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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O Reino de Martin - Capítulo III

Capítulo III - 417º dia, 3º Ano Gen (2 anos e 417 dias da independência de Norst)

Por quase duas horas eu andei de um lado para outro, observando o fluxo de pessoas que chegavam e saíam, até reunir coragem para entrar no templo do ancião.

Primeiro, eu havia atravessado a cidade, meu rosto coberto por um capuz, a capa me protegendo da chuva. Incógnita, numa região que nunca estive antes, procurando por respostas.

O templo era dos mais simples, apenas uma casa igual a todas ao seu redor, apenas com a marca na porta para indicar que um ancião morava ali, e que aquele era um lugar de meditação e busca de respostas. A porta, simples, branca, estava permanentemente aberta, e eu entrei e tirei meu capuz.

- Achei que nunca iria entrar.

- O quê? - eu me virei, por um instante lutando contra o instinto de ataque, minha mão buscando instintivamente por uma arma que eu não carregava mais. Atrás da porta aberta, uma jovem, pouco mais velha que eu, me olhava com uma expressão estranha.

- Você não é a primeira pessoa que hesita em entrar em nossa casa. Eu iria convidá-la, você estava há tanto tempo na chuva, mas achei que o primeiro passo precisava ser seu.

- Não estava hesitando - eu respondi - só não queria perturbar as orações.

- As pessoas entram e saem. Algumas quietas, outras rindo, outras ainda conversando entre si. Esta não é uma casa do silêncio, e acho que você não iria perturbar ninguém. Mas acho também que você não veio para orar.

- Eu - por um instante as palavras me faltaram, e me senti idiota por ter vindo até aqui. Ela estava certa, e eu concordei - não, não vim para rezar.

- Venha, não fique na porta. Me acompanhe. - e ela indicou a direção de uma outra sala, mais ao fundo, e fez menção de me conduzir para lá.

- Eu vim para falar com o ancião, mas já está tarde. Ele deve ter outras coisas para fazer. Eu volto outro dia - Eu me virei em direção a porta, quase como que fugindo, mas o que ela me disse em seguida me fez parar.

- Você tentou se matar, não tentou?

- Na verdade não - eu respondi, mas minha voz baixa, os olhos fixos no chão, só naquele momento percebendo que minha mão esquerda estava todo o tempo massageando o pulso direito, por cima do curativo. Parecia que um abismo se abriria a qualquer momento sobre meus pés, e eu tive que conter as lágrimas.

- Venha - ela encostou sua mão em meu ombro - vamos conversar.

Eu a acompanhei até a outra sala, e sentei em um dos dois sofás. Uma mesa de centro era o único outro móvel, e um pequeno origami de pássaro o único ornamento em toda a sala.

- Você quer falar sobre o que aconteceu?

- Eu não tentei me matar - eu não olhava para ela, apenas para o chão - é difícil morrer cortando os pulsos, especialmente com um corte transversal. O máximo que você consegue é uma cicatriz. Ainda mais se você corta apenas um dos braços.

- Então por que você se cortou?

Seguiu-se um silêncio, enquanto eu realmente tentava achar o que dizer. Por fim, respondi - eu não sei. - e comecei a chorar.

Ela esperou eu me acalmar antes de continuar, e quando dei por mim estava contando coisas que nunca havia falado a ninguém, sobre Martin, Aldo, minha filha, apenas evitando mencionar seus nomes.

- E você ama esta pessoa, o pai de sua filha?

Eu assenti com a cabeça.

- E ele tirou sua filha de você? Ele também a obrigou a servir a um sádico, e nunca mais a procurou?

Eu assenti novamente, após uma ligeira hesitação. Minha cabeça começou a latejar, e eu coloquei as mãos no rosto.

- E você ainda o ama, mesmo sabendo que ele não sente nada por você, se é que alguma vez sentiu?

Eu me levantei, a raiva me dando novo ânimo.

- Ele me ama também. Martin sempre vai me amar - quando percebi que havia revelado seu nome já era tarde.

Ela não me deteve enquanto eu caminhei, veloz, até a porta, os olhos novamente com lágrimas escorrendo.

- Eu vim falar com o Ancião, não com uma de suas auxiliares.

Só ouvi sua resposta quando já estava do lado de fora, a chuva caindo em meu rosto descoberto.

- Eu sou o Ancião.

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