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FICÇÃO CIENTÍFICA  -  FANTASIA  -  TERROR.


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segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O Demônio Ardath

Parte I - Luskor  
   Meu nome é Julio, tenho 12 anos, e sempre gostei de histórias de terror, sejam livros ou filmes. Por isto, ninguém teria estranhado se eu tivesse sugerido de passarmos o tempo contando histórias para ver quem imaginaria a mais assustadora. Mas, na verdade, quem deu a ideia foi Claudia.
   - Meninas não sabem contar histórias de terror - Pedro disse, desafiando-a. Ela o fitou com olhos zangados.
   Estávamos em quatro, Claudia sendo a única menina no grupo, em meu quarto, e cada um de nós contou uma história assustadora. Pedro contou uma de vampiros, Luiz uma de lobisomem. Eu contei uma história de uma mulher que esqueceu o bebê na janela, e ele caiu do 5º andar. Achei que a minha era a mais assustadora, até ouvir a história de Claudia.
    - De todos os anjos do céu, existem cinco arcanjos que foram criados para serem os protetores da humanidade. Eles receberam a missão de guiar o homem no caminho que Deus definiu. Seus nomes constam de uma história que deveria fazer parte da Bíblia, mas o texto foi perdido antes que fosse incluído no livro.
   - Só uma menina mesma para contar uma história de anjos e achar que é assustadora - debochou Pedro.
   - Psiu - eu e Luiz dissemos ao mesmo tempo.
   - Não seria uma história assustadora - explicou Claudia - só que Lúcifer achou que isto afetaria o equilíbrio entre o bem e o mal, privando a humanidade de seu livre-arbítrio. Assim ele criou cinco seres para serem o contraponto dos Arcanjos, os cinco não-vivos.
   - Ei - Pedro interrompeu novamente - histórias de vampiros não valem, que eu já contei uma.
   - Eles não são vampiros - Claudia continuou - vampiros falam sobre eles, à noite, quando querem assustar uns aos outros, como nós estamos fazendo agora. Eles bebem o sangue de vampiros como vampiros bebem o de pessoas, mas não para se alimentar, apenas por diversão.
    Claudia continuou então, descrevendo cada um dos não-vivos. Um deles, Matat, tinha suas mãos cobertas por um veneno que paralisava as pessoas (e os vampiros, ela comentou olhando para Pedro). Ele então fazia pequenos cortes na vítima, e ela se esvaia em sangue, morrendo lentamente, consciente, mas imobilizada.
   Outro, Kabet, vinha, à noite, e, sem despertar a vítima, conseguia pegar pequenos pedaços do cérebro dela com a mão. A cada dia a pobre vítima ia ficando mais confusa, perdendo memórias, até esquecer completamente quem era. Se abrissem sua cabeça, iam descobrir que uma parte de seu cérebro não estava mais lá.
   Um terceiro, Luskor, assumia a exata aparência de sua vítima, muitas vezes vivendo por semanas e meses fingindo ser a pessoa que ele ocupou o lugar.
   Claudia também descreveu em detalhes a aparência de cada um dos três. Matat era alto e magro, branco, com mãos compridas, dedos mais longos do que uma pessoa normal. Kabet era baixo, gordo e careca, e parte de seu cérebro era vísivel na cabeça sem cabelos. Luskor só era visto com a aparência de suas vítimas.
   A quarta não-vivo se chamava Kalith, e era uma mulher linda que seduzia suas vítimas. Do quinto não-vivo, ela só disse o nome, Ardath.
   - Eles são cinco, e são eternos, mas não são imortais. Quando morrem são substituídos.
   - Como assim?
   - Esta é a história que eu vou contar em uma próxima vez. - Ela então gargalhou.
   A história de Claudia foi a mais assustadora de todas, concordamos. Até Pedro teve que dar o braço a torcer. Quando fui dormir, naquela noite, ainda assustado com a história, eu achei que veria os cinco não vivos em meus sonhos.
   Curiosamente, eu tive pesadelos, sim, mas foi com a história que eu contei, só que, em vez de um bebê, era eu que caía da janela de meu apartamento. Meu cérebro se espatifando no chão, meus ossos se quebrando. Acordei com um grito contido na garganta.
   Era noite ainda, e Kabet estava no quarto comigo.

Parte II - Kabet
   Um grito estava trancado em minha garganta, prestes a sair. A luz do quarto estava acesa, porque eu estava com medo de dormir no escuro. Um demônio estava sentado, nos pés da cama, de pernas cuzadas. Uma de suas mãos estava com o indicador cruzando os lábios.
    - sshhh - ele emite um som para me fazer ficar em silêncio - se você gritar, sua mãe vai vir correndo até o quarto, e nós podemos querer matá-la. Melhor meu amigo ficar em silêncio, se quer que sua mãe continue viva. Você quer que ela viva, não?
   Eu acenei que sim com a cabeça, meu olhos arregalados, o coração batendo acelerado, retumbando em meu peito. Suor escorria de minhas mãos. Eu nunca havia sentido tanto medo em minha vida.
   - Eu peguei um pedacinho bem pequeno de seu cérebro - ele levantou a outra mão e me mostrou alguma coisa pouco maior que um grão de areia, que segurava entre o polegar e o indicador - acho que você nem vai dar pela falta. - Ele abriu sua boca e colocou dentro o que quer que fosse - um pedaço de meu cérebro? - e então mastigou e engoliu.
   - Ahhh, delicioso, mas tão pequeno que nem dá para matar a fome - Ele sorriu. E então ficou em silêncio, apenas me olhando por um longo tempo, seus olhos atentos, como se estivesse me examinando. Ele era exatamente como Claudia havia dito, gordo e careca, e faltava um pedaço de seu crânio, permitindo ver um pedaço de seu cérebro.
   - O que vai fazer comigo? - Eu finalmente reuni coragem para falar, pois ele parecia disposto a apenas ficar ali, me olhando. Minha voz gaguejante, as palavras não querendo sair.
   - Eu já fiz. - Ele ajeitou as pernas e sorriu um sorriso medonho. Sua voz, porém, parecia tranquila e descontraída quando recomeçou a falar - sabe, o cérebro humano é uma máquina fantástica, e é preciso muita habilidade para desmontá-lo com precisão. As memórias, a inteligência e os sentimentos não estão agrupados em cantinhos separados, mas espalhados por todo lugar, e não é fácil juntar e retirar exatamente o que queremos. E cada parte tem um sabor próprio, único. Se provasse, você iria adorar.
   Eu fiquei em silêncio, o medo dominando tudo em mim. Minha visão começou a se afunilar, escurecer, e eu senti que estava quase a desmaiar.
   - Você não está curioso em saber que parte de seu Cérebro eu comi? - Ele diz, sorrindo. Eu nem me movi, paralisado de medo.
   - Não se preocupe, não foi nada importante. Alguns até diriam que lhe fiz um favor. Sabe, existe uma parte do homem, alguns chamariam de sua alma, que veio direto de Deus. É como se um pedacinho de Deus fizesse parte de cada ser humano. É este pedacinho que faz algumas pessoas se sentirem especiais quando rezam, é a parte que lhes permite falar diretamente com seu criador. A sua, em particular, estava deliciosa.
   Ele se aproximou então de mim, seu rosto chegando a centímetros do meu - Mas, como eu disse, não se preocupe. Outros, como eu, acreditam que a alma do homem vem de outra parte de seu cérebro, daquela que lhe permite escolher seu próprio caminho, tomar suas decisões. A parte que surgiu quando ele contrariou a Deus e comeu do fruto de todo bem e todo mal. Esta parte de seu cérebro, a parte que foi um presente do demônio, esta eu não toquei.
    Ele estendeu sua mão até ela encostar em meu rosto. Eu quase gritei, mas me lembrei que ele disse que minha mãe morreria se entrasse no quarto.
    - Durma agora - ele disse - amanhã Kalith vai querer conhecê-lo.
Ele fechou meus olhos com sua mão, e tudo ficou escuro.

Parte III - Kalith  
   De manhã, minha mãe me encontrou acordado, encolhido em um canto de minha cama, os olhos arregalados. Ela disse que era apenas um pesadelo, quando lhe contei, entre soluços e lágrimas, o que aconteceu. Depois me abraçou. 
   Ela só se tranquilizou quando fingi acreditar que era mesmo apenas um sonho ruim. Eu sabia que era real, mas também percebi que ela nunca acreditaria em mim.
   Aproveitei a primeira oportunidade que ela me deixou sozinho para ligar para Claudia.
    - Por favor, diga que acredita em mim, Claudia. Eles existem, mesmo. - Eu estava quase implorando, depois de ter contado para ela o que aconteceu.
   - É claro que eles existem. O desafio de ontem era contar uma história assustadora. Ninguém disse que não podia ser uma história verdadeira.
   - Você sabe que eles existem?  Eu realmente vi um deles, e não sei o que eu faço agora - Tudo que eu queria era uma explicação, mesmo que absurda. Quem sabe alguma coisa que pudesse me proteger deles, ou alguém que pudesse ajudar.
   - Agora você espera. Mas não se preocupe, ouvi dizer que Kalith é a mais simpática deles. Depois você me conta como foi seu encontro – e ela desligou o telefone. Eu liguei de volta, mas ninguém atendeu. Liguei também para o telefone fixo de sua casa, e só ficou tocando também.
    Eu liguei então para Pedro, depois para Luiz. Tentei o celular, tentei o telefone da casa, mas nenhum atendia. Era sábado, não havia aula e ninguém disse que ia viajar. Não era normal.
    Luiz morava umas três quadras na mesma rua, mas Pedro era meu vizinho, morava em um apartamento do outro lado da rua. Eu fui até lá.
    Ninguém respondeu quando apertei o interruptor da entrada do prédio dele, era um edifício sem portaria, mas liberaram a porta. Eu subi o elevador, tremendo. Estava com medo, mesmo sendo a luz do dia.
    Quando toquei a campainha, uma mulher abriu a porta. Era linda e vestida elegantemente, mas não era a mãe de Pedro nem ninguém que já tivesse visto, e eu recuei um passo, meu coração se acelerando.
   - Entre, querido.
   - Quem é você?
   - Você não sabe? Kabet não disse que íamos nos ver hoje?
   - Kalith – minha voz quase um murmúrio – o que você fez com Pedro?
   - Ele morreu feliz, posso lhe garantir. Foi muita sorte ter sido eu a visitá-lo. Se tivesse sido qualquer um dos outros, o coitadinho teria morrido virgem.
   Eu nada disse, e ela continuou - Entre, vamos, não temos necessidade de conversar no corredor. Eu preparo uma xícara de chá. - Eu apenas recuei mais um passo. Só não comecei a correr porque não via como conseguiria escapar e, na verdade, porque não sabia se poderia confiar em minhas pernas trêmulas.
   - Está triste porque matei seu amigo? Mas eu lhe fiz um grande favor. Agora ele poderá viver para sempre no céu, garanti a ele uma vida inteira no paraíso. Quem sabe se, permanecendo vivo, ele não acabaria pecando e sendo condenado ao inferno? Você correria este risco por apenas alguns anos na terra? Qualquer cristão crente em Deus deveria estar, neste momento, matando tantos inocentes quanto pudesse, crianças de preferência. Não seria uma boa ação, um dever de garantir o paraíso para tantos quanto pudéssemos, tirando-os deste mundo pecaminoso antes que tivessem a oportunidade de colocar suas almas imortais em risco?
   Eu dei um passo para trás e balancei a cabeça. Ela riu em resposta – Brincadeirinha. Quer dizer, a parte de salvar as pessoas, não a parte que seu amigo está mesmo morto. Mas, com sorte, ele está no inferno, só os chatos vão para o céu.
   Talvez, eu pensei, se correr para a escada de incêndio, e fechar a porta atrás de mim, e descer correndo, eu consiga escapar. Minhas pernas pareciam ainda grudadas no chão, eu paralisado de medo.
   - Estou assustando você, não é? Tolice, não vou lhe fazer mal. Como poderia, nós já fomos amantes, em outra vida - Ela se aproximou, e eu me senti incapaz de me mover  - e poderemos voltar a ser, nesta. - Ela encosta os lábios em meu rosto, um beijo suave - quando precisar, apenas pense em mim, que sempre vou estar pronta para ajudá-lo, onde você estiver.
    Ela se virou e entrou dentro da casa de Pedro, então virou o rosto para mim, sorrindo - Se quiser, entre. Estarei esperando aqui dentro.
   Eu me virei e corri escada abaixo. Quando cheguei no portão, meu celular tocou. Era Luiz.

Parte IV - Gadriel   
   Eu tinha dúvidas se era realmente ele, até atender o celular e ouvir sua voz incoerente, em meio a soluços e choros. Era Luiz no telefone, com certeza, me dizendo que seus pais estavam mortos, assassinados por um demônio.
    Estranhamente, ao invés de ficar ainda mais apavorado, eu me senti calmo. Talvez por saber que eu não estava mais sozinho, que alguém mais sabia o que estava acontecendo. Talvez apenas por estar falando com alguém ainda mais apavorado que eu.
   - Eu sei que eles existem, eu também vi. Eles visitaram cada um de nós. Pedro está morto. Eu acabei de sair do apartamento dele. Onde você está?
   - A igreja na esquina, no caminho da minha casa. Venha rápido. Gadriel disse que eles estão atrás de todos nós, e ele disse que vamos estar mais seguros aqui.
   - Quem?
   - É um dos arcanjos, os que Claudia contou. Foi ele que me salvou, o demônio fugiu do meu quarto quando ele apareceu.
   "Arcanjos?". Eu só estava acreditando nos demônios porque tinha visto dois frente a frente, e mesmo assim ainda tentava achar alguma outra explicação. Agora deveria também acreditar em anjos? E se fosse outro dos demônios? Ou se Luiz fosse um dos demônios? Havia um que assumia a forma de pessoas, Claudia havia dito.
   Eu parei, em frente à Igreja, hesitante. Seria outro demônio a me esperar? Acho que se não fosse uma Igreja, teria dado meia-volta e fugido. Mas para onde eu iria? As portas estavam abertas, e decidi entrar.
   Havia um homem na porta, com Luiz. Um homem alto, com um casaco e calças marrons, cabelos loiros, olhos azuis. Não parecia um demônio.
   Mais que depressa ele me segurou com suas mãos e me levantou sem esforço, apenas para me prensar contra uma das paredes da Igreja.
   - O que está fazendo? É Julio, meu amigo que falei no telefone - gritou Luiz.
   - Eu não sei se ele é ou não o seu amigo, mas sei que é uma das criaturas de lúcifer. Posso ver que o toque de Deus não está neste ser - Enquanto uma de suas mãos continuava me segurando, outra começou a apertar meu pescoço, quase me impedindo de falar.
    - Foi Kabet - Eu falei com esforço, me lembrando que o primeiro não-vivo, a noite, me disse algo sobre isto.
   - Se não há mais o toque de Deus em você, não tens mais razão para viver – E a mão apertou meu pescoço com ainda mais força.
   "Não quero morrer", eu pensei, o desespero tomando conta de mim, enquanto eu tentava sem sucesso me soltar, me debatendo e chutando. Por fim, com esforço, consegui dizer mais uma palavra, de forma quase inaudível – Kalith.
   - Gadriel, por que não enfrenta alguém capaz de se defender? - Eu conhecia esta voz. A mão de Gadriel se abriu, e eu despenquei no chão. Kalith estava ali, a nossa frente.
   - Vamos então novamente cruzar armas, Kalith, mas não aqui - Um brilho surgiu no meio de todos nós, e instantes depois ambos desapareceram. Eu me levantei com dificuldade, tonto.
   - Luiz - eu falei, surpreso em ver minha voz sair fraca. Luiz se afastou um passo e outro, andando para trás.
   - Você também é um demônio? - ele não me deu chance de responder, apenas se virou e fugiu igreja adentro.
   Eu saí da Igreja e comecei a caminhar para casa.
   - Eles não estão realmente lutando, sabia? - Uma voz. Me virei, e um homem alto, tão alto quanto o anjo, estava atrás de mim.
   - Ah - ele continuou - quando a próxima Biblia for escrita, dentro de uns dois séculos, vai dizer que eles se enfrentaram em batalha mortal, sem dúvida. A realidade é que são amantes, mas as aparências precisam ser mantidas.
   As mãos dele tinham longos dedos. Eu estava cansado de fugir, de ter medo. Olhei ele nos olhos, quase me resignando com o que quer que viesse a acontecer, e disse - Matat, eu presumo.

Parte V - Ardath
   Existem cinco arcanjos que são os protetores da humanidade. Existem cinco não-vivos que são o contraponto deles. Cláudia contou esta história. Estávamos inventando histórias de terror, de vampiros, lobisomens. Eu contei de uma criança que caiu de uma janela que sua mãe esqueceu aberta.
    A história de Cláudia não foi inventada.
    Eu encontrei um dos arcanjos, Gadriel, que salvou a vida de Luiz, um dos meus amigos, quando um dos não-vivos foi visitá-lo. Gadriel tentou me matar.
   Um dos não-vivos se chama Kabet, e ele me visitou a noite, e tirou um pedaço de meu cérebro.
   Uma dos não-vivos se chama Kalith, e ela matou meu amigo Pedro. Foi ela que me salvou de Gadriel, e me disse que havíamos sido amantes em outra vida.
   O terceiro não-vivo, Matat, caminhou comigo até a porta de minha casa, e me disse que era hora de me despedir de minha mãe. Acho que ele vai me matar, mas ele me garantiu que não vai fazer mal a ela.
   Ele desapareceu quando chegamos em minha casa, não sem antes dizer que eu ainda encontraria os dois outros não-vivos, Luskor - que assumia a forma de suas vítimas - e Ardath, de quem eu nada sabia.
   Eu abri a porta de casa e entrei. Mamãe estava na sala, e sentada, em outra cadeira, Claudia.
   - Filho, que bom que chegou, onde você estava? Eu estava justamente dizendo para a Claudia que você teve um pesadelo por causa destas histórias que vocês ficaram inventando ontem de noite.
   - Marta, eu e seu filho não inventamos nenhuma história. Eu apenas contei a ele sobre os não-vivos. Se tivesse tempo, contaria para você também.
   - Claudia, isto já foi longe de mais. Julio realmente ficou assustado, e eu quero que você pare agora com isto.
   Ela pareceu nem ouvir minha mãe, e se virou para mim - Lembra, Julio, que eu contaria em outra ocasião como surge um não-vivo, como eles são substituídos? - eu acenei que sim, mas acho que ela nem reparou. Na verdade, me veio a intuição que, embora olhasse para mim, era para minha mãe que ela contava a história.
   - Imagine que a alma de uma criança seja oferecida ao demônio por sua própria mãe. Digamos que fosse um pequeno bebê, e digamos que sua mãe tivesse esquecido aberta a janela do apartamento. Imagine o bebê caindo lá em baixo, de cabeça no chão, o cérebro se espatifando - Minha mãe de repente ficou branca, e eu queria pedir para Claudia parar de falar, mas não consegui dizer nada, e ela continuou.
   - Imagine então, esta mãe, agarrando esta criança e sabendo que nenhuma oração a Deus, nenhum pedido por um milagre, traria seu filho de volta a vida. Digamos que, neste momento, esta mãe, que casualmente tinha alguns conhecimentos do oculto, no desespero, implorasse até mesmo para o lorde das trevas pela vida de seu filho.
   Minha mãe estava com os olhos cheios d´água, lágrimas escorrendo pelo rosto, dizendo 'não' várias vezes, baixinho. Eu corri e a abracei.
   - Esta mãe, se fosse justa, ficaria grata a Lúcifer pelos anos que ganhou com seu filho, anos que nenhum milagre de Deus poderia ter lhe dado.
   - Você não vai tirar Julio de mim, Claudia - Minha mãe falou, enquanto me agarrava com força.
   - Claudia? Claudia está morta há dias. Meu nome é Luskor, e eu e seu filho temos agora que partir.
   Ela estendeu sua mão, e eu sabia que não tinha outra escolha além de pegá-la.
   - Quanto a Julio, Julio morreu com dois anos de idade. Despeça-se de seu filho chamando-o pelo seu verdadeiro nome: Ardath.

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