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domingo, 24 de maio de 2015

Criaturas da Escuridão

   No escuro, as luzes do banheiro apagadas, Yasmin esfregava a esponja de banho com força por todo o corpo, deixando a pele vermelha. A água caia gelada, e ela tremia de frio e de medo. Seus lábios roxos só murmuravam que ela nunca mais faria aquilo, nunca mais tentaria revelar a ninguém sobre as vozes. De seus olhos fechados - que nada veriam na escuridão, de qualquer forma - escorriam lágrimas.

   Por fim ela desligou o chuveiro, se enrolou na toalha, e se deitou no chão do box, tapando os ouvidos com as mãos, em um gesto inútil, pois as vozes persistiam, quase inaudíveis, mas perfeitamente compreensíveis...

   "Achávamos que você era nossa amiga".

   "Nós sempre a amamos, e é assim que nos trata?".

   "E então? Gostou do nosso banho? Serviu de lição?"

   As vozes só se calaram quando se ouviu o barulho da porta da frente sendo aberta. Dona Marta, que ajudava na limpeza da casa, havia chegado.

   Yasmin ouviu os passos subindo as escadas do casarão, e viu, pela claridade por baixo da porta, que as luzes do corredor foram acesas.

   E então ouviu o grito de Dona Marta.

   "Lembre-se, não fale mais de nós para ninguém. As pessoas não iriam nos aceitar, você entende agora?"

   Yasmin concordou com a cabeça. Sim, ela entendia.

  *  *  *

   Quando era menor, Yasmin se achava a criança mais sortuda do colégio. Alguns colegas tinham um amigo imaginário, mas ninguém tinha tantos quanto ela. Eram dezenas, e ela passava horas conversando com eles, todas as noites. Eles visitavam-na sempre que estava escuro, desde que ela se lembrava das coisas, e se chamavam "as criaturas da escuridão". Não lembrava se tinha inventado, ou eles que lhe haviam dito seu nome.

   Às vezes, sua mãe vinha de surpresa e entrava no quarto ligando a luz. Mas é claro, seus amigos desapareciam junto com a escuridão, e sua mãe nunca conseguia vê-los e nunca entendia com quem ela estava falando.

   Eles eram muito mais legais que os outros amigos imaginários. Não apenas conversavam, mas brincavam com ela, a tocavam, faziam coisas proibidas. Coisas de adulto. Pelo menos foi o que sua mãe lhe disse, quando ela foi levada para a direção, depois que a professa a pegou mostrando o que eles faziam para suas colegas. Sua mãe ficou muito braba naquele dia, e disse que não era mais para ela brincar ou conversar com nenhum amigo imaginário.

   Eles explicaram que os adultos eram assim mesmo. Então, daquele dia em diante ela cuidava para sempre falar baixinho. E nunca fazer barulho, nem mesmo quando eles tocavam nos lugares proibidos. Mesmo se doesse.

   Ela achou que sua mãe havia esquecido do assunto, nunca mais falaram a respeito, até que ela deixou escapar uma das últimas conversas que teve com eles.

   Ela estava de costas para sua mãe, ajeitando a mesa do café da manhã e contando sobre Ana, sua colega chata, e as ideias que eles tinham lhe passado. Quando se virou e viu a cara apavorada de sua mãe, soube na hora que havia falado alguma coisa errada.

   "De onde você tirou estas ideias? Quem lhe ensinou isso?"

   Chorando, apavorada com a fúria de sua mãe, ela admitiu que foram seus amigos.

   A partir daquele dia ela teve que ir uma vez por semana em uma psicóloga. Só porque ela contou que eles explicaram como que ela podia matar uma coleguinha de classe: pílulas, facas, empurrar da escada, as vantagens e desvantagens de cada opção. Só que a Ana era muito má, merecia, mas nem a psicóloga nem sua mãe conseguiram entender isso.

   Mas o pior foi umas duas semanas atrás, quando sua mãe veio conversar com ela, depois de voltar de uma reunião com a psicóloga. Yasmin ficou tão transtornada depois da conversa que chorou a noite inteira. Nem seus amigos conseguiram acalmá-la.

   "Ela disse que vocês não são reais, que são só minha imaginação", ela explicou, entre os soluços e lágrimas.

   Os dias seguintes foram horríveis. Sua mãe queria que ela admitisse que seus amigos não existiam, mas ela não podia fazer isso. Ela não era louca, eles eram reais, eram seus amigos. Se as outras crianças não tinham amigos da escuridão, e tinham que inventar que falavam com seus bichos de pelúcia, não era culpa dela.

   Foi então que ela teve uma ideia, e não falou para ninguém, nem mesmo para seus amigos. Era uma coisa que seu pai tinha lhe mostrado, quando ainda era vivo, e naquela tarde mesmo ela foi procurar nas coisas dele, que ficavam na garagem: uma lâmpada escura.

   Seu pai tinha um passatempo: tirar e revelar fotos. Era meio coisa de maluco, usar umas máquinas antigas e revelar fotos usando uns produtos químicos. O importante é que para não estragar as fotos, ele usava uma lâmpada diferente, que deixava tudo vermelho.

   Naquela noite, ela arrastou uma cadeira até o quarto, subiu em cima, e trocou a lâmpada por esta. Ficou torcendo os dedos para que funcionasse. Será que a lâmpada ainda ligava? E seus amigos não iam fugir que nem quando se acendia uma lâmpada normal? Ela ficou tão feliz que deu um grito. De alguma forma, mesmo na escuridão, ela sempre conseguia vê-los, mas agora eles estavam bem visíveis, por todo o quarto. Não tinha como sua mãe dizer que eles eram só imaginação.

   "Mãe, mãe, vem aqui. Vem aqui, agora".

   As criaturas da escuridão disseram para ela ficar quieta, mas já era tarde. Ela podia ouvir os passos da mãe no corredor, e depois a maçaneta girando.

   "Está vendo, mãe? São estes os meus amigos."

   *  *  *

   Ela passou horas contando tudo para os policiais, mas teve que inventar muita coisa. Teve que assumir toda a culpa, sabia que nunca mais podia falar sobre seus amigos. Eles lhe explicaram tudo, enquanto lhe davam seu banho. Explicaram como teriam que matar qualquer pessoa que os visse. Exceto ela, é claro. Ela era especial, era amiga deles.

   Então ela inventou que fez tudo sozinha. Como cortou toda a barriga da mãe, como foi tirando as tripas para fora, com a mãe ainda viva, gritando de dor e medo. Como esfregou os pedaços por todo seu corpo. Como o banho de sangue foi ideia sua - embora na hora eles que a tivessem obrigado. Como continuou, mesmo depois da mãe morta, até estar toda encharcada de tripas e sangue, e que só depois foi para o chuveiro, onde a encontraram.

   Quando finalmente a deixaram ir para um quarto, se deitar e dormir, ela estava exausta,
transtornada, triste. Sua mãe estava morta.

   Mas felizmente estava escuro.

   E as criaturas da escuridão já não estavam mais chateadas com ela, e vieram para consolá-la.


sábado, 10 de agosto de 2013

Bloqueio Mental

   Não imaginei que a médica seria tão jovem. Não pude deixar de pensar nisto ao ver a garota à minha frente. Difícil acreditar que era uma pesquisadora conceituada. Ela sorriu quando entrei em seu consultório, e, com um gesto, indicou para eu sentar no sofá à sua frente.
   Também não imaginei que seria tão bonita.
   Ela não chegou a se levantar e apertar minha mão, mas isto não era falta de educação como seria quando eu era jovem. Depois das duas grandes epidemias de gripe, alguns hábitos foram mudando no mundo. De todo modo, seu sorriso era simpático.
   - Gostaria de uma água, ou um chá? - Ela ofereceu, mas eu recusei tentando transmitir simpatia também. Seu sorriso era contagioso. Após mais algumas amenidades, ela foi direto ao ponto.
   - Diga-me então, Senhor Jerry,  em que posso ajudá-lo?
   Eu hesitei um instante, depois de sorrir novamente e pedir para ela me chamar apenas de Jerry. Será que, depois de tanto tempo, ainda valia a pena? Não seria melhor deixar o passado enterrado?
   - Minhas memorias, de quando eu era criança, eu quero recuperar elas. Eu preciso.
   - De toda sua infância, ou de alguns momentos mais marcantes, Jerry? Se quisermos recuperar muitas lembranças, demoraremos algumas seções.
   - Não, não. Não quero apenas lembrar momentos da infância É uma única memoria, que ficou bloqueada por quase quarenta anos. Eu fiz de tudo, mas nunca consegui lembrar o que ocorreu em um determinado dia, em 2015.
   - Foi um evento traumático?
   Eu acenei que sim, sem abrir minha boca. Comecei a suar frio.
   - Foi a noite em que meus pais morreram. Assassinados. Minha vida acabou naquele dia - Lágrimas escorriam por trás de meus óculos escuros, descendo pelo meu rosto, enquanto eu prosseguia em meu relato - Eu só lembro da polícia chegando, me encontrando encolhido na sala, meus pais no quarto, mortos. Nunca encontraram o assassino, mas eu tenho certeza que o vi, só não consigo lembrar.
   Eu prossegui, enquanto as lágrimas seguiam livremente, envergonhado comigo mesmo, mas incapaz de contê-las - desde aquele dia eu me isolei de todos, mal saio de casa faz quarenta anos, perdi peso, perdi todo meu cabelo - uma vez eu vi uma foto de sobreviventes de campos de concentração da segunda grande guerra. Eu pesava menos de quarenta quilos, e poderia facilmente ser confundido com um deles.
   Ela me deixou falando, desabafando. Contei que minha sorte foi que minha família deixou dinheiro suficiente para me sustentar, e que eu fazia alguns trabalhos a distância, pela Internet, mas que não saía mais de casa, que tinha acessos de pânico no meio de muitas pessoas. Por isto também que vim no último horário dela, às oito da noite, quando não havia mais movimento.
   - E você já tentou lembrar daquele dia, já fez algum tratamento?
   Eu acenei que sim. Nem hipnose funcionou, eu expliquei.
   - O que fazemos aqui não é hipnose, Jerry. Você vai tomar um composto que afeta diretamente seu cérebro, que irá reativar o acesso a suas memorias. Meu papel é apenas de conduzir sua consciência para as memorias corretas. Mas há uma coisa que eu preciso que você entenda, antes de começarmos.
   Eu pedi para ela explicar, dizendo que estava prestando atenção. Já estava um pouco melhor. Era impressionante que mesmo quarenta anos depois, eu ainda ficava tão mal por apenas mencionar aquele dia.
   - Esquecermos eventos traumáticos é uma ação de nosso cérebro para nos protegermos, Jerry. Quando recuperarmos suas memorias nós não estaremos apenas descobrindo o que houve, estaremos fazendo com que suas lembranças voltem a estar tão vivas quanto no dia que aconteceram, e desta vez não haverá como você simplesmente bloqueá-las novamente. Entende o que eu digo, os riscos que isto vai significar para você?
   Eu concordei, e ela me fez assinar um termo de responsabilidade cheio de cláusulas, lendo uma a uma e explicando tudo em detalhes. Basicamente a responsabilidade seria exclusivamente minha por qualquer psicose ou dano mental que eu viesse a ter. Não importava. Eu tinha que saber o que havia acontecido naquela noite.
    - É só isto - eu perguntei quando ela me mostrou a pílula. Uma simples pílula iria trazer de volta a lembrança que eu esqueci por 40 anos?
   Eu engoli com um copo de água e me deitei no divã, enquanto ela sentou do meu lado.
   - O que vou fazer agora não é hipnose, Jerry, nem uma sessão de análise. O que vou fazer é ajudar a conduzir sua consciência para aquela noite, para que o medicamento atue sobre a estrutura de neurônios correta, e monitorar seus sinas vitais. Certo? Agora feche os olhos e acompanhe o que eu falo. Tente ficar o mais relaxado possível.
   Foi incrível. A medida que ela falava, me perguntando sobre aquele dia, era como se eu estivesse viajando no tempo, revivendo minha infância. Ela havia dito que era um efeito da droga, que as memorias pareceriam tão vivas que seria como se estivessem acontecendo neste momento.
   Eu não estava lembrando dos meus doze anos. Eu tinha doze anos novamente. Era noite, e eu acordei me sentindo enjoado e com uma terrível dor no estômago. Era uma sensação que eu viria a ter muitas vezes nos anos seguintes, mas naquele dia era algo novo, diferente e mais agoniante que qualquer sensação que já tivesse sentido.
   Eu levantei da cama, sai do quarto ainda no escuro, e caminhei até o quarto dos meus pais. Uma parte de mim dizia para não entrar lá, para voltar para cama, como se eu estivesse mesmo no passado, como se não fosse apenas uma lembrança de algo que já aconteceu, mas a voz da médica era insistente. - diga-me o que está acontecendo, Jerry, diga-me o que você vai ver dentro do quarto. Isto foi há quarenta anos, seja o que for, não pode machuca-lo mais.
   Eu entrei no quarto, esperando ver meus pais mortos, um assassino sobre eles, cortando suas gargantas, mas não havia nada de anormal. Eles dormiam tranquilos, pude ver quando acendi a luz. A súbita claridade fez meus olhos arderem.
   - Querido, o que houve - como era bom ouvir a voz de minha mãe, novamente, depois de tanto tempo, ver seu rosto tal como estava da última vez que a vi. Meu olhos se encheram novamente de lágrimas, a lembrança era tão real.
   - E o que aconteceu depois? - a voz da médica penetrando no mundo das minhas lembranças.
   - Estou me sentindo mal - eu havia dito, com uma voz embargada, enquanto segurava e comprimia minha barriga com a mão. E havia, então, me aproximado de minha mãe, que me abraçou.
   Neste instante a memoria se desfez e eu abri os olhos, gritando:
   - Eu não quero lembrar!
   - Jerry, você está me machucando. Solte meu braço!
   Para minha surpresa, eu estava segurando o pulso da minha médica, com força. Tentei soltar, mas não consegui abrir minha mão.
   - Eu não quero lembrar. Eu não quero saber o que aconteceu!
   - É tarde demais, Jerry, eu lhe avisei. Os nanocompostos já acharam a estrutura neural certa. Você vai lembrar, mesmo que não queira. Não temos como interromper o processo.
   O que ela falava era verdade. Eu podia ver a cena diante de mim, se reconstruindo novamente, mesmo de olhos abertos, mesmo sem ela dizer nada. Minha mãe estava me abraçando. Meu sentidos estavam multiplicados por mil. A sensação do abraço, sua voz doce, seu cheiro. Principalmente seu cheiro, que parecia penetrar e dominar todo meu corpo, enquanto minha boca se aproximava de seu pescoço. Meu corpo sabia o que eu precisava, mesmo que eu próprio não soubesse.
   - Você não está entendendo - eu disse, enquanto o horror tomava conta de mim, as imagens em minha mente avançando sua trágica  sequência - Fui eu que a matei. Fui eu que matei os dois. Você não podia ter despertado estas memorias.
   - Jerry, isto foi há quarenta anos. Você era uma criança. Você tem que aceitar que isto é passado, terá que aprender a se perdoar. - Ao mesmo tempo que falava, tentando me acalmar, ela continuava tentando soltar seu braço. Eu senti pena por ela, mas como um pouco de pena poderia me parar? Eu mal a conhecia, que importância ela tinha perto de minha mãe, perto de meu pai?
   - Não era a morte de meus pais que eu não podia ter lembrado - eu falei, enquanto aproximava seu pulso de meu rosto - não foi isto que eu tinha que ter esquecido para sempre.
   A fome era agora avassaladora, como foi durante a maior parte destes quarenta anos, mas agora não havia nada para deter-me, nenhum bloqueio. Em minhas lembranças, meu pai estava acordando, gritando, horrorizado, mas eu estava feliz, tão feliz. O líquido inundando meus sentidos, minha alma, me trazendo uma sensação que nunca antes, e nunca depois daquela noite, voltaria a sentir.
   Até agora.
   Enquanto minha língua passava suavemente pelo seu pulso, sentindo o calor que passava por dentro das veias, eu falei a última coisa que minha médica ouviria.
   - Você não devia ter me feito lembrar quão doce era o gosto de sangue.

domingo, 24 de março de 2013

Apenas nós dois

  - Feche a janela, feche a janela!
   Mana desceu correndo as escadas e entrou na sala de jantar da nossa casa. Como sempre, nas noites de tempestade, ela estava chorando, com medo. Queria poder fazer alguma coisa, mas era sempre assim, e agora parecia que todas as noites eram noites de tempestade. Será que nunca mais iria melhorar o tempo, sempre uma tempestade para assustar mana?
   - Calma, mana, está tudo bem. Não precisa ter medo.
   - Não está bem - ela berrava - não está nada bem. Papai disse que ia vir e não veio. E agora começou uma tempestade. E está chovendo dentro do meu quarto. E está tudo escuro lá fora. E eu estou com medo - e ela gritou mais alto ainda - e papai não veio!
   Eu segurei mana pela mão, e subimos até seu quarto. A janela estava aberta, como sempre. O vento estava revirando tudo, a porta escancarada. Não era só água, tinha areia, terra, cinzas, tudo sendo carregado para dentro do quarto pela tempestade.
   - Olha, mana, eu vou fechar a janela, está bem? Eu fecho a janela e vai ficar tudo bem. Entendeu? A tempestade não vai entrar, não vai fazer mal nenhum para a gente, certo? Vai ficar tudo bem - eu menti para ela. Que mais eu podia fazer? Pelo menos, ela se acalmou um pouco.
   Eu fechei a janela e o barulho diminuiu, o vento dentro de casa parou. Mas a casa inteira parecia balançar. As janelas batiam e batiam, prestes a arrebentar a cada rajada mais forte. Na verdade já arrebentaram há muito tempo, mas não importava.
   - Brigada mano. Eu estava com medo. Ainda estou. Quando o pai vem?
   - Ele já está chegando, mana, já tá quase chegando - eu menti de novo. Era só o que eu fazia, mentir para mana e tentar que ela não ficasse muito assustada. Era só por isto que eu estava aqui, para cuidar da mana.
   - Vamos ver a tevê, mano? Quem sabe o pai aparece na tevê? - tinha dias que ela não via tevê, que eu conseguia ler historias para ela, mas eram cada vez mais raros. Era tevê, tevê, tevê, e eu sabia que ela ficava só mais assustada depois.
   - Mana, me deixa ler um livro para você, está bem? Eu leio Judy Moody, aquele que você gosta, que ela quer ficar famosa.
   - Eu quero ver tevê! - ela gritou, e desceu correndo as escadas. Não tinha muito que eu podia fazer, não tinha como impedir, só podia ficar ao seu lado e tentar que ela não ficasse ainda mais nervosa.
   Quando entrei na sala ela já estava no sofá, sentada, assistindo a tevê com os olhos vidrados. Já não tinha eletricidade há muito tempo, mas não importava, a tevê sempre passava a mesma coisa. Era sempre o mesmo cara falando, a imagem tremida, a câmera balançando.
   - Não saiam de suas casas. Fiquem onde estão e aguardem novas orientações. Tranquem portas e janelas. Evitem a chuva, evitem contato com partículas radioativas. Repetindo, não saiam de suas casas.
   - Mano, eu estou com medo. A guerra começou, não começou?
   - Sim, mana, a guerra começou.
   - Mas o pai é piloto. Eles não vão deixá-lo voltar para casa - e ela começou a berrar de novo - eu quero o pai.
   - Calma mana, o papai tá vindo. A gente só tem que esperar, o pai tá vindo.
   Mana subiu correndo a escada, de volta para seu quarto. A tevê ainda mostrou por alguns segundos a imagem do cogumelo no fundo de onde o cara falava, depois só estática. Depois, quando mana já tinha sumido da vista, além da escada, a tevê ficou apagada, toda quebrada e meio afundada no meio do pó que foi se acumulando ao longo dos anos.
   Eu subi correndo a escada, mas mana já vinha descendo, chorando, recomeçando todo o ciclo.
   - Feche a janela, feche a janela!
   O vento já estava entrando em seu quarto de novo, o pó sendo jogado para fora da porta, as janelas, há muito destruídas, incapazes de deter o vento.
   Eu abracei mana, tentando acalmá-la, garantindo que papai já ia chegar, mesmo sabendo que era mentira. Papai nunca voltou. Ninguém nunca voltou.
   Para sempre, estávamos sozinhos com a tempestade, eu e a mana. Apenas nós dois.
   Apenas dois fantasmas.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Fugindo do Holocausto Zumbi

   Holocausto Zumbi. O nome é bizarramente apropriado.
   Minha filha olha para mim, o medo deixando seus olhos arregalados. Minha mão tapa sua boca com força, um só som e é nosso fim. Ela me abraça com força.
   O barulho de passos se torna mais e mais alto. A madeira do assoalho range, estala, o som se aproximando.
   Nós não respiramos. Talvez hoje seja o fim. Parte de mim deseja isto, a parte que quer simplesmente se entregar e morrer. São 10 anos de horror, 10 anos do levantar dos mortos, 10 anos que começou a guerra entre seres humanos e zumbis. Uma guerra que, para todos os efeitos, já terminou.
   Nós perdemos.
   A mão de minha filha aperta a minha. Estamos em um fundo falso, um buraco abaixo do assoalho, que eu cavei com minhas próprias mãos, exatamente para um dia como hoje. Mal cabemos, espremidos.
   O ranger do assoalho é agora no nosso quarto. Se desconfiarem que estamos aqui, eles vão destruir tudo até nos achar. Contra um talvez eu tivesse uma chance, mas não, são muitos, um grupo inteiro.
   Parte de mim deseja que tudo acabe hoje, mas não a parte mais importante. Não a parte de mim que é pai. Cinco anos ela tem, minha filha amada, e por ela eu continuo. Ontem ela falou sua primeira palavra. Papai. Não preciso mais que isto para querer continuar a viver.
   Eles caminham, dão uma volta, olham em todo lugar. Ouço os barulhos, estão vasculhando. Mas nós cuidamos para não deixar sinal de nossa passagem, sabíamos que um dia eles encontrariam nossa casa. Sorte que não sentem muito cheiro, dependem mais do que ouvem, do que enxergam.
   Então os sons se afastam, o cheiro começa a diminuir, dá para saber que eles estão saindo. Eu continuo segurando a boca de minha filha. Nenhum som, nenhum barulho, ou será nosso fim.
   Quantos mais restam de nós? Não podemos ser os últimos. Em algum lugar tem que ter outros. Não lutando, não mais. Sobrevivendo,  aprendendo a pensar e entender seu lugar neste novo mundo. Não podemos ser só eu e minha filha que restamos.
   No início, a confusão do despertar dos mortos, a fome insaciável, a surpresa, tudo contribuiu para o colapso da civilização humana. A evolução mental veio depois, lentamente, ao longo dos anos, Zumbis cada vez mais inteligentes, raciocinando, tomando decisões, mas a humanidade também reagindo, se reorganizando.
   E agora não havia mais guerra. Só o Holocausto Zumbi.
   Nome apropriado mesmo.
   Saímos do assoalho pela porta escondida em baixo do armário, minha filha ainda com medo, mas eu lhe digo em voz baixa para não se preocupar, o ar saindo de meus pulmões para gerar a voz.
   Eu a abraço. Cinco anos que ela está comigo, cinco anos e ela já sabia pensar quase tão bem como eu. Minha filha, minha razão de viver.
   Eles foram embora.
   Mas iam voltar. O Holocausto Zumbi estava em andamento. A guerra acabou.
   Nós perdemos.
   Os humanos ganharam.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ardath em: o Velho e o Demônio 6/6


Lúcifer
   Sozinho, eu não teria a menor ideia de como encontrar Lucifer. Cada encontro com ele era em um lugar diferente, e parecia que só Kalith e Kabet sabiam onde ele estava em determinado momento. Quando perguntei, Kabet me disse que era para nenhum anjo localizá-lo.
   "Existe um acordo que nenhum anjo pode atacá-lo diretamente, mas Lúcifer acha que eles irão descumpri-lo na primeira oportunidade que ele se descuidar", ele me disse. Achei estranho.
   Diferente de Kabet, que apenas mandava eu segui-lo enquanto caminhava pelo mundo das sombras, Kalith segurava minha mão na sua quando era ela a me levar. Eu não gostava, mas não via muito sentido em protestar.
   Quando saímos das sombras, bem no meio de uma sala mal iluminada, cheia de computadores e algumas pessoas, Kabet já estava a nossa espera.
   - Uma lan-house? - Eu sabia que ninguém podia nos ver ou ouvir, por isto falei em voz alta - nós vamos encontrar Lúcifer em uma lan-house?
   - Quer um lugar melhor para demonstrar a obra dele? Ou você acha que foram os anjos que inventaram os computadores? - Sem saber se Kabet estava falando sério, eu preferi ficar em silêncio. Tantas coisas que os demônios diziam como brincadeiras acabavam se mostrando mais verdadeiras do que eu poderia imaginar, que era impossível separar as piadas das verdades.
   Kalith continuava segurando minha mão. Eu tentei soltar, mas ela apenas segurou mais firme, e caminhou comigo, Kabet atrás, até uma sala, descendo uma escada.
   Ela me soltou para abrir a porta, e eu coloquei as mãos nos bolsos, para que ela não pudesse pegá-las novamente, e entrei.
   Havia uma mesa, duas cadeiras, ambas ocupadas. Teríamos que ficar de pé. Em uma das cadeiras estava Lúcifer, parecendo um homem de talvez 30 anos. Ele tinha uma aparência diferente cada vez que eu o via. A outra cadeira estava ocupada por alguém com uma capa, o capuz sobre a cabeça. Alguma coisa impedia-me de ver quem era, como se um holofote de escuridão em vez de luz estivesse projetando em cima da pessoa. Ou do que quer que a criatura fosse.
   - Você demorou - a voz de Lúcifer era melodiosa, parecia vir de um anjo. Bom, ele era um anjo, pensei me silêncio.
   Kalith respondeu antes que eu pudesse falar - Ele foi ferido. Por isto demoramos.
   - E sua missão? O velho está morto, como eu mandei?
   - Sim - falei sem hesitar, e não disse mais nada. Quanto menos falasse, melhor, eu achei.
   - É mesmo? Você não hesitou, nem decidiu mudar de ideia? Não teve nenhum impulso suicida de me desobedecer e deixá-lo viver?
   - Não. Eu fiz o que você mandou - Levei dias para parar de chamá-lo de senhor. Kabet me avisou que isto poderia deixá-lo muito zangado. De todo modo respondi novamente tranquilo, tentando ignorar meu coração que batia cada vez mais acelerado. Kabet havia me garantido que nem Lúcifer nem ninguem podia ler os pensamentos de uma pessoa.
   - Aposto que sim. Lucy?
   A garota tirou seu capuz e olhou para ele - Ele nem tentou matar papai. O velho até se prestou a se cortar e esparramar sangue no garoto. Me enganou quando eu o vi - ela virou o rosto para mim, sorrindo - Desculpe pela faca. Foi mal. Espero que não tenha machucado.
   "Imagine. É divertido ver suas próprias tripas saindo para fora do corpo". Eu não respondi. Estava mais preocupado com o que ia acontecer agora.
   - E então meu jovem? Alguma coisa mais a dizer? - Lúcifer inclinou a cabeça para o lado enquanto falava. Eu abaixei a cabeça por um instante, o coração batendo ainda mais acelerado, os olhos começando a lacrimejar. Então levantei a cabeça e olhei bem nos olhos dele.
   - Quer saber, eu sou um péssimo demônio. Eu nunca quis ser. E por mais que todos sejam engraçados e brinquem e contem piadas, vocês estão o tempo todo matando pessoas, e eu não quero fazer isto.
   Então me calei. E Lúcifer riu. Então se levantou e começou novamente a falar.
   - Sabe o que aconteceria se você tivesse se tornado um anjo? Eles também matam pessoas, sabia? Você seria condenado agora. Deus não aceita desobediência. Anjos não aceitam desobediência. Sua sorte é que eu não sou mais um anjo.
   E ele continuou.
   - O que todos vocês esquecem é que meu grande crime foi dar o livre arbítrio a vocês, fazê-los conhecer o bem e o mal. Você acha que eu iria puni-lo por mentir? Por me desobedecer? Eu sou o rei das mentiras, o primeiro desobediente - Ele aproximou o rosto do meu - se tivesse matado seu antecessor, eu o deixaria voltar para sua mãe, e viver toda sua vida mortal, e nunca mais nenhum anjo ou demônio o procuraria. Isto já aconteceu antes.
   Era tudo que eu gostaria. Poder voltar para casa, para minha mãe. Me afastar dos demônios e suas mortes e violência. Lúcifer, porém, falava como se estivesse me parabenizando.
   - Você é exatamente o demônio que eu quero que você seja, Ardath. Você fez a coisa certa, e seu espaço está garantido entre os meus.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Sobrevivendo ao Holocausto Zumbi


   Eu acordei achando que estava morto. Ou pelo menos condenado. Mesmo assim, não me movi. Fiquei quieto, apenas tentando ouvir os sons ao meu redor.
   Holocausto zumbi. Como que tinha primeiro aparecido nos filmes? Como que todos já sabíamos exatamente como seria? Minha teoria preferida é que alguém já tinha visto os Zumbis, sabia o que podia acontecer, e como ninguém iria acreditar se ele apenas contasse, resolveu fazer filmes a respeito. O resto foi só outros imitando, até que virou parte da cultura popular. Talvez houvesse outra explicação. Não sei.
   Como que eu tinha sobrevivido? Abri os olhos. Estava caído, mas não parecia ferido. Provavelmente infectado, ia morrer em menos de duas horas e me transformar em um deles. Um pé passou na frente dos meus olhos. Olhei para cima, um zumbi estava olhando para baixo, para mim. Ele se virou e seguiu adiante.
   Eu e Paulo tínhamos saído da fortaleza, a munição estava acabando. Nos cobrimos com sangue e pedaços dos zumbis, a ideia era passar entre eles disfarçados, mas alguma coisa deu errado, então lembrei. Paulo falou alguma coisa para mim, e isto atraiu a atenção deles. Vozes humanas, não era só o cheiro que atraia eles.
  Nós corremos, pulamos do alto de uma casa no meio da rua, foi a última coisa que me lembro.
  Eu olho ao redor, devagar. Acho que movimentos bruscos também chamam a atenção deles. Paulo está no meu lado, olhando o vazio. Ele se vira para mim. Céus, é um deles, um Zumbi. Mas ele se vira para o outro lado.
  Porque ainda estou vivo? Então me dou conta, eu continuava coberto com pedaços de zumbis. O disfarce ainda estava funcionando.
  Eu me levantei lentamente, e eles me olharam. Dezenas. Eu tinha que pensar rápido.
  Eles não eram tão estúpidos quanto pareciam. Quando Paulo falou, eles souberam que ele estava vivo, mas eu não havia falado, meu disfarce ainda funcionava. Eu dou um grunhido, e eles se viram para outro lado. Deu certo.
  Eu me levanto e começo a caminhar, imitando o jeito deles. Depois de uns minutos parece natural. Então começo a grunhir, bem do jeito que eles fazem.
  Eu passo um tempo assim, um bom tempo, grunhindo e me misturando com eles. Vai ficando mais fácil, chego a perder o medo. Mas tenho que esperar. Duas horas pelo menos, ter certeza que não estou contaminado, antes de voltar para casa.
  É noite quanto consigo subir a escada que tem escondida, único jeito de entrar na nossa fortaleza. Sempre tem um vigia, para o dia que os zumbis descobrirem.
  Hoje é Laura, minha esposa.
  O perigo já passou, mais de duas horas acordado, nenhum zumbi me atacou, ninguém me seguiu. Eu corro na direção dela. Ela levanta a arma.
  Como fui idiota, ela podia me matar achando que eu era um Zumbi.
  Eu paro, levanto as mãos e abro a boca para dizer que sou eu, que estou bem. Que estou acordado faz mais de 2 horas, portanto também não estou infectado. Ouvindo minha voz ela vai saber, Zumbis não falam.
  E da minha boca só saí um grunhido. Eu me assusto, preciso falar, senão ela vai achar que sou um deles e disparar. Então, uma lufada de vento vem da direção dela, e posso sentir seu perfume, perfume para tentar disfarçar o cheiro de carne. Mas não consegue, da para sentir o cheiro de carne. Carne fresca. Carne fresca e apetitosa.
  Ela aperta o gatilho.

 * * *
  - Ele lembrou da escada. E o jeito que me olhou, parecia por um momento que estava me reconhecendo. Eu me pergunto se não havia um pouco dele, uma parte que ainda se lembrava de mim.
  - Acalme-se, Laura. Ele estava morto há semanas, o corpo semi-devorado pelos outros zumbis. Agora ele está em paz.


sábado, 1 de dezembro de 2012

Ardath em: O Velho e o Demônio 5/6


Kalith
   Kalith me levou para jantar antes de eu me encontrar com Lúcifer. Ela também curou meu corte no estômago, e me fez trocar novamente de roupas. Primeiro ela gritou com Kabet, por ele não ter me curado ele próprio, e por ter trocado minhas roupas comigo ainda sangrando. Depois gritou comigo por eu ter quase morrido. Eu pensei em tentar explicar que não foi minha ideia deixar uma garota louca me esfaquear, mas achei melhor seguir o exemplo de Kabet, e ficar quieto. Ser um demônio era realmente muito mais estranho que eu podia imaginar.
   - Eu que devia estar treinando você. Se aquela criatura tivesse cravado a faca um pouco mais para cima, você estaria morto, sabia? Ser um demônio não o torna invulnerável, ou nem isto Kabet lhe ensinou? - Ela falava em voz alta, mas ninguém nas outras mesas parecia perceber nossa presença. Dançarinas nuas se contorciam em um palco no centro do salão, e eu não sabia se olhava ou não para elas. No final passei todo o jantar com a cabeça abaixada, olhando para meu prato. Primeiro eu achei que estava no inferno, mas já estava desconfiando que estava em um lugar na terra mesmo.
   - Por que você se importa? Kabet não parecia muito preocupado que eu sangrasse até morrer. - na hora que perguntei me arrependi, mas ela já estava segurando minha mão e sorrindo um sorriso sedutor.
   - Todos nos importamos com você, Ardath. Nós somos uma família, nós cinco. E o vínculo entre eu e você é ainda mais forte - eu puxei minha mão e escondi embaixo da mesa. Desde a primeira vez que a vi, ela falava de uma forma sedutora comigo. Como se diz para uma demônia que ela está agindo de forma imprópria? E como você diz que não está interessado sem que ela arranque sua cabeça? Por mais simpática comigo que ela fosse, que todos eles fossem, eles mataram meu amigos. Pedro. Claudia. Os pais de Luiz.
   - Não seja tímido. E não precisa ter medo de mim. Eu não mordo. Você é um demônio que acabou de vir de sua primeira matança. Temos que comemorar. - Ela ergueu uma taça de vinho. Eu não me movi, a taça que ela tinha colocado na minha frente intocada. Eu tinha quase certeza que era o mesmo tipo de vinho que o velho havia me oferecido. A contragosto, ela colocou sua taça de volta na mesa.
   - Quem era a garota? Kabet não quis me dizer - eu perguntei em parte por curiosidade, mas mais para desviar o foco para algum assunto que não fosse eu.
   - Ela não é ninguém - a voz de Kalith agora revelava uma raiva inesperada - apenas uma pirralha que só está viva porque Lúcifer me proibiu de tocar num fio de cabelo dela. Por que você quer saber?
   Isto era estranho. Quem diabos seria a garota?
   - Por que ela não tinha medo de mim? Ela disse que não tinha medo de demônios. E quase me matou. É óbvio que vocês sabem alguma coisa sobre ela, mas ninguém quer me falar.
   - Não há nada para falar sobre ela. Ela não tem medo de demônios porque convive com eles desde sempre. Ela nasceu e cresceu no inferno, mas, fora isto, é apenas uma humana mimada e estúpida. Satisfeito? Ou quer saber mais alguma coisa sobre a garotinha? - a forma que ela falou deixava claro que eu não deveria perguntar mais nada. Mas eu ainda tinha uma pergunta que eu realmente precisava saber a resposta.
   - E o pai dela? Quem era ele? Quem foi que eu matei?
   - Ainda não é óbvio? Ele foi Ardath antes de você.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Ardath em: O Velho e o Demônio 4/6


Lucy
   Eu sai da biblioteca atravessando a porta sem abri-la, caminhando pelo mundo das sombras como Kabet me ensinou, perdido em meus pensamentos sobre as consequências do que havia acabado de fazer. E dei de cara com Lucy, que pelo visto estava atrás da porta. Caímos no chão, eu por cima dela, o sangue em mim se esfregando no corpo dela. Ela arregalou os olhos quando viu meu rosto sujo de sangue.
   - Você o matou! Você realmente matou meu pai.
   Eu tentei me explicar ao mesmo tempo que tentava sair de cima dela, quando uma dor aguda me dilacerou por dentro, mais forte do que qualquer coisa que eu já tenha sentido. Eu gritei e me afastei, me levantando cambaleante. Segurei minha barriga com a mão e fiquei apavorado ao ver sangue escorrendo aos montes e se espalhando pela minha roupa. Muito mais sangue do que eu tinha me sujado antes.
   Eu estava quase gritando novamente, desta vez por socorro, quando a vi se levantar, uma faca pequena mas brilhando na penumbra do corredor em sua mão, com sangue escorrendo da ponta. Meu sangue.
   Ela  veio na minha direção, a faca apontada para meu pescoço.
   Acho que Kabet não vai ficar muito orgulhoso de mim. Ele passou dias e dias me ensinando a dominar meus poderes. Como paralisar pessoas, como fazer o sangue delas ferver, como simplesmente explodi-las com um gesto. Eu não consegui fazer nada destas coisas, só fugir   apavorado.
   Eu entrei no mundo das sombras, atravessando as paredes da casa e depois alterando a realidade ao meu redor, até parar no ponto de encontro com Kabet, um apartamento vazio em uma cidade que eu não conhecia.
   - Você está ferido - foi o único comentário de Kabet, quando desabei no meio do apartamento, e foi dito como se ele estivesse falando sobre o tempo ou meu corte de cabelo, sem ponto de exclamação nem nada. Mesmo assim ele se ajoelhou ao meu lado e rasgou o que restava da minha camisa. Um pedaço das minhas tripas estava saltando para fora da barriga, mas estranhamente a dor já estava passando. Meu pavor não.
   - Você consegue me curar? - Eu perguntei.
   - Provavelmente sim, mas não fica bem demônios começarem a ficar curando as pessoas, mesmo outros demônios - ele se levantou - isto é o tipo de coisas que anjos fazem. Você vai sobreviver, desde que não deixe suas tripas cairem para fora. Fique segurando com a mão.
   - Grande ajuda você é - eu disse. A dor tinha passado totalmente, mas eu fiquei pressionando meu ferimento com a mão, sem saber se ele estava falando a verdade ou não - Não vai me perguntar o que aconteceu?
   - E precisa? Você está todo sujo de sangue. A maioria seu, dá para sentir pelo cheiro, mas tem também sangue do velho. E pelo visto Lucy não gostou muito que você tenha matado o pai dela.
   - Que tipo de demônio ela é? Você tinha me dito que só tinha humanos naquela casa - enquanto falava eu me levantei tentativamente, devagar. Podia não estar sentindo dor, mas dava para ver que eu precisava continuar segurando alguma coisa. Eu olhei de canto de olho para o ferimento e quase vomitei, minhas pernas querendo fraquejar, e prometi que não ia mais olhar até começar a cicatrizar.
   - Ela não é um demônio. Lamento ter que dizer isto, mas uma garotinha de 12 anos 100% humana quase acabou com você, e ainda o fez fugir com o rabo entre as pernas. Se serve de consolo, o inferno inteiro sabe que ela tem um gênio do cão.
   - Quem é ela? Quem era o velho?
   Kabet ignorou minha pergunta.
   - Venha, vamos trocar sua roupa. Se apresentar a Lúcifer com roupas ensanguentadas até pode ter estilo, mas acho que você se mijou também. Não precisamos que você estrague ainda mais nossa reputação com o chefe.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Ardath em: O Velho e o Demônio 3/6

Sir Denis N. Smith

   - Eu não tenho idade para beber - eu respondi depois de sentar no sofá, recusando a taça de vinho que Sir Denis serviu e me ofereceu.
   Ele sorriu ao me responder - Você é um dos cinco não-vivos, cinco dos mais importantes demônios do inferno. Você recebe suas ordens diretamente do velho Lúcifer. Anjos e homens têm temido o que você é há incontáveis séculos. E você vai recusar meu vinho porque não tem idade para beber?
   - É - eu respondi, simplesmente, encolhendo os ombros. Não saberia o que mais dizer.
   - E você veio para me matar. Aposto que seu chefe não lhe deu nenhuma explicação. Apenas disse para você vir até a minha casa e fazer seu serviço - Sua voz era tranquila, sem mostrar nenhuma emoção. Eu não sabia se devia confirmar ou negar, então não falei nada. Ele continuou.
   - E Kalith o trouxe até aqui. Ela lhe disse para não perder tempo me ouvindo, e simplesmente me matar assim que me visse.
   - Kabet - Eu respondi com apenas uma palavra.
   - Como?
   - Foi Kabet quem me trouxe. Mas o resto é verdade. Ele disse para matá-lo assim que o encontrasse.
   - Kabet, hein? Interessante, sempre imaginei que Kalith iria prepará-lo para seu papel.
   O velho suspirou, bebeu mais um gole de seu vinho e com um gesto me ofereceu novamente a outra taça, que recusei com um sinal de não.
   - E aqui você está, tendo recusado meu vinho por não ter idade suficiente para beber. Sentado, conversando comigo, quando lhe disseram para justamente não fazer isto. Agora mesmo se perguntando se vai ou não vai ter coragem para me matar. Perdoe-me a sinceridade, mas minha filha daria um demônio melhor que você.
   "Provavelmente sim", eu pensei em silêncio, sem responder ao estranho homem. Cinco minutos com sua filha mais estranha ainda e eu tinha pensado a mesma coisa.
   - E o que você vai fazer agora? Esperar que eu tente fugir ou lutar? Talvez ser obrigado a me matar para se defender? - Sir Denis balançou  a cabeça - Não, não vou facilitar seu trabalho. Pouca importa sua idade, ou há quanto tempo assumiu seu papel, você é um dos mais poderosos demônios do inferno. Eu sou apenas um velho. Você pode me matar estalando os dedos - com um gole, ele esvaziou sua taça - se vai fazê-lo, faça-o agora.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Ardath em: O Velho e o Demônio 2/6


Kabet
   Meu coração estava acelerado, e eu me perguntava como teria coragem para matar um velho. Como queriam que eu fosse um demônio, se eu continuava sendo eu mesmo? Eu me lembrei de ter conversado com Kabet sobre isto.
   Foi Kabet quem me trouxe até a casa de Sir Denis Smith, para que eu entrasse e o matasse. Nós viemos conversando todo o caminho, enquanto o mundo ao nosso redor se transformava, a medida que íamos de um continente para outro, e depois de uma cidade para outra. Viajar pelo  mundo das sombras foi uma das primeiras coisas que Kabet me ensinou.
   Era estranho que Kabet fosse o único dos não-vivos que eu me sentisse confortável em conversar. Principalmente porque, de todos, foi ele que mais me assustou quando os conheci. Mas tudo em ser um demônio era estranho e diferente do que eu imaginava, e eu disse isto para ele.
   - É mesmo? Diferente em que sentido? Como você imaginava que iria ser? - Kabet conversava tranquilamente, enquanto viajávamos. Eu imaginei que já não era novidade para ele, ele havia me comentado que era o mais antigo desta encarnação dos não-vivos. Para mim, era fascinante ver casas, ruas e pessoas aparecerem e desaparecerem, enquanto andávamos, viajando através do planeta.
   - Não sei. Acho que eu imaginava que ia me transformar em algum tipo de monstro. Que ia deixar de ser eu. Mas eu continuo sendo o mesmo Julio, e acho que é isto que me assusta - Ele me olhou com uma cara estranha, e eu abaixei meus olhos. Sempre que olhava seu rosto, não conseguia deixar de ver o pedaço de cérebro aparecendo, e isto continuava a me dar uma sensação ruim.
   - Você preferia ter se transformado em um monstro? Por quê?
   Falando assim, parecia mesmo estranho. Não, eu não queria ter me transformado em um monstro, e eu disse isto para ele, e continuei, me explicando melhor - só que não entendo como querem que eu seja como os outros demônios, eu sou só um garoto. Agora, eu devo entrar nesta casa e matar um velho que eu nunca vi? Como que eu vou fazer isto? Eu não quero matar ninguém.
   - Você fará o que desejar fazer, garoto. E terá que pagar o preço de suas decisões, para o bem e para o mal, como todo mundo - Com estas palavras, ele se despediu.
   E eu deixei Kabet para trás e vim para esta casa, para matar um velho. E agora ele estava à minha frente. À minha espera, havia me dito sua filha.
   - Não fique parado aí, garoto. Entre e feche a porta. Abri um vinho para nós.
   Ao lado de uma lareira ele estava sentado, uma taça de vinho em sua mão, um outro sofá vago a sua frente, que ele apontava com a mão. O gesto um convite. Em seu rosto um sorriso.
   "Este é o homem que devo matar", eu pensei, enquanto me aproximava.

Ardath em: O Velho e o Demônio 1/6

Lucy
   Me chamam de Julio. Eu tenho 12 anos, e não sou diferente de qualquer garoto da minha idade. Pelo menos eu achava que não era, até mês passado. Eu não era da turma dos populares na escola, nem era o melhor jogador de futebol ou o lider da turma, mas também não tinha problemas em fazer amigos. Eu me achava comum.
   Claro, eu apenas achava que era comum.
   Meu verdadeiro nome é Ardath.
   E eu sou um demônio.
   Foi o que disse para a garota na minha frente - Eu sou Ardath, o  demônio - quando ela perguntou quem eu era. Ela parecia ter a minha idade, e não sei como ela me descobriu, quando entrei atravessando a parede da casa como se não existisse. Era noite e tenho certeza que não fiz nenhum barulho.
   Não vi razão para inventar muito, já que ela estava me vendo na minha verdadeira forma, sem disfarces, o rosto vermelho, o cabelo feito de chamas. Me surpreendeu que ela simplesmente perguntasse quem eu era em vez de gritar ou sair correndo. Me impressionou ainda mais sua resposta.
   - Oi. Eu sou Lucy - ela me estendeu sua mão. Eu hesitei, sem saber o que fazer. Eu sou novo nesta coisa de ser um demônio, mas me parece meio estranho dar a mão para as pessoas. Demônios deveriam ter algum tipo de cumprimento mais assustador, alguma versão macabra de "vida longa e próspera". Sem saber o que fazer, eu segurei sua mão.
   - Ah, oi. Por que você não está gritando ou fugindo? - Eu sei que não soou muito assustador, ainda mais que era óbvio que eu não sabia muito bem como me portar. Eu não sou muito bom como demônio. Na verdade, quem quero enganar? Sou um péssimo demônio.
   A garota, Lucy, porém, parecia muito mais segura de si do que eu - Não tenho medo de demônios. O que você quer, e por que está invadindo nossa casa no meio da noite?
   Novamente hesitei. Definitivamente as coisas não estavam saindo como eu imaginei, e eu estava começando a ficar nervoso. "Existe uma casa. Há um velho nela, ele utiliza hoje o nome de Sir Denis Smith. Entre, encontre-o e mate-o". Esta era a missão, simples assim. Eu já tinha descoberto que Lúcifer não era de dar muitas explicações.
   A garota estava agora com os braços cruzados, parada a minha frente esperando minha resposta, o pé esquerdo batendo impaciente no chão.
   - Eu, ah, eu vim falar com o Senhor Smith. Senhor Denis Smith - finalmente eu gaguejei. Definitivamente nada assustador. Menos que a garota, que me olhava com um olhar furioso enquanto me corrigia - 'Sir' Denis Smith - Por alguma razão ela começava a me dar medo, ela daria um demônio melhor que eu, tenho certeza.
   - É, eu imaginei - ela continuou - Venha, te levo até a biblioteca. Papai está te esperando lá - ótimo, o velho que eu devia matar era o pai dela.
   Eu a acompanhei pelo corredor e uma escada, até pararmos em frente a uma porta, e então ela a abriu e se virou para mim.
   Os lábios dela tremiam agora, ela não parecia mais tão controlada, e piscou algumas vezes. Fiquei com a impressão que estava prestes a chorar, e a voz dela estava meio embargada quando ela falou, antes de me dar as costas e sair corredor afora em passos rápidos.
   - Por favor, não mate meu pai, tá.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O Demônio Ardath

Parte I - Luskor  
   Meu nome é Julio, tenho 12 anos, e sempre gostei de histórias de terror, sejam livros ou filmes. Por isto, ninguém teria estranhado se eu tivesse sugerido de passarmos o tempo contando histórias para ver quem imaginaria a mais assustadora. Mas, na verdade, quem deu a ideia foi Claudia.
   - Meninas não sabem contar histórias de terror - Pedro disse, desafiando-a. Ela o fitou com olhos zangados.
   Estávamos em quatro, Claudia sendo a única menina no grupo, em meu quarto, e cada um de nós contou uma história assustadora. Pedro contou uma de vampiros, Luiz uma de lobisomem. Eu contei uma história de uma mulher que esqueceu o bebê na janela, e ele caiu do 5º andar. Achei que a minha era a mais assustadora, até ouvir a história de Claudia.
    - De todos os anjos do céu, existem cinco arcanjos que foram criados para serem os protetores da humanidade. Eles receberam a missão de guiar o homem no caminho que Deus definiu. Seus nomes constam de uma história que deveria fazer parte da Bíblia, mas o texto foi perdido antes que fosse incluído no livro.
   - Só uma menina mesma para contar uma história de anjos e achar que é assustadora - debochou Pedro.
   - Psiu - eu e Luiz dissemos ao mesmo tempo.
   - Não seria uma história assustadora - explicou Claudia - só que Lúcifer achou que isto afetaria o equilíbrio entre o bem e o mal, privando a humanidade de seu livre-arbítrio. Assim ele criou cinco seres para serem o contraponto dos Arcanjos, os cinco não-vivos.
   - Ei - Pedro interrompeu novamente - histórias de vampiros não valem, que eu já contei uma.
   - Eles não são vampiros - Claudia continuou - vampiros falam sobre eles, à noite, quando querem assustar uns aos outros, como nós estamos fazendo agora. Eles bebem o sangue de vampiros como vampiros bebem o de pessoas, mas não para se alimentar, apenas por diversão.
    Claudia continuou então, descrevendo cada um dos não-vivos. Um deles, Matat, tinha suas mãos cobertas por um veneno que paralisava as pessoas (e os vampiros, ela comentou olhando para Pedro). Ele então fazia pequenos cortes na vítima, e ela se esvaia em sangue, morrendo lentamente, consciente, mas imobilizada.
   Outro, Kabet, vinha, à noite, e, sem despertar a vítima, conseguia pegar pequenos pedaços do cérebro dela com a mão. A cada dia a pobre vítima ia ficando mais confusa, perdendo memórias, até esquecer completamente quem era. Se abrissem sua cabeça, iam descobrir que uma parte de seu cérebro não estava mais lá.
   Um terceiro, Luskor, assumia a exata aparência de sua vítima, muitas vezes vivendo por semanas e meses fingindo ser a pessoa que ele ocupou o lugar.
   Claudia também descreveu em detalhes a aparência de cada um dos três. Matat era alto e magro, branco, com mãos compridas, dedos mais longos do que uma pessoa normal. Kabet era baixo, gordo e careca, e parte de seu cérebro era vísivel na cabeça sem cabelos. Luskor só era visto com a aparência de suas vítimas.
   A quarta não-vivo se chamava Kalith, e era uma mulher linda que seduzia suas vítimas. Do quinto não-vivo, ela só disse o nome, Ardath.
   - Eles são cinco, e são eternos, mas não são imortais. Quando morrem são substituídos.
   - Como assim?
   - Esta é a história que eu vou contar em uma próxima vez. - Ela então gargalhou.
   A história de Claudia foi a mais assustadora de todas, concordamos. Até Pedro teve que dar o braço a torcer. Quando fui dormir, naquela noite, ainda assustado com a história, eu achei que veria os cinco não vivos em meus sonhos.
   Curiosamente, eu tive pesadelos, sim, mas foi com a história que eu contei, só que, em vez de um bebê, era eu que caía da janela de meu apartamento. Meu cérebro se espatifando no chão, meus ossos se quebrando. Acordei com um grito contido na garganta.
   Era noite ainda, e Kabet estava no quarto comigo.

Parte II - Kabet
   Um grito estava trancado em minha garganta, prestes a sair. A luz do quarto estava acesa, porque eu estava com medo de dormir no escuro. Um demônio estava sentado, nos pés da cama, de pernas cuzadas. Uma de suas mãos estava com o indicador cruzando os lábios.
    - sshhh - ele emite um som para me fazer ficar em silêncio - se você gritar, sua mãe vai vir correndo até o quarto, e nós podemos querer matá-la. Melhor meu amigo ficar em silêncio, se quer que sua mãe continue viva. Você quer que ela viva, não?
   Eu acenei que sim com a cabeça, meu olhos arregalados, o coração batendo acelerado, retumbando em meu peito. Suor escorria de minhas mãos. Eu nunca havia sentido tanto medo em minha vida.
   - Eu peguei um pedacinho bem pequeno de seu cérebro - ele levantou a outra mão e me mostrou alguma coisa pouco maior que um grão de areia, que segurava entre o polegar e o indicador - acho que você nem vai dar pela falta. - Ele abriu sua boca e colocou dentro o que quer que fosse - um pedaço de meu cérebro? - e então mastigou e engoliu.
   - Ahhh, delicioso, mas tão pequeno que nem dá para matar a fome - Ele sorriu. E então ficou em silêncio, apenas me olhando por um longo tempo, seus olhos atentos, como se estivesse me examinando. Ele era exatamente como Claudia havia dito, gordo e careca, e faltava um pedaço de seu crânio, permitindo ver um pedaço de seu cérebro.
   - O que vai fazer comigo? - Eu finalmente reuni coragem para falar, pois ele parecia disposto a apenas ficar ali, me olhando. Minha voz gaguejante, as palavras não querendo sair.
   - Eu já fiz. - Ele ajeitou as pernas e sorriu um sorriso medonho. Sua voz, porém, parecia tranquila e descontraída quando recomeçou a falar - sabe, o cérebro humano é uma máquina fantástica, e é preciso muita habilidade para desmontá-lo com precisão. As memórias, a inteligência e os sentimentos não estão agrupados em cantinhos separados, mas espalhados por todo lugar, e não é fácil juntar e retirar exatamente o que queremos. E cada parte tem um sabor próprio, único. Se provasse, você iria adorar.
   Eu fiquei em silêncio, o medo dominando tudo em mim. Minha visão começou a se afunilar, escurecer, e eu senti que estava quase a desmaiar.
   - Você não está curioso em saber que parte de seu Cérebro eu comi? - Ele diz, sorrindo. Eu nem me movi, paralisado de medo.
   - Não se preocupe, não foi nada importante. Alguns até diriam que lhe fiz um favor. Sabe, existe uma parte do homem, alguns chamariam de sua alma, que veio direto de Deus. É como se um pedacinho de Deus fizesse parte de cada ser humano. É este pedacinho que faz algumas pessoas se sentirem especiais quando rezam, é a parte que lhes permite falar diretamente com seu criador. A sua, em particular, estava deliciosa.
   Ele se aproximou então de mim, seu rosto chegando a centímetros do meu - Mas, como eu disse, não se preocupe. Outros, como eu, acreditam que a alma do homem vem de outra parte de seu cérebro, daquela que lhe permite escolher seu próprio caminho, tomar suas decisões. A parte que surgiu quando ele contrariou a Deus e comeu do fruto de todo bem e todo mal. Esta parte de seu cérebro, a parte que foi um presente do demônio, esta eu não toquei.
    Ele estendeu sua mão até ela encostar em meu rosto. Eu quase gritei, mas me lembrei que ele disse que minha mãe morreria se entrasse no quarto.
    - Durma agora - ele disse - amanhã Kalith vai querer conhecê-lo.
Ele fechou meus olhos com sua mão, e tudo ficou escuro.

Parte III - Kalith  
   De manhã, minha mãe me encontrou acordado, encolhido em um canto de minha cama, os olhos arregalados. Ela disse que era apenas um pesadelo, quando lhe contei, entre soluços e lágrimas, o que aconteceu. Depois me abraçou. 
   Ela só se tranquilizou quando fingi acreditar que era mesmo apenas um sonho ruim. Eu sabia que era real, mas também percebi que ela nunca acreditaria em mim.
   Aproveitei a primeira oportunidade que ela me deixou sozinho para ligar para Claudia.
    - Por favor, diga que acredita em mim, Claudia. Eles existem, mesmo. - Eu estava quase implorando, depois de ter contado para ela o que aconteceu.
   - É claro que eles existem. O desafio de ontem era contar uma história assustadora. Ninguém disse que não podia ser uma história verdadeira.
   - Você sabe que eles existem?  Eu realmente vi um deles, e não sei o que eu faço agora - Tudo que eu queria era uma explicação, mesmo que absurda. Quem sabe alguma coisa que pudesse me proteger deles, ou alguém que pudesse ajudar.
   - Agora você espera. Mas não se preocupe, ouvi dizer que Kalith é a mais simpática deles. Depois você me conta como foi seu encontro – e ela desligou o telefone. Eu liguei de volta, mas ninguém atendeu. Liguei também para o telefone fixo de sua casa, e só ficou tocando também.
    Eu liguei então para Pedro, depois para Luiz. Tentei o celular, tentei o telefone da casa, mas nenhum atendia. Era sábado, não havia aula e ninguém disse que ia viajar. Não era normal.
    Luiz morava umas três quadras na mesma rua, mas Pedro era meu vizinho, morava em um apartamento do outro lado da rua. Eu fui até lá.
    Ninguém respondeu quando apertei o interruptor da entrada do prédio dele, era um edifício sem portaria, mas liberaram a porta. Eu subi o elevador, tremendo. Estava com medo, mesmo sendo a luz do dia.
    Quando toquei a campainha, uma mulher abriu a porta. Era linda e vestida elegantemente, mas não era a mãe de Pedro nem ninguém que já tivesse visto, e eu recuei um passo, meu coração se acelerando.
   - Entre, querido.
   - Quem é você?
   - Você não sabe? Kabet não disse que íamos nos ver hoje?
   - Kalith – minha voz quase um murmúrio – o que você fez com Pedro?
   - Ele morreu feliz, posso lhe garantir. Foi muita sorte ter sido eu a visitá-lo. Se tivesse sido qualquer um dos outros, o coitadinho teria morrido virgem.
   Eu nada disse, e ela continuou - Entre, vamos, não temos necessidade de conversar no corredor. Eu preparo uma xícara de chá. - Eu apenas recuei mais um passo. Só não comecei a correr porque não via como conseguiria escapar e, na verdade, porque não sabia se poderia confiar em minhas pernas trêmulas.
   - Está triste porque matei seu amigo? Mas eu lhe fiz um grande favor. Agora ele poderá viver para sempre no céu, garanti a ele uma vida inteira no paraíso. Quem sabe se, permanecendo vivo, ele não acabaria pecando e sendo condenado ao inferno? Você correria este risco por apenas alguns anos na terra? Qualquer cristão crente em Deus deveria estar, neste momento, matando tantos inocentes quanto pudesse, crianças de preferência. Não seria uma boa ação, um dever de garantir o paraíso para tantos quanto pudéssemos, tirando-os deste mundo pecaminoso antes que tivessem a oportunidade de colocar suas almas imortais em risco?
   Eu dei um passo para trás e balancei a cabeça. Ela riu em resposta – Brincadeirinha. Quer dizer, a parte de salvar as pessoas, não a parte que seu amigo está mesmo morto. Mas, com sorte, ele está no inferno, só os chatos vão para o céu.
   Talvez, eu pensei, se correr para a escada de incêndio, e fechar a porta atrás de mim, e descer correndo, eu consiga escapar. Minhas pernas pareciam ainda grudadas no chão, eu paralisado de medo.
   - Estou assustando você, não é? Tolice, não vou lhe fazer mal. Como poderia, nós já fomos amantes, em outra vida - Ela se aproximou, e eu me senti incapaz de me mover  - e poderemos voltar a ser, nesta. - Ela encosta os lábios em meu rosto, um beijo suave - quando precisar, apenas pense em mim, que sempre vou estar pronta para ajudá-lo, onde você estiver.
    Ela se virou e entrou dentro da casa de Pedro, então virou o rosto para mim, sorrindo - Se quiser, entre. Estarei esperando aqui dentro.
   Eu me virei e corri escada abaixo. Quando cheguei no portão, meu celular tocou. Era Luiz.

Parte IV - Gadriel   
   Eu tinha dúvidas se era realmente ele, até atender o celular e ouvir sua voz incoerente, em meio a soluços e choros. Era Luiz no telefone, com certeza, me dizendo que seus pais estavam mortos, assassinados por um demônio.
    Estranhamente, ao invés de ficar ainda mais apavorado, eu me senti calmo. Talvez por saber que eu não estava mais sozinho, que alguém mais sabia o que estava acontecendo. Talvez apenas por estar falando com alguém ainda mais apavorado que eu.
   - Eu sei que eles existem, eu também vi. Eles visitaram cada um de nós. Pedro está morto. Eu acabei de sair do apartamento dele. Onde você está?
   - A igreja na esquina, no caminho da minha casa. Venha rápido. Gadriel disse que eles estão atrás de todos nós, e ele disse que vamos estar mais seguros aqui.
   - Quem?
   - É um dos arcanjos, os que Claudia contou. Foi ele que me salvou, o demônio fugiu do meu quarto quando ele apareceu.
   "Arcanjos?". Eu só estava acreditando nos demônios porque tinha visto dois frente a frente, e mesmo assim ainda tentava achar alguma outra explicação. Agora deveria também acreditar em anjos? E se fosse outro dos demônios? Ou se Luiz fosse um dos demônios? Havia um que assumia a forma de pessoas, Claudia havia dito.
   Eu parei, em frente à Igreja, hesitante. Seria outro demônio a me esperar? Acho que se não fosse uma Igreja, teria dado meia-volta e fugido. Mas para onde eu iria? As portas estavam abertas, e decidi entrar.
   Havia um homem na porta, com Luiz. Um homem alto, com um casaco e calças marrons, cabelos loiros, olhos azuis. Não parecia um demônio.
   Mais que depressa ele me segurou com suas mãos e me levantou sem esforço, apenas para me prensar contra uma das paredes da Igreja.
   - O que está fazendo? É Julio, meu amigo que falei no telefone - gritou Luiz.
   - Eu não sei se ele é ou não o seu amigo, mas sei que é uma das criaturas de lúcifer. Posso ver que o toque de Deus não está neste ser - Enquanto uma de suas mãos continuava me segurando, outra começou a apertar meu pescoço, quase me impedindo de falar.
    - Foi Kabet - Eu falei com esforço, me lembrando que o primeiro não-vivo, a noite, me disse algo sobre isto.
   - Se não há mais o toque de Deus em você, não tens mais razão para viver – E a mão apertou meu pescoço com ainda mais força.
   "Não quero morrer", eu pensei, o desespero tomando conta de mim, enquanto eu tentava sem sucesso me soltar, me debatendo e chutando. Por fim, com esforço, consegui dizer mais uma palavra, de forma quase inaudível – Kalith.
   - Gadriel, por que não enfrenta alguém capaz de se defender? - Eu conhecia esta voz. A mão de Gadriel se abriu, e eu despenquei no chão. Kalith estava ali, a nossa frente.
   - Vamos então novamente cruzar armas, Kalith, mas não aqui - Um brilho surgiu no meio de todos nós, e instantes depois ambos desapareceram. Eu me levantei com dificuldade, tonto.
   - Luiz - eu falei, surpreso em ver minha voz sair fraca. Luiz se afastou um passo e outro, andando para trás.
   - Você também é um demônio? - ele não me deu chance de responder, apenas se virou e fugiu igreja adentro.
   Eu saí da Igreja e comecei a caminhar para casa.
   - Eles não estão realmente lutando, sabia? - Uma voz. Me virei, e um homem alto, tão alto quanto o anjo, estava atrás de mim.
   - Ah - ele continuou - quando a próxima Biblia for escrita, dentro de uns dois séculos, vai dizer que eles se enfrentaram em batalha mortal, sem dúvida. A realidade é que são amantes, mas as aparências precisam ser mantidas.
   As mãos dele tinham longos dedos. Eu estava cansado de fugir, de ter medo. Olhei ele nos olhos, quase me resignando com o que quer que viesse a acontecer, e disse - Matat, eu presumo.

Parte V - Ardath
   Existem cinco arcanjos que são os protetores da humanidade. Existem cinco não-vivos que são o contraponto deles. Cláudia contou esta história. Estávamos inventando histórias de terror, de vampiros, lobisomens. Eu contei de uma criança que caiu de uma janela que sua mãe esqueceu aberta.
    A história de Cláudia não foi inventada.
    Eu encontrei um dos arcanjos, Gadriel, que salvou a vida de Luiz, um dos meus amigos, quando um dos não-vivos foi visitá-lo. Gadriel tentou me matar.
   Um dos não-vivos se chama Kabet, e ele me visitou a noite, e tirou um pedaço de meu cérebro.
   Uma dos não-vivos se chama Kalith, e ela matou meu amigo Pedro. Foi ela que me salvou de Gadriel, e me disse que havíamos sido amantes em outra vida.
   O terceiro não-vivo, Matat, caminhou comigo até a porta de minha casa, e me disse que era hora de me despedir de minha mãe. Acho que ele vai me matar, mas ele me garantiu que não vai fazer mal a ela.
   Ele desapareceu quando chegamos em minha casa, não sem antes dizer que eu ainda encontraria os dois outros não-vivos, Luskor - que assumia a forma de suas vítimas - e Ardath, de quem eu nada sabia.
   Eu abri a porta de casa e entrei. Mamãe estava na sala, e sentada, em outra cadeira, Claudia.
   - Filho, que bom que chegou, onde você estava? Eu estava justamente dizendo para a Claudia que você teve um pesadelo por causa destas histórias que vocês ficaram inventando ontem de noite.
   - Marta, eu e seu filho não inventamos nenhuma história. Eu apenas contei a ele sobre os não-vivos. Se tivesse tempo, contaria para você também.
   - Claudia, isto já foi longe de mais. Julio realmente ficou assustado, e eu quero que você pare agora com isto.
   Ela pareceu nem ouvir minha mãe, e se virou para mim - Lembra, Julio, que eu contaria em outra ocasião como surge um não-vivo, como eles são substituídos? - eu acenei que sim, mas acho que ela nem reparou. Na verdade, me veio a intuição que, embora olhasse para mim, era para minha mãe que ela contava a história.
   - Imagine que a alma de uma criança seja oferecida ao demônio por sua própria mãe. Digamos que fosse um pequeno bebê, e digamos que sua mãe tivesse esquecido aberta a janela do apartamento. Imagine o bebê caindo lá em baixo, de cabeça no chão, o cérebro se espatifando - Minha mãe de repente ficou branca, e eu queria pedir para Claudia parar de falar, mas não consegui dizer nada, e ela continuou.
   - Imagine então, esta mãe, agarrando esta criança e sabendo que nenhuma oração a Deus, nenhum pedido por um milagre, traria seu filho de volta a vida. Digamos que, neste momento, esta mãe, que casualmente tinha alguns conhecimentos do oculto, no desespero, implorasse até mesmo para o lorde das trevas pela vida de seu filho.
   Minha mãe estava com os olhos cheios d´água, lágrimas escorrendo pelo rosto, dizendo 'não' várias vezes, baixinho. Eu corri e a abracei.
   - Esta mãe, se fosse justa, ficaria grata a Lúcifer pelos anos que ganhou com seu filho, anos que nenhum milagre de Deus poderia ter lhe dado.
   - Você não vai tirar Julio de mim, Claudia - Minha mãe falou, enquanto me agarrava com força.
   - Claudia? Claudia está morta há dias. Meu nome é Luskor, e eu e seu filho temos agora que partir.
   Ela estendeu sua mão, e eu sabia que não tinha outra escolha além de pegá-la.
   - Quanto a Julio, Julio morreu com dois anos de idade. Despeça-se de seu filho chamando-o pelo seu verdadeiro nome: Ardath.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O Rato Vampiro

- Me alcance as batatas fritas, por favor. - André pediu com gentileza, e Raquel, do outro lado da mesa, passou para seu marido, Carlos, que fez questão de se levantar e servir o amigo.

- Marta, sente-se, por favor. - Raquel falou para a esposa de André, que ia e voltava da cozinha, cada vez trazendo mais um prato ou bebida.

- Já vou sentar, só falta trazer o peixe.

- E então, Doutor André - o doutor em um tom meio sarcástico, meio bem humorado - Qual sua próxima descoberta científica? - Carlos sempre provocava o amigo, desde que este havia terminado seu doutorado em biologia, havia uns dois anos.

- Eu lhe digo se você prometer não rir.

- André! - o tom forçado, de falsa surpresa, combinava com o rosto, fingindo uma falsa mágoa - Algum dia eu tratei suas pesquisas com menos que o máximo de respeito? Assim você fere meus sentimentos.

- Carlos...

- Ok, ok. - a mão levantada, a outra posicionada no coração - juro por tudo que há de mais sagrado que não irei rir nem debochar da nova pesquisa do emérito Doutor André.

- Muito bem. Meu próximo artigo será sobre vampiros.

- André - Marta, se metendo na conversa - Por favor. Não podemos ter pelo menos um jantar com amigos sem que você fale sobre este assunto. Tenho certeza que Raquel e Carlos não estão interessados em histórias de vampiros.

- Mas estamos sim, Marta - contradisse Carlos. - Vampiros, André? Ora, então finalmente desistiu da carreira científica e vai voltar a ser um escritor?

- Eu nunca fui um escritor de verdade, e com certeza não pretendo começar agora. Meu próximo artigo CIENTÍFICO será sobre vampiros - André fez questão de frizar a palavra 'científico'.

- Deixe-os com sua conversa - Raquel disse para Marta - Fale-me da viagem que vocês estão planejando.

André não prestou atenção na resposta de Marta, estava envolvido demais em sua própria explicação. - Meu artigo provará a existência de vampiros, meu amigo.

- Hummm - foi a primeira resposta de Carlos, que então bebeu um gole de vinho. O jantar, na casa de André, era simples, mas o vinho era de primeira qualidade. - Você sabe qual é o problema com vampiros?

- Qual?

- Eles não existem - Carlos abriu as mãos e fez uma expressão de quem falava o óbvio.

- Tudo bem, tudo que nós sabemos de biologia, física, etc., indica que vampiros não existem. Concordo. Agora, imagine por um momento que eles de fato existam.

- André, André, eu sei que você imaginou ter visto um vampiro quando criança. É natural, coisa de criança, acho que sua mãe inclusive exagerou, levando você em um psiquiatra e tudo mais. Mas achei que você já tinha superado aquele trauma.

- Eu sei o que vi. Por anos fiquei me convencendo que estava delirando, imaginando, o que fosse. Mas então me veio um pensamento: e se de fato existissem vampiros.

- Você é um cientísta, André. Vai agora abandonar sua ciência e começa a acreditar em misticismos? Você, que me disse que não acreditava em nada que não pudesse ser provado, e isto inclui crenças, religiões, até Deus e, pelo menos sempre imaginei, vampiros.

- Não estou abandonando minha ciência. Ao contrário, mais do que nunca acredito na ciência, e mais do que nunca só acredito no que pode ser provado. Este é meu ponto. O que eu disse no início? E se de fato existissem vampiros? E se minha hipótese fosse de que há criaturas imortais, que bebem o sangue das pessoas? Se isto fosse verdade, qual a explicação científica por trás destes seres?

- Vampiros são criaturas místicas, André. Tudo bem que a Marta acreditasse neles - Carlos olhou para a esposa de André e disse para ela não levar a mal, mas ela apenas respondeu que não estava nem escutando a conversa e continuou falando com Raquel - mas você me dizer agora que acredita em criaturas místicas... Bem, me surpreende.

- Eu não acredito em criaturas místicas, Carlos. Minha hipótese é que existem de fato vampiros. Seres reais que chamamos de vampiros, que não são místicos, que possuem uma explicação científica, biológica. Seres, que uma vez que entendemos que existem, são um elemento a mais para entendermos e criarmos teorias sobre o nosso próprio organismo.

- Esta bem, e você vai fazer um artigo a respeito disto. - Carlos falava com voz descrente. Bebeu mais um gole de vinho - e qual seria esta explicação 'biológica' para estes seres que viram morcego e bebem sangue?

- Eu não acredito que eles virem morcegos. Fisicamente me parece impossível, a menos que eles virassem morcegos de 80 kilos que não iam conseguir voar. Também não imagino que espelhos não reflitam o rosto deles. Mas estou certo que eles bebem sangue, são imortais, estão, em certo sentido, mortos e não me surpreenderia que queimassem a luz do sol.

- E você tem uma explicação não mística para tudo isto?

- Sim. É complexo, então vou ter que usar uma analogia, se me permite. -com um gesto de mão, Carlos indicou para ele continuar - pense em um carro flex. Ele opera a gasolina, certo. Se dessemos gasolina para ele a vida inteira, nunca imaginaríamos que ele poderia operar de outra forma. Mas ele também opera com Alcool, certo?

- Pois bem - André continuou - imagine se todas as células de nosso corpo, na verdade de qualquer ser vivo, fossem assim. Nós não entendemos realmente como elas funcionam. Nós achamos que entendemos, porque analisamos como cada célula se comporta em circunstâncias normais, mas isto não foi graças a uma simulação. Nós não deduzimos como as células funcionam. Nós observamos como elas funcionam e deduzimos o porque delas funcionarem desta forma.

- Juro que estou prestando atenção, André, mas acho que você está me perdendo.

- Minha teoria é que as células e, na verdade, os próprios organismos, tem pelo menos dois estados estáveis de funcionamento. Nós conhecemos apenas um deles, mas existe um outro estado estável, completamente diferente. Um estado em que as necessidades de oxigênio, o ciclo de produção de energia, a relação das células com o exterior, tudo é diferente, mas ao mesmo tempo igualmente estável. Neste estado o organismo não está vivo como nós o definimos, mas funciona também, apenas de uma forma desconhecida.

- André, meu amigo. Eu sei que quando criança você acha que viu um vampiro. Eu até entendo que para você é tão importante achar uma explicação para isto quanto é para, sei lá, um cristão acreditar que o que viu numa visão era realmente Deus. E até entendo que você, um homem de ciência, precisa construir uma explicação científica. Mas se publicar um artigo com esta teoria, vai virar motivo de chacota.

- Carlos, eu disse que iria publicar um artigo científico, não disse - André se levanta e vai até um armário na sala.

- Por favor, André, estamos comendo - Marta se levantou também - Não traga aquela coisa para a mesa.

- Pois bem - André continuou, sem prestar atenção na esposa - se estou pronto para apresentar um artigo, é porque minha idéia não é mais apenas uma teoria. - e André tirou do armário uma gaiola com um pequeno rato dentro.

- Isto - André continuou - É um rato vampiro. Passei dois anos investigando até conseguir ativar o segundo estágio de suas células. Descobri que ele pode até comer ração, mas só consegue se alimentar bebendo diretamente sangue. Ele não respira mais, ou melhor, as células praticamente não precisam mais de oxigênio. E estou quase certo que ele parou de envelhecer. E então, o que acha?

Carlos apenas olhou para sua esposa, que fez um pequeno sinal de concordância com a cabeça, e ambos se levantaram.

- Eu acho que é realmente culpa minha. Você realmente não deveria ter me visto me alimentar, quando era uma criança, meu amigo, mas eu sinto muito. Não tenho como deixar que você revele isto ao mundo.

E Carlos abriu sua boca.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os Cinco Não Vivos - Parte 5 de 5: Ardath

Ardath

Existem cinco arcanjos. Existem cinco não-vivos. Cláudia contou esta história. Estávamos inventando histórias de terror, de vampiros, lobisomens. Eu contei de uma criança que caiu de uma janela.

A história de Cláudia não foi inventada.

Eu encontrei um dos arcanjos, Sangadriel. Não sei o nome dos outros quatro.

Um dos não-vivos se chama Kabet, e ele tirou um pedaço de meu cérebro. Ele disse que era minha alma. Por causa disto, o arcanjo tentou me matar.

Uma dos não-vivos se chama Kalith, e ela matou meu amigo Pedro. Ela me salvou de Sangadriel, e me disse que havíamos sido amantes em outra vida.

O terceiro não-vivo, Matat, caminhou comigo até a porta de minha casa, e me disse que era hora de me despedir de minha mãe. Acho que ele vai me matar, mas ele me garantiu que não vai fazer mal a ela.

Ele desapareceu quando chegamos em minha casa, não sem antes dizer que eu ainda encontraria os dois outros não-vivos, Luskor - que assumia a forma de sua vítima - e Ardath, de quem eu nada sabia.

Eu abri a porta de casa e entrei. Mamãe estava na sala, e sentada, em outra cadeira, Claudia.

- Filho, que bom que chegou, onde você estava? Eu estava justamente dizendo para Claudia que você teve um pesadelo por causa destas histórias que ela inventou.

- Marta, querida, eu não inventei nenhuma história. Os não-vivos são reais.

- Claudia, isto já foi longe de mais. Julio realmente ficou assustado, e eu quero que você pare agora com isto.

Ela pareceu nem ouvir minha mãe, e se virou para mim - Lembra, Julio, que eu contaria em outra ocasião como surge um não-vivo, como eles são substituídos? - eu acenei que sim, mas acho que ela nem reparou. Na verdade, me veio a intuição que, embora olhasse para mim, era para minha mãe que ela contava a história.

- Imagine que a alma de uma criança seja oferecida ao demônio por sua própria mãe. Digamos que fosse um pequeno bebê, e digamos que sua mãe tivesse esquecido aberta a janela do apartamento. Imagine o bebê caindo lá em baixo, de cabeça no chão, o cérebro se espatifando - Minha mãe estava branca, e eu queria pedir para Claudia parar de falar, mas não consegui dizer nada, e ela continuou.

- Imagine então, esta mãe, agarrando esta criança e sabendo que nenhuma oração a Deus, nenhum pedido por um milagre, traria seu filho de volta a vida. Digamos que, neste momento, esta mãe, no desespero, implorasse até mesmo para o lorde das trevas pela vida de seu filho.

Minha mãe estava com os olhos cheios d´água, lágrimas escorrendo pelo rosto, dizendo 'não' várias vezes, baixinho. Eu corri e a abracei.

- Esta mãe, se fosse justa, ficaria grata a Lúcifer pelos anos que ganhou com seu filho, anos que nenhum milagre de Deus poderia ter lhe dado.

- Você não vai tirar Julio de mim, Claudia - Minha mãe falou, enquanto me agarrava com força.

- Claudia? Claudia está morta a dias. Meu nome é Luskor, e eu e seu filho temos agora que partir.

Ela estende sua mão, e eu sei que não tenho outra escolha além de pegá-la.

- Quanto a Julio, Julio morreu com dois anos de idade. Despeça-se de seu filho chamando-o pelo seu verdadeiro nome: Ardath.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Os Cinco Não Vivos - Parte 4 de 5: Matat

Eu tinha dúvidas se era realmente ele, até atender o celular e ouvir sua voz incoerente, em meio a soluços e choros. Era Luiz no telefone, com certeza, me dizendo que seus pais estavam mortos, assassinados por um demônio.

Estranhamente, ao invés de ficar ainda mais apavorado, eu me senti calmo, ou pelo menos anestesiado. Talvez por ter visto tantos horrores em tão pouco tempo, talvez por estar falando com alguém que também estava sendo perseguido pelos demônios, e assim não estar mais sozinho.

Talvez por ter alguém ainda mais apavorado que eu, no outro lado da linha.

- Eu sei que eles existem, eu também vi. Pedro também está morto. Eu acabei de sair do apartamento dele. Onde você está?

- A igreja na esquina, no caminho da minha casa. Venha rápido. Sangadriel disse que eles estão atrás de todos nós, e ele disse que vamos estar mais seguros aqui.

- Quem?

- É um dos arcanjos, os que Claudia contou. Foi ele que me salvou, o demônio fugiu do meu quarto quando ele apareceu.

"Arcanjos?". Eu só estava acreditando nos demônios porque tinha visto dois frente a frente, e mesmo assim ainda tentava achar alguma outra explicação. Agora deveria também acreditar em arcanjos? E se fosse outro dos demônios? ou se Luiz fosse um dos demônios? Havia um que assumia a forma de pessoas, Claudia havia dito.

Eu parei, em frente a Igreja, hesitante. Seria outro demônio a me esperar? Acho que se não fosse uma Igreja, teria dado meia-volta e fugido. Mas para onde eu iria? As portas da Igreja estavam abertas, e decidi entrar.

Havia um homem na porta, com Luiz. Um homem alto, com um casaco e calças marrom, cabelos loiros, olhos azuis. Não parecia um demônio.

Mais que depressa ele me segurou com suas mãos e me levantou sem esforço, apenas para me prensar contra uma das paredes da Igreja.

- O que está fazendo - gritou Luiz.

- Não vês, mortal? Não há alma neste ser. Tudo que nele persiste é a marca da serpente. - Enquanto uma de suas mãos continuava me segurando, outra começou a apertar meu pescoço, quase me impedindo de falar.

- Foi Kabet - eu falei com esforço, me lembrando que o primeiro não-vivo, a noite, me disse algo sobre isto.

- Não importa - disse o arcanjo - Arda no inferno, que na terra não irás mais caminhar.

Eu não consegui dizer mais nada, não consegui respirar. "Anjos falam deste jeito ridículo", o pensamento idiota me cruzou a mente.

"Não quero morrer", eu pensei em seguida. Tudo começou a ficar mais e mais escuro...

"Kalith", eu então chamei em pensamento, sem saber dizer porquê, e por um instante perdi a consciência.

- Sangadriel, porque não enfrenta alguém capaz de se defender? - Eu conhecia esta voz. A visão voltando. Kalith estava ali, e Sangadriel havia me largado no chão.

- Vamos então novamente cruzar armas, Kalith, mas não aqui - Um brilho surgiu no meio de todos nós, e instantes depois ambos desapareceram. Eu me levantei com dificuldade, tonto.

- Luiz - eu falei, surpreso em ver minha voz sair fraca. Luiz se afastou um passo e outro, andando para trás.

- Você também é um demônio? - ele não me deu chance de responder, apenas se virou e fugiu igreja adentro.

Eu sai da Igreja e comecei a caminhar para casa.

- Eles não estão realmente lutando, sabia? - Uma voz. Me virei, e um homem alto, tão alto quanto o anjo, estava atrás de mim.

- Ah - ele continuou - quando a próxima Biblia for escrita, dentro de uns dois séculos, vai dizer que eles se enfrentaram em batalha mortal, sem dúvida. A realidade é que são amantes, mas as aparências precisam ser mantidas.

As mãos dele tinham longos dedos. Eu estava cansado de fugir, de ter medo. Olhei ele nos olhos, quase me resignando com o que quer que viesse a acontecer, e disse - Matat, eu presumo.

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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Os Cinco Não Vivos - Parte 3 de 5: Kalith

De manhã, minha mãe me encontrou acordado, encolhido em um canto de minha cama, os olhos arregalados. Ela disse que era apenas um pesadelo, quando lhe contei, entre soluços e lágrimas, o que aconteceu. Depois me abraçou.

Ela só se tranquilizou quando fingi acreditar que era mesmo apenas um sonho ruim. Eu sabia que era real, mas também percebi que ela nunca acreditaria em mim.

Aproveitei a primeira oportunidade que ela me deixou sozinho para ligar para Claudia.

- Por favor, diga que acredita em mim, Claudia. Eles existem, mesmo. - Eu estava quase implorando, depois de ter contado para ela o que aconteceu.

- É claro que eles existem. O desafio de ontem era contar uma história assustadora, ninguém disse que não podia ser uma história verdadeira.

- Você não está gozando de mim, né? Eu realmente vi um deles, e não sei o que eu faço agora. - Tudo que eu queria era uma explicação, mesmo que absurda. Quem sabe alguma coisa que pudesse me proteger deles, ou alguém que pudesse ajudar.

- Ora, Julio, acho que agora você só tem que esperar pelo próximo não-vivo, quem sabe mais um não o visita esta noite. - Antes que eu pudesse responder, não que eu soubesse o que dizer, ela desligou o telefone, assim que terminou de falar. Eu liguei de volta para o celular dela, e ninguém atendeu. Liguei para o telefone fixo de sua casa e nada também.

Eu liguei então para Pedro, depois para Luiz. Tentei o celular, tentei o telefone da casa, mas nenhum atendia. Era sábado, não havia aula e ninguém disse que ia viajar. Não era normal.

Luiz morava umas três quadras na mesma rua, mas Pedro era praticamente meu vizinho, morava em um apartamento do outro lado da rua. Eu fui até lá.

Ninguém respondeu quando apertei o interruptor da entrada do prédio dele, era um edifício sem portaria, mas liberaram a porta. Eu subi o elevador, tremendo. Estava com medo, mesmo sendo a luz do dia.

Quando toquei a campainha, uma mulher abriu a porta. Era linda e vestida elegantemente, mas não era a mãe de Pedro nem ninguém que já tivesse visto, e eu recuei um passo, meu coração se acelerando.

- Entre, querido.

- Quem é você?

- Ora, não sabe? Eu sou Kalith.

- O que você fez com Pedro - não sei como, eu tive coragem de dizer, minha voz gaguejando.

- Ele morreu feliz, posso lhe garantir. Creio que se pudesse escolher, qualquer homem gostaria de morrer como ele morreu, nos braços de uma mulher.

Eu nada disse, e ela continuou - Entre, vamos, não temos necessidade de conversar no corredor. Eu preparo uma xícara de chá. - Eu apenas recuei mais um passo. Só não comecei a correr porque não via como conseguiria escapar e, na verdade, porque não sabia se poderia confiar em minhas pernas trêmulas.

- Está triste porque matei seu amigo? Mas eu lhe fiz um grande favor. Agora ele poderá viver para sempre no céu, garanti a ele uma vida inteira no paraíso. Quem sabe se, permanecendo vivo, ele não acabaria pecando e sendo condenado ao inferno? Você correria este risco por apenas alguns anos na terra? Qualquer cristão crente em Deus deveria estar, neste momento, matando tantos inocentes quanto pudesse, crianças de preferência. Não seria uma boa ação, um dever de garantir o paraíso para tantos quanto pudessemos? - Eu apenas balanço a cabeça, em um sinal de não.

- Claro que não - ela ri - estou apenas mostrando como Deus é incoerente. - Escrever certo por linhas tortas - ela gargalha agora uma risada medonha - vocês são tão ingênuos.

Talvez, eu pensei, se correr para a escada de incêndio, e fechar a porta atrás de mim, e descer correndo, eu consiga escapar. Mas eu não acreditei realmente em mim mesmo.

- Estou assustando você, não é? Tolice, não vou lhe fazer mal. Nós já fomos amantes, em outra vida - Ela se aproximou, e eu me senti incapaz de me mover, paralisado - e poderemos voltar a ser, nesta. - Ela encosta os lábios em meu rosto, um beijo suave - quando precisar, apenas diga meu nome em voz alta, que eu virei visitá-lo, onde você estiver.

Ela se virou e entrou dentro da casa de Pedro, então virou o rosto para mim, sorrindo - se quiser, entre. Estarei esperando aqui dentro.

Eu me virei e corri escada abaixo. Quando cheguei no portão, meu celular tocou. Era Luiz.

Ou um demônio no lugar dele.

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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Os Cinco Não Vivos - Parte 2 de 5: Kabet

Kabet

Um grito estava trancado em minha garganta, prestes a sair. A luz do quarto estava acesa, porque eu estava com medo de dormir no escuro. Um demônio estava sentado, nos pés da cama, de pernas cuzadas. Uma de suas mãos estava com o indicador cruzando os lábios.

- sshhh - ele emite um som para me fazer ficar em silêncio - se você gritar, sua mãe vai vir correndo até o quarto, e nós podemos querer matá-la. Melhor meu amigo ficar em silêncio. Você quer que sua mãe viva, não?

Eu acenei que sim com a cabeça, meu olhos arregalados, o coração batendo acelerado, retumbando em meu peito. Suor escorria de minhas mãos. Eu nunca havia sentido tanto medo em minha vida.

- Eu peguei um pedacinho bem pequeno de seu cérebro - ele levantou a outra mão e me mostrou algo que segurava entre o polegar e o indicador. - acho que você nem vai dar pela falta. - Ele abriu sua boca e colocou dentro o que quer que fosse (um pedaço de meu cérebro???), e então mastigou e engoliu.

- Ahhh, delicioso, mas tão pequeno que nem dá para matar a fome - Ele sorriu. E então ficou em silêncio, apenas me olhando por um longo tempo, seus olhos atentos, como se estivesse me examinando. Ele era exatamente como Claudia havia dito, gordo e careca, e faltava um pedaço de seu crânio, permitindo ver um pedaço de seu cérebro.

- O que vai fazer comigo? - Eu finalmente reuni coragem para falar, pois ele parecia disposto a apenas ficar ali, me olhando. Minha voz gaguejante, as palavras não querendo sair.

- Eu já fiz. - Ele ajeitou as pernas e sorriu um sorriso medonho. Sua voz, porém, parecia tranquila e descontraída quando recomeçou a falar - sabe, o cérebro humano é uma máquina fantástica, e é preciso muita habilidade para desmontá-lo com precisão. As memórias, a inteligência e os sentimentos não estão agrupados em cantinhos separados, mas espalhados por todo lugar, e é preciso muita habilidade para juntar e retirar exatamente o que queremos. E cada parte tem um sabor próprio, único. Se provasse, você iria adorar.

Eu fiquei em silêncio, o medo dominando tudo em mim. Minha visão começou a se afunilar, escurecer, e eu senti que estava quase a desmaiar.

- Você não está curioso em saber que parte de seu Cérebro eu comi? - Ele diz, sorrindo. Eu nem me movi, paralisado de medo.

- Não se preocupe, não foi nada importante. Alguns até diriam que lhe fiz um favor. Sabe, existe uma parte do homem, alguns chamariam de sua alma, que veio direto de Deus. É como se um pedacinho de Deus fizesse parte de cada ser humano. É este pedacinho que faz algumas pessoas se sentirem especiais quando rezam, é a parte que lhes permite falar diretamente com seu criador. Foi esta parte que eu comi.

Ele se aproximou então de mim, seu rosto chegando a centímetros do meu - Mas não se preocupe, todo ser humano tem outra parte de si que veio direto da serpente, do demônio. Alguns dizem que é a parte que lhe dá seu livre arbítrio. Pessoalmente acredito que é uma muito mais importante. Esta eu não toquei.

Ele estendeu sua mão até encostar em meu rosto. Eu quase gritei, mas lembrei que ele disse que minha mãe morreria se entrasse no quarto.

- Durma agora - ele disse - amanhã Matat vai querer conhecê-lo.

Ele fechou meus olhos com sua mão, e tudo ficou escuro.

Os Cinco Não Vivos - Parte 1 de 5: Luskor

Luskor

- Meninas não sabem contar histórias de terror - Pedro disse, desafiando Claudia. Ela fitou ele com olhos zangados.

Estávamos em quatro, Claudia a única menina no grupo, em meu quarto, e cada um de nós contou uma história assustadora. Pedro contou uma de vampiros, Luiz uma de lobisomem. Eu contei uma história de uma mulher que esqueceu o bebê na janela, e ele caiu do 5º andar. Achei que a minha era a mais assustadora, até ouvir a história de Claudia.

- Existem cinco arcanjos que são os protetores da humanidade. Eles foram criados por Deus e receberam a missão de proteger o homem de todo mal. Seus nomes constam de uma história que deveria fazer parte da Bíblia, mas que esqueceram de incluir quando montaram o livro.

- Só uma menina mesma para contar uma história de anjos e achar que é assustadora - debochou Pedro.

- Psiu - eu e Luiz dissemos ao mesmo tempo.

- Não seria uma história assustadora - explicou Claudia - só que Lúcifer achou que isto afetaria o equilíbrio entre o bem e o mal, privando a humanidade de seu livre-arbítrio. Assim ele criou cinco seres para serem o contraponto dos Arcanjos, os cinco não-vivos.

- Ei - Pedro interrompeu novamente - histórias de vampiros não valem, que eu já contei uma.

- Eles não são vampiros - Claudia continuou - vampiros falam sobre eles, a noite, quando querem assustar uns aos outros, como nós estamos fazendo agora. Eles bebem o sangue de vampiros como vampiros bebem o de pessoas, mas não para se alimentar, apenas por diversão.

Claudia continou então, descrevendo cada um dos não-vivos. Um deles, Matat, tinha suas mãos cobertas por um veneno que paralisava as pessoas (e os vampiros, ela comentou olhando para Pedro). Ele então fazia pequenos cortes na vítima, e ela se esvaia em sangue, morrendo lentamente, consciente mas imobilizada.

Outro, Kabet, vinha, a noite, e, sem despertar a vítima, conseguia pegar pequenos pedaços do cérebro dela com a mão. A cada dia a pobre vítima ia ficando mais confusa, perdendo memórias, até esquecer completamente quem era. Se abrissem sua cabeça, iam descobrir que uma parte de seu cérebro não estava mais lá.

Um terceiro, Luskor, assumia a exata aparência de sua vítima, muitas vezes vivendo por semanas e meses fingindo ser a pessoa que ele ocupou o lugar.

Claudia também descreveu em detalhes a aparência de cada um. Matat era alto e magro, branco, com mãos compridas, dedos mais longos do que uma pessoa normal. Kabet era baixo, gordo e careca, e parte de seu cérebro era vísivel na cabeça sem cabelos. Luskor só era visto com a aparência de suas vítimas.

A quarta não-vivo se chamava Kalith, e era uma mulher linda que seduzia suas vítimas. Do quinto não-vivo, ela só disse o nome, Adath.

- Eles são cinco, e são eternos, mas não são imortais. Quando morrem são substituídos.

- Como assim?

- Esta é a história que eu vou contar em uma próxima vez. - Ela então gargalhou.

A história de Claudia foi a mais assustadora de todas, concordamos. Até Pedro teve que dar o braço a torcer. Quando fui dormir, naquela noite, ainda assustado com a história, eu achei que veria os cinco não vivos em meus sonhos.

Curiosamente, eu tive pesadelos, sim, mas foi com a história que eu contei, só que, em vez de um bebê, era eu que caía da janela de meu apartamento. Meu cérebro se espatifando no chão, meus ossos se quebrando. Acordei com um grito contido na garganta.

Era noite ainda, e Kabet estava no quarto comigo.