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domingo, 18 de novembro de 2012

Niq de Alashiya e a Cidade das Três Deusas - 1

   O navio cruzava as ondas do grande mar, a costa sempre à direita, nunca por muito tempo além do que alcança a vista. Histórias de embarcações que se perderam para nunca mais encontrar terra no pensamento de cada marinheiro. O oceano sem fim a esquerda, povoado por polvos do tamanho de palácios e criaturas metade mulher, metade peixe, que atraiam mesmo o mais destemido homem para as profundezas.
   O vento soprava forte e constante, garantindo o descanso dos remadores, mas não sua tranquilidade, atentos que estavam ao primeiro sinal de que poderia se transformar em tempestade. Mais que sereias e polvos e mesmo o mar sem fim, era Ardoth, deus das tormentas, que mais aterrorizava os experientes marinheiros, e não poucos dividiam as oferendas igualmente entre ele e Marguth, deus do mar, ainda que em segredo. Marguth era um deus ciumento.
   Apenas as oferendas a Alashiya eram feitas abertamente por todos, pois Alashiya era o protetor de sua cidade, e nenhum outro deus se ofenderia.
   Na proa do navio, de braços cruzados, cabelos e barbas curtos, uma cicatriz iniciando na orelha esquerda e descendo até desaparecer entre as roupas, Arguil filho de Argail permanecia, indiferente ao vento e ao frio. Os olhos no horizonte, atentos, ostensivamente ignorando o jovem a seu lado.
   Niq, filho de Arguil, dividia-se entre sentimentos de admiração e medo pelo marinheiro que ele pouco conhecia. Era sua primeira vez no grande mar, e ele persistia a lutar contra o enjôo da viagem, que o fizera vezes sem conta despejar no oceano tudo que havia ingerido. Pior que o mal estar, era seu medo de decepcionar o pai e o receio de que não permitisse que o acompanhasse novamente. Era com quinze anos que os filhos da casa de Argail saiam ao mar, e Niq ainda estava um inverno e meio verão distante desta data.
   "Com apenas mulheres em casa e nenhum primo vivo, pelo menos nenhum que preste, já passou da hora de partires comigo", havia dito seu pai, na última vez que seu navio voltou para Alashiya. Niq pensou em dizer que seu tio, Magreb, levava-o para pescar em seu pequeno barco e estava ensinando-o a lutar com espada e lança, mas não teve coragem e preferiu ficar em silêncio. Magreb era irmão de sua mãe, e não parecia haver amizade ou respeito entre ele e seu pai.
   Sua mãe chorou quando se despediu,e Niq teve vontade de fazer o mesmo, mas sabia que isto traria vergonha a casa de Argail, e por isto despediu-se sem demonstrar seu medo. Apenas no navio, à noite, certo que ninguém perceberia, ele chorou em silêncio, no terceiro dia no mar.
   "Antes do final do dia, chegaremos ao porto de Kilquitai", Arguil falou, sem olhar para ninguém, os olhos sempre fixos no mar sem fim, mas Niq sabia que era a ele que seu pai se dirigia, "diga-me o que lhe ensinei sobre esta cidade".
   Niq humedeceu os lábios com a lingua, guspiu no convés para garantir que os antepassados estariam despertos e prontos para ajudá-lo a responder, e falou tentando imitar o estilo controlado de seu pai, "Kilquitai é nossa primeira parada, saindo de Alashiya, quando pegamos a rota do norte. Nós deixamos armas e peças de bronze com os servos do templo das três deusas, e recebemos nosso pagamento na viagem de volta."
   "E o que mais?"
   Niq hesitou, pensando em tudo que seu pai lhe falou durante os últimos dias. Arguil falava apenas uma vez sobre cada cidade que conhecia, e esperava que seu filho decorasse e repetisse tudo sem erro. Niq sabia que nunca atenderia as expectativas de seu pai.
   "As três deusas exigem que todo comércio com outros povos seja feito apenas através delas, mas nós também vendemos armas diretamente para os comerciantes".
   "E por que fazemos isto?"
   "Eles pagam mais?", Niq respondeu, hesitante. Seu pai apenas balançou a cabeça.
   "Eles pagam mais, mas este não é o verdadeiro motivo. É perigoso desobedecer as deusas de Kilquitai, mas também é perigoso obedecê-las. É mais seguro fazermos como fazemos".
   "Por quê?", Niq perguntou, sem entender.
   "Alashiya está distante, e é apenas uma. Nossa força está em não fazer inimigos, em não nos envolvermos nas disputas de cada cidade que visitamos. Em Kilquitai, isto é impossível."
   E seu pai, após um instante, completou, com o ar solene que deixava claro que a conversa estava encerrada. "Amanhã você descobrirá por quê".

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