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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Linguagem de Máquina 1


   Rubens acreditou que seria impossível localizá-lo, a menos que alguém o reconhecesse na rua. Ele tomava extremo cuidado para não aparecer em nenhuma câmera, com receio que sua imagem terminasse em algum software de detecção de rostos do governo americano. Usava luvas finas, quase invisíveis, nos dedos, para não deixar digitais. Pagava tudo exclusivamente em dinheiro.
   Em três meses, ele já estava cansado desta vida. A pior parte era não poder ter contato com ninguém de sua família, não poder falar com sua namorada. Isto que não foi realmente sua culpa, pelo menos no sentido que ele nunca teve nenhuma intenção de ajudar terroristas a roubar um dispositivo nuclear dos americanos.
   Quando percebeu para o que eles estavam usando o software que ele desenvolveu, já era tarde. A notícia do roubo da ogiva estava em todos os jornais do mundo.
   Ele passou talvez duas horas tremendo, em casa, pensando no que iria fazer, até decidir ligar para a embaixada americana. Ele imaginava que, se ajudasse a prender os terroristas, provavelmente ia receber uma pena leve. O mais importante é que fosse considerado um criminoso comum, com seus direitos assegurados. Desde 2042, terroristas não tinham nenhum direito, tanto pela lei americana quanto pelas convenções internacionais. O Brasil não tinha assinado o último tratado antiterrorismo, mas Rubens tinha certeza que isto não ia adiantar muito no seu caso.
   Aquele momento, em que decidiu contar tudo, ficaria para sempre gravado em sua memoria. Como dizia a expressão, era algo que levaria para o túmulo. Sua mão no celular, o embaixador ouvindo sua explicação de como desenvolveu um software que talvez tenha sido utilizado no roubo da ogiva, a tela internet na parede de seu quarto subitamente abrindo uma janela para mostrar uma notícia que ele sabia que tinha de ser muito importante – seu terminal estava configurado para não abrir nenhuma notícia automaticamente. E tudo que ele havia feito adquirindo uma nova dimensão naquele exato instante.
   Rubens nem lembra o que o repórter falou. O que ele nunca esqueceria era a imagem por trás, o cogumelo atômico que se levantava por entre os edifícios de uma cidade.
   Ele ainda ficou olhando o celular por alguns segundos, atônito, até que percebeu que agora não haveria nenhuma redução de pena, nenhum entendimento que ele não sabia o que estava em jogo. Ele seria tratado como um terrorista que auxiliou na obtenção de uma arma de destruição em massa que foi detonada em solo americano.
   A pena era a morte.
   Naquele dia, três meses atrás, a vida de Rubens terminou. Ele simplesmente desligou o telefone e saiu de casa, sem nem se despedir dos seus pais.
   Ele tomou tantos cuidados que não conseguiu acreditar quando seu celular bipou com uma mensagem. Era um modelo antigo, da década de 50, não rastreável e totalmente anônimo, sem conexão neural e nenhuma identificação que era ele o usuário. Até então ele teria dito que seria impossível alguém localizá-lo por ele.
   “Rubens, retorne esta mensagem. Represento um grupo interessado em seus serviços”.
   Rubens desligou o celular, abriu e tirou o chip de dentro. Ele nunca deixava nada gravado na memoria interna do chip, mas era melhor não arriscar. Na primeira oportunidade, iria destruí-lo. Então começou a correr, procurando algum local coberto, para evitar que o seguissem por algum satélite ou avião espião. Claro, se já soubessem onde ele estava e o estivessem vigiando, seria impossível escapar. Ele não era nenhum agente secreto, só um programador.
   Ninguém apareceu. Mesmo assim, ele desapareceu novamente, desta vez tomando mais cuidado ainda. Nova cidade, nova identidade, nenhum contato com qualquer pessoa do passado.
   Era frustrante, mas qualquer coisa era melhor que ser pego pelos americanos. Às vezes ele assistia os noticiários. Mesmo mais de três meses depois da tragédia, ela ainda estava na mídia. Fazia quinze anos desde a última vez que uma bomba nuclear havia sido detonada em solo americano.
   Rubens tentava não pensar na quantidade de pessoas que morreram por causa dele. Se começasse a pensar nisto, provavelmente iria se matar pela culpa. Mesmo dizer que nunca imaginou que estava ajudando terroristas não era um grande consolo. Bem ou mal, ele sabia que era algo ilegal que estava fazendo, mesmo que pensasse que era só espionagem industrial.
   A segunda mensagem, Rubens recebeu quando estava à apenas dez dias com sua nova identidade. O mais incrível é que, desta vez, ele recebeu apenas uma hora depois de comprar um novo celular, assim que havia se sentido seguro para tanto.
    Ele nem leu direito a mensagem, apenas repetiu a mesma rotina. Nova cidade, nova identidade.
   Na terceira mensagem ele desistiu de fugir e respondeu. A mensagem apareceu apenas dez minutos depois dele ter comprado o celular.
   “Insistimos em um contato. Queremos ajuda-lo a se ver livre de seus problemas”.
   “Quem são vocês e o que querem comigo?”. Ele teclou de volta.
   Foi neste contato que Rubens recebeu a mais estranha proposta de trabalho de sua vida.

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