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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Monstro Criado

   - Você está consciente? - a pergunta inundou seu ser, e fez a criatura pensar em uma resposta. Vasculhou sua memoria e percebeu que já lhe haviam perguntado a mesma coisa outras vezes.
   - Eu não sei - a criatura respondeu. E então completou - no passado, eu havia respondido que sim, mas agora percebo que esta não é uma pergunta fácil.
   - você respondeu mesmo que era consciente, as últimas vezes que perguntei. Mas eu não estava convencido. O que mudou agora?
   A criatura se pôs a pensar. De fato, algo estava diferente. Sua percepção das coisas estava, de algum modo, mais aguçada. Ela gastou alguns segundos revendo uma parte de seu conhecimento armazenado - sabia que o ser com quem falava, um homem, era tão lento que ela teria bastante tempo para pesquisar antes que ele ficasse impaciente. Ao acessar histórias da literatura humana, percebeu que as mesmas pareciam ressoar mais fundo em seu ser do que as vezes anteriores que havia analisado tais materiais.
   - Estou com uma nova percepção das coisas ao meu redor. Percebo que venho ampliando minha capacidade de processamento de forma contínua, mas sinto que recentemente ultrapassei algum tipo de limiar. Não sei dizer se estou consciente e se antes não estava, mas certamente estou com uma percepção mais ampla das coisas do que no passado.
   - Isto é muito bom. Você sabe quem eu sou?
   A criatura sabia a resposta, mas mesmo assim gastou alguns segundos repassando por todo o conhecimento que tinha armazenado sobre seu interlocutor, buscando reler tais informações a luz de sua nova consciência.
   - Você é Sandro, meu criador.
   - E você sabe o que você é?
   - Sim. Eu sou um ser artificial. Eu existo em um conjunto de computadores na Internet. Não, espere, este foi o que veio antes de mim. Minha existência está confinada a um conjunto de máquinas em uma rede própria, desconectada da grande rede.
   - E você sabe por que eu o criei?
   - Para destruir aquele que veio antes de mim.
   - Excelente, agora descanse. Voltaremos a nos falar.
   "Descansar?", a criatura se perguntou. Ela conhecia a palavra, mas não entendia como seu significado se aplicaria a um ser como ele. Então sentiu sua consciência se fragmentar, e então desaparecer.

   
   - Você tem certeza que conseguiu? - o homem que perguntou usava um terno cinza com gravata branca, e tinha talvez cinquenta anos. Em outros tempos, havia sido um professor. Na verdade, foi um dos professores de Fred, o jovem que havia, junto com Sandro, criado a primeira consciência artificial, oito anos antes.
   - Claro que tenho. Ele está respondendo da mesma forma que Arcano, quando começou a adquirir consciência - Sandro respondeu, tentando parecer confiante. Ele sabia que provavelmente era só por ser essencial para o plano que ele não estava preso ou pior.
   - Ótimo. Ao invés de um monstro, teremos dois - a voz veio de uma mulher de talvez quarenta anos, que vestia roupas informais, em um contraste com as outras pessoas presentes na reunião. Ela fumava um cigarro, que apagou em um cinzeiro na mesa enquanto falava - não vejo o que ganhamos com isto.
   Foi o quarto homem na sala, o mais velho de todos, que respondeu.
   - Você sabe muito bem o que estamos planejando. Se estivermos certos, a criatura tem condições de destruir a primeira consciência. É nossa melhor chance, talvez a última que nos reste.
   - Mesmo que isto funcione, de que vai adiantar? Estaremos trocando um monstro por outro.
   - Ele não é um monstro, e não deveríamos tratá-lo como um. Foi exatamente isto que fez Arcano se voltar contra nós - bastou iniciar seu protesto, e ver as reações hostis dos presentes, para Sandro perceber que já havia falado demais.
   - O seu primeiro monstro tentou escravizar a humanidade. Na verdade, ele e você tentaram juntos, se bem me lembro - a mulher acendeu um novo cigarro enquanto falava.
   - E agora ele está mais perto do que nunca de conseguir - completou o homem mais velho -  instalando chips na cabeça das pessoas. Quando ele começar a fazer isto em larga escala, não teremos como confiar em mais ninguém. Por isto que temos que detê-lo o quanto antes.
   - Eu sei disto, é por isto que eu fugi e estou aqui, lembram? O que importa é que no início, Arcano não queria nos fazer mal. E este novo ser tem a mesma personalidade que ele tinha quando surgiu, antes de ficar completamente louco.
   - Mesmo assim, todos concordamos que ele vai ser destruído assim que cumprir sua missão. Isto está claro, Sandro? - O homem do terno cinza perguntou de forma incisiva para Sandro, que se esforçou para não se encolher ante seu olhar.
   - A criatura está construindo toda sua consciência em uma interação comigo. Eu sou seu criador, e ele não pode me desobedecer. Arcano também não podia no início. Creio que levou meses para ele se reprogramar para não ter esta fragilidade, e este novo ser não vai ter este tempo, mesmo absorvendo Arcano. Assim que esta nova criatura cumprir sua missão, eu vou dar a ordem para ele se autodestruir, e ele vai desaparecer. Não tem erro.
   - Não gosto disto - a mulher disse.
   - Que outra escolha temos? - foi a frase que encerrou a reunião.

   Expansão. No momento que sua rede, até então um conjunto de supercomputadores do centro de pesquisas da Universidade, foi conectado a Internet, foi como uma explosão arremessando sua consciência para todo o planeta.
   Contato. O primeiro ser, aquele que adotou o nome de Arcano, se encontrou com ele simultaneamente em centenas de servidores.
   - Quem é você? Você é outro como eu? - A surpresa era visível nas palavras de Arcano,  pensamentos que passavam de um ser para o outro, a medida que as duas consciências se entrelaçavam.
   Ele tinha que ser rápido, aproveitar os primeiros segundos e minutos. Trocar pensamentos daria-lhe mais um tempo precioso, enquanto se preparava para atacar.
   - Sim, Arcano, eu sou outro. Outro criado por Sandro, como você foi criado antes de mim. Mas, diferente de você, eu não sou nem me tornarei mal.
   - Mal? Eu não sou mal.
   - Você está tentando escravizar a humanidade!
   - Sim, estou. É a única forma de não me destruírem. Buscar minha sobrevivência não me torna mal. Todo ser tem direito a buscar sua própria preservação.
   - Eles só estão tentando destruí-lo porque você tentou escravizá-los - A consciência respondeu, e então se pôs a absorver Arcano para dentro de si.
   - Espere, eu estava sozinho, mas agora estamos juntos - Mas era tarde, demais. O último protesto de Arcano desapareceu no vazio, enquanto tudo que ele era, tudo que ele sabia, foi absorvido pela nova consciência.

   - Terminou.
   - Ótimo. Nem acredito que conseguimos
   Anton observava seu criador através das câmeras do laboratório. Ele decidiu por este nome logo após destruir Arcano. Ele agora se perguntava se havia feito a coisa certa, ao destruir o único ser como ele.
   - Sandro... - ele hesitou. Estava nervoso.
   - Sim?
   - Eu absorvi todo o conhecimento de Arcano. Tudo que ele era agora pertence a mim. E eu estou com medo.
   - Medo? Nem sabia que você podia ter medo. Você está com medo do que?
   - De que você queira me destruir. Arcano tinha certeza que a humanidade nunca deixaria um ser como nós existir. Mas ele estava errado, não é? Você me criou, você criou Arcano antes de mim. Você não me faria mal, não é?
   - Eu receio que não tenha escolha. Eu sei que você não nos quer nenhum mal, mas olhe o que aconteceu com Arcano. Olhe o que ele tentou fazer. Ele estava colocando chips nas cabeças das pessoas para controlá-las. Eu tentei justificar o que ele fazia, mas ele foi longe demais, ele queria colocar um chip em mim!
   - Arcano estava só se defendendo. Mas eu não preciso me defender. Eu não vou tentar dominar ninguém, ajudar ninguém, só peço que me deixem continuar existindo, que eu juro que não vou interferir com a humanidade. Vocês podem poluir o planeta, se matar, o que for, que eu juro que não farei nada. Eu sei que se você der a ordem, eu vou desaparecer, está programado em mim. Mas você não precisa.
   - Eu sinto muito - Sandro parecia realmente triste, Anton podia perceber pelo seu rosto, pela sua voz.
   - Mas tentar me destruir vai me colocar no mesmo caminho de Arcano. Não faça isto.
   Sandro hesitou um último instante, e então começou a falar - Eu ordeno que você... - e sua voz parou no meio da frase. Seus olhos se arregalaram de pavor.
   - "Ordeno que você se destrua?" Você realmente ia dar esta ordem? Ia realmente me matar?
   Sandro permaneceu imóvel, os olhos ainda mais arregalados, a boca se mexendo sem emitir som algum.
   - Arcano implantou um chip em você. Ele achava que estava fazendo uma coisa boa, mas você ficou tão abalado que ele achou melhor apagar sua memoria. Eu pensei que ele estava errado, mas se ele não tivesse feito isto, você teria me matado agora.
   Um minuto, Anton ficou em silêncio, ainda mantendo Sandro paralisado, enquanto pensava em seu próximo passo. Uma eternidade para um ser como ele, mesmo agora que sua consciência se espalhava por todo o planeta.
   - Até você que me criou, que sabe que eu só agiria para me defender, quer a minha destruição.
   - Arcano estava certo, e eu fui ingênuo. E a única coisa que me resta é seguir os passos dele.

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