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sábado, 28 de abril de 2012

O Último Rei Orco XI

Era como se ela estivesse sonhando, e nada fosse real. Como se não estivesse caminhando na verdadeira Asikli Hoyuk em que viveu toda sua vida, mas em uma outra, uma cópia distorcida.

Seu pai estava ali, e tudo que ela queria era correr e abraçá-lo, que tudo ficaria bem, mas parecia que seus passos, seus próprios pensamentos, eram guiados por uma outra vontade, e ela se afastou sem olhar para ele.

Em algum lugar muito pequeno, dentro de sua mente, Hina tentava despertar, mas não conseguia.

Seu irmão, cego, seguia a seu lado, segurando firme sua mão, e descrevia o que percebia ao redor,  tanto no presente quanto no futuro. A voz, lenta e monótona, parecia vir de um ser sem vida, sem alma.

- Ao abrir os portões, Orcos virão correndo, armados de machados e espadas. Antes mesmo deles chegarem, flechas já estarão caindo sobre nós. - Ele falou, quando pararam na frente dos portões da cidade.

- Nenhuma flecha nos atingirá - Hina falou, a voz firme e grave não era sua - Nenhum orco ultrapassará o portão.

Os portões se abriram, e eles caminharam para fora das muralhas da cidade.

- Seth, filho de Makel, virá em nossa direção e nos atacará com sua espada. Ele acertará você primeiro, depois a mim.
 
- Seth largará sua espada, sem nos fazer mal, e nos levará até seu pai, o Rei Makel.

Mais frases Tuna falou com uma voz que não era sua, e para cada uma, Hina respondeu com um comando, quase sem perceber, sem lembrar. Quando deu por si, estava na frente do Rei dos Orcos.

- Iremos parar na frente de... - pela primeira vez, a voz de Tuna faltou, e quando ele recomeçou a falar, sua voz já não era convicta - haverá um... alguém... que falará algo...

- Rei Makel, dos Orcos, ajoelhe-se ante os filhos de JUS PATER - Hina ouviu estas palavras sairem de seus lábios.

E então uma pergunta lhe foi feita, e ela respondeu. E algo aconteceu. Algo muito errado.

E Hina despertou de seu quase sono divino.

E começou a gritar.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Último Rei Orco X

Quando as crianças sairam do Templo, toda uma tarde e toda uma noite haviam passado. Fora, ao lado da porta, um Rei rezava, ajoelhado. Ele deveria estar rezando por seu povo, deveria estar rezando pela vitória dos Homens e derrota dos Orcos.

Ele rezava por seus filhos.

O Rei se levantou, e olhou para as crianças, e depois para o sacerdote, Hodekin, que seguia atrás delas. Tuna trazia uma faixa envolvendo seus olhos, e segurava a mão de sua irmã, que o guiava. Hina tinha o olhar distante, perdido no horizonte. Nenhum dos dois pareceu perceber a presença de seu pai. Apenas o sacerdote olhou para o Rei, um leve sorriso em seu rosto.

- O que você fez com eles, Hodekin?

- Eu, meu Rei? Eu sou apenas um instrumento do poderoso JUS. E agora, também elas o são.

- Tuna, Hina, vocês estão bem. - Nenhuma das crianças lhe respondeu, e elas seguiram em frente, caminhando lentamente, em direção a muralha norte.

- Não as distraia, meu Rei. Elas são agora os olhos e a voz de JUS PATER. Deixe-as ir, enfrentar o Rei dos Orcos.

- E quando o enfrentarem, o que será delas, depois?

- Isto não cabe a mim dizer, meu Rei.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O Último Rei Orco IX

Tuna e Hina, o filho homem e a filha mulher do Rei Goldemar entraram no templo de mãos dadas, duas crianças de nove anos, trazidas por Sharazin, uma criada. Seu pai as aguardava, incapaz de esconder a preocupação estampada em seu rosto. Ao seu lado, o sacerdote de JUS PATER, Hodekin, abriu um sorriso ao vê-los.

- Aproxime-se, Tuna, filho do Rei Goldemar e príncipe dos homens. Aproxime-se Hina, filha do Rei Goldemar e princesa dos homens - a voz de Hodekin, melodiosa, combinando com seu sorriso, como se estivesse feliz em vê-los.

As crianças se aproximaram em silêncio, e pararam a um passo de sacerdote, sempre de mãos dadas.

- Crianças, vocês sabem que os Orcos cercam Asikli Hoyuk, a primeira cidade dos homens?

Hina respondeu apenas com um aceno de sua cabeça, enquanto Tuna permaneceu imóvel.

- Digam-me, então, crianças. Eles conseguirão entrar pelos nossos portões? Conseguirão destruir o último templo de JUS e por fim a raça dos homens?

- Não. - Hina respondeu de imediato, a voz firme, os olhos encarando fixamente o sacerdote. Tuna abaixou seu rosto.

- E como você tem tanta certeza, criança?

- Serão os homens a herdar a terra, sacerdote, não os Orcos. Foi a palavra de Jus Pater, e a palavra dele é a verdade. - uma vez mais, Hina respondeu de imediato.

- Ah, a voz de uma criança carrega mais sabedoria que a voz de um rei. Não concorda, Rei Goldemar?

- Ainda não me disse por que as crianças foram chamadas, Hodekin. Foi apenas para continuar a me provocar?

- Ah, não, meu Rei, eu não lhe disse que elas seriam nossa salvação? Elas serão a visão e a voz de JUS PATER na terra. Esta noite serão purificadas, e amanhã, enfrentarão e, com o poder do mais poderoso dos deuses, destruirão o Rei dos Orcos para sempre.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O Último Rei Orco VIII

O Rei Goldemar, senhor de Asikli Hoyuk e único dos Grandes Reis dos Primeiros Homens que ainda vivia, entrou apressado pelas portas do  templo de JUS, aquele que os Orcos chamavam de Z-US. À sua espera, Hodekin, sacerdote e representante na terra do poderoso deus.

- É um prazer vê-lo no tempo de JUS, meu Rei. É uma pena que suas visitas são tão raras. JUS já começa a duvidar de sua fé e questionar se seus atos de louvor são sinceros.

- Não temos tempo para pregações, sacerdote. Os Orcos cercaram a cidade e nos atacarão a qualquer momento. Nossas muralhas não os deterão para sempre.

- Ah, nobre Rei, então não foi a fé que o trouxe aqui, mas o medo. O temor é uma dádiva dívina, mas se temes mais os Orcos e seu deus menor que o grande JUS PATER, nosso pai, então todos temos razão para nos preocuparmos. Quando a fé de um Rei falha, todo seu povo corre perigo.

- Agora zombas de mim, sacerdote? Uma a uma, as cidades dos homens cairam. Acaso eles também não eram filhos de JUS? E o que acontecerá quando Asikli Hoyuk, a primeira cidade dos homens, cair? Quem irá louvar JUS, então? Ele virará um deus menor, caído aos pés do J-VA dos Orcos?

- Contenha suas palavras, Rei Goldemar! - A voz de Hodekin agora mais alta que a do Rei - Estás na casa do poderoso JUS PATER, cujo poder é infinitamente maior que o seu. JUS PATER cuja palavra é a verdade. Não blasfeme novamente nesta casa.

No silêncio que se seguiu, ambos, rei e sacerdote, se encararam. O Rei Goldemar foi o primeiro a abaixar os olhos. Respirou fundo e falou em voz mais contida.

- Perdoe-me se minhas palavras ofenderam a JUS PATER, mas elas não são menos sinceras por serem ofensivas. O que será de nosso deus, se a última cidade dos homens cair? Ele tem que nos salvar, nesta que é a hora mais desesperada de seu povo.

- Não pense que nada tenho feito. Eu orei a nosso deus por toda esta manhã, meu Rei. Três virgens dançaram aos sons da primeira canção, enquanto eu perguntava o que deveríamos fazer, e cada uma com uma voz me deu uma resposta.

- O que elas disseram? O que devemos fazer?

- O que elas disseram é destinado apenas ao ouvido dos mais santos entre os homens. O que você deve fazer, porém, meu Rei, eu posso lhe dizer. Traga seus dois filhos aqui, agora! Eles são a chave de nossa salvação. Eles, com sua fé e a palavra de JUS PATER, têm o poder de vencer o Rei dos Orcos.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Último Rei Orco VII

A voz de J-VA, Aquele que um dia foi o Último Rei dos Orcos aproximou-se de seus filhos, do que vivia e do que estava morto.

- Deixe Cãn partir. Mais nenhum sangue de In ou de El será derramado esta noite.

Seth foi o primeiro a se ajoelhar ante o milagre a sua frente, seguido em instantes por todos os Orcos, enquanto olhavam, admirados, para seu Rei.

- Meu pai, como é possível? Seus olhos, sua mão? Cãn disse que o viu morrer em seu sonho. - A visão era assombrosa. O Rei parado, os Orcos ajoelhados a seu redor. Sua mão esquerda tão perfeita quanto a direita, seus olhos intactos, sem cicatrizes, como se ele nunca houve usado o olho do dragão.

- Cãn disse a verdade! Makel, Último Rei dos Orcos, está morto. Eu sou a voz de J-VA. Eu fiz a última viagem, a viagem da qual não há retorno, e retornei.

- Mas Cãn matou Ab, meu pai, e agora mesmo desaparece de nossa vista, à distância. Deixe-me trazê-lo para seu julgamento.

- Não. Ele deve partir. Ele e a tribo de In. Eu vi as visões que apenas os mortos vêem, eu soube verdades que não pertencem ao mundo dos vivos. Cãn e sua tribo devem partir, Seth, esta é a vontade de J-VA. Sete mortes J-VA trará para aquele que matar Cãn ou qualquer um de sua tribo, e nós não queremos esta maldição para nós.

- Então a morte trouxe de volta meu pai e levou meu irmão. Ab deu sua vida por mim, mas daria dez vezes por você, meu pai.

Aquele que foi o último Rei dos Orcos não respondeu. Ele se aproximou e se ajoelhou ao lado do corpo de seu filho morto, sua mão direita puxando um cantil que estava amarrado em sua cintura, para em seguida derramar um punhado de água cristalina no rosto ensanguentado.

- Esta é a água do primeiro lago. Ela lhe dá um novo nome, lhe dá uma nova vida.

- Você agora tem poder para levantar os mortos, meu pai? - Seth perguntou. Aquele que um dia foi Makel olhou para o corpo a seu lado, como se esperasse para saber como responderia a pergunta.

A voz de J-VA então se levantou - Se fosse para Ab viver novamente, ele se levantaria e nos seguiria. Ao que parece ele não nos seguirá para Asikli Hoyuk.

-Asikli Hoyuk? Então a última batalha irá começar.

- Ouça-me, Seth. Ouça-me todos, pois minhas palavras são as palavras de J-VA. Iremos a Asikli Hoyuk, exterminar os humanos de uma vez por todas. Nenhum homem deve sobreviver, e nenhuma mulher que possa trazer um homem em sua barriga. Então, matem agora todos os rapazes, e também todas as mulheres que já alguma vez se tenham deitado com um homem; as restantes deixem-nas em vida e podem levá-las convosco, pois elas não poderão gerar filhos homens. Estas foras as palavras de J-VA, que agora repito a vocês, meu povo.

E assim, a voz de J-VA, que um dia foi o Rei Orco, partiu, com seu exercito, para o último bastião do homem.

Só muito depois, quando já era noite novamente, Ab El despertou de sua morte, confuso, e partiu também, mas sem rumo e sem saber por que vivia.

Ele não voltaria a encontrar seu pai.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Último Rei Orco VI

- Junte-se a nós ou saia do caminho.

Seth permaneceu imóvel, a ponta da espada encostando no chão, as pernas ligeiramente abertas, os olhos fixos em seu irmão mais velho. Ao seu lado, seu irmão do meio, Ab, de braços cruzados, apoiava-o simplesmente por estar ali, ao seu lado. Atrás de Cãn, todos de sua tribo aguardavam.

- O Rei disse para esperarmos, Cãn. Ele disse para esperarmos o tempo que fosse necessário, que ele voltaria para nos liderar no ataque a Asikli Hoyuk. Sua palavra é a lei para todas as tribos, inclusive a tribo de El. Inclusive a tribo de In.

- Um Rei Louco? Um Rei que arrancou o próprio olho? Que matou sua própria mulher? A tribo de In não segue um Rei destes.

- Makel uniu a todas as tribos, e todas juraram segui-lo enquanto ele vivesse. As tribos de In e El, mais que todas as outras, pois não foi destas tribos que ele desposou as mulheres e gerou a nós, seus filhos e filhas? Não foram as tribos de In e El que fizeram o juramento de sangue, o juramento de serem amaldiçoadas se um dia abandonassem seu Rei? Não trazemos todos a marca de Makel?

- Makel está morto

- Como ousa - Ab gritou e teria atacado ali mesmo seu irmão mais velho, a mão quase puxando a espada, mas a voz de Seth o deteve. - Pare!

Seth então olhou para o mais velho dos filhos do Rei Makel, sua espada ainda encostando a ponta no chão, os braços ainda aparentemente relaxados.

- Apenas nove dias se passaram desde que o Rei ordenou que esperassemos seu retorno. E nós esperaremos. Ele está vivo e ele retornará.

- Makel está morto - Cãn repetiu.

- Apenas nove dias e a tribo de In já enterrou vivo o seu Rei? Esta é toda a fé que vocês têm? - Seth olhou com desprezo para os seguidores de Cãn - A tribo de El esperará por todos os dedos da mão de cada um de seus guerreiros, e ainda assim acreditará no retorno de seu Rei. O inverno virá, trazendo neve e fome, e quando o verão retornar, ainda encontrará a tribo de El esperando seu Rei. E ele virá!

- Makel está morto - Cãn repetiu pela terceira vez.

- Como ousa dizer isto. Como ousa abandonar seu Rei?

- Esta noite, Seth El, filho de Mak El, esta noite eu sonhei com nosso pai. Eu sonhei que ele arrancou seu olho, o olho que lhe restava. Sonhei que ele comeu ambrosia. E sonhei que ele mergulhou no primeiro lago. Eu sonhei e em meu sonho, Makel morreu.

- Um falso sonho.

- Quando acordei, um corvo estava aos pés de minha cama. E todos sabem que os corvos trazem os sonhos verdadeiros.

- Este trouxe um sonho falso.

- Ele não trouxe apenas um sonho - E Cãn puxou um objeto de dentro de suas roupas, e jogou aos pés de Seth.

Quando percebeu o que era, Seth se abaixou e segurou, agachado, o objeto em sua mão. A espada, esquecida, caindo na relva. O objeto era um olho, e Seth soube instintivamente que era o olho que restara a seu pai. E soube também que o Rei estava morto.

Um movimento, Seth então mais sentiu do que viu, e soube que era a espada de Cãn, descendo em sua direção. Soube também que não conseguiria se desviar a tempo da mesma.

Um corpo então se jogou sobre ele, derrubando-o e ficando no caminho da lâmina, e Seth ouviu o grito de Ab, um grito interrompido subitamente.

Quando Seth se levantou, um golpe o atingiu na cabeça, e a escuridão dominou seu mundo.

Abriu os olhos para um mar de dor e sangue, e sentiu que um tempo havia se passado. Orcos da tribo de El o acudiam. Ele os empurrou e se levantou, apenas para ver, quando se afastaram, o corpo de seu irmão, Ab El, o pescoço quase arrancado, o rosto em um sorriso desfigurado, caído sobre uma poça de sangue.

À distância, Cãn e sua tribo caminhavam em direção ao horizonte. Ainda tonto, Seth pegou sua espada no chão, pronto para ir atrás de seu irmão.

Foi quando a voz de um morto o deteve.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O Último Rei Orco V

Foi no amanhecer de um novo dia que Makel chegou ao primeiro bosque, e parou a beira do primeiro lago e aos pés da primeira árvore. Seus galhos estavam secos, e apenas uma fruta era visível, perfeitamente redonda e ao alcance da mão.

- Ela está morrendo, apodrecendo por dentro, desde que Wotan arrancou um de seus galhos.

O Rei Orco se virou na direção da voz.

- Quem é você? - e ao ver a estranha criatura que parecia um lagarto sem pernas, sobre a rocha, continuou - O que é você?

- Quem eu sou - a voz sibilante lhe respondeu - Apenas um humilde servo de J-VA, e o guardião do primeiro bosque, agora que as Nornir partiram.

- Servo de J-VA? Então você sabe por que estou aqui?

- É claro que sei, último Rei dos Orcos. Você veio pela mesma razão de todos que vieram à árvore de todo o conhecimento, tanto do bem quanto do mal. Você veio em busca de respostas. E veio também para morrer, é claro.

O Rei ficou em silêncio, por alguns segundos, e então falou - Sim, eu também vim para morrer, se esta é a vontade de J-VA.

- Então pegue a faca de pedra, como lhe foi dito, Último Rei dos Orcos. Ela está a seus pés, onde foi deixada por Wotan, que veio antes de você, também em busca da verdade. Ele mostrou que estava disposto a pagar o preço. E você?

O Rei Orco olhou para baixo, e então se abaixou e pegou uma faca que jazia a seus pés, como a criatura havia lhe dito.

- Eu pagarei todos os preços que houver para pagar.

- Então, deixe-me ajudá-lo a cumprir seu destino. - E a criatura deslizou da pedra para o chão, e do chão para o pé de Makel, se enroscando e subindo pelo seu corpo, até sua boca quase encostar no ouvido direito do Rei.

- Arranque o olho que lhe resta sem medo, Orco, que eu serei seus olhos.

Sob as ordens da criatura, em um rápido movimento, Makel arrancou seu olho direito. Cego, a faca de pedra caindo novamente no chão, ele avançou dois passos e puxou o fruto da árvore, cada movimento seguindo a voz em seu ouvido.

- Um ser inferior pode, uma vez, beber o Néctar dos deuses, ou comer a fruta ambrosia, o alimento dos imortais, mas jamais fazer as duas coisas. Para alguém que já bebeu o Néctar, comer a Ambrosia é desafiar os deuses e cortejar a loucura - A voz da criatura, incessante em seu ouvido.

Makel comeu o fruto, cego, a dor onde era seu olho apenas aumentando. Ele não se atrevia a abrir o outro olho, o olho do dragão, certo que o que restava de sua sanidade iria se esvair se ele visse o bosque com o olho do dragão.

E então, o Último Rei Orco de um passo, e depois outro, em direção ao lago, cada passo guiado pela voz em seu ouvido.

O encostar dos pés no lago foi um choque, os pés começando a queimar, como se ele estivesse entrando em um lago de fogo. Mas Makel continuou, um passo após o outro, até todo seu corpo parecer arder.

Por fim, com um novo passo para frente, ele não pode mais respirar, a água chegando a altura de sua boca. Mas Makel continuou, trancando a respiração apenas por um instante. A criatura em seu pescoço se desvincilhando e partindo para trás. A água preenchendo seus pulmões, seu corpo todo ardendo como se em chamas.

E ainda assim, o Último Rei Orco ainda deu um passo, e um novo passo, enquanto seus pulmões se enchiam de água.

E ele então pensou, em silêncio, na única pergunta que ainda lhe importava: Por que os humanos herdarão a terra?

E morreu.

....continua.....

sábado, 14 de abril de 2012

O Último Rei Orco IV

- Minha amada Lith, seu sacrifício foi em vão. - Ao entardecer do sétimo dia, caindo de joelhos no chão do deserto de pedra, foi a primeira frase do último Rei Orco. Suas forças finalmente se esgotando, a esperança há muito perdida.

Lagrimas escorreram das faces do Rei. Lágrimas que ele não chorou quando atravessou com uma adaga o coração da única mulher que amou, seu sacrifício um dos preços pela audiência com APOL. Lágrimas de agua salgada como o mar, pelo lado direito de seu rosto. De seu olho esquerdo, o olho fechado que um dia pertenceu a um dragão, lágrimas de sangue.

Um Orco nunca implora. Um Rei Orco jamais sequer pede. Ele toma aquilo que deseja, sem nunca se desculpar, nunca se submeter. Mas naquele entardecer, certo que sua raça estava destinada a extinção, vendo que seus sacrifícios seriam em vão - sua mulher, seu olho, sua mão - naquele entardecer, o Rei Orco implorou.

- J-VA, deus de todos os Orcos, eu imploro. Dê-me uma luz, ajude-nos. A palavra de Z-US é a verdade, e em sua palavra não houve espaço para nós. Só vós podeis dar novamente esperança ao seu povo escolhido. Eu imploro.

Uma voz, então, Makel ouviu. Uma voz tão silenciosa que se confundia com o barulho do vento, e ele não saberia dizer se era verdadeira, ou apenas sua imaginação.

- Você arrancou seu olho esquerdo, mas poupou o direito. Tomou a vida de sua mulher, mas não a própria. Bebeu o nectar dos deuses, mas não comeu a ambrosia. Você agora implora por respostas, quando antes aceitou apenas meias verdades pelo seu meio sacrifício.

- J-VA? É você que me fala? Ou minha razão por fim se foi, como há dias meus filhos temem?

O silêncio. Vento soprando.

- J-VA, se é minha vida que queres, ela é sua. Meus olhos, minha alma. Apenas me dê a resposta que salvará meu povo.

Novamente uma voz que parecia a voz do vento, pouco mais que um sussurro no silêncio.

- Para além do deserto de pedra, há um bosque com uma árvore cujo fruto é ambrosia, o alimento dos deuses. Há uma faca feita de pedra, que um dia arrancou o olho do poderoso Wotan. Há um lago cujas águas significam morte e vida. Ouca o que você irá fazer, Último Rei dos Orcos. Ouça como você irá morrer.

E o Último Rei Orco ouviu como seria sua morte. E então se levantou e partiu.

...continua...

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Último Rei Orco III

- Por que os homens herdarão a terra?

- Ele não pode mais responder, meu pai. Está morto. - Seth mantinha distância de seu Rei. A batalha havia terminado. Os poucos humanos ainda vivos, mulheres e crianças em sua maioria, já começavam a ser reunidos para serem levados para o acampamento, para servirem de diversão aos soldados. Poucos sobreviveriam para ver a luz do sol novamente. Nenhum soldado humano ainda vivia, mas não era os humanos que os Orcos temiam. Era seu próprio Rei.

- Morto - o Rei repetiu, como se não tivesse entendido. Então olhou sua única mão, coberta pelo sangue. Ele havia espancado vezes sem conta o diminuto humano, largando seu machado e usando apenas o punho como arma, sempre repetindo a mesma pergunta: por que os homens herdarão a terra?

- Foi uma grande vitória meu pai. Apenas Asikli Hoyuk ainda resiste, agora, e quando este último baluarte cair, os humanos terão desaparecido por completo.

- Vitória? Você vê uma vitória aqui, filho? O Rei Orco olhou a devastação ao redor, as casas em ruína, os corpos pelo chão. - Parece uma vitória, mas será inútil. De que adiantam vitórias, se no final serão os humanos a herdar a terra? Você deveria herdar a terra, você e seus irmãos - O guerreiro não respondeu, apenas abaixou os olhos. Ele nada entendia sobre a vontade dos deuses, mas sabia que era melhor não discutir com seu pai, não com um pai que a cada dia parecia se aproximar mais da loucura.

- Eu não posso aceitar isto. Nós vencemos cada batalha. Não vou aceitar que eles que herdarão a terra, não vou aceitar que eles vençam a guerra, não me importa a vontade de Z-US. - Um relampago caiu do céu no instante que o Rei Makel falou, e o guerreiro se encolheu involuntariamente, ante a blasfêmia de seu pai.

- Quando o último humano morrer, meu pai, não estará nossa vitória completa? Não teremos então herdado a terra? - O Rei olhou para seu filho, a hediondo olho do dragão, que permanecia quase sempre fechado, se abrindo e olhando para ele junto com o olho normal.

- Não se não for a vontade de Z-US. Sua palavra tem poder, não pode ser quebrada.

- Então, meu pai, vamos enfrentar nosso destino. Vamos partir para Asikli Hoyuk e acabar logo com isto. E se Z-US decidir pelo nosso fim, se J-VA permitir que ele nos destrua, que assim seja. Morreremos Orcos, morreremos lutando.

- Não!

Seth olhou para seu pai, sem entender.

- Não - O Rei repetiu - Vocês não partirão para lugar algum. Vocês ficarão aqui, aguardando meu retorno, pelo tempo que for preciso.

- Aguardando, meu pai? Mas para onde você vai?

- Eu vou ver J-VA. Eu vou encontrar o deus supremo, e ele irá me dizer como quebrar a palavra de Z-US. E quando eu retornar, com sua resposta, nós iremos conquistar Asikli Hoyuk.

E o último Rei Orco deu as costas a seu terceiro filho masculino, e partiu, para encontrar o deus que criou seu povo.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O Último Rei Orco II

- Por que os homens herdarão a terra?

O arqueiro APOL, filho de Z-US, era o mais lindo dos deuses, tão alto e belo quanto um Orco, um gigante perto dos minúsculos humanos. Ele, mais que ninguém, saberia a resposta a pergunta do Rei Makel.

N-BIS havia se retirado, sem nada dizer, enquanto o Rei Orco aguardava que APOL se dirigisse a ele. Foi um longo tempo de silêncio, e ele apenas fez sua pergunta quando o deus finalmente levantou os olhos, que contemplavam uma pequena poça de sangue a seus pés, e, ao olhar para o Rei, perguntou o que o trazia a morada dos deuses.

- Por que os homens herdarão a terra? - APOL respondeu repetindo sua pergunta - Eles herdarão a terra porque esta foi a palavra dita por Z-US, último Rei dos Orcos. - Ele então se virou para voltar a contemplar a poça a seus pés.

O Rei Orco sentiu seu coração se apertar. Seus sacrifícios, sua mão, seu olho, a mãe de seus 5 filhos, todos um preço que não seria pago com tão pouca resposta. Mas era a um deus que ele se dirigia, e não um deus menor como N-BIS, mas um dos filhos de Z-US.

- APOL, deus da luz e do sol, da verdade e da profecia, nós somos criaturas de J-VA, não de Z-US, é verdade, mas nós lutamos e mostramos nosso valor e devoção em campo de batalha. Nós queimamos nossos inimigos como oferenda não apenas a J-VA, mas também a Z-US e V-NU. O que fizemos para ofender a Z-US desta forma, e como podemos nos redimir.

- Aproxime-se, último Rei dos Orcos. Aproxime-se e olhe para o espelho do tempo.

O Rei Orco aproximou-se de APOL e olhou ao redor, até perceber que era à poça de sangue no chão que o deus se referia. Ao olhar fixamente para ela, parado ao lado de APOL, ele viu imagens se formarem, e uma voz começou a ecoar em sua mente.

"Antes da primeira era, três raças foram criadas pelos deuses, para com sua fé, dar a eles poder." O Rei Orco viu um Elfo sair de dentro de uma árvore. Um Orco surgiu do barro. Um homem aparecer do chão.

"Z-US criou os homens para povoar a terra. E disse que eles se multiplicariam e seriam em maior número que todas as outras criações, provando que Z-US era o mais poderoso de todos".

"E V-NU criou os elfos para cantarem a glória dos deuses. Imortais, e com devoção sem igual, sua fé faria de V-NU o mais poderoso dos deuses."

"E J-VA criou os orcos para fazer a guerra, e assim exterminar as outras raças, até que apenas eles reinassem supremos, e tornassem J-VA o mais amado e poderoso".

A imagem desapareceu, a voz silenciou, a poça de sangue no chão secou em um instante, e o Rei Orco se viu sozinho com APOL.

- Eu não entendo, J-VA disse que iríamos exterminar os outros povos e reinar supremos. Os Elfos já foram derrotados e expulsos para florestas longínquas, e as cidades dos humanos caem uma após a outra. Então seremos nós a herdar a terra?

APOL respondeu sem olhar para ele - Cada deus tem um dom maior, e o de Zeus é tornar a palavra verdade. Foi com a palavra que ele fez o mundo. Quando viu a criação de J-VA, e seu plano de se tornar o mais poderoso, ele riu, e zombou dos planos de J-VA e V-NU, e então ele usou a palavra, e disse:

O último Rei Orco sabia a frase, foi a frase que o trouxe até aqui, falada pelo seu irmão, o Shaman, com seu último suspiro. Ele repetiu, em voz baixa, acompanhando a fala de APOL.

- Os homens herdarão a terra.

www.aventuraeficcao.com.br

Fantasporto

Capas da Antologia que inclui um conto meu:

A capa da Antologia - versão Brasil


A capa da Antologia - versão Portugal


Mais informações: http://contos-fantas.blogspot.com.br/

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O Último Rei Orco - I

"Por que serão os homens que herdarão a terra?". Ele pagaria qualquer preço para saber a resposta.

O Rei Orco fechou seu olho verdadeiro, e se deixou levar pela visão do dragão. Mais que visão, era como cavalgar um dragão de verdade. Como cavalgar o vento. Ele nem viu a taça de Nectar cair no chão, escapando da mão que lhe sobrara, enquanto o vento o arrastava para outro mundo. Os soldados que o cercavam impediram que seu corpo caísse, e o colocaram com cuidado em uma cama feita de pele de carneiros.

A frente do Rei Orco, em sua visão do dragão, N-BIS, um deus menor, surgiu em meio a uma névoa sem fim, cessando, no mesmo instante, o vento que arrastara o rei até aquele local. A imagem de N-BIS era translúcida e intermitente, aparecendo e desaparecendo a cada instante. "Com dois olhos de dragão, minha visão seria perfeita, mas arrancar meu olho esquerdo já foi um preço alto demais", pensou o Rei Orco, "melhor enxergar um pouco no mundo dos deuses e um pouco no mundo mortal que ser cego em um deles".

- Um Orco, aqui? Veio entregar seu coração como oferenda para N-BIS? - A voz era sibilante, quase um uivo.

- Não vim para fazer oferendas, devorador de corações, vim para obter respostas.

- Respostas? Acaso agora os deuses são servos, e os mortais reinam supremos? Acaso agora cabe a mortais fazer perguntas, e a deuses dar respostas?

- Eu paguei o preço. Minha mão pela vida do dragão. Meu olho pela sua visão. Minha esposa em sacrifício, oferenda ao arqueiro APOL, deus da verdade. Leve-me a ele. Agora!

- Falarias assim com Z-US PAI? Com V-US ou J-VA? Pensa em mim como um deus menor, não é? Mas tudo muda, alguns sobem e alguns caem, entre os deuses assim como entre os mortais.

O Rei Orco ficou em silêncio, sem responder, mas também sem abaixar sua cabeça. Seu único olho aberto, o olho do dragão que ele colocou no lugar de seu próprio, fixo no rosto de chacal de N-BIS.

Por fim, N-BIS lhe deu as costas e falou, sem olhar para trás - Siga-me, então, último rei dos Orcos. Eu o levarei a APOL.

O Rei Orco seguiu em silêncio o devorador de corações. O olho direito, seu olho verdadeiro, sempre fechado. Abri-lo por um momento faria ele despertar de seu sonho divino.

Ou enlouquecer.

...continua...