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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Chimata-no-Kami, o Deus das Encruzilhadas

Este texto foi escrito para participar de um desafio literário, em que se fazia necessário escolher entre 5 temas: história alternativa, prisão, família, sonhos e mitologia nipônica.
Eu optei por criar um conto que reunisse todos os temas.

Chimata-no-Kami, o Deus das Encruzilhadas
Parte 1 – Eu tive um sonho

  "Konna yume o mita. "

   Eu tive um sonho.

   Renato piscou os olhos, e se concentrou em ler os ideogramas que pareciam dançar na página de seu livro. O texto de Natsume Soseki era de uma leitura supostamente fácil – pelo menos tão fácil quanto um texto no original em japonês podia ser, e Renato já tinha lido tantas vezes que quase tinha decorado os primeiros parágrafos, mas hoje ele estava particularmente cansado.

   "Mutsu ni naru kodomo o obuteru."

   Carregando uma criança de seis anos nas costas.

   “A terceira noite” não era o conto de Soseki preferido de Renato, mas todas “as dez noites de sonhos” tinham a vantagem de serem contos curtos e com muitas repetições de palavras. Ideais para ajudar a expandir o vocabulário.

   Ele deu um longo bocejo, e voltou a se concentrar no texto, mas, em menos de um minuto, fechou os olhos e adormeceu por um instante, deixando o livro escapar da mão. Acordou com o barulho dele caindo no chão.

   — Hoje realmente o estudo não vai render — falou para si mesmo, em voz alta, no meio de mais um bocejo. Caminhou em direção ao banheiro, sonolento. Talvez molhar o rosto na água fria, ajudasse, pensou.

   Primeiro se olhou no espelho. Fora a cara de sono e a barba por fazer, não lhe parecia ruim o que via. Olhos verdes, cabelos escuros, rosto jovem, não parecia mais velho que seus vinte e cinco anos. A única coisa ruim era uma cicatriz, na verdade só uma linha de uma cor um pouco mais clara, que corria pela sua face direita, do alto da testa até o queixo. Mas só dava para ver dependendo da luz e devia ser muito antiga, engraçado que ele não lembrava de como ganhou.

   Lavou o rosto, depois secou. Olhou o espelho de novo, e só então viu uma porta no reflexo, atrás dele. — Estranho que o banheiro tenha outra porta — resmungou, confuso. Por que o banheiro da casa dele tinha duas portas, e para onde levava essa outra?

   Renato ainda se perguntava se deveria abrir a porta e ver o que haveria do outro lado, quando alguém bateu nela. TOC.... TOC. Duas batidas, com uma pausa grande entre elas.

   Abro ou não abro? Bom, preciso pelo menos ver quem é...

   Com cautela, ele a abriu, e viu, do outro lado, um bosque com árvores e grama bem cuidada. Do lado da porta tinha um urso, que parecia estar esperando por ele.

   — Olá vizinho. Vim convidá-lo para uma caminhada. – A voz não era grave e profunda como se poderia imaginar de um grande urso pardo; parecia uma voz normal, até transmitindo uma certa simpatia.

   Renato aceitou o convite, e foram a caminhar pelo bosque. O urso disse que não era um longo trajeto, só até a margem de um rio, e depois não falou mais nada, e seguiram os dois em silêncio. Por fim, chegando ao destino, sentaram no chão de terra, e Renato tirou os tênis e colocou os pés na água, que estava bem agradável. Fria, mas não gelada. O urso continuou em silêncio, como que esperando que ele falasse alguma coisa.

   — Estou sonhando, não estou? Isso é uma história que me mandaram, um conto de...de...- tentou forçar a memória, nomes nunca foram seu forte – de Kawakami Hiromi. Isso. Uma dessas pessoas que ainda escreve em Japonês. Um urso que convida um vizinho para ver um rio. Eu li este conto algumas vezes, para estudar. Não era o que eu estava lendo quando peguei no sono, mas eu estudei ele uns dias atrás.

   — Eu também me pergunto isso, às vezes. Será que este mundo é real, e os outros são mesmo apenas sombras, sonhos sonhados por Izanagi? Ou será que também este é uma sombra, e um dia vou acordar e descobrir que há um mundo inteiro para além do que vejo? –
 
   Enquanto o urso falava, Renato olhava ao seu redor. O sol estava quase se pondo agora, iluminando o céu com um espetáculo de cores em tons vermelhos igual a nenhum outro que ele lembrasse de já ter visto.

   — No final, — o urso continuou, — cheguei à conclusão que tudo que podemos fazer é confiar em nossos corações, naquilo que sentimos dentro de nós. Experimente. Respire fundo, feche os olhos, sinta o calor do sol, a água em seus pés, e me diga se isso não parece mais real que a vida que você conhece.

   Ao seguir o conselho do urso, e fechar os olhos, Renato sentiu como se o mundo o envolvesse com uma intensidade incomparável. O bosque, o rio, já pareciam antes mais vibrantes, mais presentes, que sua vida do dia a dia, mas agora tudo ganhava uma energia redobrada. Sua vida até então, seu emprego, sua namorada, sua família, tudo parecia opaco e sem importância, em comparação.

   — Isso é real? Você está me dizendo que minha vida que é um sonho?

   — Você quer saber? Vai ter que ir muito mais longe do que só uma caminhada pelo meio de um bosque. Não vai ser fácil, e pode ser perigoso. Mas se quer realmente acordar de seu sonho, eu posso tentar ajudá-lo.

   Renato hesitou por um instante. Ele sentia que tinha uma decisão importante que ia tomar, embora não entendesse muito bem por quê. Mesmo assim, quis saber mais, antes de responder.

   — Mas por que você quer me ajudar, urso? — Ele não estava realmente desconfiado das intenções do urso, algo lhe fazia confiar em seu companheiro de caminhada, mas queria alguma pista que o ajudasse a tomar uma decisão.

   — Há muito tempo atrás, você me ajudou, mesmo sabendo que estaria colocando a si mesmo em risco. Sempre quis ter uma oportunidade de retribuir – Mesmo sem entender do que o urso estava falando, Renato sentiu que ele era sincero, e com isso tomou sua decisão.

   — Eu quero, sim, saber se isso é real, se é minha vida que é um sonho. Eu aceito sua ajuda, amigo urso.

   — Então, preciso que você vá até o lago no centro de Ikema Jima. Eu estarei esperando-o na ilha.

   E, dizendo isso, o urso se levantou e, tomando impulso, se jogou no rio, espalhando água para todos os lados. Renato fechou os olhos quando a água atingiu seu rosto, e quando abriu, viu seu rosto molhado no reflexo do espelho de seu banheiro, suas mãos segurando uma toalha, a torneira ainda aberta.

   Ele olhou para trás, mas só havia uma parede onde ele tinha aberto uma porta e encontrado um urso.

 * * *
Parte 2 – Partindo para o Japão

   — Que coisa ridícula — Ele não estava ali, na sua sala, enquanto sua namorada debochava. Em sua mente, ele estava em um rio, ao lado de seu amigo urso — Você já não tem idade para isso. Ficar todo impressionado só porque teve um sonho idiota.

   — Não foi idiota — respondeu, baixinho, apenas para ser interrompido novamente.

   — Te liga, Renato. A coisa já está difícil para todo mundo, cada dia pior. E tu vem me dizer que está pensando em ir para o Japão por causa de um sonho? Justo para o Japão? Tu estás doido? Já não chega ficar estudando uma língua que não serve para nada, que ninguém nem usa mais.

   Não adiantava dizer que tinha gente que usava ainda, que ele tinha até uns conhecidos que escreviam em japonês, gente que tinha emigrado antes da guerra. Eles mandavam alguns contos para ele não ter que estudar só por livros antigos.

   — Claro que não vou viajar, amor. Imagina a grana que ia sair só a passagem. Isso que quase não tem voo para o Japão hoje em dia. É só que eu sempre quis conhecer, mesmo não tendo sobrado muita coisa depois da guerra, e aí tive esse sonho...

   — Por favor, Renato, esta fixação está te deixando doido. Promete para mim que vai parar de estudar esta língua maluca, que não serve para nada?

   Renato abanou a cabeça, como que concordando, só para encerrar a discussão. Ele não ia parar de estudar japonês. Não sabia bem por que tinha começado, hoje em dia era uma língua que estava ameaçada até de desaparecer, mas para ele era fascinante. Agora, viajar para o Japão era uma loucura, só em sonhos, mesmo. Os Soviéticos não iam nem deixa-lo entrar nas ilhas, para não falar no dinheiro para conseguir uma passagem.

   Naquela noite, Renato sonhou novamente com o bosque para além da porta em seu banheiro, mas desta vez não viu nenhum urso. Acordou bem cedo, e tentou se lembrar do sonho, mas este já estava sumindo nas lembranças – bem diferente do sonho com o urso, do qual ele lembrava cada detalhe.

   — Se eu pudesse, acho que eu ia sim para o Japão — falou baixinho para si mesmo, cuidando para não acordar a namorada. Fazia seis meses que moravam junto. — A Jéssica tem razão, sou doido mesmo.
Enquanto ajeitava o café, acessou a Runet, para consultar os e-mails. Só tinha um, mas não dizia o remetente. Era uma passagem para o Japão, com um anexo com uma autorização para imprimir e levar com o passaporte. O voo partia naquele mesmo dia.

   O final do e-mail estava assinado: seu vizinho urso.
Primeiro ele ligou para seu trabalho, para dizer que ia precisar tirar uns dias de folga, que era uma emergência.

   — Renato, como assim, emergência? Que emergência é essa, rapaz? Está assim de gente querendo teu lugar, se tu inventar de não vir trabalhar, pode dar adeus ao teu emprego.

   — Desculpe, chefe. É uma coisa que eu preciso fazer.

   O Jairo ficou insistindo, depois começou a ameaçar. No final estava gritando. Não adiantava nem ligar quando voltasse, que o emprego já era. Só quando desligou o telefone que Renato se deu conta que a Jéssica estava atrás dele.

   — Me diz que eu não ouvi o que acabei de ouvir, Renato.

   — Desculpa, Jéssica, eu vou ter que viajar por uns dias.

   — Tu não ouviu o que teu chefe falou? Se tu viajar, teu emprego já era. E o que acontece aí, Renato? Tu vai viver de que?

   — A gente dá um jeito, Jéssica, a gente sempre conseguiu se virar.

   — A gente, nada. Se tu resolveu enlouquecer de vez, é problema teu, mas não pensa que eu vou estar aqui quando voltar.

   Renato tentou conversar, mostrou a mensagem na Runet com o bilhete, disse que ia ficar só uns dias, mas tudo só deixava a Jéssica mais nervosa. Quando ele finalmente saiu porta afora, quase na hora do voo, ela estava aos berros, e, como o Jairo, dizendo que não adiantava ele nem a procurar quando voltasse, que estava tudo terminado entre eles.

   No aeroporto, quando já estava mostrando a passagem para um atendente mal humorado, que falava português com tanto sotaque que era quase impossível entender, o celular do Renato tocou.

   — Senhor Renato Silva? — A voz do outro lado da linha também tinha sotaque russo, como o atendente de voo, mas falava com um português bem mais fácil de entender. Renato confirmou que era ele mesmo.

   — Aqui é Aleksei Kuznetsov. Acho que sabe quem eu sou — Aleksei era o diretor para o Brasil da empresa que Renato trabalhava. O chefe do chefe do Jairo. Renato já tinha visto notícias dele na Runet, mas nunca o tinha visto pessoalmente, muito menos falado com ele.

   Aleksei continuou falando — Conversei com o senhor Jairo Moraes agora há pouco. Ele está para se aposentar, e havia indicado seu nome para o lugar dele, uma promoção que eu já havia assinado. Mas agora ele acabou de me dizer que o senhor vai viajar.

   Renato concordou, desconfiado.

   — Infelizmente o senhor Moraes não estava autorizado a informá-lo, mas estou certo que, sabendo desta promoção, o senhor irá rever seus planos de viagem. É uma oportunidade única para alguém da sua idade, e só estamos oferecendo porque o senhor Moraes apresentou excelentes recomendações de seu trabalho.

   Renato ficou em silencio alguns segundos, pensando. Alguma coisa não fazia sentido. Por fim, quando respondeu, sabia exatamente o que dizer.

   — Prezado senhor Kuznetsov, agradeço a oferta, mas eu quero muito fazer esta viagem. Eu precisaria de algo muito mais importante para mudar de ideia. O seu cargo também não estaria à disposição? Por uma posição de supervisor da América Latina, eu com certeza abriria mão de qualquer viagem.

   — É uma hipótese que pode ser avaliada, senhor Renato. Estarei voltando a União Soviética nos próximos dias, e estávamos justamente buscando alguém com um perfil como o seu para o meu lugar. Podemos conversar amanhã e discutir esta hipótese.

   — Foi uma piada, senhor Kuznetsov. Uma piada e um teste. Por que é tão importante que eu não viaje para o Japão?

   A ligação foi cortada. Até entrar no avião, Renato recebeu uma série de outras chamadas em seu celular. Algumas com identificação. Sua mãe, seu pai, uma antiga namorada, seu melhor amigo.

   Renato não atendeu nenhuma delas.

* * *
Parte 3 – A Terra dos Mortos

   Alguns chamavam de segunda guerra mundial, outros de guerra euroasiática, havia até aqueles que chamavam de a Grande Guerra, tão gigantesca que tornava a primeira guerra mundial um conflito menor. Historiadores divergiam sobre seu início, alguns consideravam a escalada do conflito entre Japão e China, em 1937, outros a invasão da Polônia pelos nazistas em 1939. Mas todos concordavam com a data em que ela terminou: 1955, o ano em que o Japão recusou se render à União Soviética pela última vez.

   Era impossível para Renato não pensar continuamente na guerra enquanto atravessava as ruínas do que já foi um país, até chegar ao lago em  Ikema Jima. O barco militar russo o largou na ilha, e ele teve que seguir a pé, mas pelo menos ali não havia muita radiação.

   Ele se perguntava se estava completamente louco. Se não ia apenas ficar ali, olhando o lago, sem saber o que fazer, enquanto se dava conta que tinha atravessado o mundo por causa de um sonho idiota.

   Quando chegou ao lago, no centro da ilha, porém, o urso estava a sua espera.

   — Estou sonhando de novo? — Ele disse, ao se aproximar.

   — Você ainda acredita que estava sonhando quando nos vimos pela primeira vez?

   — Bom, estou aqui. O que acontece agora que fiz toda esta viagem, como você pediu?

   — Agora sua viagem realmente começa — o urso respondeu, enquanto caminhava para dentro do lago, e, com um sinal da pata, indicava para Renato segui-lo.

   — Onde estamos  — Renato perguntou, quando a água do lago, que atingia sua barriga, se transformou em uma névoa, que rapidamente se dissipou, e ele se viu em um lugar estranho, escuro e abafado, mas não a ponto de não conseguir ver a seu redor.

   — O Mundo dos mortos, na era dos deuses, Kamiyo — o urso lhe respondeu. Observe com atenção.

   Renato percebeu que era apenas um espectador, que assistia sem fazer parte. E mais, percebeu também que conseguia entender o que acontecia, à medida que a ação se desenrolava.

   E foi isso que ele viu...

* * *
Parte 4 – Kamiyo – A Era do Deuses

   Em silêncio, nas trevas de Yomi, Izanagi caminhava em passos precisos, indiferente às provocações dos mortos e demônios que o cercavam. Izanami, sua irmã e amada, havia partido para o além mundo, e Izanagi agora a traria de volta.

   No portão que bloqueia a entrada para o castelo dos deuses de Yomi, Izanagi parou, e com seu punho golpeou uma vez, e mais outra, e mais outra, e o portão estremeceu. A cada golpe, montanhas eram levantadas e ilhas desapareciam no mundo dos homens. Continuasse, e o portão se transformaria em pó, e nem deuses poderiam dizer as consequências de tal ato.

   Mas o portão foi levantado antes que por uma quarta vez Izanagi o tocasse, e, do outro lado, sua irmã o aguardava envolta em uma escuridão ainda mais intensa que as trevas que envolviam Yomi-no-kuni.

   Eles falaram.

   Izanami prometeu que pediria às divindades de Yomi, e que se elas assim permitissem, partiria com seu irmão. Pediu apenas que Izanagi não olhasse seu rosto, e que aguardasse com paciência. E, tendo assim falado, voltou para o interior do castelo.

   Mas Izanagi era impaciente, e, decidido a não mais esperar, atravessou o portão, uma chama brilhando em sua mão direita a iluminar seu caminho, os passos apressados e firmes. E, no grande salão no centro do castelo dos mortos, encontrou sua irmã, que já vinha em sua direção. E a chama em sua mão iluminou a carne putrefata. Iluminou os vermes que caminhavam em seu corpo.

   E Izanagi viu que sua irmã/amante agora apodrecia.

   E Izanagi recuou.

   Isso enfureceu Izanami, humilhada por ter seu rosto revelado para seu irmão.

   Izanagi voltou para o mundo da superfície, e Izanami jurou que ele pagaria por sua humilhação.

   Tudo isso Renato conhecia, de antigos textos sagrados, assim como sabia que Izanagi havia dado origem a doze deuses após sua fuga de Yomi, que nasceram de suas roupas e armas. O que Renato viu a seguir não era parte de nenhuma lenda que conhecesse.

   Doze deuses agora caminhavam em Yomi.

   — Irmãos, devemos ter cuidado, se queremos levar Izanami para nosso pai.

   — Você nos trouxe aqui, Chimata-no-Kami, deus das encruzilhadas, meu irmão. Os caminhos que você cria nenhum deus pode bloquear. Com você nos guiando, não iremos falhar.

   Mas, falhar eles iriam. No castelo do centro de Yomi eles entraram sem serem vistos, sua magia era grande, mas eram deuses jovens, criados há não muito, e pouco sabiam sobre seus poderes, e menos ainda o daqueles que iriam enfrentar.

   Com as criaturas das trevas eles lutaram quando estas surgiram ao seu redor. E com os homens mortos. E com deuses menores condenados a Yomi. E mesmo com seres cujo nome ou significado há muito havia se perdido.

   E venceram um e todos. Um braço machucado, um corte em uma perna, uma cicatriz em um rosto. Arranhões que os filhos de Izanagi ignoraram.

   Eles seguiram, então, juntos, pelos corredores do castelo de Yomi. Enquanto caminhavam, a escuridão aumentava mais e mais, e, logo, mesmo a luz que emanava de suas mãos não era mais suficiente para verem um ao outro. Quando decidiram se dar as mãos, perceberam que já era infinita a distância entre eles.

   Os filhos de Izanagi estavam sozinhos.

   E sozinhos caminharam uma caminhada sem fim, por corredores sem fim, na escuridão sem fim do castelo no centro de Yomi, prisioneiros eternos daquela que vieram resgatar.

  — E assim, termina o que eu tinha para mostrar, meu amigo — Quando o urso assim falou, Renato se viu dentro do lago em Ikema Jima, a água agora batendo em seu peito — e aqui está o resultado de nossa história. — O urso apontou para o Japão ao seu redor. — Sem seus deuses, também a nação deixou de existir.

   — Mas eles não podem partir de Yomi?

   — De todos, apenas Chimata-no-Kami conseguiria escapar e resgatar seus irmãos. Não há poder algum, nem mesmo de Izanami ou dos deuses de Yomi, que poderia impedi-lo de criar um caminho. — O urso respondeu, baixinho, ao seu lado.

   — Mas então, porque ele não escapa?

   — Para isso, ele precisaria saber que é um prisioneiro.

   — E o que acontece agora?

   — Lave seu rosto, meu amigo. Lave seu rosto no lago, e decida.
E Renato colocou as duas mãos na água do lago e levou ao rosto.

  * * *
Parte 5 – Chimata-no-Kami, o Deus das Encruzilhadas

   Renato jogou a água em seu rosto e, quanto abriu os olhos, um reflexo o observava do espelho em seu banheiro.

   Renato sorriu.

   — Renato, tudo bem? Você parecia estar dormindo em pé. — Jéssica entrou no banheiro. Parecia preocupada.

   — Você não tinha prometido ir embora?

   — Embora para onde? Acabei de chegar em casa. Não tô entendendo.

   — Então foi tudo um sonho? Minha viagem ao japão, tudo que eu vi?

   — Só pode, Renato. Tu tá sempre sonhando.

   — Não vai funcionar, Jéssica. Não vai funcionar.

   — Do que tu tá falando, Renato?

   — Meu nome não é Renato —e, dizendo isso, ele caminhou até a outra porta, a porta que levava para o bosque, e a abriu — meu nome é Chimata-no-kami, e é hora de sair desta prisão.



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