara abri-la algumas vezes.
   - O que eu faço? – Ele falou para o ar, enquanto parava no meio das escadas. Todas as outras vezes, ele só havia recebido uma resposta quando falava diretamente para o microfone do computador na sala de trabalho. A resposta, agora, que veio de algum lugar impossível de identificar, serviu para confirmar o que ele suspeitara desde o início, que toda a mansão era vigiada.
   - Abra a porta.
   Rubens terminou de descer as escadas e abriu a porta, que desta vez não estava trancada. Do lado de fora estava uma jovem aparentemente da sua idade, vinte, vinte e um anos. Ela sorriu e entrou, enquanto ele dava espaço, atônito.
   - Estou aqui para servi-lo – ela falou.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Linguagem de Máquina 1


   Rubens acreditou que seria impossível localizá-lo, a menos que alguém o reconhecesse na rua. Ele tomava extremo cuidado para não aparecer em nenhuma câmera, com receio que sua imagem terminasse em algum software de detecção de rostos do governo americano. Usava luvas finas, quase invisíveis, nos dedos, para não deixar digitais. Pagava tudo exclusivamente em dinheiro.
   Em três meses, ele já estava cansado desta vida. A pior parte era não poder ter contato com ninguém de sua família, não poder falar com sua namorada. Isto que não foi realmente sua culpa, pelo menos no sentido que ele nunca teve nenhuma intenção de ajudar terroristas a roubar um dispositivo nuclear dos americanos.
   Quando percebeu para o que eles estavam usando o software que ele desenvolveu, já era tarde. A notícia do roubo da ogiva estava em todos os jornais do mundo.
   Ele passou talvez duas horas tremendo, em casa, pensando no que iria fazer, até decidir ligar para a embaixada americana. Ele imaginava que, se ajudasse a prender os terroristas, provavelmente ia receber uma pena leve. O mais importante é que fosse considerado um criminoso comum, com seus direitos assegurados. Desde 2042, terroristas não tinham nenhum direito, tanto pela lei americana quanto pelas convenções internacionais. O Brasil não tinha assinado o último tratado antiterrorismo, mas Rubens tinha certeza que isto não ia adiantar muito no seu caso.
   Aquele momento, em que decidiu contar tudo, ficaria para sempre gravado em sua memoria. Como dizia a expressão, era algo que levaria para o túmulo. Sua mão no celular, o embaixador ouvindo sua explicação de como desenvolveu um software que talvez tenha sido utilizado no roubo da ogiva, a tela internet na parede de seu quarto subitamente abrindo uma janela para mostrar uma notícia que ele sabia que tinha de ser muito importante – seu terminal estava configurado para não abrir nenhuma notícia automaticamente. E tudo que ele havia feito adquirindo uma nova dimensão naquele exato instante.
   Rubens nem lembra o que o repórter falou. O que ele nunca esqueceria era a imagem por trás, o cogumelo atômico que se levantava por entre os edifícios de uma cidade.
   Ele ainda ficou olhando o celular por alguns segundos, atônito, até que percebeu que agora não haveria nenhuma redução de pena, nenhum entendimento que ele não sabia o que estava em jogo. Ele seria tratado como um terrorista que auxiliou na obtenção de uma arma de destruição em massa que foi detonada em solo americano.
   A pena era a morte.
   Naquele dia, três meses atrás, a vida de Rubens terminou. Ele simplesmente desligou o telefone e saiu de casa, sem nem se despedir dos seus pais.
   Ele tomou tantos cuidados que não conseguiu acreditar quando seu celular bipou com uma mensagem. Era um modelo antigo, da década de 50, não rastreável e totalmente anônimo, sem conexão neural e nenhuma identificação que era ele o usuário. Até então ele teria dito que seria impossível alguém localizá-lo por ele.
   “Rubens, retorne esta mensagem. Represento um grupo interessado em seus serviços”.
   Rubens desligou o celular, abriu e tirou o chip de dentro. Ele nunca deixava nada gravado na memoria interna do chip, mas era melhor não arriscar. Na primeira oportunidade, iria destruí-lo. Então começou a correr, procurando algum local coberto, para evitar que o seguissem por algum satélite ou avião espião. Claro, se já soubessem onde ele estava e o estivessem vigiando, seria impossível escapar. Ele não era nenhum agente secreto, só um programador.
   Ninguém apareceu. Mesmo assim, ele desapareceu novamente, desta vez tomando mais cuidado ainda. Nova cidade, nova identidade, nenhum contato com qualquer pessoa do passado.
   Era frustrante, mas qualquer coisa era melhor que ser pego pelos americanos. Às vezes ele assistia os noticiários. Mesmo mais de três meses depois da tragédia, ela ainda estava na mídia. Fazia quinze anos desde a última vez que uma bomba nuclear havia sido detonada em solo americano.
   Rubens tentava não pensar na quantidade de pessoas que morreram por causa dele. Se começasse a pensar nisto, provavelmente iria se matar pela culpa. Mesmo dizer que nunca imaginou que estava ajudando terroristas não era um grande consolo. Bem ou mal, ele sabia que era algo ilegal que estava fazendo, mesmo que pensasse que era só espionagem industrial.
   A segunda mensagem, Rubens recebeu quando estava à apenas dez dias com sua nova identidade. O mais incrível é que, desta vez, ele recebeu apenas uma hora depois de comprar um novo celular, assim que havia se sentido seguro para tanto.
    Ele nem leu direito a mensagem, apenas repetiu a mesma rotina. Nova cidade, nova identidade.
   Na terceira mensagem ele desistiu de fugir e respondeu. A mensagem apareceu apenas dez minutos depois dele ter comprado o celular.
   “Insistimos em um contato. Queremos ajuda-lo a se ver livre de seus problemas”.
   “Quem são vocês e o que querem comigo?”. Ele teclou de volta.
   Foi neste contato que Rubens recebeu a mais estranha proposta de trabalho de sua vida.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Um Estranho Mundo - Capítulo 4


Capítulo IV
"Qualquer raciocínio científico levaria a conclusão que a presença de seres semelhantes ao homem era a prova que eu estava na Terra, ou pelo menos um mundo de descendentes de humanos. Ao contrário, a presença dos Lepare é que me pareceu provar que eu estava em outro mundo, ignorando todas as semelhanças deles com homens. Talvez minha mente incompleta estivesse simplesmente aceitando o raciocínio simplista de livros e filmes que vi quando criança. Ou talvez aceitar o local e o tempo em que eu estava me levassem a questionamentos que minha mente não estivesse preparada para aceitar naquele momento. É claro, eu estava prestes a ter novas evidências que desafiariam meu raciocínio simplista, mas a mente humana sempre é capaz de criar novas fantasias para o inexplicável".

   Nós caminhamos por talvez uma hora, seguindo pela estrada. A garota e o homem-leopardo que havia falado com ela cavalgavam juntos, ao meu lado, enquanto eu caminhava a pé. Os demais seguiam a frente e atrás, e percebi que olhavam continuamente para a floresta, claramente atentos para ver se havia algum movimento.
   Para meu desapontamento, pois queria descobrir o que pudesse sobre eles, estas criaturas seguiam principalmente em silêncio. Quando falavam, a voz era baixa, mas felizmente, mesmo quando mal conseguia ouvir, a tradução surgia automaticamente em minha mente.
   - Você acha que o humano pode nos dar alguma pista de por que estamos aqui? – o homem-leopardo falou em um quase sussurro, aproximando um pouco mais seu cavalo do da garota.
   - Só vou saber quando conseguirmos falar com ele. Isto se Koro nos deixar – ela olhou para mim enquanto falava, depois continuou – é óbvio que ele não é Arugenanchi. Mesmo esquecendo as roupas, ele não fala a língua deles, tenho certeza. Você precisa convencer Koro a não matá-lo, pelo menos não até termos certeza que ele não foi enviado pelos deuses.
   Eu me esforcei para não estremecer ao ouvir que estavam pensando em me matar. Subitamente, entender este povo e o que eles pretendiam se tornou crucial. Será que eles entenderiam se eu falasse, da mesma forma que eu entendia eles? O único jeito de ter certeza era tentar me comunicar, mas se eles me entendessem, eu perderia a vantagem de me deixarem ouvir suas conversas.
   Eu decidi continuar em silêncio, mas passei a prestar atenção não apenas na tradução que aparecia em minha mente, mas também nas palavras em si.
   - Você conhece o pacto. Estas são nossas terras, e temos o direito de matar qualquer humano encontrado aqui, mesmo que não seja Arugenanchi. – Eu tentei separar as palavras, identificar uma ou duas para começar a entender a língua deste povo, mas eles falavam muito rápido.
   - Sim, eu conheço o pacto. Mas ele não nos obriga a matar ninguém, só nos dá o direito. Nós nem sabemos se ele é um inimigo. – Eu tinha que começar aos poucos. Entender a língua deles poderia ser a diferença entre viver e morrer. A primeira palavra que ela disse talvez fosse ‘sim’. ‘Rai’, eu repeti mentalmente, e a tradução veio no mesmo instante, da mesma forma que quando ela falava. ‘Rai’ era sim. Eu tentei fazer o contrário, pensei em ‘não’, mas não me veio nenhuma informação. Aparentemente, esta tradução mágica só funcionava em um sentido.
   Como eles ficaram em silêncio após sua rápida conversa, me vi refletindo sobre estas ‘mágicas’. Como ela havia me curado? Como, agora, eu tinha esta tradução aparecendo na minha mente quando eles falavam? Eu não queria acreditar em mágicas, mas também não conseguia imaginar uma explicação racional.
   - Estamos chegando, Shiri. Você acha que consegue se comunicar com o humano? – Shiri, eu pensei, tentando memorizar o nome. Pelo menos agora sabia como a jovem se chamava.
   - Não. As linguagens que ele fala são muito diferentes de Lepare e Arugenanchi. Vai levar um dia inteiro para os deuses nos darem o poder de entender o que ele diz – Pelo menos ela me deu a oportunidade de entender o “não”. “Ie”. A tradução não veio, então me lembrei que o i era mais comprido. “iie”, eu repeti mentalmente, e veio a tradução como “não”. E um calafrio percorreu meu corpo. Minhas pernas fraquejaram, e, pela primeira vez desde que ela me curou, o mundo voltou a girar ao meu redor.
   “Hai”. Sim. “Iie”. Não. Ou era muita coincidência, ou eu sabia que linguagem eles estavam falando. Era japonês. Isto era impossível.
   - Tente mesmo assim. – “Tentar o que?”, eu pensei, distraído com minha própria surpresa. Meu corpo tremendo e um pavor ameaçando tomar conta de mim. Ambos haviam parado seus cavalos, e olhavam para mim agora.
   - Humano, se você pode me entender, fale conosco agora. Sua vida pode depender disto – eu hesitei. Falar faria eu perder minha única vantagem, mas também não havia aprendido muita coisa até agora, e eles realmente haviam dito que provavelmente me matariam antes de conseguirem se comunicar comigo.
   - Sim, eu consigo entender vocês – eu respondi e esperei a reação deles, mas, para minha surpresa, percebi apenas confusão no olhar dos dois. Quando eles falaram novamente, eu entendi que nossa comunicação continuava sendo em um único sentido.
   - É inútil, Dao. Não entendo nada do que ele diz, os deuses ainda não me trazem suas palavras. Como disse, vai levar horas para podermos falar com ele. – Dao. Eu agora também sabia o nome daquele que parecia ser o líder deste grupo. “Mas ambos parecem estar abaixo deste Koro, que acham que vai querer me matar”, lembrei.
   - Então teremos que convencer Koro a lhe dar estas horas, Shiri. Não será fácil. – dizendo isto, ele puxou as rédeas de seu cavalo e partiu. Shiri apontou com um gesto para que eu continuasse caminhando, e seguiu atrás de mim.

* * *
   Se eu pudesse tomar como base expressões e atitudes humanas para entender estes estranhos seres que me capturaram, definitivamente a relação de Shiri e Dao com este Koro não era amistosa, embora também me parecesse que pelo menos Dao não deixasse isto transparecer. Felizmente para mim, Shiri não parecia ter ressalvas em confrontá-lo.
   Havíamos recém chegado ao acampamento, que nada mais era que algumas tendas e uma fogueira no centro, quando Koro se aproximou a cavalo e Dao se afastou de nós e foi conversar com ele. Cada vez era mais óbvio para mim que Dao era o líder do pequeno grupo que me prendera, mas Koro era o líder de todo o acampamento. Qual a posição de Shiri e quanta influência ela tinha nos demais era ainda um mistério para mim, mas eu tinha a nítida impressão que provavelmente tal questão definiria minha sobrevivência.
   Koro se aproximou de nós, seguido por Dao. Seu rosto não me pareceu muito diferente de Dao, mas a pele era um pouco mais escura e a juba completamente negra, o que tornava a diferença entre eles bem visível.
   - Então este é o humano que você deixou viver? – sua voz parecia mais firme e impositiva do que de qualquer dos outros que ouvi. Ele tornou claro, não apenas na frase mas na forma que olhava para Dao, que estava se dirigindo apenas a ele, ignorando Shiri.
   - Julgamos melhor deixar a decisão para o senhor – Dao respondeu, de forma solicita. Se eu ainda tivesse alguma dúvida, seria óbvio agora que Koro era seu superior.
   - Na verdade, acreditamos que não há motivo para matá-lo antes de ouvir o que tem a dizer – Shiri imediatamente se intrometeu, enquanto aproximava o cavalo dos dois, se colocando entre Koro e eu – ele não é Arugenanchi. Talvez seja até mesmo um enviado dos deuses.
   - Os deuses nos abandonaram, esqueceu? O que eles vão fazer se matarmos um enviado deles? Nos amaldiçoar novamente? – Enquanto falava, Koro desmontava de seu cavalo.
   - Se tivessem realmente nos abandonado, eu teria meus poderes? Ou como você explica todas as curas que já realizei? – Shiri também desmontou de seu cavalo, novamente se colocando entre eu e Koro. Ele desembainhou uma grande espada que estava em uma bainha presa em seu cavalo, segurando-a com as duas mãos. Imaginei que era uma espada grande demais para ser usada em uma única mão. Eu dei um passo para trás, me afastando dos dois e pensando se teria como correr e me esconder em algum lugar, mas era uma esperança vazia, eu sabia. Mesmo se não estivesse amarrado, qual minha chance de escapar de criaturas montadas a cavalo?
   - Eu deixo a teologia para você, Shiri, e você deixa os assuntos militares para mim. Saia do caminho, e deixe-me lidar com este humano de acordo com o pacto.
   - Se ele for um enviado dos deuses, pode ser nossa última oportunidade de perdão. Quem pode dizer que não fomos enviados para busca-lo? – Era cada vez mais óbvio que minha vida dependeria de quem levasse a melhor na discussão. Eu tentava desesperadamente lembrar de algumas palavras em japonês, se é que era a linguagem que eles falavam, mas nada me vinha a mente.
   - Se ele fosse um enviado dos deuses, não saberia falar Lepare? Dao me disse que ele não fala nem Lepare nem Arugenanchi. Como você explica isto?
   Shiri hesitou, e eu percebi que ela estava perdendo a discussão – mesmo que ele não tenha sido enviado pelos deuses, não quer dizer que não possamos aprender com ele. Devemos pelo menos esperar até que eu consiga me comunicar – Eu pude perceber que, embora argumentasse, o tom de sua voz já continha uma certa resignação.
   - É perigoso demais. Você não sabe que tipo de poderes ele pode ter. Neste momento mesmo ele pode estar se preparando para nos atacar – Atacá-los, me perguntei, surpreso. Que tipo de perigo eu poderia oferecer a estas criaturas? Mas eu sabia que precisava tentar alguma coisa, que meu tempo estava acabando.
   - IIE – eu disse, a voz bem alta. Não. Ambos olharam para mim, surpresos.
   - Você entende o que estamos falando? – Shiri perguntou
   - HAI – sim.
   - Você havia dito que ele não falava Lepare! – Os olhos de Koro se estreitanto enquanto olhava para mim, a desconfiança visível em seu rosto.
   - Ele não fala, tenho certeza. E deveria levar horas para os deuses começarem a revelar para ele nossas palavras. Não entendo. – E então, se virou novamente para mim – Você fala Lepare.
   - IIE – eu disse, e depois continuei em minha própria língua, pois “sim” e “não” eram as únicas palavras que conhecia – eu não falo a língua de vocês, mas entendo tudo que vocês dizem, desde que você me tocou.
   - Você consegue entender o que ele fala?
   - Não, Lorde Koro, os deuses ainda vão demorar para me dar este poder. Mas é óbvio que ele nos entende. Os deuses estão falando com ele, com certeza. Você entende o que isto significa? – e, como Koro nada respondeu, ela continuou – faz pouco mais de uma hora que eu convoquei o poder da fala, e ele não fala nenhuma língua parecida com Lepare, tanto que ainda não consigo entende-lo. Ele é um escolhido dos deuses, talvez enviado por eles. É a única explicação.
   - Você está inventando uma explicação. Talvez ele apenas já tivesse recebido a dadiva de entender Lepare.
   - E de quem ele receberia esta dádiva? Quem, além de mim, entre os Lepare, tem o dom da fala? Se ele próprio tivesse este poder, eu teria percebido. De todo modo, como você disse, a Teologia é minha responsabilidade, e eu digo que ele é um enviado dos deuses.
   Eu nem acreditei quando Koro baixou sua espada, não me parecia que ela estava tendo sucesso em convencê-lo. O que importava é que eu iria viver. E devia minha vida a Shiri.