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FICÇÃO CIENTÍFICA  -  FANTASIA  -  TERROR.


sexta-feira, 29 de julho de 2011

Os Cinco Não Vivos - Parte 2 de 5: Kabet

Kabet

Um grito estava trancado em minha garganta, prestes a sair. A luz do quarto estava acesa, porque eu estava com medo de dormir no escuro. Um demônio estava sentado, nos pés da cama, de pernas cuzadas. Uma de suas mãos estava com o indicador cruzando os lábios.

- sshhh - ele emite um som para me fazer ficar em silêncio - se você gritar, sua mãe vai vir correndo até o quarto, e nós podemos querer matá-la. Melhor meu amigo ficar em silêncio. Você quer que sua mãe viva, não?

Eu acenei que sim com a cabeça, meu olhos arregalados, o coração batendo acelerado, retumbando em meu peito. Suor escorria de minhas mãos. Eu nunca havia sentido tanto medo em minha vida.

- Eu peguei um pedacinho bem pequeno de seu cérebro - ele levantou a outra mão e me mostrou algo que segurava entre o polegar e o indicador. - acho que você nem vai dar pela falta. - Ele abriu sua boca e colocou dentro o que quer que fosse (um pedaço de meu cérebro???), e então mastigou e engoliu.

- Ahhh, delicioso, mas tão pequeno que nem dá para matar a fome - Ele sorriu. E então ficou em silêncio, apenas me olhando por um longo tempo, seus olhos atentos, como se estivesse me examinando. Ele era exatamente como Claudia havia dito, gordo e careca, e faltava um pedaço de seu crânio, permitindo ver um pedaço de seu cérebro.

- O que vai fazer comigo? - Eu finalmente reuni coragem para falar, pois ele parecia disposto a apenas ficar ali, me olhando. Minha voz gaguejante, as palavras não querendo sair.

- Eu já fiz. - Ele ajeitou as pernas e sorriu um sorriso medonho. Sua voz, porém, parecia tranquila e descontraída quando recomeçou a falar - sabe, o cérebro humano é uma máquina fantástica, e é preciso muita habilidade para desmontá-lo com precisão. As memórias, a inteligência e os sentimentos não estão agrupados em cantinhos separados, mas espalhados por todo lugar, e é preciso muita habilidade para juntar e retirar exatamente o que queremos. E cada parte tem um sabor próprio, único. Se provasse, você iria adorar.

Eu fiquei em silêncio, o medo dominando tudo em mim. Minha visão começou a se afunilar, escurecer, e eu senti que estava quase a desmaiar.

- Você não está curioso em saber que parte de seu Cérebro eu comi? - Ele diz, sorrindo. Eu nem me movi, paralisado de medo.

- Não se preocupe, não foi nada importante. Alguns até diriam que lhe fiz um favor. Sabe, existe uma parte do homem, alguns chamariam de sua alma, que veio direto de Deus. É como se um pedacinho de Deus fizesse parte de cada ser humano. É este pedacinho que faz algumas pessoas se sentirem especiais quando rezam, é a parte que lhes permite falar diretamente com seu criador. Foi esta parte que eu comi.

Ele se aproximou então de mim, seu rosto chegando a centímetros do meu - Mas não se preocupe, todo ser humano tem outra parte de si que veio direto da serpente, do demônio. Alguns dizem que é a parte que lhe dá seu livre arbítrio. Pessoalmente acredito que é uma muito mais importante. Esta eu não toquei.

Ele estendeu sua mão até encostar em meu rosto. Eu quase gritei, mas lembrei que ele disse que minha mãe morreria se entrasse no quarto.

- Durma agora - ele disse - amanhã Matat vai querer conhecê-lo.

Ele fechou meus olhos com sua mão, e tudo ficou escuro.

Os Cinco Não Vivos - Parte 1 de 5: Luskor

Luskor

- Meninas não sabem contar histórias de terror - Pedro disse, desafiando Claudia. Ela fitou ele com olhos zangados.

Estávamos em quatro, Claudia a única menina no grupo, em meu quarto, e cada um de nós contou uma história assustadora. Pedro contou uma de vampiros, Luiz uma de lobisomem. Eu contei uma história de uma mulher que esqueceu o bebê na janela, e ele caiu do 5º andar. Achei que a minha era a mais assustadora, até ouvir a história de Claudia.

- Existem cinco arcanjos que são os protetores da humanidade. Eles foram criados por Deus e receberam a missão de proteger o homem de todo mal. Seus nomes constam de uma história que deveria fazer parte da Bíblia, mas que esqueceram de incluir quando montaram o livro.

- Só uma menina mesma para contar uma história de anjos e achar que é assustadora - debochou Pedro.

- Psiu - eu e Luiz dissemos ao mesmo tempo.

- Não seria uma história assustadora - explicou Claudia - só que Lúcifer achou que isto afetaria o equilíbrio entre o bem e o mal, privando a humanidade de seu livre-arbítrio. Assim ele criou cinco seres para serem o contraponto dos Arcanjos, os cinco não-vivos.

- Ei - Pedro interrompeu novamente - histórias de vampiros não valem, que eu já contei uma.

- Eles não são vampiros - Claudia continuou - vampiros falam sobre eles, a noite, quando querem assustar uns aos outros, como nós estamos fazendo agora. Eles bebem o sangue de vampiros como vampiros bebem o de pessoas, mas não para se alimentar, apenas por diversão.

Claudia continou então, descrevendo cada um dos não-vivos. Um deles, Matat, tinha suas mãos cobertas por um veneno que paralisava as pessoas (e os vampiros, ela comentou olhando para Pedro). Ele então fazia pequenos cortes na vítima, e ela se esvaia em sangue, morrendo lentamente, consciente mas imobilizada.

Outro, Kabet, vinha, a noite, e, sem despertar a vítima, conseguia pegar pequenos pedaços do cérebro dela com a mão. A cada dia a pobre vítima ia ficando mais confusa, perdendo memórias, até esquecer completamente quem era. Se abrissem sua cabeça, iam descobrir que uma parte de seu cérebro não estava mais lá.

Um terceiro, Luskor, assumia a exata aparência de sua vítima, muitas vezes vivendo por semanas e meses fingindo ser a pessoa que ele ocupou o lugar.

Claudia também descreveu em detalhes a aparência de cada um. Matat era alto e magro, branco, com mãos compridas, dedos mais longos do que uma pessoa normal. Kabet era baixo, gordo e careca, e parte de seu cérebro era vísivel na cabeça sem cabelos. Luskor só era visto com a aparência de suas vítimas.

A quarta não-vivo se chamava Kalith, e era uma mulher linda que seduzia suas vítimas. Do quinto não-vivo, ela só disse o nome, Adath.

- Eles são cinco, e são eternos, mas não são imortais. Quando morrem são substituídos.

- Como assim?

- Esta é a história que eu vou contar em uma próxima vez. - Ela então gargalhou.

A história de Claudia foi a mais assustadora de todas, concordamos. Até Pedro teve que dar o braço a torcer. Quando fui dormir, naquela noite, ainda assustado com a história, eu achei que veria os cinco não vivos em meus sonhos.

Curiosamente, eu tive pesadelos, sim, mas foi com a história que eu contei, só que, em vez de um bebê, era eu que caía da janela de meu apartamento. Meu cérebro se espatifando no chão, meus ossos se quebrando. Acordei com um grito contido na garganta.

Era noite ainda, e Kabet estava no quarto comigo.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Pescaria com o Avô - Terrorista/4

Márcio e Lúcia dormiam, em quartos separados, porém conectados pela rede. O suave fluxo elétrico de suas mentes a sonhar sendo transmitido de um para o outro, indo e voltando. Eles não chegavam a ter os mesmos sonhos, mas sonhavam ao mesmo tempo, em sincronia.

Márcio acordou primeiro, e abriu seus olhos para o mundo virtual a seu redor. Quase que instantaneamente sua irmã apareceu a seu lado, ainda despertando, os braços se estendendo enquanto se espreguiçava, a boca se abrindo em um bocejo.

- Onde estamos? - ela perguntou, olhando ao redor.

- É a casa do vovô. Eu estive aqui uma vez - no mesmo instante que ele respondeu, seu avô apareceu na sua frente. As duas crianças gritaram e correram para abraçá-lo.

Antônio Santos Wu pegou cada um em um braço e levantou-os, algo possível apenas na rede. Em seu corpo frágil, ele mal poderia se mover de sua cama. Eles o abraçaram e beijaram.

- O que está fazendo aqui, vovô? - perguntou Márcio.

- Você nunca vem nos visitar! - criticou Lúcia.

- Lembram que eu prometi que iria levá-los para pescar, um dia? - Ele disse, sorrindo para um e para o outro, enquanto os colocava novamente no chão - Vocês não acharam que eu esqueci minha promessa, acharam?

- Mas você nunca tem tempo para nós - Lúcia, começando a emburrar a cara.

- Pois hoje eu tenho - ele disse, e girou seu braço. O quarto ao seu redor se transformou, se encolheu ao redor deles, até se transformar em um pequeno barco no meio de um oceano azul. - E hoje nós vamos fazer nossa pescaria.

Eles passaram as próximas horas a pescar e conversar sobre coisas sem importância. Conviver com o avô era tão raro que queriam aproveitar cada momento. Os peixes eram devolvidos ao mar, após serem trazidos para bordo.

- A vida toda, eu busquei ter mais tempo para viver - ele disse, em determinado momento, quando o sol estava quase a se pôr - e vivi por muito tempo. Acho que vivi mais que qualquer outra pessoa viva. E no entanto, tive tão pouco tempo para ser pai, e ainda menos para ser avô. Ter este momento com vocês dois foi um presente inestimável que ganhei.

E então seu rosto se tornou sério. O sol se pôs e, súbito, estavam novamente de volta a sua casa. Quando continuou a falar, os gêmeos perceberam que algo grave ele tinha para dizer. Havia uma tristeza em seu olhar.

- Este dia que passamos foi um presente também para vocês, e foi real, tão real quanto poderia ter sido. Não duvidem disto, mesmo que outros digam o contrário. E lembrem-se que eu sempre os amarei, meus netos.

Lúcia olhou para ele sem entender - Por que está dizendo isto, vovô? Alguma coisa ruim vai acontecer?

Márcio apenas foi ficando branco, o avatar transmitindo com perfeição os sentimentos que passavam por ele. - Alguma coisa já aconteceu. Não é vovô?

- Vejo que você já entendeu, meu neto. Não queria estragar este momento. Seja forte, sejam ambos fortes, e sejam muito felizes. - Não foi o avô que desapareceu, mas todo o cenário, se transformando, de súbito, no escritório de seu pai.

- Onde vocês estavam? Não conseguíamos rastreá-los em lugar nenhum - a voz de Lúcio Santos Wu irritada. Seu avatar mostrando um rosto jovem, agressivo, e muito diferente do rosto do avô. Embora nunca tivessem visto seu rosto verdadeiro, Márcio e Lúcia só podiam acreditar que sua imagem real fosse uma simples versão mais jovem do avô, ambos e Márcio pertencentes a mesma matriz genética. Mesmo Lúcia também, exceto pelos cromossomos X.

- Nós estávamos pescando com - Lúcia não chegou a terminar a frase, e se calou. Um sinal imperceptível passou do irmão para ela, tão sutil que a rede não detectaria como uma mensagem. Para ela foi quase como se fosse um grito: "silêncio".

- Nós estávamos pescando, em um novo jogo virtual. Como queríamos ficar sozinhos, cortamos o rastreamento - Assim que Márcio terminou de responder, recebeu de sua irmã uma resposta, também codificada, aproveitando o mesmo fluxo de transmissão: "não o provoque".

- Vocês não podem manipular a rede. Não neste nível, vocês não têm noção do estrago que poderiam causar.

- Eu sei o que eu faço. - Márcio, olhando nos olhos do avatar de seu pai. "não o desafie, não agora, alguma coisa aconteceu", foi a mensagem silenciosa de sua irmã.

"eu sei o que aconteceu, e sinto muito, irmã. Ele vai nos dizer agora.".

- Mas não foi para isto que eu os chamei. Algumas horas atrás, seu avô faleceu. Como sabem, ele estava muito velho. Eu sinto muito - "Não, você não sente", foi o pensamento de Márcio, mas ele não o transmitiu para sua irmã. Seria cruel. Ele apenas a abraçou, em silêncio, os olhos ainda fixos em seu pai.

* * *

Existe uma caverna.

A caverna está mapeada na rede, mas ao mesmo tempo está além dela. Em registros que não fazem parte do rastreamento, criados antes mesmo do sistema operacional da rede ser construído.

É uma caverna alta e ampla, que desce até terminar em um lago escuro. A caverna é mais antiga que a rede. O lago, pouco mais recente.

Há uma mulher, sentada sobre uma rocha. Em sua mão, um cálice de vinho tinto. No chão, o corpo de um homem muito velho, na verdade o homem mais velho que já morreu.

O homem, a mulher, o cálice, nenhum deles existe de fato, são apenas registros em computadores, fluxos de bytes a circular pela rede. E, no entanto, todos são reais. Mas apenas a mulher está viva.

- Eu achei que estaria feliz. - Ela diz, falando para o corpo do homem, sem ninguém a ouvir, e bebe novamente do cálice. Ele se enche uma vez mais, do nada, de vinho. Ela está levemento tonta - Todas as vezes que imaginei sua morte, eu estava alegre. E agora você está morto de verdade, e não fui eu que o matei. E eu estou triste.

Ela se levanta da pedra, e se aproxima do morto. - Por que você me pediu este favor? Foi por você? Foi por eles? Foi por mim?

O ambiente se escurece. E esfria. - Lúcifer, é você?

- É melhor partir, Ana - Uma voz nas trevas.

A mulher se vira, olha uma última vez para o corpo, e desaparece.

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segunda-feira, 25 de julho de 2011

Invasores de Mentes

A Noite Anterior ao Encontro com o Presidente

- Se não fosse a ficção científica, estaríamos extintos - Eu disse esta frase e bebi mais um gole de cerveja, direto da garrafa. Meu irmão, John, e David, nosso colega de infância, dividiam a pequena mesa da cantina do quartel. Meu irmão não bebia, ele nunca bebeu alcool.

- Esta foi sua grande descoberta, Matt, depois de três meses na Europa? - David foi o primeiro a morder a isca, abrindo espaço para eu contar minha conclusão. Meu irmão revirou os olhos.

- Não a única, talvez nem a mais importante, mas, sim, foi uma conclusão que cheguei durante minha estada na França. Veja, o cenário que estamos lidando jamais faria parte de qualquer estudo militar realista. Nenhum exército do mundo jamais se preocupou seriamente que um dia enfrentaríamos alienígenas invasores de corpos.

- Mas a Ficção Científica já se ocupou longamente deste tema - meu irmão ajudou a completar meu raciocínio.

- Mas a Ficção Científica sim - eu repito a frase de meu irmão - na Ficção já tivemos livros, filmes, abordando inúmeras variações deste tema. Teve aquele clássico famoso e suas refilmagens no século passado, o livro daquela escritora de vampiros no início deste século, e tantos outros. O fato é que nós já tínhamos, em nosso imaginário, todo um cenário montado para exatamente esta situação.

- E isto não foi ainda pior? Quando começaram a falar que as pessoas estavam possuídas por alienígenas, ninguém acreditou justamente por parecer uma história de cinema - David retrucou, mas eu tinha o argumento todo bem fundamentado em minha mente.

- Ninguém acreditaria de qualquer maneira, no início. O importante, porém, é que havia um referencial para nos basearmos. Ok, só começamos a acreditar quando já tínhamos perdido a França inteira, mas pelo menos o que estava acontecendo podia ser explicado de uma forma compreensível para todos. Bastou dizerem, "invasores de corpos tomaram a França e estão se infiltrando no resto do mundo", para todos entenderem o que estava acontecendo.

- E você vai contar sua teoria para o Presidente Glover amanhã, na recepção?

- Claro que não, mas eu poderia. E aposto que ele iria me dar razão. Mas eu não fiquei em quarentena por duas semanas, enquanto confirmavam que eu não fui possuído, aguardando este dia, para perder o tempo do presidente com bobagens.

- Pois eu lhe dou uma razão muito melhor que sua ficção científica para ainda estarmos aqui - David esperou para ver se eu ia interrompê-lo, e então continuou - o próprio Presidente Glover, o melhor presidente da história dos Estados Unidos. Sem ele, teríamos sido varridos do mapa.

- É verdade - meu irmão concordou, e eu fui obrigado a balançar minha cabeça também, em concordância. Mesmo assim, apenas para não dar o braço a torcer, complementei - sem ele e sem os Chineses.

- Ah, os Chineses fizeram sua parte, temos que admitir. Conseguiram salvar metade da Rússia e metade da Índia, e manter os aliens longe de quase toda a Ásia, mas o que seria deles se nós tivéssemos caído? E o que seria de nós sem Glover? - A voz de David enfática, quase fanática.

- Ok - eu concordei, dando o braço a torcer. Até porque, verdade seja dia, falar mal do Presidente Glover não iria livrar nem um herói como eu de ser linchado em qualquer canto do mundo livre. - ok, eu admito. Glover conseguiu mais do que eu imaginaria possível, naquelas primeiras semanas de pânico. E olhe que eu não dava nada por ele.

- Ninguém dava - Continuou David, empolgado - o primeiro presidente independente eleito desde George Washington, e que só ganhou porque os candidatos Republicanos e Democratas foram um desastre. E, de repente, no auge da invasão, descobrimos que temos como lider uma mistura de Roosevelt e Churchil. Os discursos dele, a forma como agiu, a coragem moral de detonar uma bomba de hidrogênio no centro de Paris.

- Isto pegou os aliens despreparados - meu irmão comentou - eles tinham certeza que não haveriam ataques nucleares em áreas densamente povoadas. Ali eles quase perderam a guerra, tiveram que descentralizar toda sua produção de esporos e adiar todos os planos de expansão.

- Aquilo mudou o rumo da guerra - eu concordei com meu irmão - foi o que salvou a Inglaterra.

- A Inglaterra ainda não está salva - David, em um tom mais sóbrio - você esteve lá. Está tão ruim quanto nos noticiários?

- Pior - eu admiti. - Mas pelo menos estamos vencendo lá, diferente da África, que tudo indica que vamos perder inteira. Eles acham que em um ano teremos limpado a ilha dos alienígenas. Aí, teremos uma base de onde invadir a Europa.

- E quando isto acontecer, serão pessoas como você que tornarão possível reconquistar a Europa. Pessoas que estiveram lá e sabem como os alienígenas estão se preparando.

- Pessoas como nós - meu irmão complementou. Ele esteve comigo todo o caminho. Acho que se eu estivesse vivendo sozinho por três meses no meio dos aliens, teria enlouquecido.

- Bom - eu comecei a me levantar - amanhã o Presidente virá para me dar uma medalha. O mínimo que posso fazer é estar bem acordado e sóbrio, então, se me dão licença.

Meu irmão também se despediu, e saímos abraçados.


A Madrugada do Dia do Encontro com o Presidente

- Matt, Matt, acorde - Alguém me sacudiu. Eu abri os olhos, confuso. Era meu irmão.

- O que houve?

- O presidente chegou de helicóptero, eu vi ele com a comitiva, Matt, e você não vai acreditar...

- O que?

- Ele é um deles. - Eu soube na hora a que ele se referia. Um dos possuídos pelos esporos alienígenas.

- Impossível. Saberiam na mesma hora. No início os aliens tentaram dominar os principais lideres do mundo, mas agora tomamos todos os cuidados.

- Sim, mas nós dois vimos, lá na Europa, que os Aliens estão mais espertos também. Aposto que não há ninguém deste lado do oceano que saiba identificar um possuído como nós dois.

Eu concordei em silêncio, com a cabeça. Era verdade. Nos filmes sempre era fácil identificar um humano possuído. Ou eles falavam e se moviam de uma forma mecânica, ou tinham um brilho no fundo do olho, ou qualquer outro sinal. Na vida real era mais complicado que isto, mas depois de três meses entre eles, eu e meu irmão já sabíamos identificá-los de longe.

- Você tem certeza?

- Se não tivesse não ia lhe dizer. Mas vamos estar frente a frente com o presidente em algumas horas. Você vai ver também.

- E o que vamos fazer? Será que vão acreditar em nós se contarmos?

- Será que podemos correr o risco de não acreditarem? - A pergunta de meu irmão calou fundo. O mundo livre, a América - norte e sul - Inglaterra, Japão e China - com agora duas vezes seu tamanho original - deviam sua existência ao Presidente Glover. Mas, e se ele tivesse sido possuído, o que deveríamos fazer?

Nós passamos as próximas horas acordados, conversando, pensando e decidindo como teríamos que agir.


O Encontro com o Presidente

A arma no meu coldre, carregada, parecia pesar muito mais que seu tamanho justificaria. A esquerda, David, radiante. Seria seu primeiro encontro com o Presidente, e ainda por cima para receber uma medalha, nada menos. John, a minha direita, mais sóbrio. Ele carregava nas costas o mesmo peso que eu, de saber o que iríamos enfrentar nos próximos minutos.

Eu havia conhecido o presidente pessoalmente quando parti para a missão. Era uma missão suicida, ninguém antes havia conseguido espionar o território dominado pelos aliens e voltar. Quer dizer, voltar sem ter sido possuído.

E então eu o vi, e meu coração gelou. Era impossível para um olho não treinado perceber, mas eu sabia distinguir os menores detalhes, com a experiência de quem passou três meses no meio deles. A ligeira, quase imperceptível, dificuldade de caminhar. O leve deslocar do pescoço para a esquerda. Detalhes muito pequenos para chamarem a atenção. Naquele instante eu soube.

Eles haviam pego o Presidente Glover.

Quando ele se aproximou até menos de dois metros de mim, minha mão direita se fechou sobre a arma. O tempo pareceu se mover em câmera lenta, efeito da adrenalina jorrando em meu organismo. Eu falei para David, meu amigo de infância - Se o pior acontecer comigo, prometa que vai cuidar de meu irmão caçula.

Minha mão sacou a arma, sem que David visse, meus olhos se deslocaram para meu irmão, John, e David falou.

- Que piada, Matt. Você é filho único.

Olhei o presidente, que já estava reagindo, se jogando no chão. Olhei novamente John nos olhos, minha arma se moveu para a cabeça dele, e eu atirei em meu irmão.

E tudo ficou escuro.


No Hospital

- Ele vai sobreviver?

- Há 10 anos, eu diria que não, ou pelo menos, que se sobrevivesse seria um vegetal. Mas acho que há uma boa chance de reconstruírmos seu lado direito do cérebro. Ele está reagindo bem a terapia com implante de células tronco.

- É verdade que ele está curado dos esporos?

- Sim, o primeiro homem a conseguir isto. Mas ele é um caso único. Apenas metade do seu cérebro estava possuído, a metade que foi atingida pelo tiro. Foi um truque dos alienígenas, para que não detectássemos nos exames, para conseguirem colocar um assassino na frente do Presidente Glover. Eles estão ficando mais sofisticados a cada dia.

- Foi muita sorte que conseguiram atirar nele antes que ele matasse o presidente.

- Sorte? Minha cara, você está olhando para um dos maiores heróis desta guerra. Você está olhando para o primeiro homem que resistiu aos alienígenas. Ele atirou na própria cabeça, na metade possuída pelos esporos.

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sábado, 23 de julho de 2011

Terrorista - 3

Meu coração bate acelerado. Meu olhos começam a lacrimejar. Maldita reação involuntária.

Respiro fundo. Uma, duas vezes.

Ana me disse que eu tenho meia-hora, talvez uma hora, para sair de casa e me esconder. E que depois eu não posso acessar a rede, nem por um instante.

Eu tiro os sensores da rede e vou até o armário, procurar alguma coisa para vestir. Geralmente eu fico nua em casa, e eu raramento saio. Não tenho muitas roupas.

"Como que eu me visto? Como vou saber se vai estar frio ou quente?". As coisas são tão mais simples na rede. Eu acabo escolhendo uma roupa leve e um casaco por cima. Coloco mais uma muda de roupas em uma mochila, e então pego, escondido no armário do quarto, meu cartão falso, que eu achei que nunca iria usar.

Eu entro na rede, mas só em visual, colocando os óculos. Mesmo assim, parece mais vívido que nunca, talvez por eu não saber se não é a última vez que navego. Eu fico por apenas alguns segundos, apenas o tempo para executar minha rotina de pânico, aquela que eu fiz exatamente para esta situação, no mesmo dia que fiz o cartão, um ano e meio atrás.

Minha vontade é ficar na rede só mais um momento, mas eu sei que não posso esperar. Eu desligo o visor no exato instante que vejo todo meu cenário virtual começar a se desintegrar. Em alguns minutos nada vai restar da minha vida na rede, da única vida que já tive.

Eu abro a porta e saio de casa, para nunca mais voltar. As lágrimas agora correm soltas pelo meu rosto.

- Querida, você está bem? - a voz preocupada da Senhora Rosa me fez estremecer. "Estou no mundo real", eu me crítico mentalmente, "não tenho subrotinas me alertando quando as pessoas olham para mim".

- Estou - eu gaguejo - estou sim - Limpo o rosto sujo de lágrimas com a manga da camisa. - Briguei com um amigo, só isto, mas já estou bem - invento a primeira desculpa que me ocorre.

- Eu sei que você vive na rede, querida, mas tem um mundo inteiro aqui fora, também. Você devia sair mais vezes - Tem sim, um mundo sujo, lento e limitado, e eu estou presa nele. Mas é óbvio que eu não digo isto.

- Aqui fora não é para mim, você sabe - eu respondo com sinceridade.

- só queria sair um pouquinho da rede - eu continuo, com a coisa mais absurda que eu já disse, mas se alguém acreditaria nisto é a Senhora Rosa. Ela e seu marido vivem juntos, juntos mesmo, dividindo um apartamento. Se me dissessem que ela nem tem login, eu acreditaria.

Eu me despeço, e saio do prédio. Na rua, um vento frio sopra. Sorte ter pego um casaco.

Eu caminho uma quadra e desço a escada para pegar o metrô. Uma dúzia de câmeras já filmaram meu rosto, mas se meu programa funcionou, vai levar horas até perceberem que meu rosto verdadeiro foi transferido para um perfil falso. Mas não posso perder tempo para chegar até o refúgio que Ana me indicou.

Eu fico em silêncio, encolhida, nas horas seguintes, só me movendo para trocar o metro por um trêm magnético. Na rede a viagem seria instantânea. No trêm, no meio da viagem, eu começo a chorar. "fraca", eu digo para mim mesma. "Se Ana estivesse aqui, eu podia aguentar estar fora da rede", eu falo sozinha, e então rio de meu próprio absurdo. Ana só poderia estar comigo se eu estivesse na rede.

É noite quando chego em São Paulo. Quando desço da estação uma pessoa vem falar comigo, tentar me vender alguma coisa. Eu levo alguns segundos para entender, até me dar conta que ele está falando em português. Eu respondo que não tenho interesse, em inglês padrão. Ele me xinga e se afasta. Eu engulo em seco e começo a caminhar mais rápido, vendo mais vendedores se aproximando. Entro no primeiro Taxi que vejo.

Eu passo o endereço que Ana me deu para o computador do taxi, e ele sai veloz pela rua. Eu olho pela janela, com um fascínio mórbido. É este o mundo que eu habito agora. Um mendigo olha para mim. Somos iguais, igualmente desconectados.

- Mary, você vai ter que mudar os planos.

- O que - eu grito, o coração batendo acelerado. Taxis normalmente não falam com passageiros, e eu havia apagado meu nome verdadeiro da rede.

- Ana? É você - a esperança me invade, e só então me dou conta de quão sozinha estou me sentindo, quão abandonada.

- Não, Ana está ocupada, fugindo do rastreamento. Ela me pediu para manter um olho em você.

- Quem é você?

- Ninguém. Apenas um amigo. Estou alterando o destino do taxi, mas você precisa decidir para onde ir.

- Por quê? Estou indo para o endereço que Ana me passou - preciso cuidar o que digo. Nada me garante que ele fala a verdade.

- Já foi abandonado. Está sendo monitorado pelo governo. Estão esperando por você lá.

- Então não sei para onde ir...

- Sinto muito, tenho que ir. Já me envolvi demais.

- Espere. Quem é você?

- Já lhe disse. Ninguém.

Eu falo mais uma, duas vezes, sem obter resposta, e sei que estou sozinha novamente. Sozinha em uma cidade estranha, desconectada da rede, com meu tempo acabando. Não vai levar muito tempo para identificarem minha id falsa.

Então eu indico o único local que me restou. Só por não ter nenhuma alternativa.

Meia hora leva para eu chegar na casa, dez minutos a pé, caso rastreiem o taxi, como o amigo de Ana fez. Outro programa de computador, eu tenho certeza. Nenhum navegador humano poderia ter me achado tão rápido.

O homem abre a porta quando toca a campainha. Eu peço para entrar.

Há uma mulher com ele, e um garoto, pouco mais jovem que eu. Droga. Pensei que ele estaria sozinho.

Eles me ouvem, a versão editada de minha história, é claro. Apenas o suficiente para saberem que o governo está atrás de mim, que eu preciso de refúgio, e que será perigoso me ajudarem.

- Minha jovem, não queremos problemas. Porque veio aqui? Porque bateu na nossa porta? - Droga, eu repito para mim mesma. Eu realmente não queria que a família dele estivesse junto. Quase me levanto e saio, mas eu não sei mais para onde ir. Eu não tenho outra escolha, além de responder.

- Por que você é meu pai.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Alien a Bordo - Parte 2

Foram horas e horas de discussões, de teorias sendo formuladas, apenas para serem em seguida descartadas. Com o tempo, a desconfiança foi aumentando, junto com o cansaço e a irritação.

Algumas revelações surgiram.

Even participou dos protestos estudantis de 2315, esteve presa, mudou o nome, recebeu uma permissão especial do governo para começar uma nova vida.

Laos participou de uma seita ilegal que defendia a rendição para os alienígenas, por acreditar serem eles seres superiores. Ele foi um forte suspeito de ser o traidor. Até que revelou o que o fez sair da seita e se alistar. Sua irmã morava em Colônia 7, o mundo que os aliens transformaram em um inferno radioativo. Ninguém mais questionou sua lealdade.


Foi a suspeita de Margô que atingiu a todos de forma mais
impactante.

- Eu sei quem é o único aqui que pode ser o traidor - ela disse.

Nós olhamos para ela, curiosos. Sua pausa obviamente para gerar mais impacto na revelação.

- Ava. O único traidor possível é Ava.

- Margô - Ava respondeu de imediato - eu sei que você tem restrições aos sintéticos, mas esta hipótese não faz sentido.

Foi a mais longa das discussões. Por um lado, não víamos como os alienígenas poderiam ter alterado Ava. Boa parte de sua personalidade era fixa, não sujeita a manipulação. Por outro, todas as outras alternativas também não pareciam fazer sentido.

Por fim, a discussão se encerrou com base no argumento mais importante de todos. Se os alienígenas estivessem conseguindo controlar os sintéticos, então a guerra já estava virtualmente perdida. Na verdade, se Ava assim desejasse, não teríamos sequer sabido da suspeita de haver um espião na nave.

- Ava, Olf, estou propondo abortar a missão e retornarmos. Preciso da concordância de vocês dois. Não podemos seguir adiante com o risco de um espião na nave.

Mais alguns minutos se seguem, de discussões adicionais, últimas idéias, mas, por fim, há a concordância. A missão é abortada. Ava abre a porta para sairmos.

Em minha cabine, eu olho para meus braços e os pequenos tentáculos verdes na ponta de cada um. Eu penso na mensagem. - impeça a nave de chegar a seu destino, não importa como - e agradeço por ter conseguido cumprir meu objetivo sem a morte de nenhum dos seres que aprendi a respeitar.

"Algum dia voltarei para meu corpo? algum dia serei humano novamente?" eu falo em silêncio comigo mesmo, e me pergunto quando terminará minha missão.

Alien a Bordo - Parte I

Eu olho para o rosto de cada membro da tripulação. Em sua maioria, estão confusos por eu ter reunido todos em nossa sala de reuniões, especialmente depois de Ava ter trancado a porta. Eu havia dito para ela abrir apenas quando tudo estivesse resolvido.

- Um de nós é um espião - eu digo, e observo a reação deles.

O que se segue são alguns instantes de confusão e vozes falando ao mesmo tempo, até que levanto os braços pedindo silêncio. - Amigos, vocês ouviram corretamente. Um de nós é um espião. Ou descobrimos quem é, ou abortamos a missão.

- Ralph, é impossível. - Olf, o mais velho de nós, fala. Passada a surpresa, o respeito a hierarquia e aos mais antigos se reestabelece naturalmente. - Nós mal conseguimos nos comunicar com o flagelo. Quem em sã consciência iria espionar para eles?

- Tudo verdade, Olf. E, no entanto, um de nós é efetivamente um espião. Ava, relate para todos o que acabou de me contar.

- Pois não, Ralph - a voz sintética do computador central da nave indistinguível de uma voz natural. - A informação veio na última transmissão que recebemos, e devo dizer que, com base nos fatos transmitidos, concordo com as conclusões do comando central. Há, com altíssimo grau de probabilidade, um espião nesta nave.

- Com todo respeito a você e seus colegas do comando, Ava, não seria a primeira vez que um sintético chega a conclusões totalmente falsas. - Margô era a analista chefe, e certamente a mais ponderada e lógica de toda a tripulação. Curioso que justamente ela tivesse as maiores ressalvas em tudo que envolvia inteligências artificiais - É por isto que orgânicos seguem sendo responsáveis pela decisões estratégicas de alto nível.

- Estou ciente de nossas limitações, Margô, e o percentual de erro em nossas conclusões é hoje incluído em toda análise estatística que fazemos. Entretanto, as conclusões já foram validadas pelo alto comando, que, como você sabe, é exclusivo de orgânicos - a voz de Ava contendo um leve traço de reprovação no final da frase. Há anos, sintéticos vinham questionando o que chamavam de 'discriminação por origem', insistindo que pelo menos um computador deveria fazer parte da cúpula do comando central.

- Sugiro que deixem Ava concluir seu relato - eu intervenho.

- Obrigado Ralph. Para contextualizar melhor nossas conclusões, primeiro apresentarei um breve relato de nossa situação atual.

Eu mal presto atenção, enquanto Ava relata, de forma muito resumida, os acontecimentos das últimas quatro décadas. Obviamente desnecessário, mas sintéticos parecem sempre duvidar da nossa capacidade de reter informações. Ela rapidamente passa pelos primeiros contatos com os alienígenas, pela destruição dos mundos coloniais, pelas tentativas de comunicação, enquanto ainda se acreditava que poderia ser tudo um mal entendido, até a mobilização para a guerra e as primeiras batalhas no espaço.

- Nos últimos dez anos - Ava continua - embora tenhamos em grande parte detido o avanço alienígena, percebemos que eles pareciam antecipar nossos movimentos, em um grau que não poderia ser facilmente explicado pela sorte, ou mesmo por um adversário com inteligência superior a nossa. Inevitavelmente, nós, sintéticos, chegamos a conclusão que a única explicação racional era a presença de espiões entre nós.

- E o alto comando concordou com esta conclusão? - Margô, mantendo seu ceticismo.

- Na verdade, inicialmente não. Orgânicos tem dificuldade em aceitar conclusões sem evidências diretas. Estas evidências foram finalmente obtidas.

- E quais são elas, Ava? - Olf, novamente.

- Pouco depois de iniciarmos nossa viagem, uma mensagem codificada foi enviada para esta nave. Temos próximo de 100% de certeza que foi enviada pelos alienígenas. A conclusão lógica é que há alguém nesta nave que recebeu esta mensagem, alguém que está em comunicação com o flagelo.

- E, senhores - eu interrompo - não sabemos quem recebeu, não sabemos suas intenções, e não sabemos o conteúdo da mensagem. Mas, como comandante da nave, eu tomei a decisão de abortar a missão, a menos que descubramos, aqui e agora, quem de nós é um traidor.

continua....