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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Solitário Ben e o Dragão

   Solitário Ben, mochila nas costas, braço ainda na tipoia, abriu o portão da casa que não era mais sua, tendo já se despedido de sua não-mãe. O sol brilhava no céu, mas ele fingiu não se importar. Que o queimasse, ele não ficaria nem mais um dia ali. Sairia sem olhar para trás, o mundo inteiro à sua frente; mais de um mundo, na verdade.

   Mas, mãe ou não-mãe — e ele não sabia mais como chamá-la, talvez nunca viesse novamente a saber — ele hesitou, e bastou um olhar para seu rosto, lágrimas contidas, parada na porta entreaberta da casa em que viveu toda sua vida, para ele voltar correndo e abraçá-la uma última vez.

   "Eu te amo". "Eu te perdoo". Tudo dito no silêncio de seu último abraço.

   E, afastando-se de sua não-mãe, Solitário Ben em passos firmes — seu rosto úmido de lágrimas que escorriam sem resistência — partiu para sempre, todos os mundos o seu destino.

         *       *       *

   Com que facilidade as palavras eram ditas em uma língua melodiosa, poucos dias antes, subindo e descendo de tom como se cantadas, enquanto as mãos se moviam em velocidade sem igual e precisão absoluta. Em tudo diferente da forma hesitante e concentrada de Faidha, quando abriu o portal para este mundo.

   - Vamos, é hora de voltar para casa — disse a mulher que Solitário Ben não mais conhecia.

   "É hora de abandonar Faidha para morrer", pensou Solitário Ben, tentando ignorar a dor dos cortes em seu braço, o sangue escorrendo e manchando a neve a seus pés, "hora de voltar a não viver".

   E Solitário Ben atravessou o portal para seu mundo.

         *       *       *

   — Temos novos vizinhos. Se mudaram ontem para a casa dos Silva — o pai de Ben, João Luiz, falou no jantar, naquela noite em que tudo começou. Ele o fez em voz alta, sem se dirigir a ninguém em particular, enquanto dobrava seu Correio do Povo e o colocava na cadeira vazia a seu lado, e ficou aguardando em silêncio, esperando uma resposta. Ele quase nunca estava em casa, passava as manhãs  e tardes na rua, mesmo nos finais de semana, e pouco conversava. Era uma surpresa que iniciasse um assunto à mesa.

   — Que estes não nos incomodem — Lara, a mãe de Ben, respondeu, enquanto limpava a boca com um guardanapo de papel, em sua típica voz baixa e suave. Ela não gostava dos antigos vizinhos. Diferente do pai, ela quase nunca saía, e ensinava Ben pessoalmente, para ele não ter que ir à escola.

   — Eles têm uma filha que parece ter a idade de Ben. Pensei que talvez pudessem ser amigos.

   — Sabes que nosso filho não precisa de amigos  —  a voz de Lara agora mostrando firmeza e até uma ligeira irritação  — não amigos para debochar e provocá-lo por não poder sair ao sol. Não é a verdade, Ben?

    Ben concordou com um aceno. Verdade? Mentira? Que diferença fazia. Ele vivia praticamente preso àquela casa. Como saber se seria bom ou ruim conversar com pessoas de sua idade?

   Pediu licença para sair da mesa e voltar a seu quarto. Pelo menos agora ele tinha uma tevê e podia assistir o que quisesse.

   À noite, às vezes Ben abria a janela, para olhar as estrelas e sonhar com mundos distantes, como os que lia nos livros que a mãe comprava a seu pedido — ele só saia a noite, e mesmo assim nunca para lugares com muita gente, como shoppings centers e livrarias —, mas desta vez ficou apenas deitado em sua cama, esperando o sono chegar. Foi quando ouviu uma batida na janela. Do outro lado, pendurada em um galho de árvore, uma garota de uns doze anos olhava para ele.

         *       *       *

   — Meu nome é Faidha — falou em uma voz suave que um pouco lembrava sua mãe, após ele ter aberto a janela e ela ter entrado no quarto. — Como te chamas?

   — Ben — ele respondeu, sem saber o que mais dizer.

   — Sou tua nova vizinha. Nos mudamos ontem. Há muito tempo que moras aqui? — enquanto falava ela se sentou em sua cama — Bela cama. Adoro como são macias as camas de teu mundo. Quantos cobertores! Faz muito frio à noite?

   Bem permaneceu alguns segundos de boca aberta, sem saber o que dizer, nem o que responder primeiro. Depois começou a gaguejar, até que, por fim, conseguiu falar algo coerente, mas com o cuidado de não elevar a voz, tentando não imaginar o que aconteceria se sua mãe entrasse no quarto naquele momento — você não pode ficar aqui!
 
   — Não posso ficar aqui? Queres dizer, não tenho o poder de ficar aqui? Bobagem! Estou aqui, então não podes dizer que eu 'não posso estar aqui'. No máximo eu 'não deveria estar aqui', não?

   — Não sei. Que seja. Não sei. Você não deve ficar aqui, então. Se minha mãe descobrir, ela vai, tipo, surtar. Surtar completamente. Eu estou surtando. Você não pode, quer dizer, não deve entrar no quarto dos outros pela janela. As pessoas não fazem isso. E por favor, fale baixo.

   — Sempre és tão nervoso? Vou descer e lhe trazer uma água com açúcar. Aproveito e me apresento para tua mãe. Sim?

   — Não. Não, por favor, não. Ela vai surtar. Você tem que ir embora antes que ela apareça. Ela não gosta que eu fale com estranhos.

   — Bem que ela faz. Existem muitas pessoas malucas no mundo, sabias?  — "sim, estou olhando para uma delas", pensou Ben, mas nada falou  —  Mas resolveremos isso — e Faidha se levantou da cama de Ben, deu um passo em sua direção, e estendeu a mão — Seja educado. Dê-me tua mão e me cumprimente. Começaremos de novo.

   Ben obedeceu. O aperto dela era firme, quase ao ponto de machucar.

   — Boa noite, jovem Ben. Meu nome, como disse, é Faidha. Gosto de viajar e conhecer novas pessoas, adoro dormir à luz das estrelas e detesto levantar cedo. E às vezes, quando sei que ninguém está olhando, me vejo a chorar de saudades do meu lar. Ah, e eu não sou deste mundo.

   Faidha disse tudo isso, sem em nenhum momento soltar a mão de Ben, e então complementou — Tua vez agora. Diga-me coisas a teu respeito, e como eu contei algo que nunca falei para ninguém, também terás que revelar um segredo só teu, algo pessoal.

    Ela parecia decidida a não soltar sua mão até ele responder

   — Eu...eu... não sei. Eu tenho treze anos. Gosto de ler. Ficção científica, fantasia, estas coisas. E eu tenho uma doença, não posso pegar sol, nenhum sol, posso até morrer. Por isso eu quase nunca saio  de casa, minha mãe não deixa  — e ele hesitou. Alguma coisa pessoal?  — e eu não tenho amigos. Nenhum amigo. Ninguém. E às vezes eu penso em me matar por causa disso  — "eu falei isso mesmo?", Ben se viu a pensar, " e para uma maluca que eu nunca vi antes?".

   — Percebes? Trocamos segredos. Assunto resolvido, não somos mais estranhos. A proibição de tua mãe não se aplica mais a nós — ela sorriu e, ainda hesitante, Ben sorriu de volta. Era tudo tão surreal, a garota parecia uma avalanche em forma de gente, que Ben não sabia o que dizer.

   — Esta foi uma visita rápida, nos veremos amanhã, mesmo horário, mesma janela.  — ela começou a caminhar para a janela ainda aberta, e então se virou  — Até breve, Ben que não tem amigos  — ela parou no meio da frase, parecendo pensar  — não, muito longo... Solitário Ben. Isso. Até breve, Solitário Ben.

         *       *       *

    — De onde você é, de verdade? de São Paulo? — Era estranho quão fácil era conversar com Faidha, depois do primeiro dia, quando Solitário Ben mais gaguejou que falou. Ele lhe contou tudo sobre sua vida, seus medos, seus sonhos para o futuro, e ouviu cada uma das fantasias dela. Histórias de outros mundos, rainhas descendentes de dragões e povos expulsos de suas terras. Era fantástico, mais real que qualquer livro que ele já havia lido. Mas ele queria conhecer a verdadeira garota, não apenas a fantasia que ela inventou.

    — Achas que estou a mentir?  — Sua voz se elevando enquanto ela se colocava de pé, e Solitário Ben, receoso que, após mais de uma semana de encontros escondidos, desta vez sua mãe ouvisse alguma coisa, pediu novamente para falarem apenas em sussurros.

   — Olha, assim, tipo, não fica braba, tá? Eu adorei ouvir, é demais! Quer dizer, uma guria entra pela minha janela, e me diz que sou filho da rainha de uma terra distante, e que posso salvar seu reino. É tudo que qualquer um quer ouvir. E adorei, sério. Mas eu queria conhecer você, a você de verdade.

   — Essa sou a eu de verdade, Solitário Ben — ela falou mais alto que o som da tevê, sempre ligada para disfarçar — e és filho de quem és. Mas, se preferes viver esta não-vida, é tua a decisão, não?

   Dizendo isso, indiferente aos pedidos de desculpa de Solitário Ben, e sem se despedir, Faidha saiu pela janela.

         *       *       *

    "Os dragões se alimentam de medo, e só podem ser derrotados por aqueles com um coração de dragão, como o teu". Dizendo isso, Faidha havia encostado o dedo com força na marca no peito de Solitário Ben.

    "Isso é só uma marca de nascença", ele havia dito. "Não", ela negou, balançando a cabeça, "é um sinal de que és filho de Lahara, nossa rainha. É um sinal de que descendes de dragões,  e que eles não podem se alimentar de teu medo. Nem lhe fazer mal".

    Com Faidha caída, desacordada após ser arremessada contra uma parede, e um dragão ocupando quase toda a câmara do castelo, espremendo Solitário Ben e sua espada em um canto, as palavras pareciam vazias e distantes.

   Mesmo neste momento ele não estava arrependido. Faidha disse que seria perigoso quando abriu um portal para seu mundo — mundo dos dois, ela havia dito —, provando de uma vez por todas que — palavras dela — fosse maluca ou não, não era mentirosa. Mas ele estava com medo. E o dragão se alimentava de medo.

   — Aqui não deverias ter vindo — a voz do dragão era sibilante, como se imaginaria uma cobra a falar — Ousarás lutar? Erga, então, a espada. Ataque.

   Solitário Ben levantou sua espada, presente de Faidha — mas você não vai precisar dela, vamos apenas entrar e sair, antes que o dragão nos veja — e o Dragão golpeou. Foi como se seu braço estivesse sendo arrancado.

   Quando voltou a si, estava caído, o braço sangrando, a espada jogada longe. E a pata do dragão, levantada, prestes a esmagá-lo.

   Foi quando ouviu a voz de sua mãe.

         *       *       *

   — Acaso, agora, os todo-poderosos dragões combatem simples crianças? — Era a mãe de Solitário Ben a falar. Mas parecia diferente, mais bonita, seu cabelo mais longo, um leve brilho a percorrer seu corpo. Talvez fosse apenas a tontura que agora parecia dominá-lo.

   — Simples criança um filho teu, Lady Lahara? Por nosso pacto, manterias daqui teus filhos longe. Achas que a marca de teus descendentes é proteção absoluta?

   — E acaso, Kothinotharo, uma falsa marca no peito de uma criança trocada na maternidade é suficiente para enganá-lo? Perdeste o olfato nesses longos anos? — Dito isso, o dragão aproximou sua face de Solitário Ben, até quase encostar em seu rosto.

   — Falas verdades. Uma criança humana apenas, não filho teu. Não quebrastes o pacto. Mas ousou invadir ele o meu castelo.

   — Assim como eu ousei. E a criança está sob minha proteção.  Vais me enfrentar pela vida dela?

    O Dragão pareceu hesitar um instante, antes de responder — Não. Tal dissestes, não filho teu. Partir podes, levando-o; nada por que lutar aqui.

    — E Faidha? — Solitário Ben tentou falar, mas a voz não lhe saiu. E tudo desapareceu em escuridão.

         *       *       *

    O sangue escorria de seu braço, de dois cortes profundos das garras do dragão, e caia na neve. Foi o que Solitário Ben viu, ao despertar, carregado nos braços de sua não-mãe. Mas a dor não importava. O que ia acontecer com Faidha?

   — Estamos distantes o suficiente. O portal não pode ser aberto dentro do castelo, mas suponho que isso aquela garota já lhe mostrou. Não importa, ela terá o que merece. — Dizendo isso, sua não-mãe o colocou no chão.

   — Nós temos que voltar. Não podemos deixá-la — a voz de Solitário Ben estava fraca, mas audível. Sua não-mãe fingiu não ouvir, e começou a falar em uma língua estranha, a mesma que Faidha usou, mas com mais naturalidade, e um portal se abriu na frente dos dois.

  — É hora de partirmos. — E, pegando Solitário Ben pelo braço não machucado, o arrastou consigo através do portal.

         *       *       *

   Ele se soltou de sua mãe com um movimento rápido. Saltou de volta, e o portal se fechou a suas costas. A neve macia o abraçou, recebendo-o neste mundo que não era o seu.

   Agora, estava na entrada do castelo, o mundo a girar, as pernas trêmulas. Antes, com Faidha, havia escalado uma parte desmoronada da muralha, na crença que o dragão não os perceberia.

   Não havia funcionado.

   Solitário Ben entrou no castelo em passos firmes, ignorando a tontura, e gritou.

   —  Thinoqualquercoisa! Dragão! Como quer que se chame, estou aqui!

   — Novamente desafias-me, criança?  — o som veio de trás, e ao se virar, Solitário Ben viu o rosto do dragão a centímetros do seu. Ele não recuou.

   — A garota. Deixe-a ir.

   — Vieste, garoto, por isso? Por sua amiga irás me enfrentar, quando fostes já derrotado uma vez?  — uma fumaça negra saía das narinas da criatura, quase impedindo Solitário Ben de respirar.

   — Faidha me disse que você se alimenta de nossos medos. Eu não tenho medo, dragão.

   — É doce o medo que finges não ter. Mas maior por sua amiga é ele. Eu gosto disso, da coragem tola  — e o Dragão encosta sua pata no coração de Solitário Ben, na marca — falsa marca — de nascença.

   — A garota, Faidha...

   — O povo de sua não-mãe, em falsas lendas, chama quem carrega a marca que imitas de descendentes de dragões. Acreditam, talvez, verdade. É marca, porém, apenas daqueles - e seus filhos - que, de um dragão, conquistaram respeito.

   — Você vai deixá-la ir?

   — Sim. E um outro presente lhe dou também.

   E um calor começou a crescer no peito de Solitário Ben, até se espalhar por todo seu corpo e consumi-lo por completo. E tudo se tornou fogo.

         *       *       *

   Solitário Ben ficou apenas poucos dias na casa que outrora considerou sua. Estava tão fraco, ao chegar, que não teria conseguido dar mais que poucos passos.

   Agora, mochila nas costas, braço em tipoia, um último abraço a despedida de sua não-mãe, atravessou o portão de sua casa. Não temia mais o sol. Fosse mentira de sua não-mãe, ou curado estivesse pelo dragão, ou mesmo que o sol o queimasse por inteiro, ele não tinha mais medo.

   À sua espera, também uma mochila nas costas, Faidha.

   — Vamos, Ben. Que mundo vamos visitar primeiro?

   —  Ué, não sou mais "Solitário" Ben?

   Faidha nada falou, apenas segurou sua mão, seu sorriso a resposta que os acompanhou na jornada por todos os mundos:

   —  Não enquanto tiveres a mim.



domingo, 13 de julho de 2014

O Futuro Rei - Revisão 1

   - Falta muito para chegarmos em Kelliwic? - durante dois dias, o que meu irmão adotivo mais fez foi se queixar e reclamar. Eu lembrei-o uma vez mais que ele só veio comigo porque insistiu, e porque me pegou escapando em silêncio, à noite, de nossa casa. Mesmo assim, ele não se calou.
   - Por que Merlin não veio conosco? – Era preocupante a influência de Merlin sobre meu irmão, na verdade sobre todos nós. Ele havia surgido em nosso castelo, ninguém sabe vindo de onde, e anunciado que seria nosso mentor, meu e de meu irmão. No início, nosso pai não quis permitir, mas uma demonstração dos poderes mágicos do feiticeiro foi o suficiente para convencê-lo que era melhor fazer suas vontades.
   - Acho que Merlin não acredita que vou conseguir tirar a espada da pedra –respondi, pensando na conversa que tive com o feiticeiro, antes de partir para Kelliwic - Ele vai aparecer quando eu tiver a espada, você vai ver.
  Nós seguimos pelo caminho, meu irmão ora a se queixar, ora a fazer perguntas que eu não saberia responder. O primeiro dia de jornada havia sido tranquilo, mas depois que pegamos a estrada de Kelliwic as árvores foram ficando cerradas, a estrada mais deserta, e meu irmão mais e mais nervoso.
   - Você disse mesmo para Merlin que vai ser Rei da Inglaterra? – meu irmão me perguntou, reiniciando sua conversa, mais para se acalmar, eu suponho. Nunca havíamos viajado para tão longe de nosso castelo.
   Eu fingi que não o ouvi. Responder só iria encorajá-lo a continuar sua interminável lista de perguntas. Mas me vi lembrando minha conversa com Merlin.

 *  *  *

   - Feiticeiro, descobri qual será meu destino! - Eu cheguei ofegante, o fôlego me faltando depois de subir correndo as escadarias que levavam a sua torre, no alto de nosso castelo, naquele que foi o último dia antes de minha jornada para Kelliwic.
   O mago olhou para mim, sem demonstrar surpresa. Sua mão direita percorreu a longa barba branca. Seus olhos, penetrantes e misteriosos, me olharam de alto a baixo. Ele sorriu, mas só um tolo veria alegria em seu rosto.
   - É mesmo, jovem aprendiz de cavaleiro? Deixe-me adivinhar – ele fingiu estar pensando – Descobriu que seu destino é ser um cavaleiro?
   - Meu destino é ser o Rei de toda a Inglaterra. – Minha tentativa de causar impacto caiu no vazio. Novamente, sua única reação foi mover calmamente a mão pela sua barba.
   - Um destino interessante, sem dúvida. E como foi esta descoberta? Sonhou com um palácio ou um trono, e acordou acreditando que se tornaria Rei?
   - Não, eu apenas descobri o que fazer com os poderes que me ensinou a usar.
   - Ah, sim, o poder que despertamos em você na nossa última aula. De fato é raro seu poder de falar com objetos inanimados. – Senti um calafrio percorrer meu corpo ao me lembrar da faca que falou comigo, como uma voz em minha mente – E pretende se tornar Rei com este poder? Se contar a alguém, é mais provável que acabe em uma fogueira que em um trono.
   - Não, feiticeiro, não pretendo contar a ninguém. Pretendo usar meu poder para falar com Caledfwlch e descobrir como cumprir a profecia e me tornar Rei. Foi para isto que você veio me ensinar, não? Você disse que eu teria um grande destino, e que você me ajudaria a alcançá-lo.
   - Eu disse que alguém nesta casa teria um grande destino, não que seria você. E certamente não vim para ajudá-lo a puxar uma espada cravada no chão.
   - Caledfwlch é mais do que isto, feiticeiro. Ela é a espada da profecia. Com ela nas mãos, e você ao meu lado, eu posso sim ser o Rei da Inglaterra.
   - Sim – o feiticeiro concordou, balançando a cabeça, pensativo – sim, creio que você poderia se tornar o Rei. É até possível que tirar Excalibur da bigorna e da pedra seja de fato seu destino. Mas não espere minha ajuda para isto. Eu não vi um futuro em que guiá-lo em seu reinado seria o destino de Merlin.
   E assim, foi sozinho, ou pelo menos teria sido se meu irmão não tivesse me seguido, que fiz a jornada em direção a Kelliwic, para tirar Caledfwlch de sua bigorna, e cumprir a profecia de me tornar Rei da Inglaterra.

  *  *  *

   - Veja - ao chegarmos a uma curva na estrada eu apontei para o alto de uma colina, para o castelo agora visível - Ali está o castelo de Kelliwic, ou melhor, as ruínas dele.
   - Uau - meu irmão nunca havia visto um castelo, e eu tinha que admitir que, mesmo em ruínas, era uma edificação impressionante. - Quem o construiu?
   - Ninguém sabe. Alguns dizem que foram os romanos, alguns dizem que o castelo já estava aqui antes mesmo deles. Mas ninguém mais vem aqui desde que o Rei Uther morreu. Ninguém exceto quem, como nós, busca retirar Caledfwlch da bigorna e da pedra.
   Mais algumas milhas e chegamos às ruínas do castelo. Em seu pátio central estava Caledfwlch, a espada que Merlin chamou de Excalibur, a lendária arma do grande Rei Uther. Com um gesto, eu indiquei para meu irmão aguardar, e caminhei até a espada.
   Respirei fundo uma, duas, três vezes, e então segurei a espada com minha mão direita, e neste instante, levado por uma magia como nunca vi igual, me encontrei em outro lugar, em outro castelo.
   - Onde estou? - eu apenas pensei, e então ouvi uma voz em minha mente, a voz de Caledfwlch. E a voz me respondeu com apenas uma palavra: "Camelot".
   Imagens passaram por mim, como se eu estivesse sonhando. Não, como se estivesse lembrando um sonho há muito esquecido. Eu me vi como Rei, e abri um sorriso ao pensar que meu desejo era agora realidade. Mas meu sorriso se fechou no instante seguinte.
   Eu vi a mulher mais linda de todas. "Gwenhwyfar", a voz da espada ecoou novamente em minha mente. E vi ela fingir me amar, apenas para me trair com meu mais valoroso cavaleiro.
   E vi um filho nascer, se tornar homem, e então se voltar contra mim e me enfrentar em batalha mortal. Eu o vi morrer.
   Vi camelot cair, vítima de traições. Vi meus cavaleiros se perderem na busca de uma relíquia sagrada. Mais e mais imagens eu vi, imagens de tragédias e morte.
   Eu fechei os olhos, abri-os, e estava novamente nas ruínas de Kelliwic, a espada ainda em minha mão, ainda cravada na pedra. Eu pensei nas tragédias que me aguardavam, e então me lembrei das palavras de Merlin, e de por que ele não me acompanhou.
   - Espada - eu falei apenas em minha mente, sabendo que Caledfwlch podia me ouvir - Diga-me como você pode ser tirada da bigorna e da pedra.
   - Nomeie meu mestre, e ele, somente ele, poderá me empunhar.
   - Eu nomeio seu mestre - no momento que disse isto, em pensamento, um vento forte começou a soprar, vindo de lugar algum - e seu mestre é e sempre será Arthur, que se tornará Arthur Pendragon, descendente por direito do Rei Uther.
   - Esta feito - a voz da espada ecoou uma última vez em minha mente, e então se silenciou. O vento cessou. Nada se moveu.
   Eu respirei fundo, só então percebendo que havia trancado minha respiração, e então, com toda a força, puxei a espada da pedra. E puxei uma vez mais, agora com as duas mãos. E a espada permaneceu imóvel.
   - Esta espada não é para mim - eu falei em voz alta, me virando para meu irmão - agora é a sua vez de tentar, Arthur.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Um Estranho Mundo - Capítulo 4


Capítulo IV
"Qualquer raciocínio científico levaria a conclusão que a presença de seres semelhantes ao homem era a prova que eu estava na Terra, ou pelo menos um mundo de descendentes de humanos. Ao contrário, a presença dos Lepare é que me pareceu provar que eu estava em outro mundo, ignorando todas as semelhanças deles com homens. Talvez minha mente incompleta estivesse simplesmente aceitando o raciocínio simplista de livros e filmes que vi quando criança. Ou talvez aceitar o local e o tempo em que eu estava me levassem a questionamentos que minha mente não estivesse preparada para aceitar naquele momento. É claro, eu estava prestes a ter novas evidências que desafiariam meu raciocínio simplista, mas a mente humana sempre é capaz de criar novas fantasias para o inexplicável".

   Nós caminhamos por talvez uma hora, seguindo pela estrada. A garota e o homem-leopardo que havia falado com ela cavalgavam juntos, ao meu lado, enquanto eu caminhava a pé. Os demais seguiam a frente e atrás, e percebi que olhavam continuamente para a floresta, claramente atentos para ver se havia algum movimento.
   Para meu desapontamento, pois queria descobrir o que pudesse sobre eles, estas criaturas seguiam principalmente em silêncio. Quando falavam, a voz era baixa, mas felizmente, mesmo quando mal conseguia ouvir, a tradução surgia automaticamente em minha mente.
   - Você acha que o humano pode nos dar alguma pista de por que estamos aqui? – o homem-leopardo falou em um quase sussurro, aproximando um pouco mais seu cavalo do da garota.
   - Só vou saber quando conseguirmos falar com ele. Isto se Koro nos deixar – ela olhou para mim enquanto falava, depois continuou – é óbvio que ele não é Arugenanchi. Mesmo esquecendo as roupas, ele não fala a língua deles, tenho certeza. Você precisa convencer Koro a não matá-lo, pelo menos não até termos certeza que ele não foi enviado pelos deuses.
   Eu me esforcei para não estremecer ao ouvir que estavam pensando em me matar. Subitamente, entender este povo e o que eles pretendiam se tornou crucial. Será que eles entenderiam se eu falasse, da mesma forma que eu entendia eles? O único jeito de ter certeza era tentar me comunicar, mas se eles me entendessem, eu perderia a vantagem de me deixarem ouvir suas conversas.
   Eu decidi continuar em silêncio, mas passei a prestar atenção não apenas na tradução que aparecia em minha mente, mas também nas palavras em si.
   - Você conhece o pacto. Estas são nossas terras, e temos o direito de matar qualquer humano encontrado aqui, mesmo que não seja Arugenanchi. – Eu tentei separar as palavras, identificar uma ou duas para começar a entender a língua deste povo, mas eles falavam muito rápido.
   - Sim, eu conheço o pacto. Mas ele não nos obriga a matar ninguém, só nos dá o direito. Nós nem sabemos se ele é um inimigo. – Eu tinha que começar aos poucos. Entender a língua deles poderia ser a diferença entre viver e morrer. A primeira palavra que ela disse talvez fosse ‘sim’. ‘Rai’, eu repeti mentalmente, e a tradução veio no mesmo instante, da mesma forma que quando ela falava. ‘Rai’ era sim. Eu tentei fazer o contrário, pensei em ‘não’, mas não me veio nenhuma informação. Aparentemente, esta tradução mágica só funcionava em um sentido.
   Como eles ficaram em silêncio após sua rápida conversa, me vi refletindo sobre estas ‘mágicas’. Como ela havia me curado? Como, agora, eu tinha esta tradução aparecendo na minha mente quando eles falavam? Eu não queria acreditar em mágicas, mas também não conseguia imaginar uma explicação racional.
   - Estamos chegando, Shiri. Você acha que consegue se comunicar com o humano? – Shiri, eu pensei, tentando memorizar o nome. Pelo menos agora sabia como a jovem se chamava.
   - Não. As linguagens que ele fala são muito diferentes de Lepare e Arugenanchi. Vai levar um dia inteiro para os deuses nos darem o poder de entender o que ele diz – Pelo menos ela me deu a oportunidade de entender o “não”. “Ie”. A tradução não veio, então me lembrei que o i era mais comprido. “iie”, eu repeti mentalmente, e veio a tradução como “não”. E um calafrio percorreu meu corpo. Minhas pernas fraquejaram, e, pela primeira vez desde que ela me curou, o mundo voltou a girar ao meu redor.
   “Hai”. Sim. “Iie”. Não. Ou era muita coincidência, ou eu sabia que linguagem eles estavam falando. Era japonês. Isto era impossível.
   - Tente mesmo assim. – “Tentar o que?”, eu pensei, distraído com minha própria surpresa. Meu corpo tremendo e um pavor ameaçando tomar conta de mim. Ambos haviam parado seus cavalos, e olhavam para mim agora.
   - Humano, se você pode me entender, fale conosco agora. Sua vida pode depender disto – eu hesitei. Falar faria eu perder minha única vantagem, mas também não havia aprendido muita coisa até agora, e eles realmente haviam dito que provavelmente me matariam antes de conseguirem se comunicar comigo.
   - Sim, eu consigo entender vocês – eu respondi e esperei a reação deles, mas, para minha surpresa, percebi apenas confusão no olhar dos dois. Quando eles falaram novamente, eu entendi que nossa comunicação continuava sendo em um único sentido.
   - É inútil, Dao. Não entendo nada do que ele diz, os deuses ainda não me trazem suas palavras. Como disse, vai levar horas para podermos falar com ele. – Dao. Eu agora também sabia o nome daquele que parecia ser o líder deste grupo. “Mas ambos parecem estar abaixo deste Koro, que acham que vai querer me matar”, lembrei.
   - Então teremos que convencer Koro a lhe dar estas horas, Shiri. Não será fácil. – dizendo isto, ele puxou as rédeas de seu cavalo e partiu. Shiri apontou com um gesto para que eu continuasse caminhando, e seguiu atrás de mim.

* * *
   Se eu pudesse tomar como base expressões e atitudes humanas para entender estes estranhos seres que me capturaram, definitivamente a relação de Shiri e Dao com este Koro não era amistosa, embora também me parecesse que pelo menos Dao não deixasse isto transparecer. Felizmente para mim, Shiri não parecia ter ressalvas em confrontá-lo.
   Havíamos recém chegado ao acampamento, que nada mais era que algumas tendas e uma fogueira no centro, quando Koro se aproximou a cavalo e Dao se afastou de nós e foi conversar com ele. Cada vez era mais óbvio para mim que Dao era o líder do pequeno grupo que me prendera, mas Koro era o líder de todo o acampamento. Qual a posição de Shiri e quanta influência ela tinha nos demais era ainda um mistério para mim, mas eu tinha a nítida impressão que provavelmente tal questão definiria minha sobrevivência.
   Koro se aproximou de nós, seguido por Dao. Seu rosto não me pareceu muito diferente de Dao, mas a pele era um pouco mais escura e a juba completamente negra, o que tornava a diferença entre eles bem visível.
   - Então este é o humano que você deixou viver? – sua voz parecia mais firme e impositiva do que de qualquer dos outros que ouvi. Ele tornou claro, não apenas na frase mas na forma que olhava para Dao, que estava se dirigindo apenas a ele, ignorando Shiri.
   - Julgamos melhor deixar a decisão para o senhor – Dao respondeu, de forma solicita. Se eu ainda tivesse alguma dúvida, seria óbvio agora que Koro era seu superior.
   - Na verdade, acreditamos que não há motivo para matá-lo antes de ouvir o que tem a dizer – Shiri imediatamente se intrometeu, enquanto aproximava o cavalo dos dois, se colocando entre Koro e eu – ele não é Arugenanchi. Talvez seja até mesmo um enviado dos deuses.
   - Os deuses nos abandonaram, esqueceu? O que eles vão fazer se matarmos um enviado deles? Nos amaldiçoar novamente? – Enquanto falava, Koro desmontava de seu cavalo.
   - Se tivessem realmente nos abandonado, eu teria meus poderes? Ou como você explica todas as curas que já realizei? – Shiri também desmontou de seu cavalo, novamente se colocando entre eu e Koro. Ele desembainhou uma grande espada que estava em uma bainha presa em seu cavalo, segurando-a com as duas mãos. Imaginei que era uma espada grande demais para ser usada em uma única mão. Eu dei um passo para trás, me afastando dos dois e pensando se teria como correr e me esconder em algum lugar, mas era uma esperança vazia, eu sabia. Mesmo se não estivesse amarrado, qual minha chance de escapar de criaturas montadas a cavalo?
   - Eu deixo a teologia para você, Shiri, e você deixa os assuntos militares para mim. Saia do caminho, e deixe-me lidar com este humano de acordo com o pacto.
   - Se ele for um enviado dos deuses, pode ser nossa última oportunidade de perdão. Quem pode dizer que não fomos enviados para busca-lo? – Era cada vez mais óbvio que minha vida dependeria de quem levasse a melhor na discussão. Eu tentava desesperadamente lembrar de algumas palavras em japonês, se é que era a linguagem que eles falavam, mas nada me vinha a mente.
   - Se ele fosse um enviado dos deuses, não saberia falar Lepare? Dao me disse que ele não fala nem Lepare nem Arugenanchi. Como você explica isto?
   Shiri hesitou, e eu percebi que ela estava perdendo a discussão – mesmo que ele não tenha sido enviado pelos deuses, não quer dizer que não possamos aprender com ele. Devemos pelo menos esperar até que eu consiga me comunicar – Eu pude perceber que, embora argumentasse, o tom de sua voz já continha uma certa resignação.
   - É perigoso demais. Você não sabe que tipo de poderes ele pode ter. Neste momento mesmo ele pode estar se preparando para nos atacar – Atacá-los, me perguntei, surpreso. Que tipo de perigo eu poderia oferecer a estas criaturas? Mas eu sabia que precisava tentar alguma coisa, que meu tempo estava acabando.
   - IIE – eu disse, a voz bem alta. Não. Ambos olharam para mim, surpresos.
   - Você entende o que estamos falando? – Shiri perguntou
   - HAI – sim.
   - Você havia dito que ele não falava Lepare! – Os olhos de Koro se estreitanto enquanto olhava para mim, a desconfiança visível em seu rosto.
   - Ele não fala, tenho certeza. E deveria levar horas para os deuses começarem a revelar para ele nossas palavras. Não entendo. – E então, se virou novamente para mim – Você fala Lepare.
   - IIE – eu disse, e depois continuei em minha própria língua, pois “sim” e “não” eram as únicas palavras que conhecia – eu não falo a língua de vocês, mas entendo tudo que vocês dizem, desde que você me tocou.
   - Você consegue entender o que ele fala?
   - Não, Lorde Koro, os deuses ainda vão demorar para me dar este poder. Mas é óbvio que ele nos entende. Os deuses estão falando com ele, com certeza. Você entende o que isto significa? – e, como Koro nada respondeu, ela continuou – faz pouco mais de uma hora que eu convoquei o poder da fala, e ele não fala nenhuma língua parecida com Lepare, tanto que ainda não consigo entende-lo. Ele é um escolhido dos deuses, talvez enviado por eles. É a única explicação.
   - Você está inventando uma explicação. Talvez ele apenas já tivesse recebido a dadiva de entender Lepare.
   - E de quem ele receberia esta dádiva? Quem, além de mim, entre os Lepare, tem o dom da fala? Se ele próprio tivesse este poder, eu teria percebido. De todo modo, como você disse, a Teologia é minha responsabilidade, e eu digo que ele é um enviado dos deuses.
   Eu nem acreditei quando Koro baixou sua espada, não me parecia que ela estava tendo sucesso em convencê-lo. O que importava é que eu iria viver. E devia minha vida a Shiri.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O Último Rei Orco - Prólogo


   O corvo surgiu acima das nuvens, vindo do vazio nas fronteiras da criação, e começou a cair com velocidade, suas asas encostadas no corpo, os olhos fechados, as areias do deserto na beirada do mundo se aproximando mais e mais. Apenas quando o choque com o chão pareceria inevitável a quem estivesse a olhar – e tal não havia, nem criaturas nem deuses – ele abriu seus olhos, como se tivesse acabado de despertar, e, sem emitir som nenhum, começou a bater as asas até ganhar altitude, e então pôs-se a planar em uma corrente de vento.
   Ele voou veloz, carregado pelo vento, acima das areias que circulavam a fronteira do mundo, acompanhando a circunferência da terra, conhecendo todos os limites de um planeta ainda plano, ainda uma fração minúscula do que viria a ser. O mundo era jovem e mal havia começado a crescer para além da primeira árvore.
   Quase nada havia para ver, o chão abaixo do corvo areia sem fim, monótona e imperturbável. À sua esquerda, a uma distância impossível precisar, mas imutável, apenas o vazio de uma existência ainda não criada.  Somente à direita, bem distante no horizonte, o corvo podia ver algum cenário, como montanhas com cumes cobertos de neve ou a leve coloração verde de florestas.
   E assim foi que o corvo voou planando em correntes de ar, batendo suas asas apenas o mínimo necessário, até voltar a seu ponto de partida, tendo circundado todo o mundo.
   E este foi o primeiro dia.
   O corvo, então, mudou seu rumo, partindo na direção do centro do mundo, suas asas agora batendo velozes, o olhar fixo no horizonte, que começava a ganhar nova forma até se mostrar uma cadeia de montanha, a maior entre todas as do jovem mundo. Ganhando altitude a cada movimento de suas asas, o instinto lhe dizendo como aproveitar cada corrente de ar, em pouco tempo o corvo estava mais alto que a montanha mais alta, o frio da altitude não o incomodando, imensamente mais quente que o frio do nada de onde ele surgiu.
   Nas áridas montanhas quase não havia vida. Esta, que se espalhava a partir da primeira árvore, aparentemente não havia chegado até tão longe. Mas havia sons, um barulho de luta, crepitar de fogo, e o corvo soube que havia algo ali para ele presenciar, o motivo que o atraíra a montanha.
   Pousando em uma pedra perto da base da montanha, a primeira vez que o corvo tocava o solo deste mundo, ele pôs-se a observar o duelo mortal a sua frente. O dragão estava ferido e quase sem forças, as últimas labaredas que saiam de sua boca já fracas, mostrando que em breve ele não teria mais como guspir fogo. O orço com quem ele duelava igualmente no limite, feridas por todo corpo, cortes feitos pelas garras e cauda do dragão.
   O corvo observou em silêncio, sem fazer um único movimento, enquanto o combate se definia. O orço desviando-se de um ataque no último instante, para aproveitar e cravar fundo uma faca no pescoço do dragão. Este, fingindo estar agonizando para, em um movimento inesperado, gravar seus dentes na mão do guerreiro, arrancando-a com uma última dentada, apenas para ter o machado, em resposta, cravando-se em seu crânio.
   Com o combate encerrado, o orço se aproximou com sua faca da cabeça do dragão, e começou a usá-la para arrancar um de seus olhos. Tendo visto tudo que havia para ver ali, o corvo alçou vôo novamente.
   Para além do pé da montanha o corvo começou a ver sinais mais definitivos de vida, primeiro marcas verdes nas pedras, depois pequenas plantas, que se transformaram em uma floresta. Já era a noite do segundo dia, e o corvo voava por entre as árvores, sem sentir sono, fome ou cansaço, ainda não totalmente pertencente a este mundo para compartilhar das fragilidades das criações dos deuses. Desta vez o que o atraíra era uma canção na voz de uma elfa, e ele pousou pela segunda vez, agora no galho de uma árvore.
   A elfa o esperava, uma taça vazia em sua mão, gotas de soma escorrendo por entre seus lábios, o olhar perdido no horizonte. Ela parou de cantar.
   Soma era a bebida dos deuses do centro do mundo, e estes não poderiam saber de sua presença, mas a elfa era uma aliada, e ele grasnou - a primeira vez que emitia algum som – e sua voz trouxe a ela uma visão. E então o corvo partiu uma vez mais.
   E assim terminou o segundo dia.
   Para além da floresta onde os últimos elfos haviam se refugiado o corvo voou, seguindo o caminho trilhado pela raça agonizante em fuga, passando por campos queimados e abrigos destruídos, o sinal de guerra e destruição cada vez mais presentes.
   Por fim, novas ruínas começaram a surgir, diferentes dos abrigos elfos abandonados em meio a florestas, e o corvo soube que eram as cidades humanas. Uma ruína após outra o corvo encontrou, até chegar ao deserto de pedra no centro do mundo, e o corvo soube que estava próximo de seu destino, mas o terceiro dia ainda demoraria a terminar. Assim, uma vez mais o corvo pôs-se a voar ao redor de um deserto, desta vez o deserto no centro do mundo.
   A primeira cidade humana intocada que o corvo viu estava na fronteira do deserto de pedra, mas ele soube que nada havia ali de seu interesse, e não parou para lhe prestar atenção. A segunda cidade estava mais longe do deserto, e o corvo nem a perceberia, mas algo ali o atraiu, mesmo tendo ele já visto tudo que havia viajado para ver, e ele se pôs a voar na direção da primeira cidade do homem.
   Foi dentro dos muros, no alto de uma das torres da casa mais alta da cidade que o corvo pousou, quase hipnotizado pelo som que vinha de uma flauta tocada por uma mulher. Ela fingiu não olhar para ele, nem interrompeu sua música, e o corvo permaneceu a observar, curioso, certo que o instrumento que ela tocava havia sido criado por um dos deuses, quando uma dor súbita o atingiu, a primeira dor que ele havia sentido desde que entrara neste mundo.
   A mulher ainda permanecia a tocar, e o corvo se virou para ver uma criança a segurar um arco, cuja flecha recém lançada estava cravada em seu corpo, origem de sua dor. Com estranha dificuldade, o corvo abriu suas asas e partiu, a flecha pendurada em si, mortal se ele fosse uma criação deste mundo. Com dificuldade, ele se dirigiu direto ao centro do mundo, ciente de quão perto estivera de fracassar, deixando a primeira cidade do homem, a mulher e a criança para trás.
      No centro do mundo, o corvo pousou na primeira árvore, a flecha ainda trespassando seu corpo, seus olhos fixos em Wotan, que ali estava, crucificado. Ele se aproximou, e com o bico comeu seu olho esquerdo, o pagamento pelos pensamentos e memórias que então entregou com seu grasnado.
   Neste instante, Wotan se soltou da árvore, quase que sem esforço, e caiu de pé no chão, suas mãos e pés com as marcas da crucificação, e o corvo voou para seu ombro.
   Wotan se virou e agarrou um galho da árvore, e então, parecendo agora sim fazer grande força, o quebrou e usou para se apoiar no chão.
   E assim terminou o terceiro dia.

sábado, 24 de novembro de 2012

Niq de Alashiya e a Cidade das Três Deusas - 3


   O vento soprava forte no alto da torre norte do templo das três deusas, não encontrando árvore, construção ou elevação em seu caminho que lhe tirasse força. Quente e úmido, anunciava a chegada das chuvas.
   Ele fazia corrrer soltos os longos cabelos tingidos de preto de Shahad, a segunda das três, que olhava o porto de Kilquitai, e o distante mar, perdida em pensamentos.
   O vento também tocava o rosto e o corpo de Ishaad, a primeira das três, balançando apenas seu manto, o cabelo grisalho preso em uma armação de pérolas. Ela não olhava nem o mar, nem o porto, mas seus pensamentos estavam igualmente distantes.
   "Eles sempre foram assim, primeira de nós? Sempre foram tão arrogantes, e eu que não percebia?", a voz de Shahad baixa o bastante para não ser levada pelo vento, mas com um tom claro de irritação.
   "Quando eu era Shayin, eles se prostravam a nossos pés sem hesitar um instante, como todos os nossos filhos. Naquela época qualquer homem ou mulher de Kilquitai entregaria feliz o primogênito em sacrificio, se Ishaad assim comandasse", o olhar de Ishaad distante, enxergando não o aqui e agora, mas o passado distante.
   "Quando eu me tornei Shahad, e você se tornou Shayin", ela continuou, "eles começaram a se sentir mais poderosos, acima dos outros de nossos filhos. Ishaad e eu nos perguntávamos o que seria o futuro, se continuassem a seguir este caminho. Eles se tornavam mais arrogantes a cada dia, muitas vezes faltavam com o respeito a mim. Apenas Ishaad sabia como colocá-los em seu devido lugar".
   "E agora está pior do que nunca". Shahad disse, a voz cansada.
   "E agora está pior do que nunca", concordou Ishaad, "desde a passagem. Desde que me tornei Ishaad e você se tornou Shahad. Eles fazem as reverências corretas, prometem obediência eterna, mas posso sentir no olhar que me enxergam como se eu ainda fosse Shahad, como se não me devessem o mesmo respeito da que veio antes de mim."
   "E a mim eles tratam como se eu ainda fosse Shayin, uma criança e não a mãe de todos eles. Isto é intolerável. Algo terá que ser feito."
   "Algo será feito. Shayin está orando. Ela verá com a visão pura da deusa, e nos trará respostas. Iremos ouvir, e então decidir o que fazer."
   "Seja o que for, terá que ser uma lição que eles não esquecerão. Uma lição que seja lembrada por seus filhos, e pelos filhos de seus filhos. Que nunca os faça seguir novamente por este caminho de arrogância. Malditos mercadores."
   "Malditos mercadores.", concordou Ishaad.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Niq de Alashiya e a Cidade das Três Deusas - 2

   Niq cresceu ouvindo histórias do mundo para além de Alashiya, com gigantes de um olho só e três metros de altura, e criaturas metade homem, metade cavalo. Cidades feitas de ouro, e torres mais altas que o céu. Espadas encantadas, eternamente afiadas e mais fortes que o mais forte bronze, e mulheres guerreiras que venciam até o mais destemido dos homens.
   Foi o que ele contou para Arguil, quando este lhe perguntou o que ele sabia do mundo para além de Alashiya. A resposta de seu pai foi gargalhar. "Fiz bem em trazê-lo comigo, antes que enchessem ainda mais sua cabeça de bobagens".
   E então seu pai começou a ensiná-lo, todas as noites, sobre cada uma das cidades que ele visitou. Seu pai, que mal havia lhe dirigido a palavra, durante toda sua vida, e que sempre lhe inspirou mais temor que afeição, agora mostrava um novo lado: Arguil contador de histórias.
   Foi um aprendizado, mas como nenhum outro que Niq teve em sua vida, diferente até mesmo das lições de seu tio Magreb. Para seu pai, cada cidade era uma história, e a cada noite ele contava sobre um povo, sua lingua e costumes, que deuses eles obedeciam, e também coisas que Niq não entendia totalmente. Quem era o verdadeiro poder em cada cidade, quem desejava obter este poder, que outras cidades eram aliadas, quais eram inimigas.
   "Não confie em ninguém que não nasceu em Alashiya", seu pai lhe disse, " e talvez nem mesmo nos que nasceram em nossa terra. Até o homem mais leal pode ser comprado pelo preço certo". Niq não acreditou nisto, mas não teve coragem de questionar seu pai.
   Assim, ele sabia o que esperar no porto de Kilquitai, mas a realidade da primeira cidade que ele viu fora de Alashiya não pôde deixar de decepcioná-lo. Não era maior, talvez mesmo fosse menor que sua cidade natal, e não havia grande movimento no porto. Apenas as construções tinham uma forma diferente, telhados mais pontudos, paredes mais coloridas.
   "Veja, Niq! Olhe os navios, como são diferentes! E as pessoas, olhe as roupas que estão usando!", ele quase deu um pulo, tão distraído que não percebeu Ashiderey a seu lado. Era difícil acreditar que seu amigo já tinha quinze anos, ele sempre falava com o entusiasmo e deslumbramento de uma criança, e Niq suspirou.
   "Os navios são mais lentos que os que construímos em Alashiya, Ashi. Arguil disse que nenhum consegue viajar para tão longe quanto nossos barcos. E as roupas são como se vestem em todas as cidades desta costa."
   "Arguil disse isto, Arguil disse aquilo. É tudo que ouço de você desde que subimos a bordo", Ashiderey respondeu, frustrado com Niq. Ambos estavam em sua primeira viagem, e ele não conseguia entender por que seu amigo não estava igualmente empolgado.
   "Desculpe. Vamos, ainda temos que convencer meu pai a nos deixar descer junto com os outros marinheiros, quando aportarmos".
   Foi Ashiderey que falou, tentando soar como um marinheiro veterano  se dirigindo ao capitão do navio. Niq havia visto como os marinheiros falavam com seu pai, o tom informal e geralmente recheado de blasfêmias, e não se parecia em nada com a tentativa de Ashi de parecer um tripulante experiente, mas ele achou melhor não comentar.
   "Capitão, pedimos permissão para descer em Kilquitai, quando o navio aportar".
   Arguil primeiro olhou para eles, em silêncio, e ambos se encolheram, involuntariamente. Depois suspirou.
   "Não se afastem dos outros marinheiros, não falem com ninguém que não lhes dirigiar a palavra. Não falem nada sobre nossa carga ou para onde vamos depois de Kilquitai", e então ele dirigiu o olhar diretamente para Niq, "você vai esperar no navio até termos uma resposta da audiência com as deusas. Se for hoje, não quero ter que procurar por você no porto".
   Niq hesitou, em um primeiro instante frustrado, mas então entendeu melhor o que havia sido dito, "você quer dizer que eu vou ir junto?".
   Arguil não respondeu sua pergunta, apenas mandou que voltassem as suas atividades. Havia muito para fazer enquanto o navio se aproximava do porto.
   "Vamos fazer assim, eu conto tudo que vir no porto, e você me conta como é o templo das deusas, está bem?", sugeriu Ashi, e Niq concordou com um gesto, ainda em dúvida se seu sentimento era de fustração por ter que aguardar no navio, ou ansiedade por em breve acompanhar seu pai em uma audiência oficial.

domingo, 18 de novembro de 2012

Niq de Alashiya e a Cidade das Três Deusas - 1

   O navio cruzava as ondas do grande mar, a costa sempre à direita, nunca por muito tempo além do que alcança a vista. Histórias de embarcações que se perderam para nunca mais encontrar terra no pensamento de cada marinheiro. O oceano sem fim a esquerda, povoado por polvos do tamanho de palácios e criaturas metade mulher, metade peixe, que atraiam mesmo o mais destemido homem para as profundezas.
   O vento soprava forte e constante, garantindo o descanso dos remadores, mas não sua tranquilidade, atentos que estavam ao primeiro sinal de que poderia se transformar em tempestade. Mais que sereias e polvos e mesmo o mar sem fim, era Ardoth, deus das tormentas, que mais aterrorizava os experientes marinheiros, e não poucos dividiam as oferendas igualmente entre ele e Marguth, deus do mar, ainda que em segredo. Marguth era um deus ciumento.
   Apenas as oferendas a Alashiya eram feitas abertamente por todos, pois Alashiya era o protetor de sua cidade, e nenhum outro deus se ofenderia.
   Na proa do navio, de braços cruzados, cabelos e barbas curtos, uma cicatriz iniciando na orelha esquerda e descendo até desaparecer entre as roupas, Arguil filho de Argail permanecia, indiferente ao vento e ao frio. Os olhos no horizonte, atentos, ostensivamente ignorando o jovem a seu lado.
   Niq, filho de Arguil, dividia-se entre sentimentos de admiração e medo pelo marinheiro que ele pouco conhecia. Era sua primeira vez no grande mar, e ele persistia a lutar contra o enjôo da viagem, que o fizera vezes sem conta despejar no oceano tudo que havia ingerido. Pior que o mal estar, era seu medo de decepcionar o pai e o receio de que não permitisse que o acompanhasse novamente. Era com quinze anos que os filhos da casa de Argail saiam ao mar, e Niq ainda estava um inverno e meio verão distante desta data.
   "Com apenas mulheres em casa e nenhum primo vivo, pelo menos nenhum que preste, já passou da hora de partires comigo", havia dito seu pai, na última vez que seu navio voltou para Alashiya. Niq pensou em dizer que seu tio, Magreb, levava-o para pescar em seu pequeno barco e estava ensinando-o a lutar com espada e lança, mas não teve coragem e preferiu ficar em silêncio. Magreb era irmão de sua mãe, e não parecia haver amizade ou respeito entre ele e seu pai.
   Sua mãe chorou quando se despediu,e Niq teve vontade de fazer o mesmo, mas sabia que isto traria vergonha a casa de Argail, e por isto despediu-se sem demonstrar seu medo. Apenas no navio, à noite, certo que ninguém perceberia, ele chorou em silêncio, no terceiro dia no mar.
   "Antes do final do dia, chegaremos ao porto de Kilquitai", Arguil falou, sem olhar para ninguém, os olhos sempre fixos no mar sem fim, mas Niq sabia que era a ele que seu pai se dirigia, "diga-me o que lhe ensinei sobre esta cidade".
   Niq humedeceu os lábios com a lingua, guspiu no convés para garantir que os antepassados estariam despertos e prontos para ajudá-lo a responder, e falou tentando imitar o estilo controlado de seu pai, "Kilquitai é nossa primeira parada, saindo de Alashiya, quando pegamos a rota do norte. Nós deixamos armas e peças de bronze com os servos do templo das três deusas, e recebemos nosso pagamento na viagem de volta."
   "E o que mais?"
   Niq hesitou, pensando em tudo que seu pai lhe falou durante os últimos dias. Arguil falava apenas uma vez sobre cada cidade que conhecia, e esperava que seu filho decorasse e repetisse tudo sem erro. Niq sabia que nunca atenderia as expectativas de seu pai.
   "As três deusas exigem que todo comércio com outros povos seja feito apenas através delas, mas nós também vendemos armas diretamente para os comerciantes".
   "E por que fazemos isto?"
   "Eles pagam mais?", Niq respondeu, hesitante. Seu pai apenas balançou a cabeça.
   "Eles pagam mais, mas este não é o verdadeiro motivo. É perigoso desobedecer as deusas de Kilquitai, mas também é perigoso obedecê-las. É mais seguro fazermos como fazemos".
   "Por quê?", Niq perguntou, sem entender.
   "Alashiya está distante, e é apenas uma. Nossa força está em não fazer inimigos, em não nos envolvermos nas disputas de cada cidade que visitamos. Em Kilquitai, isto é impossível."
   E seu pai, após um instante, completou, com o ar solene que deixava claro que a conversa estava encerrada. "Amanhã você descobrirá por quê".

sábado, 13 de outubro de 2012

O Último Rei Orco - Epílogo

(Confira a revisão mais recente de toda a história em http://www.aventuraeficcao.com.br/p/o-ultimo-rei-orco.html)


   Ela os seguiu por dias sem fim, em silêncio, invisível, e esperou a beira do lago.

   Ela não buscava vingança contra eles. Só havia um que ela queria vingar, pelo que Anubis lhe revelou em seus sonhos, e ela esperava o momento certo, mas o rei dos orcos matou Hodekin por ela.

   Quando todos os orcos partiram - e para ela eles sempre seriam orcos, não importa como se chamassem - ela caminhou até o primeiro lago, agora quase seco.

   Em breve deus cairiam, deuses morreriam. Sem a fé para mantê-los existindo, não haveria espaço para eles.

   E para ela?

   A água queimava sua pele, como se fosse fogo, quando ela entrou no lago, e se deitou para que a água a cobrisse. Não era apenas um batismo. Era um renascimento. Seu corpo se incendiando dentro da água, virando cinzas.

   Quando, por fim, ela saiu do lago, já não havia ferimentos. Sua mão era sua, sua lingua, sua voz, mas era um novo corpo que ela usava. E Anubis a esperava.

  - Venha, minha filha. Mas primeiro, diga-me o nome que escolheu para si.

   E ela sorriu para o deus Anubis

  - Bast.

domingo, 7 de outubro de 2012

O Último Rei Orco XXV


Capítulo XXV

Z-US entrou, apressado, nos domínios de J-VA, a fúria possuindo-o.

- Apareça, J-VA, agora. Assim, Z-US ordena.

Uma voz respondeu, vinda de parte alguma - eu não tenho mais corpo para aparecer, Z-US, deus não mais supremo. E eu não obedeço sua vontade.

- Eu digo que o poder de J-VA se encerra agora

- J-VA já não existe mais, Z-US, deus que cairá.

- Eu descobrirei o nome que usa, J-VA. Eu descobrirei e usarei seu nome para destruí-lo.

Uma gargalhada se ouviu - pobre deus menor. Eu não tenho mais nome, Z-US.

- Então sua vitória será curta, e seu poder se esvairá, se suas criaturas não tiverem um nome para louvá-lo acima dos outros deuses.

A gargalhada só aumentou de intensidade - Meus seguidores não precisarão de um nome para me louvar acima de outros deuses, Z-US. Pois eu venci, e quando tudo acabar, não haverá mais razão para eu ter um nome - e após um instante de silêncio, antes da gargalhada recomeçar - pois não haverá nenhum deus além de mim.

sábado, 14 de julho de 2012

O Último Rei Orco XXIV

Eles estavam a beira do primeiro lago. Não apenas os guerreiros orcos, mas suas mulheres, suas crianças. E seus prisioneiros.

Foram doze dias de caminhadas em um ritmo incessante, marchando até depois do sol se pôr, e levantando antes dele nascer, sempre apressados pelo rei dos orcos.

Os Orcos feridos eram levados em esteiras ou, se pudessem caminhar, apoiados nos companheiros. Em alguns, o rei orco derramava um líquido que ele trazia em um cantil, e, milagrosamente, eles pareciam se recuperar.

As prisioneiras humanas faziam o possível para seguir os passos de seus captores. As que não conseguiam acompanhar a marcha eram deixadas para trás, a garganta cortada de lado a lado.

Dos homens, nenhum foi poupado, exceto ele, Hodekin. Os orcos não haviam dado nenhuma razão para permitir que ele vivesse, exceto que era a vontade de seu lider. Mas ele sabia que, na verdade, eram as palavras de JUS PATER que o mantinham a salvo.

Ele quase desacreditou de seu deus, quase duvidou do poder de JUS PATER e perdeu sua esperança, no dia que caiu prisioneiro, mas JUS PATER o visitou em seu sonho, e renovou sua fé. Ele lhe disse, com sua voz divina, que os orcos desapareceriam, que o próprio J-VA teria seu nome esquecido, e os homens herdariam a terra. Certamente, caberia a ele, Hodekin, último homem vivo, ser o futuro pai de toda sua raça.

- Aqui está o primeiro lago, chegamos a tempo - a voz do Rei Makel ecoou no silêncio do bosque - ele em breve desaparecerá. Antes disto, ele cumprirá seu papel uma última vez.

E então, um estranho ritual se iniciou entre os orcos, que Hodekin observou ao longe, amarrado junto com as mulheres de seu povo. Um a um, cada orco entrou no lago , e um a um, o rei dos orcos os imergiu completamente na água, por um instante. A cada um ele falou uma mesma frase.

"Com a agua do primeiro lago, eu te batizo com um novo nome", e ele dizia para cada um, um nome. Somente depois de muitos e muitos passarem pelo lago, Hodekin percebeu que os nomes que Makel lhes dava não eram nomes de orcos. Eram nomes um dia usados em Asikli Houyk e em outras cidades dos homens.

Já era noite quando todos os orcos passaram pelo lago. Foi quando dois orcos vieram, e o carregaram até Makel.

- Hoje, a vitória dos homens se completa. Hoje, conforme a palavra de Z-US e a vontade de J-VA, nós, homens, herdaremos a terra.

Por um instante, Hodekin não entendeu as palavras, e então gritou, a indignação lhe dando coragem - Blasfêmia. Vocês são orcos, e JUS PATER os condenou a desaparecer. Os homens herdarão a terra.

- Orcos - e o orco olhou ao redor - eu não vejo nenhum orco aqui. Orcos são criaturas que certamente já desapareceram, ou lendas, talvez. Gigantes de pele esverdeada e presas no lugar dos dentes. Histórias que nossos netos contarão para seus filhos, para assustá-los. Eu só vejo humanos aqui. E você, sacerdote.

E o orco, a criatura que ousava se chamar de homem, segurou Hodekin pelo pescoço, com uma única mão - E quanto a você. O que você é? - E o orco segurou seu pulso direito com a outra mão, e mostrou para os que o cercavam - Um homem certamente não. Homens não tem quatro dedos nas mãos, nem olhos desta cor dourada, ou dentes escuros. Certamente não são tão pequenos. Diga-me, o que você é, criatura?

"Eu sou um homem", Hodekin pensou, mas não pôde falar. A mão do gigante segurava e esmagava seu pescoço, impedindo-o de respirar.

- Se você é um homem, diga - esperou uns instantes, enquanto Hodekin estava mais e mais desesperado por ar - silêncio? Pelo seu tamanho, eu digo que você é Fay, o povo pequeno. E meus netos contarão lendas a seu respeito, junto com as lendas dos Orcos, mas certamente elas serão para divertir as crianças, não para assustá-las. Talvez vocês sejam criaturas que façam travessuras, ou que façam nosso leite azedar - e todos que os rodeavam riram neste instante.

O rei soltou Hodekin, que caiu no chão.

- JUS PATER nunca permitirá isto, Makel dos Orcos

- Mak El? Este não é mais meu nome. A tribo de El não existe mais. Mak filho de Mak morreu neste mesmo bosque, quando eu nasci. E você viveu apenas para testemunhar o nascimento da verdadeira raça dos filhos de deus.

E o gigante desceu seu machado para cortar a cabeça de Hodekin.

- E de Adão, primeiro dos homens.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O Último Rei Orco XXIII

    "Húbris". Arrogância cega.
    N-BIS sempre entendeu como uma qualidade apenas dos mortais. Elfos, humanos, orcos e outras criaturas inferiores, que, em sua arrogância, se julgassem capazes de desafiar a vontade dos deuses. Ele agora se perguntava se este mal também não poderia afligir a seres supremos.
    - Você ousou me convocar, V-NU, a mim, o mais poderoso de todos os deuses? E para quê? Para tentar me assustar com estórias ridículas? Só porque os Orcos exterminaram seus elfos, agora está com medo de J-VA?
    - Eles também exterminaram seus humanos, Z-US. Quando os Orcos se multiplicarem e se espalharem pela terra, J-VA se tornará mais poderoso que você.
   E o poderoso Z-US riu de escárnio, ante as palavras de V-NU.
   - A minha palavra é suprema, V-NU, este é o meu dom, e é ele que me torna superior a todos os deuses, não importa para quem os mortais façam suas oferendas. Eu disse que os homens herdarão a terra, e assim será.
   - E, no entanto, o poder de J-VA cresce a cada dia, e o seu diminui.
   - Pois eu lhe digo, V-NU, para você e para o chacal que resolveu se tornar seu servo. J-VA não reinará supremo. O nome de J-VA se perderá no tempo, e não sobrará um único Orco na terra para rezar seu nome.
   As palavras eram carregadas de poder. Z-US havia usado seu dom ao proferi-las.
   - Está feito. Se J-VA um dia foi uma ameaça, agora ele está condenado a destruição - E, com um gesto, Z-US desapareceu.
   Só após a partida do deus supremo, N-BIS falou - Ele nem nos escutou, tão certo que está que nada o ameaça. Seu poder vai mesmo destruir J-VA?
   - Sua palavra é a verdade. Os homens herdarão a terra. O nome de J-VA se perderá no tempo. O que Z-US disse é o que acontecerá.
   - No entanto... - N-BIS falou, para provocar V-NU a concluir seu pensamento.
   - No entanto, ele ainda é apenas um tolo que não compreende seu próprio dom. E, especialmente, não entende seus limites.
   - E o que fazemos agora, V-NU.
   - Fazemos, N-BIS? Não estamos juntos. Não entrelaçamos nossos destinos, não somos amigos, não somos servos e senhor. O que havia para fazermos juntos já fizemos.
   - Então não iremos enfrentar J-VA?
   - Eu vi incontáveis deuses surgirem, e incontáveis deuses cairem. Não vi tantas eras por enfrentar cada deus que julga ser o deus supremo. No final, que me importa se é J-VA ou Z-US a reinar.
E ante o silêncio de N-BIS, V-NU olhou para ele e concluiu.
   - Parta agora, deus chacal, e prepare-se, que, quando Z-US cair, ele não cairá sozinho.
E, sabendo que a hospitalidade do deus do centro estava por terminar, N-BIS partiu.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Último Rei Orco XXII

Ele achou que havia tirado sua voz quando cortou sua lingua, mas ela já não tinha voz, ela já a havia perdido quando bebeu Nectar, assim como seu irmão perdeu sua visão quando Nectar foi derramado em seus olhos. A voz que o Não Rei dos Orcos achou que era sua era a voz de JUS PATER, e JUS PATER não era seu deus, nem nunca foi.

Ela não tinha voz, ela só tinha o silêncio como arma.

Os Orcos a haviam esquecido, quando as muralhas cairam. Ela era apenas uma criança, e eles tinham jovens e mulheres para escravizar e abusar, que lhes trariam muito mais diversão.

Assim, ninguém pareceu se lembrar dela, e, após ficar deitada, imóvel, bem onde o Não Rei dos Orcos a largou, ela se levantou ao ver que não havia ninguém por perto, todos tendo corrido em direção a cidade indefesa, e caminhou até a pequena floresta. Não foi difícil encontrar um buraco no meio da raiz de uma grande árvore, e se esconder até a noite chegar. Nem teria sido necessário, pois nenhum Orco procurou por ela.

Ela deveria estar chorando pelo seu irmão, pelo seu pai que ela tinha certeza que a esta altura estaria morto, pelo que fizeram com sua mão, sua lingua. Mas era como se um grande frio estivesse dentro dela. Não como quando J-VA ocupou o espaço de sua mente, não havia ninguém com ela agora, ela estava absolutamente sozinha, na escuridão. Mas nada, nem a dor, nem a raiva, a tocava neste instante.

Ela apenas aguardava a noite chegar. Havia algo para ser feito.

O sol por fim se pôs, e a escuridão se espalhou pela terra. E ela voltou para as ruínas de Assikli Hoyuk, e começou a procurar. Não por sobreviventes, não por seu pai, nem mesmo por Sharazin, que talvez ainda estivesse viva. Ela procurou por algum Orco sozinho, que estivesse suficientemente bêbado e isolado dos demais.
Ela teria preferido o próprio Não Rei dos Orcos. Ela não tinha mais medo dele, ela estava além do medo. Mas, o que quer que ele fosse - Não o Rei dos Orcos, Não Makel - em que quer que tivesse se transformado, ela sabia que não teria chance de lhe fazer mal esta noite.

Não foi difícil caminhar pela cidade, pois não havia ninguém vigiando. As casas haviam sido saqueadas, destruídas, algumas mulheres foram levadas para dentro do castelo. Os demais, homens, mulheres, crianças, estavam mortos, e seus corpos estavam em todo lugar. Os Orcos estavam espalhados também, bêbados e dormindo, em sua maioria.

Também não foi difícil encontrar uma faca afiada o suficiente para o que ela iria fazer.

O Orco que ela encontrou estava sozinho, dormindo com uma espada ainda na mão. Uma visão deformada de um verdadeiro homem, grande demais, cinco dedos nas mãos, pele clara, dentes brancos na boca aberta. Ele roncava.

Ela só tinha a mão direita para segurar a faca, a esquerda uma visão que ela não queria olhar, pele enegrecida, destruída pelo fogo. Mas só uma mão seria suficiente. Com firmeza, em um golpe rápido, ela fez um profundo corte em seu pescoço. Por sorte, ele não conseguiu gritar antes de morrer. De outro modo ela teria que fugir e tentar novamente.

Ele morreu em silêncio. Então, ela cravou a faca no peito do morto, e pôs-se a cortar, até tirar seu coração para fora.

JUS PATER exigia que cantassem em altas vozes em louvor a ele, assim como V-NU, e mesmo o J-VA dos Orcos. Mas, ela não previsava de uma lingua para orar para seu deus. Ele sempre preferiu suas preces em silêncio, pois silêncio era seu reino, e dos que o seguiam.

Assim, ela não precisou falar quando ofereceu o coração do inimigo vencido. Ela só precisou pensar no nome, o nome verdadeiro de seu deus, o deus chacal que chamavam de N-BIS.

Enquanto oferecia o coração, ela só precisou pensar em seu nome secreto: "Anubis".

domingo, 3 de junho de 2012

O Último Rei Orco XXI

A serpente os viu chegar. O deus chacal, e o deus de muitos braços. O deus chacal esteve antes ali, no primeiro bosque, e a serpente o observou, escondida na relva, insignificante demais para que ele se importasse com ela. Ela achou que ele não voltaria, muito menos trazendo companhia. O deus sem nome teria que ser avisado. Mas, primeiro, ela ficaria imóvel, ouvindo o que eles teriam a dizer.

- Você disse a verdade, N-BIS. A primeira árvore está morrendo, e com ela o primeiro bosque. Mesmo o primeiro lago estará seco, em alguns poucos dias. Não é como deveria ser.

- Parece que muitas coisas não são como você imaginava que deveriam ser, não é, grande V-NU?
Se V-NU percebeu o sarcasmo de N-BIS, ele não demonstrou, e respondeu com honestidade - Sim, de fato. Muitas coisas não são como deveriam ser, o que parece indicar que estão conectadas. Esta é a primeira era em que a árvore morrerá antes do tempo.

- E o que isto significa, V-NU, ó mais antigo dos deuses.

- O que significa? - V-NU ficou em silêncio alguns instantes, parecendo pensar, e quando respondeu, pareceu falar mais para si mesmo - difícil dizer. A primeira árvore é sempre plantada por mim, em geral em um bosque criado por algum dos primeiros deuses da era, às vezes uma encarnação de BRAH, às vezes algum deus da fertilidade, ou alguma encarnação do caos. Uma encarnação de SHIV, ou um deus da morte, traz o fim do bosque, após todo o universo colapsar, e é só neste instante que a árvore morre.

- Mas agora ela já está morrendo. Isto significa que esta era vai terminar mais cedo, ou que estamos rompendo o ciclo eterno de renascimentos?

- Eterno? - e V-NU riu - nada é eterno. Nem mesmo a eternidade.

- Mas o que irá acontecer, V-NU? Não queres me dizer?

- Oh, talvez eu quisesse lhe dizer, deus chacal, ou talvez não. Mas a resposta é mais simples. Eu não sei.

- Não sabe? E sua onisciência?

- Onisciência? Há tanto que você precisa aprender, N-BIS... Onisciência, como eternidade, é apenas uma palavra. Onisciência é apenas uma forma de dizer que eu sei mais que você.

- É, deus do centro? Pois parece que você nem sequer sabe mais que eu.

- Mesmo? Eu sei que você deixou de perceber algo quando esteve aqui antes, deus chacal - e V-NU se abaixou, rápido, e ao se levantar, trazia a serpente em uma de suas mãos.

- Uma serpente?

- Um guardião. E com proteções para esconder sua natureza - Diga-me, serpente, a quem você serve?

- Eu não sirvo a ninguém que tenha um nome, deus de muitos braços - a serpente se viu obrigada a falar, contra sua vontade, ao olhar nos olhos do deus.

- Ela está mentindo?

- Não N-BIS. Não tinhas percebido ainda? Não é fácil mentir na presença de V-NU. Diga-me, serpente, por que a árvore está morrendo?

- Ela está morrendo por que um de seus galhos foi arrancado. Ao ser arrancado, a árvore começou a apodrecer.

- E quem o arrancou?

- O nome que ele usava era Wotan.

- E ele ainda usa este nome?

- Não

- E por que nome ele é chamado agora?

- Ele não é chamado por nenhum nome mais.

- Isto não é verdade.

A serpente silvou, e então encarou com fúria os olhos do deus - É a minha verdade. É a única verdade que vai ter de mim, deus antigo.

Então, V-NU apertou sua mão, e a serpente começou a queimar. Ele deixou as cinzas cairem no chão.

- Vamos, deus chacal. Não há mais nada para fazer aqui.

- Você matou a serpente. Será que isto foi inteligente? Ela era nossa única pista para este ser, este Wotan de quem nunca ouvi o nome.

- Nós não precisamos de pistas. Lembra-se que você disse que eu era onisciente?

- E você disse que não existia onisciência.

- Não. Eu disse apenas que onisciência era saber mais do que os outros sabem. E eu sei mais que você, N-BIS. Eu sei quem é Wotan.

V-NU concluiu a frase enquanto ambos partiam para longe do primeiro bosque:

- É J-VA.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O Último Rei Orco XX

A Voz de J-VA hesitou por apenas um instante, antes de entrar no templo de Z-US. Ele já havia procurado pelo Rei Goldemar no palácio real e em toda a cidade, ao perceber que o Rei não havia se juntado a luta. "Luta", pensou, "não pode ser chamado de luta, não depois que as muralhas ruiram, soterrando a maior parte da guarda humana".

- Você acha que o rei dos humanos está aqui, meu senhor? - Seth, a espada ensanguentada firme em sua mão, havia acompanhado e protegido seu pai durante todo a tarde.

- Talvez. Siga-me com seus Orcos, Seth, e, lembre-se, somente as virgens podem ser poupadas, conforme a vontade de deus. Mas Goldemar, Rei dos homens, é meu, ninguém mais tem o direito de lutar com ele.
Seth assentiu com a cabeça, e entraram, pai e filho, no templo de Z-US, os soldados seguindo-os a poucos passos de distância. A partir da câmara de entrada, deserta, os Orcos começaram a se espalhar pelo templo, procurando qualquer sinal de resistência, enquanto Seth e seu pai aguardavam.

A Voz de J-VA não conseguia esconder sua irritação. Ele se sentia sujo, impuro, desde que lidou com a criança. Combates eram limpos, um duelo entre dois soldados, de preferência de habilidades equivalentes, em que a vontade divina e a força definiam quem venceria, quem morreria. Mas torturar e mutilar uma criança era algo que estava incomodando-o, mesmo sabendo que seguia a vontade de J-VA, mesmo sabendo que a maioria de seus soldados chamaria aquilo de diversão. A luta pela cidade, muito mais um extermínio de velhos e crianças que um combate de verdade, em nada ajudou a melhorar seu humor.

- Meu Rei, Lorde Seth, encontramos o sacerdote do templo - Um orco chegou até eles, arrastando um diminuto humano, e largou-o aos pés da Voz de J-VA.

- Como é seu nome, sacerdote?

- Hodekin, sacerdote e representante de JUS PATER na terra. Todo mal que me fizeres, será como se fizesse a JUS PATER, que vocês chamam de Z-US - as palavras soariam mais convincentes se o humano não estive quase histérico, os olhos dourados cheios de lágrimas, a voz esganiçada e trêmula.

- Um representante de Z-US, que enviaste, teve a cabeça arrancada por este machado. A outra teve a lingua cortada pela minha faca. A menina eu pude ver que era mais brava que você, sacerdote, e Z-US não fez nada para salvá-la. - e, pegando o diminuto humano pelo pescoço, erguendo-o até a altura de seu rosto, os olhos escuros do Orco fixos nos olhos dourados do sacerdote, continuou, a voz grave falando quase num murmúrio - onde está seu rei? Onde está Goldemar? Acaso ele está com tanto medo que veio se esconder em seu templo.

O sacerdote pareceu surpreso com a pergunta, e sem saber responder. Por fim, quando a Voz de J-VA aproximou a ponta de seu machado do olho direito de Hodekin, ele prometeu levá-los até o rei.

No subsolo do templo, para onde o sacerdote os levou, por pouco a Voz de J-VA não partiu a cabeça do humano ali mesmo, quando ele apontou para um imenso e fundo fosso no subsolo, uma armadilha com estacas de quase dois metros, escondida por um tapete e acionada por uma alavanca.

No fundo do fosso, com pelos menos três lanças trespassando seu corpo, jazia Goldemar, último dos grandes reis dos primeiros homens.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

O Último Rei Orco XIX

A dor não tinha fim. Sua garganta estava rouca de gritar.

Ela ainda tinha o poder divino, mas sua voz era inútil contra o Rei dos Orcos, e ela se viu reduzida a implorar entre lágrimas, a cada vez que a dor diminuía e ela conseguia falar. Ela pediu perdão, ela jurou obediência, ela renegou JUS PATER - como se ele fosse seu deus, e ela não o tivesse renegado há muito tempo - mas o Orco ignorava cada palavra, e apenas colocava sua mão no fogo uma vez mais, sem nada dizer.

Ela havia tentado tornar-se insensível, voltar ao sono divino de quando havia recebido a voz do deus. Mas sempre que estava próxima de conseguir, sempre que sentia sua existência diminuir até quase desaparecer, o Orco pegava sua mão uma vez mais, e a dor a despertava e a fazia gritar.

Então, uma voz sussurou em sua mente, uma voz divina, como a voz que saia de sua boca quando ela falava as palavras do deus, mas não era a voz de JUS PATER. Era uma voz que ela só ouviu uma vez, e que dizia apenas uma palavra: "coragem".

E com a voz veio uma visão, que por um momento a afastou da dor. Uma visão do seu passado.

"Por que minha mãe morreu, Sharazin?" Era o sexto aniversário de seu nascimento, três anos no passado. O sexto aniversário da morte de sua mãe.

"Sua mãe visitou o templo de JUS PATER, e pediu ao deus por um filho, para continuar a dinastia de seu pai. Mas as dádivas dos deuses sempre têm um preço".

"Então foi JUS PATER que matou minha mãe". Não era uma pergunta.

"JUS PATER é seu deus. Ele criou os homens, e é a ele que deves obediência, criança".

"Mas ele não é seu deus. Eu sei que não é, eu já a vi rezando, a noite, quando achava que nós dormíamos. E não era a JUS PATER que rezava, Sharazin".

"Não, não era a JUS PATER".

"Ensine-me a rezar para seu deus, Sharazin. Ensine-me, porque o deus que matou minha mãe não vai ser meu deus".

O fogo a queimou novamente, sua mão novamente nas chamas. A quinta, sexta vez? Ela gritou um grito sem fim, e quando a chama finalmente se afastou, começou a chorar e soluçar.

- Agora diga - a voz do Orco em seu ouvido - use a voz de Z-US e diga para as muralhas de Asikli Hoyuk cairem.

E ela obedeceu.

Então a mão do Orco se enfiou em sua boca e segurou sua lingua, puxando para fora.

- E assim, foi dita sua última palavra com a voz de Z-US.

E o Orco cortou sua lingua.

terça-feira, 22 de maio de 2012

O Último Rei Orco XVIII

- Você está me ameaçando, Hodekin? Está apontando uma flecha para o coração de seu Rei? - O salão era iluminado apenas pela tocha nas mãos de Goldemar. Além dele, apenas Hodekin estava ali, parado, o arco e uma flecha em suas mãos. Um tapete, no chão, a única decoração do salão.

Hodekin nada disse enquanto o Rei se aproximava, até este estar no centro do tapete, talvez dez passos distante do sacerdote.

- Nem mais um passo, meu Rei. Podemos conversar desta distância. Aproxime-se mais e terei que soltar minha flecha - a voz de Hodekin quase esganiçada, revelando seu nervosismo.

- E por que está apontando uma flecha para seu Rei, sacerdote?

- Responda-me por que está aqui, meu Rei, por que veio me procurar, que eu lhe direi por que o espero com uma flecha apontada para seu coração.

- Eu estou aqui por que Jasmiri, virgem de seu templo, revelou a verdade sobre o que as outras duas lhe disseram, sacerdote - a voz do Rei com raiva contida, a mão direita segurando com ainda mais força sua espada

- E eu estou apontando a flecha para seu coração por que o que Jasmiri, a última das virgens, disse, quando falou com a voz de JUS PATER, é que virias para me matar, meu Rei.

- E o que vai acontecer, então, sacerdote? Vai disparar sua flecha? Não preciso de mais luz que a de minha tocha para saber que sua mão esta tremendo. Dispare sua flecha, e juro que arranco sua cabeça.

- Sou o sacerdote de JUS PATER. Tudo que fiz, foi pelas ordens de nosso deus.

- Mentira.

- JUS PATER ordenou que sua visão e sua voz fossem usadas para enfrentar o Rei dos Orcos. As duas virgens assim ordenaram.

- Mas não com meus filhos. Isto foi sua covardia que ordenou. Você deveria estar lá fora. Você que deveria morrer no lugar deles!

- Morrer? Ninguém vai morrer! Eles foram enviados para vencer o Rei Orco, e em breve voltarão. O menino estará cego, mas esta é uma dádiva de JUS PATER, e eu garanto que ele terá um lugar de honra no templo, será um herói e cuidaremos dele por toda sua vida.

E o Rei começou a rir. Um riso histérico que se transformou em choro. E então ele falou - Ele já voltou. Os Orcos deixaram sua cabeça aos pés do portão da cidade - e começou a avançar, a espada apontado para Hodekin, certo de que uma simples flecha não o deteria.

E então o chão desapareceu sob seus pés.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O Último Rei Orco XV

No centro do mundo, N-BIS caminhava com cuidado, atento a seus passos em um reino que não era seu. A ordem, Maat, estava agonizando, e quando ela ressurgisse, deuses subiriam e deuses cairiam. Por isto, N-BIS arriscava seus passos no reino de V-NU.

A câmara principal, no centro do centro do mundo, era redonda e vazia, exceto por estatuas de outras eras, estatuas de deuses caídos, cujos nomes apenas V-NU ainda recordava. Talvez nem ele.
V-NU, o deus de quatro braços, o único deus mais antigo que o tempo, estava ajoelhado, no canto oposto da câmara, segurando em uma de suas mãos uma taça de Soma, a bebida dos deuses do centro do mundo. Com um gesto, ele ofereceu sua taça para N-BIS, que recusou. Beber Soma seria tão perigoso quanto beber Nectar, agora mais do que nunca.

- N-BIS, dos deuses menores, aqui, na terra dos deuses do centro? Veio suplicar por um lugar entre nós, deus chacal?

N-BIS parou, de pé, a frente de V-NU, que permaneceu sentado.

- Minhas palavras o ofendem, N-BIS? Por isto está em silêncio? És um deus menor e és um deus chacal. Preferia que o chamasse como outros o chamam? O deus que late?

- E como o chamarão, V-NU, quando o poder de J-VA se tornar supremo, e você se tornar um deus menor?

- Eu já vi outras eras, N-BIS, já vi outros deuses surgirem e outros mundos serem criados, e a história sempre reinicia seu ciclo. SHIV virá, e depois BRAH, mas eu sempre estarei aqui, no centro. Outros deuses vem e vão, mas V-NU permanece.

- Não se J-VA adquirir o poder que sonha. Se ele tiver sucesso, o próprio ciclo de nascimento e destruição terá fim, e ele reinará supremo. É isto que você quer, V-NU?

- Agora és o deus dos ratos, Chacal? Está procurando fugir, com medo de J-VA? Agora mesmo a voz de Z-US está colocando de joelhos o poderoso Rei dos Orcos, e pondo fim aos sonhos de grandeza de J-VA. Tudo segue como sempre seguiu, e em breve o ciclo avançará, e o mundo retornará ao seu centro.

- É mesmo, poderoso? - a voz de N-BIS agora sem esconder seu escárnio, sua indignação - você não é onisciente? Não deveria saber o que aconteceu com os campeões de Z-US?
V-NU ficou em silêncio por alguns segundos, o olhar perdido no vazio, os quatro braços que se moviam incessamente parando por alguns instantes. E, por fim, ele falou, a surpresa em sua voz.

- Aquele que era os olhos de Z-US está morto. Aquela que era sua voz se tornará instrumento da destruição de Asikli Hoyuk. Isto não é como deveria ser.

- Despertei seu interesse, então, grande V-NU?

- Como você soube destas coisas? Estes fatos aconteceram pouco antes de entrar em meu reino, e não me consta que tenhas onisciência, deus menor.

- Há aqueles que eram meus antes de serem de J-VA. Aqueles que voltarão a ser. Posso ser um deus menor, mas também eu tenho meus seguidores.

- Nada disto importa. O ciclo não será quebrado. Z-US disse que os homens herdarão a terra. E assim será.

- É? Há outros que dizem coisas diferentes.

- O que importa o que dizem? Neste ciclo, a palavra de Z-US é suprema.

- Mesmo? Então, diga-me, V-NU, você lembra a árvore que plantou no início deste mundo?

- O que tem ela? Ela nasceu com esta era, não faz muito, e viverá até o seu final, em milhares de anos.

- Mesmo? Então, onisciente supremo, diga-me: por que ela está morrendo?

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Último Rei Orco XIV

Elas vieram de Asikli Hoyuk, a primeira e última cidade dos primeiros homens. Duas crianças com os poderes de Z-US, o deus pai. Dois cordeiros caminhando em direção ao abate.

Elas vieram pela estrada que liga a cidade murada a pequena floresta, caminhando de mãos dadas. A visão de Z-US avisando-as de cada perigo. A voz de Z-US garantindo sua segurança.

Elas vieram por entre os Orcos, que, indefesos perante seus poderes, foram incapazes de deter seu avanço. Mesmo Seth, que partiu de espada em punho, decido a calar a voz de Z-US com sua lâmina, viu-se escoltando-as até seu pai.

Elas vieram até a Voz de J-VA, aquele que um dia foi Makel, Último Rei dos Orcos, e pararam a seus pés.

A criança que era a visão de Z-US tentou enxergar o Rei dos Orcos, com seus olhos divinos, mas o Rei dos Orcos não existia mais.

A criança que era a voz de Z-US tentou ordenar o Rei dos Orcos, com sua voz divina, mas Makel estava morto, e não havia ninguém para ela comandar.

E então a Voz de J-VA falou.
- Deus disse que nenhum homem será poupado. E nenhuma mulher que tenha se deitado com um homem. Pequena criança, você já é mulher? Já se deitou com algum homem?

- Nós somos a inocência. Nós somos a pura voz de JUPTER - a criança menina falou, com uma voz que não era de criança.

- Nós somos a inocência. Nós somos a pura visão de JUPTER - a criança menino falou, com uma voz que não parecia humana. Mas era apenas à menina que a Voz de J-VA havia se dirigido.

A Voz de J-VA ergueu seu machado, e então o desceu, com força, a lâmina caindo na direção da cabeça da criança menino, enquanto falava.

- Eu não estava perguntando para você.

E então a criança menina arregalou os olhos, como se estivesse vendo tudo ao seu redor pela primeira vez, olhou para seu irmão, a mão arrancada da sua pela força do golpe.

E a criança menina começou a gritar.

sábado, 5 de maio de 2012

O Último Rei Orco XIII

Nos aposentos do Rei uma jovem aguardava, o nervosismo visível na forma como roía, distraidamente, as unhas dos quatro dedos de sua mão. Ela olhava a única porta do quarto, temendo que a qualquer momento Hodekin entrasse por ela, enquanto se perguntava se passaria a eternidade no inferno dos delatores.

Quem entrou pela porta, porém, seguido pelo Rei Goldemar, foi seu irmão, e ela correu para abraçá-lo.

- Eu contei ao Rei, minha irmã. Ele quer ouvir diretamente de seus lábios.

- Abadi me disse que você acusa o sacerdote do JUS, Hodekin. Diga-me o que tem para dizer, mulher.

- Sim, meu senhor - ela respondeu, o rosto abaixado, a coragem lhe faltando para encarar o Rei. A lingua passou pelos lábios, que tremiam, e ela respirou fundo, e então começou a contar sua história.

- Eu sou Jasmiri, uma das virgens do templo de JUS PATER. Fui uma das escolhidas por Hodekin para transmitir as palavras da daemon AISA, que é uma e é três. Aos sons da primeira canção, a daemon se apoderou de minha consciência e falou com minha voz.

- E o que ela disse com sua voz, Jasmiri?

- Eu não me recordo de quais foram as palavras dela quando estava em meu corpo, meu senhor.

O Rei falou em voz mais alta, e Jasmiri começou a tremer - então por que estou perdendo meu tempo aqui, enquanto minhas crianças estão entre os Orcos?

Ela se apressou em explicar - eu fui a última a ser possuída pela daemon, meu senhor. Eu não sei o que falei, mas eu ouvi as mensagens de minhas duas irmãs de templo. A que falou sobre derramar Nectar nos olhos para enxergar com a visão de JUS, e a que falou sobre beber o Nectar e ser a voz do deus.

- Eu vi o resultado. Meu filho cego, minha filha falando com a voz de JUS. Mas seu irmão disse que Hodekin mentiu sobre isto.

- Não meu senhor, não foi sobre isto que Hodekin mentiu - ela tremia enquanto falava, temendo como o Rei reagiria, se culparia a ela - Elas falaram sobre a visão e a voz de JUS.

- Então, sobre o que Hodekin mentiu, mulher.

- Elas não mencionaram as crianças. Elas disseram que era outra, a pessoa que deveria ser agraciada com as dádivas divinas. Quem deveria enfrentar os Orcos era... - e neste instante ela hesitou uma vez mais, e então reuniu coragem para concluir:

- Hodekin.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O Último Rei Orco XII

No alto da muralha, os soldados comemoravam. A tensão havia atingido o máximo quando os portões da cidade foram abertos, e muitos estavam preparados para o pior, mas nem um único Orco ousou pisar dentro de Asikli Hoyuk.

Do alto das muralhas eles assistiram a lenta caminhada das duas crianças, cercadas pelos guerreiros inimigos, mas indiferentes a eles. Flechas caiam a poucos passos de seus pés, Orcos deixavam as armas no chão antes de se aproximar delas, e, por fim, formaram apenas uma escolta que acompanhou as crianças até elas sumirem da vista, em uma pequena floresta além da cidade.

Lá do alto dos muros, em meio as comemorações, um homem se mantinha calado, o rosto fechado, sem demonstrar emoções. Sua cidade talvez fosse salva, o poder de JUS PATER talvez se mostrasse maior que o dos Orcos e de seu deus J-VA, mas eram os seus filhos que estavam lá, os filhos que sua mulher morreu para dar a luz. E, naquele momento, eles eram mais importantes que qualquer deus e qualquer cidade.

- Meu senhor - um homem se aproximou, e sussurrou no ouvido do Rei Goldemar - eu preciso lhe falar em particular.

O Rei virou seu rosto e viu que era Abadi, um dos soldados de sua guarda. - Eu não posso sair daqui, agora. Eu vou esperar, na muralha, até meus filhos voltarem.

- Eu tenho que insistir meu Rei.

- O que quer que seja, com certeza pode esperar, a menos que me diga que os Orcos estão invadindo a cidade. E, pelo que vi, todos eles seguiram meus filhos.

- É minha irmã, meu senhor - a voz sempre em um sussurro, e o Rei reparou então que Abadi usava um capuz sobre o rosto, como se não quisesse que vissem que ele estava ali - ela o espera, escondida, em seus aposentos, para onde a levei. Ela precisa lhe falar uma coisa.

- Abadi, meus filhos receberam uma missão diretamente de JUS PATER, e não sei se eles retornarão dela. Nada é mais importante para mim que isto.

- É por isto que ela deseja lhe falar, meu senhor. Minha irmã é uma das virgens do templo de Hodekin. Uma das virgens que recebeu a mensagem de JUS PATER.

- Então, ela é uma das que revelou a Hodekin que meus filhos se tornariam armas de nosso deus - a voz do Rei, até então contida, finalmente deixando escapar um pouco de sua dor e revolta.

- Não, meu senhor. Ela precisa lhe falar porque ela é uma das que sabem que Hodekin mentiu.