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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Fugindo do Holocausto Zumbi

   Holocausto Zumbi. O nome é bizarramente apropriado.
   Minha filha olha para mim, o medo deixando seus olhos arregalados. Minha mão tapa sua boca com força, um só som e é nosso fim. Ela me abraça com força.
   O barulho de passos se torna mais e mais alto. A madeira do assoalho range, estala, o som se aproximando.
   Nós não respiramos. Talvez hoje seja o fim. Parte de mim deseja isto, a parte que quer simplesmente se entregar e morrer. São 10 anos de horror, 10 anos do levantar dos mortos, 10 anos que começou a guerra entre seres humanos e zumbis. Uma guerra que, para todos os efeitos, já terminou.
   Nós perdemos.
   A mão de minha filha aperta a minha. Estamos em um fundo falso, um buraco abaixo do assoalho, que eu cavei com minhas próprias mãos, exatamente para um dia como hoje. Mal cabemos, espremidos.
   O ranger do assoalho é agora no nosso quarto. Se desconfiarem que estamos aqui, eles vão destruir tudo até nos achar. Contra um talvez eu tivesse uma chance, mas não, são muitos, um grupo inteiro.
   Parte de mim deseja que tudo acabe hoje, mas não a parte mais importante. Não a parte de mim que é pai. Cinco anos ela tem, minha filha amada, e por ela eu continuo. Ontem ela falou sua primeira palavra. Papai. Não preciso mais que isto para querer continuar a viver.
   Eles caminham, dão uma volta, olham em todo lugar. Ouço os barulhos, estão vasculhando. Mas nós cuidamos para não deixar sinal de nossa passagem, sabíamos que um dia eles encontrariam nossa casa. Sorte que não sentem muito cheiro, dependem mais do que ouvem, do que enxergam.
   Então os sons se afastam, o cheiro começa a diminuir, dá para saber que eles estão saindo. Eu continuo segurando a boca de minha filha. Nenhum som, nenhum barulho, ou será nosso fim.
   Quantos mais restam de nós? Não podemos ser os últimos. Em algum lugar tem que ter outros. Não lutando, não mais. Sobrevivendo,  aprendendo a pensar e entender seu lugar neste novo mundo. Não podemos ser só eu e minha filha que restamos.
   No início, a confusão do despertar dos mortos, a fome insaciável, a surpresa, tudo contribuiu para o colapso da civilização humana. A evolução mental veio depois, lentamente, ao longo dos anos, Zumbis cada vez mais inteligentes, raciocinando, tomando decisões, mas a humanidade também reagindo, se reorganizando.
   E agora não havia mais guerra. Só o Holocausto Zumbi.
   Nome apropriado mesmo.
   Saímos do assoalho pela porta escondida em baixo do armário, minha filha ainda com medo, mas eu lhe digo em voz baixa para não se preocupar, o ar saindo de meus pulmões para gerar a voz.
   Eu a abraço. Cinco anos que ela está comigo, cinco anos e ela já sabia pensar quase tão bem como eu. Minha filha, minha razão de viver.
   Eles foram embora.
   Mas iam voltar. O Holocausto Zumbi estava em andamento. A guerra acabou.
   Nós perdemos.
   Os humanos ganharam.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Despertar no Ano 50.000 6/6

   - Eu tenho duas excelentes notícias, Homem do Século XX. Nós tivemos sucesso.
   Engraçado ele falar 'nós'. Simon não abriu a boca durante toda a reunião. Eu preferi não discutir isto com ele, tinha certeza que seria perda de tempo.
   - Vocês vão despertar as pessoas? - eu sabia que eles poderiam facilmente criar um mundo virtual artificial, e despertar dentro dele todos os bilhões de seres humanos anteriormente congelados.
   - Claro que não. Isto nunca sequer foi cogitado. Mas nossos argumentos se mostraram relevantes, apesar da simplicidade de sua formulação. Estimamos em menos de uma em um milhão a chance de no futuro uma decisão diferente ser tomada em relação aos homens primitivos. Mas ainda assim, uma em um milhão é uma chance suficientemente alta para justificar não eliminarmos os registros.
   - Entendo. Então, como você mesmo disse, resta-nos torcer por esta chance em um milhão. Quando me congelaram, também não achei que minhas chances fossem muito mais que isto.
   - Eu lhe disse que tínhamos duas excelentes notícias. Há aspectos de seu posicionamento que superaram nossas expectativas. Decidimos que você poderá viver em nossa sociedade.
   - Vocês me escolheram ao acaso. Se eu mereço viver, porque não todas as outras pessoas?
   - Você ainda é um humano primitivo. Entendemos que a presença de um de vocês poderá nos dar uma visão diferenciada, ainda que simples, da realidade. Apenas um maior número de humanos primitivos não geraria, por si só, mais valor.
   - Entendo. Obrigado, mas não, obrigado.
   - Como? - Pela primeira vez eu vi surpresa em seu rosto. Impossível saber se era real, ou apenas a simulação mostrou ele assim para satisfazer meu próprio ego, mas só isto valeu a pena.
   - Podem me deixar nos registros junto com os outros. Eu prefiro não existir do que ser parte de uma sociedade que não dá valor para a vida humana.
   Simon abaixou a cabeça em uma concordância que foi, senti, ao mesmo tempo um cumprimento e uma despedida. Pela primeira vez, ele saiu caminhando pela porta, ao invés de simplesmente desaparecer.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Despertar no Ano 50.000 5/6

   Três pessoas na mesa, comigo. Dois já tendo partido. Minha vontade era apenas desafiá-los, dizer que não eram tão evoluídos assim, que eram apenas arrogantes superpoderosos. Se fizesse isto, eles simplesmente tomariam sua decisão, e bilhões de seres humanos desapareceriam. Eu precisava tentar entendê-los.
   - Ok, vocês dizem que somos como micróbios para vocês. E dizem também que são moralmente superiores a nós. Vamos imaginar que nós soubéssemos, no meu tempo, que micróbios fossem capazes de pensar e de ter sentimentos. Vamos também imaginar que não nos custasse nada mantê-los vivos. Eu seria capaz de apostar que haveria pelo menos alguns seres humanos que iriam defender o direito deles a vida.
   - Nós entendemos o seu ponto. Infelizmente para você, ele não é novo. O primeiro Homem do Século XXIII que despertamos apresentou um argumento similar, ainda que com um embasamento mais sofisticado. - A mulher, Minerva, não parecia tão hostil como Odin, mas seu tom era condescendente - Assim como ele, você questiona nossa superioridade moral, nos julga arrogantes e insensíveis. Você acredita que não somos superiores a você, apenas mais poderosos, estou correta?
   Eu tentei esquecer qualquer preconceito e prestar atenção de mente aberta. Tinha que lembrar que estes eram os que ainda estavam dispostos a me ouvir. Apenas três pessoas em trilhões que se dispunham a gastar alguns minutos de seu tempo - Eu estou tentando entendê-los. No entanto, vocês falam em eliminar bilhões de pessoas e se colocam moralmente superiores às pessoas do meu tempo - eu respirei fundo - por favor, me explique como conciliar estas duas coisas.
   - Sua moral, assim como a moral de todas as pessoas do terceiro milênio, se baseia em uma realidade de vida escassa. Se houvesse um único micróbio no Universo, talvez destruí-lo fosse moralmente inaceitável. Imagine, se sua capacidade de abstração permite, uma realidade de vida abundante. A cada instante, milhões de novas consciências são criadas, seja derivando ou mesclando outras consciências, seja crescendo lentamente dentro de caminhos estruturados - em certo sentido semelhante às crianças de seu tempo. Neste contexto, qual o sentido de despertar bilhões de seres limitados, infinitamente mais primitivos que tais consciências? Se fizesse sentido, também faria sentido criarmos novas consciências propositalmente defeituosas, limitadas a muito menos que o potencial máximo da alma humana. Ao despertarmos seus bilhões de companheiros, estaríamos propositalmente dando vida a consciências defeituosas e limitadas, ao invés de dar vida a seres mais avançados, com maior potencial de auto-conhecimento e crescimento. Sabemos que não há sentido em jamais despertá-los, e, portanto, não há porque mantê-los em nossos registros.
   - Entendo - eu disse, embora não entendesse plenamente. Alguma coisa na lógica que eu estava abordando com estes 'seres superiores' teria que mudar.
   Eu pensei em uma Xícara de chá, que imediatamente surgiu na minha frente. Eu peguei, e calmamente bebi. E depois comecei a falar.
   - Vocês obviamente sabem muito mais que eu. Tem uma cultura, uma inteligência e um senso moral muito mais avançado, correto? - Minerva concordou, e eu continuei.
   - E vocês sabem tudo. Quer dizer, tudo que há para saber?
   - Se existe um limite para o conhecimento humano, Homem do Século XX, ainda não chegamos nele. Os outros homens do terceiro milênio julgavam que nossa civilização estava estagnada, mas isto não é correto. Ainda estamos pesquisando, descobrindo coisas novas, enfrentando desafios. Ainda estamos evoluindo.
   - E vocês sabem o futuro? Quer dizer, vocês sabem como vocês, ou seus descendentes, pensarão 50.000 anos no futuro? Vocês sabem me dizer como seria um diálogo entre vocês e alguém tão mais avançado que vocês quanto vocês são em relação a mim?
   - Nós podemos especular, Homem do Século XX, mas não podemos saber. É impossível ver o futuro.
   - Pois bem. Vocês tem absoluta certeza que é moralmente sem sentido despertar estes bilhões de homens do passado. Vocês também podem afirmar que nunca, no futuro, haverá uma outra percepção a respeito? Que, em algum momento no futuro, descendentes mais avançados de vocês não poderão entender esta questão de forma diferente. Eles então, não olharão para vocês como os que queimaram a biblioteca de Alexandria? Se é que entendem a referência.
   - Entendemos sua referência. Nosso conhecimento de sua história é significativamente maior que o seu.
    - Vocês querem saber se os considero arrogantes? Sim, considero, não por se acharem superiores a mim, eu tenho certeza que vocês são. Mas, ao destruírem para sempre estes bilhões de seres, vocês estão se considerando superiores a todo e qualquer ser que venha após vocês. Vocês estão dizendo que nada que eles venham a decidir sobre nós seria de alguma forma diferente do que o que vocês decidirem hoje. Vocês estão tomando uma decisão irreversível, estão tirando de seus descendentes, descendentes superiores a vocês, a possibilidade de decidirem eles, sobre nosso destino.
    Minerva sumiu, assim como o outro homem que não pensei um nome. Apenas Simon permanecia. Eu fracassei. Deveria ter mantido a calma.
   - Em breve falaremos, Homem do Século XX - Simon disse. E então também ele desapareceu.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Despertar no Ano 50.000 4/6

  
   Eu estava sentado com cinco pessoas ao redor de uma mesa, todas aparentando idades e raças diferentes. Nada disto era real, eu já sabia que era apenas para meu benefício.
   Eu passei horas conversando com Simon. Não consegui pensar em um nome melhor para ele. Personagens de ficção científica sempre têm nomes impronunciáveis, ou nomes americanos, e realmente, como ele havia dito, ele e seu povo eram muito mais estranhos que qualquer alienígena que já vi em algum filme. Chamá-lo de Pedro ou Paulo simplesmente me parecia comum demais para um ser tão estranho.
   - Simon, Homem do Século XX, podem começar - Coisa muito estranha. Eles simplesmente chamavam meu primeiro interlocutor pelo nome que dei para ele, mas se recusavam a me chamar pelo nome. Mesmo para Simon, eu era sempre o Homem do Século XX, apesar de ter  repetido meu nome várias vezes.
   - O Homem do Século XX fez muitas perguntas, mas ele não me disse o que deseja apresentar para o comitê de decisão. Disse que preferia falar diretamente para todos nós. É mais adequado que ele se expresse - Eu também já tinha entendido que estas não eram as palavras exatas deles, eles nem mesmo se comunicavam por palavras. Isto era uma tradução automática para o que Simon chamou de 'um nível de comunicação primitivo que permita uma compreensão mínima de sua parte'.
   Eu perguntei quantas pessoas existiam hoje no Universo, e Simon me respondeu que esta pergunta seria impossível de responder. Tanto pela indefinição do que seria uma pessoa - "todo ser humano hoje, se é que ainda faria sentido chamá-los de humanos, possuía inúmeras instâncias, simultaneamente existindo em diferentes partes do Universo. Algumas eram fusões de outras pessoas, outras eram derivações". Eu pensei em pessoas como processos executando em sistemas paralelos, e ele me disse que a analogia era adequada.
   Minha próxima pergunta foi quão importante eram estes cinco, e ele respondeu que não eram mais ou menos importantes que os outros trilhões de instâncias de pessoas. Eram apenas os únicos cinco que julgaram a continuidade da existência de mais de 2 bilhões de pessoas suficientemente importante para gastarem alguns minutos participando de uma discussão.
   - Senhores, vocês me despertaram para que eu participe do processo de decisão sobre a continuidade da existência de bilhões de seres humanos. Eu gostaria de perguntar quão difícil e quão caro seria dar a estes seres uma oportunidade de existirem?
   - Esta não é a questão em pauta - Um homem imenso, cabelos e barbas ruivas, sentado a minha esquerda, falou. Eu o apelidei mentalmente de Odin.
   - Não seja implicante Odin - mais uma surpresa. Bastou eu pensar em um nome, e já passavam a chamá-lo pelo mesmo. Claro, não deveria me surpreender, não era real, esta era apenas a tradução da conversa para meu 'meio primitivo de comunicação'.
   Eu apelidei a mulher que falou de Minerva. Realmente, nome de Deuses pareciam mais apropriados para eles, devia ter pensado nisto antes de dar um nome para Simon. Ela continuou - respondendo sua pergunta, o custo seria irrisório. Poderíamos facilmente garantir uma existência de séculos para todos os bilhões de humanos primitivos armazenados.
   - Muito bem. E vocês dizem que são moralmente mais avançados que as pessoas do meu tempo. Em nossa história, houve épocas em que tivemos contato com povos mais primitivos, e em alguns casos eles foram exterminados. Porém, quando eu fui congelado já estava bastante claro que erramos em tratar outros povos desta forma. Como vocês podem dizer que são mais avançados que nós, se estão prestes a cometer os mesmos erros que nós cometemos, milhares de anos atrás?
   Odin foi quem me respondeu - A comparação não é válida, Homem do Século XX. Vocês e os povos que você chama de primitivos estavam essencialmente no mesmo estágio evolutivo, vocês apenas tinham uma organização social e militar ligeiramente mais avançada. Uma comparação mais correta seria com todos os micróbios que você matou ao tomar um remédio. O seu povo percebia uma questão moral nisto?
   Era isto que se tornaram nossos descendentes? Para eles eramos, então, menos que insetos.
   - Nós somos seres humanos conscientes, não somos micróbios. Não é uma questão relativa, nem uma comparação entre nós e vocês. Pouco importa quão mais avançados vocês sejam, estamos falando de pessoas. Pessoas conscientes, que fizeram a aposta que um dia alguém teria tecnologia suficiente para revivê-los. Ninguém está dizendo que vocês não são imensamente mais avançados, mas...
   Eu parei de falar. Odin havia desaparecido.
   - O Homem do Século XX se irritou com a comparação. Ele entendeu que estávamos chamando-o de um micróbio - Minerva falou.
   - Isto é inútil, ele não tem nada a acrescentar ao que os anteriores disseram - um homem que eu ainda não tinha dado o nome desapareceu também. Eu percebi que a audiência estava prestes a chegar ao fim.
   E eu estava perdendo.

Despertar no Ano 50.000 3/6

      Então, eu precisava convencer a civilização de 50.000 anos no futuro a despertar bilhões de homens congelados. Era hora de começar a entender o melhor possível a situação que eu tinha pela frente.
   - Muito bem, então eu preciso preparar uma defesa para apresentar, que justifique por que vocês não devem apagar bilhões de pessoas?
   - Para este momento, é uma explicação precisa o suficiente.
   - E quanto tempo eu tenho para me preparar, antes desta audiência?
   - O tempo que você precisar.
   - Quer dizer que a audiência só vai acontecer quando eu estiver pronto? - Talvez fizesse sentido ganhar tempo, pelo menos estaria adiando a decisão deles de exterminar todas aquelas pessoas.
   - A audiência irá acontecer em 5 minutos. Mas temos todo o tempo que você necessitar.
   - E se eu precisar de mais de 5 minutos? - Cinco minutos? Cinco minutos para entender como pensa uma civilização absurdamente avançada e, aparentemente, totalmente despreocupada com a vida humana?
   - Estamos em uma Realidade 2, cada segmento desta Realidade avança no tempo como for mais conveniente. Quando você estiver pronto, terão se passado cinco minutos de tempo real.
   Eu pensei um instante. Era difícil lembrar que toda esta realidade era só uma simulação de computador, inclusive eu, pois tudo parecia tão real. Tinha que manter isto em mente.
   - Bom, então o que importa é que temos tempo. Será que não temos como ir, então, para um lugar onde possamos conversar melhor? Com uma mesa, quem sabe, e cadeiras? Eu estava sentado em uma cama, e meu interlocutor permanecia o tempo todo em pé.
   - Já que você parece consciente de que estamos em um ambiente simulado, não há porque não adaptá-lo a forma que você julgar mais conveniente - o ambiente ao nosso redor se transformou. Estávamos agora sentados, com uma mesa entre nós - estou também tirando as travas para que você mesmo controle seu ambiente.
   O que ele queria dizer com isto? Que eu poderia também controlar a realidade? Eu pensei em uma xícara de café, e ela surgiu na minha frente. Eu peguei e tomei um gole. Impressionante.
   - Estamos conversando desde que eu acordei, mas ainda não sei seu nome. O meu é Eduardo.
   - Nós não utilizamos mais nomes, Homem do Século XX, chame-me da forma que desejar. Nomes já não conseguem identificar um indivíduo de forma adequada, nem sua linguagem falada é utilizada para interagir na realidade do tempo presente. Estamos em uma simulação de um ambiente de sua época, com sua linguagem, para você ter uma possibilidade de interagir conosco, ainda que em um nível primitivo. Escolha nomes e outros identificadores primitivos da forma que julgar mais conveniente.
   Perfeito. Arrogantes e condescendentes. Provavelmente eu seria assim também, se tivesse que conversar com um Neanderthal, que é como eles deviam pensar a meu respeito. Ainda não explicava por que eles queria destruir todas as pessoas do meu tempo. Se, no século XXI, encontrássemos um bando de Neanderthais congelados, duvido que iríamos pensar em simplesmente destruí-los.
   Melhor começar a entender a verdadeira questão aqui, e assim fui direto ao ponto - Ok, enquanto penso em um nome para você, por que não me explica por que razão vocês querem destruir as pessoas do meu tempo.
   - Apenas um pequeno percentual dos seres armazenados são do seu tempo. Eles se concentram principalmente nos séculos XXIV a XXVI. A verdadeira questão é que não temos uma única razão para não destruí-los.
   - E é por isto que vocês querem apagar estas pessoas? Por que vocês não encontram um motivo para não o fazer?
   - Você se refere em um sentido genérico, mas é possível que isto se deva a não entender corretamente as individualidades envolvidas. Eu, pessoalmente, não quero destruí-los. Pelo contrário, eu o despertei para me ajudar a salvá-los. Minha posição é, em certo sentido, de um advogado de defesa. Eu preciso de sua ajuda, preciso que me dê pelo menos uma prova de que vocês não são tão primitivos que sua destruição seja justificada
   - Obviamente, comparado com vocês, nós somos primitivos. Vocês estão 50.000 anos a nossa frente. Agora, se são tão evoluídos no plano científico, como podem não ter evoluído também no campo moral? Vocês não percebem que assassinar todas estas pessoas é errado?
   - Moralmente falando, estamos muito mais avançados que vocês, Homem do Século XX. Não há nenhuma dúvida para nós que reviver qualquer um de vocês é moralmente errado. Até mesmo trazer você de volta a vida, por este breve tempo, é um ato moralmente questionável. Sua moral do século XX é que é por demais primitiva para entender.
   "Belo advogado eu tenho para nos defender", pensei em silêncio.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Despertar no Ano 50.000 2/6

      Eu me sentei de novo na cama e respirei fundo. Era óbvio que eu precisava urgentemente entender com o que eu estava lidando. Uma intuição me veio a mente, e falei, quase sem pensar:
   - Vocês são alienígenas? Alienígenas que estão decidindo se a humanidade merece ser ressuscitada, é isto?
   A pessoa a minha frente permanecia parada, a postura totalmente reta. Rígida demais para ser natural, percebi.
   - A resposta mais simples seria 'não'. Não existem alienígenas, pelo menos não no Universo conhecido. Somos descendentes diretos das pessoas de sua era.
   Ele falava da uma forma curiosa, eu já havia percebido. E me dei conta que seria muito importante entender de forma precisa o que ele dizia com suas frases cheias de condicionantes.
   - E uma resposta menos simples?
   - Uma resposta mais completa teria que incluir o aspecto de que sua compreensão de alienígenas, baseada nos conhecimentos científicos e na cultura popular de sua época, remete a seres que são muito mais próximos de vocês mesmos do que nós somos. Sob esta ótica, do seu ponto de vista, nós somos mais alienígenas do que os alienígenas de seus filmes de ficção científica.
   - No entanto vocês se parecem conosco. Ou esta não é sua verdadeira forma?
   - Fisicamente, nós não nos parecemos em nada com os homens de sua era. Quanto a esta ser minha verdadeira forma, é uma pergunta que não faz sentido. Infelizmente eu receio que, ao contrário dos outros homens que despertamos, você vem de uma era em que a realidade consciente era restrita ao que podemos chamar de Realidade 1. Não havia necessidade, para os propósitos de seu despertar, de criarmos um corpo humano na sua Realidade. Estamos em uma Realidade 2, e tudo aqui, inclusive eu e você, não tem existência na Realidade 1 exceto como fluxos de informação. Mas agora fomos além de sua capacidade de compreensão, portanto peço que ignore esta questão por enquanto.
   - Você está dizendo que estamos em uma realidade simulada? Foi isto que você quis dizer antes, quando falou que nossos corpos físicos não existiam mais? - Eu olhei para meu corpo. Era eu, sem dúvida, mas um 'eu' no auge da minha juventude e forma física. - O que vocês fizeram foi criar uma simulação minha com base na minha mente, nas minhas memorias? É isto que você quer dizer com Realidade 2?
   - Estou surpreso. O que você acabou de descrever é mais próximo da realidade que julguei que seria sua capacidade de compreensão. O homem mais antigo despertado anteriormente pertencia ao final do século XXII. Nós assumimos que você seria primitivo demais para entender os contextos envolvidos aqui. Sua compreensão irá facilitar nosso trabalho.
   - E qual é este trabalho? Você disse que queria que eu o convencesse a não destruir todas as pessoas congeladas, é isto?
   - Sim. Eu estou aqui para prepará-lo. Devo ambientá-lo e responder todas as suas dúvidas. Depois teremos um encontro com um grupo decisório, e você terá a chance de expor argumentos em defesa da continuidade da existência dos humanos congelados. Estou usando 'congelados' para seu benefício, embora talvez tenhas a compreensão que eles são neste momento apenas dados armazenados.
   - Eu entendi isto. E por que eu?
   - Escolhemos aleatoriamente. Você é o décimo e último homem que despertamos para que nos demonstre uma razão para não apagarmos definitivamente seus registros de existência. Sua audiência de decisão é a última que será realizada. Embora não queira ser melodramático, é fundamental que entendas o que está em jogo aqui. Depende de você convencer o grupo de decisão, e garantir a preservação dos registros de 2,5 bilhões de seres humanos.
   - O que houve com as nove pessoas que vocês despertaram antes de mim?
   - Eles não tiveram sucesso em nos convencer.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Despertar no Ano 50.000 1/6

      Eu abri os olhos, surpreso. Achei que nunca mais isto aconteceria, que eu nunca voltaria a vida. Quer dizer, eu poderia estar morto e no céu, ou em qualquer outro plano metafísico, mas sempre fui muito inteligente para acreditar nestas bobagens, para meu azar talvez.
   De todo modo, eu me levantei e olhei ao redor. Não me parecia que estava flutuando em uma nuvenzinha, nem tinha uma arpa na minha mão.
   - Onde eu estou? - Eu não falei para o vazio. Havia um jovem a minha frente, vestindo roupas normas, típicas do século XXI. Ele estava parado, sorrindo, com os braços ao lado do corpo. Estávamos em uma sala iluminada por uma lâmpada, com 4 paredes e uma porta, e nenhum móvel além da cama em que eu estava deitado.
   Muitas coisas me pareceram estranhas, de imediato. Eu não estava sentindo nenhum cansaço, nenhuma dor, na verdade me sentia melhor do que jamais me senti desde minha juventude. Havia algo de errado também na sala. Ela era por demais comum, por demais familiar. Até a lâmpada do teto parecia-me fora de contexto. Uma lâmpada incandescente? Já estávamos substituindo por lâmpadas frias antes mesmo de eu ser congelado. Isto só me deixou mais ansioso pela pergunta que realmente importava. A primeira frase da pessoa a minha frente nada fez para diminuir esta ansiedade.
   - Bom dia, homem do século XX.
   - Na verdade, acho que devo perguntar "Quando eu estou"?
   - De fato a primeira pergunta não é de todo relevante. De todo modo, estou à disposição para responder estas e quais outras perguntas que você tiver, porém devo alertá-lo que as respostas podem perturbá-lo. A familiaridade do ambiente ao seu redor é enganadora.
   - Já tinha percebido isto.
   - Realmente? Buscamos um ambiente dentro dos seus parâmetros de normalidade.
   - É, eu percebi. Está normal demais. Isto é um cenário, não é? Vocês só fizeram uma sala que parecesse familiar para alguém do século XXI?
   - Na verdade do século XX, que é a época que você nasceu, mas entendo que o século em que você foi congelado poderia ser mais relevante neste contexto. Mas, respondendo sua pergunta, dentro dos limites de sua compreensão dos fatos está é uma dedução impressionantemente adequada.
    - Então, em que ano estamos?
    - Estamos no que seria o ano 51.536 de sua era Cristã. Estou ignorando aspectos de distância e relatividade, que provavelmente não são relevantes considerando sua percepção da realidade. Estamos há 3 anos-luz de distância da Terra, na direção aproximada do centro da galáxia.
   - Quase 50.000 anos! Levaram este tempo todo para conseguir despertar pessoas congeladas?
   - De forma alguma. A tecnologia para isto já existe há pelo menos 40.000 anos. No entanto você é apenas uma das 10 pessoas que despertamos.
   - Só 10? Ninguém mais sobreviveu todo este tempo?
   - Na verdade existem 2,5 bilhões de humanos congelados. Tecnicamente falando eles não existem mais como corpos físicos, assim como você, mas suas existências ainda são mantidas. Na verdade, despertamos você pois precisamos de seu envolvimento neste processo.
   - Querem que eu ajude no processo de ambientar as pessoas, a medida que forem despertadas? - perguntei, confuso.
   - Na verdade, não. Não temos nenhuma intenção de despertá-las. Queremos lhe dar a chance de nos convencer a não destruir todos vocês.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ardath em: o Velho e o Demônio 6/6


Lúcifer
   Sozinho, eu não teria a menor ideia de como encontrar Lucifer. Cada encontro com ele era em um lugar diferente, e parecia que só Kalith e Kabet sabiam onde ele estava em determinado momento. Quando perguntei, Kabet me disse que era para nenhum anjo localizá-lo.
   "Existe um acordo que nenhum anjo pode atacá-lo diretamente, mas Lúcifer acha que eles irão descumpri-lo na primeira oportunidade que ele se descuidar", ele me disse. Achei estranho.
   Diferente de Kabet, que apenas mandava eu segui-lo enquanto caminhava pelo mundo das sombras, Kalith segurava minha mão na sua quando era ela a me levar. Eu não gostava, mas não via muito sentido em protestar.
   Quando saímos das sombras, bem no meio de uma sala mal iluminada, cheia de computadores e algumas pessoas, Kabet já estava a nossa espera.
   - Uma lan-house? - Eu sabia que ninguém podia nos ver ou ouvir, por isto falei em voz alta - nós vamos encontrar Lúcifer em uma lan-house?
   - Quer um lugar melhor para demonstrar a obra dele? Ou você acha que foram os anjos que inventaram os computadores? - Sem saber se Kabet estava falando sério, eu preferi ficar em silêncio. Tantas coisas que os demônios diziam como brincadeiras acabavam se mostrando mais verdadeiras do que eu poderia imaginar, que era impossível separar as piadas das verdades.
   Kalith continuava segurando minha mão. Eu tentei soltar, mas ela apenas segurou mais firme, e caminhou comigo, Kabet atrás, até uma sala, descendo uma escada.
   Ela me soltou para abrir a porta, e eu coloquei as mãos nos bolsos, para que ela não pudesse pegá-las novamente, e entrei.
   Havia uma mesa, duas cadeiras, ambas ocupadas. Teríamos que ficar de pé. Em uma das cadeiras estava Lúcifer, parecendo um homem de talvez 30 anos. Ele tinha uma aparência diferente cada vez que eu o via. A outra cadeira estava ocupada por alguém com uma capa, o capuz sobre a cabeça. Alguma coisa impedia-me de ver quem era, como se um holofote de escuridão em vez de luz estivesse projetando em cima da pessoa. Ou do que quer que a criatura fosse.
   - Você demorou - a voz de Lúcifer era melodiosa, parecia vir de um anjo. Bom, ele era um anjo, pensei me silêncio.
   Kalith respondeu antes que eu pudesse falar - Ele foi ferido. Por isto demoramos.
   - E sua missão? O velho está morto, como eu mandei?
   - Sim - falei sem hesitar, e não disse mais nada. Quanto menos falasse, melhor, eu achei.
   - É mesmo? Você não hesitou, nem decidiu mudar de ideia? Não teve nenhum impulso suicida de me desobedecer e deixá-lo viver?
   - Não. Eu fiz o que você mandou - Levei dias para parar de chamá-lo de senhor. Kabet me avisou que isto poderia deixá-lo muito zangado. De todo modo respondi novamente tranquilo, tentando ignorar meu coração que batia cada vez mais acelerado. Kabet havia me garantido que nem Lúcifer nem ninguem podia ler os pensamentos de uma pessoa.
   - Aposto que sim. Lucy?
   A garota tirou seu capuz e olhou para ele - Ele nem tentou matar papai. O velho até se prestou a se cortar e esparramar sangue no garoto. Me enganou quando eu o vi - ela virou o rosto para mim, sorrindo - Desculpe pela faca. Foi mal. Espero que não tenha machucado.
   "Imagine. É divertido ver suas próprias tripas saindo para fora do corpo". Eu não respondi. Estava mais preocupado com o que ia acontecer agora.
   - E então meu jovem? Alguma coisa mais a dizer? - Lúcifer inclinou a cabeça para o lado enquanto falava. Eu abaixei a cabeça por um instante, o coração batendo ainda mais acelerado, os olhos começando a lacrimejar. Então levantei a cabeça e olhei bem nos olhos dele.
   - Quer saber, eu sou um péssimo demônio. Eu nunca quis ser. E por mais que todos sejam engraçados e brinquem e contem piadas, vocês estão o tempo todo matando pessoas, e eu não quero fazer isto.
   Então me calei. E Lúcifer riu. Então se levantou e começou novamente a falar.
   - Sabe o que aconteceria se você tivesse se tornado um anjo? Eles também matam pessoas, sabia? Você seria condenado agora. Deus não aceita desobediência. Anjos não aceitam desobediência. Sua sorte é que eu não sou mais um anjo.
   E ele continuou.
   - O que todos vocês esquecem é que meu grande crime foi dar o livre arbítrio a vocês, fazê-los conhecer o bem e o mal. Você acha que eu iria puni-lo por mentir? Por me desobedecer? Eu sou o rei das mentiras, o primeiro desobediente - Ele aproximou o rosto do meu - se tivesse matado seu antecessor, eu o deixaria voltar para sua mãe, e viver toda sua vida mortal, e nunca mais nenhum anjo ou demônio o procuraria. Isto já aconteceu antes.
   Era tudo que eu gostaria. Poder voltar para casa, para minha mãe. Me afastar dos demônios e suas mortes e violência. Lúcifer, porém, falava como se estivesse me parabenizando.
   - Você é exatamente o demônio que eu quero que você seja, Ardath. Você fez a coisa certa, e seu espaço está garantido entre os meus.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Sobrevivendo ao Holocausto Zumbi


   Eu acordei achando que estava morto. Ou pelo menos condenado. Mesmo assim, não me movi. Fiquei quieto, apenas tentando ouvir os sons ao meu redor.
   Holocausto zumbi. Como que tinha primeiro aparecido nos filmes? Como que todos já sabíamos exatamente como seria? Minha teoria preferida é que alguém já tinha visto os Zumbis, sabia o que podia acontecer, e como ninguém iria acreditar se ele apenas contasse, resolveu fazer filmes a respeito. O resto foi só outros imitando, até que virou parte da cultura popular. Talvez houvesse outra explicação. Não sei.
   Como que eu tinha sobrevivido? Abri os olhos. Estava caído, mas não parecia ferido. Provavelmente infectado, ia morrer em menos de duas horas e me transformar em um deles. Um pé passou na frente dos meus olhos. Olhei para cima, um zumbi estava olhando para baixo, para mim. Ele se virou e seguiu adiante.
   Eu e Paulo tínhamos saído da fortaleza, a munição estava acabando. Nos cobrimos com sangue e pedaços dos zumbis, a ideia era passar entre eles disfarçados, mas alguma coisa deu errado, então lembrei. Paulo falou alguma coisa para mim, e isto atraiu a atenção deles. Vozes humanas, não era só o cheiro que atraia eles.
  Nós corremos, pulamos do alto de uma casa no meio da rua, foi a última coisa que me lembro.
  Eu olho ao redor, devagar. Acho que movimentos bruscos também chamam a atenção deles. Paulo está no meu lado, olhando o vazio. Ele se vira para mim. Céus, é um deles, um Zumbi. Mas ele se vira para o outro lado.
  Porque ainda estou vivo? Então me dou conta, eu continuava coberto com pedaços de zumbis. O disfarce ainda estava funcionando.
  Eu me levantei lentamente, e eles me olharam. Dezenas. Eu tinha que pensar rápido.
  Eles não eram tão estúpidos quanto pareciam. Quando Paulo falou, eles souberam que ele estava vivo, mas eu não havia falado, meu disfarce ainda funcionava. Eu dou um grunhido, e eles se viram para outro lado. Deu certo.
  Eu me levanto e começo a caminhar, imitando o jeito deles. Depois de uns minutos parece natural. Então começo a grunhir, bem do jeito que eles fazem.
  Eu passo um tempo assim, um bom tempo, grunhindo e me misturando com eles. Vai ficando mais fácil, chego a perder o medo. Mas tenho que esperar. Duas horas pelo menos, ter certeza que não estou contaminado, antes de voltar para casa.
  É noite quanto consigo subir a escada que tem escondida, único jeito de entrar na nossa fortaleza. Sempre tem um vigia, para o dia que os zumbis descobrirem.
  Hoje é Laura, minha esposa.
  O perigo já passou, mais de duas horas acordado, nenhum zumbi me atacou, ninguém me seguiu. Eu corro na direção dela. Ela levanta a arma.
  Como fui idiota, ela podia me matar achando que eu era um Zumbi.
  Eu paro, levanto as mãos e abro a boca para dizer que sou eu, que estou bem. Que estou acordado faz mais de 2 horas, portanto também não estou infectado. Ouvindo minha voz ela vai saber, Zumbis não falam.
  E da minha boca só saí um grunhido. Eu me assusto, preciso falar, senão ela vai achar que sou um deles e disparar. Então, uma lufada de vento vem da direção dela, e posso sentir seu perfume, perfume para tentar disfarçar o cheiro de carne. Mas não consegue, da para sentir o cheiro de carne. Carne fresca. Carne fresca e apetitosa.
  Ela aperta o gatilho.

 * * *
  - Ele lembrou da escada. E o jeito que me olhou, parecia por um momento que estava me reconhecendo. Eu me pergunto se não havia um pouco dele, uma parte que ainda se lembrava de mim.
  - Acalme-se, Laura. Ele estava morto há semanas, o corpo semi-devorado pelos outros zumbis. Agora ele está em paz.


sábado, 1 de dezembro de 2012

Ardath em: O Velho e o Demônio 5/6


Kalith
   Kalith me levou para jantar antes de eu me encontrar com Lúcifer. Ela também curou meu corte no estômago, e me fez trocar novamente de roupas. Primeiro ela gritou com Kabet, por ele não ter me curado ele próprio, e por ter trocado minhas roupas comigo ainda sangrando. Depois gritou comigo por eu ter quase morrido. Eu pensei em tentar explicar que não foi minha ideia deixar uma garota louca me esfaquear, mas achei melhor seguir o exemplo de Kabet, e ficar quieto. Ser um demônio era realmente muito mais estranho que eu podia imaginar.
   - Eu que devia estar treinando você. Se aquela criatura tivesse cravado a faca um pouco mais para cima, você estaria morto, sabia? Ser um demônio não o torna invulnerável, ou nem isto Kabet lhe ensinou? - Ela falava em voz alta, mas ninguém nas outras mesas parecia perceber nossa presença. Dançarinas nuas se contorciam em um palco no centro do salão, e eu não sabia se olhava ou não para elas. No final passei todo o jantar com a cabeça abaixada, olhando para meu prato. Primeiro eu achei que estava no inferno, mas já estava desconfiando que estava em um lugar na terra mesmo.
   - Por que você se importa? Kabet não parecia muito preocupado que eu sangrasse até morrer. - na hora que perguntei me arrependi, mas ela já estava segurando minha mão e sorrindo um sorriso sedutor.
   - Todos nos importamos com você, Ardath. Nós somos uma família, nós cinco. E o vínculo entre eu e você é ainda mais forte - eu puxei minha mão e escondi embaixo da mesa. Desde a primeira vez que a vi, ela falava de uma forma sedutora comigo. Como se diz para uma demônia que ela está agindo de forma imprópria? E como você diz que não está interessado sem que ela arranque sua cabeça? Por mais simpática comigo que ela fosse, que todos eles fossem, eles mataram meu amigos. Pedro. Claudia. Os pais de Luiz.
   - Não seja tímido. E não precisa ter medo de mim. Eu não mordo. Você é um demônio que acabou de vir de sua primeira matança. Temos que comemorar. - Ela ergueu uma taça de vinho. Eu não me movi, a taça que ela tinha colocado na minha frente intocada. Eu tinha quase certeza que era o mesmo tipo de vinho que o velho havia me oferecido. A contragosto, ela colocou sua taça de volta na mesa.
   - Quem era a garota? Kabet não quis me dizer - eu perguntei em parte por curiosidade, mas mais para desviar o foco para algum assunto que não fosse eu.
   - Ela não é ninguém - a voz de Kalith agora revelava uma raiva inesperada - apenas uma pirralha que só está viva porque Lúcifer me proibiu de tocar num fio de cabelo dela. Por que você quer saber?
   Isto era estranho. Quem diabos seria a garota?
   - Por que ela não tinha medo de mim? Ela disse que não tinha medo de demônios. E quase me matou. É óbvio que vocês sabem alguma coisa sobre ela, mas ninguém quer me falar.
   - Não há nada para falar sobre ela. Ela não tem medo de demônios porque convive com eles desde sempre. Ela nasceu e cresceu no inferno, mas, fora isto, é apenas uma humana mimada e estúpida. Satisfeito? Ou quer saber mais alguma coisa sobre a garotinha? - a forma que ela falou deixava claro que eu não deveria perguntar mais nada. Mas eu ainda tinha uma pergunta que eu realmente precisava saber a resposta.
   - E o pai dela? Quem era ele? Quem foi que eu matei?
   - Ainda não é óbvio? Ele foi Ardath antes de você.