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FICÇÃO CIENTÍFICA  -  FANTASIA  -  TERROR.


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Ardath em: O Velho e o Demônio 4/6


Lucy
   Eu sai da biblioteca atravessando a porta sem abri-la, caminhando pelo mundo das sombras como Kabet me ensinou, perdido em meus pensamentos sobre as consequências do que havia acabado de fazer. E dei de cara com Lucy, que pelo visto estava atrás da porta. Caímos no chão, eu por cima dela, o sangue em mim se esfregando no corpo dela. Ela arregalou os olhos quando viu meu rosto sujo de sangue.
   - Você o matou! Você realmente matou meu pai.
   Eu tentei me explicar ao mesmo tempo que tentava sair de cima dela, quando uma dor aguda me dilacerou por dentro, mais forte do que qualquer coisa que eu já tenha sentido. Eu gritei e me afastei, me levantando cambaleante. Segurei minha barriga com a mão e fiquei apavorado ao ver sangue escorrendo aos montes e se espalhando pela minha roupa. Muito mais sangue do que eu tinha me sujado antes.
   Eu estava quase gritando novamente, desta vez por socorro, quando a vi se levantar, uma faca pequena mas brilhando na penumbra do corredor em sua mão, com sangue escorrendo da ponta. Meu sangue.
   Ela  veio na minha direção, a faca apontada para meu pescoço.
   Acho que Kabet não vai ficar muito orgulhoso de mim. Ele passou dias e dias me ensinando a dominar meus poderes. Como paralisar pessoas, como fazer o sangue delas ferver, como simplesmente explodi-las com um gesto. Eu não consegui fazer nada destas coisas, só fugir   apavorado.
   Eu entrei no mundo das sombras, atravessando as paredes da casa e depois alterando a realidade ao meu redor, até parar no ponto de encontro com Kabet, um apartamento vazio em uma cidade que eu não conhecia.
   - Você está ferido - foi o único comentário de Kabet, quando desabei no meio do apartamento, e foi dito como se ele estivesse falando sobre o tempo ou meu corte de cabelo, sem ponto de exclamação nem nada. Mesmo assim ele se ajoelhou ao meu lado e rasgou o que restava da minha camisa. Um pedaço das minhas tripas estava saltando para fora da barriga, mas estranhamente a dor já estava passando. Meu pavor não.
   - Você consegue me curar? - Eu perguntei.
   - Provavelmente sim, mas não fica bem demônios começarem a ficar curando as pessoas, mesmo outros demônios - ele se levantou - isto é o tipo de coisas que anjos fazem. Você vai sobreviver, desde que não deixe suas tripas cairem para fora. Fique segurando com a mão.
   - Grande ajuda você é - eu disse. A dor tinha passado totalmente, mas eu fiquei pressionando meu ferimento com a mão, sem saber se ele estava falando a verdade ou não - Não vai me perguntar o que aconteceu?
   - E precisa? Você está todo sujo de sangue. A maioria seu, dá para sentir pelo cheiro, mas tem também sangue do velho. E pelo visto Lucy não gostou muito que você tenha matado o pai dela.
   - Que tipo de demônio ela é? Você tinha me dito que só tinha humanos naquela casa - enquanto falava eu me levantei tentativamente, devagar. Podia não estar sentindo dor, mas dava para ver que eu precisava continuar segurando alguma coisa. Eu olhei de canto de olho para o ferimento e quase vomitei, minhas pernas querendo fraquejar, e prometi que não ia mais olhar até começar a cicatrizar.
   - Ela não é um demônio. Lamento ter que dizer isto, mas uma garotinha de 12 anos 100% humana quase acabou com você, e ainda o fez fugir com o rabo entre as pernas. Se serve de consolo, o inferno inteiro sabe que ela tem um gênio do cão.
   - Quem é ela? Quem era o velho?
   Kabet ignorou minha pergunta.
   - Venha, vamos trocar sua roupa. Se apresentar a Lúcifer com roupas ensanguentadas até pode ter estilo, mas acho que você se mijou também. Não precisamos que você estrague ainda mais nossa reputação com o chefe.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Ardath em: O Velho e o Demônio 3/6

Sir Denis N. Smith

   - Eu não tenho idade para beber - eu respondi depois de sentar no sofá, recusando a taça de vinho que Sir Denis serviu e me ofereceu.
   Ele sorriu ao me responder - Você é um dos cinco não-vivos, cinco dos mais importantes demônios do inferno. Você recebe suas ordens diretamente do velho Lúcifer. Anjos e homens têm temido o que você é há incontáveis séculos. E você vai recusar meu vinho porque não tem idade para beber?
   - É - eu respondi, simplesmente, encolhendo os ombros. Não saberia o que mais dizer.
   - E você veio para me matar. Aposto que seu chefe não lhe deu nenhuma explicação. Apenas disse para você vir até a minha casa e fazer seu serviço - Sua voz era tranquila, sem mostrar nenhuma emoção. Eu não sabia se devia confirmar ou negar, então não falei nada. Ele continuou.
   - E Kalith o trouxe até aqui. Ela lhe disse para não perder tempo me ouvindo, e simplesmente me matar assim que me visse.
   - Kabet - Eu respondi com apenas uma palavra.
   - Como?
   - Foi Kabet quem me trouxe. Mas o resto é verdade. Ele disse para matá-lo assim que o encontrasse.
   - Kabet, hein? Interessante, sempre imaginei que Kalith iria prepará-lo para seu papel.
   O velho suspirou, bebeu mais um gole de seu vinho e com um gesto me ofereceu novamente a outra taça, que recusei com um sinal de não.
   - E aqui você está, tendo recusado meu vinho por não ter idade suficiente para beber. Sentado, conversando comigo, quando lhe disseram para justamente não fazer isto. Agora mesmo se perguntando se vai ou não vai ter coragem para me matar. Perdoe-me a sinceridade, mas minha filha daria um demônio melhor que você.
   "Provavelmente sim", eu pensei em silêncio, sem responder ao estranho homem. Cinco minutos com sua filha mais estranha ainda e eu tinha pensado a mesma coisa.
   - E o que você vai fazer agora? Esperar que eu tente fugir ou lutar? Talvez ser obrigado a me matar para se defender? - Sir Denis balançou  a cabeça - Não, não vou facilitar seu trabalho. Pouca importa sua idade, ou há quanto tempo assumiu seu papel, você é um dos mais poderosos demônios do inferno. Eu sou apenas um velho. Você pode me matar estalando os dedos - com um gole, ele esvaziou sua taça - se vai fazê-lo, faça-o agora.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Ardath em: O Velho e o Demônio 2/6


Kabet
   Meu coração estava acelerado, e eu me perguntava como teria coragem para matar um velho. Como queriam que eu fosse um demônio, se eu continuava sendo eu mesmo? Eu me lembrei de ter conversado com Kabet sobre isto.
   Foi Kabet quem me trouxe até a casa de Sir Denis Smith, para que eu entrasse e o matasse. Nós viemos conversando todo o caminho, enquanto o mundo ao nosso redor se transformava, a medida que íamos de um continente para outro, e depois de uma cidade para outra. Viajar pelo  mundo das sombras foi uma das primeiras coisas que Kabet me ensinou.
   Era estranho que Kabet fosse o único dos não-vivos que eu me sentisse confortável em conversar. Principalmente porque, de todos, foi ele que mais me assustou quando os conheci. Mas tudo em ser um demônio era estranho e diferente do que eu imaginava, e eu disse isto para ele.
   - É mesmo? Diferente em que sentido? Como você imaginava que iria ser? - Kabet conversava tranquilamente, enquanto viajávamos. Eu imaginei que já não era novidade para ele, ele havia me comentado que era o mais antigo desta encarnação dos não-vivos. Para mim, era fascinante ver casas, ruas e pessoas aparecerem e desaparecerem, enquanto andávamos, viajando através do planeta.
   - Não sei. Acho que eu imaginava que ia me transformar em algum tipo de monstro. Que ia deixar de ser eu. Mas eu continuo sendo o mesmo Julio, e acho que é isto que me assusta - Ele me olhou com uma cara estranha, e eu abaixei meus olhos. Sempre que olhava seu rosto, não conseguia deixar de ver o pedaço de cérebro aparecendo, e isto continuava a me dar uma sensação ruim.
   - Você preferia ter se transformado em um monstro? Por quê?
   Falando assim, parecia mesmo estranho. Não, eu não queria ter me transformado em um monstro, e eu disse isto para ele, e continuei, me explicando melhor - só que não entendo como querem que eu seja como os outros demônios, eu sou só um garoto. Agora, eu devo entrar nesta casa e matar um velho que eu nunca vi? Como que eu vou fazer isto? Eu não quero matar ninguém.
   - Você fará o que desejar fazer, garoto. E terá que pagar o preço de suas decisões, para o bem e para o mal, como todo mundo - Com estas palavras, ele se despediu.
   E eu deixei Kabet para trás e vim para esta casa, para matar um velho. E agora ele estava à minha frente. À minha espera, havia me dito sua filha.
   - Não fique parado aí, garoto. Entre e feche a porta. Abri um vinho para nós.
   Ao lado de uma lareira ele estava sentado, uma taça de vinho em sua mão, um outro sofá vago a sua frente, que ele apontava com a mão. O gesto um convite. Em seu rosto um sorriso.
   "Este é o homem que devo matar", eu pensei, enquanto me aproximava.

Ardath em: O Velho e o Demônio 1/6

Lucy
   Me chamam de Julio. Eu tenho 12 anos, e não sou diferente de qualquer garoto da minha idade. Pelo menos eu achava que não era, até mês passado. Eu não era da turma dos populares na escola, nem era o melhor jogador de futebol ou o lider da turma, mas também não tinha problemas em fazer amigos. Eu me achava comum.
   Claro, eu apenas achava que era comum.
   Meu verdadeiro nome é Ardath.
   E eu sou um demônio.
   Foi o que disse para a garota na minha frente - Eu sou Ardath, o  demônio - quando ela perguntou quem eu era. Ela parecia ter a minha idade, e não sei como ela me descobriu, quando entrei atravessando a parede da casa como se não existisse. Era noite e tenho certeza que não fiz nenhum barulho.
   Não vi razão para inventar muito, já que ela estava me vendo na minha verdadeira forma, sem disfarces, o rosto vermelho, o cabelo feito de chamas. Me surpreendeu que ela simplesmente perguntasse quem eu era em vez de gritar ou sair correndo. Me impressionou ainda mais sua resposta.
   - Oi. Eu sou Lucy - ela me estendeu sua mão. Eu hesitei, sem saber o que fazer. Eu sou novo nesta coisa de ser um demônio, mas me parece meio estranho dar a mão para as pessoas. Demônios deveriam ter algum tipo de cumprimento mais assustador, alguma versão macabra de "vida longa e próspera". Sem saber o que fazer, eu segurei sua mão.
   - Ah, oi. Por que você não está gritando ou fugindo? - Eu sei que não soou muito assustador, ainda mais que era óbvio que eu não sabia muito bem como me portar. Eu não sou muito bom como demônio. Na verdade, quem quero enganar? Sou um péssimo demônio.
   A garota, Lucy, porém, parecia muito mais segura de si do que eu - Não tenho medo de demônios. O que você quer, e por que está invadindo nossa casa no meio da noite?
   Novamente hesitei. Definitivamente as coisas não estavam saindo como eu imaginei, e eu estava começando a ficar nervoso. "Existe uma casa. Há um velho nela, ele utiliza hoje o nome de Sir Denis Smith. Entre, encontre-o e mate-o". Esta era a missão, simples assim. Eu já tinha descoberto que Lúcifer não era de dar muitas explicações.
   A garota estava agora com os braços cruzados, parada a minha frente esperando minha resposta, o pé esquerdo batendo impaciente no chão.
   - Eu, ah, eu vim falar com o Senhor Smith. Senhor Denis Smith - finalmente eu gaguejei. Definitivamente nada assustador. Menos que a garota, que me olhava com um olhar furioso enquanto me corrigia - 'Sir' Denis Smith - Por alguma razão ela começava a me dar medo, ela daria um demônio melhor que eu, tenho certeza.
   - É, eu imaginei - ela continuou - Venha, te levo até a biblioteca. Papai está te esperando lá - ótimo, o velho que eu devia matar era o pai dela.
   Eu a acompanhei pelo corredor e uma escada, até pararmos em frente a uma porta, e então ela a abriu e se virou para mim.
   Os lábios dela tremiam agora, ela não parecia mais tão controlada, e piscou algumas vezes. Fiquei com a impressão que estava prestes a chorar, e a voz dela estava meio embargada quando ela falou, antes de me dar as costas e sair corredor afora em passos rápidos.
   - Por favor, não mate meu pai, tá.

sábado, 24 de novembro de 2012

Niq de Alashiya e a Cidade das Três Deusas - 3


   O vento soprava forte no alto da torre norte do templo das três deusas, não encontrando árvore, construção ou elevação em seu caminho que lhe tirasse força. Quente e úmido, anunciava a chegada das chuvas.
   Ele fazia corrrer soltos os longos cabelos tingidos de preto de Shahad, a segunda das três, que olhava o porto de Kilquitai, e o distante mar, perdida em pensamentos.
   O vento também tocava o rosto e o corpo de Ishaad, a primeira das três, balançando apenas seu manto, o cabelo grisalho preso em uma armação de pérolas. Ela não olhava nem o mar, nem o porto, mas seus pensamentos estavam igualmente distantes.
   "Eles sempre foram assim, primeira de nós? Sempre foram tão arrogantes, e eu que não percebia?", a voz de Shahad baixa o bastante para não ser levada pelo vento, mas com um tom claro de irritação.
   "Quando eu era Shayin, eles se prostravam a nossos pés sem hesitar um instante, como todos os nossos filhos. Naquela época qualquer homem ou mulher de Kilquitai entregaria feliz o primogênito em sacrificio, se Ishaad assim comandasse", o olhar de Ishaad distante, enxergando não o aqui e agora, mas o passado distante.
   "Quando eu me tornei Shahad, e você se tornou Shayin", ela continuou, "eles começaram a se sentir mais poderosos, acima dos outros de nossos filhos. Ishaad e eu nos perguntávamos o que seria o futuro, se continuassem a seguir este caminho. Eles se tornavam mais arrogantes a cada dia, muitas vezes faltavam com o respeito a mim. Apenas Ishaad sabia como colocá-los em seu devido lugar".
   "E agora está pior do que nunca". Shahad disse, a voz cansada.
   "E agora está pior do que nunca", concordou Ishaad, "desde a passagem. Desde que me tornei Ishaad e você se tornou Shahad. Eles fazem as reverências corretas, prometem obediência eterna, mas posso sentir no olhar que me enxergam como se eu ainda fosse Shahad, como se não me devessem o mesmo respeito da que veio antes de mim."
   "E a mim eles tratam como se eu ainda fosse Shayin, uma criança e não a mãe de todos eles. Isto é intolerável. Algo terá que ser feito."
   "Algo será feito. Shayin está orando. Ela verá com a visão pura da deusa, e nos trará respostas. Iremos ouvir, e então decidir o que fazer."
   "Seja o que for, terá que ser uma lição que eles não esquecerão. Uma lição que seja lembrada por seus filhos, e pelos filhos de seus filhos. Que nunca os faça seguir novamente por este caminho de arrogância. Malditos mercadores."
   "Malditos mercadores.", concordou Ishaad.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Niq de Alashiya e a Cidade das Três Deusas - 2

   Niq cresceu ouvindo histórias do mundo para além de Alashiya, com gigantes de um olho só e três metros de altura, e criaturas metade homem, metade cavalo. Cidades feitas de ouro, e torres mais altas que o céu. Espadas encantadas, eternamente afiadas e mais fortes que o mais forte bronze, e mulheres guerreiras que venciam até o mais destemido dos homens.
   Foi o que ele contou para Arguil, quando este lhe perguntou o que ele sabia do mundo para além de Alashiya. A resposta de seu pai foi gargalhar. "Fiz bem em trazê-lo comigo, antes que enchessem ainda mais sua cabeça de bobagens".
   E então seu pai começou a ensiná-lo, todas as noites, sobre cada uma das cidades que ele visitou. Seu pai, que mal havia lhe dirigido a palavra, durante toda sua vida, e que sempre lhe inspirou mais temor que afeição, agora mostrava um novo lado: Arguil contador de histórias.
   Foi um aprendizado, mas como nenhum outro que Niq teve em sua vida, diferente até mesmo das lições de seu tio Magreb. Para seu pai, cada cidade era uma história, e a cada noite ele contava sobre um povo, sua lingua e costumes, que deuses eles obedeciam, e também coisas que Niq não entendia totalmente. Quem era o verdadeiro poder em cada cidade, quem desejava obter este poder, que outras cidades eram aliadas, quais eram inimigas.
   "Não confie em ninguém que não nasceu em Alashiya", seu pai lhe disse, " e talvez nem mesmo nos que nasceram em nossa terra. Até o homem mais leal pode ser comprado pelo preço certo". Niq não acreditou nisto, mas não teve coragem de questionar seu pai.
   Assim, ele sabia o que esperar no porto de Kilquitai, mas a realidade da primeira cidade que ele viu fora de Alashiya não pôde deixar de decepcioná-lo. Não era maior, talvez mesmo fosse menor que sua cidade natal, e não havia grande movimento no porto. Apenas as construções tinham uma forma diferente, telhados mais pontudos, paredes mais coloridas.
   "Veja, Niq! Olhe os navios, como são diferentes! E as pessoas, olhe as roupas que estão usando!", ele quase deu um pulo, tão distraído que não percebeu Ashiderey a seu lado. Era difícil acreditar que seu amigo já tinha quinze anos, ele sempre falava com o entusiasmo e deslumbramento de uma criança, e Niq suspirou.
   "Os navios são mais lentos que os que construímos em Alashiya, Ashi. Arguil disse que nenhum consegue viajar para tão longe quanto nossos barcos. E as roupas são como se vestem em todas as cidades desta costa."
   "Arguil disse isto, Arguil disse aquilo. É tudo que ouço de você desde que subimos a bordo", Ashiderey respondeu, frustrado com Niq. Ambos estavam em sua primeira viagem, e ele não conseguia entender por que seu amigo não estava igualmente empolgado.
   "Desculpe. Vamos, ainda temos que convencer meu pai a nos deixar descer junto com os outros marinheiros, quando aportarmos".
   Foi Ashiderey que falou, tentando soar como um marinheiro veterano  se dirigindo ao capitão do navio. Niq havia visto como os marinheiros falavam com seu pai, o tom informal e geralmente recheado de blasfêmias, e não se parecia em nada com a tentativa de Ashi de parecer um tripulante experiente, mas ele achou melhor não comentar.
   "Capitão, pedimos permissão para descer em Kilquitai, quando o navio aportar".
   Arguil primeiro olhou para eles, em silêncio, e ambos se encolheram, involuntariamente. Depois suspirou.
   "Não se afastem dos outros marinheiros, não falem com ninguém que não lhes dirigiar a palavra. Não falem nada sobre nossa carga ou para onde vamos depois de Kilquitai", e então ele dirigiu o olhar diretamente para Niq, "você vai esperar no navio até termos uma resposta da audiência com as deusas. Se for hoje, não quero ter que procurar por você no porto".
   Niq hesitou, em um primeiro instante frustrado, mas então entendeu melhor o que havia sido dito, "você quer dizer que eu vou ir junto?".
   Arguil não respondeu sua pergunta, apenas mandou que voltassem as suas atividades. Havia muito para fazer enquanto o navio se aproximava do porto.
   "Vamos fazer assim, eu conto tudo que vir no porto, e você me conta como é o templo das deusas, está bem?", sugeriu Ashi, e Niq concordou com um gesto, ainda em dúvida se seu sentimento era de fustração por ter que aguardar no navio, ou ansiedade por em breve acompanhar seu pai em uma audiência oficial.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Último Rei Orco Capítulo I - Revisão 1

Nota do Autor: revisão 1 do capítulo 1.

O Último Rei Orco - Capítulo I


   Nos muros de Çatal Hoyuk, a cidade sitiada, guerreiros aguardavam nervosos, se perguntando quando começaria o ataque. Apenas a fé em JUS PATER, o Deus Pai dos primeiros homens, ainda sustentava sua esperança, cercados que estavam por uma força muito superior. Se caíssem, restaria apenas Asikli Hoyuk, a primeira cidade, como último baluarte do homem, e JUS PATER não deixaria isto acontecer.
   Ao redor da cidade, os Orcos também aguardavam, disciplinados e organizados como nunca antes estiveram, divididos nos dois grandes acampamentos das tribos de In e de El e em pequenos grupos das tribos menores. Eles esperavam pela palavra de seu chefe, Makel, que buscava uma audiência com os Deuses.
   "Como impedir que sejam os homens a herdar a Terra?". Em sua tenda, cercado por sua família e seus mais fiéis guerreiros, Makel pensou em silêncio. Esta era a pergunta que o Rei Orco tinha para os Deuses, a pergunta que permanecia em sua mente desde que seu irmão mais jovem havia trazido a palavra dos deuses do além-vida, que seriam os Homens, não os Orcos, que herdariam a Terra. A pergunta que Makel pagou com seu olho, sua mão e sua esposa, para ter dos Deuses a resposta.
   O Rei Orco fechou seu olho verdadeiro, e se deixou levar pela visão do dragão. Mais que visão, era como cavalgar um dragão de verdade. Como cavalgar o vento. Ele nem viu a taça de Nectar cair no chão, escapando da mão que lhe sobrara, enquanto o vento o arrastava para outro mundo. Os soldados que o cercavam impediram que seu corpo caísse, e o colocaram com cuidado em uma cama feita de pele de carneiros.
   A frente do Rei Orco, em sua visão do dragão, N-BIS, um deus menor, surgiu em meio a uma névoa sem fim, cessando, no mesmo instante, o vento que arrastara o rei até aquele local. A imagem de N-BIS era translúcida e intermitente, aparecendo e desaparecendo a cada instante. "Com dois olhos de dragão, minha visão seria perfeita, mas arrancar meu olho esquerdo já foi um preço alto demais", pensou o Rei Orco, "melhor enxergar um pouco no mundo dos deuses e um pouco no mundo mortal que ser cego em um deles".
   - Um Orco, aqui? Veio entregar seu coração como oferenda para N-BIS? - A voz era sibilante, quase um uivo.
   - Não vim para fazer oferendas, devorador de corações, vim para obter respostas.
   - Respostas? Acaso agora os deuses são servos, e os mortais reinam supremos? Acaso agora cabe a mortais fazer perguntas, e a deuses dar respostas?
   - Eu paguei o preço. Minha mão pela vida do dragão. Meu olho pela sua visão. Minha esposa em sacrifício, oferenda ao arqueiro APOL, deus da verdade. Leve-me a ele. Agora!
   - Falarias assim com Z-US PAI? Com V-NU ou J-VA? Pensa em mim como um deus menor, não é? Mas também a N-BIS a aqueles que seguem, Rei dos Orcos. Farias bem em lembrar isto.
   O Rei Orco ficou em silêncio, sem responder, mas também sem abaixar sua cabeça. Seu único olho aberto, o olho do dragão que ele colocou no lugar de seu próprio, fixo no rosto de chacal de N-BIS.
   Por fim, N-BIS lhe deu as costas e falou, sem olhar para trás - Siga-me, então, último rei dos Orcos. Eu o levarei a APOL.
   O Rei Orco seguiu em silêncio o devorador de corações. O olho direito, seu olho verdadeiro, sempre fechado. Abri-lo por um momento faria ele despertar de seu sonho divino.
   Ou enlouquecer.
 * * *
   O arqueiro APOL, filho de Z-US, era o mais lindo dos deuses, tão alto e belo quanto um Orco, um gigante perto dos minúsculos humanos. Ele, mais que ninguém, saberia a resposta a pergunta do Rei Makel.
   N-BIS havia se retirado, sem nada dizer, enquanto o Rei Orco aguardava que APOL se dirigisse a ele. Foi um longo tempo de silêncio, até que o deus finalmente levantou os olhos, que contemplavam uma pequena poça de sangue a seus pés, e, ao olhar para o Rei, perguntou o que o trazia a morada dos deuses.
   - APOL, filho de Z-US, eu, Makel, Rei dos Orcos, vim para lhe perguntar. Como podemos impedir que os homens se tornem os herdeiros da Terra? Como podemos garantir o futuro de minha raça?
   - Vocês não podem. Os homens herdarão a Terra porque esta foi a palavra dita por Z-US, último Rei dos Orcos. - Ele então se virou para voltar a contemplar a poça a seus pés.
   O Rei Orco sentiu seu coração se apertar. Seus sacrifícios, sua mão, seu olho, a mãe de 5 de seus filhos, todos um preço que não seria pago com tão pouca resposta. Mas era a um deus que ele se dirigia, e não um deus menor como N-BIS, mas um dos filhos de Z-US.
   - APOL, deus da luz e do sol, da verdade e da profecia, nós somos criaturas de J-VA, não de Z-US, é verdade, mas nós lutamos e mostramos nosso valor e devoção em campo de batalha. Nós queimamos nossos inimigos como oferenda não apenas a J-VA, mas também a Z-US e V-NU. O que fizemos para ofender a Z-US desta forma, e como podemos nos redimir.
   - Aproxime-se, último Rei dos Orcos. Aproxime-se e olhe para o espelho do tempo.
   O Rei Orco aproximou-se de APOL e olhou ao redor, até perceber que era à poça de sangue no chão que o Deus se referia. Ao olhar fixamente para ela, parado ao lado de APOL, ele viu imagens se formarem, uma visão dentro de sua visão.
 * * *
   - Aqui eu planto a primeira Árvore, neste que será o primeiro bosque - um ser de quatro braços falou, enquanto depositava uma semente na Terra. V-NU, o Deus de quatro braços, Makel pensou em silêncio, enquanto observava a cena tão de perto quanto se estivesse ao lado dos Deuses.
   - E aqui eu faço o primeiro lago - E o ser que assim falou, e escavou um buraco no chão, era Z-US, Makel soube instantaneamente. Z-US, o Deus Supremo.
   - E o que você fará, J-VA? Qual será sua marca neste novo ciclo que inicia? - V-NU perguntou.
   - Eu não farei nada. Eu não deixarei nenhuma marca, por enquanto.
   Os outros Deuses nada demonstraram emoção, mas Makel soube que eles estavam surpresos. A visão que ele estava tendo era composta por mais que sons e imagens. Era como se ela também estivesse acompanhada de conhecimentos que não deveriam estar ao alcance de um Orco, e ele soube que a fala de J-VA foi inesperada.
   - Vocês foram os primeiros Deuses que surgiram nesta era - disse V-NU - e em todas as eras os primeiros Deuses deixaram sua marca, após eu plantar a primeira árvore. Deixe sua marca, J-VA.
   - E se eu não obedecer? És mais antigo que todos os Deuses desta era, V-NU, mas não és mais poderoso. Vais tentar me fazer obedecê-lo?
   Houve silêncio, e então Makel percebeu que a semente plantada por V-NU era agora uma árvore, em meio a um bosque. O buraco escavado por Z-US, um lago. Havia se passado um tempo? Era ainda a mesma cena, ou os Deuses estavam novamente no bosque, e ele não havia percebido a passagem de tempo? Makel não saberia dizer.
   - De dentro desta árvore nasce o primeiro Elfo. Das outras árvores deste bosque, os outros Elfos nascerão. Imortais e com devoção sem igual, eles cantarão a glória dos Deuses, e darão poder a V-NU, aquele que viu incontáveis eras - e no que V-NU falou, elfos começaram a surgir de cada uma das árvores do bosque.
   - A água deste bosque é a água que cria os homens - disse Z-US - que eles se multipliquem em grande número, e que este número seja a marca do poder de Z-US.
   E Makel viu os homens saírem, dois de cada vez, homem e mulher, do primeiro lago.
   Então J-VA colocou a mão no chão, a beira do lago, e disse - Que do barro surjam os Orcos, e que eles sejam sem iguais na arte da guerra. Que eles exterminem elfos, homens e todos que sejam súditos de outros Deuses. Que, quando eles dominarem a Terra, J-VA se torne supremo entre os Deuses.
   Assim que o primeiro Orco surgiu do barro, V-NU olhou na direção de Makel, como se o visse pela primeira vez - O que faz um Orco observando os Deuses, Rei Makel? - Ele fez um gesto, e Makel se viu novamente no salão de audiências de APOL.
 * * *
   A imagem desapareceu, a voz silenciou, a poça de sangue no chão secou em um instante. O Rei Orco estava sozinho com APOL.
   - Eu não entendo, J-VA disse que iríamos exterminar os outros povos e reinar supremos. Os Elfos já foram derrotados e expulsos para florestas longínquas, e as cidades dos humanos caem uma após a outra. Então seremos nós a herdar a terra?
   - Você não viu o que aconteceu depois. J-VA dos Orcos ousou desrespeitar e desafiar os outros Deuses, tentar tomar para si o poder de V-NU, que veio antes de todos. Tentar superar a Z-US. Mas ele se esqueceu que nesta era, Z-US recebeu o poder da palavra, o poder de fazer tudo que ele disser se tornar realidade. Foi com a palavra que ele fez o mundo. Quando viu a criação de J-VA, e seu plano de se tornar o mais poderoso, ele riu da ingenuidade do Deus, então usou a palavra, e disse a frase que o trouxe aqui, Último Rei dos Orcos.
   E Makel ouviu a mesma frase que seu irmão, o Shaman, morreu para trazer do além-vida.
   - Não importa quantas batalhas sejam vencidas, não importa quantas guerras sejam travadas. Não importa quanto os Orcos lutem, os homens herdarão a Terra.