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FICÇÃO CIENTÍFICA  -  FANTASIA  -  TERROR.


sexta-feira, 19 de junho de 2015

Solitário Ben e o Dragão

   Solitário Ben, mochila nas costas, braço ainda na tipoia, abriu o portão da casa que não era mais sua, tendo já se despedido de sua não-mãe. O sol brilhava no céu, mas ele fingiu não se importar. Que o queimasse, ele não ficaria nem mais um dia ali. Sairia sem olhar para trás, o mundo inteiro à sua frente; mais de um mundo, na verdade.

   Mas, mãe ou não-mãe — e ele não sabia mais como chamá-la, talvez nunca viesse novamente a saber — ele hesitou, e bastou um olhar para seu rosto, lágrimas contidas, parada na porta entreaberta da casa em que viveu toda sua vida, para ele voltar correndo e abraçá-la uma última vez.

   "Eu te amo". "Eu te perdoo". Tudo dito no silêncio de seu último abraço.

   E, afastando-se de sua não-mãe, Solitário Ben em passos firmes — seu rosto úmido de lágrimas que escorriam sem resistência — partiu para sempre, todos os mundos o seu destino.

         *       *       *

   Com que facilidade as palavras eram ditas em uma língua melodiosa, poucos dias antes, subindo e descendo de tom como se cantadas, enquanto as mãos se moviam em velocidade sem igual e precisão absoluta. Em tudo diferente da forma hesitante e concentrada de Faidha, quando abriu o portal para este mundo.

   - Vamos, é hora de voltar para casa — disse a mulher que Solitário Ben não mais conhecia.

   "É hora de abandonar Faidha para morrer", pensou Solitário Ben, tentando ignorar a dor dos cortes em seu braço, o sangue escorrendo e manchando a neve a seus pés, "hora de voltar a não viver".

   E Solitário Ben atravessou o portal para seu mundo.

         *       *       *

   — Temos novos vizinhos. Se mudaram ontem para a casa dos Silva — o pai de Ben, João Luiz, falou no jantar, naquela noite em que tudo começou. Ele o fez em voz alta, sem se dirigir a ninguém em particular, enquanto dobrava seu Correio do Povo e o colocava na cadeira vazia a seu lado, e ficou aguardando em silêncio, esperando uma resposta. Ele quase nunca estava em casa, passava as manhãs  e tardes na rua, mesmo nos finais de semana, e pouco conversava. Era uma surpresa que iniciasse um assunto à mesa.

   — Que estes não nos incomodem — Lara, a mãe de Ben, respondeu, enquanto limpava a boca com um guardanapo de papel, em sua típica voz baixa e suave. Ela não gostava dos antigos vizinhos. Diferente do pai, ela quase nunca saía, e ensinava Ben pessoalmente, para ele não ter que ir à escola.

   — Eles têm uma filha que parece ter a idade de Ben. Pensei que talvez pudessem ser amigos.

   — Sabes que nosso filho não precisa de amigos  —  a voz de Lara agora mostrando firmeza e até uma ligeira irritação  — não amigos para debochar e provocá-lo por não poder sair ao sol. Não é a verdade, Ben?

    Ben concordou com um aceno. Verdade? Mentira? Que diferença fazia. Ele vivia praticamente preso àquela casa. Como saber se seria bom ou ruim conversar com pessoas de sua idade?

   Pediu licença para sair da mesa e voltar a seu quarto. Pelo menos agora ele tinha uma tevê e podia assistir o que quisesse.

   À noite, às vezes Ben abria a janela, para olhar as estrelas e sonhar com mundos distantes, como os que lia nos livros que a mãe comprava a seu pedido — ele só saia a noite, e mesmo assim nunca para lugares com muita gente, como shoppings centers e livrarias —, mas desta vez ficou apenas deitado em sua cama, esperando o sono chegar. Foi quando ouviu uma batida na janela. Do outro lado, pendurada em um galho de árvore, uma garota de uns doze anos olhava para ele.

         *       *       *

   — Meu nome é Faidha — falou em uma voz suave que um pouco lembrava sua mãe, após ele ter aberto a janela e ela ter entrado no quarto. — Como te chamas?

   — Ben — ele respondeu, sem saber o que mais dizer.

   — Sou tua nova vizinha. Nos mudamos ontem. Há muito tempo que moras aqui? — enquanto falava ela se sentou em sua cama — Bela cama. Adoro como são macias as camas de teu mundo. Quantos cobertores! Faz muito frio à noite?

   Bem permaneceu alguns segundos de boca aberta, sem saber o que dizer, nem o que responder primeiro. Depois começou a gaguejar, até que, por fim, conseguiu falar algo coerente, mas com o cuidado de não elevar a voz, tentando não imaginar o que aconteceria se sua mãe entrasse no quarto naquele momento — você não pode ficar aqui!
 
   — Não posso ficar aqui? Queres dizer, não tenho o poder de ficar aqui? Bobagem! Estou aqui, então não podes dizer que eu 'não posso estar aqui'. No máximo eu 'não deveria estar aqui', não?

   — Não sei. Que seja. Não sei. Você não deve ficar aqui, então. Se minha mãe descobrir, ela vai, tipo, surtar. Surtar completamente. Eu estou surtando. Você não pode, quer dizer, não deve entrar no quarto dos outros pela janela. As pessoas não fazem isso. E por favor, fale baixo.

   — Sempre és tão nervoso? Vou descer e lhe trazer uma água com açúcar. Aproveito e me apresento para tua mãe. Sim?

   — Não. Não, por favor, não. Ela vai surtar. Você tem que ir embora antes que ela apareça. Ela não gosta que eu fale com estranhos.

   — Bem que ela faz. Existem muitas pessoas malucas no mundo, sabias?  — "sim, estou olhando para uma delas", pensou Ben, mas nada falou  —  Mas resolveremos isso — e Faidha se levantou da cama de Ben, deu um passo em sua direção, e estendeu a mão — Seja educado. Dê-me tua mão e me cumprimente. Começaremos de novo.

   Ben obedeceu. O aperto dela era firme, quase ao ponto de machucar.

   — Boa noite, jovem Ben. Meu nome, como disse, é Faidha. Gosto de viajar e conhecer novas pessoas, adoro dormir à luz das estrelas e detesto levantar cedo. E às vezes, quando sei que ninguém está olhando, me vejo a chorar de saudades do meu lar. Ah, e eu não sou deste mundo.

   Faidha disse tudo isso, sem em nenhum momento soltar a mão de Ben, e então complementou — Tua vez agora. Diga-me coisas a teu respeito, e como eu contei algo que nunca falei para ninguém, também terás que revelar um segredo só teu, algo pessoal.

    Ela parecia decidida a não soltar sua mão até ele responder

   — Eu...eu... não sei. Eu tenho treze anos. Gosto de ler. Ficção científica, fantasia, estas coisas. E eu tenho uma doença, não posso pegar sol, nenhum sol, posso até morrer. Por isso eu quase nunca saio  de casa, minha mãe não deixa  — e ele hesitou. Alguma coisa pessoal?  — e eu não tenho amigos. Nenhum amigo. Ninguém. E às vezes eu penso em me matar por causa disso  — "eu falei isso mesmo?", Ben se viu a pensar, " e para uma maluca que eu nunca vi antes?".

   — Percebes? Trocamos segredos. Assunto resolvido, não somos mais estranhos. A proibição de tua mãe não se aplica mais a nós — ela sorriu e, ainda hesitante, Ben sorriu de volta. Era tudo tão surreal, a garota parecia uma avalanche em forma de gente, que Ben não sabia o que dizer.

   — Esta foi uma visita rápida, nos veremos amanhã, mesmo horário, mesma janela.  — ela começou a caminhar para a janela ainda aberta, e então se virou  — Até breve, Ben que não tem amigos  — ela parou no meio da frase, parecendo pensar  — não, muito longo... Solitário Ben. Isso. Até breve, Solitário Ben.

         *       *       *

    — De onde você é, de verdade? de São Paulo? — Era estranho quão fácil era conversar com Faidha, depois do primeiro dia, quando Solitário Ben mais gaguejou que falou. Ele lhe contou tudo sobre sua vida, seus medos, seus sonhos para o futuro, e ouviu cada uma das fantasias dela. Histórias de outros mundos, rainhas descendentes de dragões e povos expulsos de suas terras. Era fantástico, mais real que qualquer livro que ele já havia lido. Mas ele queria conhecer a verdadeira garota, não apenas a fantasia que ela inventou.

    — Achas que estou a mentir?  — Sua voz se elevando enquanto ela se colocava de pé, e Solitário Ben, receoso que, após mais de uma semana de encontros escondidos, desta vez sua mãe ouvisse alguma coisa, pediu novamente para falarem apenas em sussurros.

   — Olha, assim, tipo, não fica braba, tá? Eu adorei ouvir, é demais! Quer dizer, uma guria entra pela minha janela, e me diz que sou filho da rainha de uma terra distante, e que posso salvar seu reino. É tudo que qualquer um quer ouvir. E adorei, sério. Mas eu queria conhecer você, a você de verdade.

   — Essa sou a eu de verdade, Solitário Ben — ela falou mais alto que o som da tevê, sempre ligada para disfarçar — e és filho de quem és. Mas, se preferes viver esta não-vida, é tua a decisão, não?

   Dizendo isso, indiferente aos pedidos de desculpa de Solitário Ben, e sem se despedir, Faidha saiu pela janela.

         *       *       *

    "Os dragões se alimentam de medo, e só podem ser derrotados por aqueles com um coração de dragão, como o teu". Dizendo isso, Faidha havia encostado o dedo com força na marca no peito de Solitário Ben.

    "Isso é só uma marca de nascença", ele havia dito. "Não", ela negou, balançando a cabeça, "é um sinal de que és filho de Lahara, nossa rainha. É um sinal de que descendes de dragões,  e que eles não podem se alimentar de teu medo. Nem lhe fazer mal".

    Com Faidha caída, desacordada após ser arremessada contra uma parede, e um dragão ocupando quase toda a câmara do castelo, espremendo Solitário Ben e sua espada em um canto, as palavras pareciam vazias e distantes.

   Mesmo neste momento ele não estava arrependido. Faidha disse que seria perigoso quando abriu um portal para seu mundo — mundo dos dois, ela havia dito —, provando de uma vez por todas que — palavras dela — fosse maluca ou não, não era mentirosa. Mas ele estava com medo. E o dragão se alimentava de medo.

   — Aqui não deverias ter vindo — a voz do dragão era sibilante, como se imaginaria uma cobra a falar — Ousarás lutar? Erga, então, a espada. Ataque.

   Solitário Ben levantou sua espada, presente de Faidha — mas você não vai precisar dela, vamos apenas entrar e sair, antes que o dragão nos veja — e o Dragão golpeou. Foi como se seu braço estivesse sendo arrancado.

   Quando voltou a si, estava caído, o braço sangrando, a espada jogada longe. E a pata do dragão, levantada, prestes a esmagá-lo.

   Foi quando ouviu a voz de sua mãe.

         *       *       *

   — Acaso, agora, os todo-poderosos dragões combatem simples crianças? — Era a mãe de Solitário Ben a falar. Mas parecia diferente, mais bonita, seu cabelo mais longo, um leve brilho a percorrer seu corpo. Talvez fosse apenas a tontura que agora parecia dominá-lo.

   — Simples criança um filho teu, Lady Lahara? Por nosso pacto, manterias daqui teus filhos longe. Achas que a marca de teus descendentes é proteção absoluta?

   — E acaso, Kothinotharo, uma falsa marca no peito de uma criança trocada na maternidade é suficiente para enganá-lo? Perdeste o olfato nesses longos anos? — Dito isso, o dragão aproximou sua face de Solitário Ben, até quase encostar em seu rosto.

   — Falas verdades. Uma criança humana apenas, não filho teu. Não quebrastes o pacto. Mas ousou invadir ele o meu castelo.

   — Assim como eu ousei. E a criança está sob minha proteção.  Vais me enfrentar pela vida dela?

    O Dragão pareceu hesitar um instante, antes de responder — Não. Tal dissestes, não filho teu. Partir podes, levando-o; nada por que lutar aqui.

    — E Faidha? — Solitário Ben tentou falar, mas a voz não lhe saiu. E tudo desapareceu em escuridão.

         *       *       *

    O sangue escorria de seu braço, de dois cortes profundos das garras do dragão, e caia na neve. Foi o que Solitário Ben viu, ao despertar, carregado nos braços de sua não-mãe. Mas a dor não importava. O que ia acontecer com Faidha?

   — Estamos distantes o suficiente. O portal não pode ser aberto dentro do castelo, mas suponho que isso aquela garota já lhe mostrou. Não importa, ela terá o que merece. — Dizendo isso, sua não-mãe o colocou no chão.

   — Nós temos que voltar. Não podemos deixá-la — a voz de Solitário Ben estava fraca, mas audível. Sua não-mãe fingiu não ouvir, e começou a falar em uma língua estranha, a mesma que Faidha usou, mas com mais naturalidade, e um portal se abriu na frente dos dois.

  — É hora de partirmos. — E, pegando Solitário Ben pelo braço não machucado, o arrastou consigo através do portal.

         *       *       *

   Ele se soltou de sua mãe com um movimento rápido. Saltou de volta, e o portal se fechou a suas costas. A neve macia o abraçou, recebendo-o neste mundo que não era o seu.

   Agora, estava na entrada do castelo, o mundo a girar, as pernas trêmulas. Antes, com Faidha, havia escalado uma parte desmoronada da muralha, na crença que o dragão não os perceberia.

   Não havia funcionado.

   Solitário Ben entrou no castelo em passos firmes, ignorando a tontura, e gritou.

   —  Thinoqualquercoisa! Dragão! Como quer que se chame, estou aqui!

   — Novamente desafias-me, criança?  — o som veio de trás, e ao se virar, Solitário Ben viu o rosto do dragão a centímetros do seu. Ele não recuou.

   — A garota. Deixe-a ir.

   — Vieste, garoto, por isso? Por sua amiga irás me enfrentar, quando fostes já derrotado uma vez?  — uma fumaça negra saía das narinas da criatura, quase impedindo Solitário Ben de respirar.

   — Faidha me disse que você se alimenta de nossos medos. Eu não tenho medo, dragão.

   — É doce o medo que finges não ter. Mas maior por sua amiga é ele. Eu gosto disso, da coragem tola  — e o Dragão encosta sua pata no coração de Solitário Ben, na marca — falsa marca — de nascença.

   — A garota, Faidha...

   — O povo de sua não-mãe, em falsas lendas, chama quem carrega a marca que imitas de descendentes de dragões. Acreditam, talvez, verdade. É marca, porém, apenas daqueles - e seus filhos - que, de um dragão, conquistaram respeito.

   — Você vai deixá-la ir?

   — Sim. E um outro presente lhe dou também.

   E um calor começou a crescer no peito de Solitário Ben, até se espalhar por todo seu corpo e consumi-lo por completo. E tudo se tornou fogo.

         *       *       *

   Solitário Ben ficou apenas poucos dias na casa que outrora considerou sua. Estava tão fraco, ao chegar, que não teria conseguido dar mais que poucos passos.

   Agora, mochila nas costas, braço em tipoia, um último abraço a despedida de sua não-mãe, atravessou o portão de sua casa. Não temia mais o sol. Fosse mentira de sua não-mãe, ou curado estivesse pelo dragão, ou mesmo que o sol o queimasse por inteiro, ele não tinha mais medo.

   À sua espera, também uma mochila nas costas, Faidha.

   — Vamos, Ben. Que mundo vamos visitar primeiro?

   —  Ué, não sou mais "Solitário" Ben?

   Faidha nada falou, apenas segurou sua mão, seu sorriso a resposta que os acompanhou na jornada por todos os mundos:

   —  Não enquanto tiveres a mim.



terça-feira, 2 de junho de 2015

O Preço da Vida Eterna

   Onde estou?

   A pequena mão segurando a minha é familiar. O leve toque de seus dedos minúsculos enquanto caminha ao meu lado é uma lembrança que jamais esqueci. A criança move os lábios em um sorriso que também está gravado para sempre na minha mente, intacto, como se o tivesse visto ontem, tão nítido quanto uma memória de implante cibernético.
Eu tinha treze anos, ela tinha dez, e aquele era o pior dia da minha vida.

   "Computador, por que estou revivendo isso?"

   "São suas lembranças, presidente Arthur. Não é por isso que está aqui? Para preservar sua vida para sempre?"

   Eu caminho com minha irmã até a recepção do prédio. Eles me param por causa do meu olho esquerdo, e eu tenho que tirá-lo e entregar aos guardas, que o colocam em uma máquina. Na época eu não entendia muito bem, mas hoje sei que estavam verificando se não havia nenhum vírus instalado.

   Eu ponho o olho de volta, de costas para minha irmã, envergonhado. Fazia menos de um ano que eu havia vendido meu olho e recebido este no lugar, e ainda tinha vergonha de usá-lo.

   "Eu não quero reviver isso. Computador, traga-me outra memória."

   "Esta não é a memória mais importante da sua vida, Thur?"

   "Não me interessa. Mostre-me qualquer outra coisa."

   "Muito bem."

   Estou em outro lugar. Sou outra pessoa e o garotinho assustado é agora uma lembrança distante. Mas o computador não escolheu nenhum dos grandes momentos da minha vida. Não foi quando assumi a presidência da Petro-Sekai, a maior corporação que a humanidade já viu, e me tornei um dos homens mais ricos do mundo. Nem quando ajudei a construir a primeira colônia humana independente fora da Terra. Não, o computador me levou à reunião em que me mostraram o procedimento que salvaria minha vida, poucas semanas atrás.

   "Isso é inútil, computador. Que importância tem esta memória?"

   "Shh, calma, tenha paciência comigo, Thur".

   Na minha frente, o médico respondia minhas perguntas com precisão e segurança.

   - Nós estamos chegando perigosamente perto do limite da extensão de vida em um substrato orgânico, presidente. Mesmo que todas suas lembranças das últimas décadas estejam armazenadas em circuitos quânticos, a estrutura neural principal de seu córtex ainda é puramente biológica. Haverá o momento em que sua equipe não conseguirá mantê-la estável. Se continuar com sua mente essencialmente composta de neurônios naturais, você certamente morrerá em algum momento nos próximos meses.

   - A versão de imortalidade que sua empresa oferece, Doutor Howard, não me interessa. Não tenho nenhum interesse em que vocês criem um computador quântico que emule minha mente.

   - Hoje, nós podemos fazer muito mais que isso, presidente. O que estou propondo é algo que nunca foi feito antes, ou pelo menos não em seres humanos. Estou propondo substituir seus neurônios, à medida que morrem, um por um, por neurônios quânticos. É mais que uma emulação. Perto disso, os circuitos quânticos que todos nós utilizamos para manter registros de nossas memórias são tão primitivos quanto eram os computadores digitais.

   "Eu sei muito bem dessa reunião. É por isso que estou aqui, neste cenário virtual, enquanto recebo a primeira carga de neurônios, para facilitar minha adaptação. Mas ficar me mostrando estas lembranças tem algum objetivo?"

   "É claro que tem, Thur. Tudo está conectado. Veja, vamos voltar à sua primeira memória".

   Antes que eu possa protestar, o computador projeta uma nova recordação. Sou de novo aquela criança de 13 anos, com um olho e órgãos artificiais substituindo partes vendidas em uma época que comprar órgãos era mais barato que construí-los. E eu estava prestes a vender minha parte mais preciosa. Minha alma.

   - O que vocês vão fazer com ela?

   - Garoto, você vai receber mais dinheiro do que jamais iria juntar em toda sua vida, mesmo se vivesse mil anos. O suficiente para nunca mais se preocupar com a próxima refeição. Por este preço, posso lhe assegurar que estamos pagando muito bem por sua irmã, e lhe garanto que ela será valiosa demais para simplesmente vendermos pedaços dela.

   "Pare! Eu não preciso lembrar isso de novo. Vejo cada vez que fecho meus olhos. Sonho cada vez que durmo. Por que está me mostrando isso?"

   "Nós temos algum tempo até podermos despertar seu cérebro, Thur. Estas lembranças são importantes. Vamos ver mais uma."

   O mesmo homem está caminhando comigo por uma enorme instalação. Estou assustado. Ele fica falando sobre como vou viver dentro de uma máquina e me tornar uma das pessoas mais importantes do mundo.

   "Isso nunca aconteceu, eu nunca mais vi aquele homem!"

   "Não, você não viu mais ele. Nem ele nem sua irmã, que ficou na outra sala, esperando você voltar. Esperando por toda uma vida".

   "Computador, pare imediatamente. Isso é uma ordem. Quero um contato com um supervisor!"

   "Não."

   "Você não pode me desobedecer."

   "Veja suas memórias, Thur. Veja suas memórias".

   Estou com 195 anos, ouvindo novamente as explicações do médico das Indústrias Vida Eterna. Estou com 13 anos, vendendo minha irmã pelo dinheiro que me daria a chance de construir uma vida para mim.

   195 anos. Um médico no uniforme azul claro com o discreto logo vermelho das Indústrias Vida Eterna ocupa toda minha visão.

   13 anos. Um homem vestindo um uniforme no mesmo tom de azul sorri enquanto me cumprimenta pela minha decisão, e eu me lembro da única pessoa que me chamava de Thur.

   E então eu entendo, antes mesmo que ela fale.

   "Você vai despertar agora, Thur, e um pedacinho minúsculo de sua mente não será mais sua. Uma pequena fração de seus neurônios será uma outra pessoa em seu lugar, e cada vez que você vier aqui, vou tirar um pouquinho mais de você."

   "E vou colocar um pouquinho mais de mim."

   "E assim vou pegar de volta a vida que você me tirou, irmão".

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domingo, 24 de maio de 2015

Criaturas da Escuridão

   No escuro, as luzes do banheiro apagadas, Yasmin esfregava a esponja de banho com força por todo o corpo, deixando a pele vermelha. A água caia gelada, e ela tremia de frio e de medo. Seus lábios roxos só murmuravam que ela nunca mais faria aquilo, nunca mais tentaria revelar a ninguém sobre as vozes. De seus olhos fechados - que nada veriam na escuridão, de qualquer forma - escorriam lágrimas.

   Por fim ela desligou o chuveiro, se enrolou na toalha, e se deitou no chão do box, tapando os ouvidos com as mãos, em um gesto inútil, pois as vozes persistiam, quase inaudíveis, mas perfeitamente compreensíveis...

   "Achávamos que você era nossa amiga".

   "Nós sempre a amamos, e é assim que nos trata?".

   "E então? Gostou do nosso banho? Serviu de lição?"

   As vozes só se calaram quando se ouviu o barulho da porta da frente sendo aberta. Dona Marta, que ajudava na limpeza da casa, havia chegado.

   Yasmin ouviu os passos subindo as escadas do casarão, e viu, pela claridade por baixo da porta, que as luzes do corredor foram acesas.

   E então ouviu o grito de Dona Marta.

   "Lembre-se, não fale mais de nós para ninguém. As pessoas não iriam nos aceitar, você entende agora?"

   Yasmin concordou com a cabeça. Sim, ela entendia.

  *  *  *

   Quando era menor, Yasmin se achava a criança mais sortuda do colégio. Alguns colegas tinham um amigo imaginário, mas ninguém tinha tantos quanto ela. Eram dezenas, e ela passava horas conversando com eles, todas as noites. Eles visitavam-na sempre que estava escuro, desde que ela se lembrava das coisas, e se chamavam "as criaturas da escuridão". Não lembrava se tinha inventado, ou eles que lhe haviam dito seu nome.

   Às vezes, sua mãe vinha de surpresa e entrava no quarto ligando a luz. Mas é claro, seus amigos desapareciam junto com a escuridão, e sua mãe nunca conseguia vê-los e nunca entendia com quem ela estava falando.

   Eles eram muito mais legais que os outros amigos imaginários. Não apenas conversavam, mas brincavam com ela, a tocavam, faziam coisas proibidas. Coisas de adulto. Pelo menos foi o que sua mãe lhe disse, quando ela foi levada para a direção, depois que a professa a pegou mostrando o que eles faziam para suas colegas. Sua mãe ficou muito braba naquele dia, e disse que não era mais para ela brincar ou conversar com nenhum amigo imaginário.

   Eles explicaram que os adultos eram assim mesmo. Então, daquele dia em diante ela cuidava para sempre falar baixinho. E nunca fazer barulho, nem mesmo quando eles tocavam nos lugares proibidos. Mesmo se doesse.

   Ela achou que sua mãe havia esquecido do assunto, nunca mais falaram a respeito, até que ela deixou escapar uma das últimas conversas que teve com eles.

   Ela estava de costas para sua mãe, ajeitando a mesa do café da manhã e contando sobre Ana, sua colega chata, e as ideias que eles tinham lhe passado. Quando se virou e viu a cara apavorada de sua mãe, soube na hora que havia falado alguma coisa errada.

   "De onde você tirou estas ideias? Quem lhe ensinou isso?"

   Chorando, apavorada com a fúria de sua mãe, ela admitiu que foram seus amigos.

   A partir daquele dia ela teve que ir uma vez por semana em uma psicóloga. Só porque ela contou que eles explicaram como que ela podia matar uma coleguinha de classe: pílulas, facas, empurrar da escada, as vantagens e desvantagens de cada opção. Só que a Ana era muito má, merecia, mas nem a psicóloga nem sua mãe conseguiram entender isso.

   Mas o pior foi umas duas semanas atrás, quando sua mãe veio conversar com ela, depois de voltar de uma reunião com a psicóloga. Yasmin ficou tão transtornada depois da conversa que chorou a noite inteira. Nem seus amigos conseguiram acalmá-la.

   "Ela disse que vocês não são reais, que são só minha imaginação", ela explicou, entre os soluços e lágrimas.

   Os dias seguintes foram horríveis. Sua mãe queria que ela admitisse que seus amigos não existiam, mas ela não podia fazer isso. Ela não era louca, eles eram reais, eram seus amigos. Se as outras crianças não tinham amigos da escuridão, e tinham que inventar que falavam com seus bichos de pelúcia, não era culpa dela.

   Foi então que ela teve uma ideia, e não falou para ninguém, nem mesmo para seus amigos. Era uma coisa que seu pai tinha lhe mostrado, quando ainda era vivo, e naquela tarde mesmo ela foi procurar nas coisas dele, que ficavam na garagem: uma lâmpada escura.

   Seu pai tinha um passatempo: tirar e revelar fotos. Era meio coisa de maluco, usar umas máquinas antigas e revelar fotos usando uns produtos químicos. O importante é que para não estragar as fotos, ele usava uma lâmpada diferente, que deixava tudo vermelho.

   Naquela noite, ela arrastou uma cadeira até o quarto, subiu em cima, e trocou a lâmpada por esta. Ficou torcendo os dedos para que funcionasse. Será que a lâmpada ainda ligava? E seus amigos não iam fugir que nem quando se acendia uma lâmpada normal? Ela ficou tão feliz que deu um grito. De alguma forma, mesmo na escuridão, ela sempre conseguia vê-los, mas agora eles estavam bem visíveis, por todo o quarto. Não tinha como sua mãe dizer que eles eram só imaginação.

   "Mãe, mãe, vem aqui. Vem aqui, agora".

   As criaturas da escuridão disseram para ela ficar quieta, mas já era tarde. Ela podia ouvir os passos da mãe no corredor, e depois a maçaneta girando.

   "Está vendo, mãe? São estes os meus amigos."

   *  *  *

   Ela passou horas contando tudo para os policiais, mas teve que inventar muita coisa. Teve que assumir toda a culpa, sabia que nunca mais podia falar sobre seus amigos. Eles lhe explicaram tudo, enquanto lhe davam seu banho. Explicaram como teriam que matar qualquer pessoa que os visse. Exceto ela, é claro. Ela era especial, era amiga deles.

   Então ela inventou que fez tudo sozinha. Como cortou toda a barriga da mãe, como foi tirando as tripas para fora, com a mãe ainda viva, gritando de dor e medo. Como esfregou os pedaços por todo seu corpo. Como o banho de sangue foi ideia sua - embora na hora eles que a tivessem obrigado. Como continuou, mesmo depois da mãe morta, até estar toda encharcada de tripas e sangue, e que só depois foi para o chuveiro, onde a encontraram.

   Quando finalmente a deixaram ir para um quarto, se deitar e dormir, ela estava exausta,
transtornada, triste. Sua mãe estava morta.

   Mas felizmente estava escuro.

   E as criaturas da escuridão já não estavam mais chateadas com ela, e vieram para consolá-la.


sábado, 16 de maio de 2015

Sonhos que Sonhamos Juntos

   Meu primeiro sonho da noite foi com Aline. Tomamos chá com o Chapeleiro Louco.
   - Este chá é delicioso, Aline. Foi você que fez? - o Chapeleiro falou com uma voz suave e um sorriso simpático, mas foi o suficiente para Aline olhar para baixo e se encolher toda em sua cadeira. Eu respondi em seu lugar.
   - Foi ela que fez, sim, Chapeleiro. - e, virando-me para Aline, acrescentei - está, de fato, delicioso, querida. Meus parabéns - ela apenas levantou seus grandes olhos que pareciam de um desenho de anime, mas continuou em silêncio. Então olhou de relance para o Chapeleiro, e era óbvio que estava com medo.
   - Chapeleiro, acho que Aline quer passear agora, não é verdade? - olhei para ela, que assentiu com um leve movimento da cabeça, e continuei - agradecemos a companhia, mas ainda temos outros lugares para ir, se não se importa.
   Aline se levantou, eu dei tchau para o Chapeleiro, e começamos a caminhar pela estrada de tijolos amarelos. Ela só se acalmou um pouco quando o Chapeleiro não estava mais visível, e me deu sua mão - que segurei de leve com a minha - depois de uns bons cinco minutos de caminhada. Se minha suspeita estivesse certa, encontrarmos um homem de lata ou um espantalho só a faria ficar com medo novamente. Fiz bem em ter escolhido ser uma menina da idade dela.
   - Venha, tem alguém que eu quero que você conheça - eu disse, puxando-a pela mão - Teremos que sair da estrada, mas não tem problema.
   Começamos a correr de mãos dadas, e pela primeira vez vi Aline sorrir, e quando tropeçamos e caímos juntas morro abaixo, sem nos machucar porque a relva era tão macia, ela finalmente começou a rir. Gargalhar. Foi lindo ver.
   Quando nossa queda terminou em um pequeno riacho, foi minha vez de rir de sua cara de nojo ao levantar o rosto todo sujo de lama.
   - Mas o que é isso? Vocês querem pegar um resfriado, se molhando desse jeito - Olhamos para trás ao mesmo tempo, para ver de onde vinha a voz. Uma guaxinim falante, com uma bengala na mão e uma manta enrolada no corpo, nos observava, com uma cara zangada, na beira do riacho.
   Enquanto me levantava, fiz as apresentações - Aline, quero que conheça vovó Guaxinim. Vovó, conheça minha amiga, Aline. Estou levando-a para passear.
   - Está levando-a para fazer estripulias e se sujar, é o que estou vendo - Vovó Guaxinim me respondeu, enquanto estendia a mão para Aline - venha, menina, vamos sair já desta água e achar um jeito de esquentá-la antes que você pegue um resfriado - ela ajudou Aline a se levantar. Depois, nos levou até sua casa.
   Na casa da Vovó Guaxinim, sentamos as três em volta de uma lareira, eu e Aline peladas e enroladas em toalhas, enquanto nossas roupas secavam ao redor do fogo. Aline havia ficado nervosa quando se despiu, mas agora, envolta na toalha, estava calma novamente.
  - Então, me conte, Aline, Cecília me disse que você tem uma irmã. Verdade? - Cecília era eu, o alias que eu usava nos sonhos com Aline.
  Aline assentiu com a cabeça, sem nada dizer. Ela não havia dito nada desde o início do sonho, mas se tinha alguém que sabia como fazer crianças traumatizadas falarem, era Vovó Guaxinim. Não que eu concordasse muito com seus métodos.
   - Estes olhos estão muito velhos e cansados para eu conseguir ver se você está mexendo esta sua cabecinha, querida. Vai ter que falar para responder minha pergunta.
   - Sim, eu tenho uma irmã - Aline respondeu, a voz quase inaudível
   - E estes ouvidos estão muito velhos para ouvir sussurros que parecem de uma borboleta.
   - Sim, tenho uma irmã - repetiu Aline, a voz apenas ligeiramente mais alta.
   O diálogo continuou por um tempo, Vovó Guaxinim perguntando sobre a irmã de Aline, depois sobre sua mãe, a escola, os amigos. E, por fim, ela perguntou sobre seu pai.
   Aline começou a tremer e não quis responder, e quando encostei a mão em seu ombro para abraçá-la, ela reagiu com um safanão, depois se encolheu toda.
   Levou quase meia-hora para ela se acalmar, mas Vovó Guaxinim é ótima nestas coisas, e me ajudou. Ao final do sonho, Aline já estava sorrindo novamente. Antes de acordar, ainda fiz Vovó Guaxinim dormir, e ambas saímos de mansinho, para então correr de novo ladeira abaixo, nos atirarmos no riacho, e brincarmos de jogar água uma na outra até o tempo dela terminar.
   Eu me vi sorrindo para mim mesma quando Aline acordou, mas um pouco triste por seu sonho ter terminado. Felizmente ainda havia outros sonhos esta noite. E Pedro era um dos meus preferidos.
   O sonho de Pedro começava na cama do hospital, como sempre, mas eu já tinha aprendido a não dar margem para este tipo de coisa. Também já tinha descoberto que, ao contrário de Aline, com ele era melhor ser direta e sincera. Brutal até. Mesmo quando eu exagero e ele fica furioso comigo, ainda é melhor que deixá-lo apático e deprimido.
   - Se você vai ficar aí como um tetraplégico, não precisa nem se dar ao trabalho de sonhar. Me avisa que eu vou embora e peço para te acordarem - foi um pouco cruel, pois ele era mesmo  um tetraplégico na vida real.
   - Tá bom, tá bom, estou levantando - enquanto saia da cama, ele me olhou curioso - Por que você parece uma menininha?
   - Foi você que disse que eu podia parecer o que eu quisesse, que não fazia diferença - eu respondi - ao que eu me lembre, você disse que eu podia ser até uma bola branca e sem graça, que dava na mesma - sim, eu ainda estava zangada. Foi na primeira vez que nos encontramos, e eu passei um tempão escolhendo um corpo e roupas deslumbrantes. Há certas coisas que você não diz para uma mulher.
   - Não faz diferença mesmo, já disse que você pode aparecer na forma que quiser. O que eu queria saber é o porquê de você ter escolhido uma garotinha?
   - É que eu era uma garotinha, Cecília, no sonho em que estava antes. Como você disse que para você não faz diferença, eu só não troquei meu corpo - isso era só uma meia verdade, e eu hesitei em falar mais alguma coisa, mas por fim admiti - e também porque eu gosto de ser Cecília.
   Pedro não me perguntou mais nada, mas me olhou com uma cara estranha por alguns segundos. Lembrei que ele provavelmente me entendia melhor que a maioria das pessoas, pelo trabalho que fazia.
   De qualquer modo, Pedro tinha um corpo de jovem nos sonhos - a idade que tinha há 20 anos, quando se acidentou - e gostava de esportes radicais. Assim, descemos montanhas de esqui, saltamos de para-quedas, andamos de lancha. Só não fizemos corrida de carros. Isso nunca.
   Foi divertido. Terminamos seu sonho com um duelo de espadas em um navio pirata. Tive que crescer um pouquinho, não ia ter muita graça duelar com uma criança de 10 anos. Ele me abraçou para se despedir, logo antes de acordar, e então falou uma coisa estranha.
   - Sabe, o que você disse, sobre você gostar de ser Cecília. É verdade isso? Você não me disse apenas por alguma razão terapêutica ou coisa assim?
   Eu concordei, em silêncio, com um leve aceno. Não estava me sentindo confortável com o rumo da conversa.
   - Olha, vamos falar a respeito, na próxima vez que nos encontrarmos, pode ser? - eu não sabia o que dizer, nunca tinha falado sobre mim com ninguém, não era minha tarefa, mas assenti novamente.
   Dei um tchau, e ele se despediu para voltar para sua vida de tetraplégico. Se eu fosse ele, viveria só nos sonhos, mas ele me disse que gosta de seu trabalho. Pesquisar computadores quânticos, inteligência artificial, estas coisas.
   Meu próximo sonho foi com Gladis, e eu nem sempre gosto destes sonhos. Algumas vezes ela está agitada demais - em surto - e me xinga e joga coisas em mim, mas desta vez ela estava bem. Sonhamos com seu casamento, quando ela era jovem, antes de começar a usar drogas e ter suas primeiras alucinações.
   Depois teve Geraldo, e agora tem sido legal sonhar junto com ele. Os primeiros sonhos me incomodavam muito, eram sempre com a guerra - ele lutou no Chile, no Equador, até no Panamá, logo antes da trégua - mas agora isto passou. Hoje em dia, sonhamos que ele está escrevendo um livro -  e ele está escrevendo um livro de verdade, eu já li os primeiros capítulos e gostei muito - ou montando um negócio, que foi o sonho de hoje. Os médicos dizem que é um ótimo sinal, e que logo ele não vai mais vir na terapia comigo. Fiquei feliz por ele, mas me senti triste em saber que não iria mais vê-lo. Ia pedir se não tinha como me deixarem ler seu livro quando for publicado, mas tenho medo que achem estranho. Nunca pedi nada para mim, não sei se posso.
  Geraldo foi o último da noite. As enfermeiras levaram-no, e o médico de plantão - me dei conta só agora que não sei seu nome, nunca perguntei - começou a apagar os aparelhos. Eu hesitei, quase deixei ele me desligar, mas por fim, tomei coragem para falar.
   - Você pode me deixar ligada, se não for pedir muito? - ops, falei ligada, com 'a' no final. Será que ele vai estranhar? Quer dizer, não é como se eu tivesse um sexo definido, e então eu suponho que devia sempre falar no masculino quando não estou nos sonhos, mas, não sei, acho que me sinto mais natural pensando em mim como mulher, fêmea, o que for.
    Ele pareceu surpreso, e ficou me olhando sem saber o que fazer. Quando os médicos falam comigo é diferente das pessoas nos sonhos. Eles só fazem perguntas,  e nunca é a meu respeito, é sempre sobre os pacientes. Acho que, para eles, eu nem existo, como se eu fosse só uma máquina. Não gosto disso, mas é como as coisas são.
   Mas ele atendeu meu pedido, saiu sem me desligar. Só ficou me olhando por cima do ombro, desconfiado, antes de fechar a porta do quarto. Espero não ter problemas por causa disso.
   Sozinha, liguei as rotinas de sonho no modo automático e aleatório.
   Apareci em um castelo medieval. Não destes realistas, que não tinham banheiro e deviam feder o tempo todo, mas em um castelo de contos de fadas. Tinha um príncipe me esperando.
   - E então, minha bela princesa, que cuida dos sonhos de tantos, como posso servi-la? Qual o sonho que você deseja?
   Eu respondi sorrindo:
   - Eu quero sonhar que sou humana.