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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O Reino de Martin 4/7 - Capítulo IV

Capítulo IV - 90º dia, 5º Ano Gen (4 anos, 90 dias da independência de Norst)

O ano 265 do antigo calendário iniciou sem que houvesse qualquer comemoração, pelo menos oficialmente. Nada foi dito formalmente, mas todos sabiam que comemorar o aniversário do dia que o primeiro humano pôs os pés em Norst poderia ser considerado subversivo.

As comemorações oficiais foram feitas 90 dias antes, marcando o aniversário da data que a última nave espacional partiu do espaçoporto de Norylsk. Soldados desfilaram nas ruas, multidões aplaudiram, o povo clamou pela presença de Martin, mas ele não apareceu. Há anos ele não se arriscava mais a aparecer em público.

"Dantès adoraria que ele se mostrasse ao público uma única vez mais", pensei comigo mesma, enquanto aguardava o elevador. Era um jogo de gato e rato que estava parado em um impasse, Martin temia por sua vida, Aldo estava morto, eu continuava seu trabalho, infiltrada na revolução dentro de uma revolução que Dantès havia criado. Alguém teria que fazer um movimento, forçar uma reação, um erro.

Um calafrio me percorreu quando saí do elevador. Eu havia pisado neste prédio uma única vez, anos antes, em missão junto com Martin, a única missão que fizemos juntos. O antigo prédio do senado era agora a sede do novo governo. Martin estava bem aqui, bem próximo, apenas alguns andares acima. Tudo que eu queria era poder subir estes andares, poder finalmente revê-lo, mas a segurança jamais permitiria.

- Tarith, que bom vê-la novamente. - Nary me recepcionou com um abraço e um sorriso, verdadeiramente feliz em me ver, após dispensar o guarda que me acompanhou do elevador até sua sala. - Tem certeza que é seguro vir até aqui?

- Eu não fui seguida. Na verdade, quem me vigia é Nando, seu agente.

- Eu sei, mas isto não impediu que pegassem Aldo. E agora que você está mais próxima de encontrar Dantès, nada nos garante que eles não coloquem mais pessoas vigiando você.

- Por isto mesmo que eu precisava vir pessoalmente. Na próxima semana encontrarei Dantès pessoalmente, e nós não podemos perder esta oportunidade.

- Você vai encontrá-lo? Tem certeza?

Eu acenei com a cabeça. O interesse de Nary era visível. Em ação, era impossível discernir suas emoções, mas aqui, apenas nós duas, ela se eriçava toda só em pensar na possibilidade, como um gato ansioso para atacar sua presa.

Ela começou a traçar planos instantaneamente, em sua maioria envolvendo uma ação suicida minha, uma bomba ou nano implantado em meu corpo, mas eu lhe disse que provavelmente seria examinada antes de chegar perto de Dantès. Ele era tão paranóico quanto Martin, Nando poderia lhe confirmar.

- Você pode chegar perto de Martin a hora que quiser - eu disse, o ciúmes perceptível em minha voz - Dantès só tem ouvido falar de meu trabalho em sua organização, ele não me conhece e não vai confiar em mim.

- Então você tem um plano melhor? - Ela por fim disse, a voz não escondendo sua irritação - você mesma disse que não podemos perder esta oportunidade.

Eu então lhe contei meu plano. Era mais força bruta que sutileza, mas nós tínhamos a vantagem da surpresa e do número de soldados que poderíamos dispor. Iríamos cercar e atacar Dantès assim que eu conseguisse a confirmação que ele estivesse presente em um local.

- Faça isto, Tarith, e Martin lhe será grato. Eu não posso prometer nada, ele tem - ela hesitou - ele tem questões com você, não posso explicar, você não entenderia, mas se fizer isto e sobreviver, eu tenho certeza que ele será grato a você.

- A vida de Martin é a única coisa importante para mim - eu respondi com sinceridade. Ela me abraçou, e me disse que comandaria pessoalmente a operação.

- Vou fazer de tudo para proteger você - foi a última coisa que ela me disse, quando me despedi.

"É um jogo de gato e rato, entre Martin e Dantès", eu pensei novamente, ao sair do elevador. "Como foi entre Martin e os humanos. Como foi entre Martin e o Senador".

Mais um calafrio me percorreu o corpo, enquanto me afastava do prédio que um dia pertenceu ao senado humano.

O prédio de meu pai.

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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Príncipe Melvin, Matador de Dragões

Príncipe Melvin, Matador de Dragões - (versão revisada em 20/01/2012)

O dragão me esmagava contra o chão, colocando o peso em sua pata, que pressionava meu escudo por cima do meu peito, mal me permitindo respirar. Eu estava indefeso, minha espada caída além do meu alcance, a lâmina estilhaçada.

O dragão falou em uma voz sibilante, a língua bifurcada aparecendo por instantes na boca semi-aberta.

- Aposto que você achou que seria fácil me vencer, não é, nobre cavaleiro? Veio com a cabeça cheia de histórias de heróis matando dragões e resgatando princesas, histórias cantadas por trovadores e repetidas por meninas românticas e jovens sonhadores. Você sabia que nós dragões também contamos histórias?

Eu tentava mover minha mão esquerda, presa embaixo do escudo. Em minhas roupas eu tinha uma ORB mística, a ORB de meu pai, o Rei Magnus. Grandurf, o mago, havia me alertado para somente usá-la na minha hora mais desesperada, mas sem dúvida ela era minha última esperança.

- O que houve? Não consegue falar? - o dragão soltou ligeiramente o peso, me permitindo respirar melhor e mover um pouco o braço. - o dragão comeu sua lingua?

Eu comecei a tirar o braço do escudo, mas era difícil me mover, a pata do dragão ainda me prensando contra o chão. Eu sabia que precisava ganhar tempo, e por isto resolvi responder as provocações da fera.

- Solte-me e enfrente-me se tem coragem, dragão. Lute comigo em um combate justo, e eu garanto que você nunca mais aterrorizará a vila de Mathigan.

- Enfrentá-lo? Mas eu acabei de enfrentá-lo. Você veio, armado com escudo, lança, espada, parecendo um cavaleiro de verdade, achando que seria páreo para um dragão. Você lutou com toda a coragem e estupidez de uma criança humana com a cabeça cheia de tolices românticas. E você perdeu.

Era verdade que eu tinha sido derrotado. Minha espada encantada, enfeitiçada pelo próprio Grandurf, se quebrou na pele do dragão. Mas a ORB era de um feitiço ainda mais antigo, estava a gerações na minha família, Grandurf me contou. Meus dedos estavam encostando nela, mas eu precisava segurá-la em minha mão para usá-la. Se eu apenas pudesse puxá-la com a ponta dos dedos. Se apenas eu conseguisse distrair o dragão por mais alguns segundos.

- Eu sou um cavaleiro de verdade, dragão, ordenado pelo Mago Grandurf. Mais que cavaleiro, sou o verdadeiro príncipe perdido, Melvin, herdeiro das terras do norte, destinado a libertar nosso reino de todos os dragões e vis criaturas místicas.

- Ah, Grandurf o encontrou e lhe contou seu destino, eu aposto. E o que você era antes de Grandurf visitá-lo e revelar sua verdadeira origem? Um camponês? Um criador de ovelhas? E, como em todos os seus contos de fadas, você descobriu que era na verdade um príncipe vivendo entre meros plebeus, estou certo?

Duas semanas atrás, eu pensava ser apenas um aprendiz de ferreiro, morando com meu tio, ou melhor, com um homem que dizia ser meu tio. Mas na verdade eu sempre soube que era diferente, que corria sangue nobre em mim. Quando Grandurf me encontrou, e me revelou minha verdadeira origem, tudo fez sentido. Eu era o príncipe perdido, e a profecia dizia que eu livraria o mundo dos dragões.

Comecei a puxar a ORB das minhas roupas com meus dedos e adquiri nova confiança. Mais alguns instantes e poderia usar seu poder e derrotar o dragão. Bastaria ganhar alguns segundos.

- Grandurf revelou minha origem, sim, dragão. Mais do que isto, ele se tornou meu mentor, e me treinou para vencer criaturas como você. Ele me deu o poder para derrotá-lo e salvar a vila de Mathigan.

- Derrotar-me? Não sei nada sobre você me derrotar, mas você vai, sim, salvar a vila de Mathigan. Pelo menos vai salvá-la por um mês inteiro, até eu ter fome novamente. Até o próximo príncipe perdido vir me enfrentar.

Finalmente, com um último esforço, aproveitando que o dragão se distraiu e soltou um pouco mais o peso, eu movi o braço os últimos centímetros que faltavam, e segurei a ORB em minha mão.

- Eu vou derrotá-lo sim, dragão, vou derrotá-lo com magia mais antiga que sua espécie. Vou derrotá-lo com a ORB dos matadores de dragões, entregue em minhas mãos pelo próprio Grandurf - e me concentrei na ORB, usando toda minha força de vontade para ativá-la.

E nada aconteceu.

- A ORB de Grandurf? Grandurf, que convenceu-o que você era um príncipe? Grandurf, que traz um novo garoto aqui a cada mês, para que eu continue poupando sua vila? Grandurf que encheu sua cabeça das histórias humanas, que terminam com os heróis vencendo e vivendo felizes para sempre?

O pavor tomou conta de mim. Eu tentei dizer: "eu sou um príncipe de verdade", mas não consegui falar nada, meu corpo paralisado de medo.

- As histórias de dragões são mais simples. Nelas, não há heróis, finais felizes, princesas a serem resgatadas. Mas elas sempre terminam com uma refeição. E você sabe qual nossa comida favorita?

Eu apenas balancei a cabeça, em sinal de não, apavorado demais para dizer qualquer coisa. O dragão abriu a boca, e um jato de fogo me envolveu.

- Carne assada.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O Reino de Martin - Capítulo III

Capítulo III - 417º dia, 3º Ano Gen (2 anos e 417 dias da independência de Norst)

Por quase duas horas eu andei de um lado para outro, observando o fluxo de pessoas que chegavam e saíam, até reunir coragem para entrar no templo do ancião.

Primeiro, eu havia atravessado a cidade, meu rosto coberto por um capuz, a capa me protegendo da chuva. Incógnita, numa região que nunca estive antes, procurando por respostas.

O templo era dos mais simples, apenas uma casa igual a todas ao seu redor, apenas com a marca na porta para indicar que um ancião morava ali, e que aquele era um lugar de meditação e busca de respostas. A porta, simples, branca, estava permanentemente aberta, e eu entrei e tirei meu capuz.

- Achei que nunca iria entrar.

- O quê? - eu me virei, por um instante lutando contra o instinto de ataque, minha mão buscando instintivamente por uma arma que eu não carregava mais. Atrás da porta aberta, uma jovem, pouco mais velha que eu, me olhava com uma expressão estranha.

- Você não é a primeira pessoa que hesita em entrar em nossa casa. Eu iria convidá-la, você estava há tanto tempo na chuva, mas achei que o primeiro passo precisava ser seu.

- Não estava hesitando - eu respondi - só não queria perturbar as orações.

- As pessoas entram e saem. Algumas quietas, outras rindo, outras ainda conversando entre si. Esta não é uma casa do silêncio, e acho que você não iria perturbar ninguém. Mas acho também que você não veio para orar.

- Eu - por um instante as palavras me faltaram, e me senti idiota por ter vindo até aqui. Ela estava certa, e eu concordei - não, não vim para rezar.

- Venha, não fique na porta. Me acompanhe. - e ela indicou a direção de uma outra sala, mais ao fundo, e fez menção de me conduzir para lá.

- Eu vim para falar com o ancião, mas já está tarde. Ele deve ter outras coisas para fazer. Eu volto outro dia - Eu me virei em direção a porta, quase como que fugindo, mas o que ela me disse em seguida me fez parar.

- Você tentou se matar, não tentou?

- Na verdade não - eu respondi, mas minha voz baixa, os olhos fixos no chão, só naquele momento percebendo que minha mão esquerda estava todo o tempo massageando o pulso direito, por cima do curativo. Parecia que um abismo se abriria a qualquer momento sobre meus pés, e eu tive que conter as lágrimas.

- Venha - ela encostou sua mão em meu ombro - vamos conversar.

Eu a acompanhei até a outra sala, e sentei em um dos dois sofás. Uma mesa de centro era o único outro móvel, e um pequeno origami de pássaro o único ornamento em toda a sala.

- Você quer falar sobre o que aconteceu?

- Eu não tentei me matar - eu não olhava para ela, apenas para o chão - é difícil morrer cortando os pulsos, especialmente com um corte transversal. O máximo que você consegue é uma cicatriz. Ainda mais se você corta apenas um dos braços.

- Então por que você se cortou?

Seguiu-se um silêncio, enquanto eu realmente tentava achar o que dizer. Por fim, respondi - eu não sei. - e comecei a chorar.

Ela esperou eu me acalmar antes de continuar, e quando dei por mim estava contando coisas que nunca havia falado a ninguém, sobre Martin, Aldo, minha filha, apenas evitando mencionar seus nomes.

- E você ama esta pessoa, o pai de sua filha?

Eu assenti com a cabeça.

- E ele tirou sua filha de você? Ele também a obrigou a servir a um sádico, e nunca mais a procurou?

Eu assenti novamente, após uma ligeira hesitação. Minha cabeça começou a latejar, e eu coloquei as mãos no rosto.

- E você ainda o ama, mesmo sabendo que ele não sente nada por você, se é que alguma vez sentiu?

Eu me levantei, a raiva me dando novo ânimo.

- Ele me ama também. Martin sempre vai me amar - quando percebi que havia revelado seu nome já era tarde.

Ela não me deteve enquanto eu caminhei, veloz, até a porta, os olhos novamente com lágrimas escorrendo.

- Eu vim falar com o Ancião, não com uma de suas auxiliares.

Só ouvi sua resposta quando já estava do lado de fora, a chuva caindo em meu rosto descoberto.

- Eu sou o Ancião.

sábado, 7 de janeiro de 2012

O Reino de Martin - Capítulo II

Capítulo II - 370º dia, 4º Ano Gen (3 anos, 370 dias da independência de Norst)


Eu estava curiosa para saber o que sentiria ao vê-lo, mas Martin não apareceu no funeral. Aldo era seu amigo de infância, e ele nem se deu ao trabalho de vir uma última vez se despedir. Aldo morreu em missão para Martin, tentando encontrar Dantès, o misterioso lider da nova rebelião, que parecia querer repetir os passos de Martin e tomar seu lugar. E nem assim, Martin veio.

- Você está bem? - Nary falou em voz baixa, para não atrapalhar a cerimônia. Ela também conhecia Aldo desde pequeno. Martin havia reunido todos os conhecidos de sua infância para formar sua elite.

- Bem? Não, não estou bem. Você sabe que não estou bem desde que Martin me abandonou - eu respondi também em voz baixa - Mas você quer saber se estou triste por Aldo estar morto? Como eu poderia estar? Você sabe o que ele fazia comigo.

Por uns minutos ela nada respondeu. Quando por fim quebrou o silêncio, sua voz era lenta, hesitante.

- Ele não foi sempre assim. Não foi sempre do jeito que você o conheceu. Nenhum de nós era o que nós somos hoje, Tarith, não quando éramos crianças, em Kheel. Especialmente, Aldo. - Mais silêncio, sem que eu nada respondesse. A cerimônia prosseguia, uma cerimônia mais antiga que a vida neste planeta. Aldo, em um caixão, sendo colocado no buraco escavado na terra.

Foi só quando o pastor terminou de falar suas palavras da nova religião de Martin e começaram a tapar o caixão com terra, que Nary voltou a falar - Aldo nunca brigava, quando criança, nem para se defender. Martin sempre tinha que estar por perto, protegendo-o das crianças maiores. Até que um dia os pais deles morreram, e Martin foi levado embora. O Aldo que você conheceu foi o Aldo que nasceu naquele dia, no dia do desastre em Kheel.

- E como isto justifica o que ele fazia comigo?

- Não justifica, não justifica tudo que fizemos com você. Martin não tinha o direito de... - ela hesitou por um instante - não importa. Eu vou falar com Martin, dizer que você já sofreu o suficiente. Se eu pedir, talvez ele não passe você para outra pessoa. Ou talvez eu possa indicar alguém para Martin, alguém que não vai maltratá-la como Aldo.

Eu virei o rosto e olhei diretamente nos olhos dela - Se você quer me ajudar, tem outra coisa que você pode fazer.

- Tarith. Não adianta me pedir novamente. Eu sei que você o ama, você não tem como não amá-lo, mas Martin não vai voltar para você. Acredite em mim, ele só vai machucá-la ainda mais.

- Martin nunca me machucaria. Mas eu sei que preciso mostrar o quanto o amo, ele deve achar que não penso mais nele, que o esqueci. Não é isto que quero lhe pedir, Nary. Eu quero voltar a ativa. Eu quero voltar a ativa para encontrar e matar Dantès.

- Estamos tentando a seis meses, Tarith, e ainda nem sabemos quem ele é, qual seu verdadeiro nome. Aldo era quem chegou mais perto de encontrá-lo, e olhe o que aconteceu com ele.

- Aldo não era tão bom quanto eu, Nary. Nunca foi. Ninguém além de você era melhor em uma missão que eu. Exceto Martin, é claro. Eu era a melhor assassina que você tinha, eu aprendi como ninguém tudo que você ensinou.

- Martin não quer mais você em missões, Tarith.

- Diga a ele para me deixar caçar Dantès. Ou eu vou ter sucesso, ou vou acabar como Aldo. Se eu tiver sucesso, se eu trouxer Dantès, Martin vai saber que eu fiz isto por ele, vai perceber que eu nunca deixei de amá-lo. Se eu não conseguir, se Martin não vai mais me amar, eu prefiro mesmo estar morta. Nenhum de nós tem nada a perder se me deixar caçar Dantès.

Ela hesitou por uns instantes. A seu modo, ela gostava de mim. E ela sabia que Martin não me deixaria em paz, que ela não poderia me proteger dele. Mas me mandar em uma missão suicida? Dependeria de quanto Martin já estava assustado com a nova revolta - Esta bém, eu vou falar com Martin, vou tentar. É só o que posso prometer.

- É o suficiente. - Eu disse, e me virei para ver o final do funeral de Aldo. Quase sem eu perceber, minha mão esquerda coçava a cicatriz no pulso direito, por baixo da manga da minha roupa.

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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O Reino de Martin - Capítulo I

Capítulo I - 415º dia, 3º Ano Gen (2 anos e 415 dias da independência de Norst)

Eu abri a torneira do chuveiro, e coloquei para encher a água da banheira. Nem muito frio, nem muito quente.

E pensei em minha filha.

Em outros dias, eu sempre colocava bem forte, quase a queimar a pele. Sempre com a esperança que, se a água estivesse suficientemente quente, eu conseguiria me sentir mais limpa ao sair do banho. Hoje, não importava. A água, a banheira, elas tinham outro propósito.

Esta noite Aldo não me bateu. Ele quase foi gentil. E cada vez que ele tocava em mim eu pensava em uma forma diferente de matá-lo. Não seria difícil, ele era mais forte, mas era pura força bruta.

Lento. Tosco. Nunca entendi por que Martin o valorizava tanto.

Um golpe bem rápido poderia arrancar seu olho. Isto não o deteria, não definiria a luta, mas seria divertido. Ver seu rosto se manchando de sangue, ele gritando de dor. Se apenas ele caísse em desgraça com Martin... então, em minha fantasia, a fantasia em que Martin ainda falava comigo, eu imploraria para ele me dar a chance de fazer justiça.

Um golpe na garganta seria como eu terminaria a luta. Será que ele demoraria para morrer? Uma imagem do senador, morrendo, três anos atrás, me veio a mente. Como todas as vezes, todos os dias, um vômito subiu até a minha garganta, e eu tentei pensar em outra coisa. E entrei na banheira.

A água estava morna. Eu me lembrei de minha filha. Ela era tão pequena, tão frágil.

Algumas vezes Aldo fazia festas, juntava outros soldados de Martin, em geral subordinados dele, e prostitutas.

Eu era uma das prostitutas.

Ele achava engraçado, não se importava em me dividir com os outros. Minha humilhação era prazer suficiente.

Se apenas Martin soubesse. Martin me ama, ele nunca permitiria. Se apenas ele não tivesse me dito para obedecer a tudo que Aldo mandasse, não importava o que fosse.

Eu fechei os olhos e mergulhei a cabeça na banheira. Eu poderia respirar a água? Seria possível meu desejo de morte ser tão intenso que eu apenas me afogaria na banheira? Eu veria minha filha uma última vez, em minha mente? Eu levanto o rosto para fora da água.

Esta manhã, depois que Aldo saiu, eu me vesti e fui ao mercado. Pelo menos desta vez não havia marcas recentes em meu rosto. Mesmo assim, as pessoas olhavam para mim.

A maioria me desprezava por achar que eu era amante de um dos soldados da elite de Martin. Alguns poucos tinham pena de mim. Eu caminhava no meio deles, mas estava em outro lugar, um lugar tranquilo, em que abraçava minha filha. Um lugar em que Martin estava comigo.

Eles me desprezavam, ou tinham pena. Se soubessem que eu própria fui da elite de Martin, uma de suas assassinas, iriam me odiar? Se pudesse, eu ainda seria, mas Martin disse que eu serviria melhor a causa servindo a Aldo.

Nós éramos heróis, 3 anos atrás. Havia festas nas ruas. Minha filha estava para nascer. Martin me amava.

Agora nós éramos vilões.

E Martin levou minha filha.

Eu disse para mim mesma que não era culpa dele, que ele me amava. Eu disse que se Martin soubesse o que eu estava passando, ele viria me resgatar.

Eu imaginava ele chegando, arrombando a porta, vindo me salvar.

Mas era só uma fantasia. Eu estava sozinha. Só eu e a faca que eu guardava havia três anos. E a banheira com água quente, que ajudaria o sangue a fluir.

Eu segurei a faca, com força, na mão esquerda, e usei para cortar o pulso da mão direita.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A Vingança de Martin 9/9 - Epílogo

Epílogo - 1 Ano Depois

A última nave humana partiu do principal espaçoporto de Norylsk. A cidade festejava.

Eu olhava da janela de meu quarto. A mão em minha barriga, sentindo o bebê se agitar dentro de mim.

Tudo que eu queria é que ele estivesse aqui, comigo, mas eu sabia que agora, assumindo oficialmente a posição de lider máximo de nosso povo, ele teria ainda menos tempo para mim.

Não importava, eu não era importante, ele sim, e nosso povo precisava de sua liderança.

Ele. Meu amor, meu amante, minha vida.

Martin.

A Vingança de Martin 8/9 - Capítulo VII

Capítulo VII - Tempo Presente

O vômito estava em minhas roupas, nos braços, e principalmente no piso a centímetros do meu rosto. Eu estava de quatro, joelhos e mãos no chão. Meu estômago continuava tentando expulsar alguma coisa, mas já estava vazio.

"Nanodrogas interferem em seu cérebro. Elas são a forma perfeita de escravizar alguém".

Eu tentei pelo menos levantar a cabeça, e tudo começou a girar.

"Alguns traidores fazem terapias gênicas para se tornar humanos"

A faca ainda estava em minha mão, a ponta também suja de vômito. Quanto tempo? menos de um minuto, menos de um minuto que meu mundo acabou.

"Em pouco tempo, seus pensamentos não são mais seus"

Eu virei o rosto. Martin sorria, a dois passos de mim.

"fico feliz por ter estas memórias apagadas"

Ele me olhava, os lábios agora roxos, a morte finalmente conquistando seu sistema interno de vida. Ele. O assassino. O senador.

Meu pai?

"ele sussurrava em meu ouvido para ficar quieta, até que os humanos perdessem minha pista".

Eu fechei os olhos e tentei me lembrar de minha irmã, mas só existia uma única cena dela em minha recordação, uma cena de um corpo de criança. Meu irmão? Apenas uma fala, um voz dizendo que os Gen foram criados para ser escravos.

E então uma imensidão de imagens desabou sobre mim.

Meu pai, segurando minha mão, me dizendo que iríamos em uma aldeia, tentar convencer os habitantes a sair de uma zona radioativa, na qual foram levados depois de serem libertados de uma mina. Uma mão tapando minha boca, enquanto eu tentava desesperadamente me soltar e gritar, vendo os seguranças se afastarem, procurando por mim na direção errada.

Eu vomito bile.

- Ele morreu. Venha, vamos para casa, vai ficar tudo bem.

Ele se aproximou, e tocou com a mão em meu ombro. Por um instante, tudo pareceu desaparecer, toda a confusão, e uma sensação de amor, de paz, percorreu todo meu corpo. Martin estava me tocando, e tudo ficaria bem.

Eu me virei, a faca acompanhando minha mão, a ponta se cravando em seu abdomem.

Seu punho acertou meu rosto. Eu caí, o rosto se chocando com o chão, os olhos fechados.

Eu matei Martin, eu matei Martin. Meu pai estava morto, morto por mim, e tudo que parecia ecoar em minha cabeça era o nome de Martin.

- Não se preocupe, querida - a voz dele, tranquila - achei que você não reagiria assim, mas por via das dúvidas, os nanos da faca estão ajustados apenas para humanos. Como eu disse, tudo vai ficar bem.