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sexta-feira, 8 de julho de 2011

A História que o Doutor Shapiro Leu

Prólogo

O Doutor Shapiro coloca os óculos para ler o relatório a sua frente, a mão escondendo um bocejo. Ele bebe, distraido, uma xícara de café que sua secretária lhe trouxe.

- Ele que escreveu isto?

- Sim, doutor. Ele passou a manhã escrevendo, depois que acordou dos sedativos, e disse para entregar ao senhor. Pediu para o senhor ler antes de falar com ele.

O Doutor Shapiro coça a cabeça, passa os olhos uma vez mais pela folha, e suspira. O louco havia sido preso, há dois dias, por perturbar a paz, e trazido para o hospício. Desde então, ele pedia todos os dias para falar com o neurologista chefe.

- Um caso fascinante. Tomara que nos permitam fazer experimentos com ele, estou curioso em saber se há alterações em seu cérebro. - O Doutor se levanta - chegaste a ler?

- Não, ele disse que era apenas para o senhor. Do que se trata?

- Uma história. Quer dizer, para nós é uma história. Para ele, quem sabe?



A História que o Doutor Shapiro Leu

Prezado Doutor, eu não sou louco, embora esteja certo que irá me considerar, após ler minha história. Mesmo assim, peço que tenha paciência e leia até o final. Há coisas que preciso contar a alguém.

Tudo começou há cerca de um ano, quando um amigo de faculdade me convidou para conversar. Eu e Alex éramos bastante próximos, e nos formamos juntos em física no ano anterior, mas eu não o havia visto desde então.

Nos encontramos em um bar e sentamos em uma mesa para beber e conversar, mas foi mais ele que falou. Assim como eu, hoje, naquele dia era ele que tinha uma história para contar.

- Você se lembra do experimento que fomos voluntários, no último ano da faculdade? - Logo depois de nos cumprimentarmos e sentarmos a mesa, ele foi logo trazendo este assunto. Eu olhei para ele, com um ar de nítida curiosidade.

- Você quer dizer, o experimento daquele cientista, que você participou sozinho? Lembra que eu disse que achava uma loucura entrar neste tipo de coisa?

- Que seja. Bom, suponho que eu nunca tenha lhe contado, mas era um experimento de viagens através das dimensões.

- Ah. Entendo. Que tipo de drogas você está usando? - Eu falo, elevando um pouco o tom de voz. Era óbvio que ele queria fazer algum tipo de piada, mas eu não estava entendendo.

- Você sabe que existem infinitos universos paralelos... Quer dizer, aqui acho que ainda é uma teoria. Não importa, o fato é que existem infinitos universos coexistindo, incapazes de se encontrarem, exceto no nivel subatômico.

- Olha, Alex, a gente estudou algumas teorias sobre isto, mas não é como nos filmes de ficção científica. Quer dizer, não vai vir nenhum monstro de uma terra paralela e sentar na mesa junto com a gente.

- Bom, meu amigo, eu lamento dizer que você está errado. Quer dizer, eu não sou exatamente um monstro, mas eu estou sentado nesta mesa, com você, e, de fato, eu vim de outro universo.

- Ah, é? Quer dizer, você não é o Alex que eu conheço, mas algum Alex de uma terra paralela que veio nos visitar? A gente já teve conversas malucas, mas você realmente está inspirado hoje.

- No seu mundo a segunda guerra mundial terminou em 1945. No meu ela se arrastou até metade da década seguinte. No seu mundo, o Brasil estava do lado dos aliados, no meu ele esteve no lado alemão até início da década de 50. A partir daí, as mudanças ficaram realmente maiores, mas no geral até que nossos mundos são muito parecidos, comparados com o que tenho visto por aí.

- Hummm, suponho que agora você vai tirar uma enciclopédia do seu mundo para me provar que está falando a verdade, ou pelo menos que colocou mesmo esforço nesta brincadeira. Quer dizer, se você fosse um viajante dimensional e quisesse me convencer, teria trazido pelo menos uma prova, certo?

- É impossível trazer qualquer coisa, e eu não estou tentando nem quero convencer você. Ocorre que não se viaja entre as dimensões do jeito que você está imaginando.

- É? Ok, já entendi que vou ter que entrar no jogo. A pergunta óbvia é: como se viaja entre as dimensões?

- Com a mente. Na verdade tudo começou com o tal experimento que lhe falei. Este cientista era um gênio, provavelmente o Leonardo Da Vinci do nosso tempo. Vocês tem um Da Vinci? Claro que sim - ele se interrompeu e respondeu para si mesmo. Eu ouvi em silêncio, disposto a descobrir até onde ele iria chegar com esta história.

- Bom - ele continuou - ele tinha doutorado em computação, física e psicologia, e seu estudo começou com uma análise da capacidade de processamento necessária para criar uma alma.

- ahã - Eu disse.

- Ele conseguiu provar que, para existirmos, a capacidade de processamento teria que ser infinita. Nenhum computador, não importa com quantos circuitos, conseguiria ter a consciência que nós temos, a existência que temos. Quer dizer, ele poderia ser absolutamente indistinguível de um ser humano, mas não haveria uma alma nele.

- Ei, ei, ei - eu não me contive e interrompi - se você não conseguir distinguir um ser humano de um computador, pode-se dizer que você tem uma máquina inteligente.

- Exato. Você não consegue saber se uma máquina ou um ser humano tem alma. O único ser que você sabe que existe é você mesmo. Você sabe que por trás de seus olhos existe um 'SER'. Este professor chamava de um 'observador', o piloto de seu cérebro, a pessoa que existe e pensa e está aqui, neste momento, falando comigo.

- Ok, e naturalmente eu não tenho como saber se as outras pessoas existem, correto?

- Mais que correto, este é o ponto. Na maioria das vezes, as outras pessoas realmente não existem.

- Cara, eu espero que você esteja me contando uma piada muito elaborada, porque já estou quase ligando para sua família para avisar que você está viajando legal.

- Deixe-me terminar, está bem. Depois você decide se estou ou não louco.

Eu concordei, e ele continuou.

- Para existir uma alma, como estava lhe dizendo, a quantidade de processamento necessária é infinita. Mas você sabe que existe pelo menos uma alma, a sua própria. As outras pessoas poderiam ser produzidas por um computador, por uma realidade virtual, ou ser um sonho seu. Assumimos que eles também tem alma porque nós temos, e eles se parecem conosco. Assumimos a alma das outras pessoas por analogia, já que nós temos uma.

- E elas não tem?

- Elas tem, da mesma forma que nós, só que podem não estar aqui. Na verdade, neste bar, nesta dimensão, as únicas almas presentes são as nossas duas.

- E as outras pessoas?

- As almas delas estão em qualquer outra dimensão. A única forma de gerar uma alma é com uma quantidade infinita de processamento, e isto é feito com uma quantidade infinita de cérebros. Todos os Alex Santos de todos os universos fazem com que a minha alma exista, e ela está aqui, neste momento, falando com você.

- E os outros Alex?

- Quem se importa? São como máquinas, eles só são importantes porque fazem a minha existência.

- Ok, então só existe um Alex, e ele está aqui falando comigo. Mas não é o mesmo Alex que eu conheci?

- Exato. Por causa do experimento que eu fiz

- E como foi isto?

- Eu passei um mês fazendo exercícios de meditação, tomando alguns remédios, uma série de experimentos. Eu achei que não tinham nada de mais. Na verdade, como você está pensando a meu respeito, eu achei que aquele pesquisador era completamente pirado.

- Tá, mas agora eu me perdi. Você ficou fazendo meditação para quê?

- Simples, só havia uma forma de provar esta teoria. Se tomássemos consciência de que nossa alma habita infinitas mentes, em infinitos universos, porque não poderíamos viajar de um universo para outro, assumir o corpo de um Alex ou outro?

- E o que aconteceria com este Alex?

- Nada, ele nunca existiu. O Alex que você conheceu sua vida inteira nunca foi real, assim como o amigo que eu conheci. Você que é real, assim como eu, e esta é a primeira vez que realmente nos encontramos.

- Ok, então, como você começou a viajar pelas dimensões? Suponho que tenha sido depois de tomar um alucinógeno.

- Não. Eu simplesmente descobri, um dia, quando fui no laboratório, para mais um dia de experiências. A sala dos experimentos estava vazia, e ninguém nunca ouviu falar da pesquisa ou do cientista.

- Hummm, bom, isto faz sentido. E suponho que você agora passa o tempo contando para as pessoas que caiu em uma piada de universitários, e tentando fazer os outros cairem também.

- É, foi o que eu imaginei inicialmente. Até me dar conta que as ruas estavam diferentes, e que não existia Internet, e uma série de detalhes semelhantes. Foi aí que eu percebi que o experimento deu certo.

- E você veio parar aqui? Bom, eu lamento lhe dizer, mas a Internet existe sim, eu estava acessando hoje a tarde.

- Existe aqui, não no primeiro mundo que viajei. No início foi muito desorientador, eu acordava em um mundo diferente a cada dia, as vezes estava em outro mundo ao entrar ou sair de um prédio. Eu achei que estava enlouquecendo, até entender que estava apenas tendo uma visão real de como a existência é.

- E você espera que eu acredite nisto?

- Não, eu apenas vim lhe contar para prepará-lo. Quando você aceita que é um viajante das dimensões, tudo fica mais fácil. Você vai acreditar quando sair por aquela porta - ele aponta para a saída do bar - e descobrir que está em um mundo diferente do que quando entrou.

- E porquê que eu vou viajar entre dimensões, também? Eu não participei do experimento.

- Não neste mundo.

Ele se despediu, eu saí do bar e me vi cuidando os detalhes da rua, mas nada estava diferente. Foi só dois dias depois que comecei a perceber as diferenças e descobri que ele estava falando a verdade.



Epílogo - Parte I

- Bom, meu jovem, como é seu nome?

- Pedro. Você leu minha história, Doutor Shapiro?

- Eu li. Você tem uma excelente imaginação.

- Obrigado. O mais importante é que tenha lido.

- Porque é tão importante que eu leia? Você passou estes dois dias pedindo para falar comigo.

- Doutor, eu não tenho mais tempo. Em alguns minutos vou piscar os olhos e terei partido. Vai ter uma pessoa no meu lugar, o verdadeiro Pedro deste mundo, e ele não vai saber o que está fazendo aqui.

- Você vai viajar para outra dimensão? - "será um caso de multiplas personalidades", o Doutor Shapiro pensa, em silêncio.

Pedro não responde a pergunta, apenas entrega um papel dobrado em quatro para o médico - Doutor, existe apenas uma coisa que eu não contei na história. Está escrito aqui. Quando estiver pronto, leia.


Epílogo - Parte II

Ele queria ter jogado o papel fora, mas deixou-o no bolso, sem olhar para ele. A tevê, na sala, ligada, passava um jogo de futebol, e o médico agora está no quarto, segurando a folha de papel, ainda sem desdobrar.

Não foi o fato das coisas terem acontecido exatamente como o paciente tinha lhe dito. Não foi todos os exames de Pedro - que não se lembrava de nada - terem dado absolutamente normais. Nada disto perturbou o Doutor Shapiro, e ele já teria esquecido a história na hora que saiu do consultório.

Só que, na manhã daquele dia, ele havia comentado do novo cabelo ruivo de sua secretária, e ela respondeu que seu cabelo sempre foi daquela cor. E na teve passava um jogo entre dois times que ele nunca ouviu falar. E era a final do campeonato Brasileiro. Ele havia olhado rapidamente para o jornal que havia deixado em cima da mesa, e não era o mesmo jornal que ele havia visto pela manhã. Isto foi a trinta minutos, e o Doutor Shapiro ficou este tempo no quarto, com o papel na mão.

O Doutor Shapiro treme ao desdobrar a folha.

"O nome do cientista que conduziu os experimentos era Doutor Shapiro".

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