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O Último Rei Orco

"Por que os homens herdarão a terra?". Ele pagaria qualquer preço para saber a resposta.
O Rei Orco fechou seu olho verdadeiro, e se deixou levar pela visão do dragão. Mais que visão, era como cavalgar um dragão de verdade. Como cavalgar o vento. Ele nem viu a taça de Nectar cair no chão, escapando da mão que lhe sobrara, enquanto o vento o arrastava para outro mundo. Os soldados que o cercavam impediram que seu corpo caísse, e o colocaram com cuidado em uma cama feita de pele de carneiros.
A frente do Rei Orco, em sua visão do dragão, N-BIS, um deus menor, surgiu em meio a uma névoa sem fim, cessando, no mesmo instante, o vento que arrastara o rei até aquele local. A imagem de N-BIS era translúcida e intermitente, aparecendo e desaparecendo a cada instante. "Com dois olhos de dragão, minha visão seria perfeita, mas arrancar meu olho esquerdo já foi um preço alto demais", pensou o Rei Orco, "melhor enxergar um pouco no mundo dos deuses e um pouco no mundo mortal que ser cego em um deles".
- Um Orco, aqui? Veio entregar seu coração como oferenda para N-BIS? - A voz era sibilante, quase um uivo.
- Não vim para fazer oferendas, devorador de corações, vim para obter respostas.
- Respostas? Acaso agora os deuses são servos, e os mortais reinam supremos? Acaso agora cabe a mortais fazer perguntas, e a deuses dar respostas?
- Eu paguei o preço. Minha mão pela vida do dragão. Meu olho pela sua visão. Minha esposa em sacrifício, oferenda ao arqueiro APOL, deus da verdade. Leve-me a ele. Agora!
- Falarias assim com Z-US PAI? Com V-NU ou J-VA? Pensa em mim como um deus menor, não é? Mas o que sabe um mortal para ousar dar ordens aos deuses?
O Rei Orco ficou em silêncio, sem responder, mas também sem abaixar sua cabeça. Seu único olho aberto, o olho do dragão que ele colocou no lugar de seu próprio, fixo no rosto de chacal de N-BIS.
Por fim, N-BIS lhe deu as costas e falou, sem olhar para trás - Siga-me, então, último Rei dos Orcos. Eu o levarei a APOL.
O Rei Orco seguiu em silêncio o devorador de corações. O olho direito, seu olho verdadeiro, sempre fechado. Abri-lo por um momento o faria despertar de seu sonho divino.
Ou enlouquecer.
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- Por que os homens herdarão a terra?
O arqueiro APOL, filho de Z-US, era o mais lindo dos deuses, tão alto e belo quanto um Orco, um gigante perto dos minúsculos humanos. Ele, mais que ninguém, saberia a resposta a pergunta do Rei Makel.
N-BIS havia se retirado, sem nada dizer, enquanto o Rei Orco aguardava que APOL se dirigisse a ele. Foi um longo tempo de silêncio, e ele apenas fez sua pergunta quando o deus finalmente levantou os olhos, que contemplavam uma pequena poça de sangue a seus pés, e, ao olhar para o Rei, perguntou o que o trazia a morada dos deuses.
- Por que os homens herdarão a terra? - APOL respondeu repetindo sua pergunta - Eles herdarão a terra porque esta foi a palavra dita por Z-US, último Rei dos Orcos. - Ele então se virou para voltar a contemplar a poça a seus pés.
O Rei Orco sentiu seu coração se apertar. Seus sacrifícios, sua mão, seu olho, a mãe de 5 de seus filhos, todos um preço que não seria pago com tão pouca resposta. Mas era a um deus que ele se dirigia, e não um deus menor como N-BIS, mas um dos filhos de Z-US.
- APOL, deus da luz e do sol, da verdade e da profecia, nós somos criaturas de J-VA, não de Z-US, é verdade, mas nós lutamos e mostramos nosso valor e devoção em campo de batalha. Nós queimamos nossos inimigos como oferenda não apenas a J-VA, mas também a Z-US e V-NU. O que fizemos para ofender a Z-US desta forma, e como podemos nos redimir.
- Aproxime-se, último Rei dos Orcos. Aproxime-se e olhe para o espelho do tempo.
O Rei Orco aproximou-se de APOL e olhou ao redor, até perceber que era à poça de sangue no chão que o deus se referia. Ao olhar fixamente para ela, parado ao lado de APOL, ele viu imagens se formarem, e uma voz começou a ecoar em sua mente.
"Antes da primeira era, três raças foram criadas pelos deuses, para com sua fé, dar a eles poder." O Rei Orco viu um Elfo sair de dentro de uma árvore. Um Orco surgir do barro. Um homem aparecer do chão.
"Z-US criou os homens para povoar a terra. E disse que eles se multiplicariam e seriam em maior número que todas as outras criações, provando que Z-US era o mais poderoso de todos".
"V-NU criou os elfos para cantarem a glória dos deuses. Imortais, e com devoção sem igual, sua fé faria de V-NU o mais poderoso dos deuses."
"J-VA criou os orcos para fazer a guerra, e assim exterminar as outras raças, até que apenas eles reinassem, tornando  J-VA supremo sobre todos os outros deuses".
A imagem desapareceu, a voz silenciou, a poça de sangue no chão secou em um instante, e o Rei Orco se viu sozinho com APOL.
- Eu não entendo, J-VA disse que iríamos exterminar os outros povos e reinar supremos. Os Elfos já foram derrotados e expulsos para florestas longínquas, e as cidades dos humanos caem uma após a outra. Então seremos nós a herdar a terra?
APOL respondeu sem olhar para ele - Cada deus tem um dom maior, e o de Z-US é tornar a palavra verdade. Foi com a palavra que ele fez o mundo. Quando viu a criação de J-VA, e seu plano de se tornar o mais poderoso, ele riu, e zombou dos planos de J-VA e V-NU, e então usou a palavra, e disse:
O último Rei Orco sabia a frase, foi a frase que o trouxe até aqui, falada pelo seu irmão, o Shaman, com seu último suspiro. Ele repetiu, em voz baixa, acompanhando a fala de APOL.
- Os homens herdarão a terra.
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- Por que os homens herdarão a terra?
- Ele não pode mais responder, meu pai. Está morto. - Seth mantinha distância de seu Rei. A batalha havia terminado. Os poucos humanos ainda vivos, mulheres e crianças em sua maioria, já começavam a ser reunidos para serem levados para o acampamento, para servirem de diversão aos soldados. Poucos sobreviveriam para ver a luz do sol novamente. Nenhum soldado humano ainda vivia, mas não era os humanos que os Orcos temiam. Era seu próprio Rei.
- Morto - o Rei repetiu, como se não tivesse entendido. Então olhou sua única mão, coberta pelo sangue. Ele havia espancado vezes sem conta o diminuto humano, largando seu machado e usando apenas o punho como arma, sempre repetindo a mesma pergunta: por que os homens herdarão a terra?
- Foi uma grande vitória meu pai. Apenas Asikli Hoyuk ainda resiste, agora, e quando este último baluarte cair, os humanos terão desaparecido por completo.
- Vitória? Você vê uma vitória aqui, filho? O Rei Orco olhou a devastação ao redor, as casas em ruína, os corpos pelo chão. - De que adiantam vitórias, se no final serão os humanos a herdar a terra? - O guerreiro não respondeu, apenas abaixou os olhos. Ele nada entendia sobre a vontade dos deuses, mas sabia que era melhor não discutir com seu pai, não com um pai  que a cada dia parecia se aproximar mais da loucura.
- Eu não posso aceitar isto. Nós vencemos cada batalha. Não vou aceitar que eles herdarão a terra, não me importa a vontade de Z-US. - Um relâmpago caiu do céu no instante que o Rei Makel falou, e o guerreiro se encolheu involuntariamente, ante a blasfêmia de seu pai.
- Quando o último humano morrer, meu pai, não estará nossa vitória completa? Não teremos então herdado a terra? - O Rei olhou para seu filho, o hediondo olho do dragão, que permanecia quase sempre fechado, se abrindo e olhando para ele junto com o olho normal.
- Não se não for a vontade de Z-US. Sua palavra tem poder.
- Então, meu pai, vamos enfrentar nosso destino. Vamos partir para Asikli Hoyuk e acabar logo com isto. E se Z-US decidir por nosso fim, se J-VA permitir que ele nos destrua, que assim seja. Morreremos Orcos, morreremos lutando.
- Não!
Seth olhou para seu pai, sem entender.
- Não - O Rei repetiu - Vocês não partirão para lugar algum. Vocês ficarão aqui, aguardando meu retorno, pelo tempo que for preciso.
- Aguardando, meu pai? Mas para onde você vai?
- Eu vou ver J-VA. Eu vou encontrar o deus supremo, e ele irá me dizer como quebrar a palavra de Z-US. E quando eu retornar, com sua resposta, nós iremos conquistar Asikli Hoyuk.
E o último Rei Orco deu as costas a seu terceiro filho masculino, e partiu, para encontrar o deus que criou seu povo.
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- Minha amada Lith, seu sacrifício foi em vão - Ao entardecer do sétimo dia, caindo de joelhos no chão do deserto de pedra, foi a primeira frase do último Rei Orco. Suas forças finalmente se esgotando, a esperança há muito perdida.
Lagrimas escorreram das faces do Rei. Lágrimas que ele não chorou quando atravessou com uma adaga o coração da única mulher que amou, seu sacrifício um dos preços pela audiência com APOL. Lágrimas de água salgada como o mar, pelo lado direito de seu rosto. De seu olho esquerdo, o olho fechado que um dia pertenceu a um dragão, lágrimas de sangue.
Um Orco nunca implora. Um Rei Orco toma aquilo que deseja, sem nunca se desculpar, nunca se submeter. Mas naquele entardecer, certo que sua raça estava destinada a extinção, seus sacrifícios em vão - sua mulher, seu olho, sua mão - naquele entardecer, o Rei Orco implorou.
- J-VA, deus de todos os Orcos, eu imploro. Dê-me uma luz, ajude-nos. A palavra de Z-US é a verdade, e em sua palavra não houve espaço para nós. Só vós podeis dar novamente esperança ao seu povo escolhido. Eu imploro.
Uma voz, então, Makel ouviu. Uma voz tão silenciosa que se confundia com o barulho do vento, e ele não saberia dizer se era verdadeira, ou apenas sua imaginação.
- Você arrancou seu olho esquerdo, mas poupou o direito. Tomou a vida de sua mulher, mas não a própria. Bebeu o nectar dos deuses, mas não comeu a ambrosia. Você agora implora por respostas, quando antes aceitou apenas meias verdades pelo seu meio sacrifício.
- J-VA? É você que me fala? Ou minha razão por fim se foi, como há dias meus filhos temem?
O silêncio. Vento soprando.
- J-VA, se é minha vida que queres, ela é sua. Meus olhos, minha alma. Apenas me dê a resposta que salvará meu povo.
Novamente uma voz que parecia a voz do vento, pouco mais que um sussurro no silêncio.
- Para além do deserto de pedra, há um bosque com uma árvore cujo fruto é ambrosia, o alimento dos deuses. Há uma faca feita de pedra, que um dia arrancou o olho do poderoso Wotan. Há um lago cujas águas significam morte e vida. Ouça o que você irá fazer, Último Rei dos Orcos. Ouça como você irá morrer.
E o Último Rei Orco ouviu como seria sua morte. E então se levantou e partiu.
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Foi no amanhecer de um novo dia que Makel chegou ao primeiro bosque, e parou a beira do primeiro lago e aos pés da primeira árvore. Seus galhos estavam secos, e apenas uma fruta era visível, perfeitamente redonda e ao alcance da mão.
- Ela está morrendo, apodrecendo por dentro, desde que Wotan arrancou um de seus galhos.
O Rei Orco se virou na direção da voz.
- Quem é você? - e ao ver a estranha criatura que parecia um lagarto sem pernas, sobre a rocha, continuou - O que é você?
- Quem eu sou - a voz sibilante lhe respondeu - Apenas um humilde servo de J-VA, e o guardião do primeiro bosque, agora que as Nornir partiram.
- Servo de J-VA? Então você sabe por que estou aqui?
- É claro que sei, último Rei dos Orcos. Você veio pela mesma razão de todos que vieram à árvore de todo o conhecimento, tanto do bem quanto do mal. Você veio em busca de respostas. E veio também para morrer, é claro.
O Rei ficou em silêncio, por alguns segundos, e então falou - Sim, eu também vim para morrer, se esta é a vontade de J-VA.
- Então pegue a faca de pedra, como lhe foi dito, Último Rei dos Orcos. Ela está a seus pés, onde foi deixada por Wotan, que veio antes de você, também em busca da verdade. Ele mostrou que estava disposto a pagar o preço. E você?
O Rei Orco olhou para baixo, e então se abaixou e pegou uma faca que jazia a seus pés, como a criatura havia lhe dito.
- Eu pagarei todos os preços que houver para pagar.
- Então, deixe-me ajudá-lo a cumprir seu destino. - E a criatura deslizou da pedra para o chão, e do chão para o pé de Makel, se enroscando e subindo pelo seu corpo, até sua boca quase encostar no ouvido direito do Rei.
- Arranque o olho que lhe resta sem medo, Orco, que eu serei seus olhos.
Sob as ordens da criatura, em um rápido movimento, Makel arrancou seu olho direito. Cego, a faca de pedra caindo novamente no chão, ele avançou dois passos e puxou o fruto da árvore, cada movimento seguindo a voz em seu ouvido.
- Um ser inferior pode, uma vez, beber o Néctar dos deuses, ou comer a fruta ambrosia, o alimento dos imortais, mas jamais fazer as duas coisas. Para alguém que já bebeu o Néctar, comer a Ambrosia é desafiar os deuses e cortejar a loucura - A voz da criatura, incessante em seu ouvido.
Makel comeu o fruto, cego, a dor onde era seu olho apenas aumentando. Ele não se atrevia a abrir o outro olho, o olho do dragão. O que restava de sua sanidade iria se esvair se ele visse o bosque com o olho do dragão.
E então, o Último Rei Orco de um passo, e depois outro, em direção ao lago, guiado pela voz em seu ouvido.
O encostar dos pés no lago foi um choque, uma sensação de queimar, como se estivesse caminhando no fogo. Mas ele continuou, um passo após o outro, até todo seu corpo parecer arder.
Por fim, com um novo passo para frente, ele não pode mais respirar, a água chegando à altura de sua boca. Mas Makel continuou, trancando a respiração apenas por um instante. A criatura em seu pescoço se desvincilhando e partindo para trás.  A água preenchendo seus pulmões, seu corpo todo ardendo como se em chamas.
E ainda assim, o Último Rei Orco ainda deu um passo, e um novo passo, enquanto seus pulmões se enchiam de água.
E ele então pensou, em silêncio, na única pergunta que ainda lhe importava:  “por que os humanos herdarão a terra?”
E morreu.
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- Junte-se a nós ou saia do caminho.
Seth permaneceu imóvel, a ponta da espada encostando no chão, as pernas ligeiramente abertas, os olhos fixos em seu irmão mais velho. Ao seu lado, seu irmão do meio, Ab, de braços cruzados, apoiava-o simplesmente por estar ali, ao seu lado. Atrás de Cãn, todos de sua tribo aguardavam.
- O Rei disse para esperarmos, Cãn. Ele disse para esperarmos o tempo que fosse necessário, que ele voltaria para nos liderar no ataque a Asikli Hoyuk. Sua palavra é a lei para todas as tribos, inclusive a tribo de El. Inclusive a tribo de In.
- Um Rei Louco? Um Rei que arrancou o próprio olho? Que matou sua própria mulher? A tribo de In não segue um Rei destes.
- Makel uniu todas as tribos, e todas juraram segui-lo enquanto vivesse. As tribos de In e El, mais que todas as outras, pois não foi destas tribos que ele desposou as mulheres e gerou a nós, seus filhos e filhas? Não foram as tribos de In e El que fizeram o juramento de sangue, o juramento de serem amaldiçoadas se um dia abandonassem seu Rei? Não trazemos todos a marca de Makel?
- Makel está morto
- Como ousa - Ab gritou e teria atacado ali mesmo seu irmão mais velho, a mão quase puxando a espada, mas a voz de Seth o deteve. - Pare!
Seth então olhou para o mais velho dos filhos do Rei Makel, sua espada ainda encostando a ponta no chão, os braços ainda aparentemente relaxados.
- Apenas nove dias se passaram desde que o Rei ordenou que esperássemos seu retorno. E nós esperaremos. Ele está vivo e ele retornará.
- Makel está morto - Cãn repetiu.
- Apenas nove dias e a tribo de In já enterrou vivo o seu Rei? Esta é toda a fé que vocês têm? - Seth olhou com desprezo para os seguidores de Cãn - A tribo de El esperará por todos os dedos da mão de cada um de seus guerreiros, e ainda assim acreditará em seu retorno. O inverno virá, trazendo neve e fome, e quando o verão retornar, ainda encontrará a tribo de El esperando seu Rei. E ele virá!
- Makel está morto - Cãn repetiu pela terceira vez.
- Como ousa dizer isto. Como ousa abandonar seu pai?
- Esta noite, Seth El, filho de Mak El, esta noite eu sonhei com nosso pai. Eu sonhei que ele arrancou seu olho, o olho que lhe restava. Sonhei que ele comeu ambrosia. E sonhei que ele mergulhou no primeiro lago. Eu sonhei e em meu sonho, Makel morreu.
- Um falso sonho.
- Quando acordei, um corvo estava aos pés de minha cama. E todos sabem que os corvos trazem os sonhos verdadeiros.
- Este trouxe um sonho falso.
- Ele não trouxe apenas um sonho - E Cãn puxou um objeto de dentro de suas roupas, e jogou aos pés de Seth.
Quando percebeu o que era, Seth se abaixou e segurou o objeto em sua mão. A espada, esquecida, caindo na relva. Era um olho, e Seth soube instintivamente que era o olho que restara a seu pai. E soube também que o Rei estava morto.
Um movimento, Seth então mais sentiu do que viu, e soube que era a espada de Cãn, descendo em sua direção. Soube também que não conseguiria se desviar a tempo da mesma.
Alguém se jogou sobre ele, derrubando-o e ficando no caminho da lâmina, e Seth ouviu o grito de Ab, um grito interrompido subitamente.
Quando Seth se levantou, um golpe o atingiu na cabeça, e a escuridão dominou seu mundo.
Abriu os olhos para um mar de dor e sangue, e sentiu que um tempo havia se passado. Orcos da tribo de El o acudiam. Ele os empurrou e se levantou, apenas para ver, quando se afastaram, o corpo de seu irmão, Ab El, o pescoço quase arrancado, o rosto em um sorriso desfigurado, caído sobre uma poça de sangue.
À distância, Cãn e sua tribo caminhavam em direção ao horizonte. Ainda tonto, Seth pegou sua espada no chão, pronto para persegui-los.
Foi quando a voz de um morto o deteve.
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A voz de J-VA, aquele que um dia foi o Último Rei dos Orcos, aproximou-se de seus filhos, do que vivia e do que estava morto.
- Deixe Cãn partir. Mais nenhum sangue de In ou de El será derramado esta noite.
Seth foi o primeiro a se ajoelhar ante o milagre a sua frente, seguido em instantes por todos os Orcos, enquanto olhavam, admirados, para seu Rei.
- Meu pai, como é possível? Seus olhos, sua mão? Cãn disse que o viu morrer em seu sonho. - A visão era assombrosa. O Rei parado, os Orcos ajoelhados a seu redor. Sua mão esquerda tão perfeita quanto a direita, seus olhos intactos.
- Cãn disse a verdade! Makel, Último Rei dos Orcos, está morto. Eu sou a voz de J-VA. Eu fiz a última viagem, a viagem da qual não há retorno, e retornei.
- Mas Cãn matou Ab, meu pai, e agora mesmo desaparece de nossa vista, à distância. Deixe-me trazê-lo para seu julgamento.
- Não. Ele deve partir. Ele e a tribo de In. Eu vi as visões que apenas os mortos vêem, eu soube verdades que não pertencem ao mundo dos vivos. Cãn e sua tribo devem partir, Seth, esta é a vontade de J-VA. Sete mortes J-VA trará para aquele que matar Cãn ou qualquer um de sua tribo, e nós não queremos esta maldição para nós.
- Então a morte trouxe de volta meu pai e levou meu irmão. Ab deu sua vida por mim, mas daria dez vezes por você, meu pai.
Aquele que foi o último Rei dos Orcos não respondeu. Ele se ajoelhou ao lado do corpo de seu filho morto, sua mão direita puxando um cantil amarrado em sua cintura, para em seguida derramar água cristalina no rosto ensangüentado.
- Esta é a água do primeiro lago. Ela lhe dá um novo nome, lhe dá uma nova vida.
- Você agora tem poder para levantar os mortos, meu pai? - Seth perguntou. Aquele que um dia foi Makel olhou para o corpo a seu lado, como se esperasse para saber como responderia a pergunta.
A voz de J-VA então se levantou - Se fosse para Ab viver novamente, ele se levantaria e nos seguiria. Ao que parece ele não nos acompanhará para Asikli Hoyuk.
-Asikli Hoyuk? Então a última batalha irá começar.
- Ouça-me, Seth. Ouçam-me todos, pois minhas palavras são as palavras de J-VA. Iremos a Asikli Hoyuk, exterminar os humanos de uma vez por todas. Nenhum homem deve sobreviver, e nenhuma mulher que possa trazer um homem em sua barriga. Então, matem agora todos os rapazes, e também todas as mulheres que já alguma vez se tenham deitado com um homem; as restantes deixem-nas em vida e podem levá-las convosco, pois elas não poderão gerar filhos homens. Estas foram as palavras de J-VA, que agora repito a meu povo.
E assim, a voz de J-VA, que um dia foi o Rei Orco, partiu, com seu exercito, para o último bastião do homem.
Só muito depois, quando já era noite novamente, Ab El despertou de sua morte, confuso, e partiu também, sem rumo e sem saber por que vivia.
Ele não voltaria a encontrar seu pai.
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O Rei Goldemar, senhor de Asikli Hoyuk e único dos Grandes Reis dos Primeiros Homens que ainda vivia, entrou apressado pelas portas do templo de JUS, aquele que os Orcos chamavam de Z-US. À sua espera, Hodekin, sacerdote e representante na terra do poderoso deus.
- É um prazer vê-lo no templo de JUS, meu Rei. É uma pena que suas visitas são tão raras. JUS já começa a duvidar de sua fé e questionar se seus atos de louvor são sinceros.
- Não temos tempo para pregações, sacerdote. Os Orcos cercaram a cidade e nos atacarão a qualquer momento. Nossas muralhas não os deterão para sempre.
- Ah, nobre Rei, então não foi a fé que o trouxe aqui, mas o medo. O temor é uma dádiva divina, mas se temes mais os Orcos que o grande JUS PATER, nosso pai, então todos temos razão para nos preocuparmos. Quando a fé de um Rei falha, todo seu povo corre perigo.
- Agora zombas de mim, sacerdote? Uma a uma, as cidades dos homens caíram. Acaso eles também não eram filhos de JUS? E o que acontecerá quando Asikli Hoyuk, a primeira cidade dos homens, cair? Quem irá louvar JUS, então? Ele virará um deus menor, caído aos pés do J-VA dos Orcos?
- Contenha suas palavras, Rei Goldemar! - A voz de Hodekin agora mais alta que a do Rei - Estás na casa do poderoso JUS PATER, cujo poder é infinitamente maior que o seu. JUS PATER cuja palavra é a verdade. Não blasfeme novamente nesta casa.
No silêncio que se seguiu, ambos, rei e sacerdote, se encararam. O Rei Goldemar foi o primeiro a abaixar os olhos. Respirou fundo e falou em voz mais contida.
- Perdoe-me se minhas palavras ofenderam a JUS PATER, mas elas não são menos sinceras por serem ofensivas. O que será de nosso deus, se a última cidade dos homens cair? Ele tem que nos salvar, nesta que é a hora mais desesperada de seu povo.
- Não pense que nada tenho feito. Eu orei a nosso deus por toda esta manhã, meu Rei. Três virgens dançaram aos sons da primeira canção, enquanto eu perguntava o que deveríamos fazer, e cada uma com uma voz me deu uma resposta.
- O que elas disseram? O que devemos fazer?
- O que elas disseram é destinado apenas ao ouvido dos mais santos entre os homens. O que você deve fazer, porém, meu Rei, eu posso lhe dizer. Traga seus dois filhos aqui, agora! Eles são a chave de nossa salvação. Eles, com sua fé e a palavra de JUS PATER, têm o poder de vencer o Rei dos Orcos.
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Tuna e Hina, os filhos do Rei Goldemar, entraram no templo de mãos dadas, duas crianças de nove anos, trazidas por Sharazin, uma criada. Seu pai as aguardava, incapaz de esconder a preocupação estampada em seu rosto. Ao seu lado, o sacerdote de JUS PATER, Hodekin, abriu um sorriso ao vê-los.
- Aproxime-se, Tuna, filho do Rei Goldemar e príncipe dos homens. Aproxime-se Hina, filha do Rei Goldemar e princesa dos homens - a voz de Hodekin, melodiosa, combinando com seu sorriso, como se estivesse feliz em vê-los.
As crianças se aproximaram em silêncio, e pararam a um passo de sacerdote, sempre de mãos dadas.
- Crianças, vocês sabem que os Orcos cercam Asikli Hoyuk, a primeira cidade dos homens?
Hina respondeu apenas com um aceno de sua cabeça, enquanto Tuna permaneceu imóvel.
- Digam-me, então, crianças. Eles conseguirão entrar pelos nossos portões? Conseguirão destruir o último templo de JUS e por fim a raça dos homens?
- Não. - Tuna respondeu de imediato, a voz firme, os olhos encarando fixamente o sacerdote. Hina nada falou.
- E como você tem tanta certeza, criança?
- Serão os homens a herdar a terra, sacerdote, não os Orcos. Foi a palavra de JUS PATER, e a palavra dele é a verdade. - uma vez mais, Tuna respondeu de imediato.
- Ah, a voz de uma criança carrega mais sabedoria que a voz de um rei. Não concorda?
- Ainda não me disse por que as crianças foram chamadas, Hodekin. Foi apenas para continuar a me provocar?
- Ah, não, meu Rei, eu não lhe disse que elas seriam nossa salvação? Elas serão a visão e a voz de JUS PATER na terra. Esta noite serão purificadas, e amanhã, com o poder do mais poderoso dos deuses, destruirão o Rei Orco para sempre.
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Quando as crianças saíram do Templo, toda uma tarde e toda uma noite haviam passado. Fora, ao lado da porta, um Rei rezava, ajoelhado. Ele deveria estar rezando por seu povo, deveria estar rezando pela vitória dos Homens e derrota dos Orcos.
Ele rezava por seus filhos.
O Rei se levantou, e olhou para as crianças, e depois para o sacerdote, Hodekin, que seguia atrás delas. Tuna trazia uma faixa envolvendo seus olhos, e segurava a mão de sua irmã, que o guiava. Hina tinha o olhar distante, perdido no horizonte. Nenhum dos dois pareceu perceber a presença de seu pai. Apenas o sacerdote olhou para o Rei, um leve sorriso em seu rosto.
- O que você fez com eles, Hodekin?
- Eu, meu Rei? Eu sou apenas um instrumento do poderoso JUS. E agora, também elas o são.
- Tuna, Hina, vocês estão bem. - Nenhuma das crianças lhe respondeu, e elas seguiram em frente, caminhando lentamente, em direção a muralha norte.
- Não as distraia, meu Rei. Elas são agora os olhos e a voz de JUS PATER. Deixe-as ir, enfrentar o Rei dos Orcos.
- E quando o enfrentarem, o que será delas, depois?
- Isto não cabe a mim dizer, meu Rei.
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Era como se ela estivesse sonhando, e nada fosse real. Como se não estivesse caminhando na verdadeira Asikli Hoyuk em que viveu toda sua vida, mas em uma outra, uma cópia distorcida.
Seu pai estava ali, e tudo que ela queria era correr e abraçá-lo, que tudo ficaria bem, mas parecia que seus passos, seus próprios pensamentos, eram guiados por uma outra vontade, e ela se afastou sem olhar para ele.
Em algum lugar muito pequeno, dentro de sua mente, Hina tentava despertar, mas não conseguia.
Seu irmão, cego, seguia a seu lado, segurando firme sua mão, e descrevia o que percebia ao redor,  tanto no presente quanto no futuro. A voz, lenta e monótona, parecia vir de um ser sem vida, sem alma.
- Ao abrir os portões, Orcos virão correndo, armados de machados e espadas. Antes mesmo deles chegarem, flechas já estarão caindo sobre nós. - Ele falou, quando pararam na frente dos portões da cidade.
- Nenhuma flecha nos atingirá - Hina falou, a voz firme e grave não era sua - Nenhum orco ultrapassará o portão.
Os portões se abriram, e eles caminharam para fora das muralhas da cidade.
- Seth, filho de Makel, virá em nossa direção e nos atacará com sua espada. Ele acertará você primeiro, depois a mim.
- Seth largará sua espada, sem nos fazer mal, e nos levará até seu pai, o Rei Makel.
Mais frases Tuna falou com uma voz que não era sua, e para cada uma, Hina respondeu com um comando, quase sem perceber, sem lembrar. Quando deu por si, estava na frente do Rei dos Orcos.
- Iremos parar na frente de... - pela primeira vez, a voz de Tuna faltou, e quando ele recomeçou a falar, sua voz já não era convicta - haverá um... alguém... que falará algo...
- Rei Makel, dos Orcos, ajoelhe-se ante os filhos de JUS PATER - Hina ouviu estas palavras sairem de seus lábios.
E então uma pergunta lhe foi feita, e ela respondeu. E algo aconteceu. Algo muito errado.
E Hina despertou de seu quase sono divino.
E começou a gritar.
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Os soldados comemoravam. A tensão havia atingido o máximo quando os portões da cidade foram abertos, e muitos estavam preparados para o pior, mas nem um único Orco ousou pisar dentro de Asikli Hoyuk.
Do alto das muralhas eles assistiram a lenta caminhada das duas crianças, cercadas pelos guerreiros inimigos, mas indiferentes a eles. Flechas caiam a poucos passos de seus pés, Orcos deixavam as armas no chão antes de se aproximar delas, e, por fim, formaram apenas uma escolta que acompanhou as crianças até elas sumirem da vista, em uma pequena floresta além da cidade.
Em meio às comemorações, um homem se mantinha calado, o rosto fechado. Sua cidade talvez fosse salva, o poder de JUS PATER talvez se mostrasse maior que o dos Orcos e de seu deus J-VA, mas eram os seus filhos que estavam lá, os filhos que sua mulher morreu para dar a luz. E, naquele momento, eles eram mais importantes que qualquer deus e qualquer cidade.
- Meu senhor - um homem se aproximou, e sussurrou no ouvido do Rei Goldemar - eu preciso lhe falar em particular.
O Rei virou seu rosto e viu que era Abadi, um dos soldados de sua guarda. - Eu não posso sair daqui, agora. Eu vou esperar, na muralha, até meus filhos voltarem.
- Eu tenho que insistir meu Rei.
- O que quer que seja, com certeza pode esperar, a menos que me diga que os Orcos estão invadindo a cidade. E, pelo que vi, todos eles seguiram meus filhos.
- É minha irmã, meu senhor - a voz sempre em um sussurro, e o Rei reparou então que Abadi usava um capuz sobre o rosto, como se não quisesse que vissem que ele estava ali - ela o espera, escondida, em seus aposentos, para onde a levei. Ela precisa lhe falar uma coisa.
- Abadi, meus filhos receberam uma missão diretamente de JUS PATER, e não sei se eles retornarão dela. Nada é mais importante para mim que isto.
- É por isto que ela deseja lhe falar, meu senhor. Minha irmã é uma das virgens do templo de Hodekin. Uma das virgens que recebeu a mensagem de JUS PATER.
- Então, ela é uma das que revelou a Hodekin que meus filhos se tornariam armas de nosso deus - a voz do Rei, até então contida, finalmente deixando escapar um pouco de sua dor e revolta.
- Não, meu senhor. Ela precisa lhe falar porque ela é uma das que sabem que Hodekin mentiu.
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Nos aposentos do Rei uma jovem aguardava, o nervosismo visível na forma como roía, distraidamente, as unhas dos quatro dedos de sua mão. Ela olhava a única porta do quarto, temendo que a qualquer momento Hodekin entrasse por ela, enquanto se perguntava se passaria a eternidade no inferno dos delatores.
Quem entrou pela porta, porém, seguido pelo Rei Goldemar, foi seu irmão, e ela correu para abraçá-lo.
- Eu contei ao Rei, minha irmã. Ele quer ouvir diretamente de seus lábios.
- Abadi me disse que você acusa o sacerdote do JUS, Hodekin. Diga-me o que tem para dizer, mulher.
- Sim, meu senhor - ela respondeu, o rosto abaixado, a coragem lhe faltando para encarar o Rei. A língua passou pelos lábios, que tremiam, e ela respirou fundo, e então começou a contar sua história.
- Eu sou Jasmiri, uma das virgens do templo de JUS PATER. Fui uma das escolhidas por Hodekin para transmitir as palavras da daemon AISA, que é uma e é três. Aos sons da primeira canção, a daemon se apoderou de minha consciência e falou com minha voz.
- E o que ela disse com sua voz, Jasmiri?
- Eu não me recordo de quais foram as palavras dela quando estava em meu corpo, meu senhor.
O Rei falou em voz mais alta, e Jasmiri começou a tremer - então por que estou perdendo meu tempo aqui, enquanto minhas crianças estão entre os Orcos?
Ela se apressou em explicar - eu fui a última a ser possuída pela daemon, meu senhor. Eu não sei o que falei, mas eu ouvi as mensagens de minhas duas irmãs de templo, sobre derramar Nectar nos olhos para enxergar com a visão de JUS, sobre beber o Nectar e ser a voz do deus.
- Eu vi o resultado. Meu filho cego, minha filha falando com a voz de JUS. Mas seu irmão disse que Hodekin mentiu sobre isto.
- Não meu senhor, não foi sobre isto que Hodekin mentiu - ela tremia enquanto falava, temendo como o Rei reagiria, se culparia a ela - Elas falaram sobre a visão e a voz de JUS.
- Então, sobre o que Hodekin mentiu, mulher.
- Elas não mencionaram as crianças. Quem deveria enfrentar os Orcos era... - e neste instante ela hesitou uma vez mais, e então reuniu coragem para concluir:
- Hodekin.
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Elas vieram de Asikli Hoyuk, a primeira e última cidade dos primeiros homens. Duas crianças com os poderes de Z-US, o deus pai. Dois cordeiros caminhando em direção ao abate.
Elas vieram pela estrada que liga a cidade murada a pequena floresta, caminhando de mãos dadas. A visão de Z-US avisando-as de cada perigo. A voz de Z-US garantindo sua segurança.
Elas vieram por entre os Orcos, que, indefesos perante seus poderes, foram incapazes de deter seu avanço. Mesmo Seth, que partiu de espada em punho, decido a calar a voz de Z-US com sua lâmina, viu-se escoltando-as até seu pai.
Elas vieram até a Voz de J-VA, aquele que um dia foi Makel, Último Rei dos Orcos, e pararam a seus pés.
A criança que era a visão de Z-US tentou enxergar o Rei dos Orcos, com seus olhos divinos, mas o Rei dos Orcos não existia mais.
A criança que era a voz de Z-US tentou ordenar o Rei dos Orcos, com sua voz divina, mas Makel estava morto, e não havia ninguém para ela comandar.
E então a Voz de J-VA falou.
- Deus disse que nenhum homem será poupado. E nenhuma mulher que tenha se deitado com um homem. Pequena criança, você já é mulher? Já se deitou com algum homem?
- Nós somos a inocência. Nós somos a pura voz de JUPTER - a criança menina falou, com uma voz que não era de criança.
- Nós somos a inocência. Nós somos a pura visão de JUPTER - a criança menino falou, com uma voz que não parecia humana. Mas era apenas à menina que a Voz de J-VA havia se dirigido.
A Voz de J-VA ergueu seu machado, e então o desceu, com força, a lâmina caindo em direção à cabeça da criança menino, enquanto falava.
- Eu não estava perguntando para você.
E então a criança menina arregalou os olhos, como se estivesse vendo tudo ao seu redor pela primeira vez, olhou para seu irmão, a mão arrancada da sua pela força do golpe.
E a criança menina começou a gritar.
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No centro do mundo, N-BIS caminhava com cuidado, atento a seus passos em um reino que não era seu. A ordem, Maat, estava agonizando, e quando ela ressurgisse, deuses subiriam e deuses cairiam. Por isto, N-BIS arriscava seus passos no reino de V-NU.
A câmara principal, no centro do centro do mundo, era redonda e vazia, exceto por estatuas de outras eras, estatuas de deuses caídos, cujos nomes apenas V-NU ainda recordava. Talvez nem ele.
V-NU, o deus de quatro braços, o único deus mais antigo que o tempo, estava ajoelhado, no canto oposto da câmara, segurando em uma de suas mãos uma taça de Soma, a bebida dos deuses do centro do mundo. Com um gesto, ele ofereceu sua taça para N-BIS, que recusou. Beber Soma seria tão perigoso quanto beber Nectar, agora mais do que nunca.
- N-BIS, dos deuses menores, aqui, na terra dos deuses do centro? Veio suplicar por um lugar entre nós, deus chacal?
N-BIS parou, de pé, a frente de V-NU, que permaneceu sentado.
- Minhas palavras o ofendem, N-BIS? Por isto está em silêncio? És um deus menor e és um deus chacal. Preferia que o chamasse como outros o chamam? O deus que late?
- E como o chamarão, V-NU, quando o poder de J-VA se tornar supremo, e você se tornar um deus menor?
- Eu já vi outras eras, N-BIS, já vi outros deuses surgirem e outros mundos serem criados, e a história sempre reinicia seu ciclo. SHIV virá, e depois BRAH, mas eu sempre estarei aqui, no centro. Outros deuses vêm e vão, mas V-NU permanece.
- Não se J-VA adquirir o poder que sonha. Se ele tiver sucesso, o próprio ciclo de nascimento e destruição terá fim, e ele reinará supremo. É isto que você quer, V-NU?
- Agora és o deus dos ratos, Chacal? Está procurando fugir, com medo de J-VA? Agora mesmo a voz de Z-US está colocando de joelhos o poderoso Rei dos Orcos, e pondo fim aos sonhos de grandeza de J-VA. Tudo segue como sempre seguiu, e em breve o ciclo avançará, e o mundo retornará ao seu centro.
- É mesmo, poderoso? - a voz de N-BIS agora sem esconder seu escárnio, sua indignação - você não é onisciente? Não deveria saber o que aconteceu com os campeões de Z-US?
V-NU ficou em silêncio por alguns segundos, o olhar perdido no vazio, os quatro braços que se moviam incessantemente parando por alguns instantes. E, por fim, ele falou, a surpresa em sua voz.
- Aquele que era os olhos de Z-US está morto. Aquela que era sua voz se tornará instrumento da destruição de Asikli Hoyuk. Isto não é como deveria ser.
- Despertei seu interesse, então, grande V-NU?
- Como você soube destas coisas? Estes fatos aconteceram pouco antes de entrar em meu reino, e não me consta que tenhas onisciência, deus menor.
- Há aqueles que eram meus antes de serem de J-VA. Aqueles que voltarão a ser. Posso ser um deus menor, mas também eu tenho meus seguidores.
- Nada disto importa. O ciclo não será quebrado. Z-US disse que os homens herdarão a terra. E assim será.
- É? Há outros que dizem coisas diferentes.
- O que importa o que dizem? Neste ciclo, a palavra de Z-US é suprema.
- Mesmo? Então, diga-me, V-NU, você lembra a árvore que plantou no início deste mundo?
- O que tem ela? Ela nasceu com esta era, não faz muito, e viverá até o seu final, em milhares de anos.
- Mesmo? Então, onisciente supremo, diga-me: por que ela está morrendo?
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Não era certo, não era errado. Não era nobre nem justo. Não era uma das histórias que passariam de geração para geração. Não era algo que lhe dava prazer, como vencer um inimigo honrado, ou tomar para si uma mulher cativa.
Mas era necessário. Era a vontade de deus.
A trombeta tocou, pela quinta vez, e, ao redor das muralhas, seis outras a acompanharam.
E a Voz de J-VA, que um dia arrancou seu olho esquerdo para ver com a visão do dragão, e mais tarde arrancou o direito, antes de renascer, lembrou o dia que, com sua faca, tomou a vida de sua mulher, Lith. Ele disse para si mesmo que nada do que já fez foi pior, mas com isto não se sentiu melhor.
Seu primeiro presente para Goldemar, o Rei dos Primeiros Homens, já havia sido entregue, deixado à frente dos portões da cidade humana. O segundo presente era o som das trombetas, que fariam os muros da cidade ruir.
O terceiro seria sua espada, dando uma morte digna ao Rei, e encerrando seu sofrimento.
Com este pensamento, com a certeza que em breve toda dor teria fim, a Voz de J-VA segurou o pescoço de sua trombeta, enquanto se preparava para tocá-la uma vez mais.
Não era certo. Não era justo.
Mas era necessário.
E a Voz de J-VA aproximou a pequena mão humana, os quatro dedos já enegrecidos, uma vez mais da chama.
E sua trombeta gritou pela sexta vez.
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- Hodekin!!
A voz do Rei Goldemar trazia uma fúria nunca vista antes, enquanto ele entrava, veloz, pelas portas abertas do templo de JUS PATER. As serviçais do templo estavam encolhidas, encostadas nas paredes, receosas de sua fúria.
- Onde está ele? Onde está Hodekin?
Uma das mulheres, apavorada, por fim, se aproximou do Rei e falou.
- Ela está na sala da iniciação, meu senhor. Ele nos disse que viria, e pediu para eu o levasse lá - após um aceno do Rei, consentindo, ela se virou para guiá-lo.
A mulher deu apenas dois passos, porém, e se virou para falar novamente, ao ver que três soldados acompanhavam o Rei - meu senhor, eu lamento, a sala da iniciação só pode ser visitada pelos servos mais próximos de JUS PATER. O sacerdote nos disse que uma exceção especial foi pedida ao próprio JUS PATER para o Rei, mas seus soldados não podem acompanhá-lo.
- Chame-o aqui, então!
A mulher hesitou, e então falou novamente - O sacerdote disse que não poderia sair da sala da iniciação por motivo algum, meu senhor. Ele me disse que o Rei pediria por sua presença, mas que deveríamos informá-lo que JUS PATER exigiu que ele não saísse até os Orcos partirem - ante a fúria que brilhou nos olhos do Rei, a mulher abaixou os olhos, e desculpou-se em um quase murmúrio - perdoe-me, meu senhor, só repito as palavras de nosso sacerdote.
O Rei então se virou para os soldados que o acompanhavam, Abadi, cuja irmã revelou a traição de Hodekin, e dois outros - Fiquem aqui. Se eu não voltar com o sacerdote em alguns minutos, venham, não importa o que lhes disserem.
E o Rei seguiu a mulher, que o levou por salas e corredores do templo, até uma porta aberta, com uma escadaria descendo em direção a escuridão. Tochas acesas estavam em cada lado da porta.
- Eu não tenho permissão de acompanhá-lo, meu senhor. O sacerdote está a sua espera.
Sem prestar mais atenção à mulher, o Rei Goldemar pegou uma das tochas e então desembainhou sua espada. A mulher se afastou dois, três passos, e por fim correu para longe, na direção oposta.
O Rei desceu as escadarias, e caminhou por um corredor que se alargava até se transformar em um amplo salão subterrâneo, sua tocha a única iluminação. No centro do salão, um grande tapete marrom e preto, e, alguns passos atrás do mesmo, Hodekin, de pé. Em suas mãos, um arco com uma flecha apontando para o coração do Rei.
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- Você está me ameaçando, Hodekin? Está apontando uma flecha para o coração de seu Rei? - O salão era iluminado apenas pela tocha nas mãos de Goldemar. Além dele, apenas Hodekin estava ali, parado, o arco e uma flecha em suas mãos. Um tapete, no chão, a única decoração do salão.
Hodekin nada disse enquanto o Rei se aproximava, até este estar no centro do tapete, talvez dez passos distante do sacerdote.
- Nem mais um passo, meu Rei. Podemos conversar desta distância. Aproxime-se mais e terei que soltar minha flecha - a voz de Hodekin quase esganiçada, revelando seu nervosismo.
- E por que está apontando uma flecha para seu Rei, sacerdote?
- Responda-me por que está aqui, meu Rei, por que veio me procurar, que eu lhe direi por que o espero com uma flecha apontada para seu coração.
- Eu estou aqui por que Jasmiri, virgem de seu templo, revelou a verdade sobre o que as outras duas lhe disseram, sacerdote - a voz do Rei com raiva contida, a mão direita segurando com ainda mais força sua espada
- E eu estou apontando a flecha para seu coração por que o que Jasmiri, a última das virgens, disse, quando falou com a voz de JUS PATER, é que virias para me matar, meu Rei.
- E o que vai acontecer, então, sacerdote? Vai disparar sua flecha? Não preciso de mais luz que a de minha tocha para saber que sua mão esta tremendo. Dispare sua flecha, e juro que arranco sua cabeça.
- Sou o sacerdote de JUS PATER. Tudo que fiz, foi pelas ordens de nosso deus.
- Mentira.
- JUS PATER ordenou que sua visão e sua voz fossem usadas para enfrentar o Rei dos Orcos. As duas virgens assim ordenaram.
- Mas não com meus filhos. Isto foi sua covardia que ordenou. Você deveria estar lá fora. Você que deveria morrer no lugar deles!
- Morrer? Ninguém vai morrer! Eles foram enviados para vencer o Rei Orco, e em breve voltarão. O menino estará cego, mas esta é uma dádiva de JUS PATER, e eu garanto que ele terá um lugar de honra no templo, será um herói e cuidaremos dele por toda sua vida.
E o Rei começou a rir. Um riso histérico que se transformou em choro. E então ele falou - Ele já voltou. Os Orcos deixaram sua cabeça aos pés do portão da cidade - e começou a avançar, a espada apontado para Hodekin, certo de que uma simples flecha não o deteria.
E então o chão desapareceu sob seus pés.
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A dor não tinha fim. Sua garganta estava rouca de gritar.
Ela ainda tinha o poder divino, mas sua voz era inútil contra o Rei dos Orcos, e ela se viu reduzida a implorar entre lágrimas, a cada vez que a dor diminuía e ela conseguia falar. Ela pediu perdão, ela jurou obediência, ela renegou JUS PATER - como se ele fosse seu deus, e ela não o tivesse renegado há muito tempo - mas o Orco ignorava cada palavra, e apenas colocava sua mão no fogo uma vez mais, sem nada dizer.
Ela havia tentado tornar-se insensível, voltar ao sono divino de quando havia recebido a voz do deus. Mas sempre que estava próxima de conseguir, sempre que sentia sua existência diminuir até quase desaparecer, o Orco pegava sua mão uma vez mais, e a dor a despertava e a fazia gritar.
Então, ela sentiu uma presença, a presença do único deus a quem ela um dia rezou com devoção. E então uma visão, que por um momento a afastou da dor. Uma visão do seu passado.
"Por que minha mãe morreu, Sharazin?" Era o sexto aniversário de seu nascimento, três anos no passado. O sexto aniversário da morte de sua mãe.
"Sua mãe visitou o templo de JUS PATER, e pediu ao deus por um filho, para continuar a dinastia de seu pai. Mas as dádivas dos deuses sempre têm um preço".
"Então foi JUS PATER que matou minha mãe". Não era uma pergunta.
"JUS PATER é seu deus. Ele criou os homens, e é a ele que deves obediência, criança".
"Mas ele não é seu deus. Eu sei que não é, eu já a vi rezando, a noite, quando achava que nós dormíamos. E não era a JUS PATER que rezava, Sharazin".
"Não, não era a JUS PATER".
"Ensine-me a rezar para seu deus, Sharazin. Ensine-me, porque o deus que matou minha mãe não vai ser meu deus".
O fogo a queimou novamente, sua mão novamente nas chamas. A quinta, sexta vez? Ela gritou um grito sem fim, e quando a chama finalmente se afastou, começou a chorar e soluçar.
- Agora diga - a voz do Orco em seu ouvido - use a voz de Z-US e diga para as muralhas de Asikli Hoyuk cairem.
E ela obedeceu.
Então a mão do Orco se enfiou em sua boca e segurou sua lingua, puxando para fora.
- E assim, foi dita sua última palavra com a voz de Z-US.
E o Orco cortou sua lingua.
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A Voz de J-VA hesitou por apenas um instante, antes de entrar no templo de Z-US. Ele já havia procurado pelo Rei Goldemar no palácio real e em toda a cidade, ao perceber que o Rei não havia se juntado a luta. "Luta", pensou, "não pode ser chamado de luta, não depois que as muralhas ruíram, soterrando a maior parte da guarda humana".
- Você acha que o rei dos humanos está aqui, meu senhor? - Seth, a espada ensangüentada firme em sua mão, havia acompanhado e protegido seu pai durante todo a tarde.
- Talvez. Siga-me com seus Orcos, Seth, e, lembre-se, somente as virgens podem ser poupadas, conforme a vontade de deus. Mas Goldemar, Rei dos homens, é meu, ninguém mais tem o direito de lutar com ele.
Seth assentiu com a cabeça, e entraram, pai e filho, no templo de Z-US, os soldados seguindo-os a poucos passos de distância. A partir da câmara de entrada, deserta, os Orcos começaram a se espalhar pelo templo, procurando qualquer sinal de resistência, enquanto Seth e seu pai aguardavam.
A Voz de J-VA não conseguia esconder sua irritação. Ele se sentia sujo, impuro, desde que lidou com a criança. Combates eram limpos, um duelo entre dois soldados, de preferência de habilidades equivalentes, em que a vontade divina e a força definiam quem venceria, quem morreria. Mas torturar e mutilar uma criança era algo que estava incomodando-o, mesmo sabendo que seguia a vontade de J-VA, mesmo sabendo que a maioria de seus soldados chamaria aquilo de diversão. A luta pela cidade, muito mais um extermínio de velhos e crianças que um combate de verdade, em nada ajudou a melhorar seu humor.
- Meu Rei, Lorde Seth, encontramos o sacerdote do templo - Um orco chegou até eles, arrastando um diminuto humano, e largou-o aos pés da Voz de J-VA.
- Como é seu nome, sacerdote?
- Hodekin, sacerdote e representante de JUS PATER na terra. Todo mal que me fizeres, será como se fizesse a JUS PATER, que vocês chamam de Z-US - as palavras soariam mais convincentes se o humano não estive quase histérico, os olhos dourados cheios de lágrimas, a voz esganiçada e trêmula.
- Um representante de Z-US teve a cabeça arrancada por este machado. A outra teve a língua cortada pela minha faca. A menina era mais brava que você, sacerdote, e Z-US não fez nada para salvá-la. - e, pegando o humano pelo pescoço, ergueu-o até a altura de seu rosto, os olhos escuros do Orco fixos nos olhos dourados do sacerdote, e continuou, a voz grave falando quase num murmúrio - onde está seu rei? Onde está Goldemar? Acaso ele está com tanto medo que veio se esconder em seu templo.
O sacerdote pareceu surpreso com a pergunta, e sem saber responder. Por fim, quando a Voz de J-VA aproximou a ponta de seu machado do olho direito de Hodekin, ele prometeu levá-los até o rei.
No subsolo do templo, para onde o sacerdote os levou, por pouco a Voz de J-VA não partiu a cabeça do humano ali mesmo, quando ele apontou para um imenso e fundo fosso no subsolo, uma armadilha com estacas de quase dois metros, escondida por um tapete e acionada por uma alavanca.
No fundo do fosso, três lanças trespassando seu corpo, jazia Goldemar, último dos grandes reis dos primeiros homens.
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A serpente os viu chegar. O deus chacal, e o deus de muitos braços. O chacal esteve antes ali, no primeiro bosque, e a serpente o observou, escondida na relva, insignificante demais para que ele se importasse com ela. Ela achou que ele não voltaria, nem que traria companhia. O deus sem nome teria que ser avisado. Mas, primeiro, ela ficaria imóvel, ouvindo o que eles teriam a dizer.
- Você disse a verdade, N-BIS. A primeira árvore está morrendo, e com ela o primeiro bosque. Mesmo o lago estará seco, em alguns dias. Não é como deveria ser.
- Parece que muitas coisas não são como você imaginava que deveriam ser, não é, grande V-NU?
Se V-NU percebeu o sarcasmo de N-BIS, ele não demonstrou, e respondeu com honestidade - Sim, de fato. Muitas coisas não são como deveriam ser, o que parece indicar que estão conectadas. Esta é a primeira era em que a árvore morrerá antes do tempo.
- E o que isto significa, V-NU, ó mais antigo dos deuses.
- O que significa? - V-NU ficou em silêncio alguns instantes, parecendo pensar, e quando respondeu, pareceu falar mais para si mesmo - difícil dizer. A primeira árvore é sempre plantada por mim, em um bosque criado por algum dos primeiros deuses da era, às vezes uma encarnação de BRAH, às vezes algum deus da fertilidade. Uma encarnação de SHIV, ou um deus da morte, traz o fim do bosque, após todo o universo colapsar, e só neste instante a árvore morre.
- Mas agora ela já está morrendo. Isto significa que esta era vai terminar mais cedo, ou que estamos rompendo o ciclo eterno de renascimentos?
- Eterno? - e V-NU riu - nada é eterno. Nem mesmo a eternidade.
- Mas o que irá acontecer, V-NU? Não queres me dizer?
- Oh, talvez eu quisesse lhe dizer, deus chacal, ou talvez não. Mas a resposta é mais simples. Eu não sei.
- Não sabe? E sua onisciência?
- Onisciência? Há tanto que você precisa aprender, N-BIS... Onisciência, como eternidade, é apenas uma palavra. Onisciência é apenas uma forma de dizer que eu sei mais que você.
- É, deus do centro? Pois parece que você nem sequer sabe mais que eu.
- Mesmo? Eu sei que você deixou de perceber algo quando esteve aqui antes, deus chacal - e V-NU se abaixou, rápido, e ao se levantar, trazia a serpente em uma de suas mãos.
- Uma serpente?
- Um guardião. E com proteções para esconder sua natureza - Diga-me, serpente, a quem você serve?
- Eu não sirvo a ninguém que tenha um nome, deus de muitos braços - a serpente se viu obrigada a falar, contra sua vontade, ao olhar nos olhos do deus.
- Ela está mentindo?
- Não N-BIS. Não tinhas percebido ainda? Não é fácil mentir na presença de V-NU. Diga-me, serpente, por que a árvore está morrendo?
- Ela está morrendo por que um de seus galhos foi arrancado. Ao ser arrancado, a árvore começou a apodrecer.
- E quem o arrancou?
- O nome que ele usava era Wotan.
- E ele ainda usa este nome?
- Não
- E por que nome ele é chamado agora?
- Ele não é chamado por nenhum nome mais.
- Isto não é verdade.
A serpente silvou, e então encarou com fúria os olhos do deus - É a minha verdade. É a única verdade que vai ter de mim, deus antigo.
Então, V-NU apertou sua mão, e a serpente começou a queimar. Ele deixou as cinzas caírem no chão.
- Vamos, deus chacal. Não há mais nada para fazer aqui.
- Você matou a serpente. Será que isto foi inteligente? Ela era nossa única pista para este ser, este Wotan de quem nunca ouvi o nome.
- Nós não precisamos de pistas. Lembra-se que você disse que eu era onisciente?
- E você disse que não existia onisciência.
- Não. Eu disse apenas que onisciência era saber mais do que os outros sabem. E eu sei mais que você, N-BIS. Eu sei quem é Wotan.
V-NU concluiu a frase enquanto ambos partiam para longe do primeiro bosque:
- É J-VA.
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Ele achou que havia tirado sua voz quando cortou sua língua, mas ela já não tinha voz, ela já a havia perdido quando bebeu Nectar, assim como seu irmão perdeu sua visão quando Nectar foi derramado em seus olhos. A voz que o Não Rei dos Orcos achou que era sua era a voz de JUS PATER, e JUS PATER não era seu deus, nem nunca foi.
Ela não tinha voz, ela só tinha o silêncio como arma.
Os Orcos a haviam esquecido, quando as muralhas caíram. Ela era apenas uma criança, e eles tinham jovens e mulheres para escravizar e abusar, que lhes trariam muito mais diversão.
Assim, ninguém pareceu se lembrar dela, e, após ficar deitada, imóvel, bem onde o Não Rei dos Orcos a largou, ela se levantou ao ver que não havia ninguém por perto, todos tendo corrido em direção a cidade indefesa, e caminhou até a pequena floresta. Não foi difícil encontrar um buraco no meio da raiz de uma grande árvore, e se esconder até a noite chegar. Nem teria sido necessário, nenhum Orco procurou por ela.
Ela deveria estar chorando pelo seu irmão, pelo seu pai que ela tinha certeza que a esta altura estaria morto, pelo que fizeram com sua mão, sua língua. Mas era como se um grande frio a envolvesse, e uma presença divina a protegesse, e nada - nem dor, nem raiva - a tocava neste instante.
Ela apenas aguardava a noite chegar. Havia algo para ser feito.
O sol por fim se pôs, e a escuridão se espalhou pela terra. E ela voltou para as ruínas de Assikli Hoyuk, e começou a procurar. Não por sobreviventes, não por seu pai, nem mesmo por Sharazin, que talvez ainda estivesse viva. Ela procurou por algum Orco sozinho, que estivesse suficientemente bêbado e isolado dos demais.
Ela teria preferido o próprio Não Rei dos Orcos. Ela não tinha mais medo dele, ela estava além do medo. Mas, o que quer que ele fosse – Não mais o Rei dos Orcos, Não mais Makel - ela sabia que não teria chance de lhe fazer mal esta noite.
Não foi difícil caminhar pela cidade, pois não havia ninguém vigiando. As casas haviam sido saqueadas, destruídas, algumas mulheres foram levadas para dentro do castelo. Os demais, homens, mulheres, crianças, estavam mortos. Seus corpos estavam em todo lugar. Os Orcos estavam espalhados também, bêbados e dormindo, em sua maioria.
Também não foi difícil encontrar uma faca afiada o suficiente para o que ela iria fazer.
O Orco que ela encontrou estava sozinho, dormindo com uma espada ainda na mão. Uma visão deformada de um verdadeiro homem, grande demais, cinco dedos nas mãos, pele clara, dentes brancos na boca aberta. Ele roncava.
Ela só tinha a mão direita para segurar a faca, a esquerda uma visão que ela não queria olhar, pele enegrecida, destruída pelo fogo. Mas só uma mão seria suficiente. Com firmeza, em um golpe rápido, ela fez um profundo corte em seu pescoço. Por sorte, ele não conseguiu gritar antes de morrer. De outro modo ela teria que fugir e tentar novamente.
Ela então cravou sua faca no peito do morto, e pôs-se a cortar, até tirar seu coração para fora.
JUS PATER exigia que cantassem em altas vozes em louvor a ele, assim como V-NU, e mesmo o J-VA dos Orcos. Mas ela não precisava de uma língua para orar para seu deus. Ele sempre preferiu suas preces em silêncio, pois silêncio era seu reino, e dos que o seguiam.
Assim, ela não precisou falar quando ofereceu o coração do inimigo vencido. Ela só precisou pensar no nome, o nome verdadeiro de seu deus, o deus chacal que chamavam de N-BIS.
Enquanto oferecia o coração, ela só precisou pensar em seu nome secreto: "Anubis".
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"Húbris". Arrogância cega.
N-BIS sempre entendeu como uma qualidade apenas dos mortais. Elfos, humanos, orcos e outras criaturas inferiores, que, em sua arrogância, se julgassem capazes de desafiar a vontade dos deuses. Este mal também não poderia afligir a seres supremos?
- Você ousou me convocar, V-NU, a mim, o mais poderoso de todos os deuses? E para quê? Para tentar me assustar com estórias ridículas? Só porque os Orcos exterminaram seus elfos, agora está com medo de J-VA?
- Eles também exterminaram seus humanos, Z-US. Quando os Orcos se multiplicarem e se espalharem pela terra, J-VA se tornará mais poderoso que você.
E o poderoso Z-US riu de escárnio, ante as palavras de V-NU.
- A minha palavra é suprema, V-NU, este é o meu dom, e é ele que me torna superior a todos os deuses, não importa para quem os mortais façam suas oferendas. Eu disse que os homens herdarão a terra, e assim será.
- E, no entanto, o poder de J-VA cresce a cada dia, e o seu diminui.
- Pois eu lhe digo, V-NU, para você e para o chacal que resolveu se tornar seu servo. J-VA não reinará supremo. O nome de J-VA se perderá no tempo, e não sobrará um único Orco na terra para rezar seu nome.
As palavras eram carregadas de poder. Z-US havia usado seu dom ao proferi-las.
- Está feito. Se J-VA um dia foi uma ameaça, agora ele está condenado a destruição - E, com um gesto, Z-US desapareceu.
Só após a partida do deus supremo, N-BIS falou - Ele nem nos escutou, tão certo que está que nada o ameaça. Seu poder vai mesmo destruir J-VA?
- Sua palavra é a verdade. Os homens herdarão a terra. O nome de J-VA se perderá no tempo. O que Z-US disse é o que acontecerá.
- No entanto... - N-BIS falou, para provocar V-NU a concluir seu pensamento.
- No entanto, ele ainda é apenas um tolo que não compreende seu próprio dom. E, especialmente, não entende seus limites.
- E o que fazemos agora, V-NU.
- Fazemos, N-BIS? Não estamos juntos. Não entrelaçamos nossos destinos, não somos amigos, não somos servo e senhor. O que havia para fazermos juntos já fizemos.
- Então não iremos enfrentar J-VA?
- Eu vi incontáveis deuses surgirem, e incontáveis deuses caírem. Não vi tantas eras por enfrentar cada deus que julga ser o deus supremo. No final, que me importa se é J-VA ou Z-US a reinar.
E ante o silêncio de N-BIS, V-NU olhou para ele e concluiu.
- Parta agora, deus chacal, e prepare-se, que, quando Z-US cair, ele não cairá sozinho.
E, sabendo que a hospitalidade do deus do centro estava por terminar, N-BIS partiu.
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Eles estavam à beira do primeiro lago. Não apenas os guerreiros orcos, mas suas mulheres, suas crianças. E seus prisioneiros.
Foram doze dias de caminhadas em um ritmo incessante, marchando até depois do sol se pôr, e levantando antes dele nascer, sempre apressados pelo rei dos orcos.
Os Orcos feridos eram levados em esteiras ou, se pudessem caminhar, apoiados nos companheiros. Em alguns, o rei orco derramava um líquido que ele trazia em um cantil, e, milagrosamente, eles pareciam se recuperar.
As prisioneiras humanas faziam o possível para seguir os passos de seus captores. As que não conseguiam acompanhar a marcha eram deixadas para trás, a garganta cortada de lado a lado.
Dos homens, nenhum foi poupado, exceto ele, Hodekin. Os orcos não haviam dado nenhuma razão para permitir que ele vivesse, exceto que era a vontade de seu lider. Mas ele sabia que, na verdade, eram as palavras de JUS PATER que o mantinham a salvo.
Ele quase duvidou do poder de JUS PATER e perdeu sua esperança, no dia que caiu prisioneiro, mas JUS PATER o visitou em seu sonho, e renovou sua fé. Ele lhe disse, com sua voz divina, que os orcos desapareceriam, que o próprio J-VA teria seu nome esquecido, e os homens herdariam a terra. Certamente, caberia a ele, Hodekin, último homem vivo, ser o futuro pai de toda sua raça.
- Aqui está o primeiro lago, chegamos a tempo - a voz do Rei Makel ecoou no silêncio do bosque - ele em breve desaparecerá. Antes disto, ele cumprirá seu papel uma última vez.
E então, um estranho ritual se iniciou entre os orcos, que Hodekin observou ao longe, amarrado junto com as mulheres de seu povo. Um a um, cada orco entrou no lago , e um a um, o rei dos orcos os imergiu completamente na água, por um instante. A cada um ele falou uma mesma frase.
"Com a água do primeiro lago, eu te batizo com um novo nome", e ele dizia para cada um, um nome. Somente depois de muitos e muitos passarem pelo lago, Hodekin percebeu que os nomes que Makel lhes dava não eram nomes de orcos. Eram nomes um dia usados em Asikli Houyk e em outras cidades dos homens.
Já era noite quando todos os orcos passaram pelo lago. Foi quando dois orcos vieram, e o carregaram até Makel.
- Hoje, a vitória dos homens se completa. Hoje, conforme a palavra de Z-US e a vontade de J-VA, nós, homens, herdaremos a terra.
Por um instante, Hodekin não entendeu as palavras, e então gritou, a indignação lhe dando coragem - Blasfêmia. Vocês são orcos, e JUS PATER os condenou a desaparecer. Os homens herdarão a terra.
- Orcos - e o orco olhou ao redor - eu não vejo nenhum orco aqui. Orcos são criaturas que certamente já desapareceram, ou lendas, talvez. Gigantes de pele esverdeada e presas no lugar dos dentes. Histórias que nossos netos contarão para seus filhos, para assustá-los. Eu só vejo humanos aqui. E você, sacerdote.
E o orco, a criatura que ousava se chamar de homem, segurou Hodekin pelo pescoço, com uma única mão - E quanto a você. O que você é? - E o orco segurou seu pulso direito com a outra mão, e mostrou para os que o cercavam - Um homem certamente não. Homens não têm quatro dedos nas mãos, nem olhos desta cor dourada, ou dentes escuros. Certamente não são tão pequenos. Diga-me, o que você é, criatura?
"Eu sou um homem", Hodekin pensou, mas não pôde falar. A mão do gigante segurava e esmagava seu pescoço, impedindo-o de respirar.
- Se você é um homem, diga - esperou uns instantes, enquanto Hodekin estava mais e mais desesperado por ar - silêncio? Pelo seu tamanho, eu digo que você é Fay, o povo pequeno. E meus netos contarão lendas a seu respeito, junto com as lendas dos Orcos, mas certamente elas serão para divertir as crianças, não para assustá-las. Talvez vocês sejam criaturas que façam travessuras, ou que façam nosso leite azedar - e todos que os rodeavam riram neste instante.
O rei soltou Hodekin, que caiu no chão.
- JUS PATER nunca permitirá isto, Makel dos Orcos
- Mak El? Este não é mais meu nome. A tribo de El não existe mais. Mak filho de Mak morreu neste mesmo bosque, quando eu nasci. E você viveu apenas para testemunhar o nascimento da verdadeira raça dos filhos de deus.
E o gigante desceu seu machado para cortar a cabeça de Hodekin.
- E de Adão, primeiro dos homens.
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Z-US entrou, apressado, nos domínios de J-VA, a fúria possuindo-o.
- Apareça, J-VA, agora. Assim, Z-US ordena.
Uma voz respondeu, vinda de parte alguma - eu não tenho mais corpo para aparecer, Z-US, deus não mais supremo. E eu não obedeço a sua vontade.
- Eu digo que o poder de J-VA se encerra agora
- J-VA já não existe mais, Z-US, deus que cairá.
- Eu descobrirei o nome que usa, J-VA. Eu descobrirei e usarei seu nome para destruí-lo.
Uma gargalhada se ouviu - pobre deus menor. Eu não tenho mais nome, Z-US.
- Então sua vitória será vazia, e seu poder se esvairá, se suas criaturas não tiverem um nome para louvá-lo acima dos outros deuses.
A gargalhada só aumentou de intensidade - Meus seguidores não precisarão de um nome para me louvar acima de outros deuses, Z-US.
- Eu não preciso de um nome, pois, quando tudo terminar, não haverá nenhum deus além de mim.
Epílogo
Ela os seguiu por dias sem fim, em silêncio, invisível, e esperou a beira do lago.
Ela não buscava vingança contra eles. Só havia um que ela queria vingar, pelo que Anubis lhe revelou em seus sonhos, e ela esperava o momento certo, mas o rei dos orcos matou Hodekin por ela.
Quando todos os orcos partiram - e para ela eles sempre seriam orcos, não importa como se chamassem - ela caminhou até o primeiro lago, agora quase seco.
Em breve deus cairiam, deuses morreriam. Sem a fé para mantê-los existindo, não haveria espaço para eles.
E para ela?
A água queimava sua pele, como se fosse fogo, quando ela entrou no lago, e se deitou para que a água a cobrisse. Não era apenas um batismo. Era um renascimento. Seu corpo se incendiando dentro da água, virando cinzas.
Quando, por fim, ela saiu do lago, já não havia ferimentos. Sua mão era sua, sua lingua, sua voz, mas era um novo corpo que ela usava. E Anubis a esperava.
- Venha, minha filha. Diga-me o nome que escolheu para si.
E ela sorriu para o deus Anubis
- Bast.

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