A culpa pelo que fez ainda incomodava Rubens. Algumas vezes vinha no meio da noite, em um pesadelo, e ele acordava gritando. Outras vezes ele estava simplesmente descansando, fazendo um intervalo de seu trabalho, quando se via a pensar em todas as pessoas que morreram por sua causa, e começava, ali mesmo, a chorar.
A verdade, porém, é que ele tentava não pensar nisto. Assim como tentava não pensar em sua antiga vida, seus pais, sua namorada. Eles achavam que ele estava morto, e talvez fosse melhor assim.
Ele próprio havia visto no noticiário. Seu suicídio, o corpo encontrado com uma bala na cabeça, a nota – que na verdade ele próprio escreveu – pedindo perdão pelo que fez. Enquanto escrevia a mensagem de suicídio, Rubens chegou a imaginar que iam mesmo matá-lo e fazer parecer que foi ele próprio, mas o que podia fazer? Seus empregadores eram definitivamente muito poderosos, e ele estava na mão deles.
Quão poderosos só ficou claro quando foi divulgada a análise da perícia. Não só o corpo havia sido reconhecido pelos parentes, mas a análise do DNA foi conclusiva. Era de Rubens mesmo o corpo que havia sido encontrado morto.
Ele perguntou como haviam conseguido fazer uma simulação tão perfeita da morte dele, mas não recebeu resposta. Ele nunca recebia nenhuma resposta que não fosse a uma pergunta diretamente relacionada a seu trabalho.
Se tudo era misterioso, seu trabalho não era exceção. Era o programa mais complexo que Rubens já havia feito. Levou semanas só para entender a linguagem e as ferramentas que iria usar no trabalho, eram muito diferentes de qualquer outro ambiente no qual já trabalhou.
- Eu vou precisar ativar minha conexão neural – ele disse em voz alta, o microfone do computador captando sua voz, na segunda semana que estava na mansão – não tenho como trabalhar na velocidade que vocês querem de outro jeito.
Ele havia desconectado sua interface assim que resolveu fugir. Teoricamente não era rastreável, e era um modelo simples, como qualquer adolescente usava para acessar mais facilmente a rede. Havia experimentos com modelos muito mais sofisticados, implantes que eram colocados por cirurgia diretamente no cérebro, mas só eram realizados com autorização médica, e restritos a casos muito graves, como cegueira, pacientes tetraplégicos, com doenças mentais e questões do tipo. Depois que se percebeu que com tais implantes era possível influenciar e até controlar a mente de uma pessoa, o uso dos mesmos foi proibido exceto em situações médicas.
Em alguns de seus pesadelos, Rubens imaginava o governo americano implantando chips em seu cérebro. Terroristas presos não tinham nenhum dos direitos previstos na constituição americana.
Mas nada disto era problema para a interface que Rubens usava. Ela só permitia que ele interagisse mais rápido com o computador.
- Você pode ativá-la, se quiser. Enquanto não sair da casa, não há risco de detectarem.
“Então eu estava certo?”, Rubens pensou, “É possível rastrear o sinal de uma conexão neural? Ou eles só estão dando mais uma desculpa para me manter preso aqui?”
- Eu não posso sair desta casa, lembram? Vocês estão me mantendo preso aqui! – Podia ser uma prisão confortável, era uma mansão enorme e com todo o conforto, mas ele não havia visto ou falado com qualquer ser humano desde que fora trazido, exceto seu contato, que, de qualquer modo, se limitava a lhe dar instruções.
Com seu acesso neural ativo, o trabalho ficou um pouco mais fácil, e na verdade era empolgante, algo realmente muito complexo e desafiador, e Rubens sempre gostou de desafios. O que o incomodava era que ainda não havia entendido que tipo de sistema ele estava ajudando a desenvolver. Era óbvio que outras pessoas também estavam trabalhando no mesmo, e Rubens começou a entender que seu papel era revisar e corrigir o que outros haviam feito.
Na verdade, se não fosse o desafio, Rubens já teria enlouquecido nos primeiros dias na mansão, mas mesmo assim não aguentava mais ficar preso e sozinho.
- Eu só quero sair por alguns minutos, esta bem? Eu não falo com ninguém há quase três semanas. Eu cubro o rosto com uma manta, ninguém vai me reconhecer.
- Por que você deseja sair e se expor a um risco? Diga o que você deseja, que providenciaremos – A voz era sempre igual. Rubens perguntou uma dúzia de vezes qual era seu nome, sem receber resposta. A voz nem se deu ao trabalho de inventar um nome falso. Ele se perguntava, inclusive, se era sempre a mesma pessoa. Talvez fosse uma equipe, e a voz fosse sintetizada por computador.
- Olha, eu estou fazendo o trabalho direito, pelo menos eu acho que estou. Nem isto vocês me dizem. Mas se eu não sair e conversar com outras pessoas, eu vou pirar. Dá para entender?
- Seu trabalho está dentro do que esperávamos. Quanto a sair, é um risco inaceitável. Iremos providenciar uma alternativa.
- Como assim, alternativa? Eu quero sair, não quero nenhuma alternativa. – Rubens gritou, mas ninguém respondeu.
No dia seguinte sua alternativa tocou a campainha da porta.
Rubens desceu as enormes escadarias da mansão hesitante. Seria a CIA? Descobriram que ele estava vivo e onde estava? A porta sempre estava fechada, ele já tentara abri-la algumas vezes.
- O que eu faço? – Ele falou para o ar, enquanto parava no meio das escadas. Todas as outras vezes, ele só havia recebido uma resposta quando falava diretamente para o microfone do computador na sala de trabalho. A resposta, agora, que veio de algum lugar impossível de identificar, serviu para confirmar o que ele suspeitara desde o início, que toda a mansão era vigiada.
- Abra a porta.
Rubens terminou de descer as escadas e abriu a porta, que desta vez não estava trancada. Do lado de fora estava uma jovem aparentemente da sua idade, vinte, vinte e um anos. Ela sorriu e entrou, enquanto ele dava espaço, atônito.
- Estou aqui para servi-lo – ela falou.
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FICÇÃO CIENTÍFICA - FANTASIA - TERROR.
sexta-feira, 1 de março de 2013
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Linguagem de Máquina 1
Rubens acreditou que seria impossível localizá-lo, a menos que alguém o reconhecesse na rua. Ele tomava extremo cuidado para não aparecer em nenhuma câmera, com receio que sua imagem terminasse em algum software de detecção de rostos do governo americano. Usava luvas finas, quase invisíveis, nos dedos, para não deixar digitais. Pagava tudo exclusivamente em dinheiro.
Em três meses, ele já estava cansado desta vida. A pior parte era não poder ter contato com ninguém de sua família, não poder falar com sua namorada. Isto que não foi realmente sua culpa, pelo menos no sentido que ele nunca teve nenhuma intenção de ajudar terroristas a roubar um dispositivo nuclear dos americanos.
Quando percebeu para o que eles estavam usando o software que ele desenvolveu, já era tarde. A notícia do roubo da ogiva estava em todos os jornais do mundo.
Ele passou talvez duas horas tremendo, em casa, pensando no que iria fazer, até decidir ligar para a embaixada americana. Ele imaginava que, se ajudasse a prender os terroristas, provavelmente ia receber uma pena leve. O mais importante é que fosse considerado um criminoso comum, com seus direitos assegurados. Desde 2042, terroristas não tinham nenhum direito, tanto pela lei americana quanto pelas convenções internacionais. O Brasil não tinha assinado o último tratado antiterrorismo, mas Rubens tinha certeza que isto não ia adiantar muito no seu caso.
Aquele momento, em que decidiu contar tudo, ficaria para sempre gravado em sua memoria. Como dizia a expressão, era algo que levaria para o túmulo. Sua mão no celular, o embaixador ouvindo sua explicação de como desenvolveu um software que talvez tenha sido utilizado no roubo da ogiva, a tela internet na parede de seu quarto subitamente abrindo uma janela para mostrar uma notícia que ele sabia que tinha de ser muito importante – seu terminal estava configurado para não abrir nenhuma notícia automaticamente. E tudo que ele havia feito adquirindo uma nova dimensão naquele exato instante.
Rubens nem lembra o que o repórter falou. O que ele nunca esqueceria era a imagem por trás, o cogumelo atômico que se levantava por entre os edifícios de uma cidade.
Ele ainda ficou olhando o celular por alguns segundos, atônito, até que percebeu que agora não haveria nenhuma redução de pena, nenhum entendimento que ele não sabia o que estava em jogo. Ele seria tratado como um terrorista que auxiliou na obtenção de uma arma de destruição em massa que foi detonada em solo americano.
A pena era a morte.
Naquele dia, três meses atrás, a vida de Rubens terminou. Ele simplesmente desligou o telefone e saiu de casa, sem nem se despedir dos seus pais.
Ele tomou tantos cuidados que não conseguiu acreditar quando seu celular bipou com uma mensagem. Era um modelo antigo, da década de 50, não rastreável e totalmente anônimo, sem conexão neural e nenhuma identificação que era ele o usuário. Até então ele teria dito que seria impossível alguém localizá-lo por ele.
“Rubens, retorne esta mensagem. Represento um grupo interessado em seus serviços”.
Rubens desligou o celular, abriu e tirou o chip de dentro. Ele nunca deixava nada gravado na memoria interna do chip, mas era melhor não arriscar. Na primeira oportunidade, iria destruí-lo. Então começou a correr, procurando algum local coberto, para evitar que o seguissem por algum satélite ou avião espião. Claro, se já soubessem onde ele estava e o estivessem vigiando, seria impossível escapar. Ele não era nenhum agente secreto, só um programador.
Ninguém apareceu. Mesmo assim, ele desapareceu novamente, desta vez tomando mais cuidado ainda. Nova cidade, nova identidade, nenhum contato com qualquer pessoa do passado.
Era frustrante, mas qualquer coisa era melhor que ser pego pelos americanos. Às vezes ele assistia os noticiários. Mesmo mais de três meses depois da tragédia, ela ainda estava na mídia. Fazia quinze anos desde a última vez que uma bomba nuclear havia sido detonada em solo americano.
Rubens tentava não pensar na quantidade de pessoas que morreram por causa dele. Se começasse a pensar nisto, provavelmente iria se matar pela culpa. Mesmo dizer que nunca imaginou que estava ajudando terroristas não era um grande consolo. Bem ou mal, ele sabia que era algo ilegal que estava fazendo, mesmo que pensasse que era só espionagem industrial.
A segunda mensagem, Rubens recebeu quando estava à apenas dez dias com sua nova identidade. O mais incrível é que, desta vez, ele recebeu apenas uma hora depois de comprar um novo celular, assim que havia se sentido seguro para tanto.
Ele nem leu direito a mensagem, apenas repetiu a mesma rotina. Nova cidade, nova identidade.
Na terceira mensagem ele desistiu de fugir e respondeu. A mensagem apareceu apenas dez minutos depois dele ter comprado o celular.
“Insistimos em um contato. Queremos ajuda-lo a se ver livre de seus problemas”.
“Quem são vocês e o que querem comigo?”. Ele teclou de volta.
Foi neste contato que Rubens recebeu a mais estranha proposta de trabalho de sua vida.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Um Estranho Mundo - Capítulo 4
Capítulo IV
"Qualquer raciocínio científico levaria a conclusão que a presença de seres semelhantes ao homem era a prova que eu estava na Terra, ou pelo menos um mundo de descendentes de humanos. Ao contrário, a presença dos Lepare é que me pareceu provar que eu estava em outro mundo, ignorando todas as semelhanças deles com homens. Talvez minha mente incompleta estivesse simplesmente aceitando o raciocínio simplista de livros e filmes que vi quando criança. Ou talvez aceitar o local e o tempo em que eu estava me levassem a questionamentos que minha mente não estivesse preparada para aceitar naquele momento. É claro, eu estava prestes a ter novas evidências que desafiariam meu raciocínio simplista, mas a mente humana sempre é capaz de criar novas fantasias para o inexplicável".
Nós caminhamos por talvez uma hora, seguindo pela estrada. A garota e o homem-leopardo que havia falado com ela cavalgavam juntos, ao meu lado, enquanto eu caminhava a pé. Os demais seguiam a frente e atrás, e percebi que olhavam continuamente para a floresta, claramente atentos para ver se havia algum movimento.
Para meu desapontamento, pois queria descobrir o que pudesse sobre eles, estas criaturas seguiam principalmente em silêncio. Quando falavam, a voz era baixa, mas felizmente, mesmo quando mal conseguia ouvir, a tradução surgia automaticamente em minha mente.
- Você acha que o humano pode nos dar alguma pista de por que estamos aqui? – o homem-leopardo falou em um quase sussurro, aproximando um pouco mais seu cavalo do da garota.
- Só vou saber quando conseguirmos falar com ele. Isto se Koro nos deixar – ela olhou para mim enquanto falava, depois continuou – é óbvio que ele não é Arugenanchi. Mesmo esquecendo as roupas, ele não fala a língua deles, tenho certeza. Você precisa convencer Koro a não matá-lo, pelo menos não até termos certeza que ele não foi enviado pelos deuses.
Eu me esforcei para não estremecer ao ouvir que estavam pensando em me matar. Subitamente, entender este povo e o que eles pretendiam se tornou crucial. Será que eles entenderiam se eu falasse, da mesma forma que eu entendia eles? O único jeito de ter certeza era tentar me comunicar, mas se eles me entendessem, eu perderia a vantagem de me deixarem ouvir suas conversas.
Eu decidi continuar em silêncio, mas passei a prestar atenção não apenas na tradução que aparecia em minha mente, mas também nas palavras em si.
- Você conhece o pacto. Estas são nossas terras, e temos o direito de matar qualquer humano encontrado aqui, mesmo que não seja Arugenanchi. – Eu tentei separar as palavras, identificar uma ou duas para começar a entender a língua deste povo, mas eles falavam muito rápido.
- Sim, eu conheço o pacto. Mas ele não nos obriga a matar ninguém, só nos dá o direito. Nós nem sabemos se ele é um inimigo. – Eu tinha que começar aos poucos. Entender a língua deles poderia ser a diferença entre viver e morrer. A primeira palavra que ela disse talvez fosse ‘sim’. ‘Rai’, eu repeti mentalmente, e a tradução veio no mesmo instante, da mesma forma que quando ela falava. ‘Rai’ era sim. Eu tentei fazer o contrário, pensei em ‘não’, mas não me veio nenhuma informação. Aparentemente, esta tradução mágica só funcionava em um sentido.
Como eles ficaram em silêncio após sua rápida conversa, me vi refletindo sobre estas ‘mágicas’. Como ela havia me curado? Como, agora, eu tinha esta tradução aparecendo na minha mente quando eles falavam? Eu não queria acreditar em mágicas, mas também não conseguia imaginar uma explicação racional.
- Estamos chegando, Shiri. Você acha que consegue se comunicar com o humano? – Shiri, eu pensei, tentando memorizar o nome. Pelo menos agora sabia como a jovem se chamava.
- Não. As linguagens que ele fala são muito diferentes de Lepare e Arugenanchi. Vai levar um dia inteiro para os deuses nos darem o poder de entender o que ele diz – Pelo menos ela me deu a oportunidade de entender o “não”. “Ie”. A tradução não veio, então me lembrei que o i era mais comprido. “iie”, eu repeti mentalmente, e veio a tradução como “não”. E um calafrio percorreu meu corpo. Minhas pernas fraquejaram, e, pela primeira vez desde que ela me curou, o mundo voltou a girar ao meu redor.
“Hai”. Sim. “Iie”. Não. Ou era muita coincidência, ou eu sabia que linguagem eles estavam falando. Era japonês. Isto era impossível.
- Tente mesmo assim. – “Tentar o que?”, eu pensei, distraído com minha própria surpresa. Meu corpo tremendo e um pavor ameaçando tomar conta de mim. Ambos haviam parado seus cavalos, e olhavam para mim agora.
- Humano, se você pode me entender, fale conosco agora. Sua vida pode depender disto – eu hesitei. Falar faria eu perder minha única vantagem, mas também não havia aprendido muita coisa até agora, e eles realmente haviam dito que provavelmente me matariam antes de conseguirem se comunicar comigo.
- Sim, eu consigo entender vocês – eu respondi e esperei a reação deles, mas, para minha surpresa, percebi apenas confusão no olhar dos dois. Quando eles falaram novamente, eu entendi que nossa comunicação continuava sendo em um único sentido.
- É inútil, Dao. Não entendo nada do que ele diz, os deuses ainda não me trazem suas palavras. Como disse, vai levar horas para podermos falar com ele. – Dao. Eu agora também sabia o nome daquele que parecia ser o líder deste grupo. “Mas ambos parecem estar abaixo deste Koro, que acham que vai querer me matar”, lembrei.
- Então teremos que convencer Koro a lhe dar estas horas, Shiri. Não será fácil. – dizendo isto, ele puxou as rédeas de seu cavalo e partiu. Shiri apontou com um gesto para que eu continuasse caminhando, e seguiu atrás de mim.
* * *
Se eu pudesse tomar como base expressões e atitudes humanas para entender estes estranhos seres que me capturaram, definitivamente a relação de Shiri e Dao com este Koro não era amistosa, embora também me parecesse que pelo menos Dao não deixasse isto transparecer. Felizmente para mim, Shiri não parecia ter ressalvas em confrontá-lo.
Havíamos recém chegado ao acampamento, que nada mais era que algumas tendas e uma fogueira no centro, quando Koro se aproximou a cavalo e Dao se afastou de nós e foi conversar com ele. Cada vez era mais óbvio para mim que Dao era o líder do pequeno grupo que me prendera, mas Koro era o líder de todo o acampamento. Qual a posição de Shiri e quanta influência ela tinha nos demais era ainda um mistério para mim, mas eu tinha a nítida impressão que provavelmente tal questão definiria minha sobrevivência.
Koro se aproximou de nós, seguido por Dao. Seu rosto não me pareceu muito diferente de Dao, mas a pele era um pouco mais escura e a juba completamente negra, o que tornava a diferença entre eles bem visível.
- Então este é o humano que você deixou viver? – sua voz parecia mais firme e impositiva do que de qualquer dos outros que ouvi. Ele tornou claro, não apenas na frase mas na forma que olhava para Dao, que estava se dirigindo apenas a ele, ignorando Shiri.
- Julgamos melhor deixar a decisão para o senhor – Dao respondeu, de forma solicita. Se eu ainda tivesse alguma dúvida, seria óbvio agora que Koro era seu superior.
- Na verdade, acreditamos que não há motivo para matá-lo antes de ouvir o que tem a dizer – Shiri imediatamente se intrometeu, enquanto aproximava o cavalo dos dois, se colocando entre Koro e eu – ele não é Arugenanchi. Talvez seja até mesmo um enviado dos deuses.
- Os deuses nos abandonaram, esqueceu? O que eles vão fazer se matarmos um enviado deles? Nos amaldiçoar novamente? – Enquanto falava, Koro desmontava de seu cavalo.
- Se tivessem realmente nos abandonado, eu teria meus poderes? Ou como você explica todas as curas que já realizei? – Shiri também desmontou de seu cavalo, novamente se colocando entre eu e Koro. Ele desembainhou uma grande espada que estava em uma bainha presa em seu cavalo, segurando-a com as duas mãos. Imaginei que era uma espada grande demais para ser usada em uma única mão. Eu dei um passo para trás, me afastando dos dois e pensando se teria como correr e me esconder em algum lugar, mas era uma esperança vazia, eu sabia. Mesmo se não estivesse amarrado, qual minha chance de escapar de criaturas montadas a cavalo?
- Eu deixo a teologia para você, Shiri, e você deixa os assuntos militares para mim. Saia do caminho, e deixe-me lidar com este humano de acordo com o pacto.
- Se ele for um enviado dos deuses, pode ser nossa última oportunidade de perdão. Quem pode dizer que não fomos enviados para busca-lo? – Era cada vez mais óbvio que minha vida dependeria de quem levasse a melhor na discussão. Eu tentava desesperadamente lembrar de algumas palavras em japonês, se é que era a linguagem que eles falavam, mas nada me vinha a mente.
- Se ele fosse um enviado dos deuses, não saberia falar Lepare? Dao me disse que ele não fala nem Lepare nem Arugenanchi. Como você explica isto?
Shiri hesitou, e eu percebi que ela estava perdendo a discussão – mesmo que ele não tenha sido enviado pelos deuses, não quer dizer que não possamos aprender com ele. Devemos pelo menos esperar até que eu consiga me comunicar – Eu pude perceber que, embora argumentasse, o tom de sua voz já continha uma certa resignação.
- É perigoso demais. Você não sabe que tipo de poderes ele pode ter. Neste momento mesmo ele pode estar se preparando para nos atacar – Atacá-los, me perguntei, surpreso. Que tipo de perigo eu poderia oferecer a estas criaturas? Mas eu sabia que precisava tentar alguma coisa, que meu tempo estava acabando.
- IIE – eu disse, a voz bem alta. Não. Ambos olharam para mim, surpresos.
- Você entende o que estamos falando? – Shiri perguntou
- HAI – sim.
- Você havia dito que ele não falava Lepare! – Os olhos de Koro se estreitanto enquanto olhava para mim, a desconfiança visível em seu rosto.
- Ele não fala, tenho certeza. E deveria levar horas para os deuses começarem a revelar para ele nossas palavras. Não entendo. – E então, se virou novamente para mim – Você fala Lepare.
- IIE – eu disse, e depois continuei em minha própria língua, pois “sim” e “não” eram as únicas palavras que conhecia – eu não falo a língua de vocês, mas entendo tudo que vocês dizem, desde que você me tocou.
- Você consegue entender o que ele fala?
- Não, Lorde Koro, os deuses ainda vão demorar para me dar este poder. Mas é óbvio que ele nos entende. Os deuses estão falando com ele, com certeza. Você entende o que isto significa? – e, como Koro nada respondeu, ela continuou – faz pouco mais de uma hora que eu convoquei o poder da fala, e ele não fala nenhuma língua parecida com Lepare, tanto que ainda não consigo entende-lo. Ele é um escolhido dos deuses, talvez enviado por eles. É a única explicação.
- Você está inventando uma explicação. Talvez ele apenas já tivesse recebido a dadiva de entender Lepare.
- E de quem ele receberia esta dádiva? Quem, além de mim, entre os Lepare, tem o dom da fala? Se ele próprio tivesse este poder, eu teria percebido. De todo modo, como você disse, a Teologia é minha responsabilidade, e eu digo que ele é um enviado dos deuses.
Eu nem acreditei quando Koro baixou sua espada, não me parecia que ela estava tendo sucesso em convencê-lo. O que importava é que eu iria viver. E devia minha vida a Shiri.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Um Estranho Mundo - capítulo 3
Capítulo III
"Como eu explicava os cavalos? Seria possível imaginar os Lepare como fruto de alguma evolução convergente, e não como primos próximos do homo sapiens. Ainda assim eles seriam obviamente vertebrados, e mesmo mamíferos. Não seria necessário examinar seus ossos, bastava olhar o maxilar, a estrutura dos cinco dedos, os ombros, para perceber que possuíam exatamente o mesmo plano básico de esqueleto dos vertebrados que evoluíram naturalmente na Terra. Mas, sua aparência pelo menos dava um leve ar alienígena a eles. Nas memorias que eu ainda possuía, eu nunca havia visto nada parecido, exceto em filmes de ficção científica. Mas, e os cavalos? Que explicação eu daria para a existência de cavalos, se apenas parasse para pensar neles?"
- Pelo amor de Deus, ninguém mais bata na minha cabeça - eu falei assim que comecei a despertar, apenas parcialmente sabendo onde me encontrava. A lembrança de uma batida forte me derrubando - uma segunda batida - era a coisa mais presente em minha mente.
Eu tentei me levantar, apenas para perceber que minhas mãos estavam amarradas atrás das costas, e que minha tontura havia voltado.
Uma criatura se aproximou de mim, o rosto, que parecia uma mistura de um humano e um felino, quase encostando no meu próprio rosto. Uma menina com pele de um leopardo no lugar de pele humana, foi o que me pareceu. Ela, se de fato era do sexo feminino, falou algo em uma língua que não entendi.
- Não estou entendendo. Me soltem por favor - comecei a falar, apenas para parar ao me dar conta que não tinha como eles entender o que eu falava. A criatura - a jovem - me vi chamando-a, pois pelo menos pareceria ser uma uma jovem mulher se fosse humana, pareceu mais insistente. Repetiu várias frases em sua língua estranha, até se convencer que eu não a estava entendendo. Foi só quando deixei escapar um gemido, a cabeça ainda latejando, que ela parou e me examinou, passando os dedos pela minha cabeça. Primeiro encostou no lado esquerdo, que estava dolorido com a batida mas não parecia tão machucado, então pelo lado direito, encontrando o sangue seco em meu cabelo. Ela falou em sua língua incompreensível com alguém que eu não consegui ver, e então olhou fixamente para mim e pareceu se concentrar em alguma coisa.
Ela então começou um estranho movimento com as mãos, os dedos mostrando uma destreza inesperada, como se estivessem encostando com a ponta em objetos invisíveis, enquanto repetia palavras indecifráveis, mas que me pareciam estranhamente familiares, uma segunda língua diferente da que ela falara antes, uma palavra para cada movimento de um dedo. Ao final, as pontas de quase todos os seus dedos pareciam brilhar suavemente, e ela encostou as duas mãos em meu rosto.
Uma sensação de formigamento começou a tomar conta de toda minha cabeça, e percebi no mesmo instante que minha dor havia desaparecido. Meu rosto todo parecia anestesiado, e a tontura foi diminuindo.
Em seguida, ela repetiu novamente o estranho ritual, que desta vez prestei ainda mais atenção. Os movimentos pareciam semelhantes, mas não exatamente iguais, como se estivesse tocando em outros objetos invisíveis. Eu pude perceber que seus olhos - olhos verdes que poderiam perfeitamente pertencer a uma jovem humana - estavam olhando para cima enquanto ela movia os dedos com fluência e repetia palavras em sussurros, e tive a nítida impressão que estava lembrando uma sequência memorizada. Por fim, ela repetiu o mesmo processo, encostando novamente os dedos em meu rosto. Desta vez, porém, a sensação de formigamento, que já havia desaparecido, não retornou.
- Está feito - ela falou, enquanto se levantava com a graça de um felino - em algumas horas conseguiremos falar com ele.
"Eles falam português". Foi meu primeiro pensamento, e imediatamente percebi que não, que ela havia falado na mesma linguagem de antes, mas eu consegui entender o que ela disse.
- Tem certeza que ele não fala Talodon? - a voz era em um timbre mais grosso, e imediatamente associei com um adulto do sexo masculino. Eu percebi que, embora conseguisse entender o que ele havia dito, a língua em si permanecia um mistério. Era como se houvesse um tradutor automático me repetindo o que ele dizia, pelo menos foi a comparação mais próxima que consegui imaginar.
- Tenho. Ele só tem uma língua nativa, e parece conhecer uma segunda língua, mas não é tão fluente nela. Nenhuma delas me parece familiar. Acho que vai levar horas para eu conseguir entender o que ele fala. Deve levar o mesmo tempo para ele entender o que falamos.
Eu pensei em dizer alguma coisa, mas então resolvi ficar em silêncio. De alguma forma, ela me curou e me fez entender o que eles falavam, mas parecia achar que ainda iria levar horas para que funcionasse.
- Faça-o se levantar, então. Ainda quero voltar para o acampamento antes do anoitecer. - Eu quase tentei me levantar quando ouvi, mas me dei conta que eles achavam que eu não entendia o que falavam. A jovem, de todo modo, pegou meu braço, e com sua ajuda eu me levantei. Só então consegui ver a quem pertencia a voz.
O homem, não um homem obviamente, mas era mais fácil pensar nele assim, possuía um cabelo encaracolado, parecendo um pouco a juba de um leão, que descia pelos ombros, e uma musculatura impressionante, mas não descomunal. Seu rosto e corpo, como ela, pareciam a pele de um leopardo, mas quase sem manchas, quase só um amarelo, com uma poucas marcas escuras. Vestia apenas calças que pareciam o pelo de algum animal, e tinha uma espada na cintura. Havia outros também, mas alguns passos mais distantes, todos próximos de ou montados em cavalos.
Imaginei que ficaria tonto ao levantar, mas me sentia extremamente bem. Não apenas a dor e tontura haviam passado, mas me dei conta que quase não sentia fome e frio, como antes.
- Vamos - a jovem disse, e novamente tive que me esforçar para não reagir a sua fala, e só comecei a caminhar quando ela me conduziu pelo braço, minhas mãos ainda atadas às minhas costas.
"Como eu explicava os cavalos? Seria possível imaginar os Lepare como fruto de alguma evolução convergente, e não como primos próximos do homo sapiens. Ainda assim eles seriam obviamente vertebrados, e mesmo mamíferos. Não seria necessário examinar seus ossos, bastava olhar o maxilar, a estrutura dos cinco dedos, os ombros, para perceber que possuíam exatamente o mesmo plano básico de esqueleto dos vertebrados que evoluíram naturalmente na Terra. Mas, sua aparência pelo menos dava um leve ar alienígena a eles. Nas memorias que eu ainda possuía, eu nunca havia visto nada parecido, exceto em filmes de ficção científica. Mas, e os cavalos? Que explicação eu daria para a existência de cavalos, se apenas parasse para pensar neles?"
- Pelo amor de Deus, ninguém mais bata na minha cabeça - eu falei assim que comecei a despertar, apenas parcialmente sabendo onde me encontrava. A lembrança de uma batida forte me derrubando - uma segunda batida - era a coisa mais presente em minha mente.
Eu tentei me levantar, apenas para perceber que minhas mãos estavam amarradas atrás das costas, e que minha tontura havia voltado.
Uma criatura se aproximou de mim, o rosto, que parecia uma mistura de um humano e um felino, quase encostando no meu próprio rosto. Uma menina com pele de um leopardo no lugar de pele humana, foi o que me pareceu. Ela, se de fato era do sexo feminino, falou algo em uma língua que não entendi.
- Não estou entendendo. Me soltem por favor - comecei a falar, apenas para parar ao me dar conta que não tinha como eles entender o que eu falava. A criatura - a jovem - me vi chamando-a, pois pelo menos pareceria ser uma uma jovem mulher se fosse humana, pareceu mais insistente. Repetiu várias frases em sua língua estranha, até se convencer que eu não a estava entendendo. Foi só quando deixei escapar um gemido, a cabeça ainda latejando, que ela parou e me examinou, passando os dedos pela minha cabeça. Primeiro encostou no lado esquerdo, que estava dolorido com a batida mas não parecia tão machucado, então pelo lado direito, encontrando o sangue seco em meu cabelo. Ela falou em sua língua incompreensível com alguém que eu não consegui ver, e então olhou fixamente para mim e pareceu se concentrar em alguma coisa.
Ela então começou um estranho movimento com as mãos, os dedos mostrando uma destreza inesperada, como se estivessem encostando com a ponta em objetos invisíveis, enquanto repetia palavras indecifráveis, mas que me pareciam estranhamente familiares, uma segunda língua diferente da que ela falara antes, uma palavra para cada movimento de um dedo. Ao final, as pontas de quase todos os seus dedos pareciam brilhar suavemente, e ela encostou as duas mãos em meu rosto.
Uma sensação de formigamento começou a tomar conta de toda minha cabeça, e percebi no mesmo instante que minha dor havia desaparecido. Meu rosto todo parecia anestesiado, e a tontura foi diminuindo.
Em seguida, ela repetiu novamente o estranho ritual, que desta vez prestei ainda mais atenção. Os movimentos pareciam semelhantes, mas não exatamente iguais, como se estivesse tocando em outros objetos invisíveis. Eu pude perceber que seus olhos - olhos verdes que poderiam perfeitamente pertencer a uma jovem humana - estavam olhando para cima enquanto ela movia os dedos com fluência e repetia palavras em sussurros, e tive a nítida impressão que estava lembrando uma sequência memorizada. Por fim, ela repetiu o mesmo processo, encostando novamente os dedos em meu rosto. Desta vez, porém, a sensação de formigamento, que já havia desaparecido, não retornou.
- Está feito - ela falou, enquanto se levantava com a graça de um felino - em algumas horas conseguiremos falar com ele.
"Eles falam português". Foi meu primeiro pensamento, e imediatamente percebi que não, que ela havia falado na mesma linguagem de antes, mas eu consegui entender o que ela disse.
- Tem certeza que ele não fala Talodon? - a voz era em um timbre mais grosso, e imediatamente associei com um adulto do sexo masculino. Eu percebi que, embora conseguisse entender o que ele havia dito, a língua em si permanecia um mistério. Era como se houvesse um tradutor automático me repetindo o que ele dizia, pelo menos foi a comparação mais próxima que consegui imaginar.
- Tenho. Ele só tem uma língua nativa, e parece conhecer uma segunda língua, mas não é tão fluente nela. Nenhuma delas me parece familiar. Acho que vai levar horas para eu conseguir entender o que ele fala. Deve levar o mesmo tempo para ele entender o que falamos.
Eu pensei em dizer alguma coisa, mas então resolvi ficar em silêncio. De alguma forma, ela me curou e me fez entender o que eles falavam, mas parecia achar que ainda iria levar horas para que funcionasse.
- Faça-o se levantar, então. Ainda quero voltar para o acampamento antes do anoitecer. - Eu quase tentei me levantar quando ouvi, mas me dei conta que eles achavam que eu não entendia o que falavam. A jovem, de todo modo, pegou meu braço, e com sua ajuda eu me levantei. Só então consegui ver a quem pertencia a voz.
O homem, não um homem obviamente, mas era mais fácil pensar nele assim, possuía um cabelo encaracolado, parecendo um pouco a juba de um leão, que descia pelos ombros, e uma musculatura impressionante, mas não descomunal. Seu rosto e corpo, como ela, pareciam a pele de um leopardo, mas quase sem manchas, quase só um amarelo, com uma poucas marcas escuras. Vestia apenas calças que pareciam o pelo de algum animal, e tinha uma espada na cintura. Havia outros também, mas alguns passos mais distantes, todos próximos de ou montados em cavalos.
Imaginei que ficaria tonto ao levantar, mas me sentia extremamente bem. Não apenas a dor e tontura haviam passado, mas me dei conta que quase não sentia fome e frio, como antes.
- Vamos - a jovem disse, e novamente tive que me esforçar para não reagir a sua fala, e só comecei a caminhar quando ela me conduziu pelo braço, minhas mãos ainda atadas às minhas costas.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Um Estranho Mundo - Capítulo II
Capítulo II
"Em nenhum momento eu percebi qualquer lacuna em minhas memorias. Eu estava demasiado preocupado em sobreviver e entender este estranho mundo para me deter a lembrar o passado. De todo modo, tenho certeza que minha mente habilmente criaria fantasias para completar qualquer lembrança que faltasse. O cérebro humano, mesmo em sua forma pura, é realmente uma ferramenta assombrosa".
Eu despertei confuso, completamente desnorteado, sem ter a menor ideia de onde estava. Minha cabeça latejava, e quando encostei nela com a mão, senti uma umidade que imaginei ser sangue. Meu punho esquerdo também estava doendo, e minha perna direita. O que tinha acontecido? Uma queda, algum tipo de acidente? Eu estava voando, tenho certeza... Um desastre aéreo?
Eu olhei ao redor, o espaço era pequeno demais para ser um avião de passageiros, e estava todo destruído. Luzes de emergência iluminavam o ambiente. Um jato particular, talvez.
Então vi os corpos. E meu cérebro fez a conexão com os nomes. Correia. Resende.
Não precisava me aproximar para confirmar que estavam mortos. O pescoço de Correia quebrado. Resende foi pior de olhar, o corpo quase dividido em dois. Como eu sobrevivi?
Eu me levantei de onde estava, uma poltrona, e quase desmaiei enquanto tudo começou a girar ao meu redor. E então vomitei no chão e nas minhas mãos.
Precisava sair do jato. Podia estar vazando combustível, pegar fogo, explodir... Jato não, era uma nave. Uma nave e estávamos voltando para a Terra. Era difícil pensar, a cabeça estava doendo ainda mais. Concussão, eu pensei.
Eu me levantei novamente, desta vez mais devagar, vi uma porta, e caminhei até ela. Engraçado, pensei, porque não estava usando um capacete, se estava vindo do espaço? Depois parei de pensar nisto, o que eu precisava era escapar.
A tontura voltou, e então eu apaguei.
* * *
Eu despertei caminhando.
Foi uma experiência diferente de um simples acordar, minha consciência retornando devagar, como se estivesse lentamente me dando conta de onde estava. Primeiro a sensação dos pés afundando na neve a cada passo, só depois o frio em meu rosto, o ar entrando gelado em meus pulmões. Depois as memorias, a queda da nave, meus companheiros mortos.
Eu olhei para trás, apenas para ver uma longa trilha de pegadas subindo uma montanha, até se perder de vista, meus pés ainda se movendo mecanicamente, como que sem meu controle consciente. Eu devo ter saído da nave e começado a caminhar como um sonâmbulo, um resultado da batida em minha cabeça, talvez.
Uma vez mais coloquei a mão na cabeça. O sangue estava seco agora, mas minha cabeça ainda doía. Pelo menos não estava mais tonto.
Eu parei de caminhar e olhei ao meu redor. Hora de pensar no que estava acontecendo e no que ia fazer.
O terreno era inclinado, e eu estava obviamente descendo. Havia neve, e algumas árvores. Percebi que parecia haver mais para baixo, eu parecia estar no que seria o limiar de uma floresta. Ao longe, podia ver montanhas, algumas muito mais altas do que onde eu estava. O sol estava em um angulo de talvez 45 graus. Estaria começando ou terminando o dia? No segundo caso, em breve anoiteceria, e imagino que faria muito frio.
Foi só então que me dei conta de que estava em sério risco. Se já estava tão frio a ponto de haver neve, uma temperatura talvez ligeiramente abaixo de zero, quão frio ficaria de noite? Minha roupa era térmica?
Olhei para mim mesmo. A roupa era estranha, toda de uma só cor e de um tecido estranho, mas parecia proteger bem do frio. Era a roupa que usávamos na nave, é claro. Nosso uniforme.
Eu tinha que decidir o que fazer. Voltar para a nave? Havia mantimentos, talvez o rádio funcionasse, eu deveria esperar lá por uma equipe de resgate.
Então me lembrei. Eu não estava na Terra, não haveria nenhuma equipe de resgate.
Então continuei descendo, os passos tão mecânicos quanto antes, apenas meu olhar mais atento. Se estivesse terminando o dia, em mais algumas horas estaria tudo escuro, e era melhor aproveitar o tempo.
Por sorte, o dia estava na realidade começando. Começou a esquentar perto do meio dia, a neve derretendo tornando a descida mas escorregadia, a floresta gradualmente se tornando mais cerrada.
Algumas horas depois eu parei e sentei ao pé de uma árvore. Estava cansado e com fome. Uma ou duas vezes pensei ter ouvido movimentos de pequenos animais, esquilos ou algum animal equivalente deste mundo. Mas não tive certeza. De todo modo eu não era um caçador, nunca tinha sido sequer um escoteiro. Não tinha a menor ideia de como procurar comida.
Ainda estava sentado, à árvore, meu pensamento divagando, os olhos querendo se fechar novamente, quanto ouvi sons, como de pessoas se movendo e conversando.
Eu me levantei e comecei a caminhar na direção dos sons, depois a correr até me deparar com um grupo de cavaleiros no que parecia uma clareira, que, na verdade vi a perceber mais tarde, era na verdade uma estrada.
Eu os assustei, os cavalos começaram a relinchar e eu estava prestes a dizer para ficarem calmos, que eu apenas queria socorro, quando vi seus rostos. Não eram humanos. Eram amarelos, a pele como se fosse uma pantera.
Eu estava prestes a gritar, e meu braço direito instintivamente se estendeu, a mão apontando para um deles, por um instante eu tive a sensação de que iria explodi-lo com apenas um gesto.
E um golpe me atingiu uma vez mais na cabeça. A inconsciência desta vez veio instantaneamente.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Um Estranho Mundo I
"Em retrospecto, não fazia nenhum sentido. Cair em um outro planeta praticamente igual a Terra, pilotando uma nave que mal conseguiria viajar até a lua? Qual seria a explicação para eu ter chegado até lá? Teria minha nave cruzado algum tipo de dobra dimensional, como nos filmes? Por coincidência a gravidade seria tão parecida a ponto de eu não perceber a diferença? Ar respirável, pressão normal? Mesmo aceitando tudo isto, o que explicaria a comida ser comestível? Uma evolução paralela que resultou nas mesmas divisões em plantas e animais, utilizando as mesmas estruturas celulares, os mesmos aminoacidos gerando as mesmas combinações de DNA, e resultando em seres equivalentes a répteis e mamíferos? Mesmo naquela época, eu sabia o suficiente para compreender que seria impossível. Se eu apenas parasse para pensar, perceberia que mais parecia um filme de ficção-científica de meados do século XX. O curioso é que eu nunca questionei, apenas aceitei o que vi e vivi como realidade."
* * *
- Estamos descendo muito rápido - Correia estava suando. Ele estava monitorando a temperatura do casco, que aumentava mais e mais. Já havíamos passado muito dos limites seguros.
- Eu sei - eu respondi - mas não podemos fazer nada por enquanto. A nave vai ter que aguentar. Resende, algum contato?
- Nada. Mesmo antes de começarmos a descer, só captei estática. É como se não houvesse ninguém transmitindo.
- Talvez não haja. Vocês viram o que eu vi. O planeta, eu quero dizer.
- Deve ter sido uma ilusão de ótica. As nuvens, talvez, não deu para ver bem, mas tem que haver uma explicação racional - Resende tentava se apegar a alguma esperança. Correia só se concentrava na temperatura do casco, que continuava subindo.
- Eu já estive uma dúzia de vezes no espaço, Resende. Você também. Não existe nenhum continente na forma daquele que a gente viu. Não na Terra.
- Dois minutos - Correia falou - se aguentarmos mais dois minutos, acho que vamos conseguir.
- E o que você está sugerindo? Que apareceu um continente novo do nada? Onde você acha que nós estamos? - a voz nervosa, quase histérica, de Resende, contrastava com o tom controlado meu e de Correia. Suponho que cada pessoa tenha seu jeito próprio de encarar a morte.
- Eu não faço a menor ideia de onde estamos. Eu só sei que, seja onde for, não é na Terra.
Correia me interrompeu - os sistemas estão entrando em curto. Não sei mais que temperatura está o casco.
Nisto, as luzes se apagaram por um instante. Quando voltaram, a cor era ligeiramente diferente. Iluminação de emergência.
- Quanto tempo ainda? - perguntei.
- Está terminando, mais uns segundos, e vamos começar a sair da zona crítica - a voz de Correia contida, ele não querendo se dar esperança cedo demais - só mais uns segundos.
- Nós vamos conseguir, nós vamos conseguir. - Resende começou a repetir, em voz baixa, como se fosse um mantra.
- Não basta a nave resistir a temperatura. Se os motores não funcionarem, não vamos conseguir controlar o pouso - eu não queria trazer mais preocupações, mas era verdade. Os motores não foram preparados para resistir a uma temperatura tão alta. Nesta hora eu desejei que estivéssemos em uma daquelas naves antigas, aquelas que pousavam com um para-quedas.
- Passamos o pior - Correia falou, finalmente relaxando os ombros e soltando um suspiro - a temperatura deve estar começando a baixar agora.
- Assim que achar seguro, libere as câmeras. Não quero ligar os motores antes de poder enxergar alguma coisa lá fora.
- Liberando sensores em 3, 2, 1. Ok. Funcionado, estamos com sensores externos. Rezende, o que você consegue identificar?
- Ainda estamos muito rápidos, e perdendo altitude. Estamos em cima de um oceano. O computador está identificando nossa posição neste momento... Falha. Ele não está conseguindo mapear. Deveríamos estar no meio do Pacífico, mas estou vendo um continente a frente - Rezendo olhou para mim - acho que você está certo. Isto aqui não é a Terra.
Eu não respondi, estava ocupado demais ligando os motores.
- Sistema checando os motores neste momento. Teste geral OK... Não, agora apareceu uma mensagem de erro não identificado.
- O que vamos fazer?
- Não temos muita escolha, vou ligar mesmo assim.
Eu respirei fundo por um instante, antes de ligar os motores, imaginando se não iríamos simplesmente explodir. Mas não, eles ligaram. O isolamento era tal que não sentíamos nem uma vibração, só podíamos saber que estava funcionando pelo aviso do sistema.
- Continua aparecendo uma mensagem de falha não identificada, mas o computador já está controlando o voo. Ele está me dando um aviso para pousar imediatamente.
- O que fazemos? - Agora até Rezende estava aparentando alguma calma, relativamente falando. Pousar uma nave com defeito era algo mais da nossa experiência, e mais sob nosso controle do que simplesmente ficar aguardando sem fazer nada enquanto torcíamos para não virarmos uma bola de fogo.
- Vou obedecer o computador. Estou programando para ele pousar no primeiro lugar que conseguir. Não sei o que há de errado com os motores, nem sei o que mais da nave pode estar comprometido. Ele está informando que o pouso vai acontecer em uns 5 minutos.
A tensão foi diminuindo. Ainda não estávamos fora de perigo, mas parecia que íamos sobreviver. A única coisa é que isto também significava que íamos ter que começar a lidar com o fato que estávamos em algum outro planeta.
- Escapamos desta vez - Correia falou, soltando outro suspiro - achei que não íamos conseguir.
- Merda - eu interrompi.
- O quê? - ambos falaram ao mesmo tempo.
- Os propulsores pararam. O computador vai tentar pousar mesmo assim, mas vamos ter um impacto.
- Droga, Correia. Nunca, nunca diga que escapamos antes de já estamas no solo.
Foi a última coisa que me lembro de ouvir de Rezende antes de tudo ficar escuro.
domingo, 13 de janeiro de 2013
O Último Rei Orco - Prólogo
O corvo surgiu acima das nuvens, vindo do vazio nas fronteiras da criação, e começou a cair com velocidade, suas asas encostadas no corpo, os olhos fechados, as areias do deserto na beirada do mundo se aproximando mais e mais. Apenas quando o choque com o chão pareceria inevitável a quem estivesse a olhar – e tal não havia, nem criaturas nem deuses – ele abriu seus olhos, como se tivesse acabado de despertar, e, sem emitir som nenhum, começou a bater as asas até ganhar altitude, e então pôs-se a planar em uma corrente de vento.
Ele voou veloz, carregado pelo vento, acima das areias que circulavam a fronteira do mundo, acompanhando a circunferência da terra, conhecendo todos os limites de um planeta ainda plano, ainda uma fração minúscula do que viria a ser. O mundo era jovem e mal havia começado a crescer para além da primeira árvore.
Quase nada havia para ver, o chão abaixo do corvo areia sem fim, monótona e imperturbável. À sua esquerda, a uma distância impossível precisar, mas imutável, apenas o vazio de uma existência ainda não criada. Somente à direita, bem distante no horizonte, o corvo podia ver algum cenário, como montanhas com cumes cobertos de neve ou a leve coloração verde de florestas.
E assim foi que o corvo voou planando em correntes de ar, batendo suas asas apenas o mínimo necessário, até voltar a seu ponto de partida, tendo circundado todo o mundo.
E este foi o primeiro dia.
O corvo, então, mudou seu rumo, partindo na direção do centro do mundo, suas asas agora batendo velozes, o olhar fixo no horizonte, que começava a ganhar nova forma até se mostrar uma cadeia de montanha, a maior entre todas as do jovem mundo. Ganhando altitude a cada movimento de suas asas, o instinto lhe dizendo como aproveitar cada corrente de ar, em pouco tempo o corvo estava mais alto que a montanha mais alta, o frio da altitude não o incomodando, imensamente mais quente que o frio do nada de onde ele surgiu.
Nas áridas montanhas quase não havia vida. Esta, que se espalhava a partir da primeira árvore, aparentemente não havia chegado até tão longe. Mas havia sons, um barulho de luta, crepitar de fogo, e o corvo soube que havia algo ali para ele presenciar, o motivo que o atraíra a montanha.
Pousando em uma pedra perto da base da montanha, a primeira vez que o corvo tocava o solo deste mundo, ele pôs-se a observar o duelo mortal a sua frente. O dragão estava ferido e quase sem forças, as últimas labaredas que saiam de sua boca já fracas, mostrando que em breve ele não teria mais como guspir fogo. O orço com quem ele duelava igualmente no limite, feridas por todo corpo, cortes feitos pelas garras e cauda do dragão.
O corvo observou em silêncio, sem fazer um único movimento, enquanto o combate se definia. O orço desviando-se de um ataque no último instante, para aproveitar e cravar fundo uma faca no pescoço do dragão. Este, fingindo estar agonizando para, em um movimento inesperado, gravar seus dentes na mão do guerreiro, arrancando-a com uma última dentada, apenas para ter o machado, em resposta, cravando-se em seu crânio.
Com o combate encerrado, o orço se aproximou com sua faca da cabeça do dragão, e começou a usá-la para arrancar um de seus olhos. Tendo visto tudo que havia para ver ali, o corvo alçou vôo novamente.
Para além do pé da montanha o corvo começou a ver sinais mais definitivos de vida, primeiro marcas verdes nas pedras, depois pequenas plantas, que se transformaram em uma floresta. Já era a noite do segundo dia, e o corvo voava por entre as árvores, sem sentir sono, fome ou cansaço, ainda não totalmente pertencente a este mundo para compartilhar das fragilidades das criações dos deuses. Desta vez o que o atraíra era uma canção na voz de uma elfa, e ele pousou pela segunda vez, agora no galho de uma árvore.
A elfa o esperava, uma taça vazia em sua mão, gotas de soma escorrendo por entre seus lábios, o olhar perdido no horizonte. Ela parou de cantar.
Soma era a bebida dos deuses do centro do mundo, e estes não poderiam saber de sua presença, mas a elfa era uma aliada, e ele grasnou - a primeira vez que emitia algum som – e sua voz trouxe a ela uma visão. E então o corvo partiu uma vez mais.
E assim terminou o segundo dia.
Para além da floresta onde os últimos elfos haviam se refugiado o corvo voou, seguindo o caminho trilhado pela raça agonizante em fuga, passando por campos queimados e abrigos destruídos, o sinal de guerra e destruição cada vez mais presentes.
Por fim, novas ruínas começaram a surgir, diferentes dos abrigos elfos abandonados em meio a florestas, e o corvo soube que eram as cidades humanas. Uma ruína após outra o corvo encontrou, até chegar ao deserto de pedra no centro do mundo, e o corvo soube que estava próximo de seu destino, mas o terceiro dia ainda demoraria a terminar. Assim, uma vez mais o corvo pôs-se a voar ao redor de um deserto, desta vez o deserto no centro do mundo.
A primeira cidade humana intocada que o corvo viu estava na fronteira do deserto de pedra, mas ele soube que nada havia ali de seu interesse, e não parou para lhe prestar atenção. A segunda cidade estava mais longe do deserto, e o corvo nem a perceberia, mas algo ali o atraiu, mesmo tendo ele já visto tudo que havia viajado para ver, e ele se pôs a voar na direção da primeira cidade do homem.
Foi dentro dos muros, no alto de uma das torres da casa mais alta da cidade que o corvo pousou, quase hipnotizado pelo som que vinha de uma flauta tocada por uma mulher. Ela fingiu não olhar para ele, nem interrompeu sua música, e o corvo permaneceu a observar, curioso, certo que o instrumento que ela tocava havia sido criado por um dos deuses, quando uma dor súbita o atingiu, a primeira dor que ele havia sentido desde que entrara neste mundo.
A mulher ainda permanecia a tocar, e o corvo se virou para ver uma criança a segurar um arco, cuja flecha recém lançada estava cravada em seu corpo, origem de sua dor. Com estranha dificuldade, o corvo abriu suas asas e partiu, a flecha pendurada em si, mortal se ele fosse uma criação deste mundo. Com dificuldade, ele se dirigiu direto ao centro do mundo, ciente de quão perto estivera de fracassar, deixando a primeira cidade do homem, a mulher e a criança para trás.
No centro do mundo, o corvo pousou na primeira árvore, a flecha ainda trespassando seu corpo, seus olhos fixos em Wotan, que ali estava, crucificado. Ele se aproximou, e com o bico comeu seu olho esquerdo, o pagamento pelos pensamentos e memórias que então entregou com seu grasnado.
Neste instante, Wotan se soltou da árvore, quase que sem esforço, e caiu de pé no chão, suas mãos e pés com as marcas da crucificação, e o corvo voou para seu ombro.
Wotan se virou e agarrou um galho da árvore, e então, parecendo agora sim fazer grande força, o quebrou e usou para se apoiar no chão.
E assim terminou o terceiro dia.
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