Ana estava sentada em um banco da praça Iwasaki, como se fosse apenas mais uma jovem aproveitando uma folga. Alguns metros a frente, algumas crianças brincavam um jogo virtual, com mini-dragões soltando fogo e pequenos castelos surgindo do chão. Um homem alto, aparentando trinta e poucos anos, vestindo um sobretudo escuro, estava sentado a seu lado.
Homenagem ao avô japonês de Antônio Santos Wu, recém falecido fundador da Corporação Wu, a praça Iwasaki era mapeada em estilo japonês antigo, com templos xintoístas, jardins de pedras e avatares de monges budistas orientando os visitantes. Combinando com o ambiente, o rosto de Ana agora trazia leves traços orientais, mas ainda transmitia a impressão de uma jovem. Sua idade aparente era o assunto da conversa com o homem a seu lado.
- Não entendo sua preocupação, Hector. Vocês, humanos, vivem alterando suas aparências, sua idade, até mesmo seu sexo. Porque é tão estranho fazermos o mesmo? - Enquanto falava, ela acompanhava atentamente as crianças a brincar. Um observador atento perceberia que era um garoto em particular que prendia sua atenção.
- Talvez não seja, mas eu esperava que você voltasse a idade que sempre aparentou, seus trinta e poucos anos, depois de terminada sua última missão. Mas você está mantendo a mesma idade que usou para se aproximar de Mary.
- Eu complementei minha missão, a navegadora não está mais a serviço da corporação. Além disto, Wu, o velho, está morto. Eles nunca estiveram tão vulneráveis, Hector. Não vejo por que está preocupado com a minha aparência, quando estamos fazendo nossa parte do plano de forma perfeita.
- Não estou preocupado com o plano, Ana. Estou preocupado com você.
- Preocupado comigo? - Ana deu uma leve risada, enquanto Hector a olhava, atentamente.
- Talvez esteja gostando desta Mary mais do que quer admitir.
- Hector, temos trabalhado muito próximos há anos para derrubar a corporação e tudo que ela representa. Sei que você gostaria que eu tivesse o mesmo tipo de sentimentos que vocês têm, mas, eu já lhe disse, eu não sou humana. Eu não sinto nada pela navegadora - Ana faz uma pausa, como se estivesse hesitando em continuar - nem por você. Sinto muito.
O rosto de Hector se fechou, por um instante - não é isto. Não estou com ciúmes. Só preocupado.
- Não se preocupe. Retomamos o contato amanhã?
- Como sempre. Espero trazer novidades.
Hector se levantou, deu alguns passos, e desapareceu do cenário virtual. Ana voltou a olhar para as crianças que brincavam a sua frente, ainda mantendo sua atenção no mesmo garoto, uma criança de uns oito anos.
Por dez, talvez quinze minutos, as crianças jogaram, alheias a jovem que as observava. Um complexo jogo de estratégia e fantasia se desenrolava, com castelos se levantando do chão, para em seguida serem derrubados por dragões.
O garoto que Ana observava era possivelmente o mais habilidoso no jogo, mas não estava ganhando. Jogava defensivamente, mais construindo castelos e proteções que criando dragões para destruir os dos oponentes. Mesmo sem estar na frente, havia construído o mais forte castelo, e fortificáva-o agora cada vez mais. Não venceria, mas quando o jogo terminasse, também não teria sido derrotado.
O garoto olhou ao redor, no centro de seu pequeno castelo virtual. As muralhas eram translúcidas, e ele podia ver três ou quatro pequenos dragões tentando, sem sucesso, derrubar as paredes que ele levantou, e os outros jogadores mais ao longe. O banco da praça também era visível, mas ele não chegou a perceber que não havia mais ninguém nele.
- Quando construir um castelo, não esqueça de proteger as paredes de trás tão bem quanto as da frente - o garoto se virou, pulando de susto. Atrás, um pequeno dragão negro o olhava.
- Ok, perdi - ele respondeu, resignado. - Você é o dragão de quem?
- De nenhum de seus amigos. Eu sou um dragão mensageiro.
- Hein? Nunca ouvi isto. Mensageiro de quem?
- Diga a seu pai que você tem uma mensagem de Ana para ele. Diga a Tanho que, se algo acontecer a Mary, eu vou voltar a ver você, e algo muito pior do que isto vai acontecer.
- Isto o que?
O Dragão não respondeu. Ele abriu sua boca e dela saiu um jato de fogo, que queimou completamente o avatar de Timothy.
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FICÇÃO CIENTÍFICA - FANTASIA - TERROR.
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terça-feira, 23 de agosto de 2011
domingo, 14 de agosto de 2011
Família - Terrorista/5
- Como se atreve? Quem você pensa que é para se dizer filha de meu marido - A mulher foi a primeira a falar, a voz alterada, gritando. Eu apenas baixei a cabeça, sem saber o que dizer. Estava para me levantar e sair pela mesma porta que entrei.
- Calma, Silvia, meu amor. Deixe-me pelo menos entender. - Ele olhou para mim, seu rosto não demonstrando fúria, apenas confusão. - Você é uma das... - ele hesitou um segundo, como se escolhendo a palavra certa - uma das filhas de Margareth?
Eu assenti com a cabeça, a garganta trancada. Por que vim aqui? Ele não é meu pai, não importa o que eu tenha dito, não verdadeiramente. Depois consegui falar o suficiente para responder, a voz quase inaudível - Na verdade a única. A única viva.
- Não estou entendendo. Quem é Margareth? E quem é ela? - O garoto. Meu irmão? Será que ele é parecido comigo? O quanto do que eu sou é genético, o quanto é a manipulação? Eu não devia ter vindo, não devia.
- Olhem, me desculpem, eu só vim porque não sabia mais o que fazer, mas me desculpem - Eu peguei minha mochila, largada nos meus pés quando me sentei, e me levantei.
- Espere - Ele me segurou o braço. - Olha, não é como se eu fosse realmente seu pai. Eu nem sabia que você existia. Margareth só tinha usado nosso DNA para produzir - Ele hesitou novamente, não procurando uma palavra, apenas em dúvida do quanto deveria dizer. - Eu não sabia que ela teve uma filha normal.
Normal. Ele achava que eu era normal, não apenas outro experimento de minha mãe. Eu tentei soltar meu braço, mas ele continuou me segurando, firme. - Deixe-me ir - Eu falei. Meus olhos ameaçando novamente lacrimejar. Droga.
- Você não precisa sair ainda. Ninguém aqui vai entregá-la. Já que veio até aqui, vamos pelo menos conversar.
- Deixe-a ir - a voz da mulher. Eu não olhei para ela, mantive os olhos no chão.
- Ela é minha irmã? - O garoto. Fiquei feliz em apenas ouvir isto. Quando criança eu sonhava em ter um irmão, um irmão normal, não como minhas irmãs. Um calafrio me percorreu ao me lembrar delas.
- Silvia, por favor, leve Pedro para o quarto. Eu quero falar a sós com, como é mesmo seu nome?
- Mary. - A mulher sai levando o garoto. Achei que ela iria protestar.
- Sente-se de novo, e vamos conversar, está bem.
Eu me sentei, e naturalmente as perguntas começaram. Felizmente eu sabia as respostas, mesmo as que eu não deveria saber. Algumas não eram o que ele imaginava ouvir.
Ele ouviu mais do que falou, e quando dei por mim, havia revelado mais do que pretendia. Ao final eu estava chorando.
Ele então falou. Tentando se justificar, talvez? Se sentia culpado?
- Margareth e eu queríamos ter filhos, isto foi há quase trinta anos. Era o auge das experiências com neurônios melhorados. Já era comum crianças com 5% ou mais deles, para tratamento de doenças, sem nenhuma alteração cognitiva. Estávamos certos que funcionaria. Que poderíamos ter filhos com 100% dos neurônios otimizados. Havia simulações completas em computador que garantiam que nada daria errado.
Ele respirou fundo, e continuou - Foi por isto que nos separamos, porque ela queria continuar os experimentos, gerar novas crianças, até descobrir o que deu errado. Simplesmente descartar os autistas e psicopatas, e continuar tentando.
- Eles continuam até hoje - eu falei, em voz baixa. - Estão mais perto de fazer funcionar.
- E, no entanto, você está me dizendo que ela usou nosso DNA em você. Que depois de todos os experimentos, ela resolver gerar uma criança normal.
Eu tentei rir, mas o som que saiu de minha garganta não pareceu em nada uma risada.
- Normal, papai? - eu forço a palavra. Uma provocação? O que deu em mim? - Eu sou só mais um dos experimentos de Margareth.
* * *
O escritório virtual de Vincent, na corporação GenSynth, era todo branco, com poucos adornos, uma mesa e duas cadeiras mapeadas. Uma mulher estava sentada em uma delas, enquanto ele estava de pé, ao lado da mesa.
- Ela disse ser filha de Benjamim. - A voz da mulher perfeita demais para ser natural.
- Mary. A navegadora da Corporação Wu. Não a vimos na rede há dias. Devem estar procurando por ela.
- O que devo fazer?
- Nada, por enquanto. Não queremos fazer nada que comprometa sua posição. Apenas mantenha contato. - Com um gesto, Vincent cortou a conexão, e a mulher desapareceu.
Ele ficou em silêncio, imóvel, por mais alguns minutos, apenas planejando seu próximo passo. Depois, voltou a seu trabalho.
- Calma, Silvia, meu amor. Deixe-me pelo menos entender. - Ele olhou para mim, seu rosto não demonstrando fúria, apenas confusão. - Você é uma das... - ele hesitou um segundo, como se escolhendo a palavra certa - uma das filhas de Margareth?
Eu assenti com a cabeça, a garganta trancada. Por que vim aqui? Ele não é meu pai, não importa o que eu tenha dito, não verdadeiramente. Depois consegui falar o suficiente para responder, a voz quase inaudível - Na verdade a única. A única viva.
- Não estou entendendo. Quem é Margareth? E quem é ela? - O garoto. Meu irmão? Será que ele é parecido comigo? O quanto do que eu sou é genético, o quanto é a manipulação? Eu não devia ter vindo, não devia.
- Olhem, me desculpem, eu só vim porque não sabia mais o que fazer, mas me desculpem - Eu peguei minha mochila, largada nos meus pés quando me sentei, e me levantei.
- Espere - Ele me segurou o braço. - Olha, não é como se eu fosse realmente seu pai. Eu nem sabia que você existia. Margareth só tinha usado nosso DNA para produzir - Ele hesitou novamente, não procurando uma palavra, apenas em dúvida do quanto deveria dizer. - Eu não sabia que ela teve uma filha normal.
Normal. Ele achava que eu era normal, não apenas outro experimento de minha mãe. Eu tentei soltar meu braço, mas ele continuou me segurando, firme. - Deixe-me ir - Eu falei. Meus olhos ameaçando novamente lacrimejar. Droga.
- Você não precisa sair ainda. Ninguém aqui vai entregá-la. Já que veio até aqui, vamos pelo menos conversar.
- Deixe-a ir - a voz da mulher. Eu não olhei para ela, mantive os olhos no chão.
- Ela é minha irmã? - O garoto. Fiquei feliz em apenas ouvir isto. Quando criança eu sonhava em ter um irmão, um irmão normal, não como minhas irmãs. Um calafrio me percorreu ao me lembrar delas.
- Silvia, por favor, leve Pedro para o quarto. Eu quero falar a sós com, como é mesmo seu nome?
- Mary. - A mulher sai levando o garoto. Achei que ela iria protestar.
- Sente-se de novo, e vamos conversar, está bem.
Eu me sentei, e naturalmente as perguntas começaram. Felizmente eu sabia as respostas, mesmo as que eu não deveria saber. Algumas não eram o que ele imaginava ouvir.
Ele ouviu mais do que falou, e quando dei por mim, havia revelado mais do que pretendia. Ao final eu estava chorando.
Ele então falou. Tentando se justificar, talvez? Se sentia culpado?
- Margareth e eu queríamos ter filhos, isto foi há quase trinta anos. Era o auge das experiências com neurônios melhorados. Já era comum crianças com 5% ou mais deles, para tratamento de doenças, sem nenhuma alteração cognitiva. Estávamos certos que funcionaria. Que poderíamos ter filhos com 100% dos neurônios otimizados. Havia simulações completas em computador que garantiam que nada daria errado.
Ele respirou fundo, e continuou - Foi por isto que nos separamos, porque ela queria continuar os experimentos, gerar novas crianças, até descobrir o que deu errado. Simplesmente descartar os autistas e psicopatas, e continuar tentando.
- Eles continuam até hoje - eu falei, em voz baixa. - Estão mais perto de fazer funcionar.
- E, no entanto, você está me dizendo que ela usou nosso DNA em você. Que depois de todos os experimentos, ela resolver gerar uma criança normal.
Eu tentei rir, mas o som que saiu de minha garganta não pareceu em nada uma risada.
- Normal, papai? - eu forço a palavra. Uma provocação? O que deu em mim? - Eu sou só mais um dos experimentos de Margareth.
* * *
O escritório virtual de Vincent, na corporação GenSynth, era todo branco, com poucos adornos, uma mesa e duas cadeiras mapeadas. Uma mulher estava sentada em uma delas, enquanto ele estava de pé, ao lado da mesa.
- Ela disse ser filha de Benjamim. - A voz da mulher perfeita demais para ser natural.
- Mary. A navegadora da Corporação Wu. Não a vimos na rede há dias. Devem estar procurando por ela.
- O que devo fazer?
- Nada, por enquanto. Não queremos fazer nada que comprometa sua posição. Apenas mantenha contato. - Com um gesto, Vincent cortou a conexão, e a mulher desapareceu.
Ele ficou em silêncio, imóvel, por mais alguns minutos, apenas planejando seu próximo passo. Depois, voltou a seu trabalho.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
Pescaria com o Avô - Terrorista/4
Márcio e Lúcia dormiam, em quartos separados, porém conectados pela rede. O suave fluxo elétrico de suas mentes a sonhar sendo transmitido de um para o outro, indo e voltando. Eles não chegavam a ter os mesmos sonhos, mas sonhavam ao mesmo tempo, em sincronia.
Márcio acordou primeiro, e abriu seus olhos para o mundo virtual a seu redor. Quase que instantaneamente sua irmã apareceu a seu lado, ainda despertando, os braços se estendendo enquanto se espreguiçava, a boca se abrindo em um bocejo.
- Onde estamos? - ela perguntou, olhando ao redor.
- É a casa do vovô. Eu estive aqui uma vez - no mesmo instante que ele respondeu, seu avô apareceu na sua frente. As duas crianças gritaram e correram para abraçá-lo.
Antônio Santos Wu pegou cada um em um braço e levantou-os, algo possível apenas na rede. Em seu corpo frágil, ele mal poderia se mover de sua cama. Eles o abraçaram e beijaram.
- O que está fazendo aqui, vovô? - perguntou Márcio.
- Você nunca vem nos visitar! - criticou Lúcia.
- Lembram que eu prometi que iria levá-los para pescar, um dia? - Ele disse, sorrindo para um e para o outro, enquanto os colocava novamente no chão - Vocês não acharam que eu esqueci minha promessa, acharam?
- Mas você nunca tem tempo para nós - Lúcia, começando a emburrar a cara.
- Pois hoje eu tenho - ele disse, e girou seu braço. O quarto ao seu redor se transformou, se encolheu ao redor deles, até se transformar em um pequeno barco no meio de um oceano azul. - E hoje nós vamos fazer nossa pescaria.
Eles passaram as próximas horas a pescar e conversar sobre coisas sem importância. Conviver com o avô era tão raro que queriam aproveitar cada momento. Os peixes eram devolvidos ao mar, após serem trazidos para bordo.
- A vida toda, eu busquei ter mais tempo para viver - ele disse, em determinado momento, quando o sol estava quase a se pôr - e vivi por muito tempo. Acho que vivi mais que qualquer outra pessoa viva. E no entanto, tive tão pouco tempo para ser pai, e ainda menos para ser avô. Ter este momento com vocês dois foi um presente inestimável que ganhei.
E então seu rosto se tornou sério. O sol se pôs e, súbito, estavam novamente de volta a sua casa. Quando continuou a falar, os gêmeos perceberam que algo grave ele tinha para dizer. Havia uma tristeza em seu olhar.
- Este dia que passamos foi um presente também para vocês, e foi real, tão real quanto poderia ter sido. Não duvidem disto, mesmo que outros digam o contrário. E lembrem-se que eu sempre os amarei, meus netos.
Lúcia olhou para ele sem entender - Por que está dizendo isto, vovô? Alguma coisa ruim vai acontecer?
Márcio apenas foi ficando branco, o avatar transmitindo com perfeição os sentimentos que passavam por ele. - Alguma coisa já aconteceu. Não é vovô?
- Vejo que você já entendeu, meu neto. Não queria estragar este momento. Seja forte, sejam ambos fortes, e sejam muito felizes. - Não foi o avô que desapareceu, mas todo o cenário, se transformando, de súbito, no escritório de seu pai.
- Onde vocês estavam? Não conseguíamos rastreá-los em lugar nenhum - a voz de Lúcio Santos Wu irritada. Seu avatar mostrando um rosto jovem, agressivo, e muito diferente do rosto do avô. Embora nunca tivessem visto seu rosto verdadeiro, Márcio e Lúcia só podiam acreditar que sua imagem real fosse uma simples versão mais jovem do avô, ambos e Márcio pertencentes a mesma matriz genética. Mesmo Lúcia também, exceto pelos cromossomos X.
- Nós estávamos pescando com - Lúcia não chegou a terminar a frase, e se calou. Um sinal imperceptível passou do irmão para ela, tão sutil que a rede não detectaria como uma mensagem. Para ela foi quase como se fosse um grito: "silêncio".
- Nós estávamos pescando, em um novo jogo virtual. Como queríamos ficar sozinhos, cortamos o rastreamento - Assim que Márcio terminou de responder, recebeu de sua irmã uma resposta, também codificada, aproveitando o mesmo fluxo de transmissão: "não o provoque".
- Vocês não podem manipular a rede. Não neste nível, vocês não têm noção do estrago que poderiam causar.
- Eu sei o que eu faço. - Márcio, olhando nos olhos do avatar de seu pai. "não o desafie, não agora, alguma coisa aconteceu", foi a mensagem silenciosa de sua irmã.
"eu sei o que aconteceu, e sinto muito, irmã. Ele vai nos dizer agora.".
- Mas não foi para isto que eu os chamei. Algumas horas atrás, seu avô faleceu. Como sabem, ele estava muito velho. Eu sinto muito - "Não, você não sente", foi o pensamento de Márcio, mas ele não o transmitiu para sua irmã. Seria cruel. Ele apenas a abraçou, em silêncio, os olhos ainda fixos em seu pai.
* * *
Existe uma caverna.
A caverna está mapeada na rede, mas ao mesmo tempo está além dela. Em registros que não fazem parte do rastreamento, criados antes mesmo do sistema operacional da rede ser construído.
É uma caverna alta e ampla, que desce até terminar em um lago escuro. A caverna é mais antiga que a rede. O lago, pouco mais recente.
Há uma mulher, sentada sobre uma rocha. Em sua mão, um cálice de vinho tinto. No chão, o corpo de um homem muito velho, na verdade o homem mais velho que já morreu.
O homem, a mulher, o cálice, nenhum deles existe de fato, são apenas registros em computadores, fluxos de bytes a circular pela rede. E, no entanto, todos são reais. Mas apenas a mulher está viva.
- Eu achei que estaria feliz. - Ela diz, falando para o corpo do homem, sem ninguém a ouvir, e bebe novamente do cálice. Ele se enche uma vez mais, do nada, de vinho. Ela está levemento tonta - Todas as vezes que imaginei sua morte, eu estava alegre. E agora você está morto de verdade, e não fui eu que o matei. E eu estou triste.
Ela se levanta da pedra, e se aproxima do morto. - Por que você me pediu este favor? Foi por você? Foi por eles? Foi por mim?
O ambiente se escurece. E esfria. - Lúcifer, é você?
- É melhor partir, Ana - Uma voz nas trevas.
A mulher se vira, olha uma última vez para o corpo, e desaparece.
aventuraeficcao.blogspot.com
Márcio acordou primeiro, e abriu seus olhos para o mundo virtual a seu redor. Quase que instantaneamente sua irmã apareceu a seu lado, ainda despertando, os braços se estendendo enquanto se espreguiçava, a boca se abrindo em um bocejo.
- Onde estamos? - ela perguntou, olhando ao redor.
- É a casa do vovô. Eu estive aqui uma vez - no mesmo instante que ele respondeu, seu avô apareceu na sua frente. As duas crianças gritaram e correram para abraçá-lo.
Antônio Santos Wu pegou cada um em um braço e levantou-os, algo possível apenas na rede. Em seu corpo frágil, ele mal poderia se mover de sua cama. Eles o abraçaram e beijaram.
- O que está fazendo aqui, vovô? - perguntou Márcio.
- Você nunca vem nos visitar! - criticou Lúcia.
- Lembram que eu prometi que iria levá-los para pescar, um dia? - Ele disse, sorrindo para um e para o outro, enquanto os colocava novamente no chão - Vocês não acharam que eu esqueci minha promessa, acharam?
- Mas você nunca tem tempo para nós - Lúcia, começando a emburrar a cara.
- Pois hoje eu tenho - ele disse, e girou seu braço. O quarto ao seu redor se transformou, se encolheu ao redor deles, até se transformar em um pequeno barco no meio de um oceano azul. - E hoje nós vamos fazer nossa pescaria.
Eles passaram as próximas horas a pescar e conversar sobre coisas sem importância. Conviver com o avô era tão raro que queriam aproveitar cada momento. Os peixes eram devolvidos ao mar, após serem trazidos para bordo.
- A vida toda, eu busquei ter mais tempo para viver - ele disse, em determinado momento, quando o sol estava quase a se pôr - e vivi por muito tempo. Acho que vivi mais que qualquer outra pessoa viva. E no entanto, tive tão pouco tempo para ser pai, e ainda menos para ser avô. Ter este momento com vocês dois foi um presente inestimável que ganhei.
E então seu rosto se tornou sério. O sol se pôs e, súbito, estavam novamente de volta a sua casa. Quando continuou a falar, os gêmeos perceberam que algo grave ele tinha para dizer. Havia uma tristeza em seu olhar.
- Este dia que passamos foi um presente também para vocês, e foi real, tão real quanto poderia ter sido. Não duvidem disto, mesmo que outros digam o contrário. E lembrem-se que eu sempre os amarei, meus netos.
Lúcia olhou para ele sem entender - Por que está dizendo isto, vovô? Alguma coisa ruim vai acontecer?
Márcio apenas foi ficando branco, o avatar transmitindo com perfeição os sentimentos que passavam por ele. - Alguma coisa já aconteceu. Não é vovô?
- Vejo que você já entendeu, meu neto. Não queria estragar este momento. Seja forte, sejam ambos fortes, e sejam muito felizes. - Não foi o avô que desapareceu, mas todo o cenário, se transformando, de súbito, no escritório de seu pai.
- Onde vocês estavam? Não conseguíamos rastreá-los em lugar nenhum - a voz de Lúcio Santos Wu irritada. Seu avatar mostrando um rosto jovem, agressivo, e muito diferente do rosto do avô. Embora nunca tivessem visto seu rosto verdadeiro, Márcio e Lúcia só podiam acreditar que sua imagem real fosse uma simples versão mais jovem do avô, ambos e Márcio pertencentes a mesma matriz genética. Mesmo Lúcia também, exceto pelos cromossomos X.
- Nós estávamos pescando com - Lúcia não chegou a terminar a frase, e se calou. Um sinal imperceptível passou do irmão para ela, tão sutil que a rede não detectaria como uma mensagem. Para ela foi quase como se fosse um grito: "silêncio".
- Nós estávamos pescando, em um novo jogo virtual. Como queríamos ficar sozinhos, cortamos o rastreamento - Assim que Márcio terminou de responder, recebeu de sua irmã uma resposta, também codificada, aproveitando o mesmo fluxo de transmissão: "não o provoque".
- Vocês não podem manipular a rede. Não neste nível, vocês não têm noção do estrago que poderiam causar.
- Eu sei o que eu faço. - Márcio, olhando nos olhos do avatar de seu pai. "não o desafie, não agora, alguma coisa aconteceu", foi a mensagem silenciosa de sua irmã.
"eu sei o que aconteceu, e sinto muito, irmã. Ele vai nos dizer agora.".
- Mas não foi para isto que eu os chamei. Algumas horas atrás, seu avô faleceu. Como sabem, ele estava muito velho. Eu sinto muito - "Não, você não sente", foi o pensamento de Márcio, mas ele não o transmitiu para sua irmã. Seria cruel. Ele apenas a abraçou, em silêncio, os olhos ainda fixos em seu pai.
* * *
Existe uma caverna.
A caverna está mapeada na rede, mas ao mesmo tempo está além dela. Em registros que não fazem parte do rastreamento, criados antes mesmo do sistema operacional da rede ser construído.
É uma caverna alta e ampla, que desce até terminar em um lago escuro. A caverna é mais antiga que a rede. O lago, pouco mais recente.
Há uma mulher, sentada sobre uma rocha. Em sua mão, um cálice de vinho tinto. No chão, o corpo de um homem muito velho, na verdade o homem mais velho que já morreu.
O homem, a mulher, o cálice, nenhum deles existe de fato, são apenas registros em computadores, fluxos de bytes a circular pela rede. E, no entanto, todos são reais. Mas apenas a mulher está viva.
- Eu achei que estaria feliz. - Ela diz, falando para o corpo do homem, sem ninguém a ouvir, e bebe novamente do cálice. Ele se enche uma vez mais, do nada, de vinho. Ela está levemento tonta - Todas as vezes que imaginei sua morte, eu estava alegre. E agora você está morto de verdade, e não fui eu que o matei. E eu estou triste.
Ela se levanta da pedra, e se aproxima do morto. - Por que você me pediu este favor? Foi por você? Foi por eles? Foi por mim?
O ambiente se escurece. E esfria. - Lúcifer, é você?
- É melhor partir, Ana - Uma voz nas trevas.
A mulher se vira, olha uma última vez para o corpo, e desaparece.
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sábado, 23 de julho de 2011
Terrorista - 3
Meu coração bate acelerado. Meu olhos começam a lacrimejar. Maldita reação involuntária.
Respiro fundo. Uma, duas vezes.
Ana me disse que eu tenho meia-hora, talvez uma hora, para sair de casa e me esconder. E que depois eu não posso acessar a rede, nem por um instante.
Eu tiro os sensores da rede e vou até o armário, procurar alguma coisa para vestir. Geralmente eu fico nua em casa, e eu raramento saio. Não tenho muitas roupas.
"Como que eu me visto? Como vou saber se vai estar frio ou quente?". As coisas são tão mais simples na rede. Eu acabo escolhendo uma roupa leve e um casaco por cima. Coloco mais uma muda de roupas em uma mochila, e então pego, escondido no armário do quarto, meu cartão falso, que eu achei que nunca iria usar.
Eu entro na rede, mas só em visual, colocando os óculos. Mesmo assim, parece mais vívido que nunca, talvez por eu não saber se não é a última vez que navego. Eu fico por apenas alguns segundos, apenas o tempo para executar minha rotina de pânico, aquela que eu fiz exatamente para esta situação, no mesmo dia que fiz o cartão, um ano e meio atrás.
Minha vontade é ficar na rede só mais um momento, mas eu sei que não posso esperar. Eu desligo o visor no exato instante que vejo todo meu cenário virtual começar a se desintegrar. Em alguns minutos nada vai restar da minha vida na rede, da única vida que já tive.
Eu abro a porta e saio de casa, para nunca mais voltar. As lágrimas agora correm soltas pelo meu rosto.
- Querida, você está bem? - a voz preocupada da Senhora Rosa me fez estremecer. "Estou no mundo real", eu me crítico mentalmente, "não tenho subrotinas me alertando quando as pessoas olham para mim".
- Estou - eu gaguejo - estou sim - Limpo o rosto sujo de lágrimas com a manga da camisa. - Briguei com um amigo, só isto, mas já estou bem - invento a primeira desculpa que me ocorre.
- Eu sei que você vive na rede, querida, mas tem um mundo inteiro aqui fora, também. Você devia sair mais vezes - Tem sim, um mundo sujo, lento e limitado, e eu estou presa nele. Mas é óbvio que eu não digo isto.
- Aqui fora não é para mim, você sabe - eu respondo com sinceridade.
- só queria sair um pouquinho da rede - eu continuo, com a coisa mais absurda que eu já disse, mas se alguém acreditaria nisto é a Senhora Rosa. Ela e seu marido vivem juntos, juntos mesmo, dividindo um apartamento. Se me dissessem que ela nem tem login, eu acreditaria.
Eu me despeço, e saio do prédio. Na rua, um vento frio sopra. Sorte ter pego um casaco.
Eu caminho uma quadra e desço a escada para pegar o metrô. Uma dúzia de câmeras já filmaram meu rosto, mas se meu programa funcionou, vai levar horas até perceberem que meu rosto verdadeiro foi transferido para um perfil falso. Mas não posso perder tempo para chegar até o refúgio que Ana me indicou.
Eu fico em silêncio, encolhida, nas horas seguintes, só me movendo para trocar o metro por um trêm magnético. Na rede a viagem seria instantânea. No trêm, no meio da viagem, eu começo a chorar. "fraca", eu digo para mim mesma. "Se Ana estivesse aqui, eu podia aguentar estar fora da rede", eu falo sozinha, e então rio de meu próprio absurdo. Ana só poderia estar comigo se eu estivesse na rede.
É noite quando chego em São Paulo. Quando desço da estação uma pessoa vem falar comigo, tentar me vender alguma coisa. Eu levo alguns segundos para entender, até me dar conta que ele está falando em português. Eu respondo que não tenho interesse, em inglês padrão. Ele me xinga e se afasta. Eu engulo em seco e começo a caminhar mais rápido, vendo mais vendedores se aproximando. Entro no primeiro Taxi que vejo.
Eu passo o endereço que Ana me deu para o computador do taxi, e ele sai veloz pela rua. Eu olho pela janela, com um fascínio mórbido. É este o mundo que eu habito agora. Um mendigo olha para mim. Somos iguais, igualmente desconectados.
- Mary, você vai ter que mudar os planos.
- O que - eu grito, o coração batendo acelerado. Taxis normalmente não falam com passageiros, e eu havia apagado meu nome verdadeiro da rede.
- Ana? É você - a esperança me invade, e só então me dou conta de quão sozinha estou me sentindo, quão abandonada.
- Não, Ana está ocupada, fugindo do rastreamento. Ela me pediu para manter um olho em você.
- Quem é você?
- Ninguém. Apenas um amigo. Estou alterando o destino do taxi, mas você precisa decidir para onde ir.
- Por quê? Estou indo para o endereço que Ana me passou - preciso cuidar o que digo. Nada me garante que ele fala a verdade.
- Já foi abandonado. Está sendo monitorado pelo governo. Estão esperando por você lá.
- Então não sei para onde ir...
- Sinto muito, tenho que ir. Já me envolvi demais.
- Espere. Quem é você?
- Já lhe disse. Ninguém.
Eu falo mais uma, duas vezes, sem obter resposta, e sei que estou sozinha novamente. Sozinha em uma cidade estranha, desconectada da rede, com meu tempo acabando. Não vai levar muito tempo para identificarem minha id falsa.
Então eu indico o único local que me restou. Só por não ter nenhuma alternativa.
Meia hora leva para eu chegar na casa, dez minutos a pé, caso rastreiem o taxi, como o amigo de Ana fez. Outro programa de computador, eu tenho certeza. Nenhum navegador humano poderia ter me achado tão rápido.
O homem abre a porta quando toca a campainha. Eu peço para entrar.
Há uma mulher com ele, e um garoto, pouco mais jovem que eu. Droga. Pensei que ele estaria sozinho.
Eles me ouvem, a versão editada de minha história, é claro. Apenas o suficiente para saberem que o governo está atrás de mim, que eu preciso de refúgio, e que será perigoso me ajudarem.
- Minha jovem, não queremos problemas. Porque veio aqui? Porque bateu na nossa porta? - Droga, eu repito para mim mesma. Eu realmente não queria que a família dele estivesse junto. Quase me levanto e saio, mas eu não sei mais para onde ir. Eu não tenho outra escolha, além de responder.
- Por que você é meu pai.
Respiro fundo. Uma, duas vezes.
Ana me disse que eu tenho meia-hora, talvez uma hora, para sair de casa e me esconder. E que depois eu não posso acessar a rede, nem por um instante.
Eu tiro os sensores da rede e vou até o armário, procurar alguma coisa para vestir. Geralmente eu fico nua em casa, e eu raramento saio. Não tenho muitas roupas.
"Como que eu me visto? Como vou saber se vai estar frio ou quente?". As coisas são tão mais simples na rede. Eu acabo escolhendo uma roupa leve e um casaco por cima. Coloco mais uma muda de roupas em uma mochila, e então pego, escondido no armário do quarto, meu cartão falso, que eu achei que nunca iria usar.
Eu entro na rede, mas só em visual, colocando os óculos. Mesmo assim, parece mais vívido que nunca, talvez por eu não saber se não é a última vez que navego. Eu fico por apenas alguns segundos, apenas o tempo para executar minha rotina de pânico, aquela que eu fiz exatamente para esta situação, no mesmo dia que fiz o cartão, um ano e meio atrás.
Minha vontade é ficar na rede só mais um momento, mas eu sei que não posso esperar. Eu desligo o visor no exato instante que vejo todo meu cenário virtual começar a se desintegrar. Em alguns minutos nada vai restar da minha vida na rede, da única vida que já tive.
Eu abro a porta e saio de casa, para nunca mais voltar. As lágrimas agora correm soltas pelo meu rosto.
- Querida, você está bem? - a voz preocupada da Senhora Rosa me fez estremecer. "Estou no mundo real", eu me crítico mentalmente, "não tenho subrotinas me alertando quando as pessoas olham para mim".
- Estou - eu gaguejo - estou sim - Limpo o rosto sujo de lágrimas com a manga da camisa. - Briguei com um amigo, só isto, mas já estou bem - invento a primeira desculpa que me ocorre.
- Eu sei que você vive na rede, querida, mas tem um mundo inteiro aqui fora, também. Você devia sair mais vezes - Tem sim, um mundo sujo, lento e limitado, e eu estou presa nele. Mas é óbvio que eu não digo isto.
- Aqui fora não é para mim, você sabe - eu respondo com sinceridade.
- só queria sair um pouquinho da rede - eu continuo, com a coisa mais absurda que eu já disse, mas se alguém acreditaria nisto é a Senhora Rosa. Ela e seu marido vivem juntos, juntos mesmo, dividindo um apartamento. Se me dissessem que ela nem tem login, eu acreditaria.
Eu me despeço, e saio do prédio. Na rua, um vento frio sopra. Sorte ter pego um casaco.
Eu caminho uma quadra e desço a escada para pegar o metrô. Uma dúzia de câmeras já filmaram meu rosto, mas se meu programa funcionou, vai levar horas até perceberem que meu rosto verdadeiro foi transferido para um perfil falso. Mas não posso perder tempo para chegar até o refúgio que Ana me indicou.
Eu fico em silêncio, encolhida, nas horas seguintes, só me movendo para trocar o metro por um trêm magnético. Na rede a viagem seria instantânea. No trêm, no meio da viagem, eu começo a chorar. "fraca", eu digo para mim mesma. "Se Ana estivesse aqui, eu podia aguentar estar fora da rede", eu falo sozinha, e então rio de meu próprio absurdo. Ana só poderia estar comigo se eu estivesse na rede.
É noite quando chego em São Paulo. Quando desço da estação uma pessoa vem falar comigo, tentar me vender alguma coisa. Eu levo alguns segundos para entender, até me dar conta que ele está falando em português. Eu respondo que não tenho interesse, em inglês padrão. Ele me xinga e se afasta. Eu engulo em seco e começo a caminhar mais rápido, vendo mais vendedores se aproximando. Entro no primeiro Taxi que vejo.
Eu passo o endereço que Ana me deu para o computador do taxi, e ele sai veloz pela rua. Eu olho pela janela, com um fascínio mórbido. É este o mundo que eu habito agora. Um mendigo olha para mim. Somos iguais, igualmente desconectados.
- Mary, você vai ter que mudar os planos.
- O que - eu grito, o coração batendo acelerado. Taxis normalmente não falam com passageiros, e eu havia apagado meu nome verdadeiro da rede.
- Ana? É você - a esperança me invade, e só então me dou conta de quão sozinha estou me sentindo, quão abandonada.
- Não, Ana está ocupada, fugindo do rastreamento. Ela me pediu para manter um olho em você.
- Quem é você?
- Ninguém. Apenas um amigo. Estou alterando o destino do taxi, mas você precisa decidir para onde ir.
- Por quê? Estou indo para o endereço que Ana me passou - preciso cuidar o que digo. Nada me garante que ele fala a verdade.
- Já foi abandonado. Está sendo monitorado pelo governo. Estão esperando por você lá.
- Então não sei para onde ir...
- Sinto muito, tenho que ir. Já me envolvi demais.
- Espere. Quem é você?
- Já lhe disse. Ninguém.
Eu falo mais uma, duas vezes, sem obter resposta, e sei que estou sozinha novamente. Sozinha em uma cidade estranha, desconectada da rede, com meu tempo acabando. Não vai levar muito tempo para identificarem minha id falsa.
Então eu indico o único local que me restou. Só por não ter nenhuma alternativa.
Meia hora leva para eu chegar na casa, dez minutos a pé, caso rastreiem o taxi, como o amigo de Ana fez. Outro programa de computador, eu tenho certeza. Nenhum navegador humano poderia ter me achado tão rápido.
O homem abre a porta quando toca a campainha. Eu peço para entrar.
Há uma mulher com ele, e um garoto, pouco mais jovem que eu. Droga. Pensei que ele estaria sozinho.
Eles me ouvem, a versão editada de minha história, é claro. Apenas o suficiente para saberem que o governo está atrás de mim, que eu preciso de refúgio, e que será perigoso me ajudarem.
- Minha jovem, não queremos problemas. Porque veio aqui? Porque bateu na nossa porta? - Droga, eu repito para mim mesma. Eu realmente não queria que a família dele estivesse junto. Quase me levanto e saio, mas eu não sei mais para onde ir. Eu não tenho outra escolha, além de responder.
- Por que você é meu pai.
terça-feira, 19 de julho de 2011
Terrorista - 2
- Então, você se apaixonou por um programa de computador? - a voz era sarcástica, debochada. O rosto era comum, sem personalidade, apenas um avatar padrão. Típico de um investigador.
- Não precisa ser tão duro com ela. Mary não tinha como saber - A voz grave de Tanho combinava com o gigante musculoso de dois metros e dez e pele negra. O mais incrível é que aquele era seu físico real. Sua aparência, porém, escondia um homem gentil e sensível, que estava verdadeiramente preocupado com sua amiga.
- Obrigada - a voz de Mary quase um sussurro. A cabeça baixa, os olhos fixos no chão.
- Ainda é cedo para dizer que ela é inocente em toda esta situação. Primeiro temos que entender como a criatura escapou.
- O nome dela é Ana - Mary fala em uma voz ainda mais baixa, e então se silencia.
Os três estavam sozinhos, em uma sala de investigação. Apenas a mesa, cadeiras e paredes estavam mapeados, em uma cor branca e sem detalhes.
Mary estava ali há mais de uma hora, desde que terminou seu encontro com Ana.
- Mary, isto é realmente importante. - A voz de Tanho gentil, pausada - como você acha que ela pode ter escapado? Estávamos vigiando todo o tempo.
- Eu não sei. Ela apenas se levantou e saiu de nossa cabine, no restaurante. Mas vocês estão me dizendo que ela sumiu do rastreamento.
- Diga-me - a voz inquisidora do investigador adquirindo um novo ritmo. Seu rosto adquirindo uma nova vivacidade. - Você é a melhor navegadora que temos. Se você tivesse que escapar do rastreamento, como ela fez. Você conseguiria?
Mary parece hesitar por um instante - Já conversamos sobre isto. Entre nós navegadores, quero dizer. O rastreamento é uma das funções do código operacional da rede, é impossível gerar uma presença sem rastreamento. Mas alguns acreditam que é possível criar desvios de fluxo, jogar uma presença em outro ponto da rede sem referênciar o ponto anterior, confundindo o rastreamento.
- E sendo esta Ana apenas um programa, isto seria fácil para ela?
- Não sei se faria diferença. Ela teria que ter um nexo do mesmo jeito que nós, apenas não haveria um corpo físico neste nexo, obviamente. Mas suponho que se ela não soubesse escapar do rastreamento, vocês já teriam pego ela há muito tempo.
- E isto me leva a outro ponto que gostaria de esclarecer. Você imaginava que iriam poder ficar juntas, se ela se entregasse. Mas sendo ela apenas um programa, isto não iria acontecer. Se conseguíssemos pegá-la, você nunca mais a veria.
- Ela é apenas um programa de computador. Quando pedi que deixassem ela comigo, achei que era uma pessoa.
- Sabe - O rosto do investigador naturalmente não mostrava nenhuma emoção, mas sua voz era suficiente para transmitir uma idéia de um interesse aguçado, como se ele estivesse quase completando um quebra-cabeça. - todo o tempo estive pensando nisto, e esta é a parte da história que ainda não me convenceu.
- Como assim?
- Você disse que ela revelou que era apenas um programa, se levantou, e foi embora, correto?
- Sim.
- Ela não se despediu, não pediu desculpas, você não a perdoou, não marcaram de se ver novamente, não disseram nada. Ela apenas saiu e você não disse uma palavra?
- Sim.
- Pelo que vi de seu perfil, você nunca se apaixonou antes. Mais que isto, você não teve nenhuma proximidade com ninguém, antes dela. Quando descobriu que ela era um ser artificial, este sentimento simplesmente sumiu? E você nem falou nada, e deixou ela ir.
- Não sei. O que quer que eu diga.
- Eu acho que ela não se levantou simplesmente e foi embora. Eu acho que vocês continuaram conversando. Talvez, mesmo, tenham marcado de se encontrar novamente. Não é verdade?
Mary permanece em silêncio.
O investigador se vira para Tanho. - Mande uma equipe de contenção para a casa dela. Quero ela sob custódia em dez minutos. - Ele olha para Mary - Mesmo que você também possa escapar do rastreamento, diferente do vírus, você tem um corpo físico. Saberemos nas próximas horas se você escondeu alguma coisa e, principalmente, o que vocês realmente conversaram.
Os minutos passam, Mary em silêncio, imóvel.
- Senhor Silva - a voz de Tanho pela primeira vez hesitante, os olhos no horizonte, ouvindo uma transmissão recém recebida, direto para ele - Ela não está em casa. Todos os registros e dados da casa foram apagados, uma hora atrás.
- Impossível, seu avatar esteve aqui o tempo todo. Só temos nossas três ligações nesta sala, e a dela está fixa em sua casa.
- Bom, senhores - Mary se levanta. Pela primeira vez, sua voz está tranquila, e ela olha nos olhos de seu interrogador - receio que não há sentido em eu continuar aqui. Se me dão licença, é hora de eu ir.
- Mary, você não vai a lugar algum. Não sei que truque você fez, mas vamos manter seu avatar preso até localizar seu físico.
- Ela não é a Mary. - Tanho falou, quase por impulso, e no instante que disse, soube instintivamente que tinha razão.
- Mary sempre me disse que você era muito perspicaz. - A voz dela já em um novo timbre, o rosto começando a se transformar.
- Não foi o vírus que sumiu do rastreamento. Foi Mary. Enquanto perdíamos tempo aqui, ela estava fugindo de sua casa e certamente apagando seu rastro. Todo este tempo o vírus estava ganhando tempo para ela.
Ela sorri, enquanto vai ficando transparente, até se tornar invisível - Por favor, meu nome é Ana.
- Não precisa ser tão duro com ela. Mary não tinha como saber - A voz grave de Tanho combinava com o gigante musculoso de dois metros e dez e pele negra. O mais incrível é que aquele era seu físico real. Sua aparência, porém, escondia um homem gentil e sensível, que estava verdadeiramente preocupado com sua amiga.
- Obrigada - a voz de Mary quase um sussurro. A cabeça baixa, os olhos fixos no chão.
- Ainda é cedo para dizer que ela é inocente em toda esta situação. Primeiro temos que entender como a criatura escapou.
- O nome dela é Ana - Mary fala em uma voz ainda mais baixa, e então se silencia.
Os três estavam sozinhos, em uma sala de investigação. Apenas a mesa, cadeiras e paredes estavam mapeados, em uma cor branca e sem detalhes.
Mary estava ali há mais de uma hora, desde que terminou seu encontro com Ana.
- Mary, isto é realmente importante. - A voz de Tanho gentil, pausada - como você acha que ela pode ter escapado? Estávamos vigiando todo o tempo.
- Eu não sei. Ela apenas se levantou e saiu de nossa cabine, no restaurante. Mas vocês estão me dizendo que ela sumiu do rastreamento.
- Diga-me - a voz inquisidora do investigador adquirindo um novo ritmo. Seu rosto adquirindo uma nova vivacidade. - Você é a melhor navegadora que temos. Se você tivesse que escapar do rastreamento, como ela fez. Você conseguiria?
Mary parece hesitar por um instante - Já conversamos sobre isto. Entre nós navegadores, quero dizer. O rastreamento é uma das funções do código operacional da rede, é impossível gerar uma presença sem rastreamento. Mas alguns acreditam que é possível criar desvios de fluxo, jogar uma presença em outro ponto da rede sem referênciar o ponto anterior, confundindo o rastreamento.
- E sendo esta Ana apenas um programa, isto seria fácil para ela?
- Não sei se faria diferença. Ela teria que ter um nexo do mesmo jeito que nós, apenas não haveria um corpo físico neste nexo, obviamente. Mas suponho que se ela não soubesse escapar do rastreamento, vocês já teriam pego ela há muito tempo.
- E isto me leva a outro ponto que gostaria de esclarecer. Você imaginava que iriam poder ficar juntas, se ela se entregasse. Mas sendo ela apenas um programa, isto não iria acontecer. Se conseguíssemos pegá-la, você nunca mais a veria.
- Ela é apenas um programa de computador. Quando pedi que deixassem ela comigo, achei que era uma pessoa.
- Sabe - O rosto do investigador naturalmente não mostrava nenhuma emoção, mas sua voz era suficiente para transmitir uma idéia de um interesse aguçado, como se ele estivesse quase completando um quebra-cabeça. - todo o tempo estive pensando nisto, e esta é a parte da história que ainda não me convenceu.
- Como assim?
- Você disse que ela revelou que era apenas um programa, se levantou, e foi embora, correto?
- Sim.
- Ela não se despediu, não pediu desculpas, você não a perdoou, não marcaram de se ver novamente, não disseram nada. Ela apenas saiu e você não disse uma palavra?
- Sim.
- Pelo que vi de seu perfil, você nunca se apaixonou antes. Mais que isto, você não teve nenhuma proximidade com ninguém, antes dela. Quando descobriu que ela era um ser artificial, este sentimento simplesmente sumiu? E você nem falou nada, e deixou ela ir.
- Não sei. O que quer que eu diga.
- Eu acho que ela não se levantou simplesmente e foi embora. Eu acho que vocês continuaram conversando. Talvez, mesmo, tenham marcado de se encontrar novamente. Não é verdade?
Mary permanece em silêncio.
O investigador se vira para Tanho. - Mande uma equipe de contenção para a casa dela. Quero ela sob custódia em dez minutos. - Ele olha para Mary - Mesmo que você também possa escapar do rastreamento, diferente do vírus, você tem um corpo físico. Saberemos nas próximas horas se você escondeu alguma coisa e, principalmente, o que vocês realmente conversaram.
Os minutos passam, Mary em silêncio, imóvel.
- Senhor Silva - a voz de Tanho pela primeira vez hesitante, os olhos no horizonte, ouvindo uma transmissão recém recebida, direto para ele - Ela não está em casa. Todos os registros e dados da casa foram apagados, uma hora atrás.
- Impossível, seu avatar esteve aqui o tempo todo. Só temos nossas três ligações nesta sala, e a dela está fixa em sua casa.
- Bom, senhores - Mary se levanta. Pela primeira vez, sua voz está tranquila, e ela olha nos olhos de seu interrogador - receio que não há sentido em eu continuar aqui. Se me dão licença, é hora de eu ir.
- Mary, você não vai a lugar algum. Não sei que truque você fez, mas vamos manter seu avatar preso até localizar seu físico.
- Ela não é a Mary. - Tanho falou, quase por impulso, e no instante que disse, soube instintivamente que tinha razão.
- Mary sempre me disse que você era muito perspicaz. - A voz dela já em um novo timbre, o rosto começando a se transformar.
- Não foi o vírus que sumiu do rastreamento. Foi Mary. Enquanto perdíamos tempo aqui, ela estava fugindo de sua casa e certamente apagando seu rastro. Todo este tempo o vírus estava ganhando tempo para ela.
Ela sorri, enquanto vai ficando transparente, até se tornar invisível - Por favor, meu nome é Ana.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Terrorista
- Ana - eu começo, e hesito, sem saber como continuar, e então decido dizer tudo de uma só vez - Você é uma terrorista?
A mulher que eu pensava conhecer apenas sorri, e leva um guardanapo ao rosto, limpando tranqüilamente os lábios. Eu me pergunto se ela é realmente tão controlada, ou se programou sua projeção para não demonstrar surpresa.
- Bom, querida, para responder, primeiro tenho que saber qual a definição de terrorismo que estamos usando? - ela coloca o guardanapo calmamente de volta na mesa, e pega mais um sashimi.
- É verdade, não é? Você só se aproximou de mim para ter os meus acessos? Você está por trás do vírus?
- Sim. - Era a única resposta que eu não esperava ouvir. Não daquela forma singela, como se fosse algo sem importância. Ela molha o sashimi no molho e depois o leva a boca.
- E eu fui apenas uma tola, acreditando que você me amava. - Minha voz soou fria e controlada.
- Você é muitas coisas, Mary. Inteligente, criativa, divertida, até ingênua, em certos aspectos. Na verdade, foi isto que me atraiu em você, em primeiro lugar. Mas você não é tola. E você está certa em acreditar que eu te amo.
- Ah, e quer que eu acredite nisto, agora? - Repito para mim mesma que manterei a calma. Eu vim para ajudá-la, não para brigar. Por isto, que havia pedido o tempo de uma conversa, antes que cortassem ela da rede.
- Você acredita. - Ela encosta a mão sobre a minha, a sensação na luva quase como se ela estivesse realmente na minha frente. - se não acreditasse não estaria aqui. Teria apenas dito para me tirarem da rede.
- É o que eles vão fazer, de qualquer forma. E vão localizar você, e prendê-la. E vão obrigá-la a dizer tudo que sabe sobre a rebelião, e vão deter o vírus antes que cause mais estragos. Depois vão mandá-la para um campo de reeducação. Você não tem idéia do que é aquilo lá - "Droga", eu digo para mim mesma, enquanto meus olhos se enchem de lágrimas. Eu havia prometido que não iria chorar.
- Está tudo bem, Mary. Não importa o que façam comigo, não será culpa sua. Eu sei que você tentou me proteger.
- Eu posso proteger você - eu falo, dando ênfase ao "posso". - foi para isto que vim. - "não porquê te amo e queria te ver novamente", minha mente fala, brincando comigo.
- Receio que esteja enganada, Mary. Não creio que possa me proteger. Eles vão me tirar da rede, eles não têm outra escolha. A esta altura eles já devem ter percebido que sou ainda melhor que você em navegação. - Ela fala com uma simplicidade de algo que deveria ser praticamente impossível. Eu fui geneticamente criada e treinada por todos os meus 17 anos para ser uma das melhores navegadoras da rede. Havia menos de dez tão bons quanto eu. Não deveria, não poderia haver ninguém melhor. Eu estava muito próxima do limite que um cérebro humano poderia chegar de entender e controlar a rede.
- Ana, é claro que eles vão tirar você da rede - será que ela era mesmo melhor do que eu? como? - mas você pode ficar comigo. Fisicamente, eu quero dizer. - "E não me importa se você tem 70 anos, é obesa, ou mesmo é um homem", eu penso em silêncio.
- Fisicamente? - ela sorri, como se isto a divertisse.
- Sim. Eles não vão mandá-la para a reeducação. Eu pedi, como um favor pessoal. Fora da rede, não tem muito que você possa fazer, e eles vão monitorá-la, é claro, mas você pode morar comigo. Você só vai precisar dizer o que sabe. Eles só precisam ter algumas informações sobre o vírus para poder desativá-lo - Será que ela ajudou a construir o vírus, o programa quase inteligente que vinha desafiando os controles do governo?
- Receio que as coisas não sejam tão simples.
- Porquê? Você não vai estar traindo ninguém. Quer dizer, eles já tem seu acesso. É só uma questão de horas para localizarem você, e depois eles tirariam toda a informação de seu cérebro de qualquer maneira. Na verdade vão fazer isto, se não quiser colaborar. Mas depois vão soltá-la, e poderemos viver juntas. - "ela não ama você, sua estúpida", meu cérebro fala. Eu mando ele calar a boca.
Ela sorri, e pela primeira vez seu sorriso é triste. - Eu não me refiro a isto. Eu apenas receio que não existe como nós estarmos juntas fora da rede.
- Porque não? É meio século XX, mas quem se importa? Eu sei que vai ser horrível estar fora da rede, mas não tem o que eu possa fazer quanto a isto. Se você está preocupada, eu não me importo com o que você se parece, basta que possamos estar juntas.
- Eles vão destruir o vírus. Eles não podem permitir que ele exista, é uma força contra o controle, um programa inteligente que desafia esta ditadura que governa o mundo.
- Ana, não há nada que possamos fazer. É impossível enfrentar o governo, eu sei - um calafrio me percorre quando me lembro do centro de reeducação - eles controlam a rede. Deixe que eles destruam o vírus e tirem você da rede. Pelo menos fisicamente podemos ficar juntas.
- Mary, lamento. Eu não posso estar com você fora da rede.
- Porquê?
- Por que eu sou o vírus.
A mulher que eu pensava conhecer apenas sorri, e leva um guardanapo ao rosto, limpando tranqüilamente os lábios. Eu me pergunto se ela é realmente tão controlada, ou se programou sua projeção para não demonstrar surpresa.
- Bom, querida, para responder, primeiro tenho que saber qual a definição de terrorismo que estamos usando? - ela coloca o guardanapo calmamente de volta na mesa, e pega mais um sashimi.
- É verdade, não é? Você só se aproximou de mim para ter os meus acessos? Você está por trás do vírus?
- Sim. - Era a única resposta que eu não esperava ouvir. Não daquela forma singela, como se fosse algo sem importância. Ela molha o sashimi no molho e depois o leva a boca.
- E eu fui apenas uma tola, acreditando que você me amava. - Minha voz soou fria e controlada.
- Você é muitas coisas, Mary. Inteligente, criativa, divertida, até ingênua, em certos aspectos. Na verdade, foi isto que me atraiu em você, em primeiro lugar. Mas você não é tola. E você está certa em acreditar que eu te amo.
- Ah, e quer que eu acredite nisto, agora? - Repito para mim mesma que manterei a calma. Eu vim para ajudá-la, não para brigar. Por isto, que havia pedido o tempo de uma conversa, antes que cortassem ela da rede.
- Você acredita. - Ela encosta a mão sobre a minha, a sensação na luva quase como se ela estivesse realmente na minha frente. - se não acreditasse não estaria aqui. Teria apenas dito para me tirarem da rede.
- É o que eles vão fazer, de qualquer forma. E vão localizar você, e prendê-la. E vão obrigá-la a dizer tudo que sabe sobre a rebelião, e vão deter o vírus antes que cause mais estragos. Depois vão mandá-la para um campo de reeducação. Você não tem idéia do que é aquilo lá - "Droga", eu digo para mim mesma, enquanto meus olhos se enchem de lágrimas. Eu havia prometido que não iria chorar.
- Está tudo bem, Mary. Não importa o que façam comigo, não será culpa sua. Eu sei que você tentou me proteger.
- Eu posso proteger você - eu falo, dando ênfase ao "posso". - foi para isto que vim. - "não porquê te amo e queria te ver novamente", minha mente fala, brincando comigo.
- Receio que esteja enganada, Mary. Não creio que possa me proteger. Eles vão me tirar da rede, eles não têm outra escolha. A esta altura eles já devem ter percebido que sou ainda melhor que você em navegação. - Ela fala com uma simplicidade de algo que deveria ser praticamente impossível. Eu fui geneticamente criada e treinada por todos os meus 17 anos para ser uma das melhores navegadoras da rede. Havia menos de dez tão bons quanto eu. Não deveria, não poderia haver ninguém melhor. Eu estava muito próxima do limite que um cérebro humano poderia chegar de entender e controlar a rede.
- Ana, é claro que eles vão tirar você da rede - será que ela era mesmo melhor do que eu? como? - mas você pode ficar comigo. Fisicamente, eu quero dizer. - "E não me importa se você tem 70 anos, é obesa, ou mesmo é um homem", eu penso em silêncio.
- Fisicamente? - ela sorri, como se isto a divertisse.
- Sim. Eles não vão mandá-la para a reeducação. Eu pedi, como um favor pessoal. Fora da rede, não tem muito que você possa fazer, e eles vão monitorá-la, é claro, mas você pode morar comigo. Você só vai precisar dizer o que sabe. Eles só precisam ter algumas informações sobre o vírus para poder desativá-lo - Será que ela ajudou a construir o vírus, o programa quase inteligente que vinha desafiando os controles do governo?
- Receio que as coisas não sejam tão simples.
- Porquê? Você não vai estar traindo ninguém. Quer dizer, eles já tem seu acesso. É só uma questão de horas para localizarem você, e depois eles tirariam toda a informação de seu cérebro de qualquer maneira. Na verdade vão fazer isto, se não quiser colaborar. Mas depois vão soltá-la, e poderemos viver juntas. - "ela não ama você, sua estúpida", meu cérebro fala. Eu mando ele calar a boca.
Ela sorri, e pela primeira vez seu sorriso é triste. - Eu não me refiro a isto. Eu apenas receio que não existe como nós estarmos juntas fora da rede.
- Porque não? É meio século XX, mas quem se importa? Eu sei que vai ser horrível estar fora da rede, mas não tem o que eu possa fazer quanto a isto. Se você está preocupada, eu não me importo com o que você se parece, basta que possamos estar juntas.
- Eles vão destruir o vírus. Eles não podem permitir que ele exista, é uma força contra o controle, um programa inteligente que desafia esta ditadura que governa o mundo.
- Ana, não há nada que possamos fazer. É impossível enfrentar o governo, eu sei - um calafrio me percorre quando me lembro do centro de reeducação - eles controlam a rede. Deixe que eles destruam o vírus e tirem você da rede. Pelo menos fisicamente podemos ficar juntas.
- Mary, lamento. Eu não posso estar com você fora da rede.
- Porquê?
- Por que eu sou o vírus.
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