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quinta-feira, 28 de março de 2013

Linguagem de Máquina 6/8


   Vanessa se contorcia em convulsões no chão, ao lado da mesa.
   Rubens não sabia o que fazer, e primeiro afastou as cadeiras, depois tentou segurá-la pelos braços.
   - O que está acontecendo? Vanessa? - era óbvio que ela não estava escutando ou reagindo. Primeiro ele tentou imobilizá-la, talvez por um minuto ou dois, mas parecia só piorar as coisas, e ele ficou com medo de machucá-la. Rubens se lembrava de ter visto em algum lugar que se colocava uma colher na boca de pessoas em convulsão para não engolirem a língua. Ele chegou a soltá-la e pegar uma colher na mesa, mas quando se abaixou novamente, as convulsões haviam parado.
   - Vanessa? - ela olhou para ele e começou a se afastar, no chão mesmo, se arrastando de costas. Os olhos estavam arregalados. A boca se abriu, como se fosse gritar, mas ela não emitiu nenhum som.
   - Vanessa? - ele repetiu - o que houve? você está bem?
   Vanessa fechou os olhos, e então soltou um suspiro. Parecia que seu corpo começava a relaxar. Então abriu os olhos e se levantou. Ela caminhou lentamente até a mesa e pegou um prato na mão.
   - Você está melhor? O que aconteceu? - por um momento, Rubens ficou com receio que ela iria voltar a simplesmente ignorar suas perguntas, como nos primeiros dias, mas desta vez ela respondeu com seu eterno sorriso.
   - Não houve nada. Por quê?
   - Você teve uma convulsão. Agora mesmo - Rubens apontou para as cadeiras jogadas pelo chão.
   - Não lembro - ela hesitou, e baixou a cabeça, a voz quase num murmúrio - eu sou epilética. Desculpe se assustei você.
   Vanessa não falou mais nada, e começou a recolher os pratos da mesa. Rubens sabia que quando estava trabalhando, ela praticamente não respondia suas perguntas, na verdade parecia nem perceber sua presença.
   Rubens decidiu ficar por perto, para ter certeza que ela não ia ter uma nova convulsão. Normalmente ele a deixava sozinha e ia para o escritório acessar a Internet ou trabalhar, mas desta vez resolveu ficar na sala, observando-a.
   Depois de recolher toda a mesa, e lavar a louça, ela foi até a sala, sem prestar atenção nele, sentou em um sofá, e ligou a televisão.
   Ele a seguiu, e tentou começar uma conversa por duas ou três vezes, mas ela não respondia, como nos primeiros dias dela na casa. Para testar, ele pediu um refrigerante, e ela imediatamente respondeu sorrindo - claro, já estou trazendo - e se levantou para pegar para ele.
   Enquanto ela assistia a programação, ele se conectou na Internet.  Alguma coisa não estava encaixando - mais uma peça de um quebra-cabeça que parecia a cada dia mais confuso - e ele queria confirmar o que já sabia: pessoas com epilepsia não recebiam implantes neurais, pelo menos não implantes padrão. Se recebessem algum implante, seria um equipamento médico, não o mesmo tipo que eles dois usavam.
   Ele só levou alguns segundos para chegar em uma página sobre epilepsia, a mesma que ele já havia lido uns dois anos antes, por acaso, enquanto navegava. Ao contrário do que ele lembrava, a página não falava nada sobre restrições aos implantes neurais.
   Só para confirmar, ele verificou a data e registro das modificações da página, depois visitou páginas sobre implantes neurais. Nenhuma mencionava epilepsia como restrição a implantes.
   - Eu me enganei - ele falou em voz alta, para si mesmo - podia jurar que pacientes epiléticos não podiam usar implantes.
   Mas não foi para si mesmo que Rubens falou, foi para quem o estava vigiando.
   Ele não estava enganado, ele lembrava muito bem de ter visitado algumas daquelas páginas antes.
   A Internet que ele estava vendo estava sendo manipulada.

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