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domingo, 13 de janeiro de 2013

O Último Rei Orco - Prólogo


   O corvo surgiu acima das nuvens, vindo do vazio nas fronteiras da criação, e começou a cair com velocidade, suas asas encostadas no corpo, os olhos fechados, as areias do deserto na beirada do mundo se aproximando mais e mais. Apenas quando o choque com o chão pareceria inevitável a quem estivesse a olhar – e tal não havia, nem criaturas nem deuses – ele abriu seus olhos, como se tivesse acabado de despertar, e, sem emitir som nenhum, começou a bater as asas até ganhar altitude, e então pôs-se a planar em uma corrente de vento.
   Ele voou veloz, carregado pelo vento, acima das areias que circulavam a fronteira do mundo, acompanhando a circunferência da terra, conhecendo todos os limites de um planeta ainda plano, ainda uma fração minúscula do que viria a ser. O mundo era jovem e mal havia começado a crescer para além da primeira árvore.
   Quase nada havia para ver, o chão abaixo do corvo areia sem fim, monótona e imperturbável. À sua esquerda, a uma distância impossível precisar, mas imutável, apenas o vazio de uma existência ainda não criada.  Somente à direita, bem distante no horizonte, o corvo podia ver algum cenário, como montanhas com cumes cobertos de neve ou a leve coloração verde de florestas.
   E assim foi que o corvo voou planando em correntes de ar, batendo suas asas apenas o mínimo necessário, até voltar a seu ponto de partida, tendo circundado todo o mundo.
   E este foi o primeiro dia.
   O corvo, então, mudou seu rumo, partindo na direção do centro do mundo, suas asas agora batendo velozes, o olhar fixo no horizonte, que começava a ganhar nova forma até se mostrar uma cadeia de montanha, a maior entre todas as do jovem mundo. Ganhando altitude a cada movimento de suas asas, o instinto lhe dizendo como aproveitar cada corrente de ar, em pouco tempo o corvo estava mais alto que a montanha mais alta, o frio da altitude não o incomodando, imensamente mais quente que o frio do nada de onde ele surgiu.
   Nas áridas montanhas quase não havia vida. Esta, que se espalhava a partir da primeira árvore, aparentemente não havia chegado até tão longe. Mas havia sons, um barulho de luta, crepitar de fogo, e o corvo soube que havia algo ali para ele presenciar, o motivo que o atraíra a montanha.
   Pousando em uma pedra perto da base da montanha, a primeira vez que o corvo tocava o solo deste mundo, ele pôs-se a observar o duelo mortal a sua frente. O dragão estava ferido e quase sem forças, as últimas labaredas que saiam de sua boca já fracas, mostrando que em breve ele não teria mais como guspir fogo. O orço com quem ele duelava igualmente no limite, feridas por todo corpo, cortes feitos pelas garras e cauda do dragão.
   O corvo observou em silêncio, sem fazer um único movimento, enquanto o combate se definia. O orço desviando-se de um ataque no último instante, para aproveitar e cravar fundo uma faca no pescoço do dragão. Este, fingindo estar agonizando para, em um movimento inesperado, gravar seus dentes na mão do guerreiro, arrancando-a com uma última dentada, apenas para ter o machado, em resposta, cravando-se em seu crânio.
   Com o combate encerrado, o orço se aproximou com sua faca da cabeça do dragão, e começou a usá-la para arrancar um de seus olhos. Tendo visto tudo que havia para ver ali, o corvo alçou vôo novamente.
   Para além do pé da montanha o corvo começou a ver sinais mais definitivos de vida, primeiro marcas verdes nas pedras, depois pequenas plantas, que se transformaram em uma floresta. Já era a noite do segundo dia, e o corvo voava por entre as árvores, sem sentir sono, fome ou cansaço, ainda não totalmente pertencente a este mundo para compartilhar das fragilidades das criações dos deuses. Desta vez o que o atraíra era uma canção na voz de uma elfa, e ele pousou pela segunda vez, agora no galho de uma árvore.
   A elfa o esperava, uma taça vazia em sua mão, gotas de soma escorrendo por entre seus lábios, o olhar perdido no horizonte. Ela parou de cantar.
   Soma era a bebida dos deuses do centro do mundo, e estes não poderiam saber de sua presença, mas a elfa era uma aliada, e ele grasnou - a primeira vez que emitia algum som – e sua voz trouxe a ela uma visão. E então o corvo partiu uma vez mais.
   E assim terminou o segundo dia.
   Para além da floresta onde os últimos elfos haviam se refugiado o corvo voou, seguindo o caminho trilhado pela raça agonizante em fuga, passando por campos queimados e abrigos destruídos, o sinal de guerra e destruição cada vez mais presentes.
   Por fim, novas ruínas começaram a surgir, diferentes dos abrigos elfos abandonados em meio a florestas, e o corvo soube que eram as cidades humanas. Uma ruína após outra o corvo encontrou, até chegar ao deserto de pedra no centro do mundo, e o corvo soube que estava próximo de seu destino, mas o terceiro dia ainda demoraria a terminar. Assim, uma vez mais o corvo pôs-se a voar ao redor de um deserto, desta vez o deserto no centro do mundo.
   A primeira cidade humana intocada que o corvo viu estava na fronteira do deserto de pedra, mas ele soube que nada havia ali de seu interesse, e não parou para lhe prestar atenção. A segunda cidade estava mais longe do deserto, e o corvo nem a perceberia, mas algo ali o atraiu, mesmo tendo ele já visto tudo que havia viajado para ver, e ele se pôs a voar na direção da primeira cidade do homem.
   Foi dentro dos muros, no alto de uma das torres da casa mais alta da cidade que o corvo pousou, quase hipnotizado pelo som que vinha de uma flauta tocada por uma mulher. Ela fingiu não olhar para ele, nem interrompeu sua música, e o corvo permaneceu a observar, curioso, certo que o instrumento que ela tocava havia sido criado por um dos deuses, quando uma dor súbita o atingiu, a primeira dor que ele havia sentido desde que entrara neste mundo.
   A mulher ainda permanecia a tocar, e o corvo se virou para ver uma criança a segurar um arco, cuja flecha recém lançada estava cravada em seu corpo, origem de sua dor. Com estranha dificuldade, o corvo abriu suas asas e partiu, a flecha pendurada em si, mortal se ele fosse uma criação deste mundo. Com dificuldade, ele se dirigiu direto ao centro do mundo, ciente de quão perto estivera de fracassar, deixando a primeira cidade do homem, a mulher e a criança para trás.
      No centro do mundo, o corvo pousou na primeira árvore, a flecha ainda trespassando seu corpo, seus olhos fixos em Wotan, que ali estava, crucificado. Ele se aproximou, e com o bico comeu seu olho esquerdo, o pagamento pelos pensamentos e memórias que então entregou com seu grasnado.
   Neste instante, Wotan se soltou da árvore, quase que sem esforço, e caiu de pé no chão, suas mãos e pés com as marcas da crucificação, e o corvo voou para seu ombro.
   Wotan se virou e agarrou um galho da árvore, e então, parecendo agora sim fazer grande força, o quebrou e usou para se apoiar no chão.
   E assim terminou o terceiro dia.

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