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FICÇÃO CIENTÍFICA  -  FANTASIA  -  TERROR.


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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Os Cinco Não Vivos - Parte 2 de 5: Kabet

Kabet

Um grito estava trancado em minha garganta, prestes a sair. A luz do quarto estava acesa, porque eu estava com medo de dormir no escuro. Um demônio estava sentado, nos pés da cama, de pernas cuzadas. Uma de suas mãos estava com o indicador cruzando os lábios.

- sshhh - ele emite um som para me fazer ficar em silêncio - se você gritar, sua mãe vai vir correndo até o quarto, e nós podemos querer matá-la. Melhor meu amigo ficar em silêncio. Você quer que sua mãe viva, não?

Eu acenei que sim com a cabeça, meu olhos arregalados, o coração batendo acelerado, retumbando em meu peito. Suor escorria de minhas mãos. Eu nunca havia sentido tanto medo em minha vida.

- Eu peguei um pedacinho bem pequeno de seu cérebro - ele levantou a outra mão e me mostrou algo que segurava entre o polegar e o indicador. - acho que você nem vai dar pela falta. - Ele abriu sua boca e colocou dentro o que quer que fosse (um pedaço de meu cérebro???), e então mastigou e engoliu.

- Ahhh, delicioso, mas tão pequeno que nem dá para matar a fome - Ele sorriu. E então ficou em silêncio, apenas me olhando por um longo tempo, seus olhos atentos, como se estivesse me examinando. Ele era exatamente como Claudia havia dito, gordo e careca, e faltava um pedaço de seu crânio, permitindo ver um pedaço de seu cérebro.

- O que vai fazer comigo? - Eu finalmente reuni coragem para falar, pois ele parecia disposto a apenas ficar ali, me olhando. Minha voz gaguejante, as palavras não querendo sair.

- Eu já fiz. - Ele ajeitou as pernas e sorriu um sorriso medonho. Sua voz, porém, parecia tranquila e descontraída quando recomeçou a falar - sabe, o cérebro humano é uma máquina fantástica, e é preciso muita habilidade para desmontá-lo com precisão. As memórias, a inteligência e os sentimentos não estão agrupados em cantinhos separados, mas espalhados por todo lugar, e é preciso muita habilidade para juntar e retirar exatamente o que queremos. E cada parte tem um sabor próprio, único. Se provasse, você iria adorar.

Eu fiquei em silêncio, o medo dominando tudo em mim. Minha visão começou a se afunilar, escurecer, e eu senti que estava quase a desmaiar.

- Você não está curioso em saber que parte de seu Cérebro eu comi? - Ele diz, sorrindo. Eu nem me movi, paralisado de medo.

- Não se preocupe, não foi nada importante. Alguns até diriam que lhe fiz um favor. Sabe, existe uma parte do homem, alguns chamariam de sua alma, que veio direto de Deus. É como se um pedacinho de Deus fizesse parte de cada ser humano. É este pedacinho que faz algumas pessoas se sentirem especiais quando rezam, é a parte que lhes permite falar diretamente com seu criador. Foi esta parte que eu comi.

Ele se aproximou então de mim, seu rosto chegando a centímetros do meu - Mas não se preocupe, todo ser humano tem outra parte de si que veio direto da serpente, do demônio. Alguns dizem que é a parte que lhe dá seu livre arbítrio. Pessoalmente acredito que é uma muito mais importante. Esta eu não toquei.

Ele estendeu sua mão até encostar em meu rosto. Eu quase gritei, mas lembrei que ele disse que minha mãe morreria se entrasse no quarto.

- Durma agora - ele disse - amanhã Matat vai querer conhecê-lo.

Ele fechou meus olhos com sua mão, e tudo ficou escuro.

Os Cinco Não Vivos - Parte 1 de 5: Luskor

Luskor

- Meninas não sabem contar histórias de terror - Pedro disse, desafiando Claudia. Ela fitou ele com olhos zangados.

Estávamos em quatro, Claudia a única menina no grupo, em meu quarto, e cada um de nós contou uma história assustadora. Pedro contou uma de vampiros, Luiz uma de lobisomem. Eu contei uma história de uma mulher que esqueceu o bebê na janela, e ele caiu do 5º andar. Achei que a minha era a mais assustadora, até ouvir a história de Claudia.

- Existem cinco arcanjos que são os protetores da humanidade. Eles foram criados por Deus e receberam a missão de proteger o homem de todo mal. Seus nomes constam de uma história que deveria fazer parte da Bíblia, mas que esqueceram de incluir quando montaram o livro.

- Só uma menina mesma para contar uma história de anjos e achar que é assustadora - debochou Pedro.

- Psiu - eu e Luiz dissemos ao mesmo tempo.

- Não seria uma história assustadora - explicou Claudia - só que Lúcifer achou que isto afetaria o equilíbrio entre o bem e o mal, privando a humanidade de seu livre-arbítrio. Assim ele criou cinco seres para serem o contraponto dos Arcanjos, os cinco não-vivos.

- Ei - Pedro interrompeu novamente - histórias de vampiros não valem, que eu já contei uma.

- Eles não são vampiros - Claudia continuou - vampiros falam sobre eles, a noite, quando querem assustar uns aos outros, como nós estamos fazendo agora. Eles bebem o sangue de vampiros como vampiros bebem o de pessoas, mas não para se alimentar, apenas por diversão.

Claudia continou então, descrevendo cada um dos não-vivos. Um deles, Matat, tinha suas mãos cobertas por um veneno que paralisava as pessoas (e os vampiros, ela comentou olhando para Pedro). Ele então fazia pequenos cortes na vítima, e ela se esvaia em sangue, morrendo lentamente, consciente mas imobilizada.

Outro, Kabet, vinha, a noite, e, sem despertar a vítima, conseguia pegar pequenos pedaços do cérebro dela com a mão. A cada dia a pobre vítima ia ficando mais confusa, perdendo memórias, até esquecer completamente quem era. Se abrissem sua cabeça, iam descobrir que uma parte de seu cérebro não estava mais lá.

Um terceiro, Luskor, assumia a exata aparência de sua vítima, muitas vezes vivendo por semanas e meses fingindo ser a pessoa que ele ocupou o lugar.

Claudia também descreveu em detalhes a aparência de cada um. Matat era alto e magro, branco, com mãos compridas, dedos mais longos do que uma pessoa normal. Kabet era baixo, gordo e careca, e parte de seu cérebro era vísivel na cabeça sem cabelos. Luskor só era visto com a aparência de suas vítimas.

A quarta não-vivo se chamava Kalith, e era uma mulher linda que seduzia suas vítimas. Do quinto não-vivo, ela só disse o nome, Adath.

- Eles são cinco, e são eternos, mas não são imortais. Quando morrem são substituídos.

- Como assim?

- Esta é a história que eu vou contar em uma próxima vez. - Ela então gargalhou.

A história de Claudia foi a mais assustadora de todas, concordamos. Até Pedro teve que dar o braço a torcer. Quando fui dormir, naquela noite, ainda assustado com a história, eu achei que veria os cinco não vivos em meus sonhos.

Curiosamente, eu tive pesadelos, sim, mas foi com a história que eu contei, só que, em vez de um bebê, era eu que caía da janela de meu apartamento. Meu cérebro se espatifando no chão, meus ossos se quebrando. Acordei com um grito contido na garganta.

Era noite ainda, e Kabet estava no quarto comigo.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Pescaria com o Avô - Terrorista/4

Márcio e Lúcia dormiam, em quartos separados, porém conectados pela rede. O suave fluxo elétrico de suas mentes a sonhar sendo transmitido de um para o outro, indo e voltando. Eles não chegavam a ter os mesmos sonhos, mas sonhavam ao mesmo tempo, em sincronia.

Márcio acordou primeiro, e abriu seus olhos para o mundo virtual a seu redor. Quase que instantaneamente sua irmã apareceu a seu lado, ainda despertando, os braços se estendendo enquanto se espreguiçava, a boca se abrindo em um bocejo.

- Onde estamos? - ela perguntou, olhando ao redor.

- É a casa do vovô. Eu estive aqui uma vez - no mesmo instante que ele respondeu, seu avô apareceu na sua frente. As duas crianças gritaram e correram para abraçá-lo.

Antônio Santos Wu pegou cada um em um braço e levantou-os, algo possível apenas na rede. Em seu corpo frágil, ele mal poderia se mover de sua cama. Eles o abraçaram e beijaram.

- O que está fazendo aqui, vovô? - perguntou Márcio.

- Você nunca vem nos visitar! - criticou Lúcia.

- Lembram que eu prometi que iria levá-los para pescar, um dia? - Ele disse, sorrindo para um e para o outro, enquanto os colocava novamente no chão - Vocês não acharam que eu esqueci minha promessa, acharam?

- Mas você nunca tem tempo para nós - Lúcia, começando a emburrar a cara.

- Pois hoje eu tenho - ele disse, e girou seu braço. O quarto ao seu redor se transformou, se encolheu ao redor deles, até se transformar em um pequeno barco no meio de um oceano azul. - E hoje nós vamos fazer nossa pescaria.

Eles passaram as próximas horas a pescar e conversar sobre coisas sem importância. Conviver com o avô era tão raro que queriam aproveitar cada momento. Os peixes eram devolvidos ao mar, após serem trazidos para bordo.

- A vida toda, eu busquei ter mais tempo para viver - ele disse, em determinado momento, quando o sol estava quase a se pôr - e vivi por muito tempo. Acho que vivi mais que qualquer outra pessoa viva. E no entanto, tive tão pouco tempo para ser pai, e ainda menos para ser avô. Ter este momento com vocês dois foi um presente inestimável que ganhei.

E então seu rosto se tornou sério. O sol se pôs e, súbito, estavam novamente de volta a sua casa. Quando continuou a falar, os gêmeos perceberam que algo grave ele tinha para dizer. Havia uma tristeza em seu olhar.

- Este dia que passamos foi um presente também para vocês, e foi real, tão real quanto poderia ter sido. Não duvidem disto, mesmo que outros digam o contrário. E lembrem-se que eu sempre os amarei, meus netos.

Lúcia olhou para ele sem entender - Por que está dizendo isto, vovô? Alguma coisa ruim vai acontecer?

Márcio apenas foi ficando branco, o avatar transmitindo com perfeição os sentimentos que passavam por ele. - Alguma coisa já aconteceu. Não é vovô?

- Vejo que você já entendeu, meu neto. Não queria estragar este momento. Seja forte, sejam ambos fortes, e sejam muito felizes. - Não foi o avô que desapareceu, mas todo o cenário, se transformando, de súbito, no escritório de seu pai.

- Onde vocês estavam? Não conseguíamos rastreá-los em lugar nenhum - a voz de Lúcio Santos Wu irritada. Seu avatar mostrando um rosto jovem, agressivo, e muito diferente do rosto do avô. Embora nunca tivessem visto seu rosto verdadeiro, Márcio e Lúcia só podiam acreditar que sua imagem real fosse uma simples versão mais jovem do avô, ambos e Márcio pertencentes a mesma matriz genética. Mesmo Lúcia também, exceto pelos cromossomos X.

- Nós estávamos pescando com - Lúcia não chegou a terminar a frase, e se calou. Um sinal imperceptível passou do irmão para ela, tão sutil que a rede não detectaria como uma mensagem. Para ela foi quase como se fosse um grito: "silêncio".

- Nós estávamos pescando, em um novo jogo virtual. Como queríamos ficar sozinhos, cortamos o rastreamento - Assim que Márcio terminou de responder, recebeu de sua irmã uma resposta, também codificada, aproveitando o mesmo fluxo de transmissão: "não o provoque".

- Vocês não podem manipular a rede. Não neste nível, vocês não têm noção do estrago que poderiam causar.

- Eu sei o que eu faço. - Márcio, olhando nos olhos do avatar de seu pai. "não o desafie, não agora, alguma coisa aconteceu", foi a mensagem silenciosa de sua irmã.

"eu sei o que aconteceu, e sinto muito, irmã. Ele vai nos dizer agora.".

- Mas não foi para isto que eu os chamei. Algumas horas atrás, seu avô faleceu. Como sabem, ele estava muito velho. Eu sinto muito - "Não, você não sente", foi o pensamento de Márcio, mas ele não o transmitiu para sua irmã. Seria cruel. Ele apenas a abraçou, em silêncio, os olhos ainda fixos em seu pai.

* * *

Existe uma caverna.

A caverna está mapeada na rede, mas ao mesmo tempo está além dela. Em registros que não fazem parte do rastreamento, criados antes mesmo do sistema operacional da rede ser construído.

É uma caverna alta e ampla, que desce até terminar em um lago escuro. A caverna é mais antiga que a rede. O lago, pouco mais recente.

Há uma mulher, sentada sobre uma rocha. Em sua mão, um cálice de vinho tinto. No chão, o corpo de um homem muito velho, na verdade o homem mais velho que já morreu.

O homem, a mulher, o cálice, nenhum deles existe de fato, são apenas registros em computadores, fluxos de bytes a circular pela rede. E, no entanto, todos são reais. Mas apenas a mulher está viva.

- Eu achei que estaria feliz. - Ela diz, falando para o corpo do homem, sem ninguém a ouvir, e bebe novamente do cálice. Ele se enche uma vez mais, do nada, de vinho. Ela está levemento tonta - Todas as vezes que imaginei sua morte, eu estava alegre. E agora você está morto de verdade, e não fui eu que o matei. E eu estou triste.

Ela se levanta da pedra, e se aproxima do morto. - Por que você me pediu este favor? Foi por você? Foi por eles? Foi por mim?

O ambiente se escurece. E esfria. - Lúcifer, é você?

- É melhor partir, Ana - Uma voz nas trevas.

A mulher se vira, olha uma última vez para o corpo, e desaparece.

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segunda-feira, 25 de julho de 2011

Invasores de Mentes

A Noite Anterior ao Encontro com o Presidente

- Se não fosse a ficção científica, estaríamos extintos - Eu disse esta frase e bebi mais um gole de cerveja, direto da garrafa. Meu irmão, John, e David, nosso colega de infância, dividiam a pequena mesa da cantina do quartel. Meu irmão não bebia, ele nunca bebeu alcool.

- Esta foi sua grande descoberta, Matt, depois de três meses na Europa? - David foi o primeiro a morder a isca, abrindo espaço para eu contar minha conclusão. Meu irmão revirou os olhos.

- Não a única, talvez nem a mais importante, mas, sim, foi uma conclusão que cheguei durante minha estada na França. Veja, o cenário que estamos lidando jamais faria parte de qualquer estudo militar realista. Nenhum exército do mundo jamais se preocupou seriamente que um dia enfrentaríamos alienígenas invasores de corpos.

- Mas a Ficção Científica já se ocupou longamente deste tema - meu irmão ajudou a completar meu raciocínio.

- Mas a Ficção Científica sim - eu repito a frase de meu irmão - na Ficção já tivemos livros, filmes, abordando inúmeras variações deste tema. Teve aquele clássico famoso e suas refilmagens no século passado, o livro daquela escritora de vampiros no início deste século, e tantos outros. O fato é que nós já tínhamos, em nosso imaginário, todo um cenário montado para exatamente esta situação.

- E isto não foi ainda pior? Quando começaram a falar que as pessoas estavam possuídas por alienígenas, ninguém acreditou justamente por parecer uma história de cinema - David retrucou, mas eu tinha o argumento todo bem fundamentado em minha mente.

- Ninguém acreditaria de qualquer maneira, no início. O importante, porém, é que havia um referencial para nos basearmos. Ok, só começamos a acreditar quando já tínhamos perdido a França inteira, mas pelo menos o que estava acontecendo podia ser explicado de uma forma compreensível para todos. Bastou dizerem, "invasores de corpos tomaram a França e estão se infiltrando no resto do mundo", para todos entenderem o que estava acontecendo.

- E você vai contar sua teoria para o Presidente Glover amanhã, na recepção?

- Claro que não, mas eu poderia. E aposto que ele iria me dar razão. Mas eu não fiquei em quarentena por duas semanas, enquanto confirmavam que eu não fui possuído, aguardando este dia, para perder o tempo do presidente com bobagens.

- Pois eu lhe dou uma razão muito melhor que sua ficção científica para ainda estarmos aqui - David esperou para ver se eu ia interrompê-lo, e então continuou - o próprio Presidente Glover, o melhor presidente da história dos Estados Unidos. Sem ele, teríamos sido varridos do mapa.

- É verdade - meu irmão concordou, e eu fui obrigado a balançar minha cabeça também, em concordância. Mesmo assim, apenas para não dar o braço a torcer, complementei - sem ele e sem os Chineses.

- Ah, os Chineses fizeram sua parte, temos que admitir. Conseguiram salvar metade da Rússia e metade da Índia, e manter os aliens longe de quase toda a Ásia, mas o que seria deles se nós tivéssemos caído? E o que seria de nós sem Glover? - A voz de David enfática, quase fanática.

- Ok - eu concordei, dando o braço a torcer. Até porque, verdade seja dia, falar mal do Presidente Glover não iria livrar nem um herói como eu de ser linchado em qualquer canto do mundo livre. - ok, eu admito. Glover conseguiu mais do que eu imaginaria possível, naquelas primeiras semanas de pânico. E olhe que eu não dava nada por ele.

- Ninguém dava - Continuou David, empolgado - o primeiro presidente independente eleito desde George Washington, e que só ganhou porque os candidatos Republicanos e Democratas foram um desastre. E, de repente, no auge da invasão, descobrimos que temos como lider uma mistura de Roosevelt e Churchil. Os discursos dele, a forma como agiu, a coragem moral de detonar uma bomba de hidrogênio no centro de Paris.

- Isto pegou os aliens despreparados - meu irmão comentou - eles tinham certeza que não haveriam ataques nucleares em áreas densamente povoadas. Ali eles quase perderam a guerra, tiveram que descentralizar toda sua produção de esporos e adiar todos os planos de expansão.

- Aquilo mudou o rumo da guerra - eu concordei com meu irmão - foi o que salvou a Inglaterra.

- A Inglaterra ainda não está salva - David, em um tom mais sóbrio - você esteve lá. Está tão ruim quanto nos noticiários?

- Pior - eu admiti. - Mas pelo menos estamos vencendo lá, diferente da África, que tudo indica que vamos perder inteira. Eles acham que em um ano teremos limpado a ilha dos alienígenas. Aí, teremos uma base de onde invadir a Europa.

- E quando isto acontecer, serão pessoas como você que tornarão possível reconquistar a Europa. Pessoas que estiveram lá e sabem como os alienígenas estão se preparando.

- Pessoas como nós - meu irmão complementou. Ele esteve comigo todo o caminho. Acho que se eu estivesse vivendo sozinho por três meses no meio dos aliens, teria enlouquecido.

- Bom - eu comecei a me levantar - amanhã o Presidente virá para me dar uma medalha. O mínimo que posso fazer é estar bem acordado e sóbrio, então, se me dão licença.

Meu irmão também se despediu, e saímos abraçados.


A Madrugada do Dia do Encontro com o Presidente

- Matt, Matt, acorde - Alguém me sacudiu. Eu abri os olhos, confuso. Era meu irmão.

- O que houve?

- O presidente chegou de helicóptero, eu vi ele com a comitiva, Matt, e você não vai acreditar...

- O que?

- Ele é um deles. - Eu soube na hora a que ele se referia. Um dos possuídos pelos esporos alienígenas.

- Impossível. Saberiam na mesma hora. No início os aliens tentaram dominar os principais lideres do mundo, mas agora tomamos todos os cuidados.

- Sim, mas nós dois vimos, lá na Europa, que os Aliens estão mais espertos também. Aposto que não há ninguém deste lado do oceano que saiba identificar um possuído como nós dois.

Eu concordei em silêncio, com a cabeça. Era verdade. Nos filmes sempre era fácil identificar um humano possuído. Ou eles falavam e se moviam de uma forma mecânica, ou tinham um brilho no fundo do olho, ou qualquer outro sinal. Na vida real era mais complicado que isto, mas depois de três meses entre eles, eu e meu irmão já sabíamos identificá-los de longe.

- Você tem certeza?

- Se não tivesse não ia lhe dizer. Mas vamos estar frente a frente com o presidente em algumas horas. Você vai ver também.

- E o que vamos fazer? Será que vão acreditar em nós se contarmos?

- Será que podemos correr o risco de não acreditarem? - A pergunta de meu irmão calou fundo. O mundo livre, a América - norte e sul - Inglaterra, Japão e China - com agora duas vezes seu tamanho original - deviam sua existência ao Presidente Glover. Mas, e se ele tivesse sido possuído, o que deveríamos fazer?

Nós passamos as próximas horas acordados, conversando, pensando e decidindo como teríamos que agir.


O Encontro com o Presidente

A arma no meu coldre, carregada, parecia pesar muito mais que seu tamanho justificaria. A esquerda, David, radiante. Seria seu primeiro encontro com o Presidente, e ainda por cima para receber uma medalha, nada menos. John, a minha direita, mais sóbrio. Ele carregava nas costas o mesmo peso que eu, de saber o que iríamos enfrentar nos próximos minutos.

Eu havia conhecido o presidente pessoalmente quando parti para a missão. Era uma missão suicida, ninguém antes havia conseguido espionar o território dominado pelos aliens e voltar. Quer dizer, voltar sem ter sido possuído.

E então eu o vi, e meu coração gelou. Era impossível para um olho não treinado perceber, mas eu sabia distinguir os menores detalhes, com a experiência de quem passou três meses no meio deles. A ligeira, quase imperceptível, dificuldade de caminhar. O leve deslocar do pescoço para a esquerda. Detalhes muito pequenos para chamarem a atenção. Naquele instante eu soube.

Eles haviam pego o Presidente Glover.

Quando ele se aproximou até menos de dois metros de mim, minha mão direita se fechou sobre a arma. O tempo pareceu se mover em câmera lenta, efeito da adrenalina jorrando em meu organismo. Eu falei para David, meu amigo de infância - Se o pior acontecer comigo, prometa que vai cuidar de meu irmão caçula.

Minha mão sacou a arma, sem que David visse, meus olhos se deslocaram para meu irmão, John, e David falou.

- Que piada, Matt. Você é filho único.

Olhei o presidente, que já estava reagindo, se jogando no chão. Olhei novamente John nos olhos, minha arma se moveu para a cabeça dele, e eu atirei em meu irmão.

E tudo ficou escuro.


No Hospital

- Ele vai sobreviver?

- Há 10 anos, eu diria que não, ou pelo menos, que se sobrevivesse seria um vegetal. Mas acho que há uma boa chance de reconstruírmos seu lado direito do cérebro. Ele está reagindo bem a terapia com implante de células tronco.

- É verdade que ele está curado dos esporos?

- Sim, o primeiro homem a conseguir isto. Mas ele é um caso único. Apenas metade do seu cérebro estava possuído, a metade que foi atingida pelo tiro. Foi um truque dos alienígenas, para que não detectássemos nos exames, para conseguirem colocar um assassino na frente do Presidente Glover. Eles estão ficando mais sofisticados a cada dia.

- Foi muita sorte que conseguiram atirar nele antes que ele matasse o presidente.

- Sorte? Minha cara, você está olhando para um dos maiores heróis desta guerra. Você está olhando para o primeiro homem que resistiu aos alienígenas. Ele atirou na própria cabeça, na metade possuída pelos esporos.

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sábado, 23 de julho de 2011

Terrorista - 3

Meu coração bate acelerado. Meu olhos começam a lacrimejar. Maldita reação involuntária.

Respiro fundo. Uma, duas vezes.

Ana me disse que eu tenho meia-hora, talvez uma hora, para sair de casa e me esconder. E que depois eu não posso acessar a rede, nem por um instante.

Eu tiro os sensores da rede e vou até o armário, procurar alguma coisa para vestir. Geralmente eu fico nua em casa, e eu raramento saio. Não tenho muitas roupas.

"Como que eu me visto? Como vou saber se vai estar frio ou quente?". As coisas são tão mais simples na rede. Eu acabo escolhendo uma roupa leve e um casaco por cima. Coloco mais uma muda de roupas em uma mochila, e então pego, escondido no armário do quarto, meu cartão falso, que eu achei que nunca iria usar.

Eu entro na rede, mas só em visual, colocando os óculos. Mesmo assim, parece mais vívido que nunca, talvez por eu não saber se não é a última vez que navego. Eu fico por apenas alguns segundos, apenas o tempo para executar minha rotina de pânico, aquela que eu fiz exatamente para esta situação, no mesmo dia que fiz o cartão, um ano e meio atrás.

Minha vontade é ficar na rede só mais um momento, mas eu sei que não posso esperar. Eu desligo o visor no exato instante que vejo todo meu cenário virtual começar a se desintegrar. Em alguns minutos nada vai restar da minha vida na rede, da única vida que já tive.

Eu abro a porta e saio de casa, para nunca mais voltar. As lágrimas agora correm soltas pelo meu rosto.

- Querida, você está bem? - a voz preocupada da Senhora Rosa me fez estremecer. "Estou no mundo real", eu me crítico mentalmente, "não tenho subrotinas me alertando quando as pessoas olham para mim".

- Estou - eu gaguejo - estou sim - Limpo o rosto sujo de lágrimas com a manga da camisa. - Briguei com um amigo, só isto, mas já estou bem - invento a primeira desculpa que me ocorre.

- Eu sei que você vive na rede, querida, mas tem um mundo inteiro aqui fora, também. Você devia sair mais vezes - Tem sim, um mundo sujo, lento e limitado, e eu estou presa nele. Mas é óbvio que eu não digo isto.

- Aqui fora não é para mim, você sabe - eu respondo com sinceridade.

- só queria sair um pouquinho da rede - eu continuo, com a coisa mais absurda que eu já disse, mas se alguém acreditaria nisto é a Senhora Rosa. Ela e seu marido vivem juntos, juntos mesmo, dividindo um apartamento. Se me dissessem que ela nem tem login, eu acreditaria.

Eu me despeço, e saio do prédio. Na rua, um vento frio sopra. Sorte ter pego um casaco.

Eu caminho uma quadra e desço a escada para pegar o metrô. Uma dúzia de câmeras já filmaram meu rosto, mas se meu programa funcionou, vai levar horas até perceberem que meu rosto verdadeiro foi transferido para um perfil falso. Mas não posso perder tempo para chegar até o refúgio que Ana me indicou.

Eu fico em silêncio, encolhida, nas horas seguintes, só me movendo para trocar o metro por um trêm magnético. Na rede a viagem seria instantânea. No trêm, no meio da viagem, eu começo a chorar. "fraca", eu digo para mim mesma. "Se Ana estivesse aqui, eu podia aguentar estar fora da rede", eu falo sozinha, e então rio de meu próprio absurdo. Ana só poderia estar comigo se eu estivesse na rede.

É noite quando chego em São Paulo. Quando desço da estação uma pessoa vem falar comigo, tentar me vender alguma coisa. Eu levo alguns segundos para entender, até me dar conta que ele está falando em português. Eu respondo que não tenho interesse, em inglês padrão. Ele me xinga e se afasta. Eu engulo em seco e começo a caminhar mais rápido, vendo mais vendedores se aproximando. Entro no primeiro Taxi que vejo.

Eu passo o endereço que Ana me deu para o computador do taxi, e ele sai veloz pela rua. Eu olho pela janela, com um fascínio mórbido. É este o mundo que eu habito agora. Um mendigo olha para mim. Somos iguais, igualmente desconectados.

- Mary, você vai ter que mudar os planos.

- O que - eu grito, o coração batendo acelerado. Taxis normalmente não falam com passageiros, e eu havia apagado meu nome verdadeiro da rede.

- Ana? É você - a esperança me invade, e só então me dou conta de quão sozinha estou me sentindo, quão abandonada.

- Não, Ana está ocupada, fugindo do rastreamento. Ela me pediu para manter um olho em você.

- Quem é você?

- Ninguém. Apenas um amigo. Estou alterando o destino do taxi, mas você precisa decidir para onde ir.

- Por quê? Estou indo para o endereço que Ana me passou - preciso cuidar o que digo. Nada me garante que ele fala a verdade.

- Já foi abandonado. Está sendo monitorado pelo governo. Estão esperando por você lá.

- Então não sei para onde ir...

- Sinto muito, tenho que ir. Já me envolvi demais.

- Espere. Quem é você?

- Já lhe disse. Ninguém.

Eu falo mais uma, duas vezes, sem obter resposta, e sei que estou sozinha novamente. Sozinha em uma cidade estranha, desconectada da rede, com meu tempo acabando. Não vai levar muito tempo para identificarem minha id falsa.

Então eu indico o único local que me restou. Só por não ter nenhuma alternativa.

Meia hora leva para eu chegar na casa, dez minutos a pé, caso rastreiem o taxi, como o amigo de Ana fez. Outro programa de computador, eu tenho certeza. Nenhum navegador humano poderia ter me achado tão rápido.

O homem abre a porta quando toca a campainha. Eu peço para entrar.

Há uma mulher com ele, e um garoto, pouco mais jovem que eu. Droga. Pensei que ele estaria sozinho.

Eles me ouvem, a versão editada de minha história, é claro. Apenas o suficiente para saberem que o governo está atrás de mim, que eu preciso de refúgio, e que será perigoso me ajudarem.

- Minha jovem, não queremos problemas. Porque veio aqui? Porque bateu na nossa porta? - Droga, eu repito para mim mesma. Eu realmente não queria que a família dele estivesse junto. Quase me levanto e saio, mas eu não sei mais para onde ir. Eu não tenho outra escolha, além de responder.

- Por que você é meu pai.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Alien a Bordo - Parte 2

Foram horas e horas de discussões, de teorias sendo formuladas, apenas para serem em seguida descartadas. Com o tempo, a desconfiança foi aumentando, junto com o cansaço e a irritação.

Algumas revelações surgiram.

Even participou dos protestos estudantis de 2315, esteve presa, mudou o nome, recebeu uma permissão especial do governo para começar uma nova vida.

Laos participou de uma seita ilegal que defendia a rendição para os alienígenas, por acreditar serem eles seres superiores. Ele foi um forte suspeito de ser o traidor. Até que revelou o que o fez sair da seita e se alistar. Sua irmã morava em Colônia 7, o mundo que os aliens transformaram em um inferno radioativo. Ninguém mais questionou sua lealdade.


Foi a suspeita de Margô que atingiu a todos de forma mais
impactante.

- Eu sei quem é o único aqui que pode ser o traidor - ela disse.

Nós olhamos para ela, curiosos. Sua pausa obviamente para gerar mais impacto na revelação.

- Ava. O único traidor possível é Ava.

- Margô - Ava respondeu de imediato - eu sei que você tem restrições aos sintéticos, mas esta hipótese não faz sentido.

Foi a mais longa das discussões. Por um lado, não víamos como os alienígenas poderiam ter alterado Ava. Boa parte de sua personalidade era fixa, não sujeita a manipulação. Por outro, todas as outras alternativas também não pareciam fazer sentido.

Por fim, a discussão se encerrou com base no argumento mais importante de todos. Se os alienígenas estivessem conseguindo controlar os sintéticos, então a guerra já estava virtualmente perdida. Na verdade, se Ava assim desejasse, não teríamos sequer sabido da suspeita de haver um espião na nave.

- Ava, Olf, estou propondo abortar a missão e retornarmos. Preciso da concordância de vocês dois. Não podemos seguir adiante com o risco de um espião na nave.

Mais alguns minutos se seguem, de discussões adicionais, últimas idéias, mas, por fim, há a concordância. A missão é abortada. Ava abre a porta para sairmos.

Em minha cabine, eu olho para meus braços e os pequenos tentáculos verdes na ponta de cada um. Eu penso na mensagem. - impeça a nave de chegar a seu destino, não importa como - e agradeço por ter conseguido cumprir meu objetivo sem a morte de nenhum dos seres que aprendi a respeitar.

"Algum dia voltarei para meu corpo? algum dia serei humano novamente?" eu falo em silêncio comigo mesmo, e me pergunto quando terminará minha missão.

Alien a Bordo - Parte I

Eu olho para o rosto de cada membro da tripulação. Em sua maioria, estão confusos por eu ter reunido todos em nossa sala de reuniões, especialmente depois de Ava ter trancado a porta. Eu havia dito para ela abrir apenas quando tudo estivesse resolvido.

- Um de nós é um espião - eu digo, e observo a reação deles.

O que se segue são alguns instantes de confusão e vozes falando ao mesmo tempo, até que levanto os braços pedindo silêncio. - Amigos, vocês ouviram corretamente. Um de nós é um espião. Ou descobrimos quem é, ou abortamos a missão.

- Ralph, é impossível. - Olf, o mais velho de nós, fala. Passada a surpresa, o respeito a hierarquia e aos mais antigos se reestabelece naturalmente. - Nós mal conseguimos nos comunicar com o flagelo. Quem em sã consciência iria espionar para eles?

- Tudo verdade, Olf. E, no entanto, um de nós é efetivamente um espião. Ava, relate para todos o que acabou de me contar.

- Pois não, Ralph - a voz sintética do computador central da nave indistinguível de uma voz natural. - A informação veio na última transmissão que recebemos, e devo dizer que, com base nos fatos transmitidos, concordo com as conclusões do comando central. Há, com altíssimo grau de probabilidade, um espião nesta nave.

- Com todo respeito a você e seus colegas do comando, Ava, não seria a primeira vez que um sintético chega a conclusões totalmente falsas. - Margô era a analista chefe, e certamente a mais ponderada e lógica de toda a tripulação. Curioso que justamente ela tivesse as maiores ressalvas em tudo que envolvia inteligências artificiais - É por isto que orgânicos seguem sendo responsáveis pela decisões estratégicas de alto nível.

- Estou ciente de nossas limitações, Margô, e o percentual de erro em nossas conclusões é hoje incluído em toda análise estatística que fazemos. Entretanto, as conclusões já foram validadas pelo alto comando, que, como você sabe, é exclusivo de orgânicos - a voz de Ava contendo um leve traço de reprovação no final da frase. Há anos, sintéticos vinham questionando o que chamavam de 'discriminação por origem', insistindo que pelo menos um computador deveria fazer parte da cúpula do comando central.

- Sugiro que deixem Ava concluir seu relato - eu intervenho.

- Obrigado Ralph. Para contextualizar melhor nossas conclusões, primeiro apresentarei um breve relato de nossa situação atual.

Eu mal presto atenção, enquanto Ava relata, de forma muito resumida, os acontecimentos das últimas quatro décadas. Obviamente desnecessário, mas sintéticos parecem sempre duvidar da nossa capacidade de reter informações. Ela rapidamente passa pelos primeiros contatos com os alienígenas, pela destruição dos mundos coloniais, pelas tentativas de comunicação, enquanto ainda se acreditava que poderia ser tudo um mal entendido, até a mobilização para a guerra e as primeiras batalhas no espaço.

- Nos últimos dez anos - Ava continua - embora tenhamos em grande parte detido o avanço alienígena, percebemos que eles pareciam antecipar nossos movimentos, em um grau que não poderia ser facilmente explicado pela sorte, ou mesmo por um adversário com inteligência superior a nossa. Inevitavelmente, nós, sintéticos, chegamos a conclusão que a única explicação racional era a presença de espiões entre nós.

- E o alto comando concordou com esta conclusão? - Margô, mantendo seu ceticismo.

- Na verdade, inicialmente não. Orgânicos tem dificuldade em aceitar conclusões sem evidências diretas. Estas evidências foram finalmente obtidas.

- E quais são elas, Ava? - Olf, novamente.

- Pouco depois de iniciarmos nossa viagem, uma mensagem codificada foi enviada para esta nave. Temos próximo de 100% de certeza que foi enviada pelos alienígenas. A conclusão lógica é que há alguém nesta nave que recebeu esta mensagem, alguém que está em comunicação com o flagelo.

- E, senhores - eu interrompo - não sabemos quem recebeu, não sabemos suas intenções, e não sabemos o conteúdo da mensagem. Mas, como comandante da nave, eu tomei a decisão de abortar a missão, a menos que descubramos, aqui e agora, quem de nós é um traidor.

continua....

terça-feira, 19 de julho de 2011

Terrorista - 2

- Então, você se apaixonou por um programa de computador? - a voz era sarcástica, debochada. O rosto era comum, sem personalidade, apenas um avatar padrão. Típico de um investigador.

- Não precisa ser tão duro com ela. Mary não tinha como saber - A voz grave de Tanho combinava com o gigante musculoso de dois metros e dez e pele negra. O mais incrível é que aquele era seu físico real. Sua aparência, porém, escondia um homem gentil e sensível, que estava verdadeiramente preocupado com sua amiga.

- Obrigada - a voz de Mary quase um sussurro. A cabeça baixa, os olhos fixos no chão.

- Ainda é cedo para dizer que ela é inocente em toda esta situação. Primeiro temos que entender como a criatura escapou.

- O nome dela é Ana - Mary fala em uma voz ainda mais baixa, e então se silencia.

Os três estavam sozinhos, em uma sala de investigação. Apenas a mesa, cadeiras e paredes estavam mapeados, em uma cor branca e sem detalhes.

Mary estava ali há mais de uma hora, desde que terminou seu encontro com Ana.

- Mary, isto é realmente importante. - A voz de Tanho gentil, pausada - como você acha que ela pode ter escapado? Estávamos vigiando todo o tempo.

- Eu não sei. Ela apenas se levantou e saiu de nossa cabine, no restaurante. Mas vocês estão me dizendo que ela sumiu do rastreamento.

- Diga-me - a voz inquisidora do investigador adquirindo um novo ritmo. Seu rosto adquirindo uma nova vivacidade. - Você é a melhor navegadora que temos. Se você tivesse que escapar do rastreamento, como ela fez. Você conseguiria?

Mary parece hesitar por um instante - Já conversamos sobre isto. Entre nós navegadores, quero dizer. O rastreamento é uma das funções do código operacional da rede, é impossível gerar uma presença sem rastreamento. Mas alguns acreditam que é possível criar desvios de fluxo, jogar uma presença em outro ponto da rede sem referênciar o ponto anterior, confundindo o rastreamento.

- E sendo esta Ana apenas um programa, isto seria fácil para ela?

- Não sei se faria diferença. Ela teria que ter um nexo do mesmo jeito que nós, apenas não haveria um corpo físico neste nexo, obviamente. Mas suponho que se ela não soubesse escapar do rastreamento, vocês já teriam pego ela há muito tempo.

- E isto me leva a outro ponto que gostaria de esclarecer. Você imaginava que iriam poder ficar juntas, se ela se entregasse. Mas sendo ela apenas um programa, isto não iria acontecer. Se conseguíssemos pegá-la, você nunca mais a veria.

- Ela é apenas um programa de computador. Quando pedi que deixassem ela comigo, achei que era uma pessoa.

- Sabe - O rosto do investigador naturalmente não mostrava nenhuma emoção, mas sua voz era suficiente para transmitir uma idéia de um interesse aguçado, como se ele estivesse quase completando um quebra-cabeça. - todo o tempo estive pensando nisto, e esta é a parte da história que ainda não me convenceu.

- Como assim?

- Você disse que ela revelou que era apenas um programa, se levantou, e foi embora, correto?

- Sim.

- Ela não se despediu, não pediu desculpas, você não a perdoou, não marcaram de se ver novamente, não disseram nada. Ela apenas saiu e você não disse uma palavra?

- Sim.

- Pelo que vi de seu perfil, você nunca se apaixonou antes. Mais que isto, você não teve nenhuma proximidade com ninguém, antes dela. Quando descobriu que ela era um ser artificial, este sentimento simplesmente sumiu? E você nem falou nada, e deixou ela ir.

- Não sei. O que quer que eu diga.

- Eu acho que ela não se levantou simplesmente e foi embora. Eu acho que vocês continuaram conversando. Talvez, mesmo, tenham marcado de se encontrar novamente. Não é verdade?

Mary permanece em silêncio.

O investigador se vira para Tanho. - Mande uma equipe de contenção para a casa dela. Quero ela sob custódia em dez minutos. - Ele olha para Mary - Mesmo que você também possa escapar do rastreamento, diferente do vírus, você tem um corpo físico. Saberemos nas próximas horas se você escondeu alguma coisa e, principalmente, o que vocês realmente conversaram.

Os minutos passam, Mary em silêncio, imóvel.

- Senhor Silva - a voz de Tanho pela primeira vez hesitante, os olhos no horizonte, ouvindo uma transmissão recém recebida, direto para ele - Ela não está em casa. Todos os registros e dados da casa foram apagados, uma hora atrás.

- Impossível, seu avatar esteve aqui o tempo todo. Só temos nossas três ligações nesta sala, e a dela está fixa em sua casa.

- Bom, senhores - Mary se levanta. Pela primeira vez, sua voz está tranquila, e ela olha nos olhos de seu interrogador - receio que não há sentido em eu continuar aqui. Se me dão licença, é hora de eu ir.

- Mary, você não vai a lugar algum. Não sei que truque você fez, mas vamos manter seu avatar preso até localizar seu físico.

- Ela não é a Mary. - Tanho falou, quase por impulso, e no instante que disse, soube instintivamente que tinha razão.

- Mary sempre me disse que você era muito perspicaz. - A voz dela já em um novo timbre, o rosto começando a se transformar.

- Não foi o vírus que sumiu do rastreamento. Foi Mary. Enquanto perdíamos tempo aqui, ela estava fugindo de sua casa e certamente apagando seu rastro. Todo este tempo o vírus estava ganhando tempo para ela.

Ela sorri, enquanto vai ficando transparente, até se tornar invisível - Por favor, meu nome é Ana.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Terrorista

- Ana - eu começo, e hesito, sem saber como continuar, e então decido dizer tudo de uma só vez - Você é uma terrorista?

A mulher que eu pensava conhecer apenas sorri, e leva um guardanapo ao rosto, limpando tranqüilamente os lábios. Eu me pergunto se ela é realmente tão controlada, ou se programou sua projeção para não demonstrar surpresa.

- Bom, querida, para responder, primeiro tenho que saber qual a definição de terrorismo que estamos usando? - ela coloca o guardanapo calmamente de volta na mesa, e pega mais um sashimi.

- É verdade, não é? Você só se aproximou de mim para ter os meus acessos? Você está por trás do vírus?

- Sim. - Era a única resposta que eu não esperava ouvir. Não daquela forma singela, como se fosse algo sem importância. Ela molha o sashimi no molho e depois o leva a boca.

- E eu fui apenas uma tola, acreditando que você me amava. - Minha voz soou fria e controlada.

- Você é muitas coisas, Mary. Inteligente, criativa, divertida, até ingênua, em certos aspectos. Na verdade, foi isto que me atraiu em você, em primeiro lugar. Mas você não é tola. E você está certa em acreditar que eu te amo.

- Ah, e quer que eu acredite nisto, agora? - Repito para mim mesma que manterei a calma. Eu vim para ajudá-la, não para brigar. Por isto, que havia pedido o tempo de uma conversa, antes que cortassem ela da rede.

- Você acredita. - Ela encosta a mão sobre a minha, a sensação na luva quase como se ela estivesse realmente na minha frente. - se não acreditasse não estaria aqui. Teria apenas dito para me tirarem da rede.

- É o que eles vão fazer, de qualquer forma. E vão localizar você, e prendê-la. E vão obrigá-la a dizer tudo que sabe sobre a rebelião, e vão deter o vírus antes que cause mais estragos. Depois vão mandá-la para um campo de reeducação. Você não tem idéia do que é aquilo lá - "Droga", eu digo para mim mesma, enquanto meus olhos se enchem de lágrimas. Eu havia prometido que não iria chorar.

- Está tudo bem, Mary. Não importa o que façam comigo, não será culpa sua. Eu sei que você tentou me proteger.

- Eu posso proteger você - eu falo, dando ênfase ao "posso". - foi para isto que vim. - "não porquê te amo e queria te ver novamente", minha mente fala, brincando comigo.

- Receio que esteja enganada, Mary. Não creio que possa me proteger. Eles vão me tirar da rede, eles não têm outra escolha. A esta altura eles já devem ter percebido que sou ainda melhor que você em navegação. - Ela fala com uma simplicidade de algo que deveria ser praticamente impossível. Eu fui geneticamente criada e treinada por todos os meus 17 anos para ser uma das melhores navegadoras da rede. Havia menos de dez tão bons quanto eu. Não deveria, não poderia haver ninguém melhor. Eu estava muito próxima do limite que um cérebro humano poderia chegar de entender e controlar a rede.

- Ana, é claro que eles vão tirar você da rede - será que ela era mesmo melhor do que eu? como? - mas você pode ficar comigo. Fisicamente, eu quero dizer. - "E não me importa se você tem 70 anos, é obesa, ou mesmo é um homem", eu penso em silêncio.

- Fisicamente? - ela sorri, como se isto a divertisse.

- Sim. Eles não vão mandá-la para a reeducação. Eu pedi, como um favor pessoal. Fora da rede, não tem muito que você possa fazer, e eles vão monitorá-la, é claro, mas você pode morar comigo. Você só vai precisar dizer o que sabe. Eles só precisam ter algumas informações sobre o vírus para poder desativá-lo - Será que ela ajudou a construir o vírus, o programa quase inteligente que vinha desafiando os controles do governo?

- Receio que as coisas não sejam tão simples.

- Porquê? Você não vai estar traindo ninguém. Quer dizer, eles já tem seu acesso. É só uma questão de horas para localizarem você, e depois eles tirariam toda a informação de seu cérebro de qualquer maneira. Na verdade vão fazer isto, se não quiser colaborar. Mas depois vão soltá-la, e poderemos viver juntas. - "ela não ama você, sua estúpida", meu cérebro fala. Eu mando ele calar a boca.

Ela sorri, e pela primeira vez seu sorriso é triste. - Eu não me refiro a isto. Eu apenas receio que não existe como nós estarmos juntas fora da rede.

- Porque não? É meio século XX, mas quem se importa? Eu sei que vai ser horrível estar fora da rede, mas não tem o que eu possa fazer quanto a isto. Se você está preocupada, eu não me importo com o que você se parece, basta que possamos estar juntas.

- Eles vão destruir o vírus. Eles não podem permitir que ele exista, é uma força contra o controle, um programa inteligente que desafia esta ditadura que governa o mundo.

- Ana, não há nada que possamos fazer. É impossível enfrentar o governo, eu sei - um calafrio me percorre quando me lembro do centro de reeducação - eles controlam a rede. Deixe que eles destruam o vírus e tirem você da rede. Pelo menos fisicamente podemos ficar juntas.

- Mary, lamento. Eu não posso estar com você fora da rede.

- Porquê?

- Por que eu sou o vírus.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Exploradores de Marte

A Chegada ao Planeta Vermelho

- Berg, estou na entrada, ao lado do robô - Douglas Connor falou pelo rádio com seu colega, que aguardava dentro do módulo de aterrissagem. Foi decidido que apenas um deles iria entrar nas ruínas no primeiro dia.

Foram meses viajando, atravessando o vácuo que separa a Terra e Marte, na primeira e, talvez, única viagem que jamais seria realizada ao planeta vermelho. Os custos de um vôo tripulado eram simplesmente altos demais, ainda mais com o mundo envolvido em sua mais profunda crise econômica.

Douglas olhou para baixo, para o Robô. Era graças a ele que estavam aqui, graças a um pequeno explorador movido a energia solar, que - acreditava-se - funcionaria por apenas algumas semanas - mas prosseguiu por anos lentamente avançando pela superfície deste planeta distante. Enviado para encontrar vida no planeta vermelho, ele encontrou muito mais.

Ele encontrou vestígios de uma civilização.

A notícia correu o mundo, primeiro como boatos, e finalmente como uma declaração oficial da agência espacial. Sim, havia sido encontrada uma evidência indiscutível da presença de vida inteligente. Algum tipo de construção, muito antiga, foi encontrada por acaso por um dos robôs exploradores, na borda de uma cratera. Aparentemente esteve até recentemente enterrada na areia, o que ajudou a preservá-la da ação do tempo.

Ainda foram cinco anos de preparo, até a nave estar pronta para a partida. Cinco longos anos em que Douglas foi continuamente testado, concorrendo com dezenas de outros candidatos. Cinco anos em que a curiosidade varreu o mundo, e só isto garantiu a disposição política para custear o projeto, tantas vezes engavetado. Um homem iria finalmente colocar o pé em outro planeta. Cinco anos desde que Douglas Connor disse para si mesmo que seria este homem.

Douglas olhou uma vez mais para a edificação, protegendo os olhos do sol, maior e mais brilhante do que estava acostumado, e falou no rádio.

- É impossível entrar pela porta principal, está tudo coberto de areia. Mas parece que há janelas nos andares de cima, vou tentar subir pela cratera e entrar por uma delas. - Depois de ouvir a confirmação de Berg, Douglas caminhou lentamente, o traje de proteção atrapalhando seus movimentos.

Por horas, Douglas Connor investigou a estranha construção, rapidamente percebendo que nada encontraria nos andares superiores. Tudo havia sido destruído pelo tempo. Foi só quando encontrou uma escada protegida por uma porta, uma porta que parecia feita para um ser humano utilizar, e começou a descer mais e mais, que suas esperanças se reacenderam. Era uma longa escadaria, e aparentemente estava isolada do mundo externo por pesadas portas em cada andar.

- Sabe - comentou Berg, enquanto ele descia um andar após o outro - eu fico me perguntando como serão os seres que construiram este edifício? Será que são parecidos conosco? e, mais importante, será que são deste mundo, alguma estranha civilização que se desenvolveu aqui há milhares de anos, quando ainda havia água na superfície, ou será que são viajantes de alguma estrela distante que apenas estavam de passagem.

- Nem uma coisa, nem outra - respondeu Douglas - eles eram exatamente como nós.

- Como você tem tanta certeza disto?

- Porque eu acabo de encontrar um crânio humano.



A Partida do Planeta Vermelho

Foram duas semanas de investigação, mas muito pouco se pôde descobrir além do crânio e alguns ossos. A escadaria era a única parte das ruínas relativamente intacta. Não apenas o tempo havia apagado quase qualquer evidência de como eram os habitantes do lugar, mas fazer uma investigação arqueológica dentro de um traje espacial, em um planeta hostil, era um trabalho lento e com poucos resultados.

Mesmo assim, foi com pesar que eles partiram do planeta vermelho, tendo descoberto tanto - certamente a maior descoberta científica da humanidade - e ao mesmo tempo com tantas perguntas não respondidas.

- Será que a análise de DNA do crânio vai nos dizer alguma coisa - Comentou Berg, minutos após partirem, falando novamente do único assunto que dominou as conversas nas últimas semanas.

- Espero que sim.

- Já decidiu entre os UFOS e a civilização ancestral? - A descoberta havia reacendido um longo debate, há muito esquecido, entre aqueles que acreditavam que as antigas evidências de estranhas tecnologias eram a prova da existência de alienígenas, e os que diziam que milênios antes houve uma civilização avancadíssima, em um continente submerso no oceano.

Os primeiros diziam que estes alienígenas haviam interferido com a evolução humana. O Crânio seria de um ser humano, levado por eles. Os outros diziam que ele próprio é que era um astronauta.

- Sabe - disse Douglas - uma vez um professor me contou uma terceira teoria. Ele disse que acreditava que a vida não começou em nosso planeta, que toda a evolução de nosso mundo foi artificial. Ele acreditava que os homens vieram de outro lugar, e transformaram o mundo em um lugar habitável. Talvez eles tenham vindo daqui, do planeta vermelho, de uma época em que ele tenha tido oceanos e vida, e, quem sabe, toda uma civilização.

- Receio que nunca saberemos. Com a crise e tantos problemas, duvido que enviem outra expedição para cá.

Douglas olhou uma última vez para o visor que mostrava o planeta vermelho, diminuindo mais e mais.

Com mais perguntas que respostas, Douglas e seus colegas iniciaram a longa viagem de volta para casa.

Para Marte.

sábado, 9 de julho de 2011

O Velho Feiticeiro e Sua Cidade

Era uma vez um velho feiticeiro que vivia em uma cidade portuária. Ele estava muito triste, pois a cidade que tanto amava em breve seria destruída pela guerra.

O velho feiticeiro viu a cidade nascer e crescer, ao redor de um castelo, ao longo dos séculos, desde a época feudal. Ele sempre procurou protegê-la de todos os inimigos, e, nas últimas semanas, vinha usando todas as feitiçarias que conhecia para evitar que sua cidade fosse atingida pelas bombas inimigas.

Já comentavam nas ruas como a cidade vinha sendo poupada. O inimigo parecia sempre preferir escolher outro alvo. Mas isto iria em breve mudar.

Infelizmente, havia um limite para o que o velho feiticeiro poderia fazer sem que percebessem sua presença. Influenciar mentes, fazer pilotos optarem por outros alvos, generais decidirem que outras cidades eram mais importantes, tudo isto era possível, mas havia um limite, e o feiticeiro estava ficando cansado. Ele podia sentir que sua cidade era o próximo alvo, que desta vez os líderes inimigos não iriam mudar de idéia.

O velho feiticeiro suspira, e então toma uma decisão. Ele salvaria sua cidade, mesmo sabendo do preço a pagar, mesmo sabendo que os outros feiticeiros nunca o perdoariam.

Ele começa a preparar seu feitiço, deixando uma marca em cada ponto da cidade, caminhando por horas, formando um ideograma místico de proteção. Um imenso escudo invisível em breve se levantaria por sobre a cidade, e deteria as bombas antes que tocassem o solo.

Quando isto acontecesse, quando todos percebessem que algo mágico estava acontecendo, então saberiam que feiticeiros ainda caminhavam pela terra. Seria a quebra de uma promessa de cinco séculos, mas ele não tinha escolha, ele não permitiria que sua cidade fosse destruída.

E então ele vê, no ar, distante, um borbardeiro inimigo. "A primeira de muitas bombas que virão", ele pensa, "tenho que ser rápido".

Com um gesto final, ele ergue o escudo invisível.

"Jogue sua bomba, que meu escuro resistirá", ele pensa, desafiadoramente, "uma, duas, dez bombas não farão diferença. Mesmo que explodissem a bomba mais forte que já explodiu sobre a terra, ainda assim vocês não conseguiriam atravessar meu escudo mágico, e ferir minha amada Hiroshima".

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A História que o Doutor Shapiro Leu

Prólogo

O Doutor Shapiro coloca os óculos para ler o relatório a sua frente, a mão escondendo um bocejo. Ele bebe, distraido, uma xícara de café que sua secretária lhe trouxe.

- Ele que escreveu isto?

- Sim, doutor. Ele passou a manhã escrevendo, depois que acordou dos sedativos, e disse para entregar ao senhor. Pediu para o senhor ler antes de falar com ele.

O Doutor Shapiro coça a cabeça, passa os olhos uma vez mais pela folha, e suspira. O louco havia sido preso, há dois dias, por perturbar a paz, e trazido para o hospício. Desde então, ele pedia todos os dias para falar com o neurologista chefe.

- Um caso fascinante. Tomara que nos permitam fazer experimentos com ele, estou curioso em saber se há alterações em seu cérebro. - O Doutor se levanta - chegaste a ler?

- Não, ele disse que era apenas para o senhor. Do que se trata?

- Uma história. Quer dizer, para nós é uma história. Para ele, quem sabe?



A História que o Doutor Shapiro Leu

Prezado Doutor, eu não sou louco, embora esteja certo que irá me considerar, após ler minha história. Mesmo assim, peço que tenha paciência e leia até o final. Há coisas que preciso contar a alguém.

Tudo começou há cerca de um ano, quando um amigo de faculdade me convidou para conversar. Eu e Alex éramos bastante próximos, e nos formamos juntos em física no ano anterior, mas eu não o havia visto desde então.

Nos encontramos em um bar e sentamos em uma mesa para beber e conversar, mas foi mais ele que falou. Assim como eu, hoje, naquele dia era ele que tinha uma história para contar.

- Você se lembra do experimento que fomos voluntários, no último ano da faculdade? - Logo depois de nos cumprimentarmos e sentarmos a mesa, ele foi logo trazendo este assunto. Eu olhei para ele, com um ar de nítida curiosidade.

- Você quer dizer, o experimento daquele cientista, que você participou sozinho? Lembra que eu disse que achava uma loucura entrar neste tipo de coisa?

- Que seja. Bom, suponho que eu nunca tenha lhe contado, mas era um experimento de viagens através das dimensões.

- Ah. Entendo. Que tipo de drogas você está usando? - Eu falo, elevando um pouco o tom de voz. Era óbvio que ele queria fazer algum tipo de piada, mas eu não estava entendendo.

- Você sabe que existem infinitos universos paralelos... Quer dizer, aqui acho que ainda é uma teoria. Não importa, o fato é que existem infinitos universos coexistindo, incapazes de se encontrarem, exceto no nivel subatômico.

- Olha, Alex, a gente estudou algumas teorias sobre isto, mas não é como nos filmes de ficção científica. Quer dizer, não vai vir nenhum monstro de uma terra paralela e sentar na mesa junto com a gente.

- Bom, meu amigo, eu lamento dizer que você está errado. Quer dizer, eu não sou exatamente um monstro, mas eu estou sentado nesta mesa, com você, e, de fato, eu vim de outro universo.

- Ah, é? Quer dizer, você não é o Alex que eu conheço, mas algum Alex de uma terra paralela que veio nos visitar? A gente já teve conversas malucas, mas você realmente está inspirado hoje.

- No seu mundo a segunda guerra mundial terminou em 1945. No meu ela se arrastou até metade da década seguinte. No seu mundo, o Brasil estava do lado dos aliados, no meu ele esteve no lado alemão até início da década de 50. A partir daí, as mudanças ficaram realmente maiores, mas no geral até que nossos mundos são muito parecidos, comparados com o que tenho visto por aí.

- Hummm, suponho que agora você vai tirar uma enciclopédia do seu mundo para me provar que está falando a verdade, ou pelo menos que colocou mesmo esforço nesta brincadeira. Quer dizer, se você fosse um viajante dimensional e quisesse me convencer, teria trazido pelo menos uma prova, certo?

- É impossível trazer qualquer coisa, e eu não estou tentando nem quero convencer você. Ocorre que não se viaja entre as dimensões do jeito que você está imaginando.

- É? Ok, já entendi que vou ter que entrar no jogo. A pergunta óbvia é: como se viaja entre as dimensões?

- Com a mente. Na verdade tudo começou com o tal experimento que lhe falei. Este cientista era um gênio, provavelmente o Leonardo Da Vinci do nosso tempo. Vocês tem um Da Vinci? Claro que sim - ele se interrompeu e respondeu para si mesmo. Eu ouvi em silêncio, disposto a descobrir até onde ele iria chegar com esta história.

- Bom - ele continuou - ele tinha doutorado em computação, física e psicologia, e seu estudo começou com uma análise da capacidade de processamento necessária para criar uma alma.

- ahã - Eu disse.

- Ele conseguiu provar que, para existirmos, a capacidade de processamento teria que ser infinita. Nenhum computador, não importa com quantos circuitos, conseguiria ter a consciência que nós temos, a existência que temos. Quer dizer, ele poderia ser absolutamente indistinguível de um ser humano, mas não haveria uma alma nele.

- Ei, ei, ei - eu não me contive e interrompi - se você não conseguir distinguir um ser humano de um computador, pode-se dizer que você tem uma máquina inteligente.

- Exato. Você não consegue saber se uma máquina ou um ser humano tem alma. O único ser que você sabe que existe é você mesmo. Você sabe que por trás de seus olhos existe um 'SER'. Este professor chamava de um 'observador', o piloto de seu cérebro, a pessoa que existe e pensa e está aqui, neste momento, falando comigo.

- Ok, e naturalmente eu não tenho como saber se as outras pessoas existem, correto?

- Mais que correto, este é o ponto. Na maioria das vezes, as outras pessoas realmente não existem.

- Cara, eu espero que você esteja me contando uma piada muito elaborada, porque já estou quase ligando para sua família para avisar que você está viajando legal.

- Deixe-me terminar, está bem. Depois você decide se estou ou não louco.

Eu concordei, e ele continuou.

- Para existir uma alma, como estava lhe dizendo, a quantidade de processamento necessária é infinita. Mas você sabe que existe pelo menos uma alma, a sua própria. As outras pessoas poderiam ser produzidas por um computador, por uma realidade virtual, ou ser um sonho seu. Assumimos que eles também tem alma porque nós temos, e eles se parecem conosco. Assumimos a alma das outras pessoas por analogia, já que nós temos uma.

- E elas não tem?

- Elas tem, da mesma forma que nós, só que podem não estar aqui. Na verdade, neste bar, nesta dimensão, as únicas almas presentes são as nossas duas.

- E as outras pessoas?

- As almas delas estão em qualquer outra dimensão. A única forma de gerar uma alma é com uma quantidade infinita de processamento, e isto é feito com uma quantidade infinita de cérebros. Todos os Alex Santos de todos os universos fazem com que a minha alma exista, e ela está aqui, neste momento, falando com você.

- E os outros Alex?

- Quem se importa? São como máquinas, eles só são importantes porque fazem a minha existência.

- Ok, então só existe um Alex, e ele está aqui falando comigo. Mas não é o mesmo Alex que eu conheci?

- Exato. Por causa do experimento que eu fiz

- E como foi isto?

- Eu passei um mês fazendo exercícios de meditação, tomando alguns remédios, uma série de experimentos. Eu achei que não tinham nada de mais. Na verdade, como você está pensando a meu respeito, eu achei que aquele pesquisador era completamente pirado.

- Tá, mas agora eu me perdi. Você ficou fazendo meditação para quê?

- Simples, só havia uma forma de provar esta teoria. Se tomássemos consciência de que nossa alma habita infinitas mentes, em infinitos universos, porque não poderíamos viajar de um universo para outro, assumir o corpo de um Alex ou outro?

- E o que aconteceria com este Alex?

- Nada, ele nunca existiu. O Alex que você conheceu sua vida inteira nunca foi real, assim como o amigo que eu conheci. Você que é real, assim como eu, e esta é a primeira vez que realmente nos encontramos.

- Ok, então, como você começou a viajar pelas dimensões? Suponho que tenha sido depois de tomar um alucinógeno.

- Não. Eu simplesmente descobri, um dia, quando fui no laboratório, para mais um dia de experiências. A sala dos experimentos estava vazia, e ninguém nunca ouviu falar da pesquisa ou do cientista.

- Hummm, bom, isto faz sentido. E suponho que você agora passa o tempo contando para as pessoas que caiu em uma piada de universitários, e tentando fazer os outros cairem também.

- É, foi o que eu imaginei inicialmente. Até me dar conta que as ruas estavam diferentes, e que não existia Internet, e uma série de detalhes semelhantes. Foi aí que eu percebi que o experimento deu certo.

- E você veio parar aqui? Bom, eu lamento lhe dizer, mas a Internet existe sim, eu estava acessando hoje a tarde.

- Existe aqui, não no primeiro mundo que viajei. No início foi muito desorientador, eu acordava em um mundo diferente a cada dia, as vezes estava em outro mundo ao entrar ou sair de um prédio. Eu achei que estava enlouquecendo, até entender que estava apenas tendo uma visão real de como a existência é.

- E você espera que eu acredite nisto?

- Não, eu apenas vim lhe contar para prepará-lo. Quando você aceita que é um viajante das dimensões, tudo fica mais fácil. Você vai acreditar quando sair por aquela porta - ele aponta para a saída do bar - e descobrir que está em um mundo diferente do que quando entrou.

- E porquê que eu vou viajar entre dimensões, também? Eu não participei do experimento.

- Não neste mundo.

Ele se despediu, eu saí do bar e me vi cuidando os detalhes da rua, mas nada estava diferente. Foi só dois dias depois que comecei a perceber as diferenças e descobri que ele estava falando a verdade.



Epílogo - Parte I

- Bom, meu jovem, como é seu nome?

- Pedro. Você leu minha história, Doutor Shapiro?

- Eu li. Você tem uma excelente imaginação.

- Obrigado. O mais importante é que tenha lido.

- Porque é tão importante que eu leia? Você passou estes dois dias pedindo para falar comigo.

- Doutor, eu não tenho mais tempo. Em alguns minutos vou piscar os olhos e terei partido. Vai ter uma pessoa no meu lugar, o verdadeiro Pedro deste mundo, e ele não vai saber o que está fazendo aqui.

- Você vai viajar para outra dimensão? - "será um caso de multiplas personalidades", o Doutor Shapiro pensa, em silêncio.

Pedro não responde a pergunta, apenas entrega um papel dobrado em quatro para o médico - Doutor, existe apenas uma coisa que eu não contei na história. Está escrito aqui. Quando estiver pronto, leia.


Epílogo - Parte II

Ele queria ter jogado o papel fora, mas deixou-o no bolso, sem olhar para ele. A tevê, na sala, ligada, passava um jogo de futebol, e o médico agora está no quarto, segurando a folha de papel, ainda sem desdobrar.

Não foi o fato das coisas terem acontecido exatamente como o paciente tinha lhe dito. Não foi todos os exames de Pedro - que não se lembrava de nada - terem dado absolutamente normais. Nada disto perturbou o Doutor Shapiro, e ele já teria esquecido a história na hora que saiu do consultório.

Só que, na manhã daquele dia, ele havia comentado do novo cabelo ruivo de sua secretária, e ela respondeu que seu cabelo sempre foi daquela cor. E na teve passava um jogo entre dois times que ele nunca ouviu falar. E era a final do campeonato Brasileiro. Ele havia olhado rapidamente para o jornal que havia deixado em cima da mesa, e não era o mesmo jornal que ele havia visto pela manhã. Isto foi a trinta minutos, e o Doutor Shapiro ficou este tempo no quarto, com o papel na mão.

O Doutor Shapiro treme ao desdobrar a folha.

"O nome do cientista que conduziu os experimentos era Doutor Shapiro".

terça-feira, 5 de julho de 2011

O Futuro Rei - Parte II

- Falta muito para chegarmos em Kelliwic? - durante dois dias, o que meu irmão adotivo mais fez foi se queixar e reclamar. Eu lembro-o uma vez mais que ele só veio comigo porque insistiu, e porque me pegou escapando em silêncio, a noite, de nossa casa. Mesmo assim, ele não se cala.

- Porquê Merlin não veio conosco?

- Acho que Merlin não acredita que vou tirar a espada da pedra. Ele vai aparecer quando eu tiver a espada, você vai ver.

Nós seguimos pelo caminho, meu irmão ora a se queixar, ora a fazer perguntas que eu não saberia responder. O primeiro dia de jornada foi tranquilo, mas depois que pegamos a estrada de Kelliwic as árvores foram ficando mais cerradas, e a estrada mais deserta, e meu irmão mais e mais nervoso.

- Veja - ao chegarmos a uma curva na estrada eu aponto para o alto de uma colina, para o castelo agora visível - Ali está o castelo de Kelliwic, ou melhor, as ruínas dele.

- Uau - meu irmão nunca havia visto um castelo, e eu tinha que admitir que, mesmo em ruínas, era uma edificação impressionante. - Quem que construiu?

- Ninguém mais sabe. Alguns dizem que foram os romanos, alguns dizem que o castelo já estava aqui antes mesmo deles. Mas ninguém mais vem aqui desde que o Rei Uther morreu. Ninguém exceto quem, como nós, vem tentar retirar Caledfwlch da bigorna e da pedra.

Mais algumas milhas e chegamos as ruínas do castelo. Em seu pátio central estava Caledfwlch, a espada que Merlin chamou de Excalibur, a lendária arma do grande Rei Uther. Com um gesto, eu indico para meu irmão aguardar, e caminho até a espada.

Respiro fundo uma, duas, três vezes, e então seguro a espada com minha mão direita, e neste instante, como se levado pela mais pura magia, me vejo em outro lugar, em outro castelo.

- Onde estou - eu apenas penso, e ouço uma voz em minha mente, a voz de Caledfwlch. E a voz diz apenas uma palavra: "Camelot".

Imagens passam por mim, como se eu estivesse sonhando. Não, como se estivesse lembrando um sonho há muito esquecido. Eu me vejo como Rei, e abro um sorriso ao pensar que meu desejo era agora realidade. Mas meu sorriso se fecha no instante seguinte.

Eu vejo a mulher mais linda de todas. "Gwenhwyfar", a voz da espada ecoa novamente em minha mente. E vejo ela fingir me amar, apenas para me trair com meu mais valoroso cavaleiro.

E vejo um filho nascer, se tornar homem, e então se voltar contra mim e me enfrentar em batalha mortal. Eu o vejo morrer.

Eu vejo camelot cair, vítima de traições, e vejo meus cavaleiros se perderem na busca de uma relíquia sagrada. Mais e mais imagens eu vejo, imagens de tragédias e morte.

Eu fecho os olhos, abro-os novamente, e me vejo novamente nas ruínas de Kelliwic, com a espada ainda em minha mão, ainda cravada na pedra. Eu penso nas tragédias que me aguardam, e então me lembro das palavras de Merlin, e de porquê ele não me acompanhou.

- Espada - eu falo apenas em minha mente, sabendo que Caledfwlch pode me ouvir - Diga-me como você pode ser tirada da bigorna e da pedra.

- Nomeie meu mestre, e ele - somente ele - poderá me empunhar.

- Eu nomeio seu mestre - no momento que digo isto, em pensamento, um vento forte começa a soprar, vindo de lugar algum - e seu mestre é e sempre será Arthur, que se tornará Arthur Pendragon, descendente por direito do Rei Uther.

- Esta feito - a voz da espada ecoa uma última vez em minha mente, e então se silencia. O vento cessa. Nada se move.

Eu respiro fundo, só então percebendo que havia trancado minha respiração, e então, com toda a força, puxo a espada da pedra. E puxo uma vez mais, agora com as duas mãos. E a espada permanece imóvel.

- Esta espada não é para mim - eu falo em voz alta, me virando para meu irmão - agora é a sua vez de tentar, Arthur.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Futuro Rei - Parte I

- Feiticeiro, descobri qual será meu destino!

O mago olha para mim, sem demonstrar surpresa. Sua mão direita percorre a longa barba branca. Seus olhos são penetrantes e misteriosos. Ele sorri, mas só um tolo veria alegria em seu rosto.

- É mesmo, jovem aprendiz de cavaleiro? Deixe-me adivinhar – ele finge estar pensando – Descobriu que seu destino é ser um cavaleiro?

- Meu destino é ser o Rei de toda a Inglaterra. – Minha tentativa de impressionar, imitando seu jeito tranqüilo de falar, cai no vazio. Novamente, sua única reação é mover calmamente a mão pela sua barba.

- Um destino interessante, sem dúvida. E como foi esta descoberta? Sonhou com um palácio ou um trono, e acordou achando que se tornaria Rei?

- Não, eu apenas descobri o que fazer com os poderes que me ensinou a usar.

- Ah, sim, o poder que despertamos em você na nossa última aula. De fato é raro seu poder de falar com objetos inanimados. – Senti um calafrio percorrer meu corpo ao me lembrar da faca que falou comigo, como uma voz em minha mente – E pretende se tornar Rei com este poder? Se contar a alguém, é mais provável que acabe em uma fogueira que em um trono.

- Não, feiticeiro, não pretendo contar a ninguém. Pretendo usar meu poder para falar com Caledfwlch e descobrir como cumprir a profecia e me tornar Rei. Foi para isto que você veio me ensinar, não? Você disse que eu teria um grande destino, e que você me ajudaria a alcançá-lo.

- Eu disse que alguém nesta casa teria um grande destino, não que seria você. E disse que vim para ensinar alguém. E certamente não disse que vim aqui para ajudá-lo a puxar uma espada cravada no chão.

- Caledfwlch é mais do que isto, feiticeiro. Ela é a espada da profecia. Com ela nas mãos, e você ao meu lado, eu posso sim ser o Rei da Inglaterra.

- Sim – o feiticeiro concorda, balançando a cabeça, pensativo – sim, creio que você pode se tornar o Rei. É até possível que tirar Excalibur da bigorna e da pedra seja de fato seu destino. Mas não espere minha ajuda para isto. Eu vi o futuro, e estar ao seu lado não é o destino de Merlin.