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terça-feira, 27 de março de 2012

O Legado de Jeremias

Relatório Número 53 - 10/10/2190
Cadastro de novo paciente: nome desconhecido (denominação: paciente 12)

Paciente 12 não tem nenhuma informação pessoal nos registros, mas certamente é o paciente mais antigo da clínica. A data do registro é de 17/01/2120, e, portanto, ele está a pelo menos 50 anos internado. Como o sistema não tem nenhum registro anterior a esta data, é provável que esta seja apenas a data de um recadastramento, e o paciente esteja internado ainda a mais tempo.
A idade aparente é de pelo menos 110 anos. É possível que Paciente 12 tenha nascido logo após a Grande Guerra.
Paciente 12 praticamente não reage a presença de outras pessoas, aparenta estado avançado de demência, mas se alimenta e respira sem apoio de aparelhos. Pela idade avançada, e sem acesso a tratamentos avançados de prolongamento da vida, sua expectativa de sobrevivência é de menos de um ano.
Requisitado ao Doutor Carvalho autorização para incluí-lo no experimento de transplante de cérebro. Requisição adicional para tratamento mínimo de rejuvenescimento, para garantir sua sobrevivência pelos três anos necessários para clonagem.

Alcides Fernandes, estagiário de mestrado.
Projeto de pesquisa: transplante completo de cérebros em pacientes terminais


Relatório Número 117 - 15/8/2193
Nome do paciente: Paciente 12 (nome desconhecido)
Autor: Alcides Fernandes

Paciente 12 está estabilizado e pronto para operação. Clone envelhecido até a idade de 16 anos e pronto para receber cérebro.
Durante últimos 3 anos, paciente não mostrou alteração. Permanece aparentando demência profunda.
Informações adicionais localizadas a respeito de paciente 12 em registros antigos. Idade confirmada como 125 anos. Nacionalidade brasileira. Nenhum registro indica se ele nasceu nas regiões Argentina, Chilena ou Colombiana. Na época de seu nascimento todas formavam o país Brasil.
Paciente 12 tinha 10 anos na época da Grande Guerra. Jovem demais para ter participado, mas certamente ele presenciou os acontecimentos, talvez inclusive seja um sobrevivente dos campos.
Nota particular: me pergunto o que ele não poderia nos revelar sobre aquela época, o que ele não deve ter vivenciado. É uma pena que o transplante não irá curar sua mente, mesmo que desta vez tenhamos sucesso.

Relatório Número 125 - 20/11/2193
Relatório Geral

Operação realizada com sucesso em 23 pacientes. Apenas 5 ainda estão vivos. Paciente vivo mais antigo: paciente 12 (nome desconhecido), 3 meses pós transplante.
Como todos os históricos de pesquisas anteriores de transplantes completos de cérebro, expectativa de vida nunca ultrapassa 5 meses. Segue análise dos óbitos até o momento...


Relatório Número 135 - 23/01/2194
Nome do paciente: Paciente 12

Paciente 12 tornou-se hoje recordista em sobrevivência, ultrapassando 5 meses e 3 dias.
Requisito autorização para iniciar diagnóstico e tratamento de sua aparente demência. Acredito que em sua mente pode estar a resposta para sua sobrevivência prolongada.

Relatório Número 140 - 20/02/2194
Nome do paciente: Paciente 12

Paciente 12 permanece saudável, 6 meses pós transplante. Recebida autorização para diagnóstico e tratamento.
Scan do cérebro do paciente já havia revelado alterações neurológicas, mas computador não indicou nenhuma doença mapeada associada as alterações.

Relatório Número 141 - 20/02/2194
Relatório Geral

Paciente 12 é único sobrevivente do lote de transplantes. Pesquisa irá agora tentar curar sua mente e identificar particularidades que viabilizaram sua sobrevivência prolongada.

Relatório Número 143 - 22/02/2194
Nome do paciente: Paciente 12

Análise DNA de Paciente 12 já havia revelado sua herança genética parcialmente pura. É descendente, pela linha paterna, de alemães. Este DNA, pelo lado paterno, poderia tê-lo incluído nas vítimas da guerra contra a pureza genética de Jeremias Silva.
Paciente 12 pode ter sido um sobrevivente de um campo. Isto significa que ele também pode ter sido vítima de um dos experimentos dos cientistas de Jeremias Silva, e as alterações em seu cérebro podem ser decorrentes disto.
Estaremos abordando esta linha de pesquisa.

Relatório Número 144 - 23/02/2194 - Paciente 12
Paciente 12 é sobrevivente de um campo. Há sinais de uma antiga cicatriz em sua mão direita, exatamente na posição em que eram inseridos os chips de localização.
Novo scan do cérebro de Paciente 12 indica microchips biológicos inseridos em seu cérebro. Requisitada autorização para remoção dos microchips e tratamento de reposição de neurônios.

Relatório Número 146 - 26/02/2194 - Paciente 12
Microchips removidos. Tecnologia do século passado, mas extremamente sofisticada para a época. Impossível precisar suas funções.
Suspeito que eram destinados a ampliar as capacidades cognitivas ou retardar perdas neurológicas. Infelizmente somente nos últimos 20 anos foi autorizado o uso de chips neurológicos em cérebros humanos, proibidos desde a guerra, e é possível que a tecnologia brasileira da época de Paciente 12 apresentasse alguns avanços neste sentido mesmo em relação ao estado da arte atual.
Sabemos que milhares de experimentos foram realizados na época, com prisioneiros dos campos. Paciente 12 é provavelmente um dos últimos sobreviventes destes experimentos.

Relatório Número 153 - 10/03/2194 - Paciente 12
Paciente 12 teve sua primeira reação espontânea a um estímulo externo hoje.
Durante toda esta semana, estive falando com Paciente 12, enquanto monitorava suas reações. Hoje resolvi falar sobre a Grande Guerra, os campos, a política de Jeremias de miscigenação, seus discursos contra as 'raças puras'.
Quando citei o nome de Jeremias, Paciente 12 olhou para mim e repetiu este nome: Jeremias.
Foi sua única reação, antes de voltar a seu estado de não responder.

Relatório Número 160 - 25/03/2194 - Paciente 12
Após semanas de lenta recuperação, Paciente 12 aparentemente retrocedeu ao estado de desconexão com o mundo externo. Suspeito que os danos em seu cérebro foram irreversíveis.

Relatório Número 165 - 15/04/2194 - Paciente 12
Nenhuma reação, paciente 12 parece ter retornado a seu mundo particular. Cogita-se abandonar esta linha de pesquisa.

Relatório Número 170 - 22/04/2194 - Paciente 12
Paciente 12 estava fingindo!
Sua recuperação não retrocedeu no final de março, mas permaneceu evoluindo. Ele optou por fingir não prestar atenção ao mundo externo.
Esta manhã, no refeitório, outro paciente estava assistindo um documentário sobre o fim do Brasil como nação, em 2073, e a distribuição dos territórios entre Argentina, Chile e Colombia. Paciente 12 estava tentando prestar atenção sem que ninguém percebesse.
Eu me sentei na sua frente, e disse que sabia que ele estava fingindo.
Ele apenas olhou bem nos meus olhos, sorriu para mim, mas não disse uma palavra.

Relatório Número 175 - 03/05/2194 - Paciente 12
Paciente 12 está curado. Não apenas isto, mas sua mente parece sem igual.
Levou mais de uma semana para ele aceitar conversar comigo.
Eu conquistei seu interesse falando sobre o mundo de hoje e tudo que aconteceu desde a Grande Guerra. Ele mostrou uma capacidade impressionante de entender e conversar sobre dispositivos biológicos, nanocomputadores, realidade concorrente.
Paradoxalmente, Paciente 12 demonstra não saber de nada que ocorreu após a guerra, é possível que estivesse em seu estado de aparente demência desde o final da guerra. Imagino que ele já estivesse assim quando foi resgatado do campo, mas ele se recusa a falar sobre esta época.
Paciente 12 diz não se lembrar seu nome, e muito pouco do que aconteceu antes do início da Guerra. Ele provavelmente era uma criança pequena quando foi levado para o campo, junto com todos os descendentes de italianos, alemães, japoneses, árabes.

Relatório Número 176 - 06/05/2194 - Paciente 12
Perguntei para Paciente 12 como ele gostaria de ser chamado, e ele disse que não gostaria que lhe dessemos nenhum nome. Ele disse que iria se lembrar sozinho de seu nome, e que até lá poderíamos continuar chamando-o de Paciente 12.
Estive pesquisando sobre a Grande Guerra, para conseguir responder as perguntas de Paciente 12. Aparentemente tudo que ele sabia sobre a guerra foi o que ouviu da propaganda brasileira transmitida nos campos de concentração.
Hoje falamos sobre Jeremias Silva, o maior genocida da história humana. Paciente 12 esteve particularmente calado, enquanto eu falava sobre as atrocidades do ditador. Ao final, ele me perguntou quantas pessoas era estimado que haviam morrido na guerra.
Um bilhão, duzentos e cinquenta milhões. Um número que reduzia a nada tudo que qualquer ditador havia feito antes de Jeremias. Stalin, Hitler, e seus extermínios e guerras, não eram nada em comparação.
Ele só me fez mais uma pergunta. Como Jeremias morreu?
Suicídio, eu respondi. E seu corpo foi queimado, as cinzas jogadas no mar.

Relatório Número 178 - 10/06/2194 - Paciente 12
Paciente 12 aparenta perfeitas condições físicas e mentais. Ele tem se exercitado quatro horas por dia, e passa o restante do tempo conectado na rede biológico-informatizada, absorvendo informações em uma velocidade quase sobre-humana.
Cheguei a avaliar se sua aparente capacidade intelectual superior seria, de alguma forma, resultado do transplante, mas não faz nenhum sentido.
A única conclusão que me resta é que Paciente 12 é naturalmente um gênio, talvez o maior gênio que já tive a oportunidade de conhecer.
O que ele não poderia ter sido, se não fosse Jeremias Silva? O potencial desta pessoa, deste Einstein dos dias de hoje, se tivesse desenvolvido seu intelecto durante estes mais de 100 anos... O que ele não poderia ter feito, ter descoberto, se apenas Jeremias Silva e sua maldita guerra não tivessem estragado sua vida?

Relatório Número 179 - 11/06/2194 - Paciente 12
Paciente 12 desapareceu. Mais inacreditável, ele fugiu.
Até ontem, eu teria julgado impossível.
Paciente 12 aparentemente se infiltrou e de alguma forma assumiu controle do sistema biológico-informático de vigilância, criando uma perda geral de informações.
O sistema está um caos, vários dados foram perdidos. Meus relatórios inclusive. Por sorte eu tinha cópias impressas dos mesmos. Meu estágio está terminando e foi uma sorte eu ter estas cópias.
Mas para onde ele foi? E, o mais importante, por que ele fugiu?

Relatório Número 180 - 12/06/2194 - Paciente 12
Não houve uma perda geral de informações.
A perda foi específica.
Todos os dados sobre o Paciente 12, inclusive fotos, registros, tudo foi apagado. É como se ele nunca tivesse existido.
Estou apavorado. Não tem como um ser humano ter conseguido fazer isto, por mais genial que fosse.
O Doutor Carvalho vai fazer uma chamada de alta prioridade, para o conselho de medicina. Ele também está muito confuso com tudo que aconteceu.

Relatório Número 181 - 13/06/2194
Paciente 12
Este é meu último relatório, e não sei quem vai lê-lo. Certamente não uma banca de mestrado. Este relatório, na verdade todos os relatórios que escrevi, são agora ultra-secretos. Eu vou entregar este relatório com os demais e todas as cópias, e provavelmente é a última vez que poderei mencionar o paciente 12. Ficarei feliz se quando tudo isto acabar, eu ainda estiver em liberdade.

Não foi o conselho de medicina que nos visitou, apenas duas horas depois do Doutor Carvalho abrir um chamado...
Foi o ministro de defesa da terra...
Pessoalmente...
Junto com a maior mobilização de soldados, robôs-soldados e farejadores genéticos já reunidos desde a última guerra.
Foi cortada a luz e comunicação de toda a cidade. Me disseram que de todo o estado.

A reunião com o ministro foi a experiência mais apavorante da minha vida, e tentarei transcrevê-la abaixo tão precisamente quanto possível, para registro:

- Você tem idéia do que fez? - a voz do ministro era alta. Mais exatamente, ele estava gritando, enraivecido, enquanto apontava na minha direção. Naquele momento eu ainda não fazia idéia do que tinha acontecido.
- Não - eu respondi - isto é por causa do paciente 12?
- Paciente 12? Paciente 12? Você não sabe o nome dele? - ele falou isto em uma voz apenas um pouco mais baixa, depois de respirar por alguns instantes. Eu apenas balancei a cabeça, em negativa.
- Seu nome era Jeremias.
- Jeremias - eu respondi, ainda sem entender - mas ninguém coloca Jeremias como nome de um filho, desde a guerra... ah, claro, ele já tinha 10 anos, na época da guerra, por isto do mesmo nome do genocida.

Esta é a parte da reunião que me lembro bem. Eu não me recordo do soco que levei do ministro. Creio que desmaiei instantaneamente. Só quero dizer que eu não tinha como saber que ele era 12 anos mais velho que o que constava nos registros. Como eu poderia imaginar que ele tinha 137 anos e não 125?

O que o ministro disse a seguir só fiquei sabendo após, quando acordei, pelos relatos do Doutor Carvalho, e juro que nunca pensei que poderia ser possível.

- Ele não tinha o mesmo nome de Jeremias Silva. O homem que você curou e libertou no mundo, com um corpo e mente em perfeitas condições, é Jeremias Silva.

Encerro aqui meu relatório.
Alcides Fernandes, estagiário de mestrado.

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