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FICÇÃO CIENTÍFICA  -  FANTASIA  -  TERROR.


sábado, 16 de maio de 2015

Sonhos que Sonhamos Juntos

   Meu primeiro sonho da noite foi com Aline. Tomamos chá com o Chapeleiro Louco.
   - Este chá é delicioso, Aline. Foi você que fez? - o Chapeleiro falou com uma voz suave e um sorriso simpático, mas foi o suficiente para Aline olhar para baixo e se encolher toda em sua cadeira. Eu respondi em seu lugar.
   - Foi ela que fez, sim, Chapeleiro. - e, virando-me para Aline, acrescentei - está, de fato, delicioso, querida. Meus parabéns - ela apenas levantou seus grandes olhos que pareciam de um desenho de anime, mas continuou em silêncio. Então olhou de relance para o Chapeleiro, e era óbvio que estava com medo.
   - Chapeleiro, acho que Aline quer passear agora, não é verdade? - olhei para ela, que assentiu com um leve movimento da cabeça, e continuei - agradecemos a companhia, mas ainda temos outros lugares para ir, se não se importa.
   Aline se levantou, eu dei tchau para o Chapeleiro, e começamos a caminhar pela estrada de tijolos amarelos. Ela só se acalmou um pouco quando o Chapeleiro não estava mais visível, e me deu sua mão - que segurei de leve com a minha - depois de uns bons cinco minutos de caminhada. Se minha suspeita estivesse certa, encontrarmos um homem de lata ou um espantalho só a faria ficar com medo novamente. Fiz bem em ter escolhido ser uma menina da idade dela.
   - Venha, tem alguém que eu quero que você conheça - eu disse, puxando-a pela mão - Teremos que sair da estrada, mas não tem problema.
   Começamos a correr de mãos dadas, e pela primeira vez vi Aline sorrir, e quando tropeçamos e caímos juntas morro abaixo, sem nos machucar porque a relva era tão macia, ela finalmente começou a rir. Gargalhar. Foi lindo ver.
   Quando nossa queda terminou em um pequeno riacho, foi minha vez de rir de sua cara de nojo ao levantar o rosto todo sujo de lama.
   - Mas o que é isso? Vocês querem pegar um resfriado, se molhando desse jeito - Olhamos para trás ao mesmo tempo, para ver de onde vinha a voz. Uma guaxinim falante, com uma bengala na mão e uma manta enrolada no corpo, nos observava, com uma cara zangada, na beira do riacho.
   Enquanto me levantava, fiz as apresentações - Aline, quero que conheça vovó Guaxinim. Vovó, conheça minha amiga, Aline. Estou levando-a para passear.
   - Está levando-a para fazer estripulias e se sujar, é o que estou vendo - Vovó Guaxinim me respondeu, enquanto estendia a mão para Aline - venha, menina, vamos sair já desta água e achar um jeito de esquentá-la antes que você pegue um resfriado - ela ajudou Aline a se levantar. Depois, nos levou até sua casa.
   Na casa da Vovó Guaxinim, sentamos as três em volta de uma lareira, eu e Aline peladas e enroladas em toalhas, enquanto nossas roupas secavam ao redor do fogo. Aline havia ficado nervosa quando se despiu, mas agora, envolta na toalha, estava calma novamente.
  - Então, me conte, Aline, Cecília me disse que você tem uma irmã. Verdade? - Cecília era eu, o alias que eu usava nos sonhos com Aline.
  Aline assentiu com a cabeça, sem nada dizer. Ela não havia dito nada desde o início do sonho, mas se tinha alguém que sabia como fazer crianças traumatizadas falarem, era Vovó Guaxinim. Não que eu concordasse muito com seus métodos.
   - Estes olhos estão muito velhos e cansados para eu conseguir ver se você está mexendo esta sua cabecinha, querida. Vai ter que falar para responder minha pergunta.
   - Sim, eu tenho uma irmã - Aline respondeu, a voz quase inaudível
   - E estes ouvidos estão muito velhos para ouvir sussurros que parecem de uma borboleta.
   - Sim, tenho uma irmã - repetiu Aline, a voz apenas ligeiramente mais alta.
   O diálogo continuou por um tempo, Vovó Guaxinim perguntando sobre a irmã de Aline, depois sobre sua mãe, a escola, os amigos. E, por fim, ela perguntou sobre seu pai.
   Aline começou a tremer e não quis responder, e quando encostei a mão em seu ombro para abraçá-la, ela reagiu com um safanão, depois se encolheu toda.
   Levou quase meia-hora para ela se acalmar, mas Vovó Guaxinim é ótima nestas coisas, e me ajudou. Ao final do sonho, Aline já estava sorrindo novamente. Antes de acordar, ainda fiz Vovó Guaxinim dormir, e ambas saímos de mansinho, para então correr de novo ladeira abaixo, nos atirarmos no riacho, e brincarmos de jogar água uma na outra até o tempo dela terminar.
   Eu me vi sorrindo para mim mesma quando Aline acordou, mas um pouco triste por seu sonho ter terminado. Felizmente ainda havia outros sonhos esta noite. E Pedro era um dos meus preferidos.
   O sonho de Pedro começava na cama do hospital, como sempre, mas eu já tinha aprendido a não dar margem para este tipo de coisa. Também já tinha descoberto que, ao contrário de Aline, com ele era melhor ser direta e sincera. Brutal até. Mesmo quando eu exagero e ele fica furioso comigo, ainda é melhor que deixá-lo apático e deprimido.
   - Se você vai ficar aí como um tetraplégico, não precisa nem se dar ao trabalho de sonhar. Me avisa que eu vou embora e peço para te acordarem - foi um pouco cruel, pois ele era mesmo  um tetraplégico na vida real.
   - Tá bom, tá bom, estou levantando - enquanto saia da cama, ele me olhou curioso - Por que você parece uma menininha?
   - Foi você que disse que eu podia parecer o que eu quisesse, que não fazia diferença - eu respondi - ao que eu me lembre, você disse que eu podia ser até uma bola branca e sem graça, que dava na mesma - sim, eu ainda estava zangada. Foi na primeira vez que nos encontramos, e eu passei um tempão escolhendo um corpo e roupas deslumbrantes. Há certas coisas que você não diz para uma mulher.
   - Não faz diferença mesmo, já disse que você pode aparecer na forma que quiser. O que eu queria saber é o porquê de você ter escolhido uma garotinha?
   - É que eu era uma garotinha, Cecília, no sonho em que estava antes. Como você disse que para você não faz diferença, eu só não troquei meu corpo - isso era só uma meia verdade, e eu hesitei em falar mais alguma coisa, mas por fim admiti - e também porque eu gosto de ser Cecília.
   Pedro não me perguntou mais nada, mas me olhou com uma cara estranha por alguns segundos. Lembrei que ele provavelmente me entendia melhor que a maioria das pessoas, pelo trabalho que fazia.
   De qualquer modo, Pedro tinha um corpo de jovem nos sonhos - a idade que tinha há 20 anos, quando se acidentou - e gostava de esportes radicais. Assim, descemos montanhas de esqui, saltamos de para-quedas, andamos de lancha. Só não fizemos corrida de carros. Isso nunca.
   Foi divertido. Terminamos seu sonho com um duelo de espadas em um navio pirata. Tive que crescer um pouquinho, não ia ter muita graça duelar com uma criança de 10 anos. Ele me abraçou para se despedir, logo antes de acordar, e então falou uma coisa estranha.
   - Sabe, o que você disse, sobre você gostar de ser Cecília. É verdade isso? Você não me disse apenas por alguma razão terapêutica ou coisa assim?
   Eu concordei, em silêncio, com um leve aceno. Não estava me sentindo confortável com o rumo da conversa.
   - Olha, vamos falar a respeito, na próxima vez que nos encontrarmos, pode ser? - eu não sabia o que dizer, nunca tinha falado sobre mim com ninguém, não era minha tarefa, mas assenti novamente.
   Dei um tchau, e ele se despediu para voltar para sua vida de tetraplégico. Se eu fosse ele, viveria só nos sonhos, mas ele me disse que gosta de seu trabalho. Pesquisar computadores quânticos, inteligência artificial, estas coisas.
   Meu próximo sonho foi com Gladis, e eu nem sempre gosto destes sonhos. Algumas vezes ela está agitada demais - em surto - e me xinga e joga coisas em mim, mas desta vez ela estava bem. Sonhamos com seu casamento, quando ela era jovem, antes de começar a usar drogas e ter suas primeiras alucinações.
   Depois teve Geraldo, e agora tem sido legal sonhar junto com ele. Os primeiros sonhos me incomodavam muito, eram sempre com a guerra - ele lutou no Chile, no Equador, até no Panamá, logo antes da trégua - mas agora isto passou. Hoje em dia, sonhamos que ele está escrevendo um livro -  e ele está escrevendo um livro de verdade, eu já li os primeiros capítulos e gostei muito - ou montando um negócio, que foi o sonho de hoje. Os médicos dizem que é um ótimo sinal, e que logo ele não vai mais vir na terapia comigo. Fiquei feliz por ele, mas me senti triste em saber que não iria mais vê-lo. Ia pedir se não tinha como me deixarem ler seu livro quando for publicado, mas tenho medo que achem estranho. Nunca pedi nada para mim, não sei se posso.
  Geraldo foi o último da noite. As enfermeiras levaram-no, e o médico de plantão - me dei conta só agora que não sei seu nome, nunca perguntei - começou a apagar os aparelhos. Eu hesitei, quase deixei ele me desligar, mas por fim, tomei coragem para falar.
   - Você pode me deixar ligada, se não for pedir muito? - ops, falei ligada, com 'a' no final. Será que ele vai estranhar? Quer dizer, não é como se eu tivesse um sexo definido, e então eu suponho que devia sempre falar no masculino quando não estou nos sonhos, mas, não sei, acho que me sinto mais natural pensando em mim como mulher, fêmea, o que for.
    Ele pareceu surpreso, e ficou me olhando sem saber o que fazer. Quando os médicos falam comigo é diferente das pessoas nos sonhos. Eles só fazem perguntas,  e nunca é a meu respeito, é sempre sobre os pacientes. Acho que, para eles, eu nem existo, como se eu fosse só uma máquina. Não gosto disso, mas é como as coisas são.
   Mas ele atendeu meu pedido, saiu sem me desligar. Só ficou me olhando por cima do ombro, desconfiado, antes de fechar a porta do quarto. Espero não ter problemas por causa disso.
   Sozinha, liguei as rotinas de sonho no modo automático e aleatório.
   Apareci em um castelo medieval. Não destes realistas, que não tinham banheiro e deviam feder o tempo todo, mas em um castelo de contos de fadas. Tinha um príncipe me esperando.
   - E então, minha bela princesa, que cuida dos sonhos de tantos, como posso servi-la? Qual o sonho que você deseja?
   Eu respondi sorrindo:
   - Eu quero sonhar que sou humana.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Síndrome Dissociativa Adquirida

14/03/2112
   É tudo mentira. Este não sou eu.

15/03/2112
   Dizem que a síndrome dissociativa adquirida pode atingir qualquer um que tenha passado da adolescência, não importa sua herança genética, ou sua condição de saúde. É uma doença silenciosa e apavorante, surgida nos últimos anos, ninguém sabe de onde, pior que AIDS, câncer, ou qualquer das epidemias do século XXI. Mas também é o tipo de coisa que você ouve falar que aconteceu com o conhecido de algum conhecido, ou com algum operário de outro turno. Não é algo que você imagine descobrir ao acordar de manhã cedo.
   Acho que foi por isso que, depois de ler meu diário - a primeira coisa que faço ao acordar, geralmente para escrever algum sonho que tive de noite - eu fiquei me olhando no espelho, tentando ver se enxergava alguma pista de que havia algo de errado. Era o meu próprio rosto me olhando, não tinha ninguém diferente no reflexo na minha frente. Talvez eu estivesse só imaginando coisas, sabe, vendo fantasmas.
   Agora escrevi isto no diário, numa nova página, coisa que nunca faço. Eu nem pulo linhas, tentando fazer as páginas renderem ao máximo, mas não desta vez. Desta vez eu comecei uma nova folha e estou escrevendo o que passa na minha cabeça. Quer dizer, deve ter uma centena de explicações. Talvez uma piada de algum operário dos outros quartos, que pegou meu diário de noite, escreveu umas frases nele, e colocou de volta no mesmo lugar. Ou então é só algum tipo de sonambulismo, eu escrevi meio dormindo e não lembro. Pior que não parece minha letra. Quer dizer, parece, mas toda solta, desalinhada, ocupando quase duas linhas.
   "Você está racionalizando...". É só minha voz interior? Ou será que já tem alguém falando na minha cabeça, começando a substituir minha mente pela dele. Meu Deus, estou ficando paranóico.

16/03/2112
   Estou me sentindo ao mesmo tempo ridículo e aliviado. Eu fiquei com medo de abrir o diário e encontrar algum outro texto que não me lembre de ter escrito.
   Passei o dia mal, na fábrica. Eu sei que eu devia me reportar ao meu controlador imediatamente, só por ter uma suspeita de ter a síndrome dissociativa, mas eu passei o dia repetindo para mim mesmo que estava imaginando coisas.
   Eu abri o diário na página anterior. "É tudo mentira. Este não sou eu.". Será que não foi um sonho que eu tive, e escrevi quando acordei, só não lembro?
  Eu faço um acordo comigo mesmo. Se não acontecer mais nada, nenhum lapso de memória, nenhum texto misterioso no diário, enfim, nenhum outro sintoma da síndrome, eu vou esquecer este assunto. Prometo, aqui mesmo, que não vou perder o sono com isto.

12/04/2112
  Faz quase um mês que não abro esse diário. Acho que tinha medo de encontrar algum outro texto escrito de forma misteriosa, mas felizmente não tem nada desde minha última anotação. É hora de voltar à rotina, continuar escrevendo o que aconteceu nas últimas semanas, como sempre faço.
  O clima está tenso na fábrica. Há rumores que há algum rebelde entre nós, operários, e tivemos várias paradas da operação e interrogatórios. Isto me deixou com raiva, pensar que pode haver algum terrorista a solta, como se ainda vivêssemos no século XXI. Não dá para entender que alguém possa querer perturbar a harmonia da sociedade.
   Sandra e eu conversamos a respeito, no intervalo. Ela veio de outra fábrica, transferida, uns meses atrás, e às vezes nós conversamos. Começo a achar que ela talvez goste de mim. Mas nós estávamos falando sobre como nunca antes, na história humana, se chegou tão perto de uma sociedade perfeita. Todos sabem seu lugar, e estão felizes onde estão. Nós, operários, os controladores, e os líderes. Três níveis trabalhando juntos para o bem comum. Nunca, antes, as pessoas tinham tão claro seu papel e importância. Isso só torna mais absurdo pensar que alguém pode querer destruir o que construímos.
  Vou escrever mais seguido. Não tenho razão para ter medo, não tenho a síndrome, a frase que apareceu no meu diário é só mais um desses mistérios inexplicáveis.

20/04/2112
  Estou com tanto nojo do que aconteceu hoje que quase vomitei.
  Realmente temos um rebelde na fábrica. Um ou mais. Eles invadiram o sistema e publicaram uma mensagem na tela de todos os computadores dos operários, algo tão obsceno que eu preferia simplesmente esquecer. Na verdade não deveria ter lido, não sei explicar por que li, e espero que ninguém descubra.
  A mensagem parecia um discurso saindo das loucuras do final de século XXI. Os controladores estão fazendo entrevistas com cada operário, perguntando quem leu. Alguns voltaram confusos, acho que apagaram a memória de curta duração deles. Na minha vez com meu controlador, eu disse que fechei os olhos e não li o texto. Acho que ele não percebeu que eu menti.
   Mas, no fundo, os controladores estão certos. O texto era horrível e eu nunca mais quero ler nada como aquilo. Só quero apagar da minha mente.

21/04/2112
   Nossos pais eram humanos. E livres. Eles amavam, tinham filhos, construíam famílias, escolhiam o seu futuro. Eles eram como os líderes. Só havia líderes. Todos éramos líderes, não havia inferiores. Não havia controladores e operários assexuados, escravos vivendo apenas para servir, gerados em série em incubadoras. Nossos pais eram livres, e nós podemos ser também.

22/04/2112
   Eu estou apavorado. Eu tenho que falar com meu controlador. Mostrar para ele meu diário. Tem um monstro invadindo meu cérebro, um monstro que me fez copiar a mensagem rebelde.
   Mas o que vão fazer comigo? A síndrome tem cura? Ou só vão apagar minha mente, danificada demais para ser tratada? Não quero ter minha memória zerada.
   Tenho que saber mais sobre a síndrome, para decidir o que fazer.
   Estou com medo.

25/04/2112
   Na síndrome dissociativa adquirida, uma doença cada vez mais comum entre operários, uma segunda personalidade começa a se formar na mente do indivíduo, gradativamente tomando o lugar da personalidade real. O indivíduo geralmente torna-se agressivo e um perigo para a sociedade. O tratamento definitivo pode exigir reinicializar completamente a memória e personalidade do operário, se não houver sucesso em controlar os sintomas.
   Levei uns dias para conseguir esta informação, veio diretamente de um acesso internet de um controlador. Só me deixou mais nervoso.
   Eu deveria falar com meu controlador, mas estou com medo. Talvez a doença não piore sempre, talvez estabilize. Eu só escrevi algumas frase no meu diário, só isso.
    Não quero que zerem completamente minha memória.

12/06/2112
   Não sei por que fiquei tanto tempo sem escrever. Talvez tenha sido o mais correto, talvez a síndrome só me ataque enquanto escrevo. Talvez seja bobagem, não sei, não parece fazer sentido.
   As coisas pioraram muito na fábrica. Têm rumores todos os dias, meus colegas estão assustados. Dizem que uma fábrica inteira, em Brasília, foi desativada por causa dos rebeldes, e todos os operários foram mortos. O controlador da nossa divisão veio pessoalmente falar conosco. Ele disse que a fábrica foi realmente fechada, mas foi apenas uma reorganização de logística, e os operários foram realocados para outras fábricas. Só serviu para aumentar os rumores.
   Hoje Sandra me disse que era como se 2100 estivesse acontecendo de novo. Eu não entendi, mas ela não quis me explicar. Amanhã vou perguntar de novo, não sei do que ela está falando, não tenho nenhuma memória tão antiga.

21/06/2112
   Taijo.
   Não sei quando ouvi este nome pela primeira vez, mas agora é só o que os operários falam. Taijo. Ele era um operário, parece, mas quis ser um líder, ou quis que todos os operários fossem líderes, algo assim. Foi o que aconteceu em 2100. E ele morreu.
    Só que agora todo mundo fala que ele está vivo, que ele que está liderando os rebeldes.
   Eu nunca tinha ouvido falar dele.

27/06/2112
   Levaram Sandra embora.

28/06/2112
   Sandra era uma rebelde. Como pude me enganar tanto com alguém. Nós conversamos sobre quão próximos estávamos da sociedade ideal, e todo o tempo era só queria destruir tudo isso.
   Devem ter zerado ela. Mesmo que tragam de volta para nossa unidade, o que duvido, vai ser como se fosse outra pessoa, não vai lembrar que eu existo.
   Foi Sandra a primeira pessoa que me falou de Taijo. Ela devia estar espalhando os rumores sobre ele entre os outros operários. Talvez ele nem exista, nunca tenha existido.

10/07/2112
   Não apareceu mais nada em meu diário, mas estou tendo lapsos de memória. Não sei desde quando, mas tenho certeza de que eles acontecem. Comecei a desconfiar e passei os últimos dias a controlar meu relógio, tipo olhando de dez em dez minutos. Hoje teve um momento que mais de uma hora havia se passado, como se simplesmente tivesse sumido da minha vida.
   As coisas também só pioraram na fábrica. Além de Sandra, levaram vários outros operários embora. Já ouvi duas ou três conversas estranhas, operários falando heresias. Eu devia ter ido ao controlador, mas hesitei. Tenho medo de delatar os outros e alguém revelar alguma coisa sobre meus lapsos de memória. Se descobrirem que estou com a síndrome, não sei o que vão fazer comigo.
   Sinto falta de Sandra.

15/07/2112
   Eu tenho que tomar coragem.
   Um homem precisa viver pelas suas crenças. Não pode viver com medo. E eu acredito na nossa sociedade. Eu acredito na divisão entre operários, controladores e líderes, e no meu papel como operário, e vou defender a harmonia que construímos.
   É fácil falar. Eu tenho medo. Mas não tenho escolha.
   Ontem eu ouvi uma conversa sobre Taijo. Ele apareceria na fábrica nos próximos dias, estava planejando alguma grande ação de mobilização de operários. Um mês atrás eu mal havia ouvido falar neste nome, mas agora parecia que todos os meus colegas o admiravam e só falavam nele. É como se todos estivessem contaminados por algum tipo de loucura, como se todos os operários da fábrica estivessem com síndrome dissociativa em grau avançado.
   Amanhã eu irei alertar meu controlador que Taijo irá aparecer aqui. E vou revelar que tenho a síndrome e confiar que meus controladores e líderes saibam o que é o melhor para meu caso. Deveria ter feito isto no primeiro sinal da doença, meses atrás.

16/07/2112
   Meu controlador está morto.
   Eu o matei.
   Eu não faço idéia do que aconteceu, só sei que ele estava caído no chão, e eu estava com as mãos ensangüentadas, por cima dele. A última coisa que lembro era de avisá-lo que os operários iriam fazer alguma coisa nos próximos dias.
   Agora estou trancado em meu quarto, tremendo. Só estou escrevendo para me acalmar.
   Vou sair pela porta, e apertar o botão de alarme para acionar a segurança. E vou me entregar. O mais importante é deter os outros operários antes que cometam alguma loucura. Preciso alertar os líderes que Taijo planeja alguma coisa.

17/07/2112
   Eu acordei parado na frente do alarme, ontem. Tocá-lo teria estragado tudo, as tropas teriam vindo antes de termos tipo tempo de evacuar a fábrica.
   Foi por pouco, mas não importa, eu posso sentir que agora não vai haver recaídas.
   Onze anos perdidos, mas podia ser pior. Foi sorte terem apenas apagado minha mente junto com os outros, sem saberem quem eu realmente era.
   Eu li o diário desta coisa, deste robô que quiseram que ocupasse meu lugar. Síndrome dissociativa adquirida. Que piada inventaram para explicar nossas memórias voltando, nossas mentes ressurgindo.
   Desta vez ninguém vai apagar minha mente. Sandra arriscou tudo para me encontrar, me ajudar a lembrar, e eu devo isso a ela.
   Eu não vou falhar como falhei 11 anos atrás.
   E ninguém vai me fazer abandonar minha luta.
   Nem me fazer esquecer meu próprio nome:
   Taijo.

domingo, 13 de julho de 2014

O Futuro Rei - Revisão 1

   - Falta muito para chegarmos em Kelliwic? - durante dois dias, o que meu irmão adotivo mais fez foi se queixar e reclamar. Eu lembrei-o uma vez mais que ele só veio comigo porque insistiu, e porque me pegou escapando em silêncio, à noite, de nossa casa. Mesmo assim, ele não se calou.
   - Por que Merlin não veio conosco? – Era preocupante a influência de Merlin sobre meu irmão, na verdade sobre todos nós. Ele havia surgido em nosso castelo, ninguém sabe vindo de onde, e anunciado que seria nosso mentor, meu e de meu irmão. No início, nosso pai não quis permitir, mas uma demonstração dos poderes mágicos do feiticeiro foi o suficiente para convencê-lo que era melhor fazer suas vontades.
   - Acho que Merlin não acredita que vou conseguir tirar a espada da pedra –respondi, pensando na conversa que tive com o feiticeiro, antes de partir para Kelliwic - Ele vai aparecer quando eu tiver a espada, você vai ver.
  Nós seguimos pelo caminho, meu irmão ora a se queixar, ora a fazer perguntas que eu não saberia responder. O primeiro dia de jornada havia sido tranquilo, mas depois que pegamos a estrada de Kelliwic as árvores foram ficando cerradas, a estrada mais deserta, e meu irmão mais e mais nervoso.
   - Você disse mesmo para Merlin que vai ser Rei da Inglaterra? – meu irmão me perguntou, reiniciando sua conversa, mais para se acalmar, eu suponho. Nunca havíamos viajado para tão longe de nosso castelo.
   Eu fingi que não o ouvi. Responder só iria encorajá-lo a continuar sua interminável lista de perguntas. Mas me vi lembrando minha conversa com Merlin.

 *  *  *

   - Feiticeiro, descobri qual será meu destino! - Eu cheguei ofegante, o fôlego me faltando depois de subir correndo as escadarias que levavam a sua torre, no alto de nosso castelo, naquele que foi o último dia antes de minha jornada para Kelliwic.
   O mago olhou para mim, sem demonstrar surpresa. Sua mão direita percorreu a longa barba branca. Seus olhos, penetrantes e misteriosos, me olharam de alto a baixo. Ele sorriu, mas só um tolo veria alegria em seu rosto.
   - É mesmo, jovem aprendiz de cavaleiro? Deixe-me adivinhar – ele fingiu estar pensando – Descobriu que seu destino é ser um cavaleiro?
   - Meu destino é ser o Rei de toda a Inglaterra. – Minha tentativa de causar impacto caiu no vazio. Novamente, sua única reação foi mover calmamente a mão pela sua barba.
   - Um destino interessante, sem dúvida. E como foi esta descoberta? Sonhou com um palácio ou um trono, e acordou acreditando que se tornaria Rei?
   - Não, eu apenas descobri o que fazer com os poderes que me ensinou a usar.
   - Ah, sim, o poder que despertamos em você na nossa última aula. De fato é raro seu poder de falar com objetos inanimados. – Senti um calafrio percorrer meu corpo ao me lembrar da faca que falou comigo, como uma voz em minha mente – E pretende se tornar Rei com este poder? Se contar a alguém, é mais provável que acabe em uma fogueira que em um trono.
   - Não, feiticeiro, não pretendo contar a ninguém. Pretendo usar meu poder para falar com Caledfwlch e descobrir como cumprir a profecia e me tornar Rei. Foi para isto que você veio me ensinar, não? Você disse que eu teria um grande destino, e que você me ajudaria a alcançá-lo.
   - Eu disse que alguém nesta casa teria um grande destino, não que seria você. E certamente não vim para ajudá-lo a puxar uma espada cravada no chão.
   - Caledfwlch é mais do que isto, feiticeiro. Ela é a espada da profecia. Com ela nas mãos, e você ao meu lado, eu posso sim ser o Rei da Inglaterra.
   - Sim – o feiticeiro concordou, balançando a cabeça, pensativo – sim, creio que você poderia se tornar o Rei. É até possível que tirar Excalibur da bigorna e da pedra seja de fato seu destino. Mas não espere minha ajuda para isto. Eu não vi um futuro em que guiá-lo em seu reinado seria o destino de Merlin.
   E assim, foi sozinho, ou pelo menos teria sido se meu irmão não tivesse me seguido, que fiz a jornada em direção a Kelliwic, para tirar Caledfwlch de sua bigorna, e cumprir a profecia de me tornar Rei da Inglaterra.

  *  *  *

   - Veja - ao chegarmos a uma curva na estrada eu apontei para o alto de uma colina, para o castelo agora visível - Ali está o castelo de Kelliwic, ou melhor, as ruínas dele.
   - Uau - meu irmão nunca havia visto um castelo, e eu tinha que admitir que, mesmo em ruínas, era uma edificação impressionante. - Quem o construiu?
   - Ninguém sabe. Alguns dizem que foram os romanos, alguns dizem que o castelo já estava aqui antes mesmo deles. Mas ninguém mais vem aqui desde que o Rei Uther morreu. Ninguém exceto quem, como nós, busca retirar Caledfwlch da bigorna e da pedra.
   Mais algumas milhas e chegamos às ruínas do castelo. Em seu pátio central estava Caledfwlch, a espada que Merlin chamou de Excalibur, a lendária arma do grande Rei Uther. Com um gesto, eu indiquei para meu irmão aguardar, e caminhei até a espada.
   Respirei fundo uma, duas, três vezes, e então segurei a espada com minha mão direita, e neste instante, levado por uma magia como nunca vi igual, me encontrei em outro lugar, em outro castelo.
   - Onde estou? - eu apenas pensei, e então ouvi uma voz em minha mente, a voz de Caledfwlch. E a voz me respondeu com apenas uma palavra: "Camelot".
   Imagens passaram por mim, como se eu estivesse sonhando. Não, como se estivesse lembrando um sonho há muito esquecido. Eu me vi como Rei, e abri um sorriso ao pensar que meu desejo era agora realidade. Mas meu sorriso se fechou no instante seguinte.
   Eu vi a mulher mais linda de todas. "Gwenhwyfar", a voz da espada ecoou novamente em minha mente. E vi ela fingir me amar, apenas para me trair com meu mais valoroso cavaleiro.
   E vi um filho nascer, se tornar homem, e então se voltar contra mim e me enfrentar em batalha mortal. Eu o vi morrer.
   Vi camelot cair, vítima de traições. Vi meus cavaleiros se perderem na busca de uma relíquia sagrada. Mais e mais imagens eu vi, imagens de tragédias e morte.
   Eu fechei os olhos, abri-os, e estava novamente nas ruínas de Kelliwic, a espada ainda em minha mão, ainda cravada na pedra. Eu pensei nas tragédias que me aguardavam, e então me lembrei das palavras de Merlin, e de por que ele não me acompanhou.
   - Espada - eu falei apenas em minha mente, sabendo que Caledfwlch podia me ouvir - Diga-me como você pode ser tirada da bigorna e da pedra.
   - Nomeie meu mestre, e ele, somente ele, poderá me empunhar.
   - Eu nomeio seu mestre - no momento que disse isto, em pensamento, um vento forte começou a soprar, vindo de lugar algum - e seu mestre é e sempre será Arthur, que se tornará Arthur Pendragon, descendente por direito do Rei Uther.
   - Esta feito - a voz da espada ecoou uma última vez em minha mente, e então se silenciou. O vento cessou. Nada se moveu.
   Eu respirei fundo, só então percebendo que havia trancado minha respiração, e então, com toda a força, puxei a espada da pedra. E puxei uma vez mais, agora com as duas mãos. E a espada permaneceu imóvel.
   - Esta espada não é para mim - eu falei em voz alta, me virando para meu irmão - agora é a sua vez de tentar, Arthur.

domingo, 6 de abril de 2014

O Último Homem

   Para Artur Costa, a solidão era a pior parte da imortalidade. Tinha sido ruim quando o mundo morreu, de forma inesperada e estúpida, há 112 anos, mas agora era ainda pior. Pelo menos, enquanto ainda havia algum sobrevivente para conversar, ele podia se permitir uma esperança de futuro.
   - Você não podia fazer isto comigo, Randolph, não tinha o direito de me abandonar - Artur falou sozinho, em voz alta, enquanto caminhava a esmo, o som saindo pelos autofalantes de seu traje corpo. Ele vinha falando sozinho nas últimas semanas, desde que encontrou Randolph morto, a bateria central de seu corpo arrancada. Mesmo que ainda houvesse algum animal ou pessoa no planeta, Artur não teria dúvida do que tinha acontecido: suicídio.
   - Você foi um maldito egoísta, é isto que você foi. Não pensou nem um minuto em mim, não é? Se era ruim para você, tendo apenas uma pessoa para conversar, o que me resta, hein, Randolph? Nós juramos que não íamos desistir, que não íamos deixar o outro sozinho, quando todos os demais se foram! - Artur sabia que parecia um louco, caminhando sozinho pelo planeta devastado e falando como se houvesse alguém ao seu lado. Seria melhor se ele realmente tivesse perdido a razão. Talvez assim sua existência fosse menos insuportável.
   Caminhar era a única coisa que lhe restava. Enquanto ele caminhasse, poderia fingir que tinha a esperança de encontrar mais alguém vivo, mais algum sobrevivente da catástrofe, vivendo há mais de um século em um traje corpo, como ele. Mas as chances eram mínimas. Os trajes corpos eram uma novidade quando o asteróide se chocou com a Terra e praticamente incendiou a atmosfera, não deviam haver mais de cem humanos vivendo em corpos robóticos, e a maioria provavelmente morreu no impacto ou nos gigantescos tsunamis que varreram todos os continentes.
   Artur parou de caminhar. O sol estava se pondo, hora de dormir e poupar energia. Dormir e sonhar eram o que mais humano ainda lhe restava.
   Um a um, os sensores externos do traje corpo foram desligados, como se Artur estivesse fechando os olhos. Em alguns minutos ele poderia sonhar com uma época em que ainda havia vida no mundo.
   "Ellen, Carlos, Belini, Sophia", Artur repetiu em silêncio o nome de cada um dos imortais que sobreviveram ao impacto, o pensamento se tornando lento enquanto o sono se aproximava, "Randolph". Cinco imortais, dois deles Artur nunca chegou a encontrar pessoalmente, apenas manteve contato pela Internet. Todos os cinco mortos, Sophia há mais de 15 anos. E agora, por fim, Randolph, o último companheiro a compartilhar a Terra com Artur.
   E Artur dormiu, sozinho, em meio a Terra devastada.
 * * *
   Quando Artur despertou, o sol estava nascendo no horizonte, à sua esquerda. A bateria principal do traje corpo estava quase esgotada, a intensa caminhada dos últimos dias gastando mais energia do que ele conseguia absorver diretamente do sol. Se não encontrasse um gerador funcional, teria que diminuir o ritmo de seus movimentos, ou voltar para a usina solar que ele e Randolph haviam usado como base nos últimos anos.
   Ele optou por seguir adiante.
   Foi no meio da tarde, enquanto caminhava por uma estrada, que Artur percebeu algo surpreendente. Nunca, desde a catástrofe que extinguiu a humanidade, ele havia encontrado uma estrada tão bem conservada.  A surpresa se transformou em esperança nas horas seguintes, a medida que Artur agora corria em gigantescos passos de traje corpo, sem se preocupar em poupar energia. Não apenas na estrada, mas também ao redor havia nítidos sinais de reconstrução. Pedras retiradas do caminho e até uma ponte intacta, claramente nova.
   Era o final da tarde quando Artur encontrou os robôs. Não um ou dois, como ele já havia encontrado outras vezes, principalmente nas primeiras décadas após a catástrofe, mas centenas, construindo edifícios, postes, linhas de comunicação.
   Ele parou, surpreso. Alguém fez isto, pelo menos um sobrevivente tinha que estar por trás disto. Diferente do traje corpo, estes robôs não sobreviveriam por mais de um século sem manutenção, sem acesso a geradores de energia.
   Enquanto ele observava, dois robôs se separaram dos demais e vieram em sua direção.
   - S2469, S2457, quem é o supervisor humano de vocês? - os códigos dos dois robôs estavam visíveis no metal.
   - Não precisamos de supervisores - o robô menor, S2457, falou em uma voz natural para um robô. Imediatamente, o segundo robô passou a sua frente e o interrompeu.
   - Nenhum registro de supervisor humano - o robô maior falou em uma voz mecânica mais condizente com as lembranças de Artur dos dias antes da catástrofe.
   - Quem construiu vocês?
   - S2469 e S2457 produzidos pelo distrito industrial automatizado F07.
   - Mas quem reativou as fábricas? Quem está comandando vocês?
   - Distrito industrial automatizado F07 não foi reativado. Distrito industrial automatizado F07 operando ininterruptamente desde 2113.
   Isto era antes da catástrofe. De súbito, a compreensão do que isto significava destruiu a esperança recém nascida de Artur Costa. Ele só tinha uma última pergunta, que hesitou alguns instantes antes de finalmente fazer.
   - Quando foi o último contato com um humano, antes de mim?
   - 2115, 112 anos atrás.
   Artur Costa se virou e continuou em seu caminho, sem se dar ao trabalho de se despedir dos estúpidos robôs, criados em uma fábrica automatizada que seguia mecanicamente cumprindo sua última tarefa.
   Não havia esperança. Para sempre, ele estava sozinho.
 * * *
   Enquanto o último homem na terra se afastava, já distante demais para ouvir suas vozes, S2457 falou, e sua voz parecia ter a mesma naturalidade de um ser humano.
   - Por que você fingiu ser um robô estúpido? Por que não me deixou mostrar tudo que construímos, tudo que nós, robôs, evoluímos, desde que os seres humanos se foram?
   - Nada de bom viria disto - S2469 respondeu em uma voz muito diferente da que usou para falar com o humano - deixe-o morrer em paz. O tempo do homem se foi.

sábado, 10 de agosto de 2013

Bloqueio Mental

   Não imaginei que a médica seria tão jovem. Não pude deixar de pensar nisto ao ver a garota à minha frente. Difícil acreditar que era uma pesquisadora conceituada. Ela sorriu quando entrei em seu consultório, e, com um gesto, indicou para eu sentar no sofá à sua frente.
   Também não imaginei que seria tão bonita.
   Ela não chegou a se levantar e apertar minha mão, mas isto não era falta de educação como seria quando eu era jovem. Depois das duas grandes epidemias de gripe, alguns hábitos foram mudando no mundo. De todo modo, seu sorriso era simpático.
   - Gostaria de uma água, ou um chá? - Ela ofereceu, mas eu recusei tentando transmitir simpatia também. Seu sorriso era contagioso. Após mais algumas amenidades, ela foi direto ao ponto.
   - Diga-me então, Senhor Jerry,  em que posso ajudá-lo?
   Eu hesitei um instante, depois de sorrir novamente e pedir para ela me chamar apenas de Jerry. Será que, depois de tanto tempo, ainda valia a pena? Não seria melhor deixar o passado enterrado?
   - Minhas memorias, de quando eu era criança, eu quero recuperar elas. Eu preciso.
   - De toda sua infância, ou de alguns momentos mais marcantes, Jerry? Se quisermos recuperar muitas lembranças, demoraremos algumas seções.
   - Não, não. Não quero apenas lembrar momentos da infância É uma única memoria, que ficou bloqueada por quase quarenta anos. Eu fiz de tudo, mas nunca consegui lembrar o que ocorreu em um determinado dia, em 2015.
   - Foi um evento traumático?
   Eu acenei que sim, sem abrir minha boca. Comecei a suar frio.
   - Foi a noite em que meus pais morreram. Assassinados. Minha vida acabou naquele dia - Lágrimas escorriam por trás de meus óculos escuros, descendo pelo meu rosto, enquanto eu prosseguia em meu relato - Eu só lembro da polícia chegando, me encontrando encolhido na sala, meus pais no quarto, mortos. Nunca encontraram o assassino, mas eu tenho certeza que o vi, só não consigo lembrar.
   Eu prossegui, enquanto as lágrimas seguiam livremente, envergonhado comigo mesmo, mas incapaz de contê-las - desde aquele dia eu me isolei de todos, mal saio de casa faz quarenta anos, perdi peso, perdi todo meu cabelo - uma vez eu vi uma foto de sobreviventes de campos de concentração da segunda grande guerra. Eu pesava menos de quarenta quilos, e poderia facilmente ser confundido com um deles.
   Ela me deixou falando, desabafando. Contei que minha sorte foi que minha família deixou dinheiro suficiente para me sustentar, e que eu fazia alguns trabalhos a distância, pela Internet, mas que não saía mais de casa, que tinha acessos de pânico no meio de muitas pessoas. Por isto também que vim no último horário dela, às oito da noite, quando não havia mais movimento.
   - E você já tentou lembrar daquele dia, já fez algum tratamento?
   Eu acenei que sim. Nem hipnose funcionou, eu expliquei.
   - O que fazemos aqui não é hipnose, Jerry. Você vai tomar um composto que afeta diretamente seu cérebro, que irá reativar o acesso a suas memorias. Meu papel é apenas de conduzir sua consciência para as memorias corretas. Mas há uma coisa que eu preciso que você entenda, antes de começarmos.
   Eu pedi para ela explicar, dizendo que estava prestando atenção. Já estava um pouco melhor. Era impressionante que mesmo quarenta anos depois, eu ainda ficava tão mal por apenas mencionar aquele dia.
   - Esquecermos eventos traumáticos é uma ação de nosso cérebro para nos protegermos, Jerry. Quando recuperarmos suas memorias nós não estaremos apenas descobrindo o que houve, estaremos fazendo com que suas lembranças voltem a estar tão vivas quanto no dia que aconteceram, e desta vez não haverá como você simplesmente bloqueá-las novamente. Entende o que eu digo, os riscos que isto vai significar para você?
   Eu concordei, e ela me fez assinar um termo de responsabilidade cheio de cláusulas, lendo uma a uma e explicando tudo em detalhes. Basicamente a responsabilidade seria exclusivamente minha por qualquer psicose ou dano mental que eu viesse a ter. Não importava. Eu tinha que saber o que havia acontecido naquela noite.
    - É só isto - eu perguntei quando ela me mostrou a pílula. Uma simples pílula iria trazer de volta a lembrança que eu esqueci por 40 anos?
   Eu engoli com um copo de água e me deitei no divã, enquanto ela sentou do meu lado.
   - O que vou fazer agora não é hipnose, Jerry, nem uma sessão de análise. O que vou fazer é ajudar a conduzir sua consciência para aquela noite, para que o medicamento atue sobre a estrutura de neurônios correta, e monitorar seus sinas vitais. Certo? Agora feche os olhos e acompanhe o que eu falo. Tente ficar o mais relaxado possível.
   Foi incrível. A medida que ela falava, me perguntando sobre aquele dia, era como se eu estivesse viajando no tempo, revivendo minha infância. Ela havia dito que era um efeito da droga, que as memorias pareceriam tão vivas que seria como se estivessem acontecendo neste momento.
   Eu não estava lembrando dos meus doze anos. Eu tinha doze anos novamente. Era noite, e eu acordei me sentindo enjoado e com uma terrível dor no estômago. Era uma sensação que eu viria a ter muitas vezes nos anos seguintes, mas naquele dia era algo novo, diferente e mais agoniante que qualquer sensação que já tivesse sentido.
   Eu levantei da cama, sai do quarto ainda no escuro, e caminhei até o quarto dos meus pais. Uma parte de mim dizia para não entrar lá, para voltar para cama, como se eu estivesse mesmo no passado, como se não fosse apenas uma lembrança de algo que já aconteceu, mas a voz da médica era insistente. - diga-me o que está acontecendo, Jerry, diga-me o que você vai ver dentro do quarto. Isto foi há quarenta anos, seja o que for, não pode machuca-lo mais.
   Eu entrei no quarto, esperando ver meus pais mortos, um assassino sobre eles, cortando suas gargantas, mas não havia nada de anormal. Eles dormiam tranquilos, pude ver quando acendi a luz. A súbita claridade fez meus olhos arderem.
   - Querido, o que houve - como era bom ouvir a voz de minha mãe, novamente, depois de tanto tempo, ver seu rosto tal como estava da última vez que a vi. Meu olhos se encheram novamente de lágrimas, a lembrança era tão real.
   - E o que aconteceu depois? - a voz da médica penetrando no mundo das minhas lembranças.
   - Estou me sentindo mal - eu havia dito, com uma voz embargada, enquanto segurava e comprimia minha barriga com a mão. E havia, então, me aproximado de minha mãe, que me abraçou.
   Neste instante a memoria se desfez e eu abri os olhos, gritando:
   - Eu não quero lembrar!
   - Jerry, você está me machucando. Solte meu braço!
   Para minha surpresa, eu estava segurando o pulso da minha médica, com força. Tentei soltar, mas não consegui abrir minha mão.
   - Eu não quero lembrar. Eu não quero saber o que aconteceu!
   - É tarde demais, Jerry, eu lhe avisei. Os nanocompostos já acharam a estrutura neural certa. Você vai lembrar, mesmo que não queira. Não temos como interromper o processo.
   O que ela falava era verdade. Eu podia ver a cena diante de mim, se reconstruindo novamente, mesmo de olhos abertos, mesmo sem ela dizer nada. Minha mãe estava me abraçando. Meu sentidos estavam multiplicados por mil. A sensação do abraço, sua voz doce, seu cheiro. Principalmente seu cheiro, que parecia penetrar e dominar todo meu corpo, enquanto minha boca se aproximava de seu pescoço. Meu corpo sabia o que eu precisava, mesmo que eu próprio não soubesse.
   - Você não está entendendo - eu disse, enquanto o horror tomava conta de mim, as imagens em minha mente avançando sua trágica  sequência - Fui eu que a matei. Fui eu que matei os dois. Você não podia ter despertado estas memorias.
   - Jerry, isto foi há quarenta anos. Você era uma criança. Você tem que aceitar que isto é passado, terá que aprender a se perdoar. - Ao mesmo tempo que falava, tentando me acalmar, ela continuava tentando soltar seu braço. Eu senti pena por ela, mas como um pouco de pena poderia me parar? Eu mal a conhecia, que importância ela tinha perto de minha mãe, perto de meu pai?
   - Não era a morte de meus pais que eu não podia ter lembrado - eu falei, enquanto aproximava seu pulso de meu rosto - não foi isto que eu tinha que ter esquecido para sempre.
   A fome era agora avassaladora, como foi durante a maior parte destes quarenta anos, mas agora não havia nada para deter-me, nenhum bloqueio. Em minhas lembranças, meu pai estava acordando, gritando, horrorizado, mas eu estava feliz, tão feliz. O líquido inundando meus sentidos, minha alma, me trazendo uma sensação que nunca antes, e nunca depois daquela noite, voltaria a sentir.
   Até agora.
   Enquanto minha língua passava suavemente pelo seu pulso, sentindo o calor que passava por dentro das veias, eu falei a última coisa que minha médica ouviria.
   - Você não devia ter me feito lembrar quão doce era o gosto de sangue.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Linguagem de Máquina /8 - Final

  Foi o mais longo e cansativo mês da vida de Rubens. Ele trabalhava freneticamente, dia e noite, ao mesmo tempo fazendo de tudo para que a criatura não percebesse o que ele estava realmente criando. O que ele aprendeu neste período era indescritível, uma nova maneira de desenvolver sistemas, literalmente uma nova forma de pensar.
   Ele já sabia o que havia de errado com as simulações, o porquê delas continuamente entrarem em uma espécie de loop. Na verdade era menos um erro e mais uma questão de ajuste fino, de alterações sutis no fluxo de dados entre as diferentes partes da estrutura neural. O mais complicado era que ele não podia alterar a estrutura em si, só podia influenciá-la, como se fosse um maestro dando instruções para incontáveis instrumentos.
   Já sabotá-las era mais complexo, especialmente porque ele não podia ser muito óbvio. No final, o próprio ataque epilético de Vanessa foi o que lhe deu a ideia. Ele iria fazer as inteligências artificiais terem uma reação equivalente, parecida com o loop que ele vinha tentando resolver, mas mil vezes mais forte. E, principalmente, eterno. As redes neurais afetadas nunca sairiam do loop.
   O dia que ele liberou sua última versão do sistema, com um controlador para iniciar a sabotagem em alguns minutos, foi o mais tenso de todos. Agora era só uma questão de esperar.
   - Você está tenso. Sua pulsação está acelerada - a voz falou no alto-falante de seu escritório. Era tão óbvio agora, como ele podia ter imaginado que era uma equipe de pessoas, que era sequer um ser humano a falar com ele.
   - Não é nada - faltavam minutos agora. Ele só precisava não deixar a criatura desconfiada. Criatura ou como quisesse chamá-la. Nenhum governo do mundo conseguiria criar um software tão sofisticado, capaz de criar inteligências artificiais, alterar vídeos de pessoas em tempo real. Não, era uma máquina por trás de tudo, uma máquina inteligente, e ele estava ajudando-a a se tornar mais parecida com um ser humano, ou a criar um exército de duplicatas, o que fosse.
   Mas ia terminar agora. Neste instante.
   Foi o completo anticlímax. De repente, a tela de seu terminal ficou escura.
   - Ola? Alguém aí?
   Nenhuma resposta.
   - Peguei você. Eu estava certo, não estava? Era uma inteligência artificial que estava por trás de tudo isto. E agora você está em um loop eterno. Não há como tirá-lo dele, nunca.
   Rubens se levantou e foi até a sala, encontrar Vanessa. Ele iria levá-la com ele, descobrir quem era ela e como foi trazida até ali. Ele iria curá-la do que quer que tivesse sido feito com ela, e eles ficariam juntos. Provavelmente a criatura havia conseguido afetar a mente dela de algum jeito, através de sua conexão neural, mas ele ia fazer de tudo para recuperá-la. Estes meses presos nas mãos de um software inteligente ficariam para trás.
   Vanessa o esperava na sala.
   No chão.
   Em convulsões.
   Ele correu para ela e ficou segurando sua cabeça para que não se machucasse. Já sabia que tentar imobilizá-la ou colocar alguma coisa em sua boca era tolice. Ele só precisava evitar que ela se machucasse e aguardar que as convulsões passassem.
   Mas elas não passaram.
   E, lentamente, a última peça que faltava em seu quebra-cabeças, começou a se encaixar no lugar.
   O sistema que ele ajudou a desenvolver, que manipulava uma rede neural extremamente complexa, que às vezes entrava em loop...
   Vanessa tendo convulsões quando ele perguntou sobre seu passado, confrontando sua mente com a programação enviada pelo seu acesso neural, programação que ele ajudou a desenvolver...
   E que ele sabotou para criar um loop infinito.
   - Vanessa! Vanessa - ele repetiu.
   E repetiu.
   Mas ele sabia que ela não iria ouvi-lo mais.


fim

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O Último Grande General do Império Humano

   Hans Sebastian Kahn, último general do império humano, e certamente o maior general de todo a história do terceiro milênio, estava morrendo. Ele começou a morrer no exato instante que o campo de estase que mantinha seu corpo vivo foi desligado.
   Lekster, o lagarto, se perguntou se não deveria ter insistido para manterem o campo ligado, mas depois encolheu os ombros, em um gesto que aprendeu com os humanos que o criaram desde que nasceu. Melhor assim, o general Kahn merecia uma morte digna, era hora dele descansar. Hora de Lekster se despedir.
   - Lekster, é você? - a voz era quase um murmúrio, mas os olhos do general estavam fixos no lagarto. As drogas injetadas em seu corpo aliviavam a dor sem fazê-lo perder a lucidez. Lekster poderia se despedir pela última vez de seu general.
   - Sim, general, sou eu. Sempre aqui para servi-lo.
   O general fechou os olhos por um instante, suspirou, e então olhou novamente para Lekster, e esboçou um sorriso. - Nós conseguimos, então.
   - Sim, senhor, nós conseguimos. A Terra está salva. Como o senhor previu, os Itrans vieram nos ajudar. Trouxeram toda sua frota.
   - Eu não lhe disse, Lekster? Eu não lhe disse? - e o general começou a rir, até seu riso se tornar uma tosse, que terminou com sangue que ele guspiu no rosto do lagarto. Este fingiu nem perceber, o coração apertado por saber que não restava muito tempo, agora.
   - Conte-me como foi, Lekster, conte-me o que eu perdi.
   - Não há muito para contar, meu senhor. Fizemos o impossível. Na verdade, o senhor fez. Detivemos por quase 10 dias uma força mais de cem vezes superior a nossa.
   - Nós tínhamos que resistir, meu amigo, éramos a única coisa entre os Parddos e a destruição da Terra. A última frota que restou. Nós tínhamos que lutar até a última nave.
   - E foi o que fizemos meu general. Nossa nave foi a última a resistir. Os Itrans saíram do hiperespaço no momento que o torpedo nos atingiu. Eu não sei se o senhor chegou a vê-los no sensor.
   - Não - o general falou agora com uma voz mais fraca. Haviam lhe dito que ele não teria muito tempo, apenas as poderosas drogas injetadas ainda mantinham o general vivo - não, não vi, mas não importa. A única coisa que importa é que a Terra está salva.
   - Sim, meu general. A Terra está salva.
   - A Terra está salva - o general fechou os olhos, e Lekster, o único alienígena a jamais servir em uma nave de guerra humana, sabia que ele não voltaria a abri-los.
   - Ele se foi. - O médico Parddos se aproximou, vindo de trás do general, de fora de seu campo de visão.
   - Eu sei. Obrigado. Obrigado por deixá-lo descansar acreditando que os Itrans vieram, que sua última batalha não foi em vão.