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sábado, 23 de julho de 2011

Terrorista - 3

Meu coração bate acelerado. Meu olhos começam a lacrimejar. Maldita reação involuntária.

Respiro fundo. Uma, duas vezes.

Ana me disse que eu tenho meia-hora, talvez uma hora, para sair de casa e me esconder. E que depois eu não posso acessar a rede, nem por um instante.

Eu tiro os sensores da rede e vou até o armário, procurar alguma coisa para vestir. Geralmente eu fico nua em casa, e eu raramento saio. Não tenho muitas roupas.

"Como que eu me visto? Como vou saber se vai estar frio ou quente?". As coisas são tão mais simples na rede. Eu acabo escolhendo uma roupa leve e um casaco por cima. Coloco mais uma muda de roupas em uma mochila, e então pego, escondido no armário do quarto, meu cartão falso, que eu achei que nunca iria usar.

Eu entro na rede, mas só em visual, colocando os óculos. Mesmo assim, parece mais vívido que nunca, talvez por eu não saber se não é a última vez que navego. Eu fico por apenas alguns segundos, apenas o tempo para executar minha rotina de pânico, aquela que eu fiz exatamente para esta situação, no mesmo dia que fiz o cartão, um ano e meio atrás.

Minha vontade é ficar na rede só mais um momento, mas eu sei que não posso esperar. Eu desligo o visor no exato instante que vejo todo meu cenário virtual começar a se desintegrar. Em alguns minutos nada vai restar da minha vida na rede, da única vida que já tive.

Eu abro a porta e saio de casa, para nunca mais voltar. As lágrimas agora correm soltas pelo meu rosto.

- Querida, você está bem? - a voz preocupada da Senhora Rosa me fez estremecer. "Estou no mundo real", eu me crítico mentalmente, "não tenho subrotinas me alertando quando as pessoas olham para mim".

- Estou - eu gaguejo - estou sim - Limpo o rosto sujo de lágrimas com a manga da camisa. - Briguei com um amigo, só isto, mas já estou bem - invento a primeira desculpa que me ocorre.

- Eu sei que você vive na rede, querida, mas tem um mundo inteiro aqui fora, também. Você devia sair mais vezes - Tem sim, um mundo sujo, lento e limitado, e eu estou presa nele. Mas é óbvio que eu não digo isto.

- Aqui fora não é para mim, você sabe - eu respondo com sinceridade.

- só queria sair um pouquinho da rede - eu continuo, com a coisa mais absurda que eu já disse, mas se alguém acreditaria nisto é a Senhora Rosa. Ela e seu marido vivem juntos, juntos mesmo, dividindo um apartamento. Se me dissessem que ela nem tem login, eu acreditaria.

Eu me despeço, e saio do prédio. Na rua, um vento frio sopra. Sorte ter pego um casaco.

Eu caminho uma quadra e desço a escada para pegar o metrô. Uma dúzia de câmeras já filmaram meu rosto, mas se meu programa funcionou, vai levar horas até perceberem que meu rosto verdadeiro foi transferido para um perfil falso. Mas não posso perder tempo para chegar até o refúgio que Ana me indicou.

Eu fico em silêncio, encolhida, nas horas seguintes, só me movendo para trocar o metro por um trêm magnético. Na rede a viagem seria instantânea. No trêm, no meio da viagem, eu começo a chorar. "fraca", eu digo para mim mesma. "Se Ana estivesse aqui, eu podia aguentar estar fora da rede", eu falo sozinha, e então rio de meu próprio absurdo. Ana só poderia estar comigo se eu estivesse na rede.

É noite quando chego em São Paulo. Quando desço da estação uma pessoa vem falar comigo, tentar me vender alguma coisa. Eu levo alguns segundos para entender, até me dar conta que ele está falando em português. Eu respondo que não tenho interesse, em inglês padrão. Ele me xinga e se afasta. Eu engulo em seco e começo a caminhar mais rápido, vendo mais vendedores se aproximando. Entro no primeiro Taxi que vejo.

Eu passo o endereço que Ana me deu para o computador do taxi, e ele sai veloz pela rua. Eu olho pela janela, com um fascínio mórbido. É este o mundo que eu habito agora. Um mendigo olha para mim. Somos iguais, igualmente desconectados.

- Mary, você vai ter que mudar os planos.

- O que - eu grito, o coração batendo acelerado. Taxis normalmente não falam com passageiros, e eu havia apagado meu nome verdadeiro da rede.

- Ana? É você - a esperança me invade, e só então me dou conta de quão sozinha estou me sentindo, quão abandonada.

- Não, Ana está ocupada, fugindo do rastreamento. Ela me pediu para manter um olho em você.

- Quem é você?

- Ninguém. Apenas um amigo. Estou alterando o destino do taxi, mas você precisa decidir para onde ir.

- Por quê? Estou indo para o endereço que Ana me passou - preciso cuidar o que digo. Nada me garante que ele fala a verdade.

- Já foi abandonado. Está sendo monitorado pelo governo. Estão esperando por você lá.

- Então não sei para onde ir...

- Sinto muito, tenho que ir. Já me envolvi demais.

- Espere. Quem é você?

- Já lhe disse. Ninguém.

Eu falo mais uma, duas vezes, sem obter resposta, e sei que estou sozinha novamente. Sozinha em uma cidade estranha, desconectada da rede, com meu tempo acabando. Não vai levar muito tempo para identificarem minha id falsa.

Então eu indico o único local que me restou. Só por não ter nenhuma alternativa.

Meia hora leva para eu chegar na casa, dez minutos a pé, caso rastreiem o taxi, como o amigo de Ana fez. Outro programa de computador, eu tenho certeza. Nenhum navegador humano poderia ter me achado tão rápido.

O homem abre a porta quando toca a campainha. Eu peço para entrar.

Há uma mulher com ele, e um garoto, pouco mais jovem que eu. Droga. Pensei que ele estaria sozinho.

Eles me ouvem, a versão editada de minha história, é claro. Apenas o suficiente para saberem que o governo está atrás de mim, que eu preciso de refúgio, e que será perigoso me ajudarem.

- Minha jovem, não queremos problemas. Porque veio aqui? Porque bateu na nossa porta? - Droga, eu repito para mim mesma. Eu realmente não queria que a família dele estivesse junto. Quase me levanto e saio, mas eu não sei mais para onde ir. Eu não tenho outra escolha, além de responder.

- Por que você é meu pai.

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