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FICÇÃO CIENTÍFICA  -  FANTASIA  -  TERROR.


sábado, 5 de maio de 2012

O Último Rei Orco XIII

Nos aposentos do Rei uma jovem aguardava, o nervosismo visível na forma como roía, distraidamente, as unhas dos quatro dedos de sua mão. Ela olhava a única porta do quarto, temendo que a qualquer momento Hodekin entrasse por ela, enquanto se perguntava se passaria a eternidade no inferno dos delatores.

Quem entrou pela porta, porém, seguido pelo Rei Goldemar, foi seu irmão, e ela correu para abraçá-lo.

- Eu contei ao Rei, minha irmã. Ele quer ouvir diretamente de seus lábios.

- Abadi me disse que você acusa o sacerdote do JUS, Hodekin. Diga-me o que tem para dizer, mulher.

- Sim, meu senhor - ela respondeu, o rosto abaixado, a coragem lhe faltando para encarar o Rei. A lingua passou pelos lábios, que tremiam, e ela respirou fundo, e então começou a contar sua história.

- Eu sou Jasmiri, uma das virgens do templo de JUS PATER. Fui uma das escolhidas por Hodekin para transmitir as palavras da daemon AISA, que é uma e é três. Aos sons da primeira canção, a daemon se apoderou de minha consciência e falou com minha voz.

- E o que ela disse com sua voz, Jasmiri?

- Eu não me recordo de quais foram as palavras dela quando estava em meu corpo, meu senhor.

O Rei falou em voz mais alta, e Jasmiri começou a tremer - então por que estou perdendo meu tempo aqui, enquanto minhas crianças estão entre os Orcos?

Ela se apressou em explicar - eu fui a última a ser possuída pela daemon, meu senhor. Eu não sei o que falei, mas eu ouvi as mensagens de minhas duas irmãs de templo. A que falou sobre derramar Nectar nos olhos para enxergar com a visão de JUS, e a que falou sobre beber o Nectar e ser a voz do deus.

- Eu vi o resultado. Meu filho cego, minha filha falando com a voz de JUS. Mas seu irmão disse que Hodekin mentiu sobre isto.

- Não meu senhor, não foi sobre isto que Hodekin mentiu - ela tremia enquanto falava, temendo como o Rei reagiria, se culparia a ela - Elas falaram sobre a visão e a voz de JUS.

- Então, sobre o que Hodekin mentiu, mulher.

- Elas não mencionaram as crianças. Elas disseram que era outra, a pessoa que deveria ser agraciada com as dádivas divinas. Quem deveria enfrentar os Orcos era... - e neste instante ela hesitou uma vez mais, e então reuniu coragem para concluir:

- Hodekin.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O Último Rei Orco XII

No alto da muralha, os soldados comemoravam. A tensão havia atingido o máximo quando os portões da cidade foram abertos, e muitos estavam preparados para o pior, mas nem um único Orco ousou pisar dentro de Asikli Hoyuk.

Do alto das muralhas eles assistiram a lenta caminhada das duas crianças, cercadas pelos guerreiros inimigos, mas indiferentes a eles. Flechas caiam a poucos passos de seus pés, Orcos deixavam as armas no chão antes de se aproximar delas, e, por fim, formaram apenas uma escolta que acompanhou as crianças até elas sumirem da vista, em uma pequena floresta além da cidade.

Lá do alto dos muros, em meio as comemorações, um homem se mantinha calado, o rosto fechado, sem demonstrar emoções. Sua cidade talvez fosse salva, o poder de JUS PATER talvez se mostrasse maior que o dos Orcos e de seu deus J-VA, mas eram os seus filhos que estavam lá, os filhos que sua mulher morreu para dar a luz. E, naquele momento, eles eram mais importantes que qualquer deus e qualquer cidade.

- Meu senhor - um homem se aproximou, e sussurrou no ouvido do Rei Goldemar - eu preciso lhe falar em particular.

O Rei virou seu rosto e viu que era Abadi, um dos soldados de sua guarda. - Eu não posso sair daqui, agora. Eu vou esperar, na muralha, até meus filhos voltarem.

- Eu tenho que insistir meu Rei.

- O que quer que seja, com certeza pode esperar, a menos que me diga que os Orcos estão invadindo a cidade. E, pelo que vi, todos eles seguiram meus filhos.

- É minha irmã, meu senhor - a voz sempre em um sussurro, e o Rei reparou então que Abadi usava um capuz sobre o rosto, como se não quisesse que vissem que ele estava ali - ela o espera, escondida, em seus aposentos, para onde a levei. Ela precisa lhe falar uma coisa.

- Abadi, meus filhos receberam uma missão diretamente de JUS PATER, e não sei se eles retornarão dela. Nada é mais importante para mim que isto.

- É por isto que ela deseja lhe falar, meu senhor. Minha irmã é uma das virgens do templo de Hodekin. Uma das virgens que recebeu a mensagem de JUS PATER.

- Então, ela é uma das que revelou a Hodekin que meus filhos se tornariam armas de nosso deus - a voz do Rei, até então contida, finalmente deixando escapar um pouco de sua dor e revolta.

- Não, meu senhor. Ela precisa lhe falar porque ela é uma das que sabem que Hodekin mentiu.

sábado, 28 de abril de 2012

O Último Rei Orco XI

Era como se ela estivesse sonhando, e nada fosse real. Como se não estivesse caminhando na verdadeira Asikli Hoyuk em que viveu toda sua vida, mas em uma outra, uma cópia distorcida.

Seu pai estava ali, e tudo que ela queria era correr e abraçá-lo, que tudo ficaria bem, mas parecia que seus passos, seus próprios pensamentos, eram guiados por uma outra vontade, e ela se afastou sem olhar para ele.

Em algum lugar muito pequeno, dentro de sua mente, Hina tentava despertar, mas não conseguia.

Seu irmão, cego, seguia a seu lado, segurando firme sua mão, e descrevia o que percebia ao redor,  tanto no presente quanto no futuro. A voz, lenta e monótona, parecia vir de um ser sem vida, sem alma.

- Ao abrir os portões, Orcos virão correndo, armados de machados e espadas. Antes mesmo deles chegarem, flechas já estarão caindo sobre nós. - Ele falou, quando pararam na frente dos portões da cidade.

- Nenhuma flecha nos atingirá - Hina falou, a voz firme e grave não era sua - Nenhum orco ultrapassará o portão.

Os portões se abriram, e eles caminharam para fora das muralhas da cidade.

- Seth, filho de Makel, virá em nossa direção e nos atacará com sua espada. Ele acertará você primeiro, depois a mim.
 
- Seth largará sua espada, sem nos fazer mal, e nos levará até seu pai, o Rei Makel.

Mais frases Tuna falou com uma voz que não era sua, e para cada uma, Hina respondeu com um comando, quase sem perceber, sem lembrar. Quando deu por si, estava na frente do Rei dos Orcos.

- Iremos parar na frente de... - pela primeira vez, a voz de Tuna faltou, e quando ele recomeçou a falar, sua voz já não era convicta - haverá um... alguém... que falará algo...

- Rei Makel, dos Orcos, ajoelhe-se ante os filhos de JUS PATER - Hina ouviu estas palavras sairem de seus lábios.

E então uma pergunta lhe foi feita, e ela respondeu. E algo aconteceu. Algo muito errado.

E Hina despertou de seu quase sono divino.

E começou a gritar.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Último Rei Orco X

Quando as crianças sairam do Templo, toda uma tarde e toda uma noite haviam passado. Fora, ao lado da porta, um Rei rezava, ajoelhado. Ele deveria estar rezando por seu povo, deveria estar rezando pela vitória dos Homens e derrota dos Orcos.

Ele rezava por seus filhos.

O Rei se levantou, e olhou para as crianças, e depois para o sacerdote, Hodekin, que seguia atrás delas. Tuna trazia uma faixa envolvendo seus olhos, e segurava a mão de sua irmã, que o guiava. Hina tinha o olhar distante, perdido no horizonte. Nenhum dos dois pareceu perceber a presença de seu pai. Apenas o sacerdote olhou para o Rei, um leve sorriso em seu rosto.

- O que você fez com eles, Hodekin?

- Eu, meu Rei? Eu sou apenas um instrumento do poderoso JUS. E agora, também elas o são.

- Tuna, Hina, vocês estão bem. - Nenhuma das crianças lhe respondeu, e elas seguiram em frente, caminhando lentamente, em direção a muralha norte.

- Não as distraia, meu Rei. Elas são agora os olhos e a voz de JUS PATER. Deixe-as ir, enfrentar o Rei dos Orcos.

- E quando o enfrentarem, o que será delas, depois?

- Isto não cabe a mim dizer, meu Rei.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O Último Rei Orco IX

Tuna e Hina, o filho homem e a filha mulher do Rei Goldemar entraram no templo de mãos dadas, duas crianças de nove anos, trazidas por Sharazin, uma criada. Seu pai as aguardava, incapaz de esconder a preocupação estampada em seu rosto. Ao seu lado, o sacerdote de JUS PATER, Hodekin, abriu um sorriso ao vê-los.

- Aproxime-se, Tuna, filho do Rei Goldemar e príncipe dos homens. Aproxime-se Hina, filha do Rei Goldemar e princesa dos homens - a voz de Hodekin, melodiosa, combinando com seu sorriso, como se estivesse feliz em vê-los.

As crianças se aproximaram em silêncio, e pararam a um passo de sacerdote, sempre de mãos dadas.

- Crianças, vocês sabem que os Orcos cercam Asikli Hoyuk, a primeira cidade dos homens?

Hina respondeu apenas com um aceno de sua cabeça, enquanto Tuna permaneceu imóvel.

- Digam-me, então, crianças. Eles conseguirão entrar pelos nossos portões? Conseguirão destruir o último templo de JUS e por fim a raça dos homens?

- Não. - Hina respondeu de imediato, a voz firme, os olhos encarando fixamente o sacerdote. Tuna abaixou seu rosto.

- E como você tem tanta certeza, criança?

- Serão os homens a herdar a terra, sacerdote, não os Orcos. Foi a palavra de Jus Pater, e a palavra dele é a verdade. - uma vez mais, Hina respondeu de imediato.

- Ah, a voz de uma criança carrega mais sabedoria que a voz de um rei. Não concorda, Rei Goldemar?

- Ainda não me disse por que as crianças foram chamadas, Hodekin. Foi apenas para continuar a me provocar?

- Ah, não, meu Rei, eu não lhe disse que elas seriam nossa salvação? Elas serão a visão e a voz de JUS PATER na terra. Esta noite serão purificadas, e amanhã, enfrentarão e, com o poder do mais poderoso dos deuses, destruirão o Rei dos Orcos para sempre.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O Último Rei Orco VIII

O Rei Goldemar, senhor de Asikli Hoyuk e único dos Grandes Reis dos Primeiros Homens que ainda vivia, entrou apressado pelas portas do  templo de JUS, aquele que os Orcos chamavam de Z-US. À sua espera, Hodekin, sacerdote e representante na terra do poderoso deus.

- É um prazer vê-lo no tempo de JUS, meu Rei. É uma pena que suas visitas são tão raras. JUS já começa a duvidar de sua fé e questionar se seus atos de louvor são sinceros.

- Não temos tempo para pregações, sacerdote. Os Orcos cercaram a cidade e nos atacarão a qualquer momento. Nossas muralhas não os deterão para sempre.

- Ah, nobre Rei, então não foi a fé que o trouxe aqui, mas o medo. O temor é uma dádiva dívina, mas se temes mais os Orcos e seu deus menor que o grande JUS PATER, nosso pai, então todos temos razão para nos preocuparmos. Quando a fé de um Rei falha, todo seu povo corre perigo.

- Agora zombas de mim, sacerdote? Uma a uma, as cidades dos homens cairam. Acaso eles também não eram filhos de JUS? E o que acontecerá quando Asikli Hoyuk, a primeira cidade dos homens, cair? Quem irá louvar JUS, então? Ele virará um deus menor, caído aos pés do J-VA dos Orcos?

- Contenha suas palavras, Rei Goldemar! - A voz de Hodekin agora mais alta que a do Rei - Estás na casa do poderoso JUS PATER, cujo poder é infinitamente maior que o seu. JUS PATER cuja palavra é a verdade. Não blasfeme novamente nesta casa.

No silêncio que se seguiu, ambos, rei e sacerdote, se encararam. O Rei Goldemar foi o primeiro a abaixar os olhos. Respirou fundo e falou em voz mais contida.

- Perdoe-me se minhas palavras ofenderam a JUS PATER, mas elas não são menos sinceras por serem ofensivas. O que será de nosso deus, se a última cidade dos homens cair? Ele tem que nos salvar, nesta que é a hora mais desesperada de seu povo.

- Não pense que nada tenho feito. Eu orei a nosso deus por toda esta manhã, meu Rei. Três virgens dançaram aos sons da primeira canção, enquanto eu perguntava o que deveríamos fazer, e cada uma com uma voz me deu uma resposta.

- O que elas disseram? O que devemos fazer?

- O que elas disseram é destinado apenas ao ouvido dos mais santos entre os homens. O que você deve fazer, porém, meu Rei, eu posso lhe dizer. Traga seus dois filhos aqui, agora! Eles são a chave de nossa salvação. Eles, com sua fé e a palavra de JUS PATER, têm o poder de vencer o Rei dos Orcos.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Último Rei Orco VII

A voz de J-VA, Aquele que um dia foi o Último Rei dos Orcos aproximou-se de seus filhos, do que vivia e do que estava morto.

- Deixe Cãn partir. Mais nenhum sangue de In ou de El será derramado esta noite.

Seth foi o primeiro a se ajoelhar ante o milagre a sua frente, seguido em instantes por todos os Orcos, enquanto olhavam, admirados, para seu Rei.

- Meu pai, como é possível? Seus olhos, sua mão? Cãn disse que o viu morrer em seu sonho. - A visão era assombrosa. O Rei parado, os Orcos ajoelhados a seu redor. Sua mão esquerda tão perfeita quanto a direita, seus olhos intactos, sem cicatrizes, como se ele nunca houve usado o olho do dragão.

- Cãn disse a verdade! Makel, Último Rei dos Orcos, está morto. Eu sou a voz de J-VA. Eu fiz a última viagem, a viagem da qual não há retorno, e retornei.

- Mas Cãn matou Ab, meu pai, e agora mesmo desaparece de nossa vista, à distância. Deixe-me trazê-lo para seu julgamento.

- Não. Ele deve partir. Ele e a tribo de In. Eu vi as visões que apenas os mortos vêem, eu soube verdades que não pertencem ao mundo dos vivos. Cãn e sua tribo devem partir, Seth, esta é a vontade de J-VA. Sete mortes J-VA trará para aquele que matar Cãn ou qualquer um de sua tribo, e nós não queremos esta maldição para nós.

- Então a morte trouxe de volta meu pai e levou meu irmão. Ab deu sua vida por mim, mas daria dez vezes por você, meu pai.

Aquele que foi o último Rei dos Orcos não respondeu. Ele se aproximou e se ajoelhou ao lado do corpo de seu filho morto, sua mão direita puxando um cantil que estava amarrado em sua cintura, para em seguida derramar um punhado de água cristalina no rosto ensanguentado.

- Esta é a água do primeiro lago. Ela lhe dá um novo nome, lhe dá uma nova vida.

- Você agora tem poder para levantar os mortos, meu pai? - Seth perguntou. Aquele que um dia foi Makel olhou para o corpo a seu lado, como se esperasse para saber como responderia a pergunta.

A voz de J-VA então se levantou - Se fosse para Ab viver novamente, ele se levantaria e nos seguiria. Ao que parece ele não nos seguirá para Asikli Hoyuk.

-Asikli Hoyuk? Então a última batalha irá começar.

- Ouça-me, Seth. Ouça-me todos, pois minhas palavras são as palavras de J-VA. Iremos a Asikli Hoyuk, exterminar os humanos de uma vez por todas. Nenhum homem deve sobreviver, e nenhuma mulher que possa trazer um homem em sua barriga. Então, matem agora todos os rapazes, e também todas as mulheres que já alguma vez se tenham deitado com um homem; as restantes deixem-nas em vida e podem levá-las convosco, pois elas não poderão gerar filhos homens. Estas foras as palavras de J-VA, que agora repito a vocês, meu povo.

E assim, a voz de J-VA, que um dia foi o Rei Orco, partiu, com seu exercito, para o último bastião do homem.

Só muito depois, quando já era noite novamente, Ab El despertou de sua morte, confuso, e partiu também, mas sem rumo e sem saber por que vivia.

Ele não voltaria a encontrar seu pai.