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FICÇÃO CIENTÍFICA  -  FANTASIA  -  TERROR.


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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Solitário Ben e o Dragão

   Solitário Ben, mochila nas costas, braço ainda na tipoia, abriu o portão da casa que não era mais sua, tendo já se despedido de sua não-mãe. O sol brilhava no céu, mas ele fingiu não se importar. Que o queimasse, ele não ficaria nem mais um dia ali. Sairia sem olhar para trás, o mundo inteiro à sua frente; mais de um mundo, na verdade.

   Mas, mãe ou não-mãe — e ele não sabia mais como chamá-la, talvez nunca viesse novamente a saber — ele hesitou, e bastou um olhar para seu rosto, lágrimas contidas, parada na porta entreaberta da casa em que viveu toda sua vida, para ele voltar correndo e abraçá-la uma última vez.

   "Eu te amo". "Eu te perdoo". Tudo dito no silêncio de seu último abraço.

   E, afastando-se de sua não-mãe, Solitário Ben em passos firmes — seu rosto úmido de lágrimas que escorriam sem resistência — partiu para sempre, todos os mundos o seu destino.

         *       *       *

   Com que facilidade as palavras eram ditas em uma língua melodiosa, poucos dias antes, subindo e descendo de tom como se cantadas, enquanto as mãos se moviam em velocidade sem igual e precisão absoluta. Em tudo diferente da forma hesitante e concentrada de Faidha, quando abriu o portal para este mundo.

   - Vamos, é hora de voltar para casa — disse a mulher que Solitário Ben não mais conhecia.

   "É hora de abandonar Faidha para morrer", pensou Solitário Ben, tentando ignorar a dor dos cortes em seu braço, o sangue escorrendo e manchando a neve a seus pés, "hora de voltar a não viver".

   E Solitário Ben atravessou o portal para seu mundo.

         *       *       *

   — Temos novos vizinhos. Se mudaram ontem para a casa dos Silva — o pai de Ben, João Luiz, falou no jantar, naquela noite em que tudo começou. Ele o fez em voz alta, sem se dirigir a ninguém em particular, enquanto dobrava seu Correio do Povo e o colocava na cadeira vazia a seu lado, e ficou aguardando em silêncio, esperando uma resposta. Ele quase nunca estava em casa, passava as manhãs  e tardes na rua, mesmo nos finais de semana, e pouco conversava. Era uma surpresa que iniciasse um assunto à mesa.

   — Que estes não nos incomodem — Lara, a mãe de Ben, respondeu, enquanto limpava a boca com um guardanapo de papel, em sua típica voz baixa e suave. Ela não gostava dos antigos vizinhos. Diferente do pai, ela quase nunca saía, e ensinava Ben pessoalmente, para ele não ter que ir à escola.

   — Eles têm uma filha que parece ter a idade de Ben. Pensei que talvez pudessem ser amigos.

   — Sabes que nosso filho não precisa de amigos  —  a voz de Lara agora mostrando firmeza e até uma ligeira irritação  — não amigos para debochar e provocá-lo por não poder sair ao sol. Não é a verdade, Ben?

    Ben concordou com um aceno. Verdade? Mentira? Que diferença fazia. Ele vivia praticamente preso àquela casa. Como saber se seria bom ou ruim conversar com pessoas de sua idade?

   Pediu licença para sair da mesa e voltar a seu quarto. Pelo menos agora ele tinha uma tevê e podia assistir o que quisesse.

   À noite, às vezes Ben abria a janela, para olhar as estrelas e sonhar com mundos distantes, como os que lia nos livros que a mãe comprava a seu pedido — ele só saia a noite, e mesmo assim nunca para lugares com muita gente, como shoppings centers e livrarias —, mas desta vez ficou apenas deitado em sua cama, esperando o sono chegar. Foi quando ouviu uma batida na janela. Do outro lado, pendurada em um galho de árvore, uma garota de uns doze anos olhava para ele.

         *       *       *

   — Meu nome é Faidha — falou em uma voz suave que um pouco lembrava sua mãe, após ele ter aberto a janela e ela ter entrado no quarto. — Como te chamas?

   — Ben — ele respondeu, sem saber o que mais dizer.

   — Sou tua nova vizinha. Nos mudamos ontem. Há muito tempo que moras aqui? — enquanto falava ela se sentou em sua cama — Bela cama. Adoro como são macias as camas de teu mundo. Quantos cobertores! Faz muito frio à noite?

   Bem permaneceu alguns segundos de boca aberta, sem saber o que dizer, nem o que responder primeiro. Depois começou a gaguejar, até que, por fim, conseguiu falar algo coerente, mas com o cuidado de não elevar a voz, tentando não imaginar o que aconteceria se sua mãe entrasse no quarto naquele momento — você não pode ficar aqui!
 
   — Não posso ficar aqui? Queres dizer, não tenho o poder de ficar aqui? Bobagem! Estou aqui, então não podes dizer que eu 'não posso estar aqui'. No máximo eu 'não deveria estar aqui', não?

   — Não sei. Que seja. Não sei. Você não deve ficar aqui, então. Se minha mãe descobrir, ela vai, tipo, surtar. Surtar completamente. Eu estou surtando. Você não pode, quer dizer, não deve entrar no quarto dos outros pela janela. As pessoas não fazem isso. E por favor, fale baixo.

   — Sempre és tão nervoso? Vou descer e lhe trazer uma água com açúcar. Aproveito e me apresento para tua mãe. Sim?

   — Não. Não, por favor, não. Ela vai surtar. Você tem que ir embora antes que ela apareça. Ela não gosta que eu fale com estranhos.

   — Bem que ela faz. Existem muitas pessoas malucas no mundo, sabias?  — "sim, estou olhando para uma delas", pensou Ben, mas nada falou  —  Mas resolveremos isso — e Faidha se levantou da cama de Ben, deu um passo em sua direção, e estendeu a mão — Seja educado. Dê-me tua mão e me cumprimente. Começaremos de novo.

   Ben obedeceu. O aperto dela era firme, quase ao ponto de machucar.

   — Boa noite, jovem Ben. Meu nome, como disse, é Faidha. Gosto de viajar e conhecer novas pessoas, adoro dormir à luz das estrelas e detesto levantar cedo. E às vezes, quando sei que ninguém está olhando, me vejo a chorar de saudades do meu lar. Ah, e eu não sou deste mundo.

   Faidha disse tudo isso, sem em nenhum momento soltar a mão de Ben, e então complementou — Tua vez agora. Diga-me coisas a teu respeito, e como eu contei algo que nunca falei para ninguém, também terás que revelar um segredo só teu, algo pessoal.

    Ela parecia decidida a não soltar sua mão até ele responder

   — Eu...eu... não sei. Eu tenho treze anos. Gosto de ler. Ficção científica, fantasia, estas coisas. E eu tenho uma doença, não posso pegar sol, nenhum sol, posso até morrer. Por isso eu quase nunca saio  de casa, minha mãe não deixa  — e ele hesitou. Alguma coisa pessoal?  — e eu não tenho amigos. Nenhum amigo. Ninguém. E às vezes eu penso em me matar por causa disso  — "eu falei isso mesmo?", Ben se viu a pensar, " e para uma maluca que eu nunca vi antes?".

   — Percebes? Trocamos segredos. Assunto resolvido, não somos mais estranhos. A proibição de tua mãe não se aplica mais a nós — ela sorriu e, ainda hesitante, Ben sorriu de volta. Era tudo tão surreal, a garota parecia uma avalanche em forma de gente, que Ben não sabia o que dizer.

   — Esta foi uma visita rápida, nos veremos amanhã, mesmo horário, mesma janela.  — ela começou a caminhar para a janela ainda aberta, e então se virou  — Até breve, Ben que não tem amigos  — ela parou no meio da frase, parecendo pensar  — não, muito longo... Solitário Ben. Isso. Até breve, Solitário Ben.

         *       *       *

    — De onde você é, de verdade? de São Paulo? — Era estranho quão fácil era conversar com Faidha, depois do primeiro dia, quando Solitário Ben mais gaguejou que falou. Ele lhe contou tudo sobre sua vida, seus medos, seus sonhos para o futuro, e ouviu cada uma das fantasias dela. Histórias de outros mundos, rainhas descendentes de dragões e povos expulsos de suas terras. Era fantástico, mais real que qualquer livro que ele já havia lido. Mas ele queria conhecer a verdadeira garota, não apenas a fantasia que ela inventou.

    — Achas que estou a mentir?  — Sua voz se elevando enquanto ela se colocava de pé, e Solitário Ben, receoso que, após mais de uma semana de encontros escondidos, desta vez sua mãe ouvisse alguma coisa, pediu novamente para falarem apenas em sussurros.

   — Olha, assim, tipo, não fica braba, tá? Eu adorei ouvir, é demais! Quer dizer, uma guria entra pela minha janela, e me diz que sou filho da rainha de uma terra distante, e que posso salvar seu reino. É tudo que qualquer um quer ouvir. E adorei, sério. Mas eu queria conhecer você, a você de verdade.

   — Essa sou a eu de verdade, Solitário Ben — ela falou mais alto que o som da tevê, sempre ligada para disfarçar — e és filho de quem és. Mas, se preferes viver esta não-vida, é tua a decisão, não?

   Dizendo isso, indiferente aos pedidos de desculpa de Solitário Ben, e sem se despedir, Faidha saiu pela janela.

         *       *       *

    "Os dragões se alimentam de medo, e só podem ser derrotados por aqueles com um coração de dragão, como o teu". Dizendo isso, Faidha havia encostado o dedo com força na marca no peito de Solitário Ben.

    "Isso é só uma marca de nascença", ele havia dito. "Não", ela negou, balançando a cabeça, "é um sinal de que és filho de Lahara, nossa rainha. É um sinal de que descendes de dragões,  e que eles não podem se alimentar de teu medo. Nem lhe fazer mal".

    Com Faidha caída, desacordada após ser arremessada contra uma parede, e um dragão ocupando quase toda a câmara do castelo, espremendo Solitário Ben e sua espada em um canto, as palavras pareciam vazias e distantes.

   Mesmo neste momento ele não estava arrependido. Faidha disse que seria perigoso quando abriu um portal para seu mundo — mundo dos dois, ela havia dito —, provando de uma vez por todas que — palavras dela — fosse maluca ou não, não era mentirosa. Mas ele estava com medo. E o dragão se alimentava de medo.

   — Aqui não deverias ter vindo — a voz do dragão era sibilante, como se imaginaria uma cobra a falar — Ousarás lutar? Erga, então, a espada. Ataque.

   Solitário Ben levantou sua espada, presente de Faidha — mas você não vai precisar dela, vamos apenas entrar e sair, antes que o dragão nos veja — e o Dragão golpeou. Foi como se seu braço estivesse sendo arrancado.

   Quando voltou a si, estava caído, o braço sangrando, a espada jogada longe. E a pata do dragão, levantada, prestes a esmagá-lo.

   Foi quando ouviu a voz de sua mãe.

         *       *       *

   — Acaso, agora, os todo-poderosos dragões combatem simples crianças? — Era a mãe de Solitário Ben a falar. Mas parecia diferente, mais bonita, seu cabelo mais longo, um leve brilho a percorrer seu corpo. Talvez fosse apenas a tontura que agora parecia dominá-lo.

   — Simples criança um filho teu, Lady Lahara? Por nosso pacto, manterias daqui teus filhos longe. Achas que a marca de teus descendentes é proteção absoluta?

   — E acaso, Kothinotharo, uma falsa marca no peito de uma criança trocada na maternidade é suficiente para enganá-lo? Perdeste o olfato nesses longos anos? — Dito isso, o dragão aproximou sua face de Solitário Ben, até quase encostar em seu rosto.

   — Falas verdades. Uma criança humana apenas, não filho teu. Não quebrastes o pacto. Mas ousou invadir ele o meu castelo.

   — Assim como eu ousei. E a criança está sob minha proteção.  Vais me enfrentar pela vida dela?

    O Dragão pareceu hesitar um instante, antes de responder — Não. Tal dissestes, não filho teu. Partir podes, levando-o; nada por que lutar aqui.

    — E Faidha? — Solitário Ben tentou falar, mas a voz não lhe saiu. E tudo desapareceu em escuridão.

         *       *       *

    O sangue escorria de seu braço, de dois cortes profundos das garras do dragão, e caia na neve. Foi o que Solitário Ben viu, ao despertar, carregado nos braços de sua não-mãe. Mas a dor não importava. O que ia acontecer com Faidha?

   — Estamos distantes o suficiente. O portal não pode ser aberto dentro do castelo, mas suponho que isso aquela garota já lhe mostrou. Não importa, ela terá o que merece. — Dizendo isso, sua não-mãe o colocou no chão.

   — Nós temos que voltar. Não podemos deixá-la — a voz de Solitário Ben estava fraca, mas audível. Sua não-mãe fingiu não ouvir, e começou a falar em uma língua estranha, a mesma que Faidha usou, mas com mais naturalidade, e um portal se abriu na frente dos dois.

  — É hora de partirmos. — E, pegando Solitário Ben pelo braço não machucado, o arrastou consigo através do portal.

         *       *       *

   Ele se soltou de sua mãe com um movimento rápido. Saltou de volta, e o portal se fechou a suas costas. A neve macia o abraçou, recebendo-o neste mundo que não era o seu.

   Agora, estava na entrada do castelo, o mundo a girar, as pernas trêmulas. Antes, com Faidha, havia escalado uma parte desmoronada da muralha, na crença que o dragão não os perceberia.

   Não havia funcionado.

   Solitário Ben entrou no castelo em passos firmes, ignorando a tontura, e gritou.

   —  Thinoqualquercoisa! Dragão! Como quer que se chame, estou aqui!

   — Novamente desafias-me, criança?  — o som veio de trás, e ao se virar, Solitário Ben viu o rosto do dragão a centímetros do seu. Ele não recuou.

   — A garota. Deixe-a ir.

   — Vieste, garoto, por isso? Por sua amiga irás me enfrentar, quando fostes já derrotado uma vez?  — uma fumaça negra saía das narinas da criatura, quase impedindo Solitário Ben de respirar.

   — Faidha me disse que você se alimenta de nossos medos. Eu não tenho medo, dragão.

   — É doce o medo que finges não ter. Mas maior por sua amiga é ele. Eu gosto disso, da coragem tola  — e o Dragão encosta sua pata no coração de Solitário Ben, na marca — falsa marca — de nascença.

   — A garota, Faidha...

   — O povo de sua não-mãe, em falsas lendas, chama quem carrega a marca que imitas de descendentes de dragões. Acreditam, talvez, verdade. É marca, porém, apenas daqueles - e seus filhos - que, de um dragão, conquistaram respeito.

   — Você vai deixá-la ir?

   — Sim. E um outro presente lhe dou também.

   E um calor começou a crescer no peito de Solitário Ben, até se espalhar por todo seu corpo e consumi-lo por completo. E tudo se tornou fogo.

         *       *       *

   Solitário Ben ficou apenas poucos dias na casa que outrora considerou sua. Estava tão fraco, ao chegar, que não teria conseguido dar mais que poucos passos.

   Agora, mochila nas costas, braço em tipoia, um último abraço a despedida de sua não-mãe, atravessou o portão de sua casa. Não temia mais o sol. Fosse mentira de sua não-mãe, ou curado estivesse pelo dragão, ou mesmo que o sol o queimasse por inteiro, ele não tinha mais medo.

   À sua espera, também uma mochila nas costas, Faidha.

   — Vamos, Ben. Que mundo vamos visitar primeiro?

   —  Ué, não sou mais "Solitário" Ben?

   Faidha nada falou, apenas segurou sua mão, seu sorriso a resposta que os acompanhou na jornada por todos os mundos:

   —  Não enquanto tiveres a mim.



domingo, 24 de fevereiro de 2013

Um Estranho Mundo - Capítulo 4


Capítulo IV
"Qualquer raciocínio científico levaria a conclusão que a presença de seres semelhantes ao homem era a prova que eu estava na Terra, ou pelo menos um mundo de descendentes de humanos. Ao contrário, a presença dos Lepare é que me pareceu provar que eu estava em outro mundo, ignorando todas as semelhanças deles com homens. Talvez minha mente incompleta estivesse simplesmente aceitando o raciocínio simplista de livros e filmes que vi quando criança. Ou talvez aceitar o local e o tempo em que eu estava me levassem a questionamentos que minha mente não estivesse preparada para aceitar naquele momento. É claro, eu estava prestes a ter novas evidências que desafiariam meu raciocínio simplista, mas a mente humana sempre é capaz de criar novas fantasias para o inexplicável".

   Nós caminhamos por talvez uma hora, seguindo pela estrada. A garota e o homem-leopardo que havia falado com ela cavalgavam juntos, ao meu lado, enquanto eu caminhava a pé. Os demais seguiam a frente e atrás, e percebi que olhavam continuamente para a floresta, claramente atentos para ver se havia algum movimento.
   Para meu desapontamento, pois queria descobrir o que pudesse sobre eles, estas criaturas seguiam principalmente em silêncio. Quando falavam, a voz era baixa, mas felizmente, mesmo quando mal conseguia ouvir, a tradução surgia automaticamente em minha mente.
   - Você acha que o humano pode nos dar alguma pista de por que estamos aqui? – o homem-leopardo falou em um quase sussurro, aproximando um pouco mais seu cavalo do da garota.
   - Só vou saber quando conseguirmos falar com ele. Isto se Koro nos deixar – ela olhou para mim enquanto falava, depois continuou – é óbvio que ele não é Arugenanchi. Mesmo esquecendo as roupas, ele não fala a língua deles, tenho certeza. Você precisa convencer Koro a não matá-lo, pelo menos não até termos certeza que ele não foi enviado pelos deuses.
   Eu me esforcei para não estremecer ao ouvir que estavam pensando em me matar. Subitamente, entender este povo e o que eles pretendiam se tornou crucial. Será que eles entenderiam se eu falasse, da mesma forma que eu entendia eles? O único jeito de ter certeza era tentar me comunicar, mas se eles me entendessem, eu perderia a vantagem de me deixarem ouvir suas conversas.
   Eu decidi continuar em silêncio, mas passei a prestar atenção não apenas na tradução que aparecia em minha mente, mas também nas palavras em si.
   - Você conhece o pacto. Estas são nossas terras, e temos o direito de matar qualquer humano encontrado aqui, mesmo que não seja Arugenanchi. – Eu tentei separar as palavras, identificar uma ou duas para começar a entender a língua deste povo, mas eles falavam muito rápido.
   - Sim, eu conheço o pacto. Mas ele não nos obriga a matar ninguém, só nos dá o direito. Nós nem sabemos se ele é um inimigo. – Eu tinha que começar aos poucos. Entender a língua deles poderia ser a diferença entre viver e morrer. A primeira palavra que ela disse talvez fosse ‘sim’. ‘Rai’, eu repeti mentalmente, e a tradução veio no mesmo instante, da mesma forma que quando ela falava. ‘Rai’ era sim. Eu tentei fazer o contrário, pensei em ‘não’, mas não me veio nenhuma informação. Aparentemente, esta tradução mágica só funcionava em um sentido.
   Como eles ficaram em silêncio após sua rápida conversa, me vi refletindo sobre estas ‘mágicas’. Como ela havia me curado? Como, agora, eu tinha esta tradução aparecendo na minha mente quando eles falavam? Eu não queria acreditar em mágicas, mas também não conseguia imaginar uma explicação racional.
   - Estamos chegando, Shiri. Você acha que consegue se comunicar com o humano? – Shiri, eu pensei, tentando memorizar o nome. Pelo menos agora sabia como a jovem se chamava.
   - Não. As linguagens que ele fala são muito diferentes de Lepare e Arugenanchi. Vai levar um dia inteiro para os deuses nos darem o poder de entender o que ele diz – Pelo menos ela me deu a oportunidade de entender o “não”. “Ie”. A tradução não veio, então me lembrei que o i era mais comprido. “iie”, eu repeti mentalmente, e veio a tradução como “não”. E um calafrio percorreu meu corpo. Minhas pernas fraquejaram, e, pela primeira vez desde que ela me curou, o mundo voltou a girar ao meu redor.
   “Hai”. Sim. “Iie”. Não. Ou era muita coincidência, ou eu sabia que linguagem eles estavam falando. Era japonês. Isto era impossível.
   - Tente mesmo assim. – “Tentar o que?”, eu pensei, distraído com minha própria surpresa. Meu corpo tremendo e um pavor ameaçando tomar conta de mim. Ambos haviam parado seus cavalos, e olhavam para mim agora.
   - Humano, se você pode me entender, fale conosco agora. Sua vida pode depender disto – eu hesitei. Falar faria eu perder minha única vantagem, mas também não havia aprendido muita coisa até agora, e eles realmente haviam dito que provavelmente me matariam antes de conseguirem se comunicar comigo.
   - Sim, eu consigo entender vocês – eu respondi e esperei a reação deles, mas, para minha surpresa, percebi apenas confusão no olhar dos dois. Quando eles falaram novamente, eu entendi que nossa comunicação continuava sendo em um único sentido.
   - É inútil, Dao. Não entendo nada do que ele diz, os deuses ainda não me trazem suas palavras. Como disse, vai levar horas para podermos falar com ele. – Dao. Eu agora também sabia o nome daquele que parecia ser o líder deste grupo. “Mas ambos parecem estar abaixo deste Koro, que acham que vai querer me matar”, lembrei.
   - Então teremos que convencer Koro a lhe dar estas horas, Shiri. Não será fácil. – dizendo isto, ele puxou as rédeas de seu cavalo e partiu. Shiri apontou com um gesto para que eu continuasse caminhando, e seguiu atrás de mim.

* * *
   Se eu pudesse tomar como base expressões e atitudes humanas para entender estes estranhos seres que me capturaram, definitivamente a relação de Shiri e Dao com este Koro não era amistosa, embora também me parecesse que pelo menos Dao não deixasse isto transparecer. Felizmente para mim, Shiri não parecia ter ressalvas em confrontá-lo.
   Havíamos recém chegado ao acampamento, que nada mais era que algumas tendas e uma fogueira no centro, quando Koro se aproximou a cavalo e Dao se afastou de nós e foi conversar com ele. Cada vez era mais óbvio para mim que Dao era o líder do pequeno grupo que me prendera, mas Koro era o líder de todo o acampamento. Qual a posição de Shiri e quanta influência ela tinha nos demais era ainda um mistério para mim, mas eu tinha a nítida impressão que provavelmente tal questão definiria minha sobrevivência.
   Koro se aproximou de nós, seguido por Dao. Seu rosto não me pareceu muito diferente de Dao, mas a pele era um pouco mais escura e a juba completamente negra, o que tornava a diferença entre eles bem visível.
   - Então este é o humano que você deixou viver? – sua voz parecia mais firme e impositiva do que de qualquer dos outros que ouvi. Ele tornou claro, não apenas na frase mas na forma que olhava para Dao, que estava se dirigindo apenas a ele, ignorando Shiri.
   - Julgamos melhor deixar a decisão para o senhor – Dao respondeu, de forma solicita. Se eu ainda tivesse alguma dúvida, seria óbvio agora que Koro era seu superior.
   - Na verdade, acreditamos que não há motivo para matá-lo antes de ouvir o que tem a dizer – Shiri imediatamente se intrometeu, enquanto aproximava o cavalo dos dois, se colocando entre Koro e eu – ele não é Arugenanchi. Talvez seja até mesmo um enviado dos deuses.
   - Os deuses nos abandonaram, esqueceu? O que eles vão fazer se matarmos um enviado deles? Nos amaldiçoar novamente? – Enquanto falava, Koro desmontava de seu cavalo.
   - Se tivessem realmente nos abandonado, eu teria meus poderes? Ou como você explica todas as curas que já realizei? – Shiri também desmontou de seu cavalo, novamente se colocando entre eu e Koro. Ele desembainhou uma grande espada que estava em uma bainha presa em seu cavalo, segurando-a com as duas mãos. Imaginei que era uma espada grande demais para ser usada em uma única mão. Eu dei um passo para trás, me afastando dos dois e pensando se teria como correr e me esconder em algum lugar, mas era uma esperança vazia, eu sabia. Mesmo se não estivesse amarrado, qual minha chance de escapar de criaturas montadas a cavalo?
   - Eu deixo a teologia para você, Shiri, e você deixa os assuntos militares para mim. Saia do caminho, e deixe-me lidar com este humano de acordo com o pacto.
   - Se ele for um enviado dos deuses, pode ser nossa última oportunidade de perdão. Quem pode dizer que não fomos enviados para busca-lo? – Era cada vez mais óbvio que minha vida dependeria de quem levasse a melhor na discussão. Eu tentava desesperadamente lembrar de algumas palavras em japonês, se é que era a linguagem que eles falavam, mas nada me vinha a mente.
   - Se ele fosse um enviado dos deuses, não saberia falar Lepare? Dao me disse que ele não fala nem Lepare nem Arugenanchi. Como você explica isto?
   Shiri hesitou, e eu percebi que ela estava perdendo a discussão – mesmo que ele não tenha sido enviado pelos deuses, não quer dizer que não possamos aprender com ele. Devemos pelo menos esperar até que eu consiga me comunicar – Eu pude perceber que, embora argumentasse, o tom de sua voz já continha uma certa resignação.
   - É perigoso demais. Você não sabe que tipo de poderes ele pode ter. Neste momento mesmo ele pode estar se preparando para nos atacar – Atacá-los, me perguntei, surpreso. Que tipo de perigo eu poderia oferecer a estas criaturas? Mas eu sabia que precisava tentar alguma coisa, que meu tempo estava acabando.
   - IIE – eu disse, a voz bem alta. Não. Ambos olharam para mim, surpresos.
   - Você entende o que estamos falando? – Shiri perguntou
   - HAI – sim.
   - Você havia dito que ele não falava Lepare! – Os olhos de Koro se estreitanto enquanto olhava para mim, a desconfiança visível em seu rosto.
   - Ele não fala, tenho certeza. E deveria levar horas para os deuses começarem a revelar para ele nossas palavras. Não entendo. – E então, se virou novamente para mim – Você fala Lepare.
   - IIE – eu disse, e depois continuei em minha própria língua, pois “sim” e “não” eram as únicas palavras que conhecia – eu não falo a língua de vocês, mas entendo tudo que vocês dizem, desde que você me tocou.
   - Você consegue entender o que ele fala?
   - Não, Lorde Koro, os deuses ainda vão demorar para me dar este poder. Mas é óbvio que ele nos entende. Os deuses estão falando com ele, com certeza. Você entende o que isto significa? – e, como Koro nada respondeu, ela continuou – faz pouco mais de uma hora que eu convoquei o poder da fala, e ele não fala nenhuma língua parecida com Lepare, tanto que ainda não consigo entende-lo. Ele é um escolhido dos deuses, talvez enviado por eles. É a única explicação.
   - Você está inventando uma explicação. Talvez ele apenas já tivesse recebido a dadiva de entender Lepare.
   - E de quem ele receberia esta dádiva? Quem, além de mim, entre os Lepare, tem o dom da fala? Se ele próprio tivesse este poder, eu teria percebido. De todo modo, como você disse, a Teologia é minha responsabilidade, e eu digo que ele é um enviado dos deuses.
   Eu nem acreditei quando Koro baixou sua espada, não me parecia que ela estava tendo sucesso em convencê-lo. O que importava é que eu iria viver. E devia minha vida a Shiri.

domingo, 7 de outubro de 2012

O Último Rei Orco XXV


Capítulo XXV

Z-US entrou, apressado, nos domínios de J-VA, a fúria possuindo-o.

- Apareça, J-VA, agora. Assim, Z-US ordena.

Uma voz respondeu, vinda de parte alguma - eu não tenho mais corpo para aparecer, Z-US, deus não mais supremo. E eu não obedeço sua vontade.

- Eu digo que o poder de J-VA se encerra agora

- J-VA já não existe mais, Z-US, deus que cairá.

- Eu descobrirei o nome que usa, J-VA. Eu descobrirei e usarei seu nome para destruí-lo.

Uma gargalhada se ouviu - pobre deus menor. Eu não tenho mais nome, Z-US.

- Então sua vitória será curta, e seu poder se esvairá, se suas criaturas não tiverem um nome para louvá-lo acima dos outros deuses.

A gargalhada só aumentou de intensidade - Meus seguidores não precisarão de um nome para me louvar acima de outros deuses, Z-US. Pois eu venci, e quando tudo acabar, não haverá mais razão para eu ter um nome - e após um instante de silêncio, antes da gargalhada recomeçar - pois não haverá nenhum deus além de mim.

sábado, 19 de maio de 2012

O Último Rei Orco XVII

- Hodekin!!

A voz do Rei Goldemar trazia uma fúria nunca vista antes, enquanto ele entrava, veloz, pelas portas abertas do templo de JUS PATER. As serviçais do templo estavam encolhidas, encostadas nas paredes, receosas de sua fúria.

- Onde está ele? Onde está Hodekin?

Uma das mulheres, apavorada, por fim, se aproximou do Rei e falou.

- Ela está na sala da iniciação, meu senhor. Ele nos disse que viria, e pediu para eu o levasse lá - após um aceno do Rei, consentindo, ela se virou para guiá-lo.

A mulher deu apenas dois passos, porém, e se virou para falar novamente, ao ver que três soldados acompanhavam o Rei - meu senhor, eu lamento, a sala da iniciação só pode ser visitada pelos servos mais próximos de JUS PATER. O sacerdote nos disse que uma exceção especial foi pedida ao próprio JUS PATER para o Rei, mas seus soldados não podem acompanhá-lo.

- Chame-o aqui, então!

A mulher hesitou, e então falou novamente - O sacerdote disse que não poderia sair da sala da iniciação por motivo algum, meu senhor. Ele me disse que o Rei pediria por sua presença, mas que deveríamos informá-lo que JUS PATER exigiu que ele não saísse até os Orcos partirem - ante a fúria que brilhou nos olhos do Rei, a mulher abaixou os olhos, e desculpou-se em um quase murmúrio - perdoe-me, meu senhor, só repito as palavras de nosso sacerdote.

O Rei então se virou para os soldados que o acompanhavam, Abadi, cuja irmã revelou a traição de Hodekin, e dois outros - Fiquem aqui. Se eu não voltar com o sacerdote em alguns minutos, venham, não importa o que lhes disserem.

E o Rei seguiu a mulher, que o levou por salas e corredores do templo, até uma porta aberta, com uma escadaria descendo em direção a escuridão. Tochas acesas estavam em cada lado da porta.

- Eu não tenho permissão de acompanhá-lo, meu senhor. O sacerdote está a sua espera.

Sem prestar mais atenção a mulher, o Rei Goldemar pegou uma das tochas e então desembainhou sua espada. A mulher se afastou dois, três passos, e por fim correu para longe, na direção oposta.

O Rei desceu as escadarias, e caminhou por um corredor que se alargava até se transformar em um amplo salão subterrâneo, sua tocha a única iluminação. No centro do salão, um grande tapete marrom e preto, e, alguns passos atrás do mesmo, Hodekin, de pé. Em suas mãos, um arco com uma flecha apontando para o coração do Rei.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

O Último Rei Orco XVI


Não era certo, não era errado. Não era nobre nem justo. Não era uma das histórias que passariam de geração para geração. Não era algo que lhe dava prazer, como vencer um inimigo honrado, ou tomar para si uma mulher cativa.

Mas era necessário. Era a vontade de deus.

A trombeta tocou, pela quinta vez, e, ao redor das muralhas, seis outras a acompanharam.

E a Voz de J-VA, que um dia arrancou seu olho esquerdo para ver com a visão do dragão, e mais tarde arrancou o direito, antes de renascer, lembrou o dia que, com sua faca, tomou a vida de sua mulher, Lith. Ele disse para si mesmo que nada do que já fez foi pior, mas com isto não se sentiu melhor.

Seu primeiro presente para Goldemar, o Rei dos Primeiros Homens, já havia sido entregue, deixado à frente dos portões da cidade humana. O segundo presente era o som das trombetas, que fariam os muros da cidade ruir.

O terceiro seria sua espada, dando uma morte digna ao Rei, e encerrando seu sofrimento.

Com este pensamento, com a certeza que em breve toda dor teria fim, a Voz de J-VA segurou o pescoço de sua trombeta, enquanto se preparava para tocá-la uma vez mais.

Não era certo. Não era justo.

Mas era necessário.

E a Voz de J-VA aproximou a pequena mão humana, os quatro dedos já enegrecidos, uma vez mais da chama.

E sua trombeta gritou pela sexta vez.

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