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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Solitário Ben e o Dragão

   Solitário Ben, mochila nas costas, braço ainda na tipoia, abriu o portão da casa que não era mais sua, tendo já se despedido de sua não-mãe. O sol brilhava no céu, mas ele fingiu não se importar. Que o queimasse, ele não ficaria nem mais um dia ali. Sairia sem olhar para trás, o mundo inteiro à sua frente; mais de um mundo, na verdade.

   Mas, mãe ou não-mãe — e ele não sabia mais como chamá-la, talvez nunca viesse novamente a saber — ele hesitou, e bastou um olhar para seu rosto, lágrimas contidas, parada na porta entreaberta da casa em que viveu toda sua vida, para ele voltar correndo e abraçá-la uma última vez.

   "Eu te amo". "Eu te perdoo". Tudo dito no silêncio de seu último abraço.

   E, afastando-se de sua não-mãe, Solitário Ben em passos firmes — seu rosto úmido de lágrimas que escorriam sem resistência — partiu para sempre, todos os mundos o seu destino.

         *       *       *

   Com que facilidade as palavras eram ditas em uma língua melodiosa, poucos dias antes, subindo e descendo de tom como se cantadas, enquanto as mãos se moviam em velocidade sem igual e precisão absoluta. Em tudo diferente da forma hesitante e concentrada de Faidha, quando abriu o portal para este mundo.

   - Vamos, é hora de voltar para casa — disse a mulher que Solitário Ben não mais conhecia.

   "É hora de abandonar Faidha para morrer", pensou Solitário Ben, tentando ignorar a dor dos cortes em seu braço, o sangue escorrendo e manchando a neve a seus pés, "hora de voltar a não viver".

   E Solitário Ben atravessou o portal para seu mundo.

         *       *       *

   — Temos novos vizinhos. Se mudaram ontem para a casa dos Silva — o pai de Ben, João Luiz, falou no jantar, naquela noite em que tudo começou. Ele o fez em voz alta, sem se dirigir a ninguém em particular, enquanto dobrava seu Correio do Povo e o colocava na cadeira vazia a seu lado, e ficou aguardando em silêncio, esperando uma resposta. Ele quase nunca estava em casa, passava as manhãs  e tardes na rua, mesmo nos finais de semana, e pouco conversava. Era uma surpresa que iniciasse um assunto à mesa.

   — Que estes não nos incomodem — Lara, a mãe de Ben, respondeu, enquanto limpava a boca com um guardanapo de papel, em sua típica voz baixa e suave. Ela não gostava dos antigos vizinhos. Diferente do pai, ela quase nunca saía, e ensinava Ben pessoalmente, para ele não ter que ir à escola.

   — Eles têm uma filha que parece ter a idade de Ben. Pensei que talvez pudessem ser amigos.

   — Sabes que nosso filho não precisa de amigos  —  a voz de Lara agora mostrando firmeza e até uma ligeira irritação  — não amigos para debochar e provocá-lo por não poder sair ao sol. Não é a verdade, Ben?

    Ben concordou com um aceno. Verdade? Mentira? Que diferença fazia. Ele vivia praticamente preso àquela casa. Como saber se seria bom ou ruim conversar com pessoas de sua idade?

   Pediu licença para sair da mesa e voltar a seu quarto. Pelo menos agora ele tinha uma tevê e podia assistir o que quisesse.

   À noite, às vezes Ben abria a janela, para olhar as estrelas e sonhar com mundos distantes, como os que lia nos livros que a mãe comprava a seu pedido — ele só saia a noite, e mesmo assim nunca para lugares com muita gente, como shoppings centers e livrarias —, mas desta vez ficou apenas deitado em sua cama, esperando o sono chegar. Foi quando ouviu uma batida na janela. Do outro lado, pendurada em um galho de árvore, uma garota de uns doze anos olhava para ele.

         *       *       *

   — Meu nome é Faidha — falou em uma voz suave que um pouco lembrava sua mãe, após ele ter aberto a janela e ela ter entrado no quarto. — Como te chamas?

   — Ben — ele respondeu, sem saber o que mais dizer.

   — Sou tua nova vizinha. Nos mudamos ontem. Há muito tempo que moras aqui? — enquanto falava ela se sentou em sua cama — Bela cama. Adoro como são macias as camas de teu mundo. Quantos cobertores! Faz muito frio à noite?

   Bem permaneceu alguns segundos de boca aberta, sem saber o que dizer, nem o que responder primeiro. Depois começou a gaguejar, até que, por fim, conseguiu falar algo coerente, mas com o cuidado de não elevar a voz, tentando não imaginar o que aconteceria se sua mãe entrasse no quarto naquele momento — você não pode ficar aqui!
 
   — Não posso ficar aqui? Queres dizer, não tenho o poder de ficar aqui? Bobagem! Estou aqui, então não podes dizer que eu 'não posso estar aqui'. No máximo eu 'não deveria estar aqui', não?

   — Não sei. Que seja. Não sei. Você não deve ficar aqui, então. Se minha mãe descobrir, ela vai, tipo, surtar. Surtar completamente. Eu estou surtando. Você não pode, quer dizer, não deve entrar no quarto dos outros pela janela. As pessoas não fazem isso. E por favor, fale baixo.

   — Sempre és tão nervoso? Vou descer e lhe trazer uma água com açúcar. Aproveito e me apresento para tua mãe. Sim?

   — Não. Não, por favor, não. Ela vai surtar. Você tem que ir embora antes que ela apareça. Ela não gosta que eu fale com estranhos.

   — Bem que ela faz. Existem muitas pessoas malucas no mundo, sabias?  — "sim, estou olhando para uma delas", pensou Ben, mas nada falou  —  Mas resolveremos isso — e Faidha se levantou da cama de Ben, deu um passo em sua direção, e estendeu a mão — Seja educado. Dê-me tua mão e me cumprimente. Começaremos de novo.

   Ben obedeceu. O aperto dela era firme, quase ao ponto de machucar.

   — Boa noite, jovem Ben. Meu nome, como disse, é Faidha. Gosto de viajar e conhecer novas pessoas, adoro dormir à luz das estrelas e detesto levantar cedo. E às vezes, quando sei que ninguém está olhando, me vejo a chorar de saudades do meu lar. Ah, e eu não sou deste mundo.

   Faidha disse tudo isso, sem em nenhum momento soltar a mão de Ben, e então complementou — Tua vez agora. Diga-me coisas a teu respeito, e como eu contei algo que nunca falei para ninguém, também terás que revelar um segredo só teu, algo pessoal.

    Ela parecia decidida a não soltar sua mão até ele responder

   — Eu...eu... não sei. Eu tenho treze anos. Gosto de ler. Ficção científica, fantasia, estas coisas. E eu tenho uma doença, não posso pegar sol, nenhum sol, posso até morrer. Por isso eu quase nunca saio  de casa, minha mãe não deixa  — e ele hesitou. Alguma coisa pessoal?  — e eu não tenho amigos. Nenhum amigo. Ninguém. E às vezes eu penso em me matar por causa disso  — "eu falei isso mesmo?", Ben se viu a pensar, " e para uma maluca que eu nunca vi antes?".

   — Percebes? Trocamos segredos. Assunto resolvido, não somos mais estranhos. A proibição de tua mãe não se aplica mais a nós — ela sorriu e, ainda hesitante, Ben sorriu de volta. Era tudo tão surreal, a garota parecia uma avalanche em forma de gente, que Ben não sabia o que dizer.

   — Esta foi uma visita rápida, nos veremos amanhã, mesmo horário, mesma janela.  — ela começou a caminhar para a janela ainda aberta, e então se virou  — Até breve, Ben que não tem amigos  — ela parou no meio da frase, parecendo pensar  — não, muito longo... Solitário Ben. Isso. Até breve, Solitário Ben.

         *       *       *

    — De onde você é, de verdade? de São Paulo? — Era estranho quão fácil era conversar com Faidha, depois do primeiro dia, quando Solitário Ben mais gaguejou que falou. Ele lhe contou tudo sobre sua vida, seus medos, seus sonhos para o futuro, e ouviu cada uma das fantasias dela. Histórias de outros mundos, rainhas descendentes de dragões e povos expulsos de suas terras. Era fantástico, mais real que qualquer livro que ele já havia lido. Mas ele queria conhecer a verdadeira garota, não apenas a fantasia que ela inventou.

    — Achas que estou a mentir?  — Sua voz se elevando enquanto ela se colocava de pé, e Solitário Ben, receoso que, após mais de uma semana de encontros escondidos, desta vez sua mãe ouvisse alguma coisa, pediu novamente para falarem apenas em sussurros.

   — Olha, assim, tipo, não fica braba, tá? Eu adorei ouvir, é demais! Quer dizer, uma guria entra pela minha janela, e me diz que sou filho da rainha de uma terra distante, e que posso salvar seu reino. É tudo que qualquer um quer ouvir. E adorei, sério. Mas eu queria conhecer você, a você de verdade.

   — Essa sou a eu de verdade, Solitário Ben — ela falou mais alto que o som da tevê, sempre ligada para disfarçar — e és filho de quem és. Mas, se preferes viver esta não-vida, é tua a decisão, não?

   Dizendo isso, indiferente aos pedidos de desculpa de Solitário Ben, e sem se despedir, Faidha saiu pela janela.

         *       *       *

    "Os dragões se alimentam de medo, e só podem ser derrotados por aqueles com um coração de dragão, como o teu". Dizendo isso, Faidha havia encostado o dedo com força na marca no peito de Solitário Ben.

    "Isso é só uma marca de nascença", ele havia dito. "Não", ela negou, balançando a cabeça, "é um sinal de que és filho de Lahara, nossa rainha. É um sinal de que descendes de dragões,  e que eles não podem se alimentar de teu medo. Nem lhe fazer mal".

    Com Faidha caída, desacordada após ser arremessada contra uma parede, e um dragão ocupando quase toda a câmara do castelo, espremendo Solitário Ben e sua espada em um canto, as palavras pareciam vazias e distantes.

   Mesmo neste momento ele não estava arrependido. Faidha disse que seria perigoso quando abriu um portal para seu mundo — mundo dos dois, ela havia dito —, provando de uma vez por todas que — palavras dela — fosse maluca ou não, não era mentirosa. Mas ele estava com medo. E o dragão se alimentava de medo.

   — Aqui não deverias ter vindo — a voz do dragão era sibilante, como se imaginaria uma cobra a falar — Ousarás lutar? Erga, então, a espada. Ataque.

   Solitário Ben levantou sua espada, presente de Faidha — mas você não vai precisar dela, vamos apenas entrar e sair, antes que o dragão nos veja — e o Dragão golpeou. Foi como se seu braço estivesse sendo arrancado.

   Quando voltou a si, estava caído, o braço sangrando, a espada jogada longe. E a pata do dragão, levantada, prestes a esmagá-lo.

   Foi quando ouviu a voz de sua mãe.

         *       *       *

   — Acaso, agora, os todo-poderosos dragões combatem simples crianças? — Era a mãe de Solitário Ben a falar. Mas parecia diferente, mais bonita, seu cabelo mais longo, um leve brilho a percorrer seu corpo. Talvez fosse apenas a tontura que agora parecia dominá-lo.

   — Simples criança um filho teu, Lady Lahara? Por nosso pacto, manterias daqui teus filhos longe. Achas que a marca de teus descendentes é proteção absoluta?

   — E acaso, Kothinotharo, uma falsa marca no peito de uma criança trocada na maternidade é suficiente para enganá-lo? Perdeste o olfato nesses longos anos? — Dito isso, o dragão aproximou sua face de Solitário Ben, até quase encostar em seu rosto.

   — Falas verdades. Uma criança humana apenas, não filho teu. Não quebrastes o pacto. Mas ousou invadir ele o meu castelo.

   — Assim como eu ousei. E a criança está sob minha proteção.  Vais me enfrentar pela vida dela?

    O Dragão pareceu hesitar um instante, antes de responder — Não. Tal dissestes, não filho teu. Partir podes, levando-o; nada por que lutar aqui.

    — E Faidha? — Solitário Ben tentou falar, mas a voz não lhe saiu. E tudo desapareceu em escuridão.

         *       *       *

    O sangue escorria de seu braço, de dois cortes profundos das garras do dragão, e caia na neve. Foi o que Solitário Ben viu, ao despertar, carregado nos braços de sua não-mãe. Mas a dor não importava. O que ia acontecer com Faidha?

   — Estamos distantes o suficiente. O portal não pode ser aberto dentro do castelo, mas suponho que isso aquela garota já lhe mostrou. Não importa, ela terá o que merece. — Dizendo isso, sua não-mãe o colocou no chão.

   — Nós temos que voltar. Não podemos deixá-la — a voz de Solitário Ben estava fraca, mas audível. Sua não-mãe fingiu não ouvir, e começou a falar em uma língua estranha, a mesma que Faidha usou, mas com mais naturalidade, e um portal se abriu na frente dos dois.

  — É hora de partirmos. — E, pegando Solitário Ben pelo braço não machucado, o arrastou consigo através do portal.

         *       *       *

   Ele se soltou de sua mãe com um movimento rápido. Saltou de volta, e o portal se fechou a suas costas. A neve macia o abraçou, recebendo-o neste mundo que não era o seu.

   Agora, estava na entrada do castelo, o mundo a girar, as pernas trêmulas. Antes, com Faidha, havia escalado uma parte desmoronada da muralha, na crença que o dragão não os perceberia.

   Não havia funcionado.

   Solitário Ben entrou no castelo em passos firmes, ignorando a tontura, e gritou.

   —  Thinoqualquercoisa! Dragão! Como quer que se chame, estou aqui!

   — Novamente desafias-me, criança?  — o som veio de trás, e ao se virar, Solitário Ben viu o rosto do dragão a centímetros do seu. Ele não recuou.

   — A garota. Deixe-a ir.

   — Vieste, garoto, por isso? Por sua amiga irás me enfrentar, quando fostes já derrotado uma vez?  — uma fumaça negra saía das narinas da criatura, quase impedindo Solitário Ben de respirar.

   — Faidha me disse que você se alimenta de nossos medos. Eu não tenho medo, dragão.

   — É doce o medo que finges não ter. Mas maior por sua amiga é ele. Eu gosto disso, da coragem tola  — e o Dragão encosta sua pata no coração de Solitário Ben, na marca — falsa marca — de nascença.

   — A garota, Faidha...

   — O povo de sua não-mãe, em falsas lendas, chama quem carrega a marca que imitas de descendentes de dragões. Acreditam, talvez, verdade. É marca, porém, apenas daqueles - e seus filhos - que, de um dragão, conquistaram respeito.

   — Você vai deixá-la ir?

   — Sim. E um outro presente lhe dou também.

   E um calor começou a crescer no peito de Solitário Ben, até se espalhar por todo seu corpo e consumi-lo por completo. E tudo se tornou fogo.

         *       *       *

   Solitário Ben ficou apenas poucos dias na casa que outrora considerou sua. Estava tão fraco, ao chegar, que não teria conseguido dar mais que poucos passos.

   Agora, mochila nas costas, braço em tipoia, um último abraço a despedida de sua não-mãe, atravessou o portão de sua casa. Não temia mais o sol. Fosse mentira de sua não-mãe, ou curado estivesse pelo dragão, ou mesmo que o sol o queimasse por inteiro, ele não tinha mais medo.

   À sua espera, também uma mochila nas costas, Faidha.

   — Vamos, Ben. Que mundo vamos visitar primeiro?

   —  Ué, não sou mais "Solitário" Ben?

   Faidha nada falou, apenas segurou sua mão, seu sorriso a resposta que os acompanhou na jornada por todos os mundos:

   —  Não enquanto tiveres a mim.



terça-feira, 2 de junho de 2015

O Preço da Vida Eterna

   Onde estou?

   A pequena mão segurando a minha é familiar. O leve toque de seus dedos minúsculos enquanto caminha ao meu lado é uma lembrança que jamais esqueci. A criança move os lábios em um sorriso que também está gravado para sempre na minha mente, intacto, como se o tivesse visto ontem, tão nítido quanto uma memória de implante cibernético.
Eu tinha treze anos, ela tinha dez, e aquele era o pior dia da minha vida.

   "Computador, por que estou revivendo isso?"

   "São suas lembranças, presidente Arthur. Não é por isso que está aqui? Para preservar sua vida para sempre?"

   Eu caminho com minha irmã até a recepção do prédio. Eles me param por causa do meu olho esquerdo, e eu tenho que tirá-lo e entregar aos guardas, que o colocam em uma máquina. Na época eu não entendia muito bem, mas hoje sei que estavam verificando se não havia nenhum vírus instalado.

   Eu ponho o olho de volta, de costas para minha irmã, envergonhado. Fazia menos de um ano que eu havia vendido meu olho e recebido este no lugar, e ainda tinha vergonha de usá-lo.

   "Eu não quero reviver isso. Computador, traga-me outra memória."

   "Esta não é a memória mais importante da sua vida, Thur?"

   "Não me interessa. Mostre-me qualquer outra coisa."

   "Muito bem."

   Estou em outro lugar. Sou outra pessoa e o garotinho assustado é agora uma lembrança distante. Mas o computador não escolheu nenhum dos grandes momentos da minha vida. Não foi quando assumi a presidência da Petro-Sekai, a maior corporação que a humanidade já viu, e me tornei um dos homens mais ricos do mundo. Nem quando ajudei a construir a primeira colônia humana independente fora da Terra. Não, o computador me levou à reunião em que me mostraram o procedimento que salvaria minha vida, poucas semanas atrás.

   "Isso é inútil, computador. Que importância tem esta memória?"

   "Shh, calma, tenha paciência comigo, Thur".

   Na minha frente, o médico respondia minhas perguntas com precisão e segurança.

   - Nós estamos chegando perigosamente perto do limite da extensão de vida em um substrato orgânico, presidente. Mesmo que todas suas lembranças das últimas décadas estejam armazenadas em circuitos quânticos, a estrutura neural principal de seu córtex ainda é puramente biológica. Haverá o momento em que sua equipe não conseguirá mantê-la estável. Se continuar com sua mente essencialmente composta de neurônios naturais, você certamente morrerá em algum momento nos próximos meses.

   - A versão de imortalidade que sua empresa oferece, Doutor Howard, não me interessa. Não tenho nenhum interesse em que vocês criem um computador quântico que emule minha mente.

   - Hoje, nós podemos fazer muito mais que isso, presidente. O que estou propondo é algo que nunca foi feito antes, ou pelo menos não em seres humanos. Estou propondo substituir seus neurônios, à medida que morrem, um por um, por neurônios quânticos. É mais que uma emulação. Perto disso, os circuitos quânticos que todos nós utilizamos para manter registros de nossas memórias são tão primitivos quanto eram os computadores digitais.

   "Eu sei muito bem dessa reunião. É por isso que estou aqui, neste cenário virtual, enquanto recebo a primeira carga de neurônios, para facilitar minha adaptação. Mas ficar me mostrando estas lembranças tem algum objetivo?"

   "É claro que tem, Thur. Tudo está conectado. Veja, vamos voltar à sua primeira memória".

   Antes que eu possa protestar, o computador projeta uma nova recordação. Sou de novo aquela criança de 13 anos, com um olho e órgãos artificiais substituindo partes vendidas em uma época que comprar órgãos era mais barato que construí-los. E eu estava prestes a vender minha parte mais preciosa. Minha alma.

   - O que vocês vão fazer com ela?

   - Garoto, você vai receber mais dinheiro do que jamais iria juntar em toda sua vida, mesmo se vivesse mil anos. O suficiente para nunca mais se preocupar com a próxima refeição. Por este preço, posso lhe assegurar que estamos pagando muito bem por sua irmã, e lhe garanto que ela será valiosa demais para simplesmente vendermos pedaços dela.

   "Pare! Eu não preciso lembrar isso de novo. Vejo cada vez que fecho meus olhos. Sonho cada vez que durmo. Por que está me mostrando isso?"

   "Nós temos algum tempo até podermos despertar seu cérebro, Thur. Estas lembranças são importantes. Vamos ver mais uma."

   O mesmo homem está caminhando comigo por uma enorme instalação. Estou assustado. Ele fica falando sobre como vou viver dentro de uma máquina e me tornar uma das pessoas mais importantes do mundo.

   "Isso nunca aconteceu, eu nunca mais vi aquele homem!"

   "Não, você não viu mais ele. Nem ele nem sua irmã, que ficou na outra sala, esperando você voltar. Esperando por toda uma vida".

   "Computador, pare imediatamente. Isso é uma ordem. Quero um contato com um supervisor!"

   "Não."

   "Você não pode me desobedecer."

   "Veja suas memórias, Thur. Veja suas memórias".

   Estou com 195 anos, ouvindo novamente as explicações do médico das Indústrias Vida Eterna. Estou com 13 anos, vendendo minha irmã pelo dinheiro que me daria a chance de construir uma vida para mim.

   195 anos. Um médico no uniforme azul claro com o discreto logo vermelho das Indústrias Vida Eterna ocupa toda minha visão.

   13 anos. Um homem vestindo um uniforme no mesmo tom de azul sorri enquanto me cumprimenta pela minha decisão, e eu me lembro da única pessoa que me chamava de Thur.

   E então eu entendo, antes mesmo que ela fale.

   "Você vai despertar agora, Thur, e um pedacinho minúsculo de sua mente não será mais sua. Uma pequena fração de seus neurônios será uma outra pessoa em seu lugar, e cada vez que você vier aqui, vou tirar um pouquinho mais de você."

   "E vou colocar um pouquinho mais de mim."

   "E assim vou pegar de volta a vida que você me tirou, irmão".

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