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FICÇÃO CIENTÍFICA  -  FANTASIA  -  TERROR.


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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Ardath em: O Velho e o Demônio 4/6


Lucy
   Eu sai da biblioteca atravessando a porta sem abri-la, caminhando pelo mundo das sombras como Kabet me ensinou, perdido em meus pensamentos sobre as consequências do que havia acabado de fazer. E dei de cara com Lucy, que pelo visto estava atrás da porta. Caímos no chão, eu por cima dela, o sangue em mim se esfregando no corpo dela. Ela arregalou os olhos quando viu meu rosto sujo de sangue.
   - Você o matou! Você realmente matou meu pai.
   Eu tentei me explicar ao mesmo tempo que tentava sair de cima dela, quando uma dor aguda me dilacerou por dentro, mais forte do que qualquer coisa que eu já tenha sentido. Eu gritei e me afastei, me levantando cambaleante. Segurei minha barriga com a mão e fiquei apavorado ao ver sangue escorrendo aos montes e se espalhando pela minha roupa. Muito mais sangue do que eu tinha me sujado antes.
   Eu estava quase gritando novamente, desta vez por socorro, quando a vi se levantar, uma faca pequena mas brilhando na penumbra do corredor em sua mão, com sangue escorrendo da ponta. Meu sangue.
   Ela  veio na minha direção, a faca apontada para meu pescoço.
   Acho que Kabet não vai ficar muito orgulhoso de mim. Ele passou dias e dias me ensinando a dominar meus poderes. Como paralisar pessoas, como fazer o sangue delas ferver, como simplesmente explodi-las com um gesto. Eu não consegui fazer nada destas coisas, só fugir   apavorado.
   Eu entrei no mundo das sombras, atravessando as paredes da casa e depois alterando a realidade ao meu redor, até parar no ponto de encontro com Kabet, um apartamento vazio em uma cidade que eu não conhecia.
   - Você está ferido - foi o único comentário de Kabet, quando desabei no meio do apartamento, e foi dito como se ele estivesse falando sobre o tempo ou meu corte de cabelo, sem ponto de exclamação nem nada. Mesmo assim ele se ajoelhou ao meu lado e rasgou o que restava da minha camisa. Um pedaço das minhas tripas estava saltando para fora da barriga, mas estranhamente a dor já estava passando. Meu pavor não.
   - Você consegue me curar? - Eu perguntei.
   - Provavelmente sim, mas não fica bem demônios começarem a ficar curando as pessoas, mesmo outros demônios - ele se levantou - isto é o tipo de coisas que anjos fazem. Você vai sobreviver, desde que não deixe suas tripas cairem para fora. Fique segurando com a mão.
   - Grande ajuda você é - eu disse. A dor tinha passado totalmente, mas eu fiquei pressionando meu ferimento com a mão, sem saber se ele estava falando a verdade ou não - Não vai me perguntar o que aconteceu?
   - E precisa? Você está todo sujo de sangue. A maioria seu, dá para sentir pelo cheiro, mas tem também sangue do velho. E pelo visto Lucy não gostou muito que você tenha matado o pai dela.
   - Que tipo de demônio ela é? Você tinha me dito que só tinha humanos naquela casa - enquanto falava eu me levantei tentativamente, devagar. Podia não estar sentindo dor, mas dava para ver que eu precisava continuar segurando alguma coisa. Eu olhei de canto de olho para o ferimento e quase vomitei, minhas pernas querendo fraquejar, e prometi que não ia mais olhar até começar a cicatrizar.
   - Ela não é um demônio. Lamento ter que dizer isto, mas uma garotinha de 12 anos 100% humana quase acabou com você, e ainda o fez fugir com o rabo entre as pernas. Se serve de consolo, o inferno inteiro sabe que ela tem um gênio do cão.
   - Quem é ela? Quem era o velho?
   Kabet ignorou minha pergunta.
   - Venha, vamos trocar sua roupa. Se apresentar a Lúcifer com roupas ensanguentadas até pode ter estilo, mas acho que você se mijou também. Não precisamos que você estrague ainda mais nossa reputação com o chefe.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Ardath em: O Velho e o Demônio 3/6

Sir Denis N. Smith

   - Eu não tenho idade para beber - eu respondi depois de sentar no sofá, recusando a taça de vinho que Sir Denis serviu e me ofereceu.
   Ele sorriu ao me responder - Você é um dos cinco não-vivos, cinco dos mais importantes demônios do inferno. Você recebe suas ordens diretamente do velho Lúcifer. Anjos e homens têm temido o que você é há incontáveis séculos. E você vai recusar meu vinho porque não tem idade para beber?
   - É - eu respondi, simplesmente, encolhendo os ombros. Não saberia o que mais dizer.
   - E você veio para me matar. Aposto que seu chefe não lhe deu nenhuma explicação. Apenas disse para você vir até a minha casa e fazer seu serviço - Sua voz era tranquila, sem mostrar nenhuma emoção. Eu não sabia se devia confirmar ou negar, então não falei nada. Ele continuou.
   - E Kalith o trouxe até aqui. Ela lhe disse para não perder tempo me ouvindo, e simplesmente me matar assim que me visse.
   - Kabet - Eu respondi com apenas uma palavra.
   - Como?
   - Foi Kabet quem me trouxe. Mas o resto é verdade. Ele disse para matá-lo assim que o encontrasse.
   - Kabet, hein? Interessante, sempre imaginei que Kalith iria prepará-lo para seu papel.
   O velho suspirou, bebeu mais um gole de seu vinho e com um gesto me ofereceu novamente a outra taça, que recusei com um sinal de não.
   - E aqui você está, tendo recusado meu vinho por não ter idade suficiente para beber. Sentado, conversando comigo, quando lhe disseram para justamente não fazer isto. Agora mesmo se perguntando se vai ou não vai ter coragem para me matar. Perdoe-me a sinceridade, mas minha filha daria um demônio melhor que você.
   "Provavelmente sim", eu pensei em silêncio, sem responder ao estranho homem. Cinco minutos com sua filha mais estranha ainda e eu tinha pensado a mesma coisa.
   - E o que você vai fazer agora? Esperar que eu tente fugir ou lutar? Talvez ser obrigado a me matar para se defender? - Sir Denis balançou  a cabeça - Não, não vou facilitar seu trabalho. Pouca importa sua idade, ou há quanto tempo assumiu seu papel, você é um dos mais poderosos demônios do inferno. Eu sou apenas um velho. Você pode me matar estalando os dedos - com um gole, ele esvaziou sua taça - se vai fazê-lo, faça-o agora.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Ardath em: O Velho e o Demônio 2/6


Kabet
   Meu coração estava acelerado, e eu me perguntava como teria coragem para matar um velho. Como queriam que eu fosse um demônio, se eu continuava sendo eu mesmo? Eu me lembrei de ter conversado com Kabet sobre isto.
   Foi Kabet quem me trouxe até a casa de Sir Denis Smith, para que eu entrasse e o matasse. Nós viemos conversando todo o caminho, enquanto o mundo ao nosso redor se transformava, a medida que íamos de um continente para outro, e depois de uma cidade para outra. Viajar pelo  mundo das sombras foi uma das primeiras coisas que Kabet me ensinou.
   Era estranho que Kabet fosse o único dos não-vivos que eu me sentisse confortável em conversar. Principalmente porque, de todos, foi ele que mais me assustou quando os conheci. Mas tudo em ser um demônio era estranho e diferente do que eu imaginava, e eu disse isto para ele.
   - É mesmo? Diferente em que sentido? Como você imaginava que iria ser? - Kabet conversava tranquilamente, enquanto viajávamos. Eu imaginei que já não era novidade para ele, ele havia me comentado que era o mais antigo desta encarnação dos não-vivos. Para mim, era fascinante ver casas, ruas e pessoas aparecerem e desaparecerem, enquanto andávamos, viajando através do planeta.
   - Não sei. Acho que eu imaginava que ia me transformar em algum tipo de monstro. Que ia deixar de ser eu. Mas eu continuo sendo o mesmo Julio, e acho que é isto que me assusta - Ele me olhou com uma cara estranha, e eu abaixei meus olhos. Sempre que olhava seu rosto, não conseguia deixar de ver o pedaço de cérebro aparecendo, e isto continuava a me dar uma sensação ruim.
   - Você preferia ter se transformado em um monstro? Por quê?
   Falando assim, parecia mesmo estranho. Não, eu não queria ter me transformado em um monstro, e eu disse isto para ele, e continuei, me explicando melhor - só que não entendo como querem que eu seja como os outros demônios, eu sou só um garoto. Agora, eu devo entrar nesta casa e matar um velho que eu nunca vi? Como que eu vou fazer isto? Eu não quero matar ninguém.
   - Você fará o que desejar fazer, garoto. E terá que pagar o preço de suas decisões, para o bem e para o mal, como todo mundo - Com estas palavras, ele se despediu.
   E eu deixei Kabet para trás e vim para esta casa, para matar um velho. E agora ele estava à minha frente. À minha espera, havia me dito sua filha.
   - Não fique parado aí, garoto. Entre e feche a porta. Abri um vinho para nós.
   Ao lado de uma lareira ele estava sentado, uma taça de vinho em sua mão, um outro sofá vago a sua frente, que ele apontava com a mão. O gesto um convite. Em seu rosto um sorriso.
   "Este é o homem que devo matar", eu pensei, enquanto me aproximava.

Ardath em: O Velho e o Demônio 1/6

Lucy
   Me chamam de Julio. Eu tenho 12 anos, e não sou diferente de qualquer garoto da minha idade. Pelo menos eu achava que não era, até mês passado. Eu não era da turma dos populares na escola, nem era o melhor jogador de futebol ou o lider da turma, mas também não tinha problemas em fazer amigos. Eu me achava comum.
   Claro, eu apenas achava que era comum.
   Meu verdadeiro nome é Ardath.
   E eu sou um demônio.
   Foi o que disse para a garota na minha frente - Eu sou Ardath, o  demônio - quando ela perguntou quem eu era. Ela parecia ter a minha idade, e não sei como ela me descobriu, quando entrei atravessando a parede da casa como se não existisse. Era noite e tenho certeza que não fiz nenhum barulho.
   Não vi razão para inventar muito, já que ela estava me vendo na minha verdadeira forma, sem disfarces, o rosto vermelho, o cabelo feito de chamas. Me surpreendeu que ela simplesmente perguntasse quem eu era em vez de gritar ou sair correndo. Me impressionou ainda mais sua resposta.
   - Oi. Eu sou Lucy - ela me estendeu sua mão. Eu hesitei, sem saber o que fazer. Eu sou novo nesta coisa de ser um demônio, mas me parece meio estranho dar a mão para as pessoas. Demônios deveriam ter algum tipo de cumprimento mais assustador, alguma versão macabra de "vida longa e próspera". Sem saber o que fazer, eu segurei sua mão.
   - Ah, oi. Por que você não está gritando ou fugindo? - Eu sei que não soou muito assustador, ainda mais que era óbvio que eu não sabia muito bem como me portar. Eu não sou muito bom como demônio. Na verdade, quem quero enganar? Sou um péssimo demônio.
   A garota, Lucy, porém, parecia muito mais segura de si do que eu - Não tenho medo de demônios. O que você quer, e por que está invadindo nossa casa no meio da noite?
   Novamente hesitei. Definitivamente as coisas não estavam saindo como eu imaginei, e eu estava começando a ficar nervoso. "Existe uma casa. Há um velho nela, ele utiliza hoje o nome de Sir Denis Smith. Entre, encontre-o e mate-o". Esta era a missão, simples assim. Eu já tinha descoberto que Lúcifer não era de dar muitas explicações.
   A garota estava agora com os braços cruzados, parada a minha frente esperando minha resposta, o pé esquerdo batendo impaciente no chão.
   - Eu, ah, eu vim falar com o Senhor Smith. Senhor Denis Smith - finalmente eu gaguejei. Definitivamente nada assustador. Menos que a garota, que me olhava com um olhar furioso enquanto me corrigia - 'Sir' Denis Smith - Por alguma razão ela começava a me dar medo, ela daria um demônio melhor que eu, tenho certeza.
   - É, eu imaginei - ela continuou - Venha, te levo até a biblioteca. Papai está te esperando lá - ótimo, o velho que eu devia matar era o pai dela.
   Eu a acompanhei pelo corredor e uma escada, até pararmos em frente a uma porta, e então ela a abriu e se virou para mim.
   Os lábios dela tremiam agora, ela não parecia mais tão controlada, e piscou algumas vezes. Fiquei com a impressão que estava prestes a chorar, e a voz dela estava meio embargada quando ela falou, antes de me dar as costas e sair corredor afora em passos rápidos.
   - Por favor, não mate meu pai, tá.

sábado, 24 de novembro de 2012

Niq de Alashiya e a Cidade das Três Deusas - 3


   O vento soprava forte no alto da torre norte do templo das três deusas, não encontrando árvore, construção ou elevação em seu caminho que lhe tirasse força. Quente e úmido, anunciava a chegada das chuvas.
   Ele fazia corrrer soltos os longos cabelos tingidos de preto de Shahad, a segunda das três, que olhava o porto de Kilquitai, e o distante mar, perdida em pensamentos.
   O vento também tocava o rosto e o corpo de Ishaad, a primeira das três, balançando apenas seu manto, o cabelo grisalho preso em uma armação de pérolas. Ela não olhava nem o mar, nem o porto, mas seus pensamentos estavam igualmente distantes.
   "Eles sempre foram assim, primeira de nós? Sempre foram tão arrogantes, e eu que não percebia?", a voz de Shahad baixa o bastante para não ser levada pelo vento, mas com um tom claro de irritação.
   "Quando eu era Shayin, eles se prostravam a nossos pés sem hesitar um instante, como todos os nossos filhos. Naquela época qualquer homem ou mulher de Kilquitai entregaria feliz o primogênito em sacrificio, se Ishaad assim comandasse", o olhar de Ishaad distante, enxergando não o aqui e agora, mas o passado distante.
   "Quando eu me tornei Shahad, e você se tornou Shayin", ela continuou, "eles começaram a se sentir mais poderosos, acima dos outros de nossos filhos. Ishaad e eu nos perguntávamos o que seria o futuro, se continuassem a seguir este caminho. Eles se tornavam mais arrogantes a cada dia, muitas vezes faltavam com o respeito a mim. Apenas Ishaad sabia como colocá-los em seu devido lugar".
   "E agora está pior do que nunca". Shahad disse, a voz cansada.
   "E agora está pior do que nunca", concordou Ishaad, "desde a passagem. Desde que me tornei Ishaad e você se tornou Shahad. Eles fazem as reverências corretas, prometem obediência eterna, mas posso sentir no olhar que me enxergam como se eu ainda fosse Shahad, como se não me devessem o mesmo respeito da que veio antes de mim."
   "E a mim eles tratam como se eu ainda fosse Shayin, uma criança e não a mãe de todos eles. Isto é intolerável. Algo terá que ser feito."
   "Algo será feito. Shayin está orando. Ela verá com a visão pura da deusa, e nos trará respostas. Iremos ouvir, e então decidir o que fazer."
   "Seja o que for, terá que ser uma lição que eles não esquecerão. Uma lição que seja lembrada por seus filhos, e pelos filhos de seus filhos. Que nunca os faça seguir novamente por este caminho de arrogância. Malditos mercadores."
   "Malditos mercadores.", concordou Ishaad.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Niq de Alashiya e a Cidade das Três Deusas - 2

   Niq cresceu ouvindo histórias do mundo para além de Alashiya, com gigantes de um olho só e três metros de altura, e criaturas metade homem, metade cavalo. Cidades feitas de ouro, e torres mais altas que o céu. Espadas encantadas, eternamente afiadas e mais fortes que o mais forte bronze, e mulheres guerreiras que venciam até o mais destemido dos homens.
   Foi o que ele contou para Arguil, quando este lhe perguntou o que ele sabia do mundo para além de Alashiya. A resposta de seu pai foi gargalhar. "Fiz bem em trazê-lo comigo, antes que enchessem ainda mais sua cabeça de bobagens".
   E então seu pai começou a ensiná-lo, todas as noites, sobre cada uma das cidades que ele visitou. Seu pai, que mal havia lhe dirigido a palavra, durante toda sua vida, e que sempre lhe inspirou mais temor que afeição, agora mostrava um novo lado: Arguil contador de histórias.
   Foi um aprendizado, mas como nenhum outro que Niq teve em sua vida, diferente até mesmo das lições de seu tio Magreb. Para seu pai, cada cidade era uma história, e a cada noite ele contava sobre um povo, sua lingua e costumes, que deuses eles obedeciam, e também coisas que Niq não entendia totalmente. Quem era o verdadeiro poder em cada cidade, quem desejava obter este poder, que outras cidades eram aliadas, quais eram inimigas.
   "Não confie em ninguém que não nasceu em Alashiya", seu pai lhe disse, " e talvez nem mesmo nos que nasceram em nossa terra. Até o homem mais leal pode ser comprado pelo preço certo". Niq não acreditou nisto, mas não teve coragem de questionar seu pai.
   Assim, ele sabia o que esperar no porto de Kilquitai, mas a realidade da primeira cidade que ele viu fora de Alashiya não pôde deixar de decepcioná-lo. Não era maior, talvez mesmo fosse menor que sua cidade natal, e não havia grande movimento no porto. Apenas as construções tinham uma forma diferente, telhados mais pontudos, paredes mais coloridas.
   "Veja, Niq! Olhe os navios, como são diferentes! E as pessoas, olhe as roupas que estão usando!", ele quase deu um pulo, tão distraído que não percebeu Ashiderey a seu lado. Era difícil acreditar que seu amigo já tinha quinze anos, ele sempre falava com o entusiasmo e deslumbramento de uma criança, e Niq suspirou.
   "Os navios são mais lentos que os que construímos em Alashiya, Ashi. Arguil disse que nenhum consegue viajar para tão longe quanto nossos barcos. E as roupas são como se vestem em todas as cidades desta costa."
   "Arguil disse isto, Arguil disse aquilo. É tudo que ouço de você desde que subimos a bordo", Ashiderey respondeu, frustrado com Niq. Ambos estavam em sua primeira viagem, e ele não conseguia entender por que seu amigo não estava igualmente empolgado.
   "Desculpe. Vamos, ainda temos que convencer meu pai a nos deixar descer junto com os outros marinheiros, quando aportarmos".
   Foi Ashiderey que falou, tentando soar como um marinheiro veterano  se dirigindo ao capitão do navio. Niq havia visto como os marinheiros falavam com seu pai, o tom informal e geralmente recheado de blasfêmias, e não se parecia em nada com a tentativa de Ashi de parecer um tripulante experiente, mas ele achou melhor não comentar.
   "Capitão, pedimos permissão para descer em Kilquitai, quando o navio aportar".
   Arguil primeiro olhou para eles, em silêncio, e ambos se encolheram, involuntariamente. Depois suspirou.
   "Não se afastem dos outros marinheiros, não falem com ninguém que não lhes dirigiar a palavra. Não falem nada sobre nossa carga ou para onde vamos depois de Kilquitai", e então ele dirigiu o olhar diretamente para Niq, "você vai esperar no navio até termos uma resposta da audiência com as deusas. Se for hoje, não quero ter que procurar por você no porto".
   Niq hesitou, em um primeiro instante frustrado, mas então entendeu melhor o que havia sido dito, "você quer dizer que eu vou ir junto?".
   Arguil não respondeu sua pergunta, apenas mandou que voltassem as suas atividades. Havia muito para fazer enquanto o navio se aproximava do porto.
   "Vamos fazer assim, eu conto tudo que vir no porto, e você me conta como é o templo das deusas, está bem?", sugeriu Ashi, e Niq concordou com um gesto, ainda em dúvida se seu sentimento era de fustração por ter que aguardar no navio, ou ansiedade por em breve acompanhar seu pai em uma audiência oficial.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Último Rei Orco Capítulo I - Revisão 1

Nota do Autor: revisão 1 do capítulo 1.

O Último Rei Orco - Capítulo I


   Nos muros de Çatal Hoyuk, a cidade sitiada, guerreiros aguardavam nervosos, se perguntando quando começaria o ataque. Apenas a fé em JUS PATER, o Deus Pai dos primeiros homens, ainda sustentava sua esperança, cercados que estavam por uma força muito superior. Se caíssem, restaria apenas Asikli Hoyuk, a primeira cidade, como último baluarte do homem, e JUS PATER não deixaria isto acontecer.
   Ao redor da cidade, os Orcos também aguardavam, disciplinados e organizados como nunca antes estiveram, divididos nos dois grandes acampamentos das tribos de In e de El e em pequenos grupos das tribos menores. Eles esperavam pela palavra de seu chefe, Makel, que buscava uma audiência com os Deuses.
   "Como impedir que sejam os homens a herdar a Terra?". Em sua tenda, cercado por sua família e seus mais fiéis guerreiros, Makel pensou em silêncio. Esta era a pergunta que o Rei Orco tinha para os Deuses, a pergunta que permanecia em sua mente desde que seu irmão mais jovem havia trazido a palavra dos deuses do além-vida, que seriam os Homens, não os Orcos, que herdariam a Terra. A pergunta que Makel pagou com seu olho, sua mão e sua esposa, para ter dos Deuses a resposta.
   O Rei Orco fechou seu olho verdadeiro, e se deixou levar pela visão do dragão. Mais que visão, era como cavalgar um dragão de verdade. Como cavalgar o vento. Ele nem viu a taça de Nectar cair no chão, escapando da mão que lhe sobrara, enquanto o vento o arrastava para outro mundo. Os soldados que o cercavam impediram que seu corpo caísse, e o colocaram com cuidado em uma cama feita de pele de carneiros.
   A frente do Rei Orco, em sua visão do dragão, N-BIS, um deus menor, surgiu em meio a uma névoa sem fim, cessando, no mesmo instante, o vento que arrastara o rei até aquele local. A imagem de N-BIS era translúcida e intermitente, aparecendo e desaparecendo a cada instante. "Com dois olhos de dragão, minha visão seria perfeita, mas arrancar meu olho esquerdo já foi um preço alto demais", pensou o Rei Orco, "melhor enxergar um pouco no mundo dos deuses e um pouco no mundo mortal que ser cego em um deles".
   - Um Orco, aqui? Veio entregar seu coração como oferenda para N-BIS? - A voz era sibilante, quase um uivo.
   - Não vim para fazer oferendas, devorador de corações, vim para obter respostas.
   - Respostas? Acaso agora os deuses são servos, e os mortais reinam supremos? Acaso agora cabe a mortais fazer perguntas, e a deuses dar respostas?
   - Eu paguei o preço. Minha mão pela vida do dragão. Meu olho pela sua visão. Minha esposa em sacrifício, oferenda ao arqueiro APOL, deus da verdade. Leve-me a ele. Agora!
   - Falarias assim com Z-US PAI? Com V-NU ou J-VA? Pensa em mim como um deus menor, não é? Mas também a N-BIS a aqueles que seguem, Rei dos Orcos. Farias bem em lembrar isto.
   O Rei Orco ficou em silêncio, sem responder, mas também sem abaixar sua cabeça. Seu único olho aberto, o olho do dragão que ele colocou no lugar de seu próprio, fixo no rosto de chacal de N-BIS.
   Por fim, N-BIS lhe deu as costas e falou, sem olhar para trás - Siga-me, então, último rei dos Orcos. Eu o levarei a APOL.
   O Rei Orco seguiu em silêncio o devorador de corações. O olho direito, seu olho verdadeiro, sempre fechado. Abri-lo por um momento faria ele despertar de seu sonho divino.
   Ou enlouquecer.
 * * *
   O arqueiro APOL, filho de Z-US, era o mais lindo dos deuses, tão alto e belo quanto um Orco, um gigante perto dos minúsculos humanos. Ele, mais que ninguém, saberia a resposta a pergunta do Rei Makel.
   N-BIS havia se retirado, sem nada dizer, enquanto o Rei Orco aguardava que APOL se dirigisse a ele. Foi um longo tempo de silêncio, até que o deus finalmente levantou os olhos, que contemplavam uma pequena poça de sangue a seus pés, e, ao olhar para o Rei, perguntou o que o trazia a morada dos deuses.
   - APOL, filho de Z-US, eu, Makel, Rei dos Orcos, vim para lhe perguntar. Como podemos impedir que os homens se tornem os herdeiros da Terra? Como podemos garantir o futuro de minha raça?
   - Vocês não podem. Os homens herdarão a Terra porque esta foi a palavra dita por Z-US, último Rei dos Orcos. - Ele então se virou para voltar a contemplar a poça a seus pés.
   O Rei Orco sentiu seu coração se apertar. Seus sacrifícios, sua mão, seu olho, a mãe de 5 de seus filhos, todos um preço que não seria pago com tão pouca resposta. Mas era a um deus que ele se dirigia, e não um deus menor como N-BIS, mas um dos filhos de Z-US.
   - APOL, deus da luz e do sol, da verdade e da profecia, nós somos criaturas de J-VA, não de Z-US, é verdade, mas nós lutamos e mostramos nosso valor e devoção em campo de batalha. Nós queimamos nossos inimigos como oferenda não apenas a J-VA, mas também a Z-US e V-NU. O que fizemos para ofender a Z-US desta forma, e como podemos nos redimir.
   - Aproxime-se, último Rei dos Orcos. Aproxime-se e olhe para o espelho do tempo.
   O Rei Orco aproximou-se de APOL e olhou ao redor, até perceber que era à poça de sangue no chão que o Deus se referia. Ao olhar fixamente para ela, parado ao lado de APOL, ele viu imagens se formarem, uma visão dentro de sua visão.
 * * *
   - Aqui eu planto a primeira Árvore, neste que será o primeiro bosque - um ser de quatro braços falou, enquanto depositava uma semente na Terra. V-NU, o Deus de quatro braços, Makel pensou em silêncio, enquanto observava a cena tão de perto quanto se estivesse ao lado dos Deuses.
   - E aqui eu faço o primeiro lago - E o ser que assim falou, e escavou um buraco no chão, era Z-US, Makel soube instantaneamente. Z-US, o Deus Supremo.
   - E o que você fará, J-VA? Qual será sua marca neste novo ciclo que inicia? - V-NU perguntou.
   - Eu não farei nada. Eu não deixarei nenhuma marca, por enquanto.
   Os outros Deuses nada demonstraram emoção, mas Makel soube que eles estavam surpresos. A visão que ele estava tendo era composta por mais que sons e imagens. Era como se ela também estivesse acompanhada de conhecimentos que não deveriam estar ao alcance de um Orco, e ele soube que a fala de J-VA foi inesperada.
   - Vocês foram os primeiros Deuses que surgiram nesta era - disse V-NU - e em todas as eras os primeiros Deuses deixaram sua marca, após eu plantar a primeira árvore. Deixe sua marca, J-VA.
   - E se eu não obedecer? És mais antigo que todos os Deuses desta era, V-NU, mas não és mais poderoso. Vais tentar me fazer obedecê-lo?
   Houve silêncio, e então Makel percebeu que a semente plantada por V-NU era agora uma árvore, em meio a um bosque. O buraco escavado por Z-US, um lago. Havia se passado um tempo? Era ainda a mesma cena, ou os Deuses estavam novamente no bosque, e ele não havia percebido a passagem de tempo? Makel não saberia dizer.
   - De dentro desta árvore nasce o primeiro Elfo. Das outras árvores deste bosque, os outros Elfos nascerão. Imortais e com devoção sem igual, eles cantarão a glória dos Deuses, e darão poder a V-NU, aquele que viu incontáveis eras - e no que V-NU falou, elfos começaram a surgir de cada uma das árvores do bosque.
   - A água deste bosque é a água que cria os homens - disse Z-US - que eles se multipliquem em grande número, e que este número seja a marca do poder de Z-US.
   E Makel viu os homens saírem, dois de cada vez, homem e mulher, do primeiro lago.
   Então J-VA colocou a mão no chão, a beira do lago, e disse - Que do barro surjam os Orcos, e que eles sejam sem iguais na arte da guerra. Que eles exterminem elfos, homens e todos que sejam súditos de outros Deuses. Que, quando eles dominarem a Terra, J-VA se torne supremo entre os Deuses.
   Assim que o primeiro Orco surgiu do barro, V-NU olhou na direção de Makel, como se o visse pela primeira vez - O que faz um Orco observando os Deuses, Rei Makel? - Ele fez um gesto, e Makel se viu novamente no salão de audiências de APOL.
 * * *
   A imagem desapareceu, a voz silenciou, a poça de sangue no chão secou em um instante. O Rei Orco estava sozinho com APOL.
   - Eu não entendo, J-VA disse que iríamos exterminar os outros povos e reinar supremos. Os Elfos já foram derrotados e expulsos para florestas longínquas, e as cidades dos humanos caem uma após a outra. Então seremos nós a herdar a terra?
   - Você não viu o que aconteceu depois. J-VA dos Orcos ousou desrespeitar e desafiar os outros Deuses, tentar tomar para si o poder de V-NU, que veio antes de todos. Tentar superar a Z-US. Mas ele se esqueceu que nesta era, Z-US recebeu o poder da palavra, o poder de fazer tudo que ele disser se tornar realidade. Foi com a palavra que ele fez o mundo. Quando viu a criação de J-VA, e seu plano de se tornar o mais poderoso, ele riu da ingenuidade do Deus, então usou a palavra, e disse a frase que o trouxe aqui, Último Rei dos Orcos.
   E Makel ouviu a mesma frase que seu irmão, o Shaman, morreu para trazer do além-vida.
   - Não importa quantas batalhas sejam vencidas, não importa quantas guerras sejam travadas. Não importa quanto os Orcos lutem, os homens herdarão a Terra.

Making Of da revisão do Último Rei Orco, cap 1.

Revisão do Capítulo I de Último Rei Orco.
Para esta análise fazer sentido, provavelmente seria interessante ler a versão original completa do Último Rei Orco.

1. A estrutura de capítulos está por demais fragmentada. Os capítulos 1 e 2 retratam uma única sequência de ação, e foram unidos.
2. O corte do capítulo 2 para o 3 está por demais abrupto. Não temos nenhuma informação se ocorreu dias depois da conversa de Makel com os deuses, ou meses ou mesmo anos se passaram. Alterado o início do cap. 1. para preparar a ação do cap. 3.
3. Alguns elementos que aparecem mais adiante no texto são agora referenciados na introdução, de forma a encaixá-los melhor no contexto: que foi o irmão de Makel que descobriu que os homens herdariam a terra; que os Orcos se dividem nas tribos de El e In. Uma referência a pessoas que seguem N-BIS é colocada.
4. O número de repetições da frase sobre os homens herdarem a terra está exagerada (vem da época em que o texto teria 5 ou 6 partes...).
5. Corrigida uma pequena inconsistência. Embora para avançar o enredo a pergunta crucial é por que os homens herdarão a terra, esta não é a pergunta essencial para Makel, e ele não desperdiçaria sua audiência com os Deuses com ela. Makel iria direto ao ponto de como pode impedir isto e salvar sua raça.
6. Nunca estive satisfeito com a forma como o contexto da criação das três raças foi colocado na versão original. 'Explicações' me parece que quebram muito mais a narração que a descrição da ação em si, além de me parecer que torna o texto menos profissional.
7. A participação de V-NU se tornaria muito maior da metade para o final da história do que inicialmente previsto. Assim, fez-se necessário ampliar sua presença na introdução, bem como lançar alguns elementos que são tratados mais adiante.
8. O final se torna mais consistente a partir desta nova introdução, em que se menciona explicitamente que é da água do primeiro lago que os homens surgem.
Questões pendentes...
1 - Na metade do texto há algumas indicações de que Makel tem uma personalidade mais profunda que outros Orcos - diferente dos outros, ele não sente prazer em torturar os humanos, agindo mais por necessidade de proteger sua raça. De alguma forma seria necessário trazer um pouco destas questões em algum momento anterior do texto. Makel não estava destinado originalmente a ser o Rei dos Orcos, nem era um exemplo de Orco guerreiro, mas isto precisará ser trazido, talvez em lembranças de sua história anterior, para dar mais consistência ao personagem.
2 - Pela importância de N-BIS na história posterior, seria interessante dar mais espaço a ele na sua primeira aparição, bem como aprofundar sua personalidade.

domingo, 18 de novembro de 2012

Niq de Alashiya e a Cidade das Três Deusas - 1

   O navio cruzava as ondas do grande mar, a costa sempre à direita, nunca por muito tempo além do que alcança a vista. Histórias de embarcações que se perderam para nunca mais encontrar terra no pensamento de cada marinheiro. O oceano sem fim a esquerda, povoado por polvos do tamanho de palácios e criaturas metade mulher, metade peixe, que atraiam mesmo o mais destemido homem para as profundezas.
   O vento soprava forte e constante, garantindo o descanso dos remadores, mas não sua tranquilidade, atentos que estavam ao primeiro sinal de que poderia se transformar em tempestade. Mais que sereias e polvos e mesmo o mar sem fim, era Ardoth, deus das tormentas, que mais aterrorizava os experientes marinheiros, e não poucos dividiam as oferendas igualmente entre ele e Marguth, deus do mar, ainda que em segredo. Marguth era um deus ciumento.
   Apenas as oferendas a Alashiya eram feitas abertamente por todos, pois Alashiya era o protetor de sua cidade, e nenhum outro deus se ofenderia.
   Na proa do navio, de braços cruzados, cabelos e barbas curtos, uma cicatriz iniciando na orelha esquerda e descendo até desaparecer entre as roupas, Arguil filho de Argail permanecia, indiferente ao vento e ao frio. Os olhos no horizonte, atentos, ostensivamente ignorando o jovem a seu lado.
   Niq, filho de Arguil, dividia-se entre sentimentos de admiração e medo pelo marinheiro que ele pouco conhecia. Era sua primeira vez no grande mar, e ele persistia a lutar contra o enjôo da viagem, que o fizera vezes sem conta despejar no oceano tudo que havia ingerido. Pior que o mal estar, era seu medo de decepcionar o pai e o receio de que não permitisse que o acompanhasse novamente. Era com quinze anos que os filhos da casa de Argail saiam ao mar, e Niq ainda estava um inverno e meio verão distante desta data.
   "Com apenas mulheres em casa e nenhum primo vivo, pelo menos nenhum que preste, já passou da hora de partires comigo", havia dito seu pai, na última vez que seu navio voltou para Alashiya. Niq pensou em dizer que seu tio, Magreb, levava-o para pescar em seu pequeno barco e estava ensinando-o a lutar com espada e lança, mas não teve coragem e preferiu ficar em silêncio. Magreb era irmão de sua mãe, e não parecia haver amizade ou respeito entre ele e seu pai.
   Sua mãe chorou quando se despediu,e Niq teve vontade de fazer o mesmo, mas sabia que isto traria vergonha a casa de Argail, e por isto despediu-se sem demonstrar seu medo. Apenas no navio, à noite, certo que ninguém perceberia, ele chorou em silêncio, no terceiro dia no mar.
   "Antes do final do dia, chegaremos ao porto de Kilquitai", Arguil falou, sem olhar para ninguém, os olhos sempre fixos no mar sem fim, mas Niq sabia que era a ele que seu pai se dirigia, "diga-me o que lhe ensinei sobre esta cidade".
   Niq humedeceu os lábios com a lingua, guspiu no convés para garantir que os antepassados estariam despertos e prontos para ajudá-lo a responder, e falou tentando imitar o estilo controlado de seu pai, "Kilquitai é nossa primeira parada, saindo de Alashiya, quando pegamos a rota do norte. Nós deixamos armas e peças de bronze com os servos do templo das três deusas, e recebemos nosso pagamento na viagem de volta."
   "E o que mais?"
   Niq hesitou, pensando em tudo que seu pai lhe falou durante os últimos dias. Arguil falava apenas uma vez sobre cada cidade que conhecia, e esperava que seu filho decorasse e repetisse tudo sem erro. Niq sabia que nunca atenderia as expectativas de seu pai.
   "As três deusas exigem que todo comércio com outros povos seja feito apenas através delas, mas nós também vendemos armas diretamente para os comerciantes".
   "E por que fazemos isto?"
   "Eles pagam mais?", Niq respondeu, hesitante. Seu pai apenas balançou a cabeça.
   "Eles pagam mais, mas este não é o verdadeiro motivo. É perigoso desobedecer as deusas de Kilquitai, mas também é perigoso obedecê-las. É mais seguro fazermos como fazemos".
   "Por quê?", Niq perguntou, sem entender.
   "Alashiya está distante, e é apenas uma. Nossa força está em não fazer inimigos, em não nos envolvermos nas disputas de cada cidade que visitamos. Em Kilquitai, isto é impossível."
   E seu pai, após um instante, completou, com o ar solene que deixava claro que a conversa estava encerrada. "Amanhã você descobrirá por quê".

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A Amiga do Garoto que Achava que Era um Alienígena

   - Diana, eu acho que sou um alienígena.
   Diana olhou ao redor, mas parecia que ninguém na cafeteria do colégio estava prestando atenção nos dois. Felizmente Ângelo, seu amigo e colega da sexta série, não havia falado em uma voz muito alta, e o barulho das conversas no salão tinha abafado o som. Certamente muito mais por sorte - que ele sempre teve de sobra - do que por bom senso. Ninguém nunca iria colocar uma foto dele do lado da definição de 'bom senso' no dicionário.
   - Não quer falar um pouco mais alto? - ela respondeu, quase sussurando, e ele teve que inclinar o corpo por cima da mesa para ouvir melhor - pelo visto você ainda não deu motivos suficientes para a turma pegar no teu pé.
   - Ninguém mais faz bullying hoje em dia, Diana. Isto é coisa do tempo dos nossos pais - a voz dele com indiferença, os ombros se encolhendo para reforçar a mensagem que ele não estava nem aí para o que pensavam dele.
   - É, mas ninguém convida os tipos estranhos para as festas, também - ela respondeu.
   - Ninguém me convida hoje em dia, mesmo. - a indiferença era tão exagerada que Diana chegou a  pensar que era forçada. Ela levantou as mãos com as palmas para cima e fez uma careta. A mensagem, tão óbvia que ela nem precisou falar, é que era justamente isto que ela estava dizendo, esta era a demonstração que ele era mesmo um tipo estranho.
   - Mas isto é só mais uma prova. Por que você acha que eu sou estranho?
   Ela fingiu parar para pensar um instante - humm, deixa eu ver... Não é porque você é o mais inteligente da classe... nem porque não tem nenhum amigo, a presente companhia excluída... nem porque gosta de coisas que ninguém mais gosta, a presente companhia excluída de novo.... já sei - Pausa dramática - Claro! Porque você é um alienígena.
   - E se eu for? Não estamos mais no século XX. Nós sabemos que alienígenas existem, não sabemos?
   Isto era verdade. Desde 2032, 10 anos atrás, as pessoas sabiam que existiam seres de outros planetas. Pior, um grupo deles realmente havia se disfarçado de humanos naquela época, e se infiltrado na sociedade. Ambos tinhas uns dois anos na época, mas eles estavam justamente estudando sobre isto nas aulas de história.
   - Tá, Ângelo. Nós estamos vendo isto na aula. Alienígenas existem e um grupo deles se infiltrou entre nós, alguns anos atrás. Mas eles foram presos, e depois recebemos a primeira visita do espaço e devolvemos todos eles. Não ficou nenhum, e nos garantiram que não permitiriam que isto acontecesse de novo.
   - E se aconteceu? Se houver mais alienígenas entre nós, e não soubermos nada a respeito?
   Diana suspirou. Ok, Ângelo era estranho. Até aí, ela também era. "Mas continuam me convidando para as festas", ela fez questão de ressaltar mentalmente para si mesma. Agora, quando ele embestava em uma ideia maluca, era de fazer qualquer um subir pelas paredes.
   Respirou fundo, reunindo toda sua paciência, e falou, tendando dar a voz um tom mais de professora que de aluna de doze anos da sexta série - Podia até ser que houvesse mais alienígenas, e nós não soubessemos, tá? Mas eles sabem que são alienígenas! Se você fosse um alienígena você ia saber! Você ia ter descido na sua nave alienígena, depois de ter colocado sua mente alienígena dentro de um corpo humano e se despedido de seus amigos alienígenas, e provavalmente ia passar os fins de semana jogando online jogos alienígenas com outros ETs - ela pareceu pensar um pouco - tá, esta última parte não vale, porque se tem algum ET na terra, até acredito que seja o pessoal com quem você joga online. Mas o ponto é que se você fosse um alienígena, você ia saber! Dã!
   - Se eu tivesse vindo do espaço, até concordo. Mas e se eu tivesse nascido aqui?
   - Bom, então, por definição, você não é um alienígena, você é nativo da Terra.
   Desta vez, foi a vez dele suspirar. - E depois eu que sou chato! Tá, então eu acho que sou filho de alienígenas, está bom assim?
   - Você ser filho de alienígenas significaria que seus pais são alienígenas
   - Minha vez de fazer dã. É isto que eu estou dizendo. Meus pais são alienígenas que vieram na mesma leva de todos que foram presos, mas eles ficaram e tiveram eu como filho. Só esqueceram de me dizer que eu vim do espaço. Você sabe como eles são estranhos!
   - Não tão estranhos como os meus.
   - Os seus não contam, ninguém é tão estranho quanto eles. O que quero dizer é que meus pais são alienígenas e eu também sou. Ou sou filho de alienígenas, se quer ser preciosista, que dá na mesma. Não sou humano.
   - E você tem alguma prova de sua teoria maluca?
   - É aí que você entra - ele respondeu, os olhos brilhando - eu quero que você me ajude a entrar no laboratório de biologia esta noite, você tem a chave e sabe operar o decodificador genético. Eu tiro uma amostra do meu sangue, e você testa para ver se eu sou humano.
   Diana trabalhava como auxiliar no laboratório da escola. Com 12 anos, era a aluna mais jovem a trabalhar lá. Mas se fosse pega, no mínimo ia perder sua bolsa de auxiliar.
   - Por favor, por favor, por favor. Olhinhos de cachorrinho sem dono - ele realmente olhou para ela com olhos que imitavam um cachorrinho sem dono.
   - Tá bom. Se eu não te ajudar, você vai passar o ano todo dizendo que é um alienígena. Mas vamos fazer diferente, James Bond. Pega uma agulha, fura o dedo, e me entrega. Amanhã, no intervalo, eu rodo sua amostra pelo decodificador, depois acesso de casa o resultado. Tá bom assim, ou o que você queria era invadir a escola de noite?
   Ele concordou. Fez um escandalo que chegou a chamar a atenção dos garotos ao redor, quando ela fincou a agulha no dedo, mas agradeceu imensamente. Ela prometeu ligar assim que chegasse o resultado.
        * * *
   - Alô, quem fala?
   - Sou eu, Diana - a voz dela estava tensa, nervosa. O computador estava ligado na sua frente, mostrando os resultados dos exames.
   - Então é verdade? Eu sou um alienígena?
   Ela engoliu em seco, respirou fundo e aguardou um segundo até sua voz ficar normal. Depois deu uma risada que - esperava - não transparecesse nenhum nervosismo.
   - Claro que não. Teu exame deu perfeitamente normal. Te encaminho o e-mail.
   Ele parecia desapontado quando desligou o telefone. Diana ficou só olhando a tela do computador com os resultados dos exames que ela fez e se perguntando porque ela se deixou levar pela teoria maluca dele.
   Ela clicou no botão de encaminhar e começou a editar o e-mail antes de enviar. Na verdade, não fez nada na linha em que mostrava o nome dele e o resultado negativo do teste de DNA alienígena.
    Apenas removeu a segunda linha, a linha do resultado do segundo DNA testado - a linha do resultado positivo - enquanto se perguntava porque havia testado também o DNA dela própria.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O Demônio Ardath

Parte I - Luskor  
   Meu nome é Julio, tenho 12 anos, e sempre gostei de histórias de terror, sejam livros ou filmes. Por isto, ninguém teria estranhado se eu tivesse sugerido de passarmos o tempo contando histórias para ver quem imaginaria a mais assustadora. Mas, na verdade, quem deu a ideia foi Claudia.
   - Meninas não sabem contar histórias de terror - Pedro disse, desafiando-a. Ela o fitou com olhos zangados.
   Estávamos em quatro, Claudia sendo a única menina no grupo, em meu quarto, e cada um de nós contou uma história assustadora. Pedro contou uma de vampiros, Luiz uma de lobisomem. Eu contei uma história de uma mulher que esqueceu o bebê na janela, e ele caiu do 5º andar. Achei que a minha era a mais assustadora, até ouvir a história de Claudia.
    - De todos os anjos do céu, existem cinco arcanjos que foram criados para serem os protetores da humanidade. Eles receberam a missão de guiar o homem no caminho que Deus definiu. Seus nomes constam de uma história que deveria fazer parte da Bíblia, mas o texto foi perdido antes que fosse incluído no livro.
   - Só uma menina mesma para contar uma história de anjos e achar que é assustadora - debochou Pedro.
   - Psiu - eu e Luiz dissemos ao mesmo tempo.
   - Não seria uma história assustadora - explicou Claudia - só que Lúcifer achou que isto afetaria o equilíbrio entre o bem e o mal, privando a humanidade de seu livre-arbítrio. Assim ele criou cinco seres para serem o contraponto dos Arcanjos, os cinco não-vivos.
   - Ei - Pedro interrompeu novamente - histórias de vampiros não valem, que eu já contei uma.
   - Eles não são vampiros - Claudia continuou - vampiros falam sobre eles, à noite, quando querem assustar uns aos outros, como nós estamos fazendo agora. Eles bebem o sangue de vampiros como vampiros bebem o de pessoas, mas não para se alimentar, apenas por diversão.
    Claudia continuou então, descrevendo cada um dos não-vivos. Um deles, Matat, tinha suas mãos cobertas por um veneno que paralisava as pessoas (e os vampiros, ela comentou olhando para Pedro). Ele então fazia pequenos cortes na vítima, e ela se esvaia em sangue, morrendo lentamente, consciente, mas imobilizada.
   Outro, Kabet, vinha, à noite, e, sem despertar a vítima, conseguia pegar pequenos pedaços do cérebro dela com a mão. A cada dia a pobre vítima ia ficando mais confusa, perdendo memórias, até esquecer completamente quem era. Se abrissem sua cabeça, iam descobrir que uma parte de seu cérebro não estava mais lá.
   Um terceiro, Luskor, assumia a exata aparência de sua vítima, muitas vezes vivendo por semanas e meses fingindo ser a pessoa que ele ocupou o lugar.
   Claudia também descreveu em detalhes a aparência de cada um dos três. Matat era alto e magro, branco, com mãos compridas, dedos mais longos do que uma pessoa normal. Kabet era baixo, gordo e careca, e parte de seu cérebro era vísivel na cabeça sem cabelos. Luskor só era visto com a aparência de suas vítimas.
   A quarta não-vivo se chamava Kalith, e era uma mulher linda que seduzia suas vítimas. Do quinto não-vivo, ela só disse o nome, Ardath.
   - Eles são cinco, e são eternos, mas não são imortais. Quando morrem são substituídos.
   - Como assim?
   - Esta é a história que eu vou contar em uma próxima vez. - Ela então gargalhou.
   A história de Claudia foi a mais assustadora de todas, concordamos. Até Pedro teve que dar o braço a torcer. Quando fui dormir, naquela noite, ainda assustado com a história, eu achei que veria os cinco não vivos em meus sonhos.
   Curiosamente, eu tive pesadelos, sim, mas foi com a história que eu contei, só que, em vez de um bebê, era eu que caía da janela de meu apartamento. Meu cérebro se espatifando no chão, meus ossos se quebrando. Acordei com um grito contido na garganta.
   Era noite ainda, e Kabet estava no quarto comigo.

Parte II - Kabet
   Um grito estava trancado em minha garganta, prestes a sair. A luz do quarto estava acesa, porque eu estava com medo de dormir no escuro. Um demônio estava sentado, nos pés da cama, de pernas cuzadas. Uma de suas mãos estava com o indicador cruzando os lábios.
    - sshhh - ele emite um som para me fazer ficar em silêncio - se você gritar, sua mãe vai vir correndo até o quarto, e nós podemos querer matá-la. Melhor meu amigo ficar em silêncio, se quer que sua mãe continue viva. Você quer que ela viva, não?
   Eu acenei que sim com a cabeça, meu olhos arregalados, o coração batendo acelerado, retumbando em meu peito. Suor escorria de minhas mãos. Eu nunca havia sentido tanto medo em minha vida.
   - Eu peguei um pedacinho bem pequeno de seu cérebro - ele levantou a outra mão e me mostrou alguma coisa pouco maior que um grão de areia, que segurava entre o polegar e o indicador - acho que você nem vai dar pela falta. - Ele abriu sua boca e colocou dentro o que quer que fosse - um pedaço de meu cérebro? - e então mastigou e engoliu.
   - Ahhh, delicioso, mas tão pequeno que nem dá para matar a fome - Ele sorriu. E então ficou em silêncio, apenas me olhando por um longo tempo, seus olhos atentos, como se estivesse me examinando. Ele era exatamente como Claudia havia dito, gordo e careca, e faltava um pedaço de seu crânio, permitindo ver um pedaço de seu cérebro.
   - O que vai fazer comigo? - Eu finalmente reuni coragem para falar, pois ele parecia disposto a apenas ficar ali, me olhando. Minha voz gaguejante, as palavras não querendo sair.
   - Eu já fiz. - Ele ajeitou as pernas e sorriu um sorriso medonho. Sua voz, porém, parecia tranquila e descontraída quando recomeçou a falar - sabe, o cérebro humano é uma máquina fantástica, e é preciso muita habilidade para desmontá-lo com precisão. As memórias, a inteligência e os sentimentos não estão agrupados em cantinhos separados, mas espalhados por todo lugar, e não é fácil juntar e retirar exatamente o que queremos. E cada parte tem um sabor próprio, único. Se provasse, você iria adorar.
   Eu fiquei em silêncio, o medo dominando tudo em mim. Minha visão começou a se afunilar, escurecer, e eu senti que estava quase a desmaiar.
   - Você não está curioso em saber que parte de seu Cérebro eu comi? - Ele diz, sorrindo. Eu nem me movi, paralisado de medo.
   - Não se preocupe, não foi nada importante. Alguns até diriam que lhe fiz um favor. Sabe, existe uma parte do homem, alguns chamariam de sua alma, que veio direto de Deus. É como se um pedacinho de Deus fizesse parte de cada ser humano. É este pedacinho que faz algumas pessoas se sentirem especiais quando rezam, é a parte que lhes permite falar diretamente com seu criador. A sua, em particular, estava deliciosa.
   Ele se aproximou então de mim, seu rosto chegando a centímetros do meu - Mas, como eu disse, não se preocupe. Outros, como eu, acreditam que a alma do homem vem de outra parte de seu cérebro, daquela que lhe permite escolher seu próprio caminho, tomar suas decisões. A parte que surgiu quando ele contrariou a Deus e comeu do fruto de todo bem e todo mal. Esta parte de seu cérebro, a parte que foi um presente do demônio, esta eu não toquei.
    Ele estendeu sua mão até ela encostar em meu rosto. Eu quase gritei, mas me lembrei que ele disse que minha mãe morreria se entrasse no quarto.
    - Durma agora - ele disse - amanhã Kalith vai querer conhecê-lo.
Ele fechou meus olhos com sua mão, e tudo ficou escuro.

Parte III - Kalith  
   De manhã, minha mãe me encontrou acordado, encolhido em um canto de minha cama, os olhos arregalados. Ela disse que era apenas um pesadelo, quando lhe contei, entre soluços e lágrimas, o que aconteceu. Depois me abraçou. 
   Ela só se tranquilizou quando fingi acreditar que era mesmo apenas um sonho ruim. Eu sabia que era real, mas também percebi que ela nunca acreditaria em mim.
   Aproveitei a primeira oportunidade que ela me deixou sozinho para ligar para Claudia.
    - Por favor, diga que acredita em mim, Claudia. Eles existem, mesmo. - Eu estava quase implorando, depois de ter contado para ela o que aconteceu.
   - É claro que eles existem. O desafio de ontem era contar uma história assustadora. Ninguém disse que não podia ser uma história verdadeira.
   - Você sabe que eles existem?  Eu realmente vi um deles, e não sei o que eu faço agora - Tudo que eu queria era uma explicação, mesmo que absurda. Quem sabe alguma coisa que pudesse me proteger deles, ou alguém que pudesse ajudar.
   - Agora você espera. Mas não se preocupe, ouvi dizer que Kalith é a mais simpática deles. Depois você me conta como foi seu encontro – e ela desligou o telefone. Eu liguei de volta, mas ninguém atendeu. Liguei também para o telefone fixo de sua casa, e só ficou tocando também.
    Eu liguei então para Pedro, depois para Luiz. Tentei o celular, tentei o telefone da casa, mas nenhum atendia. Era sábado, não havia aula e ninguém disse que ia viajar. Não era normal.
    Luiz morava umas três quadras na mesma rua, mas Pedro era meu vizinho, morava em um apartamento do outro lado da rua. Eu fui até lá.
    Ninguém respondeu quando apertei o interruptor da entrada do prédio dele, era um edifício sem portaria, mas liberaram a porta. Eu subi o elevador, tremendo. Estava com medo, mesmo sendo a luz do dia.
    Quando toquei a campainha, uma mulher abriu a porta. Era linda e vestida elegantemente, mas não era a mãe de Pedro nem ninguém que já tivesse visto, e eu recuei um passo, meu coração se acelerando.
   - Entre, querido.
   - Quem é você?
   - Você não sabe? Kabet não disse que íamos nos ver hoje?
   - Kalith – minha voz quase um murmúrio – o que você fez com Pedro?
   - Ele morreu feliz, posso lhe garantir. Foi muita sorte ter sido eu a visitá-lo. Se tivesse sido qualquer um dos outros, o coitadinho teria morrido virgem.
   Eu nada disse, e ela continuou - Entre, vamos, não temos necessidade de conversar no corredor. Eu preparo uma xícara de chá. - Eu apenas recuei mais um passo. Só não comecei a correr porque não via como conseguiria escapar e, na verdade, porque não sabia se poderia confiar em minhas pernas trêmulas.
   - Está triste porque matei seu amigo? Mas eu lhe fiz um grande favor. Agora ele poderá viver para sempre no céu, garanti a ele uma vida inteira no paraíso. Quem sabe se, permanecendo vivo, ele não acabaria pecando e sendo condenado ao inferno? Você correria este risco por apenas alguns anos na terra? Qualquer cristão crente em Deus deveria estar, neste momento, matando tantos inocentes quanto pudesse, crianças de preferência. Não seria uma boa ação, um dever de garantir o paraíso para tantos quanto pudéssemos, tirando-os deste mundo pecaminoso antes que tivessem a oportunidade de colocar suas almas imortais em risco?
   Eu dei um passo para trás e balancei a cabeça. Ela riu em resposta – Brincadeirinha. Quer dizer, a parte de salvar as pessoas, não a parte que seu amigo está mesmo morto. Mas, com sorte, ele está no inferno, só os chatos vão para o céu.
   Talvez, eu pensei, se correr para a escada de incêndio, e fechar a porta atrás de mim, e descer correndo, eu consiga escapar. Minhas pernas pareciam ainda grudadas no chão, eu paralisado de medo.
   - Estou assustando você, não é? Tolice, não vou lhe fazer mal. Como poderia, nós já fomos amantes, em outra vida - Ela se aproximou, e eu me senti incapaz de me mover  - e poderemos voltar a ser, nesta. - Ela encosta os lábios em meu rosto, um beijo suave - quando precisar, apenas pense em mim, que sempre vou estar pronta para ajudá-lo, onde você estiver.
    Ela se virou e entrou dentro da casa de Pedro, então virou o rosto para mim, sorrindo - Se quiser, entre. Estarei esperando aqui dentro.
   Eu me virei e corri escada abaixo. Quando cheguei no portão, meu celular tocou. Era Luiz.

Parte IV - Gadriel   
   Eu tinha dúvidas se era realmente ele, até atender o celular e ouvir sua voz incoerente, em meio a soluços e choros. Era Luiz no telefone, com certeza, me dizendo que seus pais estavam mortos, assassinados por um demônio.
    Estranhamente, ao invés de ficar ainda mais apavorado, eu me senti calmo. Talvez por saber que eu não estava mais sozinho, que alguém mais sabia o que estava acontecendo. Talvez apenas por estar falando com alguém ainda mais apavorado que eu.
   - Eu sei que eles existem, eu também vi. Eles visitaram cada um de nós. Pedro está morto. Eu acabei de sair do apartamento dele. Onde você está?
   - A igreja na esquina, no caminho da minha casa. Venha rápido. Gadriel disse que eles estão atrás de todos nós, e ele disse que vamos estar mais seguros aqui.
   - Quem?
   - É um dos arcanjos, os que Claudia contou. Foi ele que me salvou, o demônio fugiu do meu quarto quando ele apareceu.
   "Arcanjos?". Eu só estava acreditando nos demônios porque tinha visto dois frente a frente, e mesmo assim ainda tentava achar alguma outra explicação. Agora deveria também acreditar em anjos? E se fosse outro dos demônios? Ou se Luiz fosse um dos demônios? Havia um que assumia a forma de pessoas, Claudia havia dito.
   Eu parei, em frente à Igreja, hesitante. Seria outro demônio a me esperar? Acho que se não fosse uma Igreja, teria dado meia-volta e fugido. Mas para onde eu iria? As portas estavam abertas, e decidi entrar.
   Havia um homem na porta, com Luiz. Um homem alto, com um casaco e calças marrons, cabelos loiros, olhos azuis. Não parecia um demônio.
   Mais que depressa ele me segurou com suas mãos e me levantou sem esforço, apenas para me prensar contra uma das paredes da Igreja.
   - O que está fazendo? É Julio, meu amigo que falei no telefone - gritou Luiz.
   - Eu não sei se ele é ou não o seu amigo, mas sei que é uma das criaturas de lúcifer. Posso ver que o toque de Deus não está neste ser - Enquanto uma de suas mãos continuava me segurando, outra começou a apertar meu pescoço, quase me impedindo de falar.
    - Foi Kabet - Eu falei com esforço, me lembrando que o primeiro não-vivo, a noite, me disse algo sobre isto.
   - Se não há mais o toque de Deus em você, não tens mais razão para viver – E a mão apertou meu pescoço com ainda mais força.
   "Não quero morrer", eu pensei, o desespero tomando conta de mim, enquanto eu tentava sem sucesso me soltar, me debatendo e chutando. Por fim, com esforço, consegui dizer mais uma palavra, de forma quase inaudível – Kalith.
   - Gadriel, por que não enfrenta alguém capaz de se defender? - Eu conhecia esta voz. A mão de Gadriel se abriu, e eu despenquei no chão. Kalith estava ali, a nossa frente.
   - Vamos então novamente cruzar armas, Kalith, mas não aqui - Um brilho surgiu no meio de todos nós, e instantes depois ambos desapareceram. Eu me levantei com dificuldade, tonto.
   - Luiz - eu falei, surpreso em ver minha voz sair fraca. Luiz se afastou um passo e outro, andando para trás.
   - Você também é um demônio? - ele não me deu chance de responder, apenas se virou e fugiu igreja adentro.
   Eu saí da Igreja e comecei a caminhar para casa.
   - Eles não estão realmente lutando, sabia? - Uma voz. Me virei, e um homem alto, tão alto quanto o anjo, estava atrás de mim.
   - Ah - ele continuou - quando a próxima Biblia for escrita, dentro de uns dois séculos, vai dizer que eles se enfrentaram em batalha mortal, sem dúvida. A realidade é que são amantes, mas as aparências precisam ser mantidas.
   As mãos dele tinham longos dedos. Eu estava cansado de fugir, de ter medo. Olhei ele nos olhos, quase me resignando com o que quer que viesse a acontecer, e disse - Matat, eu presumo.

Parte V - Ardath
   Existem cinco arcanjos que são os protetores da humanidade. Existem cinco não-vivos que são o contraponto deles. Cláudia contou esta história. Estávamos inventando histórias de terror, de vampiros, lobisomens. Eu contei de uma criança que caiu de uma janela que sua mãe esqueceu aberta.
    A história de Cláudia não foi inventada.
    Eu encontrei um dos arcanjos, Gadriel, que salvou a vida de Luiz, um dos meus amigos, quando um dos não-vivos foi visitá-lo. Gadriel tentou me matar.
   Um dos não-vivos se chama Kabet, e ele me visitou a noite, e tirou um pedaço de meu cérebro.
   Uma dos não-vivos se chama Kalith, e ela matou meu amigo Pedro. Foi ela que me salvou de Gadriel, e me disse que havíamos sido amantes em outra vida.
   O terceiro não-vivo, Matat, caminhou comigo até a porta de minha casa, e me disse que era hora de me despedir de minha mãe. Acho que ele vai me matar, mas ele me garantiu que não vai fazer mal a ela.
   Ele desapareceu quando chegamos em minha casa, não sem antes dizer que eu ainda encontraria os dois outros não-vivos, Luskor - que assumia a forma de suas vítimas - e Ardath, de quem eu nada sabia.
   Eu abri a porta de casa e entrei. Mamãe estava na sala, e sentada, em outra cadeira, Claudia.
   - Filho, que bom que chegou, onde você estava? Eu estava justamente dizendo para a Claudia que você teve um pesadelo por causa destas histórias que vocês ficaram inventando ontem de noite.
   - Marta, eu e seu filho não inventamos nenhuma história. Eu apenas contei a ele sobre os não-vivos. Se tivesse tempo, contaria para você também.
   - Claudia, isto já foi longe de mais. Julio realmente ficou assustado, e eu quero que você pare agora com isto.
   Ela pareceu nem ouvir minha mãe, e se virou para mim - Lembra, Julio, que eu contaria em outra ocasião como surge um não-vivo, como eles são substituídos? - eu acenei que sim, mas acho que ela nem reparou. Na verdade, me veio a intuição que, embora olhasse para mim, era para minha mãe que ela contava a história.
   - Imagine que a alma de uma criança seja oferecida ao demônio por sua própria mãe. Digamos que fosse um pequeno bebê, e digamos que sua mãe tivesse esquecido aberta a janela do apartamento. Imagine o bebê caindo lá em baixo, de cabeça no chão, o cérebro se espatifando - Minha mãe de repente ficou branca, e eu queria pedir para Claudia parar de falar, mas não consegui dizer nada, e ela continuou.
   - Imagine então, esta mãe, agarrando esta criança e sabendo que nenhuma oração a Deus, nenhum pedido por um milagre, traria seu filho de volta a vida. Digamos que, neste momento, esta mãe, que casualmente tinha alguns conhecimentos do oculto, no desespero, implorasse até mesmo para o lorde das trevas pela vida de seu filho.
   Minha mãe estava com os olhos cheios d´água, lágrimas escorrendo pelo rosto, dizendo 'não' várias vezes, baixinho. Eu corri e a abracei.
   - Esta mãe, se fosse justa, ficaria grata a Lúcifer pelos anos que ganhou com seu filho, anos que nenhum milagre de Deus poderia ter lhe dado.
   - Você não vai tirar Julio de mim, Claudia - Minha mãe falou, enquanto me agarrava com força.
   - Claudia? Claudia está morta há dias. Meu nome é Luskor, e eu e seu filho temos agora que partir.
   Ela estendeu sua mão, e eu sabia que não tinha outra escolha além de pegá-la.
   - Quanto a Julio, Julio morreu com dois anos de idade. Despeça-se de seu filho chamando-o pelo seu verdadeiro nome: Ardath.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Vida Virtual S.A. - O Caso do Investigador

   O Presidente da Vida Virtual S.A. era um homem alto, magro e elegante, mas em 5 minutos de conversa você tinha a impressão de que estava falando com um vendedor de carros usados. Ele não me impressionou na primeira vez que estive aqui, quinze dias atrás, e menos ainda hoje. Seria um prazer desmascarar este rato.
   - Que bom vê-lo novamente, senhor Carvalho, veio contratar um novo período de vida virtual? Temos uma promoção que se encerra esta semana de 1 ano pela metade do preço. Posso chamar um de nossos atendentes para lhe explicar este plano em detalhes, se você desejar.
   - Não será necessário, senhor Dias. Como disse para sua secretária, minha conversa é com o senhor.
   - Oh, claro, claro. Em que posso ajudá-lo, meu jovem.
   Eu puxo o distintivo do bolso interno de meu paletó. Ele brilha em uma leve luz verde, confirmando que pertence efetivamente a mim.
   - Senhor Carvalho, estou aqui como representante da polícia federal.
   - Polícia federal? Não estou entendendo, houve algum crime?
   - Está havendo neste momento. A Vida Virtual S.A. é o crime que estamos investigando, e agora juntamos o elemento que faltava para por fim a sua fraude.
   - Acho que está havendo algum tipo de mal entendido. Somos uma operação totalmente honesta e dentro da lei.
   - Foi o que vim confirmar duas semanas atrás. Vocês vendem uma vida artificial, uma experiência acelerada tão real quanto a realidade, em que seus clientes vivem uma semana em poucas horas.
   - Exatamente, e não há nada de ilegal nisto. Temos todos os alvarás. Você deve lembrar que passou uma semana virtual muito agradável, quando esteve aqui da última vez.
   A audácia daquele sujeito quase me fez perder a cabeça. Foi com esforço que não alterei a voz.
   - Lembrar é o termo, senhor Dias. É claro que eu lembro de ter vivido uma semana de vida artificial. Vocês implantaram uma semana de memórias em minha mente!
   - Isto é um absurdo! Nós não trabalhamos com implantes de memória, mas com simulações neurais!
   - Ocorre, senhor Dias, que eu vim aqui justamente para investigar isto. Um implante neural registrou tudo que eu vivenciei enquanto estive em vida virtual, e sabe o que ele detectou?
   Eu podia ver o rosto do presidente da Vida Virtual S. A. começar a ficar branco, a medida que ele percebia que havia sido desmascarado. Como ele não respondeu nada, eu mesmo respondi por ele.
   - O implante não registrou nada. Ou melhor, registrou o nível de atividade de um cérebro em coma. Sua empresa é uma fraude, você implanta memorias artificiais em seus clientes, e faz eles pensarem que de fato vivenciaram uma realidade que foi apenas implantada em suas mentes.
    O presidente começa a balbuciar uma patética tentativa de dizer que nunca nenhum cliente reclamou, e que - de todo modo - as pessoas saiam da Viva Virtual com as mesmas memorias que teriam se o sistema funcionasse como prometido.



   Em seu escritório, o Presidente da Vida Virtual S. A., Felipe Dias, terminou de ler o relatório.
   - Então, esta é a transcrição do que ele está imaginando neste momento?
   - Sim, senhor - o cientista chefe respondeu - foi sorte termos seguido os procedimentos desta vez. 1 hora de vida virtual real, para ajustar os aparelhos e calibrar o registro das memorias artificiais.
   - Ótimo. Vou usar isto com o conselho, quando quiserem reduzir novamente o tempo de vida virtual para cortar custos. O que fazemos agora?
   - Bom, acho que não há por que nos arriscarmos com este agente. Já autorizei a darem a 1 semana de vida virtual para ele, ao invés do implante de memoria. Só que vai estourar nosso orçamento do mês.
   - Mande para mim, que autorizo. E apague a memoria desta cena que ele imaginou, foi realista demais para o meu gosto.
   - Será feito presidente.
   - Ah, e mais uma coisa. Implante uma memória hipnótica. Quero que ele decida cometer suicídio mes que vem.
   - Não é um exagero, senhor? Depois que virem que o procedimento foi feito corretamente com o agente deles, você acha que ainda estaremos em perigo.
   - Oh, claro que não. Tenho certeza que escapamos desta.
   -Mas então por que fazê-lo se matar?
   - Ele me chamou de rato. Ninguém me chama assim.