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FICÇÃO CIENTÍFICA  -  FANTASIA  -  TERROR.


terça-feira, 27 de março de 2012

O Legado de Jeremias

Relatório Número 53 - 10/10/2190
Cadastro de novo paciente: nome desconhecido (denominação: paciente 12)

Paciente 12 não tem nenhuma informação pessoal nos registros, mas certamente é o paciente mais antigo da clínica. A data do registro é de 17/01/2120, e, portanto, ele está a pelo menos 50 anos internado. Como o sistema não tem nenhum registro anterior a esta data, é provável que esta seja apenas a data de um recadastramento, e o paciente esteja internado ainda a mais tempo.
A idade aparente é de pelo menos 110 anos. É possível que Paciente 12 tenha nascido logo após a Grande Guerra.
Paciente 12 praticamente não reage a presença de outras pessoas, aparenta estado avançado de demência, mas se alimenta e respira sem apoio de aparelhos. Pela idade avançada, e sem acesso a tratamentos avançados de prolongamento da vida, sua expectativa de sobrevivência é de menos de um ano.
Requisitado ao Doutor Carvalho autorização para incluí-lo no experimento de transplante de cérebro. Requisição adicional para tratamento mínimo de rejuvenescimento, para garantir sua sobrevivência pelos três anos necessários para clonagem.

Alcides Fernandes, estagiário de mestrado.
Projeto de pesquisa: transplante completo de cérebros em pacientes terminais


Relatório Número 117 - 15/8/2193
Nome do paciente: Paciente 12 (nome desconhecido)
Autor: Alcides Fernandes

Paciente 12 está estabilizado e pronto para operação. Clone envelhecido até a idade de 16 anos e pronto para receber cérebro.
Durante últimos 3 anos, paciente não mostrou alteração. Permanece aparentando demência profunda.
Informações adicionais localizadas a respeito de paciente 12 em registros antigos. Idade confirmada como 125 anos. Nacionalidade brasileira. Nenhum registro indica se ele nasceu nas regiões Argentina, Chilena ou Colombiana. Na época de seu nascimento todas formavam o país Brasil.
Paciente 12 tinha 10 anos na época da Grande Guerra. Jovem demais para ter participado, mas certamente ele presenciou os acontecimentos, talvez inclusive seja um sobrevivente dos campos.
Nota particular: me pergunto o que ele não poderia nos revelar sobre aquela época, o que ele não deve ter vivenciado. É uma pena que o transplante não irá curar sua mente, mesmo que desta vez tenhamos sucesso.

Relatório Número 125 - 20/11/2193
Relatório Geral

Operação realizada com sucesso em 23 pacientes. Apenas 5 ainda estão vivos. Paciente vivo mais antigo: paciente 12 (nome desconhecido), 3 meses pós transplante.
Como todos os históricos de pesquisas anteriores de transplantes completos de cérebro, expectativa de vida nunca ultrapassa 5 meses. Segue análise dos óbitos até o momento...


Relatório Número 135 - 23/01/2194
Nome do paciente: Paciente 12

Paciente 12 tornou-se hoje recordista em sobrevivência, ultrapassando 5 meses e 3 dias.
Requisito autorização para iniciar diagnóstico e tratamento de sua aparente demência. Acredito que em sua mente pode estar a resposta para sua sobrevivência prolongada.

Relatório Número 140 - 20/02/2194
Nome do paciente: Paciente 12

Paciente 12 permanece saudável, 6 meses pós transplante. Recebida autorização para diagnóstico e tratamento.
Scan do cérebro do paciente já havia revelado alterações neurológicas, mas computador não indicou nenhuma doença mapeada associada as alterações.

Relatório Número 141 - 20/02/2194
Relatório Geral

Paciente 12 é único sobrevivente do lote de transplantes. Pesquisa irá agora tentar curar sua mente e identificar particularidades que viabilizaram sua sobrevivência prolongada.

Relatório Número 143 - 22/02/2194
Nome do paciente: Paciente 12

Análise DNA de Paciente 12 já havia revelado sua herança genética parcialmente pura. É descendente, pela linha paterna, de alemães. Este DNA, pelo lado paterno, poderia tê-lo incluído nas vítimas da guerra contra a pureza genética de Jeremias Silva.
Paciente 12 pode ter sido um sobrevivente de um campo. Isto significa que ele também pode ter sido vítima de um dos experimentos dos cientistas de Jeremias Silva, e as alterações em seu cérebro podem ser decorrentes disto.
Estaremos abordando esta linha de pesquisa.

Relatório Número 144 - 23/02/2194 - Paciente 12
Paciente 12 é sobrevivente de um campo. Há sinais de uma antiga cicatriz em sua mão direita, exatamente na posição em que eram inseridos os chips de localização.
Novo scan do cérebro de Paciente 12 indica microchips biológicos inseridos em seu cérebro. Requisitada autorização para remoção dos microchips e tratamento de reposição de neurônios.

Relatório Número 146 - 26/02/2194 - Paciente 12
Microchips removidos. Tecnologia do século passado, mas extremamente sofisticada para a época. Impossível precisar suas funções.
Suspeito que eram destinados a ampliar as capacidades cognitivas ou retardar perdas neurológicas. Infelizmente somente nos últimos 20 anos foi autorizado o uso de chips neurológicos em cérebros humanos, proibidos desde a guerra, e é possível que a tecnologia brasileira da época de Paciente 12 apresentasse alguns avanços neste sentido mesmo em relação ao estado da arte atual.
Sabemos que milhares de experimentos foram realizados na época, com prisioneiros dos campos. Paciente 12 é provavelmente um dos últimos sobreviventes destes experimentos.

Relatório Número 153 - 10/03/2194 - Paciente 12
Paciente 12 teve sua primeira reação espontânea a um estímulo externo hoje.
Durante toda esta semana, estive falando com Paciente 12, enquanto monitorava suas reações. Hoje resolvi falar sobre a Grande Guerra, os campos, a política de Jeremias de miscigenação, seus discursos contra as 'raças puras'.
Quando citei o nome de Jeremias, Paciente 12 olhou para mim e repetiu este nome: Jeremias.
Foi sua única reação, antes de voltar a seu estado de não responder.

Relatório Número 160 - 25/03/2194 - Paciente 12
Após semanas de lenta recuperação, Paciente 12 aparentemente retrocedeu ao estado de desconexão com o mundo externo. Suspeito que os danos em seu cérebro foram irreversíveis.

Relatório Número 165 - 15/04/2194 - Paciente 12
Nenhuma reação, paciente 12 parece ter retornado a seu mundo particular. Cogita-se abandonar esta linha de pesquisa.

Relatório Número 170 - 22/04/2194 - Paciente 12
Paciente 12 estava fingindo!
Sua recuperação não retrocedeu no final de março, mas permaneceu evoluindo. Ele optou por fingir não prestar atenção ao mundo externo.
Esta manhã, no refeitório, outro paciente estava assistindo um documentário sobre o fim do Brasil como nação, em 2073, e a distribuição dos territórios entre Argentina, Chile e Colombia. Paciente 12 estava tentando prestar atenção sem que ninguém percebesse.
Eu me sentei na sua frente, e disse que sabia que ele estava fingindo.
Ele apenas olhou bem nos meus olhos, sorriu para mim, mas não disse uma palavra.

Relatório Número 175 - 03/05/2194 - Paciente 12
Paciente 12 está curado. Não apenas isto, mas sua mente parece sem igual.
Levou mais de uma semana para ele aceitar conversar comigo.
Eu conquistei seu interesse falando sobre o mundo de hoje e tudo que aconteceu desde a Grande Guerra. Ele mostrou uma capacidade impressionante de entender e conversar sobre dispositivos biológicos, nanocomputadores, realidade concorrente.
Paradoxalmente, Paciente 12 demonstra não saber de nada que ocorreu após a guerra, é possível que estivesse em seu estado de aparente demência desde o final da guerra. Imagino que ele já estivesse assim quando foi resgatado do campo, mas ele se recusa a falar sobre esta época.
Paciente 12 diz não se lembrar seu nome, e muito pouco do que aconteceu antes do início da Guerra. Ele provavelmente era uma criança pequena quando foi levado para o campo, junto com todos os descendentes de italianos, alemães, japoneses, árabes.

Relatório Número 176 - 06/05/2194 - Paciente 12
Perguntei para Paciente 12 como ele gostaria de ser chamado, e ele disse que não gostaria que lhe dessemos nenhum nome. Ele disse que iria se lembrar sozinho de seu nome, e que até lá poderíamos continuar chamando-o de Paciente 12.
Estive pesquisando sobre a Grande Guerra, para conseguir responder as perguntas de Paciente 12. Aparentemente tudo que ele sabia sobre a guerra foi o que ouviu da propaganda brasileira transmitida nos campos de concentração.
Hoje falamos sobre Jeremias Silva, o maior genocida da história humana. Paciente 12 esteve particularmente calado, enquanto eu falava sobre as atrocidades do ditador. Ao final, ele me perguntou quantas pessoas era estimado que haviam morrido na guerra.
Um bilhão, duzentos e cinquenta milhões. Um número que reduzia a nada tudo que qualquer ditador havia feito antes de Jeremias. Stalin, Hitler, e seus extermínios e guerras, não eram nada em comparação.
Ele só me fez mais uma pergunta. Como Jeremias morreu?
Suicídio, eu respondi. E seu corpo foi queimado, as cinzas jogadas no mar.

Relatório Número 178 - 10/06/2194 - Paciente 12
Paciente 12 aparenta perfeitas condições físicas e mentais. Ele tem se exercitado quatro horas por dia, e passa o restante do tempo conectado na rede biológico-informatizada, absorvendo informações em uma velocidade quase sobre-humana.
Cheguei a avaliar se sua aparente capacidade intelectual superior seria, de alguma forma, resultado do transplante, mas não faz nenhum sentido.
A única conclusão que me resta é que Paciente 12 é naturalmente um gênio, talvez o maior gênio que já tive a oportunidade de conhecer.
O que ele não poderia ter sido, se não fosse Jeremias Silva? O potencial desta pessoa, deste Einstein dos dias de hoje, se tivesse desenvolvido seu intelecto durante estes mais de 100 anos... O que ele não poderia ter feito, ter descoberto, se apenas Jeremias Silva e sua maldita guerra não tivessem estragado sua vida?

Relatório Número 179 - 11/06/2194 - Paciente 12
Paciente 12 desapareceu. Mais inacreditável, ele fugiu.
Até ontem, eu teria julgado impossível.
Paciente 12 aparentemente se infiltrou e de alguma forma assumiu controle do sistema biológico-informático de vigilância, criando uma perda geral de informações.
O sistema está um caos, vários dados foram perdidos. Meus relatórios inclusive. Por sorte eu tinha cópias impressas dos mesmos. Meu estágio está terminando e foi uma sorte eu ter estas cópias.
Mas para onde ele foi? E, o mais importante, por que ele fugiu?

Relatório Número 180 - 12/06/2194 - Paciente 12
Não houve uma perda geral de informações.
A perda foi específica.
Todos os dados sobre o Paciente 12, inclusive fotos, registros, tudo foi apagado. É como se ele nunca tivesse existido.
Estou apavorado. Não tem como um ser humano ter conseguido fazer isto, por mais genial que fosse.
O Doutor Carvalho vai fazer uma chamada de alta prioridade, para o conselho de medicina. Ele também está muito confuso com tudo que aconteceu.

Relatório Número 181 - 13/06/2194
Paciente 12
Este é meu último relatório, e não sei quem vai lê-lo. Certamente não uma banca de mestrado. Este relatório, na verdade todos os relatórios que escrevi, são agora ultra-secretos. Eu vou entregar este relatório com os demais e todas as cópias, e provavelmente é a última vez que poderei mencionar o paciente 12. Ficarei feliz se quando tudo isto acabar, eu ainda estiver em liberdade.

Não foi o conselho de medicina que nos visitou, apenas duas horas depois do Doutor Carvalho abrir um chamado...
Foi o ministro de defesa da terra...
Pessoalmente...
Junto com a maior mobilização de soldados, robôs-soldados e farejadores genéticos já reunidos desde a última guerra.
Foi cortada a luz e comunicação de toda a cidade. Me disseram que de todo o estado.

A reunião com o ministro foi a experiência mais apavorante da minha vida, e tentarei transcrevê-la abaixo tão precisamente quanto possível, para registro:

- Você tem idéia do que fez? - a voz do ministro era alta. Mais exatamente, ele estava gritando, enraivecido, enquanto apontava na minha direção. Naquele momento eu ainda não fazia idéia do que tinha acontecido.
- Não - eu respondi - isto é por causa do paciente 12?
- Paciente 12? Paciente 12? Você não sabe o nome dele? - ele falou isto em uma voz apenas um pouco mais baixa, depois de respirar por alguns instantes. Eu apenas balancei a cabeça, em negativa.
- Seu nome era Jeremias.
- Jeremias - eu respondi, ainda sem entender - mas ninguém coloca Jeremias como nome de um filho, desde a guerra... ah, claro, ele já tinha 10 anos, na época da guerra, por isto do mesmo nome do genocida.

Esta é a parte da reunião que me lembro bem. Eu não me recordo do soco que levei do ministro. Creio que desmaiei instantaneamente. Só quero dizer que eu não tinha como saber que ele era 12 anos mais velho que o que constava nos registros. Como eu poderia imaginar que ele tinha 137 anos e não 125?

O que o ministro disse a seguir só fiquei sabendo após, quando acordei, pelos relatos do Doutor Carvalho, e juro que nunca pensei que poderia ser possível.

- Ele não tinha o mesmo nome de Jeremias Silva. O homem que você curou e libertou no mundo, com um corpo e mente em perfeitas condições, é Jeremias Silva.

Encerro aqui meu relatório.
Alcides Fernandes, estagiário de mestrado.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O Reino de Martin 4/7 - Capítulo IV

Capítulo IV - 90º dia, 5º Ano Gen (4 anos, 90 dias da independência de Norst)

O ano 265 do antigo calendário iniciou sem que houvesse qualquer comemoração, pelo menos oficialmente. Nada foi dito formalmente, mas todos sabiam que comemorar o aniversário do dia que o primeiro humano pôs os pés em Norst poderia ser considerado subversivo.

As comemorações oficiais foram feitas 90 dias antes, marcando o aniversário da data que a última nave espacional partiu do espaçoporto de Norylsk. Soldados desfilaram nas ruas, multidões aplaudiram, o povo clamou pela presença de Martin, mas ele não apareceu. Há anos ele não se arriscava mais a aparecer em público.

"Dantès adoraria que ele se mostrasse ao público uma única vez mais", pensei comigo mesma, enquanto aguardava o elevador. Era um jogo de gato e rato que estava parado em um impasse, Martin temia por sua vida, Aldo estava morto, eu continuava seu trabalho, infiltrada na revolução dentro de uma revolução que Dantès havia criado. Alguém teria que fazer um movimento, forçar uma reação, um erro.

Um calafrio me percorreu quando saí do elevador. Eu havia pisado neste prédio uma única vez, anos antes, em missão junto com Martin, a única missão que fizemos juntos. O antigo prédio do senado era agora a sede do novo governo. Martin estava bem aqui, bem próximo, apenas alguns andares acima. Tudo que eu queria era poder subir estes andares, poder finalmente revê-lo, mas a segurança jamais permitiria.

- Tarith, que bom vê-la novamente. - Nary me recepcionou com um abraço e um sorriso, verdadeiramente feliz em me ver, após dispensar o guarda que me acompanhou do elevador até sua sala. - Tem certeza que é seguro vir até aqui?

- Eu não fui seguida. Na verdade, quem me vigia é Nando, seu agente.

- Eu sei, mas isto não impediu que pegassem Aldo. E agora que você está mais próxima de encontrar Dantès, nada nos garante que eles não coloquem mais pessoas vigiando você.

- Por isto mesmo que eu precisava vir pessoalmente. Na próxima semana encontrarei Dantès pessoalmente, e nós não podemos perder esta oportunidade.

- Você vai encontrá-lo? Tem certeza?

Eu acenei com a cabeça. O interesse de Nary era visível. Em ação, era impossível discernir suas emoções, mas aqui, apenas nós duas, ela se eriçava toda só em pensar na possibilidade, como um gato ansioso para atacar sua presa.

Ela começou a traçar planos instantaneamente, em sua maioria envolvendo uma ação suicida minha, uma bomba ou nano implantado em meu corpo, mas eu lhe disse que provavelmente seria examinada antes de chegar perto de Dantès. Ele era tão paranóico quanto Martin, Nando poderia lhe confirmar.

- Você pode chegar perto de Martin a hora que quiser - eu disse, o ciúmes perceptível em minha voz - Dantès só tem ouvido falar de meu trabalho em sua organização, ele não me conhece e não vai confiar em mim.

- Então você tem um plano melhor? - Ela por fim disse, a voz não escondendo sua irritação - você mesma disse que não podemos perder esta oportunidade.

Eu então lhe contei meu plano. Era mais força bruta que sutileza, mas nós tínhamos a vantagem da surpresa e do número de soldados que poderíamos dispor. Iríamos cercar e atacar Dantès assim que eu conseguisse a confirmação que ele estivesse presente em um local.

- Faça isto, Tarith, e Martin lhe será grato. Eu não posso prometer nada, ele tem - ela hesitou - ele tem questões com você, não posso explicar, você não entenderia, mas se fizer isto e sobreviver, eu tenho certeza que ele será grato a você.

- A vida de Martin é a única coisa importante para mim - eu respondi com sinceridade. Ela me abraçou, e me disse que comandaria pessoalmente a operação.

- Vou fazer de tudo para proteger você - foi a última coisa que ela me disse, quando me despedi.

"É um jogo de gato e rato, entre Martin e Dantès", eu pensei novamente, ao sair do elevador. "Como foi entre Martin e os humanos. Como foi entre Martin e o Senador".

Mais um calafrio me percorreu o corpo, enquanto me afastava do prédio que um dia pertenceu ao senado humano.

O prédio de meu pai.

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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Príncipe Melvin, Matador de Dragões

Príncipe Melvin, Matador de Dragões - (versão revisada em 20/01/2012)

O dragão me esmagava contra o chão, colocando o peso em sua pata, que pressionava meu escudo por cima do meu peito, mal me permitindo respirar. Eu estava indefeso, minha espada caída além do meu alcance, a lâmina estilhaçada.

O dragão falou em uma voz sibilante, a língua bifurcada aparecendo por instantes na boca semi-aberta.

- Aposto que você achou que seria fácil me vencer, não é, nobre cavaleiro? Veio com a cabeça cheia de histórias de heróis matando dragões e resgatando princesas, histórias cantadas por trovadores e repetidas por meninas românticas e jovens sonhadores. Você sabia que nós dragões também contamos histórias?

Eu tentava mover minha mão esquerda, presa embaixo do escudo. Em minhas roupas eu tinha uma ORB mística, a ORB de meu pai, o Rei Magnus. Grandurf, o mago, havia me alertado para somente usá-la na minha hora mais desesperada, mas sem dúvida ela era minha última esperança.

- O que houve? Não consegue falar? - o dragão soltou ligeiramente o peso, me permitindo respirar melhor e mover um pouco o braço. - o dragão comeu sua lingua?

Eu comecei a tirar o braço do escudo, mas era difícil me mover, a pata do dragão ainda me prensando contra o chão. Eu sabia que precisava ganhar tempo, e por isto resolvi responder as provocações da fera.

- Solte-me e enfrente-me se tem coragem, dragão. Lute comigo em um combate justo, e eu garanto que você nunca mais aterrorizará a vila de Mathigan.

- Enfrentá-lo? Mas eu acabei de enfrentá-lo. Você veio, armado com escudo, lança, espada, parecendo um cavaleiro de verdade, achando que seria páreo para um dragão. Você lutou com toda a coragem e estupidez de uma criança humana com a cabeça cheia de tolices românticas. E você perdeu.

Era verdade que eu tinha sido derrotado. Minha espada encantada, enfeitiçada pelo próprio Grandurf, se quebrou na pele do dragão. Mas a ORB era de um feitiço ainda mais antigo, estava a gerações na minha família, Grandurf me contou. Meus dedos estavam encostando nela, mas eu precisava segurá-la em minha mão para usá-la. Se eu apenas pudesse puxá-la com a ponta dos dedos. Se apenas eu conseguisse distrair o dragão por mais alguns segundos.

- Eu sou um cavaleiro de verdade, dragão, ordenado pelo Mago Grandurf. Mais que cavaleiro, sou o verdadeiro príncipe perdido, Melvin, herdeiro das terras do norte, destinado a libertar nosso reino de todos os dragões e vis criaturas místicas.

- Ah, Grandurf o encontrou e lhe contou seu destino, eu aposto. E o que você era antes de Grandurf visitá-lo e revelar sua verdadeira origem? Um camponês? Um criador de ovelhas? E, como em todos os seus contos de fadas, você descobriu que era na verdade um príncipe vivendo entre meros plebeus, estou certo?

Duas semanas atrás, eu pensava ser apenas um aprendiz de ferreiro, morando com meu tio, ou melhor, com um homem que dizia ser meu tio. Mas na verdade eu sempre soube que era diferente, que corria sangue nobre em mim. Quando Grandurf me encontrou, e me revelou minha verdadeira origem, tudo fez sentido. Eu era o príncipe perdido, e a profecia dizia que eu livraria o mundo dos dragões.

Comecei a puxar a ORB das minhas roupas com meus dedos e adquiri nova confiança. Mais alguns instantes e poderia usar seu poder e derrotar o dragão. Bastaria ganhar alguns segundos.

- Grandurf revelou minha origem, sim, dragão. Mais do que isto, ele se tornou meu mentor, e me treinou para vencer criaturas como você. Ele me deu o poder para derrotá-lo e salvar a vila de Mathigan.

- Derrotar-me? Não sei nada sobre você me derrotar, mas você vai, sim, salvar a vila de Mathigan. Pelo menos vai salvá-la por um mês inteiro, até eu ter fome novamente. Até o próximo príncipe perdido vir me enfrentar.

Finalmente, com um último esforço, aproveitando que o dragão se distraiu e soltou um pouco mais o peso, eu movi o braço os últimos centímetros que faltavam, e segurei a ORB em minha mão.

- Eu vou derrotá-lo sim, dragão, vou derrotá-lo com magia mais antiga que sua espécie. Vou derrotá-lo com a ORB dos matadores de dragões, entregue em minhas mãos pelo próprio Grandurf - e me concentrei na ORB, usando toda minha força de vontade para ativá-la.

E nada aconteceu.

- A ORB de Grandurf? Grandurf, que convenceu-o que você era um príncipe? Grandurf, que traz um novo garoto aqui a cada mês, para que eu continue poupando sua vila? Grandurf que encheu sua cabeça das histórias humanas, que terminam com os heróis vencendo e vivendo felizes para sempre?

O pavor tomou conta de mim. Eu tentei dizer: "eu sou um príncipe de verdade", mas não consegui falar nada, meu corpo paralisado de medo.

- As histórias de dragões são mais simples. Nelas, não há heróis, finais felizes, princesas a serem resgatadas. Mas elas sempre terminam com uma refeição. E você sabe qual nossa comida favorita?

Eu apenas balancei a cabeça, em sinal de não, apavorado demais para dizer qualquer coisa. O dragão abriu a boca, e um jato de fogo me envolveu.

- Carne assada.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O Reino de Martin - Capítulo III

Capítulo III - 417º dia, 3º Ano Gen (2 anos e 417 dias da independência de Norst)

Por quase duas horas eu andei de um lado para outro, observando o fluxo de pessoas que chegavam e saíam, até reunir coragem para entrar no templo do ancião.

Primeiro, eu havia atravessado a cidade, meu rosto coberto por um capuz, a capa me protegendo da chuva. Incógnita, numa região que nunca estive antes, procurando por respostas.

O templo era dos mais simples, apenas uma casa igual a todas ao seu redor, apenas com a marca na porta para indicar que um ancião morava ali, e que aquele era um lugar de meditação e busca de respostas. A porta, simples, branca, estava permanentemente aberta, e eu entrei e tirei meu capuz.

- Achei que nunca iria entrar.

- O quê? - eu me virei, por um instante lutando contra o instinto de ataque, minha mão buscando instintivamente por uma arma que eu não carregava mais. Atrás da porta aberta, uma jovem, pouco mais velha que eu, me olhava com uma expressão estranha.

- Você não é a primeira pessoa que hesita em entrar em nossa casa. Eu iria convidá-la, você estava há tanto tempo na chuva, mas achei que o primeiro passo precisava ser seu.

- Não estava hesitando - eu respondi - só não queria perturbar as orações.

- As pessoas entram e saem. Algumas quietas, outras rindo, outras ainda conversando entre si. Esta não é uma casa do silêncio, e acho que você não iria perturbar ninguém. Mas acho também que você não veio para orar.

- Eu - por um instante as palavras me faltaram, e me senti idiota por ter vindo até aqui. Ela estava certa, e eu concordei - não, não vim para rezar.

- Venha, não fique na porta. Me acompanhe. - e ela indicou a direção de uma outra sala, mais ao fundo, e fez menção de me conduzir para lá.

- Eu vim para falar com o ancião, mas já está tarde. Ele deve ter outras coisas para fazer. Eu volto outro dia - Eu me virei em direção a porta, quase como que fugindo, mas o que ela me disse em seguida me fez parar.

- Você tentou se matar, não tentou?

- Na verdade não - eu respondi, mas minha voz baixa, os olhos fixos no chão, só naquele momento percebendo que minha mão esquerda estava todo o tempo massageando o pulso direito, por cima do curativo. Parecia que um abismo se abriria a qualquer momento sobre meus pés, e eu tive que conter as lágrimas.

- Venha - ela encostou sua mão em meu ombro - vamos conversar.

Eu a acompanhei até a outra sala, e sentei em um dos dois sofás. Uma mesa de centro era o único outro móvel, e um pequeno origami de pássaro o único ornamento em toda a sala.

- Você quer falar sobre o que aconteceu?

- Eu não tentei me matar - eu não olhava para ela, apenas para o chão - é difícil morrer cortando os pulsos, especialmente com um corte transversal. O máximo que você consegue é uma cicatriz. Ainda mais se você corta apenas um dos braços.

- Então por que você se cortou?

Seguiu-se um silêncio, enquanto eu realmente tentava achar o que dizer. Por fim, respondi - eu não sei. - e comecei a chorar.

Ela esperou eu me acalmar antes de continuar, e quando dei por mim estava contando coisas que nunca havia falado a ninguém, sobre Martin, Aldo, minha filha, apenas evitando mencionar seus nomes.

- E você ama esta pessoa, o pai de sua filha?

Eu assenti com a cabeça.

- E ele tirou sua filha de você? Ele também a obrigou a servir a um sádico, e nunca mais a procurou?

Eu assenti novamente, após uma ligeira hesitação. Minha cabeça começou a latejar, e eu coloquei as mãos no rosto.

- E você ainda o ama, mesmo sabendo que ele não sente nada por você, se é que alguma vez sentiu?

Eu me levantei, a raiva me dando novo ânimo.

- Ele me ama também. Martin sempre vai me amar - quando percebi que havia revelado seu nome já era tarde.

Ela não me deteve enquanto eu caminhei, veloz, até a porta, os olhos novamente com lágrimas escorrendo.

- Eu vim falar com o Ancião, não com uma de suas auxiliares.

Só ouvi sua resposta quando já estava do lado de fora, a chuva caindo em meu rosto descoberto.

- Eu sou o Ancião.

sábado, 7 de janeiro de 2012

O Reino de Martin - Capítulo II

Capítulo II - 370º dia, 4º Ano Gen (3 anos, 370 dias da independência de Norst)


Eu estava curiosa para saber o que sentiria ao vê-lo, mas Martin não apareceu no funeral. Aldo era seu amigo de infância, e ele nem se deu ao trabalho de vir uma última vez se despedir. Aldo morreu em missão para Martin, tentando encontrar Dantès, o misterioso lider da nova rebelião, que parecia querer repetir os passos de Martin e tomar seu lugar. E nem assim, Martin veio.

- Você está bem? - Nary falou em voz baixa, para não atrapalhar a cerimônia. Ela também conhecia Aldo desde pequeno. Martin havia reunido todos os conhecidos de sua infância para formar sua elite.

- Bem? Não, não estou bem. Você sabe que não estou bem desde que Martin me abandonou - eu respondi também em voz baixa - Mas você quer saber se estou triste por Aldo estar morto? Como eu poderia estar? Você sabe o que ele fazia comigo.

Por uns minutos ela nada respondeu. Quando por fim quebrou o silêncio, sua voz era lenta, hesitante.

- Ele não foi sempre assim. Não foi sempre do jeito que você o conheceu. Nenhum de nós era o que nós somos hoje, Tarith, não quando éramos crianças, em Kheel. Especialmente, Aldo. - Mais silêncio, sem que eu nada respondesse. A cerimônia prosseguia, uma cerimônia mais antiga que a vida neste planeta. Aldo, em um caixão, sendo colocado no buraco escavado na terra.

Foi só quando o pastor terminou de falar suas palavras da nova religião de Martin e começaram a tapar o caixão com terra, que Nary voltou a falar - Aldo nunca brigava, quando criança, nem para se defender. Martin sempre tinha que estar por perto, protegendo-o das crianças maiores. Até que um dia os pais deles morreram, e Martin foi levado embora. O Aldo que você conheceu foi o Aldo que nasceu naquele dia, no dia do desastre em Kheel.

- E como isto justifica o que ele fazia comigo?

- Não justifica, não justifica tudo que fizemos com você. Martin não tinha o direito de... - ela hesitou por um instante - não importa. Eu vou falar com Martin, dizer que você já sofreu o suficiente. Se eu pedir, talvez ele não passe você para outra pessoa. Ou talvez eu possa indicar alguém para Martin, alguém que não vai maltratá-la como Aldo.

Eu virei o rosto e olhei diretamente nos olhos dela - Se você quer me ajudar, tem outra coisa que você pode fazer.

- Tarith. Não adianta me pedir novamente. Eu sei que você o ama, você não tem como não amá-lo, mas Martin não vai voltar para você. Acredite em mim, ele só vai machucá-la ainda mais.

- Martin nunca me machucaria. Mas eu sei que preciso mostrar o quanto o amo, ele deve achar que não penso mais nele, que o esqueci. Não é isto que quero lhe pedir, Nary. Eu quero voltar a ativa. Eu quero voltar a ativa para encontrar e matar Dantès.

- Estamos tentando a seis meses, Tarith, e ainda nem sabemos quem ele é, qual seu verdadeiro nome. Aldo era quem chegou mais perto de encontrá-lo, e olhe o que aconteceu com ele.

- Aldo não era tão bom quanto eu, Nary. Nunca foi. Ninguém além de você era melhor em uma missão que eu. Exceto Martin, é claro. Eu era a melhor assassina que você tinha, eu aprendi como ninguém tudo que você ensinou.

- Martin não quer mais você em missões, Tarith.

- Diga a ele para me deixar caçar Dantès. Ou eu vou ter sucesso, ou vou acabar como Aldo. Se eu tiver sucesso, se eu trouxer Dantès, Martin vai saber que eu fiz isto por ele, vai perceber que eu nunca deixei de amá-lo. Se eu não conseguir, se Martin não vai mais me amar, eu prefiro mesmo estar morta. Nenhum de nós tem nada a perder se me deixar caçar Dantès.

Ela hesitou por uns instantes. A seu modo, ela gostava de mim. E ela sabia que Martin não me deixaria em paz, que ela não poderia me proteger dele. Mas me mandar em uma missão suicida? Dependeria de quanto Martin já estava assustado com a nova revolta - Esta bém, eu vou falar com Martin, vou tentar. É só o que posso prometer.

- É o suficiente. - Eu disse, e me virei para ver o final do funeral de Aldo. Quase sem eu perceber, minha mão esquerda coçava a cicatriz no pulso direito, por baixo da manga da minha roupa.

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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O Reino de Martin - Capítulo I

Capítulo I - 415º dia, 3º Ano Gen (2 anos e 415 dias da independência de Norst)

Eu abri a torneira do chuveiro, e coloquei para encher a água da banheira. Nem muito frio, nem muito quente.

E pensei em minha filha.

Em outros dias, eu sempre colocava bem forte, quase a queimar a pele. Sempre com a esperança que, se a água estivesse suficientemente quente, eu conseguiria me sentir mais limpa ao sair do banho. Hoje, não importava. A água, a banheira, elas tinham outro propósito.

Esta noite Aldo não me bateu. Ele quase foi gentil. E cada vez que ele tocava em mim eu pensava em uma forma diferente de matá-lo. Não seria difícil, ele era mais forte, mas era pura força bruta.

Lento. Tosco. Nunca entendi por que Martin o valorizava tanto.

Um golpe bem rápido poderia arrancar seu olho. Isto não o deteria, não definiria a luta, mas seria divertido. Ver seu rosto se manchando de sangue, ele gritando de dor. Se apenas ele caísse em desgraça com Martin... então, em minha fantasia, a fantasia em que Martin ainda falava comigo, eu imploraria para ele me dar a chance de fazer justiça.

Um golpe na garganta seria como eu terminaria a luta. Será que ele demoraria para morrer? Uma imagem do senador, morrendo, três anos atrás, me veio a mente. Como todas as vezes, todos os dias, um vômito subiu até a minha garganta, e eu tentei pensar em outra coisa. E entrei na banheira.

A água estava morna. Eu me lembrei de minha filha. Ela era tão pequena, tão frágil.

Algumas vezes Aldo fazia festas, juntava outros soldados de Martin, em geral subordinados dele, e prostitutas.

Eu era uma das prostitutas.

Ele achava engraçado, não se importava em me dividir com os outros. Minha humilhação era prazer suficiente.

Se apenas Martin soubesse. Martin me ama, ele nunca permitiria. Se apenas ele não tivesse me dito para obedecer a tudo que Aldo mandasse, não importava o que fosse.

Eu fechei os olhos e mergulhei a cabeça na banheira. Eu poderia respirar a água? Seria possível meu desejo de morte ser tão intenso que eu apenas me afogaria na banheira? Eu veria minha filha uma última vez, em minha mente? Eu levanto o rosto para fora da água.

Esta manhã, depois que Aldo saiu, eu me vesti e fui ao mercado. Pelo menos desta vez não havia marcas recentes em meu rosto. Mesmo assim, as pessoas olhavam para mim.

A maioria me desprezava por achar que eu era amante de um dos soldados da elite de Martin. Alguns poucos tinham pena de mim. Eu caminhava no meio deles, mas estava em outro lugar, um lugar tranquilo, em que abraçava minha filha. Um lugar em que Martin estava comigo.

Eles me desprezavam, ou tinham pena. Se soubessem que eu própria fui da elite de Martin, uma de suas assassinas, iriam me odiar? Se pudesse, eu ainda seria, mas Martin disse que eu serviria melhor a causa servindo a Aldo.

Nós éramos heróis, 3 anos atrás. Havia festas nas ruas. Minha filha estava para nascer. Martin me amava.

Agora nós éramos vilões.

E Martin levou minha filha.

Eu disse para mim mesma que não era culpa dele, que ele me amava. Eu disse que se Martin soubesse o que eu estava passando, ele viria me resgatar.

Eu imaginava ele chegando, arrombando a porta, vindo me salvar.

Mas era só uma fantasia. Eu estava sozinha. Só eu e a faca que eu guardava havia três anos. E a banheira com água quente, que ajudaria o sangue a fluir.

Eu segurei a faca, com força, na mão esquerda, e usei para cortar o pulso da mão direita.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A Vingança de Martin 9/9 - Epílogo

Epílogo - 1 Ano Depois

A última nave humana partiu do principal espaçoporto de Norylsk. A cidade festejava.

Eu olhava da janela de meu quarto. A mão em minha barriga, sentindo o bebê se agitar dentro de mim.

Tudo que eu queria é que ele estivesse aqui, comigo, mas eu sabia que agora, assumindo oficialmente a posição de lider máximo de nosso povo, ele teria ainda menos tempo para mim.

Não importava, eu não era importante, ele sim, e nosso povo precisava de sua liderança.

Ele. Meu amor, meu amante, minha vida.

Martin.