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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O Rato Vampiro

- Me alcance as batatas fritas, por favor. - André pediu com gentileza, e Raquel, do outro lado da mesa, passou para seu marido, Carlos, que fez questão de se levantar e servir o amigo.

- Marta, sente-se, por favor. - Raquel falou para a esposa de André, que ia e voltava da cozinha, cada vez trazendo mais um prato ou bebida.

- Já vou sentar, só falta trazer o peixe.

- E então, Doutor André - o doutor em um tom meio sarcástico, meio bem humorado - Qual sua próxima descoberta científica? - Carlos sempre provocava o amigo, desde que este havia terminado seu doutorado em biologia, havia uns dois anos.

- Eu lhe digo se você prometer não rir.

- André! - o tom forçado, de falsa surpresa, combinava com o rosto, fingindo uma falsa mágoa - Algum dia eu tratei suas pesquisas com menos que o máximo de respeito? Assim você fere meus sentimentos.

- Carlos...

- Ok, ok. - a mão levantada, a outra posicionada no coração - juro por tudo que há de mais sagrado que não irei rir nem debochar da nova pesquisa do emérito Doutor André.

- Muito bem. Meu próximo artigo será sobre vampiros.

- André - Marta, se metendo na conversa - Por favor. Não podemos ter pelo menos um jantar com amigos sem que você fale sobre este assunto. Tenho certeza que Raquel e Carlos não estão interessados em histórias de vampiros.

- Mas estamos sim, Marta - contradisse Carlos. - Vampiros, André? Ora, então finalmente desistiu da carreira científica e vai voltar a ser um escritor?

- Eu nunca fui um escritor de verdade, e com certeza não pretendo começar agora. Meu próximo artigo CIENTÍFICO será sobre vampiros - André fez questão de frizar a palavra 'científico'.

- Deixe-os com sua conversa - Raquel disse para Marta - Fale-me da viagem que vocês estão planejando.

André não prestou atenção na resposta de Marta, estava envolvido demais em sua própria explicação. - Meu artigo provará a existência de vampiros, meu amigo.

- Hummm - foi a primeira resposta de Carlos, que então bebeu um gole de vinho. O jantar, na casa de André, era simples, mas o vinho era de primeira qualidade. - Você sabe qual é o problema com vampiros?

- Qual?

- Eles não existem - Carlos abriu as mãos e fez uma expressão de quem falava o óbvio.

- Tudo bem, tudo que nós sabemos de biologia, física, etc., indica que vampiros não existem. Concordo. Agora, imagine por um momento que eles de fato existam.

- André, André, eu sei que você imaginou ter visto um vampiro quando criança. É natural, coisa de criança, acho que sua mãe inclusive exagerou, levando você em um psiquiatra e tudo mais. Mas achei que você já tinha superado aquele trauma.

- Eu sei o que vi. Por anos fiquei me convencendo que estava delirando, imaginando, o que fosse. Mas então me veio um pensamento: e se de fato existissem vampiros.

- Você é um cientísta, André. Vai agora abandonar sua ciência e começa a acreditar em misticismos? Você, que me disse que não acreditava em nada que não pudesse ser provado, e isto inclui crenças, religiões, até Deus e, pelo menos sempre imaginei, vampiros.

- Não estou abandonando minha ciência. Ao contrário, mais do que nunca acredito na ciência, e mais do que nunca só acredito no que pode ser provado. Este é meu ponto. O que eu disse no início? E se de fato existissem vampiros? E se minha hipótese fosse de que há criaturas imortais, que bebem o sangue das pessoas? Se isto fosse verdade, qual a explicação científica por trás destes seres?

- Vampiros são criaturas místicas, André. Tudo bem que a Marta acreditasse neles - Carlos olhou para a esposa de André e disse para ela não levar a mal, mas ela apenas respondeu que não estava nem escutando a conversa e continuou falando com Raquel - mas você me dizer agora que acredita em criaturas místicas... Bem, me surpreende.

- Eu não acredito em criaturas místicas, Carlos. Minha hipótese é que existem de fato vampiros. Seres reais que chamamos de vampiros, que não são místicos, que possuem uma explicação científica, biológica. Seres, que uma vez que entendemos que existem, são um elemento a mais para entendermos e criarmos teorias sobre o nosso próprio organismo.

- Esta bem, e você vai fazer um artigo a respeito disto. - Carlos falava com voz descrente. Bebeu mais um gole de vinho - e qual seria esta explicação 'biológica' para estes seres que viram morcego e bebem sangue?

- Eu não acredito que eles virem morcegos. Fisicamente me parece impossível, a menos que eles virassem morcegos de 80 kilos que não iam conseguir voar. Também não imagino que espelhos não reflitam o rosto deles. Mas estou certo que eles bebem sangue, são imortais, estão, em certo sentido, mortos e não me surpreenderia que queimassem a luz do sol.

- E você tem uma explicação não mística para tudo isto?

- Sim. É complexo, então vou ter que usar uma analogia, se me permite. -com um gesto de mão, Carlos indicou para ele continuar - pense em um carro flex. Ele opera a gasolina, certo. Se dessemos gasolina para ele a vida inteira, nunca imaginaríamos que ele poderia operar de outra forma. Mas ele também opera com Alcool, certo?

- Pois bem - André continuou - imagine se todas as células de nosso corpo, na verdade de qualquer ser vivo, fossem assim. Nós não entendemos realmente como elas funcionam. Nós achamos que entendemos, porque analisamos como cada célula se comporta em circunstâncias normais, mas isto não foi graças a uma simulação. Nós não deduzimos como as células funcionam. Nós observamos como elas funcionam e deduzimos o porque delas funcionarem desta forma.

- Juro que estou prestando atenção, André, mas acho que você está me perdendo.

- Minha teoria é que as células e, na verdade, os próprios organismos, tem pelo menos dois estados estáveis de funcionamento. Nós conhecemos apenas um deles, mas existe um outro estado estável, completamente diferente. Um estado em que as necessidades de oxigênio, o ciclo de produção de energia, a relação das células com o exterior, tudo é diferente, mas ao mesmo tempo igualmente estável. Neste estado o organismo não está vivo como nós o definimos, mas funciona também, apenas de uma forma desconhecida.

- André, meu amigo. Eu sei que quando criança você acha que viu um vampiro. Eu até entendo que para você é tão importante achar uma explicação para isto quanto é para, sei lá, um cristão acreditar que o que viu numa visão era realmente Deus. E até entendo que você, um homem de ciência, precisa construir uma explicação científica. Mas se publicar um artigo com esta teoria, vai virar motivo de chacota.

- Carlos, eu disse que iria publicar um artigo científico, não disse - André se levanta e vai até um armário na sala.

- Por favor, André, estamos comendo - Marta se levantou também - Não traga aquela coisa para a mesa.

- Pois bem - André continuou, sem prestar atenção na esposa - se estou pronto para apresentar um artigo, é porque minha idéia não é mais apenas uma teoria. - e André tirou do armário uma gaiola com um pequeno rato dentro.

- Isto - André continuou - É um rato vampiro. Passei dois anos investigando até conseguir ativar o segundo estágio de suas células. Descobri que ele pode até comer ração, mas só consegue se alimentar bebendo diretamente sangue. Ele não respira mais, ou melhor, as células praticamente não precisam mais de oxigênio. E estou quase certo que ele parou de envelhecer. E então, o que acha?

Carlos apenas olhou para sua esposa, que fez um pequeno sinal de concordância com a cabeça, e ambos se levantaram.

- Eu acho que é realmente culpa minha. Você realmente não deveria ter me visto me alimentar, quando era uma criança, meu amigo, mas eu sinto muito. Não tenho como deixar que você revele isto ao mundo.

E Carlos abriu sua boca.

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