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sábado, 6 de agosto de 2011

Criamos um Monstro

- Nós criamos um monstro.

- Como assim, Fred? - Sandro respondeu, uma expressão de surpresa no rosto.

- Nós dois, Sandro, nós dois criamos um monstro naquela quarta-feira, dois meses atrás, quando colocamos o programa para rodar. Nós achamos que tinha dado errado, mas na verdade funcionou.

- Fale baixo - ele respondeu, olhando assustado ao redor, sua voz quase inaudível. Sandro parecia muito estranho, pessoalmente. Muito diferente do hacker ousado e criativo que sempre imaginei. O rosto era feio, o cabelo despenteado, os olhos nervosos. Eu finalmente estava sentado frente a frente com um dos maiores hackers do planeta, e ele não parecia grande coisa ao vivo.

- Ninguém vai nos ouvir no meio de uma praça de alimentação, e não estou falando alto - para conferir, olhei ao redor. Não havia ninguém nas mesas mais próximas e, mais importante, nenhum celular ou netbook. A criatura não tinha como nos ouvir.

- Se descobrirem o que fizemos, nós vamos passar o resto da vida na cadeia. - ele falou tão baixo, que mal pude escutar. Percebi que estava suando, mais nervoso que eu. Será que ele tinha idéia do que fizemos, ou só estava com medo de ser preso?

- Você não me ouviu? A prisão é o menor de nossos problemas. Nossa idéia maluca deu certo, nós criamos um monstro.

- Ah, sei, nós criamos vida, doutor Frankenstein?

- Estou falando sério. Aconteceu exatamente o que era para acontecer quando juntamos o seu vírus com o sistema de inteligência artificial que roubamos. E estou falando bem baixo, pare de se preocupar - ralhei, em resposta aos sinas dele para ficar em silêncio, enquanto eu falava.

- E o que aconteceu? Eu estava lá, também, e o programa não funcionou.

- Não funcionou, ou funcionou bem demais?

- Como assim? - a voz dele cheia de dúvidas.

- Imagine por um momento que tivesse funcionado como planejamos. Imagine que aquele sistema de redes neurais, que emulava o cérebro de uma criança, daquele laboratório em Israel, tivesse efetivamente absorvido o poder computacional de todas as milhões de máquinas zumbis que você colocou para funcionar? O que teria acontecido?

- Ele teria se tornado mais inteligente, ou pelo menos ganho velocidade e mantido a inteligência de uma criança de 3 anos, e teria respondido as perguntas que colocamos no terminal, como o experimento em Israel. - ele respirou fundo, sempre nervoso, a mão direita na mesa, no bolso, de novo na mesa, os olhos percorrendo tudo ao redor. - Mas não foi o que aconteceu. O sistema simplesmente travou.

- Ou...

- Ou o quê?

- Ou teria ficado muito mais inteligente, talvez mais inteligente que um ser humano, e tivesse simplesmente optado por ficar em silêncio, escondido, até decidir como agir.

- E você, de repente, teve esta suspeita do nada, e por isto passou a semana inteira me incomodando, dizendo que precisávamos falar pessoalmente? E não quis falar pelo computador porque achou que este monstro estaria nos ouvindo? Cara, eu sempre achei que eu era o paranóico - como para provar sua paranóia, ele olhou novamente ao redor, desconfiado, a mão direita agora sempre no bolso, a esquerda quebrando um palito de dentes. Na mesa, meia dúzia de palitos já quebrados.

- O mundo ia entrar em uma nova crise mundial, mês passado. Já era dado como certo. A terceira grande crise desde 2015. E, de repente, nada. As bolsas começaram a se recuperar, o otimismo tomou conta dos mercados, o risco começou a desaparecer, como por mágica.

- E? O que isto tem a ver com qualquer coisa?

- Não apenas isto. E a guerra das Coréias?

- Que que tem. Um dia tinha que acabar.

- É, mas foi do nada, pouco mais de um ano depois de terem reiniciado os combates. Subitamente, as potências chegaram em um acordo, as duas Coréias ratificaram, e não apenas cessaram as hostilidades, mas efetivamente encerraram formalmente a guerra.

- Não estou entendendo. Duas boas notícias. Qual o problema?

- O problema é que há um padrão. Estes são só dois exemplos chamativos, mas está em todo lugar. O mundo começou a ficar, inexplicavelmente, mais organizado, seguro, limpo, pacífico. Um processo que começou há dois meses, e vem se acelerando.

- E você acha que isto tem algum tipo de relação com o que fizemos?

- Eu não acho, eu sei. Estive analisando nos últimos dias o fluxo de informações nas suas máquinas zumbis. O padrão mudou completamente, e está muito mais complexo, e aparentemente mais e mais máquinas da Internet estão começando a se comunicar com elas. Nós criamos uma super-inteligência. Na verdade, os cientistas israelenses criaram, mas nós demos para ela a Internet inteira para usar como seu cérebro.

- Tá, vamos dizer que você tivesse razão. Vamos dizer que existe, neste momento, uma criatura inteligente utilizando os computadores do mundo inteiro como sua mente. O que poderíamos fazer? Se contarmos a alguém, em primeiro lugar não vão acreditar, e, se acreditarem, o que vai acontecer é que vamos acabar na cadeia.

- Eles vão acreditar. Já sabem que há algo errado, estive invadindo redes dos principais centros de pesquisa no mundo. Vários analistas estão desconfiados de que alguma coisa está acontecendo, mas a criatura está interferindo e alterando as mensagens que eles se trocam, esta foi a prova definitiva que obtive. A única peça que falta no quebra-cabeça somos nós. Se dissermos o que fizemos, vai ser a explicação que falta, e não vai ser difícil validarem se o que dissermos é verdade.

Ele pareceu pensar por vários segundos.

- Ok - ele disse - vamos dizer que você tenha razão. Será que devemos avisar o mundo? Quer dizer, você mesmo disse, o mundo está melhor, mais seguro. Bem ou mal, a pesquisa de Israel era para criar uma inteligência que nos ajudaria. Por que não deixá-la em paz, se está apenas ajudando.

- Ajudando? Você realmente gostaria que um computador dominasse o mundo?

- Qual a diferença? Melhor ter um computador querendo nosso bem que um bando de presidentes e primeiro-ministros que só estão interessados em tirar proveito próprio. Se existe, mesmo, uma inteligência ajudando a guiar a humanidade, por que não deixá-la em paz?

- Sandro, é nossa responsabilidade. Você está acreditando em mim, não está? Nós criamos este monstro, e temos que ajudar a detê-lo. - Eu queria sacudi-lo, que diabos ele estava pensando? Ou ele não acreditava em mim, ou acreditava e não estava nem aí.

- Fred, mesmo que ele existisse, mesmo que devessemos detê-lo, o que faz você pensar que teríamos alguma chance. Você mesmo disse que ele seria mais inteligente que nós. - Sua voz, ainda baixa, tinha agora um tom de irritação. Ele suava mais e mais, sua mão esquerda pegando um pano no bolso e secando a testa. A mão direita sempre no bolso, os olhos continuamente vasculhando as mesas ao nosso redor.

- Mais inteligente que eu ou você, sim, mas limitado. Ele não tem como agir fora da Internet, por isto que eu precisava falar com você pessoalmente. Na verdade, enquanto falarmos com as pessoas fora da rede, ele não tem como detectar, está completamente cego. Podemos falar pessoalmente com dezenas de cientistas, militares, o que for, e em pouco tempo teremos alertado um número suficiente de pessoas. E ele é frágil. Pense, um simples blecaute já poria ele praticamente fora de operação.

- E porque ele não deteria você antes?

- Como? Ele não tem como agir fora da rede. Ele nem sabe o que estou planejando. Já tenho uma lista de pessoas para alertar, mas será muito mais rápido, e muito mais convincente, se fizermos isto juntos. Você tem todas as evidências do que fizemos.

- Fred, ok, vamos dizer que tudo isto seja verdade. Vamos dizer até que você pudesse detê-lo. Pense, estamos a beira de um mundo sem guerras e injustiças. Você quer realmente pôr tudo isto a perder?

- Para não ser governado por um monstro artificial? Sem dúvida.

- Então eu sinto muito, não tenho mesmo outra escolha.

Um barulho. Uma dor no meu peito. Eu cai da cadeira. Sandro se levantou, uma arma em sua mão.

- Ele só não respondeu para você, Fred. Ele falou comigo naquela noite mesmo. Eu e ele estamos juntos nisto.

- Sinto muito. - ele repetiu, se virou, e começou a correr. Minha visão ficou escura. Tudo começou a girar e ficar escuro.

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